Problemas

- Alguns dias depois -

Hermione estava sentada em sua poltrona confortável. Apenas o barulho de sua pena deslizando pelo pergaminho áspero era ouvido na sua sala, sendo às vezes interrompido quando a bruxa parava o trabalho e corria os olhos castanhos pelo que havia escrito.

Relia tantas vezes quanto possível o processo de criações das novas leis, e mesmo que achasse que alguns de seu Departamento não trabalhassem bem e que Malfoy não tinha punhopara comandar uma mudança daquelas, ela tinha que admitir que todos estavam fazendo um ótimo trabalho.

Os rascunhos estavam muito bem escritos e objetivos. Ela pôde ver com facilidade onde as alterações haviam sido mais drásticas e como isso poderia melhorar o seu trabalho, facilitando-o consequentemente. Estava satisfeita com tudo.

Até Archie entrar em sua sala com uma fisionomia acanhada.

Ela conhecia muito bem aquele homem para saber que seu chefe não entrava ali para lhe dar uma notícia feliz, e apenas confirmou isso quando Archie passou a mão no rosto visivelmente cansado e respirou fundo.

- Os homens querem você na fronteira dois imediatamente.

Os sentidos aguçados de Hermione começaram a alertá-la. Sempre que era chamada nas fronteiras da Inglaterra era por notícias ruins e assuntos que apenas ela conseguia resolver. Seu sexto sentido gritava para ela que o que iria encontrar lá faria com o que seu humor do dia se esvaecesse.

- O que houve?

Perguntou a Archie, mas já sabia a resposta. Ele deu de ombros, como se pedisse desculpas para o que iria falar.

- Tivemos alguns problemas.

Hermione tentou manter a calma, sabendo que algum dia seria chamada novamente para esse tipo de emergência. Já tinha ido à fronteira algumas vezes naquele ano, mas claro que as circunstâncias eram completamente diferentes agora. Agora ela era casada com uma pessoa que possivelmente tinha algum dedo naquele problema.

- Archie, pode chamar meu marido aqui?

Seu chefe abriu um pouco os olhos, visivelmente surpreso. Não esperava que Hermione exigisse a presença do marido naquela inspeção. Para falar a verdade, Archie já havia percebido que ela sempre o deixava no Ministério, dentro da sala dele, se pudesse escolher. Começou a ficar nervoso. A situação na fronteira não estava boa, e sabia que ela ficaria nervosa com aquilo.

- Você não prefere ir sozinha?

Perguntou com esperança, mas Hermione apenas acenou com a mão.

- Quero o meu marido ao meu lado.

Dizer aquela frase fez com que o corpo dela fosse preenchido com uma sensação estranha, mas ela ignorou isso. Archie assentiu, dando meia volta e saindo pela porta de forma contida.

Ela virou-se de costas, olhando para o quadro trouxa que ficava pendurado atrás de sua poltrona. Levou os dedos ao queixo, apoiando-o ali para pensar um pouco. Sabia que sempre deixava o snatcher dentro de sua sala, não o chamando por praticamente nada. Mas infelizmente Hermione já não podia deixá-lo mais sozinho no Ministério. Temia que ele fizesse algo de errado.

Bastou apenas dez minutos com alguns pergaminhos certos na mão e ela já fora chamada para a fronteira.

Um barulho de alguém entrando soou atrás dela e Hermione se virou, capturando os olhos azuis com os seus. O corpo da bruxa se esquentou, mas ela não disse absolutamente nada. O homem parecia estar confuso, e ela não iria esclarecer nada para ele no momento.

Caminhou em direção ao snatcher e pegou o seu braço com dedos firmes, antes de fechar os olhos e aparatar diretamente para a fronteira que Archie queria.

O vento estava forte. Correu pelo seu corpo, esfriando-o, sibilando. Hermione respirou fundo e olhou para o homem que havia transportado.

- Como você fez isso?

Ele perguntou, visivelmente surpreso. A aparatação no Ministério era proibida de forma clara para qualquer bruxo. A garota não deu muita importância à pergunta.

- Eu tenho permissão para aparatar e desaparatar do meu escritório.

Scabior apenas fixou seus olhos azuis nela, reconhecendo a influência que a bruxa tinha. Mas não disse nada, não queria dar a satisfação para ela. Pigarreou.

- E onde nós estamos?

Scabior sabia perfeitamente onde ele estava, e sabia perfeitamente que ela sabia disso. Ela o olhou com fúria e ele esforçou-se para não sorrir.

Ela caminhou pela grama, sentindo-a fofa aos seus pés. Ele a seguiu, para depois perceber um grupo de bruxos de aparência preocupada fitando um pedaço de pergaminho. Ela parou ao lado de um bruxo mais velho e com uma fisionomia cansada.

- Srta. Lloyd.

Ela ignorou o homem a chamando pelo seu nome de casada.

- Sr. Windsor. O que temos aqui?

Acenou para o bruxo brevemente e ele entregou o pergaminho para ela. Scabior observava tudo com uma atenção exacerbada e curiosa.

- Uma carga grande de Tapetes Voadores e outras mercadorias acaba de ser confiscada. A lista do que conseguimos recuperar está em suas mãos. Não foi muito, mas é melhor do que nada.

Hermione assentiu para o bruxo e correu os olhos pelos pergaminhos. Seu ânimo pareceu fugir de seu corpo. O que o Departamento havia recuperado não era praticamente nada em comparação ao que havia passado.

Ela se controlou de forma satisfatória, sabendo que teria que deixar o seu lado profissional tomar conta da situação, e não o lado pessoal, que era representado pelo snatcher que estava ao seu lado, observando tudo com um interesse falso.

- E como isso aconteceu?

Perguntou de forma polida e um homem negro se aproximou. Já era quase noite, o céu estava em um tom alaranjado, a temperatura começava a cair mesmo que estivessem no verão.

- Os objetos foram transfigurados e conseguiram passar pela fronteira.

Ele respondeu. Aquilo não fazia o menor sentido para ambos, mas Hermione sabia que era tudo o que ele podia dizer.

- Há barreiras mágicas na fronteira que conseguem detectar até o mais bem feito feitiço de transfiguração.

Ela disse o que todos sabiam. Os homens deram de ombros. O negro voltou a falar.

- Eu não sei como isso aconteceu, Srta. Lloyd.

Hermione sabia perfeitamente como tinha acontecido. E decidiu alertá-los em parte sobre aquilo, mas não poderia dizer a história toda.

- Objetos, artigos e substâncias não comerciáveis class só conseguem passar com transfiguração se alguém responsável de dentro do próprio Departamento alterar algum feitiço no contrato em que está escrito as leis. Ou se alguém de dentro do Departamento autorizar a entrada das cargas.

Os homens se sobressaltaram com a pequena aula. Não pareciam ter conhecimento de tal coisa. Hermione não os julgou, estavam ali apenas para inspecionar cargas, e não para saber as leis do Departamento de cor como ela sabia.

- Apenas tomem mais cuidado e prestem mais atenção. Avisem-me se qualquer evento desse tipo voltar a acontecer.

Os homens assentiram e viraram-se para retornar ao local onde estavam lançando outros feitiços, renovando-os.

Os dedos finos de Hermione capturaram o tecido surrado da manga da blusa de Scabior e com um puxão violento ela o fez andar. O homem ficou surpreso com a força dela, mas não disse nada, logo viu a entrada do seu prédio de luxo a sua frente e percebeu que havia aparatado para aquele lugar.

Ela continuava a segurá-lo, e apenas o empurrou para a lareira de moradores enquanto entrava em outra. Deu graças a Merlin que o elfo não estivesse ali, senão ficaria curioso ao ver a garota tratando o marido de forma tão violenta. As lareiras de moradores só funcionavam para os próprios, reconhecendo-os por meio de magia. Os visitantes usavam outras, mas tinham que entregar a sua varinha para que Bennie a inspecionasse.

Hermione apontou a sua varinha para a porta e a abriu, entrando no apartamento e esperando para que o snatcher fizesse o mesmo. Quando a porta se fechou atrás do homem, ela o empurrou com as duas mãos, plantando-as no peito forte dele.

- Seu snatcher cretino!

Exclamou, sentindo o seu rosto ser percorrido por um calor anormal. Scabior ficou a olhando por algum tempo, mas se afastou cautelosamente dela, temendo que a garota fosse mais direta em sua violência física.

- Eu avisei que não ia ficar parado, lindeza.

No momento em que falou a última palavra se arrependeu, porque o rosto dela foi percorrido por uma cólera sem limites. De um jeito muito rápido e ágil, ela pegou a varinha e apontou para Scabior. O snatcher levantou as mãos. Ela não iria machucá-lo de verdade. Iria?

Um feitiço roxo cortou o ambiente e ele se abaixou em um susto.

Sim. Ela iria.

- VOCÊ FICOU LOUCA?

Ele não tinha ideia de que feitiço era, mas tinha certeza de que não era um feitiço amigável. Um raio amarelo quase o atingiu novamente e o homem a olhou com olhos assustados pela primeira vez.

- Não. Eu não fiquei louca. Saia da minha frente.

Ele se acalmou quando ela abaixou a varinha, e tentou se aproximar um pouco. Não sabia por que queria fazer aquilo, mas achou estranho a garota o atacar daquela forma, física e determinada, pela primeira vez desde que a conhecera. Ela levantou novamente a varinha quando viu o que o snatcher pretendia.

- Fique longe de mim. O máximo que puder. Não encoste em mim. Não fale comigo. Não olhe para mim.

Ela abaixou a varinha quando viu que ele não tentaria uma aproximação novamente. Um sentimento estranho se apoderou de Scabior quando ele escutou as palavras da bruxa. Não gostou daquilo, e não gostou quando ela caminhou em direção ao corredor, deixando-o sozinho. Eleescutou a porta do quarto dela bater de forma bruta e sentou-se no sofá, um pouco zonzo com tudo o que havia acontecido.

Ficar longe dela? Não falar com ela? Nem mesmo olhar para ela? O que ela achava que ele era? Um Comensal da Morte? Aquilo era ridículo. O snatcher sabia que o seu valor não passava de um sicle, mas não queria ser tratado como um assassino.

Respirou fundo, passando a mão no rosto cansado. O que estava acontecendo ali? Pior. O que estava acontecendo com ele?


Scabior já estava cansado de perambular pelos corredores apinhados do Beco Diagonal. Estava ali há horas. Nenhum bruxo ali parecia reconhecê-lo, ele estava mais familiarizado com as ruelas da Travessa do Tranco, e se sentiu tentado em descer as escadas escuras para ir ao local. Mas sabia que teria que estar ali.

A briga que havia tido com a garota ainda não tinha saído de sua mente, e ele ficou remoendo aquela sensação por um longo tempo.

Parou em frente a uma vitrine de aspecto luxuoso. Algumas joias bruxas cintilavam através do vidro excessivamente polido. Scabior correu os olhos azuis de forma desinteressada pelas peças, observando tudo com calma. Queria que as pessoas ao redor pensassem que ele olhava algo para comprar.

Algumas pedras pareciam brilhar mais que as outras, mas uma em particular chamou a atenção do homem. Ele pousou os olhos em um anel que flutuava em cima de uma caixinha negra de veludo. Havia uma almofada também negra dentro, mas o anel não precisava de tais adereços para causar fascínio.

Era um rubi, totalmente trabalhado. O homem não gostava muito da cor vermelha. Preferia as esmeraldas justamente por aquele motivo, mas tinha que admitir que a joia era linda. Infelizmente nunca havia tido a oportunidade de ter alguma joia para si. Teria lucrado bastante no mercado negro. Sua linha de pensamento foi cortada quando Edgar se aproximou.

Scabior olhou a sua volta de forma discreta e virou-se novamente para o bruxo que o olhava com certa curiosidade, como se não soubesse o motivo de ter sido chamado. E não sabia.

- Seu imbecil, o Ministério já descobriu que algumas cargas passaram pela fronteira essa manhã.

Sibilou com cólera, para que ninguém perto ouvisse. Edgar franziu o cenho, não entendendo a raiva dele.

- Não seja pessimista. Conseguimos vender boa parte do que contrabandeamos. E o Ministério se apoderou de coisas baratas e com menos procura.

Cada célula do corpo de Scabior pareceu queimar em fúria. Não podia dizer a verdade para ele. Ninguém que ele conhecia sabia da sua posição no Ministério da Magia. Para os homens da fronteira, ele era apenas um bom contrabandista, e não alguém que tinha privilégios e informações que vinham diretamente do Departamento que os perseguia. Não sabia como alertar Edgar de que o que tinha acontecido era ruim.

- Seu idiota. Se o Ministério da Magia descobre como estamos contrabandeando as cargas, logo vai dar um jeito de cortar esse meio.

Edgar pareceu pensar melhor a respeito. Scabior respirou fundo. Realmente não sabia o motivo da discussão. Não sabia se sua preocupação com o Ministério era genuína, ou se era apenas preocupação com outra possível discussão com a garota prodígio.

O snatcher sabia que Edgar não tinha conhecimento da lei que barrava objetos transfigurados, e não podia dizer ao homem como ele sabia disso. O outro havia achado o plano dele espetacular, mas ele fora apenas assim porque Scabior tinha as informações certas.

- Vamos ter mais cuidado.

Scabior gesticulou com a cabeça, os olhos azuis ainda fitando o rubi que brilhava de forma sedutora para qualquer pessoa que passasse pelas ruas.

- Posso saber quem é sua nova mulher, Scabior?

Edgar perguntou, sorrindo maliciosamente. Conhecia-o o suficiente para saber que ele tinha bom gosto, e era curioso demais a ponto de não fazer tal pergunta.

- Acho que isso não é da sua conta.

Edgar se sentiu ofendido. Sempre tratavam as mulheres como objetos de valor adquiridos, e o bruxo nunca havia guardado nenhuma informação daquele tipo para si.

- Vocês pelo menos vão para a cama?

A raiva que Scabior olhou para Edgar fez com que o bruxo finalmente se calasse.

- Suma da minha frente.

Edgar arqueou as duas sobrancelhas, mas fez o que o bruxo mandou, finalmente deixando-o sozinho.

O snatcher passou as duas mãos pelo rosto, respirando fundo e contendo a vontade estranha de gritar.


Hermione estava sentada no colchão macio de sua cama. Bichento estava ao lado, afundado em um travesseiro e respirando tranquilamente enquanto a corrente do ar batia nos pelos arrepiados. Os pergaminhos estavam empilhados em frente à bruxa, e ela corria os olhos por eles de forma atenta, procurando incansavelmente alguma regra estranha.

Ela achou.

De alguma forma, estava escrita de forma malfeita. Dava a qualquer pessoa do Departamento a liberdade de autorização às cargas transportadas na fronteira. Hermione sabia que apenas ela tinha conhecimento daquilo, ou Archie. Pensava que até o seu chefe não sabia dessa regra. Mas infelizmente os pergaminhos com as novas e antigas regras haviam percorrido um número grande de mãos, e vários bruxos poderiam saber disso agora.

Hermione não confiava em cinco por cento dos seus colegas de trabalho para deixar isso acontecer.

Respirou fundo, pegando a varinha e apontando para os pergaminhos. Retirou aquela regra em específico, sabendo que seria o mais correto a fazer. Ela era a última que estava lendo aquilo, então decidiu ser mais ousada. Murmurou um feitiço.

Uma película fina e azul percorreu cada letra, cada pedaço e cada tinta dos pergaminhos. Um feitiço de fidelidade. Algo que dava a Hermione o direito de apenas ela mexer nas regras escritas ali.

Os pergaminhos fecharam-se, selando-se sozinhos e entrando na pasta dela. Ela selou a pasta com o seu feitiço habitual. Olhou para a janela, vendo o céu escuro por trás do vidro semiaberto. Já estava na hora de ir dormir, era uma noite de quinta-feira e ela precisava estar totalmente descansada para o dia cheio que teria amanhã.

Passaria no andar de Malfoy para entregar os pergaminhos revisados.

Ela estava só no apartamento. Desde a briga, não havia visto o snatcher nem mesmo perambulando pelo corredor. Sabia que ele havia saído há horas. Isso fez com que ela tivesse um tempo para pensar no que faria a respeito dele. Um sorriso percorreu o rosto de Hermione, um momento raro desde que sua vida se tornara um inferno constante. Ela já sabia perfeitamente como descobriria quem estava por trás daquilo tudo com ele.

Sorriu mais abertamente, deixando a pasta no chão ao lado da cama, junto com a sua varinha e aconchegando-se mais ao colchão. Desligou o abajur trouxa e fechou os olhos, caindo em um sono tranquilo.