CAPÍTULO XX

- Então, o que vocês andaram aprontando ontem à noite, hummm? - A frase vem acompanhada por uma bela cutucada nas costelas.

Abro um olho, sonolenta, e por entre a pálpebra semicerrada olho para o responsável e viro para o outro lado.

- Vá embora.

- Não vou até você ter me contado o que aconteceu. - Remus aparece do outro lado da cama.

- Que horas são? Oh, chá!

Remus segura a caneca a uma distância segura da minha mão estendida.

- Não tem chá enquanto você não botar tudo para fora.

- Rem, é muito cedo. Deixe-me beber primeiro e depois eu conto.

Ele me olha por alguns segundos, avaliando a situação, e acaba me dando a caneca. Encosto-me na cabeceira da cama e dou golinhos no chá, feliz da vida.

Remus me deixa dar exatos três golinhos.

- Então? - ele insiste. - Onde você e James foram? Toda a família ficou intrigada quando vocês saíram. Achei que Flo estava com um tique nervoso de tanto que piscava para tia Winnie.

- Nada a declarar - respondo. - Fomos até o lago, conversamos sobre amenidades, caminhamos de volta e ele me beijou na testa e desarrumou meu cabelo.

- Provavelmente estava checando para ver se não era uma peruca. Então, nada de olhares melosos? Nada de mãos dadas?

- Nada!

- Acho que você não iria se importar com olhares melosos ou mãos dadas se a oportunidade surgisse?

Eu brinco com os cobertores com uma mão.

- Não é isso. Afinal de contas, estamos falando de James aqui. Nossa história é complicada.

Remus salta de contentamento.

- Eu sabia! Harry me deve cinco libras do seu caixa da arrecadação de fundos!

Olho para ele, horrorizada.

- Você não pode pegar o dinheiro de Harry! E por quê?

- A família fez uma pequena aposta de que você e ele estavam... você sabe - ele me dá outro cutucão nas costelas. - Mas eu sabia que você não estava interessada nele.

- Eu e James? Mas onde, raios, eles foram achar que poderia haver algo?

- Simplesmente porque vocês eram muito unidos na infância. Meu conhecimento dos bastidores acabou sendo extremamente lucrativo, e com os meus suaves modos citadinos tirei vantagem disso. E agora me explique por que não posso pegar o dinheiro de Harry.

- Remus!

- Ah, está bem, vou deixar passar. Mas só porque estamos em campo. - Ele senta na cama. - Mas que tipo de lição estarei ensinando a ele se o deixar livre de pagar suas dívidas.

Eu ignoro esta fraca e descarada tentativa de se passar por moralista.

- Mas por que você estava fazendo apostas com Harry? Será que todos na família pensam que gosto de James? Tia Flo? - pergunto, pensando nas roupas e joias que me emprestou. - Meu Deus, achei que eles teriam coisas mais importantes na cabeça com o problema da aquisição!

- Ora, Lily, não me venha com isso! Isso é muito mais divertido! - Remus pula na cama.

- Bem, eu odeio ser a portadora de más notícias, mas ele não gosta de mim. Remus, ele beijou a minha testa. Desarrumou o meu cabelo. É este o comportamento de um homem que está doido por mim?

- Hã, provavelmente não. Mas, como você mesma disse, ele tem um monte de coisas para cuidar neste momento. Talvez, depois disso tudo acabar, ele veja você sob uma nova luz!

- Pouco provável - murmuro e começo a beber meu chá.

Enquanto Remus vai cuidar da própria vida, fico ruminando a noite passada o quão bem James e eu estávamos nos dando. Isso faz com que eu me sinta meio estranha e decida a não pensar mais no assunto, levanto e vou tomar banho. Visto um par de calças justas e uma blusa preta e desço para tomar café.

A maior parte da família está sentada ao redor da mesa da cozinha. Nos últimos dias, todos têm levantado mais cedo do que de costume para ajudar a Sra. Jones com o café-da-manhã dos hóspedes. James já deve estar trabalhando, esta é a única hora que ele tem livre antes dos visitantes levantarem.

- Aí está você, Lily! Estávamos prontos para começar a comer! - exclama tia Winnie.

Para facilitar a vida da Sra. Jones e para servir de cobaias, estamos comendo exatamente a mesma coisa que os visitantes irão comer no café-da-manhã. Eu tenho que admitir que ela é uma cozinheira simplesmente maravilhosa sob todo este estresse. Ela está com olheiras esta manhã, causadas pelo pequeno desastre de ontem.

- O que é isso? - pergunto, sentando-me ao lado de Harry e olhando a mistura na minha frente.

- Figos frescos, mel e ricota! - responde radiante a Sra. Jones, como se comesse isso todos os dias da semana. Harry parece chateado.

- Mãe? - ele pergunta. A ideia de Harry de um bom café-da-manhã é uma tigela de cereais com açúcar.

- Eles comem isso em Londres, querido.

- Ah, isso explica tudo - diz Remus. - Francamente, o que estes londrinos vão inventar a seguir? Pelo menos é vegetariano.

Todos na mesa olham para ele.

- Remus, você comeu linguiça ontem - diz Monty.

- Sim. Linguiças vegetarianas.

- E como você sabe disso? - pergunto. - Porque os porcos de onde saíram as linguiças comeram vegetais?

- Lily, você está com um tom de voz desagradável.

- Eu não tenho um tom de voz desagradável.

- Eu consigo ouvir muito bem.

- Talvez você precise limpar os ouvidos.

- Acho que você precisa de outro adesivo de nicotina. Anda bastante abusada desde que começou a usar os adesivos.

- Não estou certa de que seja culpa dos adesivos - murmuro tentando ignorar Remus. - É mesmo muito gostoso, Harry. Experimente.

Todos pegam os garfos cautelosamente e eu faço uma grande cena de atacar o prato com grande entusiasmo. Remus coloca uma garfada na boca, aperta a garganta e cai da cadeira. Todos rimos. Mas Harry só comeu depois que Remus amassou a mistura de figos, colocou sobre uma torrada, polvilhou açúcar e cobriu tudo com rodelas de banana.

- Você precisa que eu faça algo hoje, Lily? - Harry pergunta entre garfadas.

- Hã, não agora, obrigada, mas tenho um monte de coisas para você amanhã.

Harry cortou o pelo de Meg como um dos trabalhinhos para a arrecadação de fundos, já que o tempo estava ficando muito quente para ela. Agora ela anda pela casa tremendo como um bambu, de tão pelada que está. O relógio do carrilhão do hall de entrada está batendo dez vezes a cada hora, e Monty só havia pedido a Harry que desse corda nele todas as noites. Portanto, toda vez que peço a Harry para fazer algo, sempre me certifico de que há tempo suficiente para corrigir os erros.

- Tem reunião dos escoteiros amanhã? - pergunto. Harry faz que sim com a cabeça. - Você vai perguntar como Draco Malfoy está se saindo com a arrecadação dele, não vai?

- Claro que vou! - ele exclama com uma vozinha aguda.

- Quantas semanas ainda faltam para o encerramento da arrecadação?

- Uma! Mas Draco sempre ganha, o pai dele é encanador e capitão do time de críquete, por isso ele sempre tem trabalhos para fazer. Mamãe não me deixa nem ir à cidade sozinho para pedir trabalho.

- Vamos encontrar trabalhos para você aqui.

- Nunca vou ganhar se continuar perdendo as apostas - ele diz tristonho.

Olho para Remus, que é o retrato da inocência.

- Remus não pegou o seu dinheiro, pegou?

- Não, não pegou. Mas a tia Flo me disse que não posso mais fazer apostas depois desta.

- Qual?

- A aposta entre todos nós.

Aperto os olhos e encaro Remus fixamente.

- Remus? Que história é essa de aposta? - A mesa vai ficando quieta. - Você contou para eles, não foi?

- Lily, eu acho que o cafuné nos cabelos soa definitivamente encorajador - dia tia Winnie. - É definitivamente um flerte.

- Eu não contei assim à toa, Lily. Estava simplesmente passando as informações.

- Passando as informações?

- Eles me mandaram investigar - ele diz emburrado.

- Caramba, não há nada particular nesta casa? Nós simplesmente fomos dar uma volta juntos.

- Querida, se você quer privacidade, esta não é a família certa para você - diz tia Flo. - Pense em como as coisas seriam fáceis se você fosse um besouro.

- Mas aí ela não se interessaria por James - acrescenta Remus.

- Ela se interessaria se ele fosse um besouro.

- Mas os besouros se interessam uns pelos outros? - pergunta tia Winnie.

- Eu diria que sim! Você precisa vê-los acasalando.

- James não é um besouro e não está interessado em mim - digo ríspida.

- Mas suponha que ela fosse! - insiste Remus.

- Mas aí Lily não se interessaria por ele se ele fosse um besouro.

- Ela se interessaria se ela fosse um besouro fêmea.

- Também não sou um besouro e não estou interessada nele - digo. Um leve latejar nas minhas têmporas indica que esta discussão já foi mais longe do que eu gostaria.

Lá pelo meio da manhã, depois de ter me despedido de nossos hóspedes americanos e recebido convites de todos para visitá-los se um dia for a Chicago, vou até a sala de estar para ver se estão prontos para o café. James está falando algo para a equipe de advogados e contadores. Todos inclinam a cabeça ou sorriem para mim antes de voltar às anotações, completamente absortos no que James está dizendo. Por um segundo, vejo James sob outra perspectiva. O silêncio é tão profundo que se pode ouvir um alfinete cair. Não sei que detalhe James está explicando, mas está falando apaixonadamente a respeito. O que ele diz não faz muito sentido para mim, mas soa bastante impressionante. Onde James aprendeu tudo isso? Na universidade? Eu escuto um pouco mais, silenciosamente impressionada.

Depois de alguns minutos, decido que o café será muito bem recebido em meia hora e volto para a cozinha.

- Café ou chá? - oferece a Sra. Jones. - A chaleira acabou de apitar.

Aceno que sim com a cabeça, agradecida. É a primeira vez que eu e a Sra. Jones tomamos chá juntas. Ela se senta na minha frente e com mãos enfarinhadas despeja chá com o grande e onipresente bule marrom.

- Hã, como vai a senhora? - pergunto educadamente.

- Melhor - diz ela. Tenho a sensação de que ela quer conversar a respeito de tudo.

- Ontem deve ter sido um grande choque para a senhora.

- Sim. Sim, foi. Eu me sinto mal sobre tudo. Acredite ou não, eu era muito jovem quando nos casamos. - Ela olha dentro dos meus olhos e dá um sorriso irônico.

Abro a boca para protestar, mas percebo que qualquer coisa que eu diga será ruim e fecho-a novamente. Ela continua:

- Tom e eu tínhamos passado por uma fase tão ruim que achamos que seria uma boa ideia nos separarmos por um mês ou mais, para pensarmos a respeito. Foi então que descobri que estava grávida. Não queria que isso nos obrigasse a ficar juntos, e é claro que eu sabia que tudo iria mudar se eu contasse. Quanto mais pensava a respeito, mais em pânico eu ficava. Imaginei a atmosfera horrível em que nosso bebê iria crescer e, no fim, convenci a mim mesma de que seria melhor se não estivéssemos juntos. Então eu parti.

Ela me olha na defensiva, como se achasse que eu a julgaria. Tento dar um sorriso encorajador.

- Então a senhora nunca contou a ele que estava grávida?

- Não. Eu me sinto muito mal a respeito disso. Sempre me senti. Mas, quanto mais tempo passava, tudo ficava pior, até que eu me convenci de que nunca teria dado certo. Todos aqueles finais de semana compartilhados para Harry. Também tínhamos problemas financeiros, de modo que achei que Tom ficaria melhor sem nós.

- Foi então que a senhora encontrou trabalho aqui?

- Eu não tenho nenhuma família e tinha que cuidar de Harry. Além disso, os Potter são minha família agora.

- Eu sei que ele sentem o mesmo pela senhora.

Ela sorri para mim.

- Mas estou contente que Tom saiba. Espero que ele seja um bom pai para Harry e que não o mime demais.

- Tenho certeza de que ele será um pai excelente. É duro para uma criança ficar sem um pai.

- Acha mesmo?

- Sim - respondo simplesmente, pensando no meu pai quase sempre ausente. - Não acredito que a senhora vá lamentar o fato de deixá-lo entrar novamente em sua vida.

- Vamos vê-lo em algumas semanas. Prometi levar Harry até Oxford para passar o dia.

- Pelo menos Harry tem toda a família aqui. Eles adoram tê-lo por perto.

A Sra. Jones sorri de repente, um sorriso caloroso e amigável que faz com que o rosto dela fique muito diferente.

- Eu tive sorte em encontrá-los. Todos sempre foram muito gentis. Qualquer pessoa ligada a eles sentir-se honrada. Lamento ter sido um pouco defensiva em relação a eles.

- Não tem problema. Eu entendo o motivo.

Ela olha para as próprias mãos por um momento.

- Eu me sinto ainda pior agora que sei que Tom procurou muito por mim.

- Mas ele a encontrou - respondo. - Isso é tudo o que importa.

Telefono e deixo uma mensagem para a empresa de toldos, para ter certeza de que eles começam a trabalhar amanhã e para avisar que de jeito nenhum devem deixar algo estruturalmente importante nas mãos de um garoto ruivo pedindo trabalhos para a arrecadação de fundos dos escoteiros. Depois, corro até meu quarto para fazer a mala. Tenho uma reunião marcada com Rose e Mary esta tarde e depois vou de carro para Londres. Pretendo voltar para Hogsmeade amanhã à tarde. Remus entra enquanto estou fazendo as malas e deita na cama.

- Você volta para Londres comigo? - pergunto, pensando que uma garrafa de vinho e uma boa e reconfortante conversa é uma boa pedida para hoje à noite.

- Não, vou fazer uma visita. Monty disse que me empresta o carro. - Ele não me olha nos olhos.

Olho para ele por um momento.

- Remus, o que está acontecendo?

Ele se inclina na cama e brinca com o zíper da minha mala por um segundo. Eu não tiro os olhos do rosto dele.

- Hã, é difícil, Lily. Não quero chatear você.

- Você não vai... - Uma batida na porta me interrompe. Vou até ela e abro. - Oh, olá, Harry! - digo surpresa.

Ele está carregando algo.

- Você deixou seu cardigã lá embaixo. Achei que poderia precisar dele.

- Hã, obrigada. - Ele me dá o cardigã e fica parado sem graça na porta.

- Você quer entrar? - pergunto. Acho que ele quer.

Ele encolhe um pouco os ombros, de modo que deixo a porta aberta e ele me segue. Eu termino de fazer as malas. Remus se levanta.

- Bom, eu preciso ir andando. Falo com você amanhã, Lily. - Nossos olhos se encontram com compreensão implícita. Ele me dá um beijo, desarruma o cabelo de Harry e sai.

Harry senta na cama e começa a balançar as pernas. Pobre garoto, ele também teve uma semana infernal.

- Vou ter um monte enorme de trabalhos para você amanhã - digo.

- Que bom! - ele diz animadamente.

- Ótimo! - Fico ocupada com minhas roupas, mas percebo que Harry olha para mim curiosamente. Imagino se ele quer conversar sobre o pai ou se é porque pareço esquisita. Pigarreio sem jeito. - E então? Você conheceu seu pai ontem. - Por um momento eu penso se não deveria ter um diploma em psicologia ou algo parecido antes de entrar em um assunto tão complicado. Tarde demais agora. Harry olha para as próprias mãos por um omento.

- Foi a primeira vez que o vi!

- Foi? - pergunto, fingindo surpresa. - E, hã, como foi o, hã, encontro? - Ajudaria mais se eu formasse as sentenças corretamente.

- Foi bem - ele diz animado, parecendo pouco afetado por este evento tão importante na vida dele.

- Você vai vê-lo novamente?

- Sim, vamos para Oxford em duas semanas.

- Certo. - Aceno com a cabeça por alguns segundos.

- Lily... - Harry diz devagar.

- Sim, Harry?

- Como você sabe quando... - Ele brinca com o punho da camisa.

- Quando o quê? - pergunto.

- Quando você ama alguém.

Meus braços, que iam pegar minha frasqueira, param no meio do caminho. Normalmente este é o meu melhor assunto - posso passar horas remoendo meus relacionamentos com Remus. Mas quando é um menino de oito anos que me pergunta isso, acho melhor não seguir esta abordagem prolongada.

- Hã, você está pensando em alguém em particular?

Harry fica vermelho que nem um pimentão. Uma cor nada recomendável para quem tem cabelos cor de cenoura. Eu bem sei.

- Gilly - ele murmura. Pelo menos eu acho que foi isso. Não deu para ouvir direito.

- Hã... Gilly?

Ele acena que não com a cabeça.

- Ginny.

- Oh, sim, certo. Bem... - digo, lutando para encontrar algo sensato para dizer a ele. - Você gosta de ficar perto dela?

- Mais do que qualquer outra! - ele diz entusiasmado. - A maioria das meninas é burra. Elas sussurram e dão risadinhas, mas Ginny fala comigo. Ela também não tem pai. E eu sinto esta coisa esquisita. Na minha barriga. - Ele me olha em busca de respostas.

Se ele soubesse que eu sou o último lugar na face da Terra onde ele pode encontrá-las.

Eu adoraria dizer que ele deve ter comido algo estragado e que vai passar, mas infelizmente sei que essas paixonites nunca vão embora.

- No seu estômago? - pergunto, subitamente inspirada por uma coisa.

- Sim. Você também sente?

- Uma espécie de dor de barriga quando você a vê ou quando acha que vai vê-la?

- Sim!

Subitamente, sento-me ao lado de Harry. Na verdade, esta é uma sensação levemente familiar. E muito recente também. Foi com Amus ou com Will? Ou então com... A resposta é como um tapa na cara. Droga.

- Lily?

- Sim, Harry?

- O que você acha de mim e Ginny?

- Bom, parece que você gosta um bocado dela.

Ele acena devagar com a cabeça e parece satisfeito com essa resposta completamente inadequada. Gostaria de poder acrescentar algo mais reconfortante, mas não há mais nada a dizer a Harry ou a mim mesma.

Olho para meu relógio e percebo que tenho mesmo que me arrumar para chegar a reunião a tempo. Também preciso ficar sozinha para pensar sobre essa novidade.

- Vamos. Eu vou pegar um picolé para você - digo, estendendo a mão para Harry, e lentamente caminhamos juntos para a cozinha. Posso estar andando despreocupadamente, mas meu coração está a mil por hora. Essa súbita mudança de posição, a favor de alguém que você mal podia ver na frente há poucos dias, e cujas fantasias regulares incluíam um belo pontapé, pode dever-se ao fato de que você está muito, muito cansada.

Deixo Harry e o picolé nas mãos de Monty e tia Winnie e volto para o hall de entrada. Paro ao pé da escadaria.

- Lily! - uma voz conhecida me chama.

Viro e vejo James vir apressado na minha direção.

- James, oi! - Ergo as sobrancelhas e aparafuso um sorriso no rosto.

Ele para na minha frente e franze a testa.

- O que houve com você?

- Comigo?

- Sim, você está esquisita.

- Esquisita?

- Você vai repetir tudo o que eu digo?

- Não, claro que não. Isso seria quando eu estou, claro, me sentindo perfeitamente bem.

- Bem?

- Agora é você quem está fazendo isso.

- Aonde vai? Estava pensando se você não quer ir ver os veados? - Uma caminhada? De novo? Qual é a dessa mania de caminhadas? É uma coisa rural?

- Não posso - digo depressa. - Vou para Londres.

- Quando você volta?

- Amanhã.

Ele parece desapontado.

- Bom, vou estar trabalhando até o próximo fim de semana, mas venho dar uma mão no baile no sábado, se você quiser.

- Excelente! Obrigada! Vejo você mais tarde. - Viro e corro escadaria acima, sentindo a necessidade de colocar-me o mais possível de Hogsmeade. Essa reviravolta nos acontecimentos me deixou muito confusa. Muito confusa mesmo.

Pego minhas coisas no quarto e desço correndo para a cozinha pelas escadas dos fundos. Deixo um bilhete para a família, faço uma festinha rápida em Meg e disparo em direção ao carro.

Meu nervosismo diminui um pouco depois de estar a alguns quilômetros da fazenda. O que é que estou pensando? Estou ficando maluca? Por que não posso me interessar por Will? Ah, Will. Uma cópia carbono do irmão mais velho, mas não tão bom quanto o original. Muito divertido para se ter como companhia, mas sem a profundidade, o carisma, a atratividade e o tremendo brilho do irmão.

Mas é aqui que está o problema. Vai ser muito desagradável se a história voltar a se repetir. É como se eu tivesse visto o gabarito e soubesse todas as respostas. Sei como isso vai terminar. Não vai ser agradável.

Depois de uma reunião rápida com Rose e Mary em Bury St. Edmunds, dirijo velozmente para Londres com só e exclusivamente uma coisa na cabeça. Subo correndo as escadas do edifício e ligo para Edgar. Embora seja domingo, ele concorda em me encontrar em um pequeno restaurante italiano em Kings Road onde todos os funcionários da Table Manners adoram comer. Os garçons nos conhecem bem e sempre tentam nos ensinar um pouco de italiano enquanto explicamos as complexidades da língua inglesa.

Depois de termos usado a expressão "ciao, bella!" como loucos, nos empoleiramos nos bancos do bar, que são bastante incômodos, e pedimos uma garrafa de vinho branco da casa. Edgar me encoraja a começar a história. Eu acho que o deixei meio confuso com as histórias de móveis roubados, aranhas assassinas e urnas com cinzas de pessoas. A minha saga termina com meu passeio à luz de luar com James e o fato bastante desagradável de que acho que estou muito interessada nele.

- Você quer dizer Will - diz Edgar neste ponto, tentando ajudar. Aperto os olhos. Tenho a impressão de que ele não ouviu nada.

- Não. James.

Ele fica visivelmente espantado com isso.

- Mas Remus disse que você estava de olho em Will.

- Quando você falou com Remus? - pergunto, cheia de suspeitas.

- Isso importa? Ele disse que você estava interessada em Will.

- Nããão - sibilo, agitando impacientemente o braço e quase dou um soco no rosto do vizinho do lado. - Eu estou interessada em James. - Não gosto do modo como a conversa me faz parecer, principalmente porque as pessoas da mesa ao lado pararam de falar para tentar escutar a conversa. Giuseppe, o garçom, abre a boca para dizer algo, mas eu o silencio com um olhar.

- James? Você está interessada em James? E não em Will? - Edgar diz, incrédulo. Começo a pensar se ele tem alguma deficiência mental. Até mesmo as pessoas sentadas à mesa perto da porta parecem interessadas agora.

- Estou tentando não pensar nisso - resmungo. É mais fácil falar do que fazer. Tudo o que eu me lembro sobre Hogsmeade é o quanto acho James maravilhoso. O quanto ele ama a família. O duro que ele está dando para salvar a casa. E o quanto eu o amava.

- Caramba - diz Edgar, para fazer figura, fazendo uma careta e olhando para o copo de vinho por um minuto.

Quando ele se recupera dessa revelação, não tem mais vinho no meu copo e descubro que a garrafa está vazia. Antes que possa abrir a boca para pedir outra, Giuseppe coloca uma bem na minha frente.

- Cortesia da casa! - ele anuncia com ar imponente. Acho que sou um entretenimento mais barato do que um mágico. Talvez eu deva colocar um cartaz dizendo que também estou disponível para festas de casamento e bar mitzvahs.

Encho novamente os copos e espero pela resposta de Edgar.

- Mas eu achei que você o detestava - ele acaba dizendo.

- Detestava. Mas as coisas mudaram um pouco. Ele é, na verdade, uma pessoa muito legal. Cheia de consideração. E está fazendo todos os negócios por um motivo nobre: salvar a casa da família.

- E daí?

- Eu comecei a gostar dele. Gostar dele de verdade. - Eu me inclino para demonstrar quanto e quase caio do banquinho. Luto para me equilibrar de volta.

- Mas ele não tem uma namorada? - pergunta Edgar. Giuseppe parece ter ficado chateado com a notícia e imagino se ele desistiu completamente de servir às mesas esta noite. Tento ignorá-lo.

- Acho que sim. Uma advogada.

- Ele ainda está saindo com ela? - pergunta Edgar. Giuseppe deixa escapar um pequeno som de desaprovação. Nós dois olhamos para ele e ele faz um gesto magnânimo para que continuemos com a conversa. - Você falou sobre ela com ele?

- Não! Não quero parecer desesperada.

- Bom, como você quer que as coisas se desenvolvam daqui para a frente?

- Colocando toda a história do passado de lado, eu quero, hã...

- Trepar com ele? - Edgar sugere para me ajudar.

Ele é tão deselegante. Digo com uma voz cansada:

- Não sei o que quero. Talvez eu só precise terminar o trabalho e voltar para Londres.

- Mas colocando o passado de lado.

- Esta é a parte confusa. Ele foi muito desagradável comigo quando éramos crianças.

- Claro, você o conheceu há anos - Edgar murmura pensativo.

- Sim! Eu o conheço há anos! - repito em voz alta para que as pessoas nos fundos não pensem que sou uma tremenda de uma oferecida.

- Todo mundo é ruim quando eles é crianças - diz Giuseppe. - Uma vez cortei cabelo de irmã quando ela dormia e...

- Foi um pouco mais sério do que brincadeiras maldosas de infância, Giuseppe. Foi uma campanha de maus-tratos bastante intensa.

Giuseppe digere a informação e se serve de vinho. Os outros garçons estão correndo de um lado para outro e olhando feio para ele, mas agora estou muito interessada em ouvir sua opinião.

- Dê um exemplo - diz ele.

Conto sobre a vez que James guardou todos os insetos que pôde encontrar, incluindo algumas aranhas bem grandes, jogou tudo em cima de mim e me trancou dentro de um armário por várias horas. Eu estava petrificada de medo.

- Ah - diz ele no fim da triste história.

- Isso não me parece muito bom, Lily querida - diz Edgar.

- Mas vocês acham que as pessoas mudam? - insisto, olhando para um e depois para outro.

- Sim! - diz Edgar.

- Não! - diz Giuseppe. - Acho que você tem que perguntar por que ele tão mau - Giuseppe acrescenta solidário.

- Por que ele não gostava de mim? - respondo com uma voz fraca.

Ninguém diz nada por um segundo. Posso ver que estão lutando para encontrar algo de bom para dizer.

- Como vai Remus? - Edgar acaba perguntando.

- Ele está estupidamente bem! - eu quase grito e quase caio do banco novamente com o esforço. - Por que todo mundo quer saber como ele está?

- Quem mais quer saber como ele está?

- Hã? - Meu cérebro encharcado de bebida está lutando para se manter consciente.

- Quem mais quer saber como ele está?

- TODO MUNDO quer saber como ele está. - Eu paro e encaro Edgar. - Você está com ciúme, não está? Não é você que está namorando ele, é?

- Não estou com ciúme, Lily. É que... bom, é muito complicado para explicar. É óbvio que ele não disse nada, portanto também não vou dizer nada. - Ele cruza os braços.

Ele não muda de ideia sobre o assunto, e Giuseppe desaparece atrás do bar para pegar outra garrafa de vinho.

Na manhã seguinte não tenho certeza se estou passando tão mal por causa das descobertas da noite passada ou se foi pelo volume de álcool que despejei garganta abaixo. Eu me arrasto sem nenhuma vontade para o trabalho. Moody decide que está na hora de fazer algo pelo escritório e insiste em uma arrumação completa das salas que, segundo ele, não parecem suficientemente profissionais. Ele grita instruções através do seu intercomunicador enquanto todos nós passamos quase uma hora marchando para cima e para baixo nas escadas, colocando todos os enfeites de volta no porão. São necessárias três pessoas para mover o Zé Colmeia empalhado, e todas as vezes que passo pelas cozinhas sou atingida pelo cheiro de alho. Estou enjoada quando colocamos Zé Colmeia no seu habitat natural e tenho que deitar no porão por cinco minutos.

Edgar está, obviamente, tão mal quanto eu e recusa-se a tirar seus óculos escuros em estilo Top Gun - Ases Indomáveis, o que dificulta muito saber quando ele está ouvindo ou tirando uma soneca rápida. Cada vez que um de nós vai até a cafeteira, volta com uma xícara para o outro, como uma espécie de cumprimento pela noite que passamos juntos. Moody ainda está mandando em todo mundo, portanto, depois de uma passagem pelas cozinhas para confirmar as entregas dos pratos do baile, junto minhas coisas e parto mais uma vez para Hogsmeade.

Na estrada, reviro o submundo da minha bolsa procurando pelo celular e acabo despejando todo o conteúdo no assento do passageiro enquanto desvio perigosamente de caminhões. Nada de celular. Chego à conclusão de que o deixei na mesa no escritório. Moody vai me matar. Paro no primeiro posto de gasolina que aparece e ligo do orelhão. Edgar responde. Droga. Faço com que ele prometa mandar o celular via Fedex para a fazenda naquele exato momento e desligo.

Hesito por um segundo antes de ligar para o celular de Remus, para avisá-lo de que estou voltando. Também quero saber com antecedência se houve algum desastre.

Ele responde ao segundo toque.

- Sou eu, Rem.

- Querida! Como vai você?

- Bem.

- Eu sei que é uma situação difícil.

- Oh, Rem. É - digo aliviada e maravilhada com as qualidades mediúnicas de Remus.

- Como disse ontem à noite, vou contar a Lily sobre nós dois hoje. Prometo - ele acrescento.

Pausa.

- Eu sou a Lily - digo devagar, para ajudá-lo e ajudar a mim mesma.

Desta vez a pausa é do lado dele. Finalmente ele diz:

- Lily?

Olho para baixo, para certificar-me, e respondo:

- Sim.

- Não foi o seu toque de telefone que soou. De onde você está ligando? - ele diz com uma voz estranha.

Mas eu não o ouço mais. Estou tentando pensar em alguém cuja voz possa ser confundida com a minha. E só consigo pensar em uma pessoa.


Oh, bem. O que acharam? Remus não é gay e Lily se encontrou "interessada" no James! Pois é, sem Wolfstar desta vez, e todos nós sabemos que ela está, sim, louca para trepar com ele. E eu sei que Harry Potter não é ruivo, não se preocupem com minha sanidade. Oh, e eu não sou shipper de Hinny, mas quando no livro ele fala de uma menina por quem está apaixonado (originalmente, seu nome é Emily), eu não pude perder a chance de fazer outra pequena mudança, hehe. Na realidade, eu quase coloquei Hermione, já que ele faz questão de dizer que ela é inteligente e diferente das outras meninas (também não sou shipper de Harmony. Meu negócio é com Jily, um pouquinho de Wolfstar, Remadora e, ocasionalmente, Dramione). Mas resolvi ficar com o ship canônico mesmo. Espero que tenham gostado! Este é o meu último dia de férias (chora), então talvez eu não consiga atualizar com tanta rapidez a partir de agora.

nathalia-potter: Ohh, sim! E o que você achou do James deste capítulo? Os dois estão obviamente interessados um pelo outro. Até que enfim a Lily foi se mancar. E todas nós queremos um amigo como o Remus, ele é incrível!

Lally Sads: Aqui está, sua geniazinha, a prova de como você estava certa. Caramba, nem eu fui adivinhar na primeira vez que li o livro :c Oh, e sobre Sherlock, His Last Vow me fez chorar por algumas horas, apenas. Sério, e todos os atores estava tão maravilhosos. Te aguardo!

Svelis: Nem precisa se preocupar com a Poppet c: E, bem, eu dei um jeito de mencionar o Sirius pelo menos uma vez, não podia perder essa chance. Ooh, e o que você achou da descoberta da Lily neste capítulo?

xx,
Joules