Disclaimer: Naruto não me pertence.
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Capítulo vinte e um
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O modo combate tomou conta de minha mente e corpo ao avançar em direção à Daisuke.
A imagem do amigo companheiro e amável ficou para trás, sendo duramente substituída por a visão de um inimigo que eu deveria destruir rapidamente. Os sorrisos calorosos, toques gentis e olhares compreensíveis foram trocados por golpes mortais, sede de vingança e olhares que exalavam ódio. Forcei todos os sentimentos que eu tinha em relação à ele se esvaírem, levando consigo a culpa e a hesitação que poderia me custar a vida durante a batalha.
Ali, naquela clareira escondida por espessas arvores e coberta por grandes nuvens que encobriam o sol do meio dia, estavam apenas dois ninjas lutando por sua vida. Uma médica ninja, aprendiz da antiga Hokage Tsunade, que tinha como missão matar um ninja infiltrado que ameaçava a segurança de sua Vila.
Não havia espaço para luto naquele momento.
Eu precisava matá-lo.
Com a energia recuperada, passei os olhos avaliando clinicamente o meu oponente antes de alcançá-lo. Sua postura parecia confiante e, pela força de seus ataques, podia deduzir que sua força era maior do que ele aparentava possuir. Sua figura era magra e pálida, porém os músculos definidos e veias esverdeadas se destacavam embaixo de sua pele clara. A maneira e a força com que havia me jogado contra a arvore demonstrava que ele havia tido treinamento de luta. Conhecia técnicas de ataque e defesa e, se teve o mesmo treinamento que Fuyuki, também dominava a arte de envenenar suas armas com diferentes tipos de substâncias. Por ter me espionado por tanto tempo, já deveria conhecer a extensão das minhas habilidades de luta, inclusive meus pontos fracos.
Entretanto, também pude notar o cansaço estampado em seu rosto.
Ele poderia ter tido muito preparo para essa situação, planejado cada segundo, mas também havia descansado pouco.
Teve que correr sem descanso para me alcançar quando fugi em encontro à Fuyuki; sofreu diversos golpes por seus comparsas para me convencer de sua inocência quando o usaram como vantagem contra mim - seu olho direito ainda estava levemente inchado e roxo onde havia sido acertado. Havia fugido pela janela hoje pela manhã para fazer algo - eu tinha certeza que aquele episódio estava relacionado também - e só havia retornado horas depois; caminhou comigo por toda a estrada e retornou para a casa da senhora Kitsumi enquanto eu dormia; voltou ao meu encontro e me carregou por alguns quilômetros até pararmos nessa clareira.
Orquestrar e cumprir todos esses planos era trabalhoso e cansativo, o que podia ser confirmado pelas olheiras arroxeadas que rodeavam seus olhos claros.
Ainda assim - pensei com um sorriso amargo - ele está mil vezes melhor que você.
Armazenei todas as informações em uma lista mental e planejei minha estratégia de ataque em poucos segundos. Aquela luta iria durar poucos minutos.
Tinha que durar.
Daisuke ainda expressava surpresa quando acertei seu rosto com meu punho direito, jogando-o em direção à floresta com a força do golpe. Pude sentir seu maxilar sendo deslocado quando meu punho o atingiu e me senti nauseada por alguns segundos.
Ele não é mais seu amigo. Se mantenha focada.
Repeti aquelas palavras mentalmente por diversas vezes enquanto me teletransportava e o atingia na lateral do tronco com um chute antes que ele pudesse tocar o chão. Pelo menos duas costelas se romperam sob meu pé e meu estômago contraiu novamente quando ele soltou um grunhido de dor.
Ele é seu inimigo agora. Vai matá-la sem ao menos pestanejar.
Seu corpo caiu no centro da clareira, formando uma nuvem de poeira a sua volta. Agarrei rapidamente as kunais com explosivos que eu havia guardado em meu bolso e joguei em sua direção, causando uma pequena explosão que espalhou terra e uma onda de calor por toda a área.
Me mantive no mesmo lugar com as mãos abaixadas, aguardando a poeira baixar.
Com o coração apertado, cerrei os olhos para tentar localizar seu corpo no chão - esperando vê-lo desmaiado ou carbonizado - mas não havia nada ali.
Estava dando um passo para frente, para tentar enxergar melhor, quando algo chamou minha atenção pela visão periférica. Sem pensar, desviei minha cabeça para a direita quando uma faca passou raspando, quase abrindo um corte em minha bochecha.
Pelo cheiro que se desprendia da arma quando passou, definitivamente havia veneno em sua lâmina. Levantei os olhos na direção de onde veio e me deparei com um Daisuke ofegante, encostado em uma das grandes árvores que rodeavam a clareira. Sua pele estava coberta por um tipo de fuligem escura, a perna que eu havia cortado os nervos e tendões pendia inútil a seu lado, com toda a sua lateral queimada.
Encarei horrorizada quando ele levantou o braço direito e, com apenas um movimento e um estalo nauseante, colocou a mandíbula novamente no lugar.
Mesmo daquela distância, eu podia ver sua expressão enfurecida. O ódio desfigurava seus traços tão belos.
Quando pisquei novamente, sua figura desapareceu do meu campo de visão. Franzi o cenho e olhei ao redor, tentando detectar seu chakra. Naquele momento eu só ouvia o som das folhas se movendo devido ao vento que corria pela clareira, trazendo consigo nuvens escuras que encobriam levemente a luz do sol que estava em seu pico. Era possível escutar os pássaros voando ao longe, assim como os insetos zunindo na floresta, reagindo à tempestade que se aproximava.
Nada.
Onde ele havia ido?
Retrocedi alguns passos lentamente em direção às arvores, forçando meus sentidos à detectar tudo a minha volta.
- Tantos anos de treinamento e planos malignos para fugir com o rabo entre as pernas na hora mais importante? - Provoquei, a voz destilando sarcasmo.
Cada segundo que passava significava um passo mais próximo da morte, portanto eu não podia perder tempo brincando de gato e rato.
Um pequeno sinal da assinatura de chakra de Daisuke surgiu repentinamente mas, antes que eu pudesse me mover um milimetro se quer, senti seu punho em minhas costas me jogando com toda a força para o meio da clareira. Rolei contra o piso cheio de terra e grama, ganhando diversos arranhões em meus braços que protegiam meu rosto.
O golpe havia tirado o ar de meus pulmões e a queda piorou a fratura das costelas, que ainda não haviam sido completamente curadas. Tossi desesperadamente, tentando recuperar o fôlego. O ar se espalhava como fogo por meus pulmões, queimando minhas veias e deixando agonia pelo caminho. Senti uma sombra se aproximando e apenas tive tempo de rolar novamente para a esquerda quando uma espada se enterrou no chão, ao lado de onde estava minha cabeça.
Aproveitando-me dos segundos em que demorou para puxar a arma de volta, acumulei chakra em minhas pernas e chutei a panturrilha da perna de Daisuke que ainda estava boa, sentindo a tíbia se romper sob meus pés.
Seu grito de dor preencheu o silêncio na clareira.
Ele tentou cair ajoelhado, porém pude ver a aflição em seu rosto quando a perna danificada atingiu o solo e ele rolou para o lado, caindo de bruços. Agarrei a kunai que estava jogada na terra - onde ele havia jogado poucos minutos atrás - e, com dedos firmes, enterrei a arma em suas costas.
Respirei fundo quando torci a lâmina da arma para aumentar o ferimento e suas costas arquearam em sofrimento. Mal tive tempo de soltar o objeto quando notei, pela visão periférica, seu braço direito levantando e vindo em minha direção.
Reparei no brilho da lâmina afiada em sua mão tarde demais.
Uma dor aguda atravessou a lateral de meu tronco, todos as terminações nervosas queimavam e latejavam, implorando por alívio. Joguei meu corpo com força para trás por instinto e, quando atingi o solo, quase perdi a consciência.
A dor era insuportável.
Com lágrimas nos olhos e respiração ofegante, levantei o braço direito para tentar identificar o ferimento. Quando minha mão esbarrou no cabo da espada, ondas de pura dor agonizante se espalhou por todo meu corpo, fazendo com que um grunhido escapasse pelo meus lábios. Criando coragem, abaixei o olhar de encontro ao ferimento.
O desgraçado havia enterrado metade da espada na lateral de meu tronco. O golpe não foi fatal apenas pela fato de que a lâmina havia fincado em sua costela, impedindo que atravessasse todo meu corpo, inclusive meu coração.
Tsk, agora eu não posso dizer que a sorte não esta a meu favor.
O pensamento amargo se dissipou logo em seguida, quando uma fisgada extremamente dolorosa passou como uma corrente pela região do abdômen até a ponta de meus dedos, trazendo novamente lágrimas aos olhos. Sabendo que precisava me livrar daquela arma rapidamente para que pudesse ao menos fechar o ferimento externamente e estancar o sangramento, arranquei a luva da minha mão esquerda e a enfiei na boca, trincando os dentes. O gosto de suor e terra se espalhou por toda minha língua.
Respirei fundo - até onde a dor permitia - e, cerrando os olhos, levantei o braço esquerdo e agarrei firmemente o cabo da espada. A palma de minha mão estava escorregadia de suor, tanto pela dor quanto pelo nervosismo ao me preparar para o que estava por vir. Contei mentalmente até três e, sem adiar por mais um segundo, puxei a arma com apenas um impulso e um grito abafado.
A dor quase me fez desmaiar.
Para meu desespero, eu não havia conseguido arrancar aquele pedaço de metal maldito de meu corpo. Ele havia cravado a arma com tal força que a ponta da lâmina estava fincada no osso de minha costela e aparentemente não sairia tão fácil, principalmente tendo que ser puxada por meu próprio braço.
Cuspi a luva - agora com a marca de meus dentes desenhada no centro - e tive que piscar diversas vezes para afugentar os pequenos pontos pretos que surgiram em minha visão.
Suor escorria livremente por minha testa, encharcando meu couro cabeludo e rosto. Meu corpo trêmulo travava uma batalha para equilibrar a necessidade de respirar rapidamente com o controle na expansão dos pulmões que, a cada ofegada, espalhava ondas de dor pelas minhas veias devido às costelas trincadas e um profundo ferimento na lateral do corpo.
Não posso desmaiar agora. Não posso desmaiar agora. Não posso desmaiar agora.
Repeti a mesma frase mentalmente por vários segundos enquanto tentava me manter consciente. Quando pisquei para desembaçar a vista novamente, percebi um pequeno movimento a minha frente. Forçando a concentração, foquei na imagem e meu coração acelerou ao perceber do que se tratava.
Daisuke, pálido e com sangue escorrendo pelo canto da boca, se arrastava lentamente em minha direção, como uma cobra prestes a dar o bote em sua presa. Sua expressão era coberta de dor e um ódio descomunal, como se eu fosse a imagem da coisa que ele mais repudiava no mundo.
Bom, talvez eu realmente fosse a coisa que ele mais repudiava no mundo.
Olhando além de sua cabeça, eu podia ver suas duas pernas danificadas sendo arrastadas como um peso morto. Um delas estava completamente imóvel - inútil devido aos tendões que eu havia cortado - enquanto a outra deixava um rastro de sangue por onde passava. Uma espécie de lenço escuro estava amarrado em sua panturrilha e, forçando um pouco mais a vista, reparei que envolvia não só sua pele, mas algo mais claro... Quase branco...
Meu estômago embrulhou ao perceber do que se tratava.
Era um pedaço de osso.
Meu chute havia causado uma fratura exposta.
O rastro de sangue não era apenas pelo ferimento aberto em suas costas que acumulava sangue entre suas omoplatas. Ele havia colocado um tecido - provavelmente um pedaço de sua camiseta, que estava rasgada - para segurar o osso rompido no lugar.
Voltei o olhar chocado para seu rosto e percebi que ele me encarava de volta.
Seu lábio superior estava levantado, como se estivesse rosnando. Os dentes estavam trincados, o sorriso sempre branco estava cobertos por sangue e terra. Seus lábios, aqueles lábios convidativos que tentaram me beijar uma vez, estavam ressecados e levemente inchado onde havia golpeado ao cair no chão. Sombras arroxeadas cobriam seus olhos, a cor se destacando contra a palidez assustadora de sua pele.
Daisuke, o homem que considerei um exemplo de beleza e comportamento - considerando até a possibilidade de um envolvimento afetivo - agora parecia apenas um anjo caído, destruído pela ânsia de vingança.
Alguém que não tinha mais salvação.
Um peso de instalou em meu peito ao constatar isso, fazendo com que eu me esquecesse do que realmente estava acontecendo naquele momento.
- Não ouse me encarar com piedade! - Rosnou Daisuke com dificuldade, enquanto parava de se arrastar por alguns segundos.
Eu o escutava de longe, mal registrando suas palavras quando um apito se apossou de meus tímpanos. Gotas de suor escorriam pelos meus olhos, fazendo com que ardessem levemente.
- Eu que deveria sentir pena pelo que vai acontecer com você. - Gritou furiosamente, fazendo com que mais sangue escorresse pela sua boca, pingando pelo queixo. - Essa lâmina... também tinha um veneno especialmente feito para você.
Sua voz falhou enquanto ele ergueu os braços para se apoiar novamente, se preparando para voltar a se arrastar.
Olhei para baixo e notei que o meu sangue que pingava pela lâmina e cabo da espada estava escuro, um vinho tão intenso que quase chegava a ser preto.
Merda.
- Não sei o que você tomou.. mas duvido que vai durar.. muito mais tempo... agora. - Os músculos saltavam do braço de Daisuke pelo esforço de arrastar todo o peso de seu corpo pelo solo desregulado. Mesmo isso não impedia que ele continuasse com as ameaças. - Você já era.
- A kunai que enterrei em suas costas... também tinham esse veneno... - Retruquei, a voz saindo fraca e trêmula. O esforço para proferir aquelas palavras fazia com que a dor se tornasse cada vez mais insuportável. - Era sua.
Ele soltou um misto de rosnado com um risada irônica.
- Eu estou com seu antídoto circulando em minhas veias. - Relembrou ele, era possível escutar a respiração ofegante que saia de sua boca como um chiado.
Voltei a encarar a ferida aberta em suas costas e, mesmo reparando que o sangue estava tão escuro quanto o meu, sabia que ele tinha razão. Engolindo em seco, decidi que tinha que resolver aquilo de uma vez, antes que meu chakra se extinguisse.
Fechei os olhos e isolei tudo o que estava ao meu redor, focando na única coisa que precisava fazer naquele momento.
Minha mão trêmula foi em direção novamente ao cabo da espada e a segurei com firmeza, trincando os dentes no processo devido aos espasmos de dor que se espalhavam por todas as terminação nervosa. Lentamente, concentrei chakra para as duas mãos: a direita, para ter força o suficiente para arrancar a lâmina com apenas um impulso, e a esquerda, para fechar rapidamente o ferimento, evitando que mais sangue fluísse para fora de mim, levando a força que me restava.
Dessa vez não contei os segundos ou respirei fundo para me preparar. Eu apenas agi.
Senti o calor do chakra percorrendo cada fibra muscular de meu braço e fornecendo a energia necessária para contrair os músculos e arrancar aquela espada para fora de mim. Foi preciso apenas um potente puxão e, alguns segundos depois, pude ouvir o som do metal da lâmina batendo no solo ao meu lado. Foi como se eu houvesse puxado algo de dentro de mim para fora, cada milímetro da lâmina queimou como lava todo o caminho até o final, fazendo com que cada nervo se contorcesse em agonia. A dor foi tão forte que meu estômago se contraiu, se rebelando ao tentar colocar tudo que eu havia ingerido para fora.
Apenas os anos de treinamento árduo me impediram de desmaiar naquele momento.
Minha visão - que já estava turva - havia se tornado completamente negra, assim como minha respiração se tornou cada vez mais ofegante. Um apito agudo tomou conta de meus ouvidos, impedindo que eu escutasse qualquer coisa a minha volta. Senti gosto de metal em minha boca e percebi que ela estava cheia de sangue. Cuspi aquele líquido metálico na tentativa de respirar melhor, entretanto senti o mesmo gosto voltar com força em minha língua. Eu podia sentir o mesmo líquido quente escorrendo de minhas narinas e pingando em meus lábios.
Merda, isso não é um bom sinal.
Eu estava sangrando por todos os lados.
Sabendo que provavelmente estava com uma hemorragia interna, eu precisava agir rapidamente. Minha mente estava nublada e me forçar a fazer algo era como nadar contra uma maré violenta, onde as ondas a minha volta ordenavam Chega! Você precisa descansar! e me jogavam para o fundo do mar - para uma escuridão onde eu sabia que não poderia voltar nunca mais.
Lutei contra cada instinto que me dizia para me render ao descanso e abri os olhos novamente, tentando focalizar algo a minha frente.
Tudo que eu conseguia ver era um grande borrão.
Podia ver o verde das árvores ao nosso redor, o marrom da terra que cobria o piso e uma figura sombria que se mexia, próxima a mim. Pisquei diversas vezes tentando clarear a vista, mas sem sucesso. Abaixei a mão para me apoiar no chão terroso para me apoiar mas, ao invés de sentir a terra fresca sob meus dedos ou a aspereza dos pequenos gravetos que forravam a clareira, senti os dedos afundarem em um líquido morno.
Surpresa, baixei o olhar para o ferimento ao meu lado e, pela primeira vez desde que começou a luta, agradeci que não conseguia enxergar com clareza. O apito em meus ouvidos ficou mais forte.
Eu estava rodeada por uma poça de sangue.
Franzi o cenho em confusão, tentando entender da onde viera todo aquele líquido escuro e quente. Não era possível que tivesse saído do meu corpo, era muito sangue... Nenhum ser humano conseguiria sobreviver depois de perder tanto...
... Nenhum jutso de cura que eu aplicasse agora iria surtir efeito. O sangue quase preto, escurecido por veneno, servia como prova.
O choque daquelas constatação serviu como um tapa na cara, me fazendo voltar a realidade.
Eu iria morrer e Daisuke ainda estava vivo.
Eu havia falhado... de novo.
Não... Não... Não... Não...
Voltei o olhar ao borrão escuro a minha frente, forçando a vista até tentar deixar o rosto de Daisuke o mais nítido possível. Percebi que seus lábios se moviam, formando diversas palavras que eu não conseguia entender. Sua expressão era de triunfo, como se soubesse que havia ganhado.
Mesmo terrivelmente ferido e tomado pela dor de seus machucados... Mesmo que estivesse a poucos centímetros de mim e não conseguisse me alcançar rapidamente... Ainda assim, seus olhos brilhavam em júbilo, comemorando a vitória.
Não.
Eu não vou deixar que ele saia vivo daqui e ameace aqueles que eu amo.
Reuni os últimos impulsos de chakra que passavam pelo meu corpo e os direcionei para meus braços. As mãos estavam tão trêmulas que eu quase não consegui forçar os dedos a formarem os símbolos necessários para completar aquele jutso.
Durante o treinamento ninja, é necessário aprender sobre diversos jutsos e golpes que podem matar uma pessoa em questão de segundos. Aprendemos sobre jutsos necessários para se esconder, espiar, proteger e curar. Entretanto também aprendemos o que deve ser feito quando não há mais saída. Quando você decide abdicar de sua vida por um bem maior... ou por alguém.
Claro, existem jutsos onde você pode morrer de forma silenciosa, indolor e digna. Porém existem aqueles onde, principalmente durante uma guerra, você pode decidir morrer e levar todos os seus inimigos consigo, em uma bela explosão.
E era exatamente isso que eu iria fazer.
Com dificuldade, consegui formar o primeiro símbolo. Podia sentir o chakra de acumulando em meus dedos e os aquecendo, uma vez que todas minhas extremidades estavam frias como gelo. Senti uma mão segurar meu tornozelo e levantei o olhar, encontrando um Daisuke bem próximo a mim. Seu olhar encarou minhas mãos e passou de alegria para confusão, compreensão... e enfim medo.
Ele sabia o que eu estava prestes a fazer.
Se eu não estivesse tão exaurida e concentrada, eu poderia ter rido de sua expressão.
Notei que sua cabeça virou para os lados ao começar a vasculhar à sua volta, em busca de algo . Não precisei acompanhar seu olhar para saber que ele estava procurando uma arma.
Eu havia terminado de formar o segundo símbolo, quando uma tosse molhada subiu pela minha garganta, enchendo minha boca de sangue e forçando meu abdômen ferido a se contrair. Eu podia sentir o líquido escorrendo pelo meus lábios, em direção ao queixo e ensopando ainda mais meu uniforme. Minha vista, que se resumia à um sombras embaçadas, agora se tornou um borrão escuro. Pontos negros surgiram e preencheram todo meu campo de visão.
Tsk, pelo menos eu não iria morrer encarando o olhar de ódio de Daisuke.
Recuperei o fôlego após as crise de tosse apenas o suficiente para que eu conseguisse terminar o terceiro símbolo.
Só mais um.
Só mais um e isso acaba.
Senti os dedos frios de Daisuke soltarem minha panturrilha e, logo em seguida, agarrarem meu joelho direito com força. Eu podia sentir a ponta de suas unhas sendo cravadas em minha pele.
Meus braços queimavam em protesto ao movimento e eu sentia meu corpo quente, como se estivesse se preparando para o que estava por vir. Eu não conseguia mais sentir as extremidades, como se o sangue houvesse se esvaído completamente ali.
Preparei os dedos para fazer o último símbolo e senti uma pequena lágrima escorrer pela minha bochecha.
Tsunade-sama. Shizune. Ino. Kakashi-sensei. Naruto. Sasuke...
Eu amo vocês.
Meus dedos estavam prestes a se tocar, fazendo com que uma bola de calor começasse a se formar entre minhas mãos, quando senti dedos gelados rodeando meu pulso e o puxando para o lado. O símbolo de desfez, levando a esfera quente consigo.
Uma dor transpassou meu coração ao perceber que Daisuke enfim havia me alcançado.
Trinquei os dentes e, com os últimos pulsos de chakra que bombeavam meus braços, tentei me livrar daquele enlace apertado. Quanto mais tentava me afastar, mais forte os dedos apertavam minha pele e me puxavam para si. Mantive os olhos bem fechados durante todo o momento, não queria encarar a o brilho de vitória nos olhos azuis de Daisuke. O apito em meus ouvidos bloqueava tudo ao meu redor e as batidas aceleradas de meu coração era a única coisa que eu era capaz de escutar no momento.
Senti os dedos frios de uma de suas mãos segurarem meu rosto com firmeza e o virando para a direita, como se estivesse me forçando a encarar seu rosto. Aguardei o tapa ou o golpe, mas ele não veio. Estava prestes a abrir a boca para morder raivosamente sua mão, quando um pequeno pensamento cruzou minha mente.
Apesar do enlace firme, ele não parecia agressivo ou havia tentado me machucar. A imagem gravada em minhas retinas de um Daisuke tomado pelo ódio voltou a minha mente.
Não, aquele homem não iria simplesmente segurar meu rosto dessa forma, quase que... delicadamente. Ele já teria quebrado meu pescoço a essa altura.
Reunindo toda a força e coragem que me restava, forcei minhas pálpebras a se abrirem. O aperto em meu pulso estava mais forte, assim como a mão em minha bochecha levantava meu rosto, em direção à algo. Um vulto preto envolvia grande parte da minha visão, os contornos se assemelhavam a um homem. Pisquei repetidamente, tentando clarear a imagem e foquei em apenas um ponto até sentir dor de cabeça pelo esforço.
Lentamente, a imagem foi se tornando mais nítida e meu coração afundou ao perceber quem estava me segurando. Aquilo não era possível, eu devia estar alucinando. A perda de sangue deve estar me fazendo ver coisas.
A primeira coisa que notei em Sasuke foi a ruga de preocupação que cortava a linha entre suas sobrancelhas. Em seguida foram os olhos que chamaram minha atenção. Eles brilhavam intensamente e estavam levemente arregalados, como se ele estivesse assustado. Aquele pensamento me deixou confusa.
Sasuke nunca ficava com medo.
Nunca.
Um pequeno movimento fez com que eu descesse o olhar para baixo, em direção à sua boca. Eu o via mexendo os lábios desesperadamente, como se estivesse gritando algo - algo que eu não conseguia entender. O apito em meu ouvido me impedia de escutar alguma coisa e a falta de energia não me deixava concentrar o suficiente para entender o que ele estava dizendo.
Foquei toda a minha atenção em seus lábios - que estranhamente estavam levemente esbranquiçados, como se ele estivesse passando mal - mas ainda sim não conseguia compreender. Meus pensamentos estavam lentos e confusos, assim como meu corpo estava fraco.
Eu tinha a sensação que meu corpo estava se desligando, membro por membro, órgão por órgão. Eu conseguia sentir a aspereza das mãos de Sasuke em minha pele, os calos - resultante de anos de treinamento árduo - que havia em casa um de seus dedos e a firmeza quase desesperada com que ele me segurava. Como ele pudesse me manter ali, viva, apenas com sua força e teimosia. Como se minha vida estivesse sendo segurada pela ponta de seus dedos.
- ... olhos, Sakura!
O silvo estridente que me impedia de ouvir estava diminuindo, fazendo com que as batidas que pulsavam em meus ouvidos dessem lugar aos ruídos que haviam a minha volta, como uma rádio que estivesse tentando sintonizar em uma estação. E, claro, o primeiro som que identifiquei completamente foi a voz engasgada de Sasuke, que continuava a chamar minha atenção incessantemente.
- Ei, não feche os olhos, Sakura! Você tem que ficar consciente!
Sua voz grave serviu como uma lufada de ar fresco em meu rosto e gerou uma onda de alívio que inundava minhas veias. Ousei respirar um pouco mais profundamente e o cheiro de Sasuke que invadiu minhas narinas quase compensou a dor excruciante que percorreu todo meu tronco.
Ele realmente estava ali. Eu não morreria sem ver Sasuke uma última vez.
Aquele era o melhor presente que poderia ter ganhado antes de partir.
Voltei a encarar seus olhos negros, gravando cada detalhe de seu rosto em minha memória. Se eu pudesse levar algo comigo depois que meu corpo se fosse, eu rezava com todas as forças de que eu pudesse me lembrar de cada segundo que eu havia passado com todas essas pessoas que amava, especialmente Sasuke.
Percebi que ele havia ativado o Sharingan e percorria meu corpo com os olhos rubis, verificando a extensão dos meus ferimentos. Suas mãos trêmulas pareciam penas ao tocar minha pele.
Se fosse em outra ocasião, eu estaria arrepiada.
Quando seus dedos tocaram o ferimento aberto na lateral de meu tronco, foi como se um choque tivesse atravessado minhas terminações, fazendo com que um grunhido de dor escapasse de meus lábios antes que eu pudesse me controlar. Imediatamente pude sentir a tensão emanar de Sasuke e me amaldiçoei imediatamente por ser tão fraca.
- Droga Sakura... - Seus dentes estavam cerrados e sua voz saiu em um tom que não escutava havia muito tempo. - Droga, droga, droga... Naruto, RÁPIDO!
De repente, ele me colocou deitada no chão e se voltou para algo que estava trás dele. O calor se foi junto com seu corpo, deixando que o vento frio açoitasse minha pele já gelada pela pressão baixa. Tentei abrir os lábios para emitir um ruído de protesto, mas não tive forças o suficiente e meus olhos arderam em frustração.
Eu queria gritar VOLTE SASUKE! a plenos pulmões, mas era como se repentinamente eu havia me tornado apenas uma espectadora, acompanhando de longe o meu fim se aproximar e sem poder fazer nada a respeito. Meu corpo se assemelhava a uma boneca de pano, jogada em meio a terra e sangue. Quando a primeira lágrima morna escorreu pela lateral de meu rosto, senti seu braço forte e musculoso envolvendo meu tronco e me fazendo apoiar em seu outro ombro. O movimento quase me fez desmaiar e fui forçada a fechar os olhos para não perder a consciência que me restava.
- Ei, abra os olhos. Olhe pra mim, Sakura.
Quando senti que tudo havia parado de girar, abri as pálpebras lentamente e foquei lentamente no rosto agoniado de Sasuke a poucos centímetros de distância do meu.
Seus dedos frios - que estavam tremendo como eu nunca havia visto antes - acariciavam delicadamente minha bochecha, descendo de minha têmpora até a ponta de meu queixo como se eu fosse feita do mais delicado cristal.
- Você vai ficar bem, está me ouvindo? Você não vai me deixar. - Grunhiu ele, como se aquilo fosse uma ordem e eu teria que obedecer a qualquer custo.
Sem conseguir falar nada, eu apenas o encarei e tentei expressar tudo aquilo que eu sentia com apenas um olhar.
Nossa amizade de tantos e tantos anos. A confiança que aprendemos a depositar no outro. O laço inquebrável do Time 7. A saudade que eu iria sentir de seu toque e seu calor. O amor assombroso que eu sentia por ele em cada fibra do meu ser. O perdão por tudo aquilo que já havíamos passado. A despedida que fazia com que a dor de meus ferimentos parecessem apenas um simples arranhão.
Eu podia sentir minhas lágrimas escorrerem livremente por meu rosto, levando consigo todas as palavras que eu não tinha forças para falar.
Quando seus olhos vermelhos se arregalaram levemente, percebi que ele havia entendido tudo aquilo que eu tinha tentado transmitir e um alívio absurdo inundou minhas veias ao saber que ele havia captado a verdade.
Ele estava tão pálido, suor escorria por suas têmporas e parecia que seu corpo inteiro tremia. Os lábios estavam fechados com tanta força que estavam brancos, e seus olhos... ah, os olhos brilhantes arregalados fizeram com que meu coração se apertasse.
Ele parecia tão... apavorado.
- Por favor, não... Sakura, não... - A voz grave do moreno tinha uma fragilidade tão grande que chegava a ser assustadora.
"Se tem alguém que pode fazer com que ele quebre outra vez, esse alguém é você, Sakura-chan. Nunca se esqueça disso."
As palavras de Naruto surgiram em minha mente como um baque, aumentando o peso em meu peito. Eu não havia acreditado naquele momento, imaginando que Sasuke não se importava comigo ao ponto de permitir se perder novamente por minha causa. Mas agora, testemunhando o tamanho do horror que se refletia em seus olhos ao perceber que não tinha mais volta... agora eu acreditava.
Em um último esforço, levantei minha mão direita até encostar em seu rosto branco, o toque tão leve quanto uma pluma.
- Não... se... culpe. - Cada palavra levava consigo um pedaço do meu tempo restante, fazendo com que sangue escorresse pela lateral de meus lábios. Por pior que estivesse me sentindo, eu precisava dizer aquilo. - Por favor...
Seu indicador encostou em meus lábios, em uma tentativa de me silenciar.
- Não fale, você precisa descansar. - Sua voz soava estrangulada, como se ele estivesse tentando refrear algo. Sua cabeça virou para o lado, em direção à algo que eu não podia ver, e seu grito ecoou por toda a clareira. - NARUTO, VENHA AGORA!
Antes que eu pudesse continuar a tentar falar algo, uma sombra apareceu bem ao meu lado e mechas loiras invadiram minha visão.
- Sakura-chan...
A voz de Naruto soava quebrada, como se percebesse o real estado em que eu me encontrava. Seus olhos tão azuis estavam arregalados em choque, brilhantes com as lágrimas não derramadas.
- Ela vai ficar bem. Me de isso logo. - A voz autoritária de Sasuke me distraiu das garras que apertavam meu peito ao perceber que nunca mais iria sentir o abraço cálido de Naruto me envolvendo quando eu mais precisava. Por alguns segundos, pensei que talvez teria sido melhor se eu tivesse morrido sozinha, sem testemunhar o sofrimento daqueles que ficariam. Mas assim que cruzei o olhar com aqueles dois homens que eu mais amava no mundo, eu sabia que aquilo era mentira.
Eu tinha ganhado a chance de dizer adeus à quem amava, diferente do que havia acontecido com meus pais, que haviam sido brutalmente arrancados de minha vida.
Uma tosse molhada subiu por minha garganta, fazendo com que a tosse fosse tão forte que meu corpo se curvou para frente. Um jato de sangue escuro saiu pela minha boca, ensopando minhas roupas já destruídas.
Tudo ficou em silêncio por alguns segundos, como se todos estivessem em choque demais para se mover.
Logo em seguida foi como se algo houvesse se desligado em mim. Cai para trás, completamente sem forças, os membros totalmente exauridos pendiam inutilmente ao meu lado. Eu sentia que estava sendo segurada por braços, porém não conseguia sentir mais nada. Tudo havia se tornado silencioso, como se o mundo já estivesse iniciando o minuto de silêncio pela minha morte iminente.
Dedos alcançaram minha boca, abrindo meus lábios e colocando um vidro em minha garganta. Um líquido amargo desceu pela minha goela, fazendo com que eu engasgasse e quase cuspisse tudo para fora. Na verdade era para ter acontecido isso, se algo não houvesse coberto meus lábios, impedindo que eu os abrisse.
Levei alguns segundos para conseguir visualizar o rosto branco de Sasuke colado ao meu, as mechas de seu cabelo preto encostando em meu rosto e causando pequenas cócegas por onde passavam. Seus lábios frios estavam sob os meus, como se pudesse passar um pouco de sua vida para mim com apenas um toque. O contato durou poucos segundos, até que ele se afastou apenas alguns centímetros e encostou sua testa na minha.
- Não me deixe, Sakura. - Ele parecia uma criança implorando por algo que sabia que não poderia ter. Não parecia a voz da pessoa séria e confiante que ele sempre demonstrava ser. Não, aquela era a voz de um homem completamente apavorado. - Por favor, não me deixe..
Senti uma mão quente agarrar a minha, e não precisava levantar a cabeça para saber a quem pertencia. Eu reconheceria a mão carinhosa de Naruto sob qualquer circunstância.
Eu amo vocês.
Era isso que eu queria dizer, mas não tinha mais forças.
Minha cabeça caiu para trás e, sem conseguir me manter firme por um segundo a mais, deixei com que meu corpo enfim parasse de lutar e senti que, parte por parte, tudo estava sendo desligado. O medo de partir ou a dor da despedida estavam sendo substituídos pela aceitação.
Antes de fechar os olhos pela última vez, olhei para o lado e percebi que havia um corpo jogado a alguns metros de distância de onde eu estava. O cabelo loiro, uma vez tão claro e brilhante e agora sujo de lama e sangue, se espalhava por toda a terra. A perna estava jogada em uma posição estranha e uma poça de sangue escuro - quase preto - envolvia completamente Daisuke.
Ele estava morto.
Sabendo que aquela era a única coisa que ainda poderia me causar receio de partir, fechei os olhos tranquilamente em alívio, sabendo que nada poderia arriscar a vida daqueles que eu amava agora.
Sentindo meu coração bater cada vez mais lentamente, me deixei mergulhar na doce e calma escuridão que me aguardava de braços abertos, para que eu enfim pudesse descansar.
Boooooooooas meu povo! :D
Aqui estou estou novamente com mais um capítulo para vocês, atrasada - eu sei - mas tentei terminar o mais rápido que consegui! Paaarticularmente não achei que foi o melhor, na verdade reescrevi ele umas 3 vezes (minha inspiração foi meio que pro saco huahua) mas eu já sabia como queria terminá-lo e, como boa brasileira, não desisti até terminar!
Como eu já tinha informado, já estamos na reta final, portanto acredito que só terá mais um ou dois capítulos, e eu já sei como vou terminar tudinho! As idéias já estão organizadas, falta só o tempo livre para conseguir postar o quanto antes.
avilaharuno: Muuuuuito obrigada pelo apoio! Você não sabe como fico feliz de ser sua review, me anima demais a escrever ao saber que você está gostando! Sakura e seus pulos né? Será que ela vai conseguir se livrar dessa? Ou o rostinho do Sasuke vai ser a última coisa que ela viu? (Apesar que isso não seria tão ruim, né? Hahahah) Espero que goste desse capítulo e vou querer saber o que achou hein?! Um suuuper beijo!
HarunoKuchiki: Não me importo nem um pouquinho com o atraso, eu que tenho que me desculpar por demorar tanto por postar! Mas fico meeeeega feliz em saber que você continua acompanhando e continua gostando da história, juro! *-* E vai saber né, milagres acontecem... hahaha Por favoor, me conta o que achou desse capítulo, vou aguardar ansiosamente! Um meeeega beijo e obrigada por continuar acompanhando! *-*
llucida: Meniiiina do céu, você leu tudo em uma noite? :O Ta pior do que eu! Huahua Fico suuuuper feliz que tenha gostado da história, juro! Postei o novo capítulo o mais rápido que consegui, espero que goste! Beeeeijão! :*
Enfim gente, peço desculpas novamente pela demora e espero, do fuuuundo do coraçãozinho, que vocês gostem desse capítulo e me contem o que acharam!
Um suuuuper beijo!
