PARTE 4 – QUINN FABRAY
ALIANÇA DE OURO
Senhora e senhora Berry-Lopez Fabray. É muito sobrenome junto, mas não soa tão mal. Acho que perdi a noção do tempo diante da vitrine olhando aquele anel de brilhantes lindo. Seria maravilhoso se eu pudesse comprá-lo para o meu noivado com Rachel. Com um pouco mais de planejamento, conseguiria pagar em suaves prestações no cartão de crédito. Como era torturante passar em frente da loja, olhar a vitrine e imaginar a minha vida de casada com Rachel. Uma de verdade, sem a mala da Santana Berry-Lopez morando sob o mesmo teto.
"Procura alguma coisa, minha jovem?" – o vendedor, um senhor de meia idade, falou comigo na calçada.
"Na verdade..." – uma idéia se passou pela minha cabeça – "estou a procura de duas alianças simples de ouro"
"Temos de vários tipos" – disse me convidando a entrar.
Escolhi um par de alianças de ouro bem discretas e voltei para casa confabulando uma forma de entregar uma delas a Rachel. Eu iria propor usar o anel como um simbolismo de uma nova etapa em nossas vidas.
Continuava firme na faculdade, ganhei um aumento na produtora porque, sim, eu sou muito profissional e competente. E eu não sou modesta quanto a essas coisas. Rachel trancou a NYU depois de um ano de curso para se dedicar inteiramente à Broadway. "Across The Universe" era um hit entre as peças off-Broadway com ingressos esgotados até novembro (estávamos em setembro). Santana foi competente dessa vez e conseguiu um belo engordo salarial a Rachel. Contratamos um agente para Rachel e Mike: um com bom nome no mercado. Empresário? Santana teria de quebrar o galho por um bom tempo nas questões contratuais. Ela tinha de contribuir de alguma forma, algo além de lavar as roupas e as louças. Então, com mais dinheiro em casa, e com o senhor Weiz ainda colaborando (ele disse que continuaria pagando metade do aluguel do novo apartamento até Santana se formar na Columbia), não havia mais sentido a gente permanecer naquele minúsculo espaço com móveis achados na rua. Foi um lugar que sempre lembrarei com muito carinho pelas boas coisas que aconteceram dentro dele. Mas é para frente que a gente anda e era o momento de darmos um salto.
Rachel e eu procuramos por um mês e achamos um adorável apartamento não-mobiliado em Murray Hill na 32nd street com a 2ª avenida que seria perfeito para nós. Era ofecido apenas os eletrodomésticos da cozinha (fogão e geladeira), armários, e as máquinas de lavar e secar roupas. A rua era agradável, arborizada, havia um bom restaurante italiano do outro lado da rua e um Starbucks no primeiro andar. O aluguel custava o dobro do antigo apartamento, mas era algo que poderíamos arcar. No hall de entrada já se visualizava a nossa sala, a porta da cozinha logo em frente e a porta da minha (nossa) suíte na lateral. A nossa cozinha ficava entre a suíte e os outros dois quartos. O do meio (menor) seria usado como um escritório/biblioteca e sala reservada. O quarto em frente ao escritório, que ficava no outro extremo do apartamento, era o de Santana. É verdade que havia o inconveniente para minha cunhada de ter de atravessar a sala para usar o banheiro dela, mas seríamos nós três a maior parte do tempo.
Mike permaneceria no velho apartamento. Ele dividiria o aluguel com Johnny. A carreira de Mike estava indo bem. "Songbook" saiu de cartaz e ele logo conseguiu uma off-Broadway onde teria um dos papéis principais e gozaria de um salário bem melhor. Mike também tinha acumulado uma boa renda fazendo comerciais.
Do velho apartamento, estava levando só os meus pertences pessoais. Rachel e eu compramos camas novas – a nossa de casal e uma solteirão para Santana (uma pequena vingança minha por uma humilhação que ela me fez passar em Columbia quando fomos ver a apresentação do coral que ela faz parte) –, e fizemos prestações para mobiliar o aparamento numa loja de móveis usados, uma boa, que restaurava tudo antes de vender. Não deu para comprar tudo que queríamos, mas tínhamos um jogo de sala com peças que faziam parte de um mesmo conjunto, uma mesa de refeições com todas as cadeiras iguais e uma estante no escritório/biblioteca onde meus livros poderiam finalmente ter um lugar e assim eu não seria mais obrigada a vendê-los. Rachel encontrou algumas soluções baratas para tornar nosso escritório um ambiente agradável, e comprou almofadões para serem colocados no carpete em vez de um sofá.
Para as paredes não ficarem nuas, fiz pôsteres de algumas fotos minhas e mandei emoldurar. Rachel e eu passamos duas semanas pintando as paredes (Santana, Mike e Johnny ajudaram), arrumando o mobiliário em nossa nova casa – e fazendo nossas inaugurações privadas no processo, que incluiu a cama solteirão de Santana –, antes de nos mudarmos de vez. Depois de dois dias embalando caixas, iríamos finalmente nos mudar para o novo apartamento. Um em que eu, Quinn Fabray, dormiria numa cama de casal com Rachel Berry-Lopez ao meu lado todos os dias. Finalmente!
Mas quando subi até o velho apartamento, o que encontrei foi Rachel nas costas de Johnny tentando estrangulá-lo enquanto Santana estava deitada no chão rindo feito uma louca e Mike... ele estava espatifado em cima de uma das nossas caixas com expressão de dor no rosto.
"O que está acontecendo aqui?" – corri para ajudar Mike a sair de cima, que ótimo, de uma das minhas caixas.
"Esse demônio!" – Rachel respondeu gritando ainda tentando estrangular Johnny.
Num movimento rápido, ele se curvou e Rachel, leve como é, literalmente voou fazendo uma cambalhota no ar e caindo exatamente em cima de Santana. A irmã dela ainda fez um esforço para sair do trajeto, mas não adiantou. Estava lidando com um bando de loucos, só podia. Johnny começou a rir daquele jeito que a pessoa perde o fôlego. Enquanto eu larguei Mike e fui ajudar as duas irmãs que já se batiam no chão e se xingavam em espanhol. Desisti no meio do caminho. Suspirei. Era melhor conferir o estrago da minha caixa de... fotografias, apostilas da faculdade e enfeites. Não era por menos que Mike estava sentindo dor. Imaginei a minha coleção de copos espatifada. Nem quis abrir para evitar o desgosto.
A mudança foi relativamente rápida. Mike arrumou uma van para transportarmos nossas caixas. A distância entre SoHo e Murray Hill era considerável. Rachel não tinha teatro naquele dia e eu tirei uma folga do trabalho além de matar aula na NYU justamente por essa razão: ter tempo para nos mudar. Chegamos todos (mudanças e táxi) ao mesmo tempo. Estava excitada. Olhei para Rachel e sorri antes de destrancar a porta agora em definitivo. Nem deu tempo de fazer uma comemoração porque os meninos e Santana invadiram a minha nova sala como tratores. Descarregamos a van relativamente rápido e deixamos as caixas em nosso escritório. Era o lugar da casa onde as bagunças poderiam acontecer e, acomodadas ali, poderíamos arrumar tudo aos poucos. Ofereci cerveja aos meninos. Eu mesma não bebi. Odiava o gosto, mas era sagrado ter garrafas na geladeira por causa dos meninos e Santana. Rachel também bebia às vezes. Quando eu consumia bebida alcoólica, preferia vinho ou espumante. Uma taça e pronto. Brindamos o novo lar, eu com uma garrafa de suco de laranja. Logo Johnny e Mike se despediram. Santana sentou no sofá e ficou olhando o novo ambiente. Parecia deslocada. Eu podia imaginar o que se passava na cabeça dela: sair de um ambiente que ela arrumou com praticamente nada no bolso para outro conquistado a partir, principalmente, do sucesso da irmã. E do meu dinheiro. Rachel sentou-se ao lado dela e passou a mão nas costas de Santana.
"Com medo de dormir sozinha?" – Rachel provocou.
"Vai ser esquisito depois de dois anos dividindo o quarto."
"Vamos trabalhar que temos um monte de coisas para arrumar" – cortei o início de sentimentalismo.
Ficamos até tarde da noite arrumando nossas roupas. Rachel e eu chegamos a um acordo de como acomodar nossas roupas. Nosso armário era o dobro do que tínhamos no antigo apartamento e mais um extra no escritório, logo isso não foi exatamente um problema. No fim da noite, nós três devoramos uma pizza metade vegetariana e metade de atum e essa foi a nossa primeira refeição na nova casa. Nada romântico. O pior é que eu estava louca por uma fatia de calabresa, mas às vezes era um saco conviver com duas judias e toda a história de não comer carnes provenientes do porco. Pelo menos Rachel aliviou a história de ser vegan e virou uma vegetariana normal. Isso facilitava um monte.
"Vou ter que acordar mais cedo!" – Santana divagou.
"Por quê?" – perguntei enquanto apreciava o atum com azeitonas.
"Para ir daqui até a Columbia, vou ter que andar um bocado para pegar a linha direta do metrô, pra não fazer tantas conexões."
"O irônico é que você está mais próxima a sua Universidade agora do que antes" – observei.
"Não dá para ir de ônibus?" – Rachel perguntou.
"Confesso que não verifiquei as linhas. Mas depender de ônibus aqui é fogo!"
"Logo você se acostuma!"
"Vocês continuam com sorte!" – Santana falou com aquele tom petulante irritante – "A linha do metrô desaba direto na NYU e no Public!"
"Por que você acha que esse apartamento era perfeito... para nós?" – desdenhei.
"Você é um nojo, Fabray!"
"As duas querem parar?" – Rachel levantou a voz.
"Eu to quebrada" – Santana alongou os braços – "Vou tomar um banho e estrear a minha cama" – eu quase engasguei segurando o riso e eu vi Rachel desviando o olhar para a janela.
O banheiro social não era grande coisa. Ainda assim era melhor do que do antigo apartamento. E Santana teria uso exclusivo, salvo os dias com visitas ou se por um acaso organizássemos pequenas recepções aqui. Com a minha carreira e de Rachel, às vezes isso seria necessário. O que era certo é que a briga matinal pelo banheiro não existiria mais. Enquanto Rachel cuidava das poucas louças sujas, preparei algumas coisas no nosso banheiro. Enchi a banheira, coloquei alguns sais de banho para perfumar a água e esperei a minha lady chegar.
"Três copos sujos te prenderam tanto assim?" – fiz charme já vestida somente em meu roupão.
"Fui dar boa noite a Santana. Ela ainda estava colocando os lençóis na cama e as fronhas nos travesseiros..."
"E você, como uma boa irmã, foi ajudar" – me aproximei sedutora – "Você sabia que não estreamos a banheira?" – falei sussurrando no ouvido dela. Adorava o jeito que os pelos do pescoço dela se arrepiavam.
Fui a conduzindo ao banheiro e a despi entre beijos e carícias. Quando finalmente entramos na água morna e perfumada, peguei a caixinha das alianças e mostrei para ela. Rachel arregalou os olhos. Ficou muda. Tirei um dos anéis de ouro e segurei diante dela.
"Ainda não é um pedido oficial de casamento" – fiz questão de assegurar o propósito primeiro – "Eu comprei esses anéis como símbolo dessa nova etapa de nossas vidas. Você é a pessoa que me faz feliz, que me completa. Você é a razão por eu levantar e lutar dia a dia para vencer. Porque eu sei que essa batalha vale à pena quando você está ao meu lado. Eu te amo com todo meu ser, Rachel Berry-Lopez. Espero que você aceite usar esse anel e sentir-se um pouco mais casada comigo. Porque é assim como me sinto e isso só me dá razões para me alegrar."
Rachel sorriu e me beijou antes de estender a mão direta para que eu pudesse recolocar o anel. Beijei a mão dela.
"Se isso fosse um casamento, seria o mais erótico da história" – ela soltou aquela gargalhada gostosa, alta, capaz de fazer qualquer mau humor ir para longe – "Quinn Fabray, você não tem idéia do que faz comigo. Você é tanto o meu chão, a minha base, como aquela que faz a minha mente vagar pelo espaço, me que faz querer flutuar por aí de tanta felicidade que sinto aqui" – colocou a minha mão no coração dela – "Quando eu faço aqueles exercícios de me imaginar aqui a dez anos, antes de me visualizar sendo uma atriz famosa, a primeira coisa que penso é você. Em estar ao seu lado, porque, Quinn Fabray, toda fama e riqueza do mundo fica pálido diante do amor. E você é quem eu amo de verdade, com todo meu coração."
Não pude evitar as lágrimas de felicidade quando Rachel colocou o anel no dedo da minha mão esquerda e o beijou em seguida. Nos beijamos e ali começamos a celebrar o início de um casamento sem sacerdócio, sem formalidades, sem papeis de cartório, sem testemunhas. Um casamento só nosso, entre nossas almas e corações.
...
AUSÊNCIA
Rachel e o restante do elenco de "Across The Universe" saiu de Nova York para fazer uma mini-turnê da peça na Califórnia: quarta-feira teriam uma apresentação única em San Francisco e um fim de semana completo, sexta, sábado e domingo, em Los Angeles. Eu não pude ir porque fiquei presa com coisas da faculdade e com detalhes do filme independente que Roger Benz iria produzir ao lado de Aaron Smith, diretor conceituado que recebeu indicações ao Globo de Ouro. Lógico que seria uma honra participar do primeiro projeto de assistente de produção de um filme. O primeiro passo era levantar orçamento para pagamento dos atores, custeio de viagens, materiais e demais aspectos técnicos. O que foi conversado até então era que as filmagens aconteceriam em Fulton, Nova York, porque o senhor Smith (e dizer isso sempre me provocava algumas risadas) tinha um rancho naquela área, o que economizaria alguns milhares de dólares com hospedagem da equipe.
Enquanto isso, na NYU, na aula de Fotografia em Cinema, o professor Richard McFeller estava contando histórias deliciosas sobre as técnicas de Gordon Willis para a iluminação revolucionária de "O Poderoso Chefão", da importância que foi domar Marlon Brandon para que ele não saísse da marcação que deveria ser perfeita para aquele tipo de técnica, além das brigas homéricas com Francis Ford Copolla. Tinha lido alguma coisa a respeito em "Easy Riders, Raging Bulls: How The Sex-Drug-And-Rock'n'Roll Generation Saved Hollywood", de Peter Biskind. Mas vez as técnicas realizadas de perto eram bem melhores do que apenas ler no livro. Isso sem mencionar o esforço que professor McFeller fazia em convidar pessoas da equipe daquela produção ou que trabalharam com o senhor Willis para nos dar uma palestra. Algo que eu apreciaria imensamente.
Só assim para esquecer a raiva que Josh Steinford, o agente de Rachel, me fez passar. De acordo com a imensa experiência e sapiência de Steinford, Rachel deveria esconder o nosso relacionamento da imprensa caso ela quisesse levar em consideração uma carreira também no cinema. Disse de forma ríspida que jovens atores gays não tinham a menor chance de desenvolver uma carreira cinematográfica por que o público era homofóbico e não poderia se apaixonar por alguém com tal sexualidade, que os únicos assumidos são atores quarentões que só conseguem papéis secundários nas produções e que precisam procurar a televisão para poder brilhar. Não aceitei isso de imediato e nem mesmo Rachel, mas diante dos argumentos, nós conversamos e combinamos que nosso relacionamento seria omitido para a mídia. Por esse motivo ela não poderia usar a aliança dela, então combinamos que, em público, substituiria o anel por um colar com um pingente em forma de coroa: Queen = Quinn. Achei os termos razoáveis e, depois, não gostaria de ser acusada por arruinar a carreira de Rachel.
Com Rachel na Califórnia, a minha semana foi solitária, apesar da grande carga de trabalho. Mike, a única pessoa que eu tenho em Nova York que posso desabafar sobre coisas que não falaria com Rachel, não estava exatamente disponível. Johnny e eu éramos amigos por causa dos outros, não porque tínhamos alguma conexão afetiva. Santana e eu conversamos pouco em casa. Ela estava sempre ocupada com os estudos ou com os amigos da faculdade. Aparentemente estava de namoro com Andrew, um colega que lembro ter visto uma ou duas vezes, mas nunca fomos apresentados formalmente. Santana nunca levava os amigos dela em casa. Eu também não tinha tantas pessoas assim que valessem à pena trazer para o convívio social dos meus. Era mais fácil com gente do trabalho, até porque Rachel e eu tínhamos vários conhecidos em comum. Inclusive estávamos planejando uma, finalmente, primeira recepção com eles em nossa casa. Algo simples para se passar um bom tempo e apresentar a nossa casa.
"Lopez!" – cumprimentei Santana assim que a vi chegando já no meio da noite.
"Fabray! Rachel ligou?"
"Sim. Ela encontrou Brittany em Los Angeles e deu algumas entrevistas para os jornais locais. Disse que está ansiosa para fazer a peça hoje."
"Brittany?"
"E entrevistas e peça."
"Que exploda o resto. O que ela falou da Brit?" – era a primeira vez na semana que Santana se mostrou minimamente interessada em algo que tinha a dizer. Permaneci em silêncio com meio sorriso no rosto. Ela perderia a paciência em cinco segundos – "Quinn! Fala logo!"
"Nada demais!"
"Como assim, nada demais? Lógico ela falou alguma coisa! Desembucha!"
"Você é uma pessoa curiosa, Lopez. Fica com um monte de caras, mas deixaria todos por Brit. E ainda diz que a gay da casa sou eu."
"Vai te catar, Fabray!"
Saiu balbuciando em espanhol para o quarto dela. Ultimamente, ela fazia muito isso. Voltei a estudar as tarefas que tinha para a pré-produção do filme: planejar a convocação de figurantes. Existiam os "profissionais" cadastrados num sistema que eram perfeitos para aqueles personagens de uma fala só ou para executar algum movimento de cena mais específico. Esses eram o dobro mais caro que os amadores: aqueles que a produção catava no local para fazer movimentações simples. Muitos desses amadores topavam trabalhar até de graça só pelo prazer de fazer parte de uma produção ou na esperança de se aproximar de algum ator para tirar fotos ou pegar autógrafos. A minha cópia do roteiro, muito bem escrito por Brian Sanders, trazia algumas observações de quantos "profissionais" teria de procurá-los no sistema (tinha de dar preferência aos residentes de Nova York, melhor ainda se tivesse algum que morasse próximo à locação) e "reservá-los" numa convocação por e-mail para "teste de elenco".
Olhei o relógio. Considerando o fuso horário, Rachel deveria estar se preparando para entrar em cena naquele momento. Mentalizei minha lady e desejei "merda" em prece. Vi Santana atravessando a sala com roupas limpas em mãos. Em menos de meia hora ela me aparece arrumada e perfumada. Correu para o quarto dela. Mais meia hora e ela saiu com os cabelos escovados, maquiada e de salto alto.
"Vou dormir fora de casa hoje."
"Está levando camisinha na bolsa?" – provoquei.
"Para a sua informação, estou!"
"Ótimo. Divirta-se e procure não beber ou ficar muito chapada" – Santana parou ainda à porta e deu aquela meia volta para comprar a minha briga, mas acho que pensou melhor e voltou para o caminho dela.
"Vai pro inferno. Te vejo amanhã."
Rachel era muito tolerante com certos hábitos da irmã dela. Maconha? Ela jurava de pés juntos que Santana era usuária casual e que tinha responsabilidade e juízo suficiente para se controlar. Mas eu era do partido de que droga era droga: ou você estava dentro ou estava limpa. Sei que Rachel nunca experimentou esse tipo de coisa, o que era um alívio. Sinceramente eu não saberia como agir se ela se metesse com esses lixos. Eu a amava demais para fazer vistas grossas a hábitos repugnantes. Por mim, Santana já teria levado uma surra de cinta para aprender a ficar longe dessas coisas.
Olhei o relógio novamente. Ainda não deu tempo de a peça terminar e eu odiaria ir dormir sem ao menos ouvir a voz da minha lady. Procurei me concentrar no trabalho. Quanto mais o adiantasse, mais teria o meu fim de semana livre e eu estava louca para ir a feira de livros de Nova York. Havia alguns títulos que gostaria muito de ler e era possível achar exemplares novinhos a preço de sebo. Era uma questão de procurar. Depois, poderia também ver alguns livrinhos infantis para Beth. Um desses com muitas figuras onde ela poderia folhear, brincar, imaginar. Bem como eu fazia quando era pequena. Pensar em Beth sempre me acalmava. Muitas vezes penso como seria se não a tivesse colocado para adoção ou se, em vez de Shelby, outra pessoa que nunca vi na vida a criasse. Não! As coisas aconteceram como deveriam ser: podia acompanhar o desenvolvimento da minha filha e ainda tinha a chance de lutar e de crescer, de ser alguém. Então, quando Beth crescesse e entendesse as coisas, poderia mostrar que a minha decisão deu chance para que ela desfrutasse de uma infância maravilhosa ao lado de Shelby e de Juan, onde nada lhe faltaria: nem recursos, nem amor. E que também me deu a oportunidade de me tornar alguém que seria motivo de orgulho para minha filha.
Meu celular tocou e me tirou no mundo dos sonhos.
"Quinn?" – era Rachel falando de um jeito excitado.
"Oi Rachel. Como foi?"
"Nós arrasamos. Estou tão feliz que a gente conseguiu fazer um bom espetáculo. Erramos quase nada desta vez e eu não vacilei naquela parte de 'Helter Skelter'"
"Fico feliz" – gargalhei com a animação da minha namorada.
"Quinn, houve uma mudança de planos. Você poderia me pegar no aeroporto segunda-feira de manhã? Consegui adiantar o meu voo."
"Claro! Que horas?"
"Acho que vou chegar às sete horas... te confirmo amanhã com mais calma."
"Perfeito!" – na verdade nem tanto porque teria de faltar aulas na NYU – "O que vai fazer agora?"
"A produção aqui ofereceu comes e bebes para o elenco num restaurante. Estou indo para lá com o pessoal só para marcar presença. Depois vou para o hotel. Estou sentindo que vou gripar nesse clima da Califórnia."
"Descanse o máximo que puder. Sei que está trabalhando duro nesses últimos dias."
"Estou mesmo!" – ouvi ruídos de pessoas gritando por Rachel ao fundo – "Tenho que ir. Só queria dizer que está tudo bem e para te desejar boa noite."
"E nada mais?" – provoquei.
"E para dizer que te amo, Quinn Fabray!"
"Também te amo Rachel Berry-Lopez. Divirta-se e depois descanse."
"Volto a ligar amanhã. Te amo."
Meu coração estava um pouco mais tranqüilo depois de falar com Rachel, mas nem tanto assim. Pelo menos já poderia dormir enquanto as irmãs Berry-Lopez estavam na farra: cada uma em um extremo do país.
...
Passei o dia quase todo fora de casa. Quando voltei com uma sacola pesada de livros, encontrei Santana com a camiseta azul sem-graça da Columbia que tinha o leão símbolo atrás. Eu precisava ter algum despeito com aquilo já que os alunos da universidade dela adoravam tirar onda com os estudantes da NYU. Diziam que era faculdade gay porque nossa cor era o violeta. Babacas.
"Você não vai?" – fiquei com cara de interrogação – "Hoje o meu coral vai se apresentar junto com as líderes de torcida antes e durante o intervalo do jogo de basquete dos Lions."
"É verdade!" – Santana tinha falando dessa bendita apresentação dias atrás, mas acabei me esquecendo – "Só vou guardar essa sacola e usar o banheiro."
E eu que queria tanto um banho demorado e colocar os pés para cima depois, só tive tempo para um xixi e para escovar os dentes. Se não fosse para o jogo e para a apresentação, era capaz de uma tempestade cair na minha cabeça depois. Não estava afim de metrô, então paguei um táxi para nós. Santana era a estrela do coral. Ela só não tinha a mesma fome de Rachel em ser a estrela. Situações diferentes. Ao passo que Santana só participava pelo prazer de cantar, Rachel pensava em toda uma carreira que acabou se concretizando. Encontramos Mike e Johnny esperando por nós na entrada do ginásio. Santana os abraçou antes de distribuir os ingressos e correr para os bastidores. Os Lions estavam péssimos no basquete naquela temporada para a alegria dos Violets. Eram melhores nos jogos de futebol americano e de baseball, no entanto. E eu, aluna da NYU, era obrigada a torcer para os Lions por causa da Santana. Os meninos já tinham escolhido a Columbia mesmo.
As luzes se apagaram e houve gritos e assobios. Um conhecido jogador de futebol americano metido a rapper começou a vocalizar os primeiros versos de "What's My Name?", da Rihanna. Logo em seguida, Santana entrava fazendo a parte da cantora enquanto as líderes de torcida evoluíam numa coreografia que não era lá essas coisas. Sue Sylvester planejava coisas bem mais interessantes conosco. O arranjo que o DJ fez para a música era mais pesado que o original. Não era o meu tipo de som favorito, mas gostei da apresentação. Santana detonava nesse tipo de música, apesar deste não ser o estilo de som que a própria escutava em casa: minha cunhada era fã de rock inglês. Era em momentos assim que me batia saudades do velho coral de Lima. Se bem que, convenhamos, o prazer de cantar por cantar era muito mais interessante para mim do que as apresentações. Rachel foi feita para os palcos, Santana não negava que tinha o gene. Eu? Cantar no chuveiro me satisfazia àquela altura.
Como sempre, os Lions estavam fazendo de tudo para perder dentro de casa e, no intervalo do segundo para o terceiro quarto, as líderes de torcida entraram com o coral todo a fim de cantar um bom clássico de Nova York. Um cara do coral, um loirinho com o cabelo despenteado, começou a cantar com toda a força dos pulmões. "Last night she Said/ oh, baby, i feel so down/ oh, and turned me off/ so i, i turned around/ oh, baby, i don't care no more/ i know this for sure/ i'm walking out that door". O coral inteiro entrava em seguida fazendo arranjos sem necessariamente entrar no solo do loiro. "Well, i've been in town/ for about fifteen whole minutes now/ oh, baby, i feel so down/ and i don't know why/ i keep walking for Miles". Gostei do show. Particularmente gostava daquela música dos Strokes.
Os Lions ganharam por um ridículo ponto, mas era o suficiente para mantê-los vivos no campeonato. Enquanto as pessoas deixavam o ginásio animadas com a vitória, ficamos esperando Santana. Ela apareceu de mãos dadas com um cara com jeito de nerd, mas até que bonitinho.
"Olá pessoal, vocês já conhecem o Andrew, não é?" – então esse é o namoradinho.
Nós o cumprimentamos e saímos para comer alguma coisa. Tom's Restaurant era sempre uma boa pedida, mas costuma ficar lotado em dias de jogos dos Lions. Mesmo assim arriscamos e conseguimos comer um dos hambúrgueres mais famosos, talvez do mundo. O dia foi muito cansativo, mas agradável. Só faltou Rachel. Quanto a Andrew, não o achei nada de mais. A primeira vista, parecia até uma boa influência a Santana.
Quando chegamos em casa, já no início da madrugada. Fui tomar um banho, desses de limpar o corpo, colocar o pijama e dormir. Eu não sei em que ordem eu fiz essas coisas, só sei que apaguei. Acordei no outro dia, pela manhã, com Santana me batendo com o kipá dela.
"O que foi?" – falei irritada.
"Você não vai assistir a sua missa hoje?"
Até nisso Rachel me fazia falta: era o meu despertador mais eficiente e me acordava de um jeito muito mais gentil do que a irmã dela. Não que eu quisesse esse tipo de gentileza de Santana. Levantei num pulo, mal escovei os dentes e fui para a minha missa sem nada no estômago. Vi que a secretária eletrônica tinha seis recados. Alguns deles tinham certeza que eram da Rachel, mas só poderia ouvi-los quando voltasse. Mesmo em Murray Hill, continuei a freqüentar a igreja a área do campus da NYU. Rachel e Santana também continuaram a ir à sinagoga na mesma rua. Só tínhamos de pegar o metrô em vez de ir de bicicleta. Mal consegui me concentrar no sermão do pastor. Tudo que conseguia pensar era no anel de ouro no meu dedo da mão esquerda e nos recados da secretária eletrônica.
