Capítulo 21 - Manhã Conturbada.
MEU PEQUENO HERDEIRO
SASUKE
Se eu disser que dormir o restante da noite eu estaria mentindo, pois, cada movimento que Itachi fazia na cama era uma pesada nas minhas costelas. Aquele molequinho era muito inquieto, deveria ter puxado a Sakura, por que de mim, eu garanto que não.
Acordei com o sol que entrava pela janela aberta, bater em minha cara, queimando minha pele. Levei meu braço para frente dos meus olhos e os abri lentamente, por causa da claridade. Remexi-me na cama, mas senti um peso extra em minha barriga, me fazendo parar. Abaixei meu olhar e vi Itachi dormindo atravessado com os braços abertos e com as duas pernas em cima da minha barriga, totalmente descoberto. E agora parando para perceber, eu também estava descoberto, o cobertor junto com o travesseiro que Itachi dormia estavam caídos no chão.
O pestinha dormia num sono profundo, parecia um anjinho, tão vulnerável e pequeno. Meu filho.
Não consegui evitar que o canto esquerdo de minha boca erguesse para cima, diante daquela cena. Eu nunca fui um cara que demonstra sentimentos, sempre ocultei o que eu sentia. E agora eu me via ali, me sentindo um pai babão que velava o sono de sua cria.
Passei a mão em meu rosto e olhei o pequeno relógio despertador que ficava na pequena cômoda, junto com um pequeno porta-retratos com uma foto antiga do time 7, uma das poucas coisas que eu consegui salvar do distrito depois que Konoha foi atacada anos atrás por um dos membros da Akatsuki.
Meu coração gelou e meus olhos arregalaram levemente quando vi que faltava menos de meia hora para que Itachi estivesse na escolinha.
— Puta merda.
Levantei-me da cama num pulo, eu estava muito atrasado para levar Itachi para escola.
Havia dormido demais.
— Itachi, acorda. - minha voz saiu alto o suficiente para que ele pudesse acordar.
Sentia meu corpo dolorido por causa da noite mal dormida e minha cabeça pinicava, mas ignorei e fui pegar roupas limpas no guarda-roupa e as vesti rapidamente. Voltei minha atenção para a cama enquanto ia com passos corridos até o banheiro. Aquele pedaço de gente ainda estava dormindo, agora virado para o lado.
— Itachi, se levante, você tem escola. - disse mais uma vez, tentando manter a paciência, que ele só podia está testando.
Entrei no banheiro e fiz minha higiene batendo o meu recorde de velocidade. Meu rosto estava uma merda, estava com olheiras por debaixo dos olhos e meus cabelos arrepiados como se eu tivesse levado um choque elétrico. Dei um jeito em minha aparência e logo votei para o quarto.
Bufei.
— Itachi, acorda!
Ele se remexeu, mas não acordou.
Aproximei-me da cama e comecei a mexer com ele.
— Itachi, você tem escola.
— Eu não quero ir. - ele disse com a voz manhosa, banhada em sono.
Olhei novamente para o relógio, agora só tinha vinte minutos para estar lá. Era hoje que a Sakura me matava.
Puxei a perna de Itachi para vim para mais perto e o peguei desajeitadamente no colo, pois aquela criaturinha fez o prazer de deixar o corpo totalmente mole para dificultar as coisas para mim.
Saí do meu quarto e entrei no dele. Ignorei o lençol e o travesseio jogado pelo chão e o coloquei sentado na cama, mas ele caiu para o lado, me fazendo soltar um suspiro irritado. Peguei a mochila que Sakura havia trazido que estava num canto, e tirei uma muda de roupa.
— Itachi, levanta.
— Me deixa domi um pouquinho.
— Nós estamos atrasados!
Não sabia por que eu ficava repetindo a mesma frase, pois eu sabia que ele estava pouco se fudendo para mim, e do fato de chegar atrasado na escolinha, e de Sakura ficar sabendo por terceiros e cair na minha pele.
Aquilo tinha como ficar pior?
Um pouco desajeitado tirei aquele pijama dele, me embolando um pouco nos botões de seu casaco. A Sakura não poderia ter comprado um pijama que vestisse mais fácil não? Parecia que tudo se tornava difícil quando o tempo era curto. Inferno.
Depois de algum tempo e minutos raros gastados depois, consegui colocar uma roupa em Itachi que não havia ajudado em nada. Com muito custo consegui fazer com que aquele pestinha ficasse de pé, e o guiei até o banheiro com uma escova com pasta na mão.
— Você escove os dentes que eu vou preparar algo para você comer e levar, tudo bem?
Ele apenas assentiu com a cabeça ainda com os olhos semicerrados de sono. Agora eu estava sentindo na pele o porquê de Sakura ter deixado claro para não o deixar até tarde acordado.
Corri para cozinha e pensei um pouco o que fazer para ele poder comer no café da manhã. Abri a geladeira procurando algo, eu tinha que fazer uma compra urgentemente para dentro de casa. Preparei algo rápido e prático para Itachi comer de café da manhã, e fui preparar o bentō para ele levar.
Itachi não demorou e logo desceu, aparecendo na cozinha, agora mais desperto e com a mochila nas costas. Sua camisa estava um pouco molhada em cima, mas não tínhamos mais tempo, teria que ir daquele jeito, o vento faria o favor de secar.
— Senta e come rápido. - disse, voltando a terminar de preparar o bentō e o enrolando de qualquer jeito num pano azul de algodão.
Virei-me para o meu filho que comia um bolinho de arroz na velocidade de uma lesma. Franzi o cenho.
— Vamos.
Ele ergueu seus olhos verdes para mim, e disse com a boca cheia:
— Ma eu no temine.
Ignorei aquele fato de que era falta de educação falar com a boca cheia, peguei sua mochila que ele havia deixado no chão e o puxei pelo braço, para que descesse da cadeira.
— Não temos mais tempo. - peguei uns dois bolinhos e dei para ele segurar e o puxei em seguida para fora da cozinha.
Dei uma olhada para o relógio da sala, e droga, eu só tinha dois minutos. Saímos da casa, tranquei a porta e peguei Itachi no colo que devorava o segundo bolinho.
Usei um Shunshin no Jutsu. Segundos depois apareci em frente à escolinha, estranhamente estava vazia, e sem nenhuma daquelas mulheres fofoqueira que levava seus filhos.
Será que era tão tarde assim?
— Como você fez isso? - minha atenção foi até Itachi que estava no meu colo e terminava de comer o último bolinho.
— Isso o quê?
Seus olhos verdes e grandes estavam vidrados em mim, brilhantes.
— De desaparecer e aparecer aqui!
Mesmo estando naquela situação espalhafatosa eu não pude deixar de achar incrível aquela sensação que subia no meu peito, ao ver a expressão admirada de meu filho para o pai incrível que eu era.
O coloquei no chão.
— Shunshin no Jutsu. - eu disse, andando até o portão entreaberto da escolinha.
— Eu queria fazer isso.
Abaixei meu olhar para ele que me seguia ao meu lado.
— Você vai aprender um dia.
Ele me olhou.
— É mesmo?
O canto esquerdo da minha boca se ergueu para cima.
— Sim.
Itachi abriu um sorriso aberto, com todos os dentes pequenos a mostra.
Voltei minha atenção para frente, a tempo de ver uma mulher - que deveria ter um cinquenta e poucos anos - sair pelo portão, e nos fitou em seguida, franzindo o cenho.
— Pois não? - seu olhar desviou de mim para o meu filho.
— Vim deixá-lo. - falei, me preparando para entregar a mochila de Itachi para ele.
O olhar da mulher focou em mim.
— Hoje não tem aula.
Franzi a sobrancelha.
— Como não?
— Ontem todos os alunos foram informados sobre hoje, e os professores mandaram um recado nos cadernos deles, alertando os pais.
Automaticamente meus olhos focaram em Itachi que estava com uma cara espantada fitando aquela mulher.
— Pelo o que estou vendo você não sabia. - ela concluiu.
— Não. - respondi, meus lábios crispados enquanto me controlava para não ter um treco e surtar.
— Hoje foi um dia marcado para uma reunião com os professores sobre a desenvoltura de cada turma. - a mulher explicou.
— Tudo bem.
Voltei a olhar meu filho mais uma vez, antes de dar às costas aquela mulher e saí dali.
O infarto havia batido a minha porta mais cedo essa manhã, e tudo porque eu havia dormido demais e estava atrasado para levar Itachi para a escola. E quando chego - medindo cada segundo -, descubro que não havia aula.
Se eu estava com raiva?
Eu estava ardendo de ódio.
Itachi caminhava ao meu lado, e não falava nenhuma palavra, talvez ele tenha percebido pela minha cara que eu não estava para lá do meu bom humor.
Calma, Sasuke, ele é só uma criança. Tenha paciência. Eu dizia para mim mesmo, enquanto me controlava para não brigar com o meu filho.
Depois de alguns minutos andando em silêncio, resolvi quebrar o silêncio:
— Por que você não me disse que hoje não havia aula? - perguntei, com a voz mais calma.
Aquele pestinha ergueu seus olhos para mim, com aquela expressão de inocência fingida.
— Eu esqueci.
— É, mais esse seu esquecimento me fez te tirar cedo da cama e correr para a escolinha. — E eu também.
— Mas a sensei colou um recado no caderno. - ele disse como se fosse o óbvio.
— Mas como eu iria saber que tinha um recado no seu caderno, se você não disse nada?
Ele estava pensando que eu era uma espécie de adivinho?
— Mas a mamãe sempre olha meu caderno.
Tá. Admito que o erro havia sido meu, por não ter pegado seu caderno para averiguar. Mas porra, como eu iria saber? Era a primeira vez que eu era pai!
Suspirei.
— Tudo bem. - murmurei, pegando sua mão. - Vamos para casa.
Andamos pelo interior da aldeia, e como ontem, os olhares curiosos eram direcionados para mim e meu filho, mas eu pouco estava me importando. A essa altura, toda vila já estava ciente que Sasuke Uchiha tinha um herdeiro, mas as pessoas curiosas faziam questão de tirar a prova.
— Olha o que temos aqui, o Superpai!
Revirei os olhos quando aquela ameba do Sai entrou no meu campo de visão, Naruto estava ao seu lado para completar.
— E aí, teme. - o imbecil do meu amigo sorriu e depois fitou meu filho. - Olá, Itachi.
— Oi. - ele respondeu baixinho, se encolhendo para perto de mim.
Naruto sorriu e depois me olhou.
— Seu filho é mais sociável do que você.
Bufei mais uma vez.
— Então esse é a sua cria com a feiosa?
Tinha que ser aquele imbecil do Sai para fazer aquele comentário babaca dele. Eu iria dar uma bela de uma resposta ou até mesmo uma de minhas patadas, mas meu filho se apressou primeiro:
— Minha mãe não é feia. - a voz grave e irritada de Itachi era alta. Sorri quando vi a expressão fria de seu rosto.
— Caraca! - Naruto arregalou os olhos e olhou de Itachi para mim. - Sasuke o garoto fez igualzinho a você quando está com ódio. - em seguida gargalhou.
— Tal pai, tal filho. - disse o branquelo sorrindo.
— Vocês dois não tem mais nada para fazerem não? - questionei com a minha voz seca.
— Eu estava indo para a casa da Ino quando esbarrei nesse desesperado por manga. - respondeu Sai, apontando para Naruto.
Uni as sobrancelhas e olhei confuso para aquele dobe do meu melhor amigo.
— Manga?
— A Hinata está com vontade de comer manga com sal. - seu rosto era desesperado. - O sal tem em casa, mas porra, como eu vou encontrar um pé manga por aqui?
— No supermercado? - questionei como se fosse óbvio.
— Se tivesse manga no supermercado eu não estaria arrancando meus cabelos. - ele disse, estava irritado. - Não tem manga em lugar nenhum. E o pior, é que a Hinata falou para eu não voltar para casa sem pelo menos uma dúzia de mangas, se não meu filho iria nascer com a cara de uma.
— Isso é um problema. - eu disse por falar mesmo, mas pouco estava me lixando para seu desespero.
— Eu comi manga lá na aldeia na nevoa. - começou Itachi se intrometendo na conversa, atraindo a atenção de todos para si. - O tio Chojuro trouxe um monte para mim e a mamãe.
— Aldeia da névoa? - questionou Naruto. - Isso é muito longe, Itachi, meu filho não pode nascer com cara de manga. Tem que nascer bonito que nem o pai.
Quem diabos é Chojuro? Agora parando para pensar, Sakura sozinha numa aldeia diferente, isso era igual a urubus rondando o que era meu.
— Nascer com cara de manga é até uma vantagem para o seu filho, melhor do que a sua cara feia. - disse Sai, venenoso, me fazendo voltar a dar atenção para aquela briga idiota deles.
— Imbecil. - Naruto ralhou olhando o branquelo que parecia que não estava afetado pela cara feia do outro. - Feio é você com essa cara branca. A Ino só pode está louca para achar beleza em você.
— Eu faço essa mesma pergunta, Hinata deve estar muito apaixonada por você, pois o que tem de feio tem de pinto pequeno.
Eu mereço, revirei os olhos.
— Sai, seu desgraçado! - gritou Naruto, tentando dar um soco no outro, mas o branquelo foi mais rápido em desviar. - Pare de ficar falando essas coisas, seu idiota.
— Eu vou embora. - disse puxando Itachi comigo, não podia deixar meu filho assistir aquele antro de idiotice, era contagioso.
— Ei, Sasuke, para onde está indo? - perguntou Naruto.
— Indo para casa. - parei de andar e virei minha cabeça para trás e o fitei. - Daqui a umas duas vilas depois da aldeia, tem um pé de manga.
Voltei minha atenção para frente e voltei a puxar meu filho, enquanto eu escutava um Valeu Sasuke animado de Naruto. Eu lembrava que havia visto algum pé dessa fruta numa dessas minhas vindas para casa nas missões. Mas Naruto era lerdo o bastante para perceber que não estávamos na época das mangas, e completamente daria com os burros n'água.
Reprimi um sorriso, e Itachi me chamou:
— Papai.
Abaixei meu olhar para ele.
— O que foi?
— Eu quero comer manga.
Não era preciso dizer que minha expressão era incrédula para meu filho, que passava a língua no lábio inferior.
Era só o que me faltava.
