Em seu luxuoso quarto, Hassam deixou Talia repousar naquela noite. Pôs a moça deitada na sua cama, e apenas se sentou ao lado daquele belo corpo que parecia um pouco mais pesado.
- Se eu fosse um pintor, registraria você abandonada nesse meio de lençóis e travesseiros! Mas não tenho esse magnífico dom, embora costumava praticar pinturas quando era mais jovem.
- Não fala assim... - disse a outra, encabulada. - Vou ver se durmo tranquila, tenha uma boa noite! - ela se virou para o lado.
- Ei! Não quer conversar mais um pouco? Adoraria adormecer ouvindo sua voz...
- Hmm... estou sonolenta... quero mais dormir que falar... - ela se espreguiçou na cama, dando atenção ao jovem rei.
- Também sinto o sono chegando... mas quero estar feliz ao seu lado quando ele chegar... - disse ele, baijando-lhe as delicadas mãos devotamente.
Ela sentiu um pouco de desconforto ao ver Hassam cada vez mais íntimo. Não que ela sentisse um incômodo profundo, agradava-lhe tê-lo como sua companhia. Ela estava se acostumando com sua pessoa, com seu jeito, sentia-se mais "familiar" com ele... mas ele não era o seu homem. O seu homem estava sabe os céus onde, preso, solitário, talvez faminto, torturado... e saudoso dela. Vinha na memória os momentos que passaram juntos, mesmo como uma simples criada, quando apenas o amava secretamente. Veio o choro que não podia segurar. Hassam viu aquilo, apenas abraçando-a para confortá-la.
- Desculpa esse homem infeliz! - disse Hassam, pouco arrependido da tal intimidade.
- Não, Hassam... não é culpa sua. Sou eu a errada, por saber de tudo, e ainda por cima...
Hassam rompeu aquele discurso de culpa com um beijo atrevido nos lábios da outra. Era mais forte que ele. Já estava pronto para ouvir Talia o esbofeteando e pedindo para ir embora. Ma só que ele podia fazer, tendo em seu lado uma mulher que tanto ama e que não é correspondido? Mas Talia acabou permitindo seu beijo. E Hassam continuou a beijar os lábios por algum tempo, até parar e olhar bem nos olhos verdes dela.
- Pode me matar.
- Matar? Por um beijo? Não... Sei que faz isso por amor, e que jamais me forçaria a deitar com você para satisfazê-lo. Um beijo no instinto de confortar não é uma atitude agressiva... mas...
- Mas o que? Sentiu-se mal com isso? Pode falar, Talia! Diga o que realmente achou!
- Apenas peço... que não torne intenso esse amor por mim. Não sou digna dele, Hassam. Não é pelo fato de amar uma outra pessoa, e sim por eu não ser digna de você!
Hassam segurou-a nos braços levemente, fazendo-a encará-lo.
- Por que... diz que não é digna do meu amor?
- Acho que... o rei merece alguém melhor que eu!
- Não existe criatura mais digna do meu amor que você, Talia! Só não insistirei porque não quero jamais aborrecê-la! Minha preocupação é você, Talia! Prefiro que seja feliz ao lado do homem que ama que infeliz ao meu lado!
Ela respondeu com um abraço.
- Vamos dormir, que o amanhã nos espera. Quero ver se conseguimos convencer a Marinha aceitar que me comunique com Crocodile por cartas, pelo menos isso.
Ouvir o nome daquele homem doía-lhe a alma. Mas aquela era verdade, e ele tinha que aceitar. Talvez se a morena tivesse apaixonada por alguém de nobre alma, ele perdoaria. Mas o mandante do assassinato que fulminou com a vida do seu velho pai... era duro de lidar com isso.
- Vamos...
Ele se levantou, deixando a cama toda só para ela. Mas Talia perguntou algo que ele não esperava.
- Não quer dividir o seu leito comigo?
- Não, é todo seu! Vou dormir aqui no divã.
- ...tudo bem.
Hassam fez do confortável divã sua cama, deixando-a dormir em paz. Não imaginou que aquela seria mais uma noite frustrada...
…...
Na manhã seguinte, o rei de Namasis comunicou com a Marinha a respeito do tal prisioneiro que destruiu Alabasta por três anos. Teve o direito de visitar a sede principal da Marinha, onde estavam os prisioneiros da organização Baroque Works. Talia havia escrito uma outra carta, e nesta mesma, contava sobre a gravidez e os planos de voltar para Alabasta. Talia estava pensando em pedir a Hassam para entregá-la de volta ao rei, já que antes de ser criada de Crocodile, era uma das dançarinas do Rei Cobra. E Alabasta era sua terra natal. Mas isso, só aquela segunda carta sabia. Hassam ainda nem imaginava que ela planejava lhe fazer o pedido.
Hassam foi com as duas cartas de Talia, esperando que a Marinha aceitasse. Teve o pedido recusado de entregar a carta pessoalmente para Crocodile, mas pode deixar com a Marinha, já que os pertences de valor dele estavam lá. E mesmo que Hassam quisesse falar com Sir Crocodile naquele dia, não teria mais essa chance, porque o ex-chefe da Baroque Works já tinha sido enviado para Impel Down. Um dos oficiais a levá-lo até a saída da base da Marinha foi Smoker. Durante o trajeto, Hassam o parabenizou pelo trabalho feito em Alabasta. Smoker "agradeceu" com uma leve careta, parecendo não muito satisfeito.
- Mas, fora a respeito dos acontecimentos em Alabasta, sabe se há uma possibilidade de... poder dirigir a palavra com algum prisioneiro que está em Impel Down?
- ...por que pergunta isso, Rei Hassam? - a voz séria e grave de Smoker o questionou, com ar desconfiado.
- Bem... uma pessoa que era ligada a ele em Alabasta tinha interesse em lhe falar pela última vez...
- Quer que eu lhe seja franco? - Smoker parou no caminho. - Uma vez que um prisioneiro está em Impel Down, acaba-se qualquer tipo de relação no mundo afora. E quando não morrem sob torturas, são nas execuções. Eu... sinto por essa pessoa.
E ambos continuaram o caminho. Hassam ficou impressionado com a frieza que Smoker lhe falava. O ruivo sentiu muito por Talia.
- Essa pessoa... era alguém muito próxima a ele? - perguntou o homem de cabelos brancos.
- Sim.
- Entendo... é uma pessoa conhecida do povo?
- Não... uma pessoa anônima, que até me pediu sigilo, queria comunicar-se com Crocodile. Mas terá que se conformar com tal impossibilidade.
- Crocodile só espera o pior. De onde está, só sai dali para ser executado.
Agora, foi Hassam que parou no caminho.
- É extremo a situação deste prisioneiro?
- Bastante. Deve ter sido preso em um dos últimos setores do maior presídio do mundo. É lá que estão os piores criminosos. E lá, só podem ver a luz do dia quando forem condenados a execução. É assim que funcionam as coisas.
- Entendo.
- Sinto por essa pessoa... mas as cartas estão com os pertences dele. Se um dia for necessário entregar tudo para ele, ou para alguém que seja próximo a ele, todos os pertences e documentos serão fielmente entregues.
E seguiram adiante. Hassam imaginou se Talia ouvisse tudo aquilo, grávida e apaixonada por um homem que não tende a ter um final feliz.
…...
- Mas as cartas poderão ser entregues mesmo se ele estiver nessa tal Impel Down? - perguntou Talia, esperançosa.
- Sim, desde que... ele tenha um bom comportamento e não seja um prisioneiro desobediente. - disse Hassam, tentando deixá-la tranquila.
- Ah, fico mais aliviada! Sei que, quando ele souber do filho, não vai se sentir bem por estar distante, mas, pelo menos saberá que vou gerar e dar à luz a um filho dele, e que sua descendência será próspera.
"Só espero que essa descendência herde o seu lado, sua personalidade, sua doçura, Talia. Só o seu lado, seu sangue!" pedia Hassam, para si mesmo. Acolheu Talia em um abraço. Pensou muito nela, no filho dela. E se Crocodile sofresse o pior destino de um criminoso? Não queria ver Talia sofrer, e agora isso era o que mais queria.
- E... também, gostaria de fazer um pedido ao meu grande amigo!
- Pois faça!
- Bem... sinto falta de Alabasta, da minha terra natal. Antes de ser criada de Sir Crocodile, morava no palácio do Rei Cobra, e era tratada muito bem lá. Quero... morar novamente lá!
Hassam quase caiu em choque. Separar-se... dela?
- Sinto falta da minha terra natal, e sei que o rei vai me acolher novamente. E poderemos sempre nos ver!
- ...bem, er... esse pedido me pegou desprevenido, sabe?
- Ah, Hassam! Não quero te dar mais trabalho...
- Nunca me deu trabalho, só orgulho, Talia. Antes de tudo, você é uma pessoa de caráter. Sabe ser respeitosa e fiel a pessoa que ama, mesmo que essa pessoa... não seja digna de um amor de uma pessoa tão boa e doce!
Talia sorriu, compreensiva. Ela sabia que Hassam não tolerava Crocodile por reais razões. Não quis contestá-lo. E o próprio acabou concordando com a decisão da Talia.
- Sim, Talia. Mas hei sempre de vê-la, avise ao Rei Cobra que hei sempre de vê-la! - terminou a sentença beijando amistosamente as mãos da morena.
No dia seguinte mesmo, Hassam disse que a levaria para o rei como uma surpresa. E assim o fez. Deu a Talia as melhores servas para arrumá-la. Como uma princesa, ela foi vestida e trazida até Alabasta. Veio escondida, sob o pretexto de Hassam de conversar sobre negócios com Cobra.
Ao receber Hassam, Cobra ficou muito feliz, apesar de estar um pouco abatido.
- Então... negócios? Venha, meu filho, sente-se comigo! Conte-me, que negócios quer tratar comigo, se esse velho rei ainda for útil?
- Bem... é um simples negócio. Tem uma pessoa que conseguiu sobreviver grandes tempestades de areia e sobreviveu graças a ajuda de um rei apaixonado e de um amigo de infância. E essa pessoa quer ver muito Vossa Majestade!
- Como assim, não entendi...
- Espere aqui, Majestade! Vou mandar meus servos trazerem essa pessoa!
Cobra olhava sério, desconfiado. Pensou que fosse alguém relacionado a organização criminosa de Crocodile. Veio a pessoa, com Hassam. Vestia toda de branco, com um véu tampando o belo rosto.
- Essa pessoa quer voltar para sua terra de origem... e para sua antiga casa!
Logo Cobra percebeu quem era. Levantou-se, e foi até ela.
- ...Talia! - abraçou-a como um pai orgulhoso, e realmente ele estava emocionado. - Achei que você... estava morta!
Talia chorava bastante. O rei sempre foi muito gentil com ela. Cobra retirou o véu delicadamente do rosto dela, vendo-a tão bela e saudável novamente.
- Oh... parece que está mais gordinha! Oh, Hassam! Soube cuidar dela melhor que eu! - disse ele, com muitas lágrimas escorrendo pelo rosto. - E eu... fui um cego em te entregar para aquele impostor! ...Perdoe-me Talia, perdoe esse velho rei! - Cobra caiu aos pés dela.
- Por favor, Majestade! Não se curve diante de mim! - ela se agachou, acolhendo o rei.
Hassam viu que não poderia ter tomado decisão melhor que esta. Sentia orgulho de si mesmo... por ela. Cobra anunciou por todo o palácio que Talia estava viva e sã. Somente as outras dançarinas ela não pode rever, pois fugiram e nunca mais voltaram. Mas as antigas servas dela vieram saudá-la. Quando soube por vozes que Talia tinha voltado, Rajar acabou ultrajando a lei de respeito dos soldados e invadindo o salão do palácio. Ao ver o rei, curvou-se em respeito, pedindo desculpas antes de tudo.
- Não precisa de formalidades, Rajar! Vai ser sua amiga! - disse o rei para o soldado, que correu até o encontro dela, abraçando-a bem forte e também foi abraçar Hassam, seu mais novo grande amigo.
Foi uma tarde de reencontros e lágrimas. Até a princesa Vivi, que não tinha muita afeição por Talia, recebeu-a com todo o carinho. O rei fez questão que Rajar e parte da corte que veio permanecesse alguns dias por lá. Esse pedido parecia que veio dos céus, seria um bom tempo para explicar o rei a situação de Talia em relação ao bebê que estava chegando.
