Capítulo 21

Irina estava na sala do costume à espera de Elle enquanto pensava. Albus era uma pessoa fantástica e Irina gostava muito dele agora que o conhecia. No passado apenas o admirava, mas agora gostava dele como se de um amigo se tratasse, ele já não lhe parecia ser aquele homem inalcançável que ela e Elle imaginavam nas altas noites de Pahtellons, era apenas… um homem. Claro que sempre brilhante e poderosíssimo, mas tão homem como os homens que ela conhecera ao longo da sua pequena vida. Mas apesar de o admirar, não deixava de a irritar o facto de se ter chateado com ela por causa de Snape.

- Hey, o que se passa, Irina? – Elle perguntou, tocando-lhe no ombro. A amiga nem sequer se apercebera dela a entrar.

- Nada, estava apenas a pensar em tudo isto. Estava muito absorvida, acho. – Irina respondeu, abraçando-a fortemente.

- Está tudo bem? – Elle olhava-a desconfiada. – Diz-me a verdade, Irina. Tu sabes que o podes fazer.

- Não é nada, Elle, temos tido algumas dificuldades nos feitiços não-verbais, mas de resto está tudo óptimo. – Irina sorriu. – Bem, dentro dos possíveis.

- Ainda bem. – Elle falou. – Então e a investigação do Dumbledore, como está a ir?

- Mais ou menos. A verdade, Elle, é que eu não tenho pensado muito no assunto. Desculpa, eu sei que fui eu que dei a ideia de investigarmos o Snape e o Dumbledore, mas não tenho tido tempo. – Irina respondeu cansada. – Nem todas podem ser super-mulheres como tu. – Ela brincou com um sorriso espelhado nos lábios.

- Não sejas parva, mas, por acaso, as reuniões estão a correr bem. No entanto, como é evidente, continuamos a receber más notícias. – Elle falou de Mafalda.

- Oh, que horror! Grávida! – Irina começou a chorar, cada vez mais a morte batia-lhe à porta e a dor de perder alguém aumentava.

- Eu sei. – Elle abraçou-a. – Também quero estar ao pé das pessoas que amo. – Elle disse, pois percebeu as lágrimas da amiga.

- Sempre foste mais corajosa do que eu… - Irina disse fracamente.

- Não… Irina, somos ambas corajosas… Não te iludas com a minha aparência, sabes bem que sou boa a esconder o que sinto. – Elle replicou. – Sempre fui. Mas tu, Irina, és uma das pessoas mais fortes e corajosas que conheço.

- Tu também, Elle. – Irina sorriu. – Não te podes esquecer que nós somos as Gémeas.

- Para sempre, até ao fim. – Elle apertou o abraço. – Eu sei que ele parece perto, mas nós vamos conseguir. Talvez não sobrevivamos, e eu não escondo que essa ideia me assusta, mas o Bem vencerá, eu tenho a certeza absoluta disso.

- É claro! – Irina separou-se do abraço. – Eu não sei quando, mas um dia destes entrarei por esta sala e dar-te-ei uma notícia que te vai agradar deveras. Talvez essa notícia seja pequena, mas num mundo assim qualquer coisa boa importa.

- Podes crer, Irina, podes crer. – Elle sentou-se. – Então e o xadrez? Como está?

- Estou muito melhor. – Irina respondeu. – Ficarias surpreendida.

- Eu quero ficar surpreendida. – Disse Elle, tirando um tabuleiro de xadrez de dentro da mala. – Jogamos?

- Jogamos. – Respondeu Irina, sorridente.

- Xeque-mate. – Elle disse por fim, deixando uma Irina amuada. – Melhoraste bastante, Irina.

- Pena é que não consiga vencer a ninguém. – Ela falou, rindo-se suavemente. – Serei sempre um fracasso a xadrez.

- De maneira nenhuma. – Elle assegurou francamente. – Estás espectacular, Irina. Nunca pensei ver-te a evoluir tão rapidamente. – Albus dissera-lhe o mesmo sobre a Animagia.

- Ah, merda, olha para as horas. – Irina falou, olhando para as horas, era quase hora de recolher.

- Oh, raios! Eu vou primeiro. – Elle disse, saíndo. Irina saiu cinco minutos depois com extremo cuidado.

- Bom, parece-me que ela não vem, Albus. – Snape disse, entrando na sala e vendo que Irina não estava lá. Segundo o velho ela ficava até ao limite da hora do recolher.

- Talvez eu me tenha enganado em relação à Irina e ela não esteja tão determinada como eu disse. – Dumbledore falou com pesar, a verdade é que gostava muito da menina, ela era tão gentil.

- Oh, Albus, pronto, eu posso ir procurá-la, pode ser que um dos Carrow a tenha apanhado e tu sabes como eles são. – Snape abriu a porta para sair quando se deparou com Irina, que tinha a boca aberta de espanto.

- Fiz barulho? – Snape acenou com a cabeça negativamente, dando-lhe passagem. – Peço-lhe imensa desculpa, Dumbledore, eu perdi a noção do tempo. Não volta a acontecer. – Garantiu Irina, pondo-se à frente do homem, que a abraçou. – Não há sermão?

- Não devias estar aqui, Irina, já não chegas a tempo da hora do recolher obrigatório. – Dumbledore falou.

- Eu terei cuidado, não se preocupe. – Ela afastou-se do abraço, vendo Snape sentar-se no sofá. – Eu fui estúpida ao perder a noção das horas, estava a relaxar e…

- Tudo bem. – Dumbledore sorriu, sentando-se na poltrona. – Mas estás cansada?

- Não foi por isso. – Irina respondeu. – É que me envolvi demasiado numa coisa e acabei por me distrair. Credo, que estúpida. Eu prometo que não acontecerá de novo.

- Já percebemos a ideia, Miss Saint-Claire. – Snape suspirou. – Eu já ia à sua procura para o pé dos Carrow.

- Obrigada pela preocupação, Professor Snape. – Irina estava a ser franca. – Dumbledore, e a Animagia?

- Na verdade, Irina, eu esperava que treinasses com o Severus, porque eu estou um bocado cansado e preciso de recuperar forças. O Severus já me deu a poção de modo que…

- Tudo bem. – Irina queria mostrar que conseguia fazer uma segunda avaliação das pessoas.

- Obrigado. – Irina reparou que ele se dirigia também a Snape. Aparentemente, o professor também começava a ceder em relação a ela. De seguida, Albus recolheu-se.

- Vai fazer apenas Meditação, Miss Saint-Claire. Eu sei que pode parecer um retrocesso, mas não é. É apenas uma consolidação. – Irina não reclamou, limitou-se a meditar profundamente e a sorrir interiormente, ela tinha que se ultrapassar a si própria. – Ótimo, já chega! – Ele disse uma hora depois, fazendo Irina abrir os olhos. – Daqui a nada será uma gata.

- Uma gata? – Irina franziu a sobrancelha. – Por que é que diz isso?

- Pela sua Meditação. Estava em transe profundo, logo não deve ter reparado que repetiu a palavra gato imensas vezes. – Irina arregalou os olhos, ela tinha feito isso realmente?

- Uau! Uma gata? A sério? Isso é fantástico! – Ela falou contente. – Sempre posso passar mais despercebida.

- Tem muitas vantagens realmente. – Ele concordou, sorrindo levemente.

- Obrigada, professor Snape. – Ela agradeceu francamente. – Mas agora como faço para me transformar? Eu tenho que tentar, não é? Dava jeito eu conseguir agora, já que a hora do recolher há muito que passou…

- Dava, não dava? – Ele perguntou retoricamente, levantando-se. – O feitiço é Transformus.

- Transformus! – Ela murmurou, apontando a sua varinha a si mesma. – Ahh- - Severus abafou o grito dela ao tapar-lhe a boca com a mão. Irina foi-se transformando lentamente numa gata de pê-lo branco, deixando Severus com a mão no focinho.

- Desculpe. – Ele falou, olhando o animal surpreendido. – Agora não é preciso feitiço para voltar à sua forma normal. – No momento em que disse isso, Irina voltou a si.

- Uau, foi fantástico! – Ela exclamou maravilhada. – Doloroso, mas fantástico.

- Muitos parabéns. A partir de agora já não será doloroso. – Snape falou convicto. – O Albus irá adorar a notícia.

- Eu conto-lha amanhã. – Irina quis deixar bem claro que seria ela a contar, encarando-o ameaçadoramente, embora tenha tido a certeza de que o professor não se intimidara nem um pouco.

- Ok. – Ele acabou por dizer. – Agora devia ir-se embora!

- Sim, tem razão. – Ela transformou-se em gata e saiu pela porta aberta de Severus, que escondia o riso ao ver a gata caminhar tão desajeitosamente. Irina teria que se habituar às quatro patas.

De seguida foi a vez do Mestre de Poções sair para mais uma noite de fingimentos.