Título: A Razão na Emoção
Autora: Lab Girl
Categoria: Bones, B&B, 6a temporada, angst, hurt/comfort, drama, romance
Capítulo: 20/?
N/A Capítulo 20: Nossa, já chegamos ao 20! Mais emoções vindo aí... a minha beta disse que eu mandei ela pro além com esse capítulo. Quero agradecer mais uma vez a eficiência e ajuda da Thais e as ideias da Nina que me ajudaram a deslanchar este capítulo ^^
Vamos lá! Boa leitura!
CAPÍTULO 20
O agente solta o ar pela boca, jogando o corpo contra o encosto da cadeira de seu escritório. Levando a mão à uma das têmporas, Seeley Booth tenta acalmar a ansiedade e conter a frustração.
Em menos de três dias, a investigação progrediu rápido. No início, por mero acaso, ele acabou descobrindo que o caso envolvia um bizarro quadrilátero de poligamia: a vítima era casada com três irmãs! E isso não teria sido possível se Brennan não tivesse dado sua preciosa colaboração.
Não, ela não estava de volta aos velhos tempos. Foi apenas uma participação forçada, por assim dizer. Quando Booth teve que ir à casa da vítima, não pôde levar Sweets consigo, o psicólogo tinha saído da cidade para uma convenção de psicologia forense. Claro, iria sozinho, mas precisava de olhos que fizessem a avaliação sócio-psicológica do local, tão importante no estágio inicial de um caso. Diante disso, não lhe restou alternativa a não ser choramingar nos ouvidos de Camille - a única do time do Jeffersonian que ainda fala com ele - e pedir que ela intercedesse para que Brennan concordasse em ir a campo ao menos uma última vez.
Não foi fácil convencer a legista. Por isto mesmo Booth teve que recorrer a uma forcinha extra…
"Você sabe como a Caroline fica se deixamos qualquer ponto solto, Cam. Não posso ir à casa da vítima com o Wendell, ele não tem nem metade da experiência da Dra. Brennan."
Foi o que bastou. Alguns suspiros e um "Vou tentar, mas não garanto nada" por parte da amiga, e, para a surpresa de Booth, a antropóloga aquiesceu. Porém, claro, foi à sua maneira.
Ele ainda se lembra do banho de água fria quando ela mandou Camille lhe dizer que iria em seu próprio carro para a casa de Ed Samuel, deixando claro que não aceitaria se encontrar com ele antes, descartando completamente a hipótese de irem juntos, como antigamente. Ela chegou ao local dirigindo o próprio veículo e, ao descer, olhou para ele de forma tão impessoal que quase lhe gelou o coração. Pareciam dois estranhos ali, como se não tivessem uma história e seis anos de parceria atrás deles.
Brennan foi extremamente objetiva do início ao fim, não abrindo espaço para qualquer assunto que não fosse estritamente o caso em mãos. E a colaboração dela, ainda que puramente profissional, acabou se mostrando essencial para a condução do caso. Só de ver as fotos dos filhos daquelas três irmãs, Brennan concluiu que a formação óssea das crianças significava que eram todas filhas de um mesmo pai - no caso, Ed Samuel, a vítima.
Depois disso, Booth não mais a viu. Tão fria e impessoal quanto chegou à casa da vítima, Brennan se foi, deixando-o para trás com o resto da investigação para conduzir. Foi difícil trabalhar sozinho pela primeira vez em muitos anos, mas o time do Jeffersonian fez sua parte brilhantemente, como sempre. E Booth acabou juntando as demais peças do quebra-cabeças.
Um silenciador utilizado na hora do tiro, sinais de envenenamento no corpo da vítima, três irmãs casadas com o mesmo homem. Elementos aparentemente suficientes para a resolução do homicídio. Ciúme seria o motivo perfeito. E Booth estava confiando nisso até saber que não havia sido encontrado nenhum vestígio de que qualquer uma das irmãs tinha atirado no marido. A única delas que fez algo potencialmente letal foi detida por envenená-lo com rádio obtido do laboratório onde trabalhava. Mas isso ainda não resolveu a questão. A causa mortis fora mesmo o tiro. E segundo as análises de laboratório, pela trajetória e resíduos da bala nos restos da vítima, não poderia ter sido nenhuma das três esposas-irmãs. Então, quem havia atirado em Ed Samuel?
O pai das três. Hodgins, mais uma vez, descobriu um elemento crucial que levou Booth a desvendar o mistério. Fim do caso. Como sempre, resultado de um belo trabalho em equipe. Não como antigamente… mas trabalho em equipe. A mesma equipe da qual ele se afastou sem sequer perceber.
"Você escolheu o seu time quando se envolveu com a Hannah, Booth. Nós continuamos do mesmo lado, foi você quem se afastou."
As palavras de Angela, proferidas em sua última conversa no Diner, fazem eco na memória do agente. A artista está certa. Foi ele quem se distanciou dos amigos. Por alguém que nem conhecia direito. Como pôde ser tão cego?
Pegando uma caneta sobre sua mesa e apertando-a entre os dedos, ele olha para o vazio. Pela primeira vez a resolução bem sucedida de um caso não tem o mesmo sabor. A sensação que ele experimenta agora é de que falta algo. Falta os amigos com quem comemorar. Falta ela.
Soltando um suspiro pesado, Booth se levanta da cadeira. O lado de fora do escritório está com as luzes quase todas apagadas. Já é tarde e a maioria dos agentes do andar já foi para casa.
Casa. Para ele, a palavra hoje remete a um lugar tão frio que ressalta a solidão. Não, ele não quer ir para casa agora. Levantando-se e recolhendo o paletó do encosto da cadeira, Booth deixa sua sala para trás, rumando para o elevador. Enquanto desce para o estacionamento, ele pensa que alguns tragos não cairiam mal. Vão ajudar a anestesiar a solidão e a dormir mais rápido, sem pensamentos demais rondando a cabeça.
Chegando no estacionamento do edifício Hoover, ele pega as chaves do carro e automaticamente abre a porta do veículo, sentando-se no banco do motorista e dando a partida. Sem muito pensar, atraído, talvez, pelo velho hábito e pela familiaridade do trajeto, ele se pega no caminho para o Founding Fathers.
Por sorte, consegue uma vaga não muito longe do lugar. Vai andando e se misturando com os poucos passantes da rua. Ao atravessar a porta do estabelecimento, seus olhos já começam a procurar por uma vaga no balcão do bar. E ele a vê…
Linda, sozinha, ocupando uma mesa justamente próxima ao bar. O coração de Booth dispara, ele consegue ouvir a própria pulsação acima do burburinho do lugar. Sem pensar, é levado por seus passos na direção dela.
"Brennan. Oi!" ele se coloca diante dela, sorrindo sem jeito.
A voz familiar chega aos ouvidos da antropóloga, fazendo seu coração saltar inesperadamente. A mão que segura o copo de bebida praticamente vazio, vacila um instante e ela o devolve à mesa antes de deixá-lo cair. E ela ergue os olhos para o recém chegado.
Booth vê o rosto da bela mulher encará-lo - o olhar azul como nunca sob as luzes artificiais - e o semblante dela se altera quase imperceptivelmente... mas ele nota a mandíbula dela tensionar assim como os ombros.
Em questão de segundos, Brennan empurra a cadeira para trás, levantando-se.
"Estou de saída" ela sequer olha para ele enquanto leva a mão à bolsa para retirar a carteira e pagar pelo que consumiu.
"Espera, Bones!" no afã de impedi-la de sair dali, Booth leva a mão ao braço dela, sequer notando que o velho apelido escapou automaticamente.
O gesto faz os olhos dos dois se abaixarem para o ponto de contato. Mão e braço. Pele contra pele. Produzindo um arrepio de parte a parte.
O momento não dura mais do que alguns breves segundos, mas parece tecido em câmera lenta para os dois.
Sentindo a reação do corpo ao toque inesperado dele, Brennan puxa o braço, rompendo o contato e se afastando.
Booth percebe o medo estampado no olhar azul. Como se ela tivesse acabado de levar um choque. Ele se arrepende instantaneamente de ter se atrevido a tocá-la, sentindo o mal estar.
"Desculpe, Brennan. Eu não queria…" ele tropeça nas palavras por um instante, os olhos buscando os dela e tentando estabelecer conexão - ao menos através do olhar - "Não precisa ir embora por minha causa."
"Eu não estava indo por sua causa" ela diz, tentando recuperar o controle de si mesma, mas os olhos dele prendem os seus e não consegue evitar - mesmo sabendo que deveria.
"Mas você não estava de saída quando eu cheguei" ele observa, encurralando-a.
Brennan morde a bochecha, pensando em como retrucar. Booth está certo. Ela não estava de saída até vê-lo ali. E não era por nenhuma razão além de querer evitá-lo. Especialmente depois de ter se sentido obrigada a colaborar com a investigação indo até a casa da vítima e se encontrando com ele mais uma vez. Tudo o que não queria.
E a antropóloga pensa em como a amiga Angela tem razão. Precisa desligar-se de uma vez por todas de tudo isso, ver outras pessoas, distrair-se. Era o que estava tentando fazer até Booth chegar. Agora a presença dele torna tudo mais difícil.
Antes que ela consiga pensar em algo convincente para dizer, ele retoma a palavra. "Eu sei que a minha companhia não é bem vinda. Mas em nome da nossa antiga parceria, queria muito oferecer uma bebida."
Como nos velhos tempos. É o que ela lê nos olhos dele. É inevitável se lembrar de todas as vezes em que estiveram ali juntos, brindando ao encerramento de mais um caso, ao trabalho de equipe bem feito.
Mas nada mais é como antes, Brennan sabe. Nem vai ser. No entanto, dentro dela, algo reluta em aceitar essa constatação… porque ela sente a mesma dificuldade que sempre sentiu de evitar o olhar dele.
Com algum esforço, Brennan consegue romper o contato visual. "Eu já bebi, obrigada" ela aponta o copo praticamente vazio sobre a mesa.
"É só um agradecimento, afinal, sua ajuda foi crucial na condução da investigação. E eu sei que foi por insistência da Cam que você abriu uma exceção para mim…"
"Eu não fiz por você, mas pela vítima" ela responde sem titubear, a resposta pegando-o de surpresa. Ela pode ver isso na expressão machucada que ele assume. Apesar de sentir um desconforto com a visão, não pretende voltar atrás nem retirar o que disse.
"Claro" Booth meneia a cabeça, sem graça. "Mesmo assim, sei que abriu uma exceção, você tinha decidido não ir mais a campo. Então, obrigado. De verdade."
Brennan move a cabeça brevemente, tentando não se comover com a expressão abatida do rosto dele.
"Mais uma razão para eu lhe oferecer uma bebida. Como agradecimento" Booth torna a insistir.
Por alguns instantes ela não sabe o que fazer. Apesar da vontade de dar as costas a Booth e sair dali como disse que faria, o apelo dos olhos e da voz dele a impedem, como uma força invisível e que ela não compreende, mantendo-a imóvel no mesmo lugar.
"Por favor" Booth puxa a cadeira onde ela estava sentada minutos antes, fazendo sinal para que ela torne a se sentar.
Sem perceber, é exatamente o que ela faz.
Um sorriso surge nos lábios de Booth, iluminando brevemente a expressão do agente.
"Obrigado" ele murmura, sentando-se diante dela.
O garçom aparece finalmente, requisitando os pedidos. Tanto Booth quanto Brennan respondem ao rapaz.
"Vodka."
"Vodka."
Os dois entreolham-se, tornando a coincidência da escolha mais significativa.
O garçom dá um sorriso e arqueia as sobrancelhas, anotando o pedido na caderneta que tem em mãos e se afastando.
Eles tornam a ficar sozinhos e o olhar de Booth encontra o de Brennan. Ele, então, tenta romper o clima de silêncio e constrangimento.
"Foi um caso difícil. Quando tudo parecia simples: três esposas, o mesmo marido… o velho e bom ciúme. Mas foi o pai delas quem deu cabo do genro."
"O comportamento humano nem sempre é previsível" Brennan dá de ombros. "Mas sou obrigada a concordar que também cheguei a acreditar na hipótese de crime passional."
Booth nega com a cabeça. "Tinha tudo pra ser. Afinal, não é natural um homem ter várias mulheres."
"Discordo. Tribos da antiga-"
Booth ergue uma das mãos, interrompendo o discurso antropológico que vem em sua direção. "Não importa o que as suas tribos malucas digam, Dra. Brennan, as estatísticas de assassinato mostram que ter mais de um parceiro ou parceira não acaba bem."
Brennan aquiesce relutantemente. "Hei de convir que na nossa cultura e sociedade não somos preparados para viver esse tipo de relação. O que fatalmente culmina nos desfechos a que você se refere, crimes e mortes."
"Você concordando comigo" ele sorri. "Meu dia já valeu a pena."
Ela quase sorri. O momento é interrompido pelo garçom que traz as doses de vodka e as deixa sobre a mesma antes de sair para atender outros clientes.
Brennan olha para o copo cheio e o leva vagarosamente aos lábios antes de tornar a falar. "A relação deles teria sido melhor se Ed Samuel tivesse conseguido equilibrar de forma mais justa o tempo e a atenção que dava às três esposas."
"Ele jamais conseguiria isso" Booth nega categoricamente, balançando a cabeça para dar ênfase enquanto deposita o copo de volta à mesa.
"Por que diz isso com tanta certeza?" Brennan questiona, franzindo as sobrancelhas.
"Porque ele amava mais a primeira esposa."
Os olhos de Brennan procuram os dele. "Como é que você pode saber disso?"
"Porque você pode amar várias pessoas no mundo, mas sempre haverá uma que você ama mais."
A resposta a surpreende… a firmeza e ao mesmo tempo a suavidade na voz de Booth, a maneira como ele a encara sem nenhuma hesitação. Brennan sente algo quente no estômago.
"E como se pode ter certeza disso com toda a química relacionada à euforia da paixão e do prazer no cérebro nublando a percepção exata das coisas?" ela questiona, pretendendo colocar em xeque a afirmação dele e as próprias emoções que a têm atormentado desde sua partida para a Indonésia.
"Você apenas sabe" Booth diz, simplesmente, os olhos ainda conectados aos dela.
Ambos sabem que essa conversa não é mais sobre o caso solucionado nem sobre casais hipotéticos. O assunto está bem perto de casa. É sobre eles. Sobre os dois. Mas preferem manter sob o manto da impessoalidade para se preservarem das implicações disto.
Brennan sente a objetividade escapar, mas já é tarde. A sensação agridoce do momento levando-a a fazer mais uma pergunta a Booth. "E se deixar escapar essa pessoa a quem ama mais?"
O agente se inclina um pouco para a frente. "Essa pessoa não está indo a lugar algum" ele responde com absoluta certeza.
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