O TERCEIRO SELO

"Aqueles que abandonaram a esperança de vencer não podem mais lutar, só podem morrer"

Saga de Gêmeos

CAPÍTULO 21:

Com o porte de uma rainha, Leviatha entrava na Casa de Escorpião, acompanhada por Olivier. Não estava mais querendo perder tempo, desejava chegar ao último templo do Santuário, onde sentia a presença do inocente.

A mulher, no entanto parou ao ver que um homem de armadura brilhante a esperava, de braços cruzados e olhar frio.

–Demorou.-Milo disse-lhe, sorrindo com sarcasmo.

–Certamente deve ter percebido a diferença entre nossos poderes.-falou Leviatha.-E mesmo assim, se coloca em meu caminho?

–Isso mesmo.-Milo desdenhou, se posicionando para atacar.

–Tolo. Se simplesmente saísse da frente, viveria mais.

–Nenhum humano vive para sempre.-respondeu o cavaleiro, elevando seu cosmo.-Não pense que irei facilitar para vocês a passagem por essa casa. Aliás, pretendo que ambos jamais saiam daqui!

–Deixe-me cuidar dele, minha lady.-pediu Olivier.-Siga para a Casa seguinte, até alcançar a espada e o escolhido.

–Está bem, Olivier.-concordou Leviatha.-Eu o esperarei logo adiante, meu caro.

–Não vou decepcioná-la.-beijando a mão de Leviatha.

–Ah...por favor. Não me façam presenciar isso.-falou Milo com deboche.-Ainda não almocei.

–Insolente!-vocifera Olivier, irritado com o deboche de Milo.

–Pode vir.-Milo o chamou com um gesto de sua mão.-Vamos terminar com isso para que eu de uma surra na tua amiga também. O fato é que eu não gosto de lutar com mulheres, mas com tribufus é outra coisa.

–Eu o farei se arrepender de tais insultos! Sentirá meu poder, verme.

–Engraçado, não foi você que levou uma surra do Aioros agorinha mesmo?

Olivier se enfurece com as palavras, sem desconfiar que essa fosse a intenção de Milo desde o início. Um guerreiro que se leva pela raiva, logo comete erros que podem ser fatais.

Leviatha observou por um instante os dois guerreiros se encarando, prontos para a luta. Sorriu de maneira enigmática e seguiu adiante. Restava apenas uma casa vazia e em seguida, a Casa de Capricórnio e sua espada sagrada ali guardada.

Lá fora, a chuva começava a cair.

–Ouça Guardião do Mundo dos Mortos...-dizia tocando o chão e desenhando algo com seu dedo indicador.-Libertem-se, Ó Almas condenadas...para que me sirvam mais uma vez.-e sorri.-Retornem a mim, e destruam meus inimigos.

–Depressa!-Falava Ikki impaciente. Cada segundo que se passava deixava os inimigos mais próximos do templo de Atena e de sua família que estava em perigo.-Eu vou deixá-los para trás!

–Ikki está realmente furioso!-comenta Siegfried.

–E como você reagiria se estivesse no lugar dele?-pergunta Seiya.-Ele não admite, mas também deve estar preocupado com Shun naqueles escombros. Seu cosmo e dos outros estão bem fracos.

–Eu entendo o Fênix, Seiya.-responde Siegfried.-E Juro pela minha honra de Guerreiro Deus que não permitirei que aqueles demônios triunfem!

–Sobraram só dois.-pensava Celeste, desconfiada.-E ainda sim ela está confiante demais, mesmo sabendo que há mais cavaleiros a espera dela. O que Leviatha planeja?

Então ela para de correr, tendo um pressentimento horrível.

–O que foi?-Saga para ao perceber que Celeste ficara para trás. Os demais ainda corriam.

–Olivier estava praticamente morto...-murmura e depois grita.-Cavaleiros!-Eles param.-Acaso sentem os cosmos de nossos inimigos?

–O que está perguntando? Os cosmos sombrios deles estão impregnados em todo Santuário.-diz Seiya.

–Haviam dezenas de servos aqui! A maioria foi derrotada até sobrarem Olivier e Leviatha.-diz Celeste.-Mas ainda sentem os cosmos deles?

–Eu...-Seiya tem um pressentimento horrível.-Eu ainda os sinto! Estão diferentes, mais sombrios...

–Os cosmos de espíritos mortos.-diz Saga.-Ela não reviveu Olivier. Ele foi morto pelo golpe de Aioros combinado com aquele ataque de Leviatha. Ela reanimou seu corpo.

–Mas ele...um morto vivo? Ele é um morto vivo agora?-Siegfried surpreende-se.

–E não é o único.-Aioros olha para a vila e depois para as casas zodiacais atrás deles.-Nossos companheiros terão problemas.

–Eles cuidarão disso sem a nossa ajuda!-fala Ikki.-Vamos.

–Como se mata o que já está morto?-pergunta Celeste se apressando para acompanhar os cavaleiros que corriam ao lado de Ikki.-O Cavaleiro da Casa de Escorpião está em sérios apuros se subestimar Olivier e não perceber que seu adversário não é um ser vivente!

–Ela pode fazer isso? Reanimar os mortos?-pergunta Seiya a ela.

–Antes não podia. Esse poder era reservado apenas aos mais poderosos demônios e anjos. No entanto, agora...

–O que a preocupa?

–Já não sei se serei capaz de lutar com ela.

Atena, do alto do seu templo, observava com apreensão as batalhas que aconteciam. Percebeu a presença de Hilda ao seu lado.

–Como está Lana?-perguntou a deusa.

–Aud está cuidando dela.-respondeu a senhora de Asgard.-Essa tensão não é nada boa para a criança.

–Se eu pudesse, tiraria este peso dos ombros dela.-lamentou a deusa.

–Não podemos salvar todos, Atena.-lamentou Hilda.

–Mas esta criança tem que ser salva.-diz Atena firme.

–Eu sei.

–Lana, não pode ficar aqui. A chuva está ficando forte!-pedia Aud inutilmente, a sacerdotisa de Hera não a ouvia.-Dentro do templo estará protegida.

–Não consigo ficar parada, Aud!-ela dizia quase às lágrimas.-Por favor, quero ficar aqui.

–Mas...

–Lana, confie em Ikki e nos outros cavaleiros. Eles deterão esses seres.-falou Atena segurando as mãos dela.-Eu sempre confiei em meus cavaleiros e nunca me decepcionei.

–Eu confio em Ikki. Sei que ele irá proteger nosso filho. Mas...

–Tem medo. Todas estão com medo. Não se sinta envergonhada com isso.-diz a deusa.

–Eu sei.-como para dar-lhe conforto Atena lhe abraça e ela começa a soluçar.-O bebê mexeu...e ele não está aqui para sentir isso...e agora isso...

–Tudo ficará bem, eu garanto.-Atena no entanto sente algo no ar.-Vamos nos abrigar da chuva dentro do Templo.

–Mas...

–Por favor.

A sacerdotisa concordou com um aceno de cabeça e seguiu com Aud para dentro, Atena olhou mais uma vez apreensiva para os locais onde as batalhas aconteceram e estremece. Ela percebe mais alguém observando tudo. Joan, a templária que foi deixada para protegê-las, se necessário.

–É a Exaltação dos Mortos.-murmurou a jovem de cabelos prateados.

–E o que é isso?-Atena pergunta aproximando-se dela.

–Os mortos atendem ao chamado de um ser de grande poder sobrenatural.-explicou a jovem.

Atena estreita o olhar, ela sentia os Cosmos dos mortos.

–AGULHA ESCARLATE!-Milo disparava mais um dos seus golpes em Olivier, totalizando oito agulhas. E embora não quisesse demonstrar, estava surpreso pela capacidade dele de agüentar suas agulhas.-E então? Renda-se ou morra!

–Me render? Jamais!-Altivo, Olivier reuniu seu cosmo disparando contra Milo que salta para evita-lo.-E decepcionar minha senhora? Ela ficará contente se eu levar sua cabeça a ela.

–Diz aí? Como é ser um capacho? E eu que pensei que os Anjos tivessem orgulho.-ainda provocava.

–Ah, sim...se eu fosse um desde o nascimento, seria orgulhoso.-Milo espantou-se com a resposta enigmática.-Ficou surpreso por eu já ter sido humano? Ela me deu imortalidade, poder, amor! Tudo o que um homem poderia querer. E tudo o que eu tive que dar a ela foi a minha alma.

França, Século 1.194, d.C.

Ele estava na Capela de seu castelo, diante dos corpos de sua jovem esposa, morta prematuramente ao dar a luz ao seu primogênito. Mas tanto a mãe quanto a criança eram frágeis demais e sucumbiram.

Ana era culta e sabia ler, coisa rara entre as mulheres, tocava com maestria enchendo seu lar de música e era muito gentil. Todos em Cateau a amavam. Olivier de Touraine não amava Ana, era um casamento imposto por seu pai para estender suas terras e poder, mas havia começado a se afeiçoar a ela em três anos de casamento, mesmo que mal conversassem. Afinal, ela cumpria a contento suas funções de lady de Cateau e até um herdeiro havia providenciado.

Um belo menino...mas muito pequeno e frágil. A criança morreu logo após o nascimento e Ana, não suportou a dor. Ana tirou a própria vida, um pecado considerado imperdoável!

Tocou com a ponta dos dedos o rosto frio da criança. Que cor teriam seus olhos? Seria quieto como a mãe ou sedento por empunhar sua espada em nome do rei, como ele? Tinha uma penugem loira na cabeça, cabelos dourados como os da mãe.

Ele estava aprendendo a aquietar seu coração, estava construindo um pequeno paraíso na Terra, mas tudo lhe foi tirado.

Em apenas três anos, a morte levou seu pai, seu filho e sua esposa. E se não bastasse tudo isso, ameaçavam lhe tirar o castelo de Cateau. Injúrias lançadas por seus inimigos, invejosos de seu poder, de seu porte, de ser um grande guerreiro, chegaram aos ouvidos do rei.

Acusado de pactuar com o demônio para ser um guerreiro invencível fizeram a Santa Igreja questionar sua fé. Uma investigação seria realizada, e ele sabia como isso iria terminar. Seria acusado, torturado e seus bens confiscados antes mesmo de ser morto por bruxaria.

De que adiantou ser fiel a Deus, ter empunhado sua espada pela sua Igreja, de ter matado todos aqueles pagãos inúteis em Seu Nome, se lhe tira tudo? Por Ele o abandonara?

–Milorde?-a voz do monge que cuidou da família Touraine por anos lhe tirou momentaneamente de seus pensamentos.-É preciso enterrarmos os corpos senhor...

Nada respondeu, ele ainda fixava os olhos no pequeno anjo envolvido por panos brancos.

–Milorde?-o monge insistiu, olhando com aflição aos criados ao seu redor.-Senhor, amanhã o Bispo chegará com sua comitiva e se presenciar o senhor velando os corpos de sua esposa e filho, não permitindo que seja sepultados...não será bem visto meu lorde.

–Tem razão.-respondeu Olivier.-Vamos enterrá-los no mausoléu da minha família e...

–Perdão senhor mas...isso não pode ser possível para milady.

Olivier olhou para o monge por sobre os ombros e o religioso estremeceu diante de sua voz fria e cortante como aço.

–O que disse?

–Lady Ana cometeu suicídio meu senhor. Ela não pode ser enterrada em solo sagrado. Além do mais...sua alma não pode ser salva...os suicidas vão para a danação eterna. A criança não foi batizada, mas acredito que o Senhor terá piedade de sua pequena alma e reservou um lugar para ela no purgatório e...

Sua gentil Ana não teria um enterro cristão? Ela que era tão devota não iria receber os últimos sacramentos e ser enterrada como a senhora do castelo deveria ser?

–É assim que seu Deus paga todos os anos de devoção que minha família lhe rendeu? Me trazendo dor atrás de dor?

Oivier questiona com fúria, retirando sua espada da bainha,o monge recua com medo, mas é para o altar e a imagem do Filho em uma cruz que ele olha com ira incontida.

–Que espécie de Deus é Você?

–Milorde! Em nome de todos os Santos! Não blasfeme!

–CALE-SE!

E ele lança sua espada contra a cruz transpassando-a, os criados presentes na capela soltam expressões horrorizadas e recuam temerosos diante do olhar de seu senhor. Ele caminha até o monge e o segura pelo manto, erguendo no ar.

–Enterrem Ana e meu filho no Mausoléu, ou se juntarão a eles na morte!-e em seguida o lança longe.

Horas depois, talvez meia noite, Olivier estava ainda na capela de seu castelo. Não fora ao sepultamento de sua família, isso não lhe interessava mais. Ao seu lado odres de vinho vazias estavam espalhadas pelo recinto e ele mantinha um olhar vazio para o nada.

Os servos deixaram as garrafas ali e saíram o mais rápido possível, deixando seu lorde a sós. E ali ficou horas sem fim. Então, ele ouve as portas se abrirem mas nem sequer ergueu o olhar para ordenar:

–Saia!

A pessoa que entrou na capela nada respondeu, e caminhava em sua direção. Seus passos eram macios, e um perfume desconhecido mas muito agradável aos seus sentidos chegaram a suas narinas e ele ergueu o olhar.

Piscou algumas vezes para tentar vislumbrar na penumbra bruxulenta da capela as formas da mulher mais linda que ele já vira em sua vida, com longos cabelos negros e um vestido rubro como sangue, tão vermelho quanto os olhos dela.

–Quem é você? Como ousa entrar aqui?-perguntou tentando se levantar, mas mal conseguia devido a embriagues. Ela riu e ele a fitou com raiva.-Não ria de mim, bruxa!

–Olivier de Touraine, isso não é o destino que um guerreiro como você deveria ter. Sentado no escuro, tendo pena de si mesmo, esperando os abutres aparecerem e devorarem sua carne.-ela falava caminhando até o altar, passando os dedos no cabo da espada incrustada na espada.-Eu estive observando-o, Olivier...senti o cosmo negro adormecido em seu coração gritando para ser libertado.

–Quem é você, mulher?

Ela sorri perigosamente, e com facilidade arranca a espada da cruz diante do olhar espantado de Olivier. A espada estava tão funda na grossa madeira que seria necessário que um homem forte a retirasse, e com muito esforço. E ela o faz como se fosse nada. A mulher caminha até ele ainda mantendo um sorriso discreto em seus lábios rubros.

–Eu sou aquela que lhe dará poder...poder como jamais imaginou possuir. Lhe ofereço mais que castelos feitos por homens, e a eternidade. A morte...-ela para bem diante de Olivier e toca seu peito musculoso com a ponta dos dedos, causando-lhe arrepios.-A morte jamais o tocaria...

–Mas...o que deseja de mim? O que você oferece, parece incrível demais para ser...

–Verdade?-ela sorri, colocando a espada de Olivier em sua mão e a lâmina em seu ventre.-Eis a verdade.

Com força, ela transpassa o próprio abdomem com a espada do homem, que a olha com espanto amparando o corpo daquela desconhecida em seus braços. Naquele instante parecia que a bebida já havia perdido o efeito e ele olhava para aquele corpo sem vida que depositava cuidadosamente no chão.

–Louca!

Mas assim que ele retira a espada ensangüentada, ela abre os olhos para a surpresa do homem. Olivier recua e cai sentado, observando ela se levantar e virar-se para ele exibindo o ferimento aberto que se fechava quase instantaneamente diante de seu olhar.

–V-você é uma bruxa?

Ela se inclina para ele e sussurra:

–Sou o demônio.-ela encosta seus lábios ao ouvido dele e lhe pergunta, mordendo sua orelha:-Quer a dádiva da imortalidade, Olivier?

–Sim...O que devo fazer?

–Um sacrifício em meu nome...

–E quem é você, milady?

–Leviatha.-ela segura o rosto do lorde entre as mãos, obrigando-o a lhe fitar.-E olhe bem para os meus olhos, Olivier de Touraine, e eu lhe mostrarei quem eu realmente sou.

Atraído pelos sons que vinham da capela, imaginando ter ouvido seu mestre gritar, Willian, que ajudava os pais a cuidar dos estábulos, resolve ver se tudo estava bem. Abriu as portas colocando a cabeça para dentro, observando seu mestre em pé, parado diante do altar. Movido pela curiosidade natural de seus dez anos, adentra naquele lugar caminhando até seu senhor.

–M-mi lorde?

Olivier se vira, seu rosto que não mais demonstrava ira ou frustração, mas uma serenidade que poderia ser considerada abençoada se não fosse o olhar frio dirigido a criança.

–Aproxime-se, Willian.

Minutos depois, Olivier saia da capela com as roupas manchadas pelo sangue inocente de Willian, sacrificado sob o altar que anos atrás fora testemunha de uniões e batizados da família Touraine e dos seus servos. Agora eternamente maculado por um ato de crueldade sem precedentes.

Com a espada ainda gotejando o jovem sangue de Willian, Oliver caminha na direção das residências de seus servos, naquela noite gritos de terror e medo foram ouvidos por toda Cateau, como jamais antes fora ouvido. E ao amanhecer, um silêncio sepulcral dominava o local.

Poucas horas depois, uma comitiva com as cores da Igreja se aproximava. O Bispo em sua carruagem olhava desconfiado para o fato de não ter avistado nenhum vassalo nas proximidades, e nem sequer guardas nos muros de Cateau. Seus soldados também pareciam incomodados com algo. Chamaram para que abrissem os portões e nada.

–Abra os portões, capitão.-ordenou o Bispo que foi obedecido prontamente e em seguida virou-se para os demais religiosos que o acompanhavam.-Sentem? O mal está aqui!

–O mal?-um jovem padre estremece ao olhar para o castelo.

–Fique perto de mim, irmão Gabriel.-pediu o velho Bispo e o rapaz concorda com um aceno de cabeça.-Talvez as acusações contra o lorde de Cateau sejam verídicas.

Os portões, ao contrário do que imaginavam, estava apenas recostados e não trancados. Abriram e toda a comitiva entraram no pátio de Cateau, e sentado nas escadarias que levavam a residência principal estava Olivier com a espada repousada em seu colo, e as cabeças de seus servos e guardas aos seus pés.

Cabeças de homens e mulheres de todas as idades, e tal visão causou tamanho horror a todos. Os soldados sacaram as espadas e as lanças, esperando apenas uma ordem.

–Bom Deus...-murmurou o Bispo.

Olivier ergueu o olhar insano e um sorriso maligno estampou-se e seu rosto.

–Ah finalmente...aquele que minha lady deseja o sangue finalmente chegou.

Ele se levanta e saca a espada, caminhando na direção do Bispo e dos padres que recuavam de medo, menos Gabriel que parecia congelado em seu lugar. Os soldados avançam contra o lorde considerando-o enlouquecido, mas caíram todos mortos pela espada de Olivier, nem sequer sabendo o que os atingira.

Os padres saem correndo de medo, sem olhar para trás abandonando Gabriel que nem sequer tirava os olhos daquele que parecia ser um anjo negro enviado pela morte.

–Você está predestinado a ser um santo...um homem que irá realizar milagres, sua morte irá trazer uma era de trevas...de doenças e guerras.-dizia Olivier diante do padre.-Pelo menos foi o que ela disse.

–Quem...quem?

–Não importa.-e com um único movimento, ele encerra a vida daquele clérigo.

Sem olhar para trás ele abandona Cateau, e esperando-o do lado de fora estava a dama negra que lhe mostrara seu destino.

–Muito bem, meu caro Olivier.-ela estende a mão e Olivier se ajoelha aos seus pés, beijando-a.-Seu trabalho me agradou e muito. Agradou a mim e ao meu senhor, Lucifer.

–Farei tudo para lhe servir, senhora.

–Eu sei. Venha comigo.-ela estende a mão e do nada uma espécie de portão se materializa diante deles.-Eu lhe colocarei do meu lado direito pela eternidade.

–Para onde vamos?

–O Inferno.-os portões se abrem e Olivier sente todo o mal contido naquele lugar tocar sua pele e esta se arrepiar.-Sente medo?

–Não.

Ele sorri para Leviatha e em seguida acompanha sua senhora para o seu reino das trevas, pela eternidade.

–Você é tão insano quanto aquela bruxa!

–Farei com que engula suas palavras ofensivas a minha senhora. Junto com sua língua.

–Pode tentar."-Milo sorriu sarcástico.-"Nem em mil anos conseguiria o feito."

Em reposta, Olivier expandiu seu Cosmo e se lança contra Milo, dando-lhe um soco em seu rosto, o cavaleiro de escorpião sorri e revida o ataque com um golpe certeiro no estômago de Olivier. Os dois começam um duelo de forças, concentrando seus cosmos. Olivier dá uma forte joelhada em Milo, mas a armadura de ouro o protege, e o cavaleiro nem sente nada, em resposta Milo dá um soco na mandíbula do servo de Leviatha, mas inesperadamente para o Escorpião, ele não sente nada.

–Chega de brincadeiras.-diz Milo se afastando com um salto.-Hora de conhecer o seu lugar. AGULHA ESCARLATE!

Olivier recebe o golpe diretamente no peito, e começa a gargalhar para a surpresa do cavaleiro.

–Era para eu sentir alguma coisa?-desdenha.

–Impossível!

–Mortos não sentem dor.-concentra seu cosmo e o atinge.-Pena que você sim.

Milo é jogado contra uma pilastra, mas desce ao chão com agilidade, e encarando seu oponente.

–Morto? Ele é um cadáver ambulante?

–Pronto para ser enviado ao reino dos mortos?-Olivier se aproximava.

–Já estive lá. Péssima decoração, comida horrível e não tinha mulher bonita! Era o inferno mesmo!-zombou elevando seu cosmo.-Não posso te causar dor? Beleza! De que adianta isso se não pode se mexer? RESTRIÇÃO!

Milo ataca com a técnica paralisante, imobilizando Olivier.

–Agora que está quietinho como uma presa diante do escorpião, vamos ver o quanto seu corpo agüenta do meu veneno.-a unha de Milo cresce e fica vermelha.-Até mesmo um zumbi como você tem seus limites.

–Verá que meus limites ultrapassam os seus...e de seus amigos.

–Do que está falando?

–A Exaltação dos Mortos.-e sorri.

–Não pode ser! Deveriam estar mortas!-June exclamava ao ver as Sucubus retornarem e atacarem.

–Diga algo que eu não saiba, June.-Marin desviava de alguns ataques.-METEOROS!

O ataque da amazona de águia acerta uma das Sucubus, mas esta se levanta como se nada houvesse acontecido. Elas atacam em conjunto, cercando as amazonas, mas um contra ataque formado por correntes e discos cortantes derruba várias inimigas, algumas com membros dos corpos decepados.

–Dante de Cérbero e Capella de Auriga.-Marin diz os nomes dos Cavaleiros de prata que acabaram de chegar.-Não deveriam estar protegendo as áreas ao leste do Santuário?

–Asterion e os outros estavam cuidando disso.-respondeu Capella.-Quando de repente os soldados inimigos mortos começaram a reviver! Recebemos ordens de ajudar aqui na vila.

–Chegaram em boa hora.

–Marin!-June alerta, mostrando as Sucubus.

As que estavam feridas mortalmente pelos dois cavaleiros de prata se levantavam ignorando os ferimentos gravíssimos, algumas se arrastando no chão.

–São zumbis?-Dante recua um passo, já de posse de sua bola de aço e corrente.-Que merda é essa?

–Estamos cercados!-diz Marin, em posição de luta.

Leviatha chegava a Casa de Sagitário, lançou um olhar pelo santuário. Seu chamado fora atendido pelas almas dos condenados, sentia seus servos se reerguerem e sorriu. A chuva pesada que caia não a incomodava .

–Atrasem eles o máximo que puderem. Em breve terei tudo o que mereço!-e com tranqüilidade atravessou a casa vazia, caminhando finalmente até seu destino. Capricórnio.

Dos escombros da Casa de Virgem, os cavaleiros que haviam caído começavam a se recuperar. O primeiro a tentar sair era Hyoga, que tem a inusitada ajuda de Shido de Mizar para levantar-se.

–Obrigado.-Cisne observa os estragos.-Que destruição! Onde estão os outros?

–Debaixo destes entulhos. Vamos, precisamos nos apressar e tirá-los de lá para em seguida ajudarmos nossos companheiros.

Os dois começaram a cavar e retirar as pedras do caminho, sentem os cosmos de dois amigos debaixo de um enorme pedaço do telhado da casa de Virgem, e tentam ergue-la sem sucesso, quando uma força poderosa a ergue com facilidade.

–Queriam tirar isto?-Aldebaran pergunta com um sorriso amigável.

–Aldebaran! Que alívio revê-lo.-diz Hyoga e ele percebe mais alguém com ele.-Mu!

–Afastem-se.-pediu o ariano, usando sua telecinésia para erguer as pedras e escombros de cima dos cavaleiros.-Pronto. Como estão?

–Obrigado, Mu.-Shun esfregava o pescoço dolorido.-Achei que não sairia daqui nunca mais.

–Onde estão o mestre e os outros?-pergunta Shiryu olhando ao redor e ajudando Bado a se erguer.

–Não sente os cosmos deles, pivete?-diz Máscara da Morte irritado por ter sido nocauteado pelo poder de Leviatha.-Estão bem na nossa frente e Milo está lutando!

–Então devemos nos apressar e alcançá-los.-diz Hyoga.

–Vão na frente.-avisa Aldebaran, olhando para baixo.-Temos mais visitantes. Aliás, uma visita que deveria ter sido despachada há tempos.

–Do que..?-Shiryu cala ao ver quem subia as escadas.-Malphas e Belais?

–Iuvart também.-diz o ariano sério.-O que é isso?

–São cadáveres manipulados pelo poder de sua mestra agora.-responde Shaka.-Mortos vivos. Não há mais o brilho de vida em seus olhos. Eis a recompensa por servirem uma insana como ela, a escravidão.

–E você diz isso com essa calma irritante!-esbraveja Máscara da Morte.-Se estão mortos, vou mostrar o caminho do inferno que deveriam seguir!

–Tem mais se aproximando.-aponta Shaka.-O exército do inferno de Leviatha.

–Você ao menos poderia se mostrar um pouco preocupado.-ironiza Câncer.

–O que faremos?-pergunta Shun.

–Iremos destruí-los.-determina Aioria.-Vocês alcancem a Casa de Capricórnio e não deixem aquela bruxa pegar a tal espada.

–Shaka, vá com os cavaleiros de bronze e os guerreiros deuses atrás de Saga e dos outros.-diz Mu.-Assim que terminarmos aqui, seguiremos vocês.

–Com meus poderes posso expurgar estes demônios daqui.-diz o cavaleiro de virgem.

–Acredito que você, Saga e Dohko podem fazer frente a Leviatha e detê-la ao lado dos demais cavaleiros de ouro que estão adiante.-fala o Cavaleiro de Áries e os demais concordam, menos Câncer que fica afastado do grupo observando os adversários.

–Então irei.-ele dá as costas aos companheiros, passando pelos jovens cavaleiros de bronze e os guerreiros de Odin.-Vamos.

Shun, Shiryu e Hyoga olham para trás uma última vez, antes de seguir Shaka e os Guerreiros deuses. Não podiam perder mais tempo.

Novamente Joan observa os cosmos se chocando do alto do Templo de Atena. Ela sente a sua inimiga se aproximar da Casa de Capricórnio e de Kayo, pode sentir o espírito tenso do rapaz, ansioso pela luta e o de Lévy que se aproximava de Leviatha.

–Tenham cuidado, Lévy...Kayo.-murmura, com o pensamento no dia que se conheceram.

Jerusalém...em um mosteiro...anos atrás.

Ela era guiada pela mão pela mulher de cabelos ruivos que a tirou do sanatório. Era uma completa estranha, mas ao mesmo tempo, sentia-se mais segura ao lado dela do que de seus pais. Caminhavam pelos corredores escuros de um antigo monastério, seguindo um dos monges que estava um pouco à frente delas.

O padre que as acompanhavam desde o Canadá havia se dirigido com outros homens para outra ala, coisa que a menina não aprovou, pois havia se acostumado a presença bem humorada de Paollo.

–Chegamos.-ela disse com suavidade, mostrando um a Joan um imenso jardim.-Vou lhe apresentar seus amigos.

Havia dois garotos, de mais ou menos de oito a nove anos, sentados à sombra de uma oliveira e um rapaz lendo a bíblia mais distante. Quando viram a mulher chegando, os meninos correram até ela.

–Celeste!-um pequeno de cabelos ruivos e com um sorriso no qual faltavam-lhe alguns dentes de leite se aproximou.-Eu venci o Kayo numa corrida! Fui mais rápido e...quem é?-perguntou apontando para a menina.

–Esta é Joan. Uma companheira.

–Pensei que meninas não pudessem ser templário.-falou o ruivo.

–Lévy! Eu sou uma menina.-respondeu Celeste.

–Mas você não conta.

–Joan, este que fala demais é Lévy.-o clérigo colocou a mão sobre a cabeça do menino e se dirigiu a Joan com um sorriso.-Eu sou Mattheo, e este aqui que é tímido se chama Kayo.

Joan observou o menino de cabelos negros, que ficou coradíssimo e se afastou. Lévy começou a conversar com ela sem parar, contando tudo o que sabia sobre os Templários e o monastério, enquanto o rapaz se aproximou de Celeste.

–Não me parece que ela tenha a visão.

–Joan nasceu com a visão.-diz Celeste.-Senti isso. Está calada por causa dos maus tratos que sofreu, mas acredito que a convivência com os garotos irá mudar isso.

–Primeiro você trouxe aquele trombadinha do Brasil...

–Ei! Ele teve a audácia de roubar minha bolsa. Tem que reconhecer que ele é rápido.-Celeste sorriu.

–E agora esta menina com sérios traumas. Acha isso prudente?

–Você se preocupa demais, sabia?-ela coloca o dedo no nariz dele.-Isso me lembra um aluno que eu tive, que era desastrado e distraído. E que se tornou um Templário muito poderoso.

–Acaso sou eu?-Mattheo finge de ofendido.

–Não. Me refiro a seu irmão, Paollo.-apontou com o olhar o padre Paollo que colocava sua túnica de Cavaleiro Templário, chegando a tropeçar numa pedra.-Vê?

Joan observou aquilo tudo com curiosidade, o modo como Lévy provocava Kayo e era revidado pelo amigo nervoso. Celeste, Mattheo e Paollo que conversavam animadamente. Era como se fossem uma família...mas ela não se sentia aceita por esta família ainda.

Naquela noite, teve um pesadelo. Sempre os mesmos pesadelos. Andava pelas ruas de mãos dadas com sua mãe, de repente as pessoas se transformavam em monstros, demônios...incluindo sua mãe e queria pega-la. Como sempre, acordava chorando.

–Tudo bem?-Kayo perguntou da porta do quarto destinado a Joan.-Ouvi você chorar.

–Qui foi...Uááááá!-Lévy atrás dele, abraçado ao travesseiro e sonolento.

–Não foi nada.-enxugando as lágrimas.

–Teve um sonho ruim?-Kayo perguntou.

–Sim.

–E como era? Contar ajuda a gente a esquecer. Era o que minha mãe me contava.-insistiu o menino.

Joan narrou seu pesadelo, com Lévy adormecido aos pés de sua cama, abraçado ao travesseiro, e Kayo sentado numa cadeira ao seu lado.

–Não precisa ter medo, Joan.-falou o menino.-Sonhos não machucam a gente. Minha mãe me falava isso.

–Cadê a sua mãe?

–Morreu. Fomos dormir uma noite na praça, não tínhamos casa, e ela não acordou mais. Alguns homens a levaram embora, numa ambulância e não a vi mais.-respondeu com um certo tom de tristeza.-Mas eu não me esqueço dela e do que me dizia.

–Ela era bonita?

–Sim. Muito bonita!-respondeu com um sorriso e Joan teve vontade de sorrir também.-Eu vou cuidar de você, Joan.

–Hã?-ela não entendeu.

–Prometo que vou te proteger.-falou sorrindo e ela concordou com um aceno de cabeça.

–E quem vai proteger você, Kayo?-fechou os olhos rezando baixinho.-Será que você ainda cuidará de mim se souber o que eu fiz?

E relembra do que fez momentos atrás.

–Atenderei o que me pede...mas o que me oferece é pouco diante dos fatos...desejo algo mais do que a Caixa de Anupus!

–O que deseja?-ela perguntou cautelosa, Celeste havia lhe instruído a ser cuidadosa com Elahel.

–O que desejo não podes me oferecer. Quero a alma de um ser.

–Eu ofereço a minha alma na barganha.-diz sem hesitar.

–Sua alma é tentadora, de fato. Alguém que nasceu com o dom da visão, capaz de nos enxergar nos corações dos homens é algo valioso. Mas o prêmio que desejo, donzela, é maior!

–Quer a alma de Celeste?

Elahel fica em silêncio.

–Ela me autorizou a barganhar com a alma dela se for preciso.-ela estremece ao proferir tais palavras.-Sabe que não minto e que ela faria isso para deter o Apocalipse e garantir que a humanidade viva mais alguns milênios!

–Ah...a Assassina de sua própria raça se oferece ao Tormento Eterno de livre e espontânea vontade...-ele gargalha.-Tens certeza disso? Oferece a alma de uma amiga em troca de meus favores?

Joan entrega a Caixa de Anupus a Elahel e confirma.

–Eu ofereço a alma de Celeste Archangellus em troca que você ajude a restituir o Trono do Inferno ao seu legítimo governante e a Ordem seja novamente restabelecida. Que Lúcifer governe o Inferno até o dia do Juizo Final.-e acrescenta encarando o ser que se materializou diante dela.-E ofereço a minha alma se necessário for.

–Guarde sua alma. Meu prazer será o de possuir Celeste...e vê-la se consumir por ter feito este acordo comigo, humana. A alma de Celeste é minha! Nada mais eu quero a não ser ela! E ao final da luta, quando Lúcifer sentar em seu trono e a sua vadia perder seu poder por conta disso, buscarei Celeste.

Casa de Escorpião...

Olivier gargalhava com insanidade, deixando Milo furioso.

–Qual é a sua, cara?-pergunta o Cavaleiro.

–A hora final se aproxima. Minha mestra não poderá ser vencida!

–Estou de saco cheio de ouvir tantas lorotas.-Milo percebe que Olivier estava se libertando de sua Restrição.-O que?

–Não posso ficar parado. Tenho que deter a maldita aqui...para que não atrapalhe minha mestra.-com uma explosão de cosmos libertando-se.-Ela chegou.

Naquele momento, Saga, Celeste e os demais Cavaleiros entravam na Casa de Escorpião.

–Ótimo.-dizia Olivier.-Enterrarei todos neste lugar!

Leviatha subia as escadas que levavam a Casa de Capricórnio, e olhou com divertimento os homens que ali estavam para protegê-la.

–Um Cavaleiro Templário e um Cavaleiro de Atena...tsc, tsc...Isso será rápido.

–Nem um passo a mais, mulher.-avisou Shura, olhando friamente.

–Olá.-ela dizia ignorando o aviso de Shura.-Eu sou Leviatha...e vim pegar minha espada.

Continua...