- Parte 21 -

— Bom dia, Amy.

— Que horas são?

— Hora de mocinha de bem estar de pé. Vamos!

Christine, empolgada com a manhã da véspera de Natal, puxava insistentemente a amiga, que se recusava a levantar.

— Chris, eu estou de ressaca — disse Amy com uma voz embargada.

— Ah, novidade. Não é possível que você não tenha se acostumado ainda à ressaca.

— Eu quero dormir, me deixa!

— Hoje é Natal, porra!

— E daí? Todo dia é dia de uma boa birita!

Vencida pelo cansaço, Christine desistiu e foi andar sozinha pelos jardins, que estavam completamente vazios, visto que uma maioria esmagadora de alunos havia viajado. A garota olhava a paisagem triste e nevoenta ao seu redor e tentava não ficar melancólica, mas a todo o momento pensava em sua vida conturbada. Christine tinha uma mãe que era uma comensal louca, um pai que seguia pelo mesmo caminho e uma lista maior que a lista de Schindler de casos mal-sucedidos. Sua vida havia passado por muitos altos e baixos até ali, e aquilo, juntamente com o clima nostálgico, mexia com o seu emocional. Ela estava prestes a chorar, quando sentiu alguém abraçá-la pelos ombros.

— Sev? — indagou confusa, sem se dar o trabalho de virar para trás.

— Reconhece-me pelo faro? — brincou — Você está andando muito com aquele lobisomem da sua amiga, hein...

— Reconheço pelo toque — Christine estava muito pensativa para ligar importância ao gracejo.

A garota se calou, e aquilo era muito estranho vindo dela.

— Que foi, Chris? — indagou Snape, que percebeu imediatamente.

— Não sei, o Natal me deixa meio nostálgica. Acho que é porque não tenho família... Sabe como é, os Malfoy não me querem sempre lá, e meus pais são meio desequilibrados.

— Você tem a mim — ele disse bem perto do ouvido da garota, envolvendo-a — não sou sua família — ainda — mas eu gosto de você.

— O que quer dizer com esse ainda? — a garota perguntou com um meio sorriso, que aos poucos ia se tornando inteiro e iluminando o seu rosto.

— Você entendeu — a voz dele era suave e melodiosa como música — e vamos lá para dentro? Está muito frio.

Christine e Snape passaram o resto do dia no escritório dele, e só se lembraram de que havia uma festa de Natal, quando ouviram os sinos badalarem ao longe, em um salão principal, em uma Hogwarts que parecia um lugar distante, visto que na atmosfera quente e aconchegante daquela sala, eles só tinham um ao outro.

Enquanto isso, no salão comunal a festa de Natal começava, e Amy, jogada a um canto da mesa da Corvinal, já estava um tanto quanto alcoolizada.

— Rowena veio dos vales e criou a Corvinal — ela cantava com a voz embargada — que com sua inteligência, ajuda a combater o mal.

Amy fechou os olhos e tentou lembrar o restante do hino, visto que não conseguia, passou a praguejar.

— A culpa é zua! — ela praticamente gritava, apontando para a garrafa de uísque de fogo à sua frente — A culpa é zua, marvada! Eu não gosto da Zonzerina, eu nem zei reconhezer um bruxo de zangue puro! Eu zou Gorvinal, Gorvinal!

Sua cabeça caiu sobre a mesa e a pobre bêbada adormeceu ruidosamente. Quando foi acordada meia hora depois, ela já ao menos já conseguia falar direito.

— Quem é você? — Amy indagou, piscando os olhos sucessivas vezes até se acostumar com o fato de que o belo rosto à sua frente não era um sonho — Eu morri e estou no céu? Ou consegui aparatar para o planeta 51?

— Oi? — indagou o rapaz confuso.

— Tá, você é bonito, mas fale de uma vez, que eu ainda não estou de bom humor. O que é que você quer?

— Ah, desculpe incomodá-la, mas mesmo à mesa da Corvinal, é a única sonserina que eu posso reconhecer — apontou para as vestes da garota — por causa do uniforme. É que como é Natal, mais ninguém está de uniforme, sabe?

— Natal? — a garota se levantou de um ímpeto — Pelo enorme basilisco do Riddle, é mesmo! Eu achei que era dia de aula e vesti o uniforme, olha que cabeça a minha!

Ignorando a expressão de estranheza do rapaz, Amy apanhou a garrafa de uísque de fogo da mesa e entregou-a a ele.

— Cuida da minha bebê enquanto eu troco de roupa? Mas toma cuidado, porque ela custou um pouco caro. Hic!

— T-tá.

E Amy saiu saltitando, parando apenas quando encontrou a amiga à porta do salão principal.

— O que é isso, Amy? — Christine indagou, mesmo que já soubesse a resposta.

— Sai da frente, Chris! Eu to com pressa, preciso trocar logo de roupa, porque deixei a minha garrafinha com aquele estranho — e apontou para o rapaz.

Dito isso, saiu para as masmorras aos saltinhos, como uma coelha.

Christine foi até o rapaz, que segurava a garrafa, confuso.

— Perdoe a minha amiga — a garota disse delicadamente, se aproximando — ela tem um pequeno problema com o álcool, sabe como é...

— Ah, tudo bem — ele sacudiu a cabeça, saindo de seu transe momentâneo — é uma pena, porque ela é muito bonita.

— É o que eu digo a ela.

— Bom, mas você disse que são amigas, então presumo que também seja sonserina...

Christine se empertigou, assumindo uma postura mais ereta.

— Certamente — disse com uma voz grave.

— Então talvez conheça Anne Hale...

— Tá brincando! Ela e a bêbada são as minhas melhores amigas!

— Ah, perfeito! Sabe me dizer onde ela está?

— Viajou com o namorado.

— Com o cachorro???

— Você conhece o Jake?

— Até mais do que eu gostaria. Olhe, sou Jasper Hale, primo de Anne, e vim trazer um recado...

— Caralho! Mas essa família é maior que a dos Weasley! Daqui a pouco até o Ronaldo aparece aqui e fala que é primo da Anne! Mas aí, você pode deixar o recado comigo, se quiser. Sou de confiança.

— Hm, Anne está longe?

— Em La Push.

— Que porra! E eu saí de Forks e vim até aqui! Bom, mas já que vim, vou ficar um tempo. É que briguei com a minha namorada, riri.

— Ah, eu sinto muitíssimo — disse Christine sentando-se à mesa da Corvinal e indicando a Jasper o lugar ao lado — mas e quanto ao recado?

— Bom, era só uma ameaça idiota de Rosalie. Pra falar a verdade, eu me dispus a vir pessoalmente entregá-lo, mais para matar as saudades de Hogwarts.

— Você já esteve em Hogwarts?

— Orra! Estudei aqui há muitos anos, quando, talvez, nem o diretor de vocês ainda era nascido. Isso foi antes da guerra...

Christine arregalou os olhos admirada, mas aí fez-se a luz.

— Você um vampiro, então?

— Do clã dos Cullen.

— Ah, então está explicado! Mas aí, aquele seu padrasto é um gato, hein!

— Carlisle é lindo — Jasper disse sonhador, e sua expressão, juntamente com os cabelos louros, o fez parecer irmão gêmeo de Luna Lovegood — ah, velhos tempos!

— Uh lá lá...

— Como?

— Ah, nada, nada. Bom, mas em que casa você ficou?

— Sonserina, é claro! Não existe nenhuma outra casa decente.

— Tenho de concordar com você. Bom, sou Christine Lestrange, e é um prazer conhecê-lo, Jasper. Se eu não amasse tanto o meu namorado, daria em cima de você.

— Uau! Como você é direta!

— Imagina, você acha? De qualquer forma, seja bem vindo!

— Obrigado, Christine.

— Ah, aí vem a minha amiga — Christine disse, apontando para a porta do salão principal.

Jasper se levantou, em uma atitude cortês. Amy, em sua direção, parecia cambalear muito menos após o banho frio.

— Eu cuidei bem da sua garrafa — ele disse, pegando a mão da garota e beijando-a — e você está muito bonita.

— Ah, que é isso, rapaz? Depois eu que bebo... Bem, eu não quero mais essa garrafa, de qualquer forma. Pode ficar com ela como presente de Natal, Chris.

— Tá me estranhando? Eu só bebo acompanhada. E bem acompanhada. Falando nisso, cadê o Snape? Ele falou que vinha logo em seguida...

— Hm, passaram o dia juntos, é?

— Nem te conto, amigue.

— Peraí, eu conheço esse Snape — disse Jasper — ele já esteve em Forks.

— Em Forks? O que Snape foi fazer em Forks?

— Não me pergunte. Mas, credo, é ele o seu namorado? Ele não é meio velho pra você?

— Mas pela antena do Juvenal Antena! Mais um pra me aborrecer! E você, que tem cara de fuinha assustada?

— Eu não tenho cara de fuinha!

— Não, não tem — disse Amy, como se falasse a um bebê — ela é boba.

— Bom, vou procurar o meu namorado. Boa conversa aí pra vocês.

— Mas como você se chama? — Amy indagou, quando a amiga já ia longe e o rapaz olhava-a se distanciar, ressentido.

— Jasper Hale — ele disse, voltando à realidade — e você?

— Amy Sparrow. Você é parente da Lily?

— Primo. Inclusive, vim aqui para dar um recado a ela, mas soube que viajou, então resolvi ficar em Hogwarts e matar a saudade dos velhos tempos.

— Você já estudou aqui?

E Jasper começou a contar toda a história para Amy.

Quando Christine entrou no escritório de Snape, ele estava acabando de pentear os cabelos molhados.

— Caramba, amor! — Christine disse à porta — Você lavou os cabelos!

Snape olhou para Christine com uma expressão de tédio e desdém.

— Eu sempre lavo os cabelos, Chris, não sei porque dizem esses absurdos de mim!

— Eu sei, amor, estou brincando.

— Bom, acho que estou pronto — ele disse, olhando-se no espelho uma última vez.

— Você está lindo — disse a garota ternamente.

— Só se o meu rosto for reflexo do seu.

— Eu ainda não estou acostumada ao Severus fofo — disse Christine beijando-o nos lábios, ao que ele retribuiu — para mim, você sempre foi tão rude...

— Não consigo mais — ele disse, com os lábios a dois centímetros de distância dos dela — você é tão doce, Chris... Eu estou apaixonado.

Christine o beijou, desta feita mais intensamente, mas conseguiu se refrear a tempo.

— Epa! Vamos, que o peru está esfriando.

— Isso é que não, viu? — disse Snape com um sorriso safado.

Snape beijou novamente a garota, desta feita conduzindo-a para fora do escritório.

— Mas, amor — ela disse — o que é que você foi fazer em Forks?

— Como? — ele indagou confuso.

— Acabei de conversar com um rapaz que disse conhecê-lo de lá, então fiquei me perguntando...

— Ah, fui algumas vezes para lá nas férias, visitar um velho amigo. Charlie Swan. Não se preocupe, que não tive caso com ninguém por lá, raposinha.

— Bom ouvir isso. Vamos, então? E, ah, claro, amei o "raposinha".

Christine e Snape ficaram juntos de Amy e Jasper durante a ceia. Os quatro conversaram animadamente, e Amy, por um milagre, não tocou na bebida uma única vez durante o jantar.

Passava das quatro da manhã quando o pequeno grupo voltou à masmorra. Com a permissão de Snape, diretor da casa, Jasper ficaria acomodado no salão comunal da Sonserina durante a sua permanência em Hogwarts. Ele e Amy decidiram ficar lá tomando um drink, uma vez que o rapaz disse que não bebia há muito tempo, e Amy não resistiu. Christine e Snape decidiram aproveitar que o dormitório feminino, que a garota dividia com as amigas e mais duas outras meninas estava vazio, para terminarem o que haviam começado durante a tarde. Mas antes, foram até o escritório de Snape pegar uma poção afrodisíaca.

Estavam quase lá, quando encontraram pelo caminho o vampiro loiro por quem Dumbledore se apaixonara. Caius Volturi. Ele olhou fixamente para Snape, a ameaça brincando em seus olhos vermelhos.

— Você não pense que eu esqueci o que fez à Joanna — ele disse com sua voz delicada.

Snape deu de ombros e seguiu adiante, abraçando Christine pelos ombros.

— E você, menina — disse o loiro à Christine — meu irmão mandou lembranças, e perguntou quando irá visitá-lo.

— No dia em que ele quiser sentir o poder de minha varinha. — disse Snape sombrio.

E em algum lugar, a quilômetros dali, a noite de Natal não poderia ser mais perfeita.