Intrincado - Alguns sentimentos são confusos demais.
Capítulo 21 – Garoto, por George Weasley
Ele era apenas um garoto.
Não exatamente um garoto, era um homem já, mas para mim era apenas isso, um garoto.
Talvez fosse o tipo físico, pois ele não era tão másculo quanto Harry, James ou qualquer outro auror que conhecia. Ele parecia magro e pequeno. Braços finos, pernas longas e ao mesmo tempo ele parecia mais delicado do que deveria.
Apenas um garoto.
Talvez fossem seus cabelos que mudavam de cor conforme seu humor. Eles adquiriam um tom azul quando estava feliz, verde ao ficar pensativo e roxo berrante quando ficava envergonhado, mas o que mais me chamava atenção era o tom vermelho que surgia quando ele me pegava o olhando.
Era um tom intenso e conhecido.
Eu gostava daquele tom.
O garoto tinha instinto de lobo. Claro, que ele não havia herdado a licantropia de seu pai, mas havia uma pitada de lobo ali. Ele era arredio, seus olhos pareciam me desafiar e brilhavam naquele tom dourado no escuro como um cão acuado.
Seus olhos duas lanterna na escuridão me guiando.
Claro, eu sabia o que o garoto estava fazendo ali, mesmo que Harry não tenha dito nada, apenas aparecendo na minha frente e largando o garoto assustado aos meus cuidados. Não era preciso palavras. Há muitos anos eu e Harry não precisávamos de palavras.
Eu sempre soube que Teddy Lupin havia assassinado minha irmãzinha.
Não o culpava realmente. Ginny deveria ter se prevenido melhor ao tentar parar aquele jogo. Eu tive que admitir que o garoto tinha espírito, pois quantas pessoas podem diz que perderam a irmã caçula esmagada por um piano de cauda? Era impossível não rir da trágica piada.
Talvez tenha sido a primeira vez que realmente ri após todos aqueles anos.
Sem Fred a vida nunca mais teve o mesmo brilho.
Harry sempre foi cego. Desde a escola nunca viu um palmo a sua frente e eu sempre me perguntei como ele conseguia ser um apanhador tão bom. Fred tinha formulado uma teoria que ele só enxergava de longe. Eu apenas tinha que concordar com meu irmão depois de todos esses anos.
Harry nunca tinha visto o amor de Ginny, não viu a obsessão de Teddy, não viu a dependência de Malfoy. Não viu nem mesmo seus filhos seguindo o mesmo tortuoso caminho que seu famoso e idolatrado pai trilhava.
Um cego.
Ou talvez nem tanto, já que toda a minha família e o Mundo Mágico continuam lambendo o chão por onde ele passa. Hermione pode discursar por horas sobre o quanto Harry odeia esse tipo de situação, mas ela mesma se utiliza da fama do suposto melhor amigo para conseguir verbas para o seu departamento. Ron aperta o ombro dele e diz que estará sempre ali para tudo, mas evita qualquer assunto mais delicado do que qual time de quadribol chegará às finais nesse campeonato.
Harry foi o único que me entendeu de fato. Ele foi o único que não tentou me animar ou fazer alguma piadinha, foi o único que não tentou arrancar um sorriso do meu rosto, porque ele sabia que seria falso. No fim eu sorri para todos e eles me deixaram em paz. Harry por sua vez apenas sentou ao meu lado e me estendeu um cigarro barato.
- Isso mata.
Eu disse sem fita-lo nos olhos.
- Eu sei.
Foram essas as palavras que trocamos durante todos esses anos. Eu o vi se deixar manipular por não ter mais forças de nadar contra a correnteza que o arrastava. Ele se formou auror, pois não tinha mais nada que ele soubesse fazer naquela altura. Ele se casou com Ginny, pois era isso que todos aqueles a sua volta queriam. Eu teria advertido minha irmãzinha do erro que estava cometendo se ela não estivesse tão feliz em casar com seu eterno príncipe encantado para prestar atenção em mim, ela estava cega na sua visão deturpada de perfeição do herói do Mundo Mágico.
Então veio o garoto.
A culpa pelo passado fez Harry se entregar demais ao menino. Eu via. Claro que eu via. Estava claro como a luz do dia, mas todos sempre foram cegos a coisas obvias naquela família. Eles preferiam acreditar nas minhas piadas vazias e na inocência de uma criança.
As roupas descobriam o corpo, o sorriso torto, o cabelo que tomava aquele tom tão claro como os primeiros raios de sol.
Eu nunca fui cego.
O garoto nunca foi burro.
Harry sempre se deixou levar pelo que os outros queriam.
Não foi nenhum espanto ver minha irmãzinha entrando como furacão pela minha loja destilando todo o veneno que possuía naquele garoto. Ela não queria divorcio. Tudo o que importava para Ginny era manter seu conto de fadas, o felizes para sempre. Eu teria dito que o casamento dela tinha começado fracassado ou que o grande problema não era exatamente aquele garoto, mas Ginny nunca quis ouvir meus conselhos. Ela nunca ouvia nada que fosse contrario as suas próprias vontades.
Teddy era um assassino.
Não.
Não era.
Teddy nunca se importou com Ginny, pois sabia que Harry também não se importava com ela.
Foi esse sentimento de ver seu perfeito conto de fadas prestes a desabar que desencadeou a sua morte.
Eu próprio teria duvidado se Fred uma vez, não tivesse me dito, que Ginny era uma víbora disfarçada de leão. Por mais que fossemos gêmeos e todos achassem que éramos apenas um, havia coisas como essa que apenas Fred conseguia ver. Nós éramos infalíveis juntos, porém separados era como perder o meu lado direito do corpo. Fred sempre foi a parte pensante do conjunto.
Eu me lembro como se fosse hoje daquela tarde. Harry estava em missão. Ginny tinha o mais brilhante sorriso no rosto. O garoto tremia e suava frio escondido num canto próximo a lareira.
Foi a primeira vez que ele me olhou, com seus os olhos dourados cheios de medo.
Foi a primeira vez que ele usou o tom vermelho vivo nos cabelos.
Até hoje eu não sei por que enfiei aquela bala na goela do garoto, mas foi engraçado vê-lo vomitando por horas a fio. Os olhos amedrontados, o cabelo vermelho, a visão do medo puro e simples, me atiçava.
Poucos dias depois um piano de cauda matou minha irmã.
Não era preciso ser um gênio para ligar os fatos.
Sem Ginny, Harry mergulhou na culpa, e para mim, não tinha nada haver com a morte da esposa, e sim, com o fato que aquele que ele desejava não podia ser seu. Draco passou a ser uma verdadeira sombra dele. O desejo dos dois era tão gritante que me deixava enjoado. Harry usava o garoto e Malfoy... Eu não faço idéia do que aquele cara fazia, nunca entendi essa obsessão de Harry por aquele albino de quinta categoria, mas não cabia a mim criticar.
Como uma reação em cadeia, o garoto tinha se virado com mais afinco para James e Albus. Felizmente Lily parecia protegida por uma redoma de vidro, talvez fosse sua semelhança com Ginny, eu nunca tentei descobrir o motivo. Não me importava.
Eu tinha apenas que esperar, que dessa vez, Harry fizesse a coisa certa.
Então agora o garoto estava aqui.
O mesmo sorriso matreiro, os mesmos olhos amedrontados, o tom vermelho vivo dos cabelos...
O garoto...
Eu o olhava. Claro que eu o olhava. Eu sentia seu medo de mim. Ele parecia enxergar adiante, ver além dos meus falsos sorrisos, observar a tristeza soturna da minha alma, desvendar meus mistérios, abrir caminhos entre os espinhos que formei em torno da minha vida.
Eu conseguia ver o que tinha fascinado Harry no garoto. Ele parecia personificar seus desejos profundos, agir da maneira certa para atiçar seus sentidos. Um pequeno lobo tentando caçar um animal muito mais poderoso que ele.
A pele de aparência delicada.
Os pelos eriçados cada vez que eu me aproximava.
Estávamos confinados naquela loja. Eu o via se encolher no antigo colchão de Fred e me mirar com seus grandes olhos dourados, espreitando cada um dos meus atos. Meus olhos eram apagados demais para ele me perceber e meus movimentos suaves.
Eu sabia que isso o enervava.
Era um jogo de gato e rato.
Eu não tinha intenção de me deixar envolver.
Eu estava ali apenas para ser a prisão do garoto. Um crime que nunca poderia vir a tona, pois revelar o crime de Teddy seria mostrar ao mundo a verdadeira face de Harry. Ninguém queria conhecer essa face. Não era preciso esfregar na cara do Mundo Mágico. Um crime que levava a outro e que trazia por trás acontecimentos que ninguém precisava saber, ninguém queria saber.
E lá estava o garoto, usando a avental colorido da loja. Rindo e divertindo os clientes. Assim como eu, as piadas não chegavam a alma, os olhos não tinham a mesma vida. Eu queria a vida daqueles olhos. Queria aquele brilho traiçoeiro e malicioso que ele ostentava na infância.
Sentia a adrenalina correndo pelo meu corpo. Era forte e revigorante. Era inusitado. Não me sentia assim desde a morte de Fred.
Fred...
Não, eu e meu irmão nunca fomos amantes. Podíamos ser gêmeos, mas tínhamos gostos diferentes. Fred realmente gostava de Angelina. Achava a divertida, exótica, espirituosa.
Lee amava Fred, mas sabia que Fred não era dessa maneira, não como eu e Lee éramos.
Eu nunca me importei em saber se Fred sabia a verdade. Nunca falamos sobre isso. Parecia um tabu que ninguém imaginaria entre nós dois.
Eu nunca me importei com aquilo. Lee era legal, nosso amigo e fazia meu corpo se agitar toda vez que me tomava. Não era carinhoso ou sentimental. Não exigia, só tomava o que queria. Não valia a pena reclamar se não era meu nome que ele gritava no fim. Eu não me importava.
Então Fred me deixou...
Minha mãe me via e chorava, meu pai desviava os olhos, minha irmã corria para o quarto e os demais, os demais apenas abaixavam a cabeça entre ignorar e esquecer.
Eu era apenas o retrato de um falecido para eles.
Foi assim que eu deixei de freqüentar a casa de meus pais. Afinal eu era a lembrança viva da morte de Fred e eles não sabiam como agir comigo, eles nunca souberam nos diferenciar, nunca se importaram e agora só havia um. Minhas visitas se resumiam a almoço nos domingos, principalmente quando os netos nasceram e minha aparência mais madura e os cabelos compridos, para esconder minha orelha perdida, não me identificavam mais com o Fred das lembranças deles, mas mesmo assim por vez eu via o olhar melancólico de alguns deles na minha direção como se quisessem ver nas minhas feições como Fred seria se estivesse ali.
Lee também me deixou naquela época. Eu não o culpava, ele apenas seguiu adiante com seus sonhos. Eu não era aquele que ele amava e possuía, sem Fred era como esfregar na cara dele que quem se deitava com ele era eu e não meu irmão. Eu sempre fui apenas um substituto e agora não havia mais ninguém para substituir.
Angelina foi a única que me buscou. Bem, ela não me queria na realidade. Ela queria Fred. E foi Fred que ela teve, pois eu já não sabia mais quem eu era. Vivia perdido entre meus desejos e os dele, em como o mundo havia sido injusto com nós dois. Assim como Lee, Angelina muitas vezes me chamava de Fred. Felizmente não convivíamos com a família para eles perceberem. Não foi uma surpresa quando todos decidiram que meu primeiro filho deveria se chamar Fred, é uma sorte ele saber que o nome do pai dele é George, pois Angelina tinha adquirido a mania de chamá-lo de Junior. Roxanne ainda era um bebê quando finalmente ela se deu conta que tinha casado com o homem errado.
Eu nunca mais vi as crianças. Não era que não me importasse, mas eles não eram meus. Eram de Fred e aquilo doía. Fred, aquele que deveria ser meu, mas não era, o Junior, segundo Angelina, às vezes aparecia nas férias e sentava ao meu lado durante um longo período, ambos ficávamos em silencio olhando as estrelas. No fim ele se levantava, beijava minha testa, bagunçava meus cabelos e partia.
Ele era mais parecido com meu irmão que qualquer um deles poderia perceber.
Roxanne nunca veio. Nunca me importei. Mesmo quando nos encontrávamos na casa de minha mãe a menina nunca veio falar comigo. Eu não a culpo, para ambos o pai dela está morto no memorial feito para os heróis daquela guerra, e realmente, descobri há algum tempo, que ela visita o tumulo de Fred todos os anos.
Eu estava feliz na minha vida tranquila na loja, então Harry me trouxe aquele garoto.
Um garoto que parecia me estimular, me atiçar, me desafiar...
Eu queria entender aquele medo.
Ele existia antes e ainda estava ali.
Queria entender porque os cabelos se tornavam em tom azul quando de alegrava e verde quando se irritava, porque o tom castanho quando olhava melancólico pela janela e bem, eu desconfiava do motivo do mesmo tom negro dos cabelos de Harry.
O garoto me parecia uma caixinha de surpresas e tinha os lábios rosados, grossos, a pele ainda parecia macia, o pescoço longo e delicado. Dedos longos como o de um pianista.
Eu não apreciava esse tipo de beleza há tanto tempo.
No fundo não me lembro de algum dia ter apreciado por mim mesmo. Talvez apenas meu amor juvenil não correspondido por Oliver Wood nos tempos de Hogwarts, mas logo Oliver saiu e Lee decidiu me ter no lugar do meu irmão.
Lee...
É estranho pensar que minha única experiência tinha sido para substituir meu irmão e se eu quisesse me jogar na lama de vez poderia dizer que minhas ambas experiências.
Algumas vezes penso que gostaria que Fred tivesse me tomado, porque assim eu teria pertencido a alguém realmente. Esse pensamento era tão insano que me fazia rir. Fred provavelmente me usaria de cobaia por meses se eu sugerisse algo dessa natureza para ele.
Não sei quando tomei coragem de agarrar o garoto, mas quando dei por mim tinha-o em meus braços. Ele era pequeno, ou talvez eu estivesse grande demais. A boca tinha um gosto adocicado, viciante.
A boca de um garoto.
Eu esperava tudo menos aquele beijo inocente, a língua incerta, a mão tremula, o coração disparado.
Um garoto.
Minhas mãos passearam por seu rosto e corpo. Quando nossos lábios se separaram ele não tinha mais aqueles olhos medrosos para mim, seus olhos pareciam enevoados e confusos.
Eu sorri e fui embora.
Aquele era um bom garoto.
OoOoOoO
Nota da Autora:
Por essa, vocês não esperavam... Mais um personagem dando a sua opinião aqui... Gostaram? Odiaram?
E adivinham quem vai estrelar o próximo capítulo? Rsrsrs...
Algumas pessoas tinham achado o último capítulo forçado, e ele realmente parece sob a visão do Teddy, mas vocês esquecem que nessa fic ninguém é inocente. Todos têm sua parcela de culpa, omissão, seus próprios fantasmas...
Ahhh E antes que alguém fique com dúvida e pergunte: Harry e George nunca tiveram nada sexual ou amoroso. Eles apenas conseguem ver além daquilo que as pessoas querem enxergar e por isso desenvolveram essa estranha amizade sem palavras. Eu diria que se Draco não estivesse ali para cuidar do Harry, seria George que faria isso, provavelmente não seria tão delicado e daria uns bons socos no Harry para ele criar juízo e não beber demais.
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Beijinhos...
