Capítulo 21: Lobos em Pele de Cordeiro

"E há mais." disse Amanda, virando-se para Liliana e Ivo. "Liliana, foi a Jéssica que ligou ao teu pai, para denunciar que estavas a namorar com o Ivo e acabar com o namoro. E ouvimos a própria Jéssica dizer que ia criar outro plano para vos separar."

"O quê?" perguntou Liliana, abrindo a boca de espanto e olhando para Jéssica. "Jéssica, isto é verdade?"

"Vá, admitam de uma vez, seus falsos!" exclamou Amanda.

"Nós ouvimos-vos a falar, por isso não podem negar." disse Regina. "Desta vez foram apanhados."

"A Amanda sempre teve razão em desconfiar de vocês. Porque é que nos fizeram isto?" perguntou Leandro.

Todos os olhos estavam postos em Jéssica e Edgar. Edgar preparava-se para negar tudo, mas Jéssica foi mais rápida a falar.

"Descobriam, pronto. Sim, fomos nós que fizemos isso tudo, seus estúpidos! Foi giro ver-vos a enfrentar esses problemas. Infelizmente conseguiram safar-se das coisas, mas queríamos ver-vos no pior. Era bem feito se tivesses sido despedido, Ricardo ou ver-te expulso da escola, Bruno." disse Jéssica, furiosa. "Odeio-vos a todos e por mim podem morrer todos!"

"Igualmente, querida." disse Amanda, encarando-a. "Mas como já disse antes, morre longe para não cheirar mal."

Jéssica ia avançar sobre Amanda, mas Edgar agarrou-a.

"Jéssica, é melhor calares-te." disse Edgar.

"Uma ova! Nós fizemos isto para nos vingarmos de vocês! Enfrentaram-nos quando começámos as aulas e não íamos deixar isso passar em branco." disse Jéssica.

"Enfrentámos-vos? Vocês é que foram muito arrogantes. Se vos dissemos algo que vos aborreceu, dissemos porque mereceram ouvir." disse Ivo.

"Exactamente." disse Elisa. "E vocês pediram desculpas e tudo, pelo comportamento que tinham tido."

"Ora, era para vos enganarmos e podermos vingarmo-nos de vocês sem vocês desconfiarem. E vocês não desconfiaram de nada."

"Correcção. Eles não desconfiaram de nada, mas a mim vocês nunca enganaram." disse Amanda, olhando para os outros. "Vêem, eles são culpados de tudo o que aconteceu."

"Seus estúpidos. Perdemos um jogo importantíssimo por vossa causa!" exclamou Hugo, de punhos cerrados e olhos flamejantes. "E eu a dizer à Amanda que ela estava a exagerar quando ela tinha toda a razão."

"E eu podia ter perdido o emprego, por vocês serem infantis e malvados." disse Ricardo.

"E eu podia ter sido expulso ou suspenso!" exclamou Bruno. "Seus ordinários."

"E eu e a Liliana podíamos estar separados por causa de vocês." disse Ivo.

"Não estão agora, mas vão estar." disse Jéssica. "Não deixo que vocês fiquem juntos!"

No momento seguinte, Liliana avançou e esbofeteou Jéssica, que gritou de dor. De seguida, Liliana atirou-se para cima dela e caíram as duas no chão. Liliana começou a puxar o cabelo de Jéssica, que gritava de dor.

Edgar preparou-se para intervir, mas nesse momento Ricardo e Elisa largaram Bruno. Ele avançou para Edgar e deu-lhe um murro com toda a força. Edgar cambaleou para trás e caiu sobre uma das mesas.

"Dá-lhe Liliana!" exclamou Amanda, excitada. "Arranca-lhe esse cabelo loiro falso!"

Elisa acabou por se aproximar de Liliana e separá-la de Jéssica.

"Sua estúpida!" gritou Liliana, olhando para Jéssica, ainda caída no chão. "Como é que me fizeste isto? Eu confiei em ti e afinal querias ver-me separada do Ivo. Se te metes novamente entre nós, eu acabo contigo, sua víbora!"

"Ena, nunca tinha visto a Liliana assim." disse Regina, dando um passo em frente.

Edgar levantou-se e correu para Jéssica, ajudando-a a levantar-se também.

"Oiçam bem, vocês os dois. A partir de hoje, nem nos dirijam a palavra." disse Regina. "E se alguma coisa de mal nos acontece, vão haver-se connosco."

"Atrevam-se a tentar separar-me a mim e ao Ivo e vão ver do que eu sou capaz!" ameaçou Liliana, ainda furiosa.

"Agora, fora daqui, seus vadios!" exclamou Amanda. "Rua!"

Jéssica e Edgar passaram a correr pelos outros e saíram rapidamente da sala de aula. Amanda olhou para todos.

"E está encerrada a sessão." disse ela, satisfeita. "Estamos livres daqueles palhaços."

"Eles continuam a ser nossos colegas de turma, por isso vamos ter de os ver todos os dias." disse Elisa. "Mas não voltam a enganar-nos."

"Desculpa querida. Desculpa não te ter dado ouvidos." disse Hugo, abraçando a namorada.

"Não faz mal." disse Amanda, sorrindo. "Agora está tudo bem."

Ivo aproximou-se de Liliana.

"Estás bem, Liliana?" perguntou ele.

"Estou." respondeu Liliana, já mais calma. "Mas quando a Jéssica admitiu que nos tinha tentado separar... algo quebrou dentro de mim e fui-me a ela. Nunca tinha brigado assim com ninguém. Mas querem saber a verdade? Soube-me mesmo bem puxar-lhe aquele cabelo e dar-lhe uma bofetada."

"Foi muito bem dada." disse Amanda, sorrindo.

"Fiquei surpreendido com a tua atitude, Lili." disse Leandro. "Estás diferente do que eras. Mais desinibida e a lutar pelo que queres e pelo que está certo."

"Sim, graças a vocês." disse Liliana, olhando para os outros. "Porque me apoiam, são meus amigos e isso dá-me força."

"Devia ter partido a boca toda aqueles dois." disse Bruno, furioso. "Se eles se atrevem a fazer mais alguma coisa contra mim, vão ver o que lhes acontece."

"Agora que sabemos quem eles são realmente, não nos enganam outra vez." disse Ricardo.

"A mim nunca enganaram." disse Amanda. "Vá, admitam lá quem tinha razão."

"Tu tinhas razão, Amanda." disseram todos os outros, em coro.

"Obrigada." disse Amanda, sorrindo. "Eu sou muito esperta."

Para Além da Adolescência

Enquanto isso, Jéssica e Edgar vinham quase a sair da escola e por pouco não embateram em Delfina.

"Tenham cuidado! Vejam lá por onde andam." disse Delfina, aborrecida.

"Cale-se, sua velha chata!" exclamou Edgar, enquanto ele e Jéssica se afastavam rapidamente.

"Velha chata é a tua avó e casou-se!" gritou Delfina, vermelha de fúria. "Olha-me estes badalhocos mal-educados! Se fossem meus filhos, levavam umas palmadas para aprenderem a comportar-se."

Quando Jéssica e Edgar chegaram a casa, estavam os dois bastante zangados. Sentaram-se na sala de estar.

"E agora, Edgar?" perguntou Jéssica. "Eles humilharam-nos!"

"Sim, é verdade."

"Devemos ir embora daqui."

"Não. Eles podem ter descoberto o que fizemos, mas isso só torna a nossa vingança melhor." disse Edgar. "Vamos ter de ficar quietos e atentos durante uns tempos. E quando eles menos esperarem, vão levar com a nossa fúria, a dobrar ou triplicar. Acabaram os nossos planos simples, Jéssica. Quando voltarmos à nossa vingança, é a matar."

Jéssica sorriu.

"A sério? Já devíamos ter feito isso." disse ela.

"Sim, talvez tenhas razão. Mas se fizermos alguma coisa agora, eles vão logo desconfiar de nós e isso vai trazer muitos problemas para o nosso lado. Vamos deixar as coisas acalmar e depois, zás, acabamos com eles."

"Está bem. Não gosto de esperar, mas acho que tens razão."

"Sim, claro que tenho. E a primeira pessoa que vai sofrer as consequências de nos ter desafiado, será a Amanda. Vamos acabar com ela."

"Matá-la, mesmo?"

"Sim. Será apenas a primeira." respondeu Edgar.

"Óptimo. Aprovo essa ideia."

Edgar acenou afirmativamente com a cabeça. Agora queria apenas vingar-se de todos, menos de Elisa.

"Agora a Elisa está chateada e não vai ser fácil aproximar-me dela, mas lá chegarei." pensou Edgar. "Vai acabar por ser minha, quer queira, quer não."

Para Além da Adolescência

Os dias foram-se passando e Edgar e Jéssica afastaram-se dos outros para não causarem confusões. Entretanto, a turma reuniu-se toda para falarem da viagem de finalistas.

"Temos de decidir para onde queremos ir." disse Regina, em frente a todos os colegas.

"Pois, mas nem toda a gente tem dinheiro para ir na viagem, seja onde for." disse a colega Juliana.

"Podemos arranjar maneira de fazermos dinheiro." disse Ricardo. "Podemos fazer umas rifas, por exemplo. E recuperar o jornal da escola, que agora não está a ser publicado. Criávamos notícias e depois vendíamos o jornal."

"Uma banca com bolos também era boa ideia e podia dar dinheiro." sugeriu Liliana.

Os outros alunos foram dando ideias e Elisa anotou-as num bloco.

"Algumas destas ideias podem dar resultado." disse ela.

"Mas acho que temos de decidir já para onde é que queremos ir, para trabalharmos nesse sentido e sabermos quanto é que temos de conseguir para ir para lá." disse Ivo.

"É óbvio que temos de ir para algum lugar com praia e piscina." disse Regina, sorrindo. "Quero apanhar banhos de sol e ficar toda bronzeada."

"Praia? Não me apetece nada, sinceramente." disse Ricardo. "Podíamos optar por algo mais campestre. Por exemplo, sei de uma espécie de campo de férias, em que têm umas cabanas para pernoitar e actividades como canoagem, escalada e afins. Deve ser divertido."

"Acampar nalgum lugar também era giro e mais económico." sugeriu o colega Simão.

"Sabem, eu gostava mesmo de ir para a neve. Não acham divertido? Podemos esquiar e fazer actividades de inverno." sugeriu Leandro.

"Mas também podíamos optar por algo mesmo citadino. Nada de praias ou neve ou campo. Irmos para uma cidade luminosa, com diversões por lá." sugeriu Amanda.

"Parece que há muitas opiniões diferentes." disse Liliana, pensativa.

"Nós não queremos participar da viagem." disse Edgar, dando um passo em frente.

"Ai não? Que pena que temos. Então adeus, podem ir embora." disse Amanda.

Edgar e Jéssica lançaram-lhe um olhar gelado e saíram da sala de aula. Ninguém sentiu a falta deles e até ficaram aliviados por não terem de os aturar na viagem de finalistas.

Depois da saída de Edgar e Jéssica da sala de aula, os restantes alunos voltaram ao debate sobre onde deveriam ir na viagem de finalistas.

As propostas foram debatidas e uma a uma foram sendo rejeitadas, até sobrarem apenas duas, a proposta das férias na neve e a proposta das férias na praia.

"Eu acho que devemos ir para a praia. Vai ser num ambiente quente, informal, animado. Na neve, com frio, não há nada disso." argumentou Regina. "Além de que eu queria andar de biquini ou fazer topless e na neve ando para ali toda encasacada por causa do frio. Digam lá rapazes, não me queriam ver de biquini ou topless?"

Praticamente todos os rapazes acenaram afirmativamente e Leandro, que tinha sugerido a ideia da neve e já tinha convencido algumas pessoas, sentiu que a balança estava a pender para o lado de Regina e resolveu intervir.

"Ok, eu compreendo os teus argumentos, Regina, mas não é verdade que na neve não seriamos animados. Há imensas coisas engraçadas que se podem fazer. Esquiar, dar passeios pela montanha, fazer uma guerra de bolas de neve, talvez ficarmos simplesmente a conversar à lareira, além de que, digam lá, vocês não vão todos à praia, todos os anos?"

Todos acenaram afirmativamente.

"Exacto. Vão com a família, os amigos, talvez até sozinhos. Mas quantas oportunidades é que vocês têm de irem para um hotel e usufruírem de actividades na neve?"

Os outros entreolharam-se e murmuraram entre si.

"Realmente, o Leandro tem razão." disse Ricardo, abanando a cabeça. "A praia é algo muito banal, mas a neve não é."

"Seria diferente e parece-me igualmente divertido." disse Elisa. "Realmente... pensando bem agora... nunca passei uns dias na neve. Já vi neve, já brinquei na neve, mas foi só um dia, assim de anos a anos."

"Eu estou de acordo com a ideia da neve, já que não concordaram com a minha ideia da cidade." disse Amanda.

Os outros começaram a concordar, ficando apenas um pequeno grupo, constituído por Regina e alguns rapazes, com ideias diferentes.

"Vá lá Regina. Tens de concordar que é uma ideia mais única do que irmos para algum destino só para ir à praia." disse Leandro.

"Pronto, pronto." disse Regina, encolhendo os ombros. "Se a maioria quer ir para a neve, que seja. Mas vocês sabem que vai ficar mais caro irmos para uma estância na neve do que para algo relacionado com a praia. Vamos ter de fazer bastante dinheiro. Portanto, proponho uma situação. Se conseguirmos o dinheiro necessário, vamos para a neve. Caso contrário, vamos para a praia."

"Parece-me justo." disse Leandro. "Mas temos de dar todos o nosso melhor para arranjarmos maneiras de fazer dinheiro. Tu incluída, Regina."

"Claro que sim. Eu, apesar de preferir a praia, não ia deliberadamente fazer com que não ganhássemos dinheiro só para não irmos para a neve." disse Regina. "Não sou assim. Vou dar o meu melhor. Até podíamos fazer uma banca de beijos. Cada beijo meu, um euro. O que acham?"

A maioria dos rapazes da turma acenou afirmativamente e Leandro cruzou os braços.

"É boa ideia, Regina, mas pessoal, não é para vocês gastarem o vosso dinheiro para beijarem a Regina. Temos é de fazer as outras pessoas gastarem o dinheiro."

"Vamos então pôr mãos à obra." disse Ivo. "Temos de planear já as ideias para as executarmos rapidamente. E teremos de falar com a subdirectora, se queremos fazer algo como uma banca dos beijos ou a venda de bolos."

"E isto quer dizer que não vai nenhum professor connosco, certo?" perguntou Liliana.

"Claro que não. É a nossa viagem de finalistas e não vamos levar nenhum professor atrás." respondeu Amanda.

"Pois. Agora a minha grande batalha vai ser convencer o meu pai a deixar-me ir à viagem." disse Liliana.

Para Além da Adolescência

Nessa noite, os alunos falaram com os pais para irem à viagem. Margarida achou bem que o filho se fosse divertir e Ricardo ficou mais descansado quando ela prometeu que lhe ligaria se algo grave acontecesse. Já os pais de Liliana não acharam tanta piada, mas Liliana conseguiu convencer a mãe.

"Querido, se calhar devíamos deixar a Liliana ir. Ela sempre foi ajuizada." disse Marisa.

"Não sei. Agora com aquela situação do rapaz negro..." disse o pai de Liliana.

"Mas isso já está resolvido, pai. Por favor, deixe-me ir. Eu vou comportar-me, prometo." pediu Liliana.

O pai de Liliana ficou pensativo durante uns segundos, enquanto a esposa acenava afirmativamente para o incentivar.

"Pronto, está bem. Se te comportares bem até à viagem e tiveres boas notas, podes ir." disse o pai de Liliana.

"Obrigada pai."

Quando Liliana foi para o seu quarto, estava alegre, pois iria conseguir ir à viagem e afinal não tinha sido assim tão difícil convencer o pai a deixá-la ir.

Para Além da Adolescência

Os dias foram passando rapidamente. A subdirectora Sabrina acabou por se promovida a directora da escola, pelo menos até ao final do ano escolar, em que depois iriam ver se manteria o lugar ou não.

A turma de Hugo tinha gostado da ideia da turma de Amanda, de irem para a neve e as duas turmas tinham combinado unir esforços para arranjar dinheiro e irem todos juntos. Tinham falado com a directora, sobre as ideias que tinham para fazer dinheiro e Sabrina tinha concordado.

Alguns alunos encarregaram-se de pôr o jornal da escola de novo em funcionamento. Iriam fazer o jornal e tentar ganhar dinheiro com isso. Outros encarregaram-se de arranjar patrocínios para rifas e possíveis prémios. Todos se esforçavam ao máximo para conseguirem dinheiro o mais rápido possível, enquanto Jéssica e Edgar observavam, sem ajudar, mas com uma grande vontade de tentarem estragar as ideias dos outros.

Mais um dia passou e quando Linda chegou a casa, Célia já tinha o jantar pronto. As duas irmãs comeram e depois Linda foi deitar Tomás. Sentaram-se as duas no sofá da sala e Linda olhou para o ar abatido da irmã.

"O que é que se passa, Célia?" perguntou Linda, preocupada. "Já andas assim abatida há alguns dias. Não tens tido inspiração para escrever os teus livros?"

"Ah... bem, mais ou menos." respondeu Célia, de forma evasiva.

"Célia, parece-me que estás a esconder algo e não me queres dizer." disse Linda. "Tu sabes que podes confiar em mim. Se há alguma coisa que te está a atormentar, podes contar-me. Confia em mim."

"Eu não posso dizer-te nada, Linda." disse Célia, levantando-se do sofá. "Ias ficar decepcionada comigo."

"Eu sou tua irmã. Não ia ficar desapontada contigo em nada. Tu tens-me ajudado imenso. Vá, conta lá o que se passa. Eu prometo que não te vou julgar."

Depois de alguns segundos de hesitação, Célia suspirou e sentou-se novamente no sofá, encarando a irmã.

"Sabes aquela batida que eu tinha no carro? Disse-te que tinha sido eu a bater... bom, até fui, mas não bati em nenhum poste, nem nenhum muro. Atropelei uma pessoa, Linda."

"Atropelaste uma pessoa? Célia, isso é muito grave. Como é que a pessoa está?"

"Bem, acho eu." respondeu Célia, mordendo o lábio. "Eu não a conheço. Linda... foi naquela noite que eu saí, lembras-te? Tinha bebido um pouco e ia depressa demais. Não vi a pessoa a atravessar a passadeira e atropelei-a. E não parei para a socorrer."

"Oh, Célia!" exclamou Linda, perplexa. "Eu disse que não te ia julgar, mas isto é muito grave."

"Eu não parei para ajudar a pessoa, mas parei o carro numa outra rua e chamei uma ambulância. Não sou desumana, mas tive medo. Eu tinha bebido demais e se fosse apanhada... não queria ter aborrecimentos com a polícia, percebes? No dia seguinte, liguei para todos os hospitais aqui da cidade, para saber da pessoa que tinha sido atropelada naquela rua. Soube informações. Não corria risco de vida e ia recuperar. Até soube o nome e fiz umas pesquisas."

"Pelo menos chamaste a ambulância, mas devias ter parado logo para auxiliar a pessoa. Mas pronto, então sabes quem ela é, não é verdade?"

"Sim, é uma mulher que tem uma florista aqui na cidade." respondeu Célia. "E estou abatida... porque sei que o acidente não devia ter acontecido e eu não devia ter fugido. Agora estou com muitos remorsos."

"Sabes o que é que eu acho? Devias ir conhecer essa mulher. Veres como é que ela está e se vai ficar com sequelas e tudo o mais. Acho que seria importante."

"Mas tenho medo... medo de ela descobrir que fui eu que a atropelei."

"Não vai nada descobrir. Agora também não vale a pena assumires as culpas, porque não vai ajudar-te em nada." disse Linda. "Fazemos assim. Amanhã é Sábado, deixamos o Tomás com a nossa mãe e vamos as duas até à florista, para conhecermos a tal senhora. Isto, se ela tiver a loja aberta. Se calhar com o acidente não está na loja ou até está fechada."

As duas irmãs ficaram subitamente caladas e deram as mãos.

"Vamos lá as duas, está bem?" perguntou Linda, calmamente. "Temos de saber se ela está bem."

"Sim, tens razão. Vamos lá as duas."

Para Além da Adolescência

No dia seguinte de manhã, Linda e Célia deixaram Tomás com a mãe delas e dirigiram-se à Florista Maravilha.

"A mulher chama-se Eugénia." disse Célia, antes de entrarem na florista. "É a dona da florista."

"Não deve ser difícil identificá-la." disse Linda. "Preparada? Agora não entres em pânico, Célia. Somos só duas mulheres que entraram numa loja de flores para ver umas plantas e nada mais."

"Está bem." disse Célia, respirando fundo. "Vamos entrar."

As duas acenaram afirmativamente e entraram na florista. Como era Sábado, a florista tinha várias clientes na loja, a verem as flores e plantas. Elisa estava a falar com uma das clientes, aconselhando-a na escolha da planta que poderia levar, enquanto Irene estava a finalizar um arranjo para uma cliente que estava à espera. Eugénia acabara de despachar uma cliente.

Apesar de ter sido atropelada há pouco tempo, mal saíra do hospital regressara ao trabalho e continuava com garra, a querer manter o seu negócio ao máximo, sendo que estava contente por ter eliminado a concorrência, pois Maria Papoila não conseguiria abrir a sua florista tão cedo. E quando estivesse perto de o fazer, Eugénia arranjaria maneira de acabar novamente com a loja da ex-funcionária.

Célia e Linda avançaram pela loja, lançando olhares às flores e plantas, para tentarem ser convincentes de que estavam ali para comprar alguma coisa. Aproximaram-se do balcão, onde Eugénia as recebeu.

"Bom dia. Então, em que é que as posso ajudar?" perguntou Eugénia.

"Ah, nós estávamos a pensar comprar... um ramo de flores, porque a nossa mãe faz anos, sabe? Mas não sabemos exactamente o que escolher para o arranjo." mentiu Linda. "Talvez nos possa ajudar?"

"Claro, com certeza." disse Eugénia, mais simpática do que o normal.

Não se lembrava de ver aquelas duas clientes por ali antes, por isso tinha de ser simpática para que, talvez no futuro, elas voltassem. Além de que Irene e Elisa estavam ocupadas, pelo que tinha de ser Eugénia a atendê-las. Célia e Linda olharam para uma pequena placa que Eugénia trazia ao peito e dizia o seu nome e trocaram um olhar entre as duas.

Eugénia saiu detrás do balcão e fez-lhes sinal para a seguirem, enquanto viam as flores que podiam constituir o arranjo. As duas irmãs repararam que Eugénia coxeava um pouco.

"Magoou-se?" perguntou Linda. "Está a coxear."

"Ah, isso. Fui atropelada brutalmente, foi o que foi." respondeu Eugénia. "Uma vergonha! Eu ia a atravessar a rua, na passadeira ainda por cima e veio um carro contra mim e atropelou-me! E a pessoa fugiu, deixando-me ali. Agora ando toda dorida."

"Mas está bem?" perguntou Célia.

"Vou ficar bem. Eu sou rija. Não é qualquer coisa que me manda abaixo, podem ter a certeza." disse Eugénia, parando em frente a várias jarras com flores. "Bom, sobre as flores, temos aqui rosas, gerberas, malmequeres e ali temos também crisântemos, jarros e..."

"Rosas parecem-me bem." disse Linda, interrompendo Eugénia. "A nossa mãe gosta de rosas brancas."

"Então um arranjinho com cinco rosas brancas se calhar era o que precisavam." disse Eugénia.

"O que é que sente quanto à pessoa que a atropelou?" perguntou subitamente Célia.

Eugénia encarou-a, surpreendida com aquela pergunta súbita e Linda retraiu-se perante a falta de tacto da irmã.

"Fiquei curiosa, desculpe se estou a ser intrometida." disse Célia.

"Bom, quero que a pessoa vá para o inferno e seja presa. Ou melhor, que seja presa e depois vá para o inferno. Se calhar a pessoa anda por aí a atropelar pessoas sem mais nem menos. Tem mais é de ir para a prisão ou para o manicómio."

Eugénia voltou a falar das flores e Linda indicou-lhe o que queriam, enquanto Célia ficava bastante pensativa. Eugénia pegou nas cinco rosas brancas e voltou para perto do balcão para fazer o arranjo, enquanto Célia e Linda ficavam um pouco afastadas.

"Célia, qual foi a ideia de fazeres aquela pergunta assim?" sussurrou Linda.

"Ora, tinha de saber. Claro que ela já me detesta, antes de saber que fui eu que a atropelei." respondeu Célia, suspirando. "Devia dizer-lhe que fui eu e pagar pelo meu erro."

"Célia, não sejas precipitada." pediu Linda.

Nesse momento, irrompeu pela loja Maria Papoila. Vinha acelerada, com a sua mala preta a balançar à medida que avançava. Chegou perto de Eugénia e apontou-lhe um dedo, enquanto Eugénia olhava para ela, sem grande interesse.

"Foi você, sua velha caquéctica!" exclamou Maria Papoila. "Foi você que incendiou a minha loja! Pegou-lhe fogo, sua desgraçada!"

Todas as pessoas que estavam na loja olharam para Maria Papoila, surpreendidas. Eugénia ficou bastante séria.

"Saia daqui, sua maluca. Eu não peguei fogo a nada. Na noite em que a sua loja pegou fogo, eu fui atropelada e tudo. Como é que podia ter pegado fogo à loja?" perguntou Eugénia, friamente. "Você está mas é maluca da cabeça."

"Não, não estou. A Maria Luísa aqui do prédio em frente estava à janela e diz que a viu, de noite, vir a caminhar aqui na rua. Acabou por não ver o resto, porque depois foi dormir, mas temos um vídeo de uma câmara de vigilância daquela garagem ali em baixo, que filma a rua e dá para ver que foi você, Eugénia! A polícia não deve tardar aí para a prender!"

"Você está doida, Maria Papoila. Não há câmara de vigilância nenhuma na garagem que há ali em baixo." disse Eugénia.

"Foi instalada há pouco tempo e não estava a ser divulgado o assunto a indicar que agora havia uma câmara de vigilância, para apanhar desprevenidos os possíveis gatunos. Mas neste caso, apanharam-na a si, Eugénia!" exclamou Maria Papoila.

Eugénia ficou subitamente pálida, enquanto as clientes da loja se entreolhavam, surpreendidas. Elisa aproximou-se da patroa.

"Dona Eugénia, isto é verdade?" perguntou ela. "Pegou mesmo fogo à loja da Maria Papoila."

"Vá, não negue que não vale a pena. Temos provas contra si. E como lhe disse, a polícia não tarda aí." disse Maria Papoila.

Eugénia cerrou os punhos, furiosa.

"Pronto, se estou perdida, paciência! Fui eu sim! Fui eu que peguei fogo à sua loja, sua desgraçada! Veio aqui dizer que ia fazer-me concorrência e eu não ia deixar que se ficasse a rir, por isso peguei fogo à loja e acabei com a concorrência." disse Eugénia, com os olhos a faiscar. Várias clientes soltaram murmúrios de desaprovação. "Infelizmente quando ia embora para casa, fui atropelada."

"A mim parece-me então que foi castigo divino." disse subitamente Célia.

Eugénia lançou-lhe um olhar fulminante, mas Célia não pareceu afectada.

"O que aconteceu foi mau, claro." pensou Célia. "Mas ao menos atropelei uma pessoa má e que parece não estar arrependida de ter posto fogo à loja de outra pessoa."

"Eu faria a mesma coisa outra vez, ouviu, sua ordinária? Não ia deixar que me roubasse as clientes." disse Eugénia. "Mesmo que vá presa, não quero saber porque destruí o seu sonho de abrir uma loja. Bem feito!"

Maria Papoila sorriu e tirou um gravador da sua mala.

"Eugénia, não destruiu o meu sonho, apenas fez com que eu adiasse a abertura da minha loja. E agora, obrigado pela confissão. Tinha aqui este gravador a gravar tudo, por isso agora tenho uma confissão em primeira mão e estas testemunhas todas." disse Maria Papoila, olhando para as outras pessoas que estavam na loja.

"Para que é que quer a gravação se há um vídeo que prova que fui eu?" perguntou Eugénia.

Maria Papoila abanou a cabeça, continuando a sorrir e tocou num botão do gravador, fazendo-o parar de gravar.

"É mesmo parva, Eugénia. Não há vídeo nenhum. A garagem que fica aqui na rua não tem câmara de vigilância nenhuma. Nem a Maria Luísa a viu aqui na rua. Era tudo um bluff para a apanhar. Eu não fiquei convencida da sua inocência, mesmo quando soube que tinha sido atropelada. Então, tive esta ideia. Vir aqui acusá-la e trazer o gravador. Menti, mas se você estivesse inocente, iria continuar a dizer que estava inocente. Claro que mesmo que fosse culpada, podia não admitir. Mas eu tentei e consegui obter o que queria." disse Maria Papoila. "Você confessou tudo Eugénia e vou agora à polícia levar o gravador."

Percebendo que tinha sido enganada e confessado tudo quando na verdade não havia provas contra ela, Eugénia ficou ainda mais furiosa.

"Adeusinho. A polícia depois vem ter consigo." disse Maria Papoila, saindo rapidamente da loja.

"Volte aqui!" gritou Eugénia, empurrando Elisa do seu caminho e indo atrás de Maria Papoila.

Eugénia saiu rapidamente da loja também e todas as pessoas presentes na loja se entreolharam.

"A dona Eugénia afinal é uma incendiária." disse Irene, chocada.

"Isto ainda vai dar mais confusão. Vamos ver." disse Célia.

Célia saiu da loja também, seguida de Linda e de todas as clientes e das duas empregadas. Nesse momento, já Maria Papoila tinha atravessado a rua. Eugénia estava a agitar os braços à porta da florista.

"Volte aqui! Dá-me cá isso!" gritou ela.

Maria Papoila mostrou-lhe a língua e Eugénia começou a correr pela estrada, coxeando um pouco também, para chegar ao outro lado da rua. Nesse momento surgiu um camião TIR, que não teve tempo de parar ao ver Eugénia a atravessar a rua e lhe passou por cima. No passeio junto à loja, as pessoas soltaram gritos.

"Ai! A dona Eugénia foi atropelada!" gritou Elisa. "Outra vez!"

O camião TIR parou, mas já com Eugénia debaixo do camião. Irene apressou-se a ir chamar uma ambulância e Maria Papoila ficou parada no outro lado da rua, surpreendida. Quando a ambulância chegou, tiraram Eugénia debaixo do camião. Eugénia estava bastante pálida e não se mexia. Tinha as roupas ensanguentadas.

"Ela está bem?" perguntou Linda.

"Não pode estar bem depois de ter sido atropelada por um camião TIR." disse Célia.

"A dona Eugénia ainda está viva?" perguntou Elisa.

"Lamento, mas não há nada que possamos fazer. É demasiado tarde." disse um dos paramédicos. "Ela está morta."

Continua…