Capricho dos deuses

Capítulo 21

O brado de Ikki ecoou de forma assustadora pela noite. Seu cosmo se elevou a um nível impossível e chamas o envolveram e a Shaka.

— Vocês pagarão por isso! — ele gritou se preparando para deferir o golpe mortal. Contudo, de repente, uma energia estranha parou no ar e paralisou o golpe, teleportando Fênix e Virgem para fora dali.

Lissa arregalou os olhos. Kanon também, tentando procurar e tentando entender.

— Para onde ele foram? — murmurou o cavaleiro de gêmeos.

— Outra dimensão... — disse Lissa.

Kanon se voltou para os espectros. Utilizando toda sua força e determinação emanou seu poderoso cosmo.

— Hiranyakasipu, não o perdoarei pelo que me obrigou a fazer! — disse — Prepare-se para morrer anti-deus do além mar!

Hiranyakasipu riu e começou a manifestar seu cosmo, tornando-se mais forte e conseguindo refazer seu corpo real.

— Kanon de gêmeos, foste só um receptáculo, não pense que sentirei qualquer remorso ao destruí-lo. Agradeço por seu amor ao avatar. Vishnu só pode ser morto por mãos amáveis! — disse o demônio e riu alto.

— Maldito! — grunhiu Kanon se precipitando sobre o anti-deus e abrindo os braços concentrando toda sua cosmo energia de forma assustadora — Explosão Galáctica!

O poder de destruição do golpe de Kanon era o mesmo que o de uma super nova, contudo, muito rápido, o anti-deus criou uma barreira bloqueando parcialmente o golpe e defendendo os daemons que estavam com ele.

— Não irá me derrotar tão fácil, Kanon de gêmeos! — riu Hiranyakasipu — Eu posso bloquear sua explosão galáctica mesmo que sua força seja capaz de extinguir uma galáxia.

Kanon grunhiu de ódio.

— Maldito, prepare-se!

A luta se deu feroz entre os dois. Enquanto isso, Lissa os deixou e resolveu comandava a legião de espectros que se dirigia ao santuário, ela não tinha tempo a perder.

(...)

A luta no santuário começou. Os cavaleiros lutavam contra a horda de espíritos primordiais. Mu exterminou uma legião inteira de daemons com sua extinção estelar. Os que passaram enquanto ele duelava eram aniquilados pelo "grande chifre" de Aldebaran ou por Aiolia com seu Lightning Bolt. A loucura começava a se desesperar por perceber que seu plano para conquista do santuário não achava apenas no avatar um empecilho, os demais cavaleiros eram muito poderosos.

Coisa pior ainda esperava a primordial, mirando o céu, percebeu que as nuvens arroxeadas começavam a se dissolver. Era como se uma melodia de flauta fosse ouvida e pétalas de lótus começavam a cair...

"O Lótus de Vishnu, se chama Padma, e é o símbolo da pureza e representa a Verdade por trás da ilusão... Ele está vivo..." Murmurou a primordial e percebeu que o tempo parara... ela estava petrificada! Não só ela, como tudo ao redor. O tempo havia sido distorcido e contido.

Lissa temeu como nunca.

"A morte de Shaka foi apenas uma ilusão..."

-Atados pelo Destino-

O som da cachoeira foi a primeira coisa que Ikki ouviu quando despertou, olhou para os lados assustado a procura do virginiano, mas ele não estava ali. Percebeu que estava sem sua armadura e que vestia um sári laranja que ia até seus pés calçados em sandálias douradas.

Ergueu-se não sentindo mais o cansaço de antes, parecia que havia sido renovado por completo.

— Olá, você está bem? Nós os resgatamos do Além mar antes que sofressem qualquer dano.

Uma voz confiante falou consigo embora ele não pudesse ver a pessoa.

— Quem me fala? — indagou olhando ao redor, mas só viu muito verde e pássaros de todas as cores.

— Eu sou Brahma, o criador do universo. Fico feliz que esteja bem.

— Onde está o Shaka? —perguntou Ikki

— Aqui não há Shaka só há Vishnu o mantenedor do universo.

— Onde ele está? — indagou aflito.

— Ele está em Nara, não é a toa que o chamam de Narayama. — disse a voz.

Ikki não entendia muito bem o que o homem falava, mas correu em direção ao cantar das águas e não se enganou. Tal qual uma lótus que crescia sobre as águas, lá estava Shaka com os braços abertos, sua pele clara e nua em contraste com a água escura do rio. O moreno não pensou duas vezes, entrou na água e o pegou nos braços o levando até a margem.

- Shaka, fala comigo... – deu alguns tapas de leve no rosto dele.

O cavaleiro de ouro piscou os cílios escuros várias vezes antes de exibir os olhos cor de céu e sorrir.

— Ikki... — sussurrou erguendo a mão e tocando o rosto do mais jovem — O que aconteceu? Onde estamos?

— Eu os trouxe até aqui. — Uma voz feminina se manifestou e a mulher se aproximou com algumas servas. Shaka e Ikki se ergueram e como o loiro estava nu, as servas o cobriram com um manto de cor púrpura e majestoso.

Shaka reconheceu a mulher que o visitara em sua casa no santuário.

— Lakshmi? —indagou, e a bela morena sorriu.

— Consegue se lembrar de mim?

O loiro não respondeu, mas percebeu que sua pele começava a se tornar azulada. Olhou para Ikki meio pasmado e com isso, a sua cútis voltou a cor normal.

— Ainda não está pronto para ser apenas deus, Shaka, mas advirto que essa hora chegará, não sei se hoje ou daqui a milênios, mas haverá a hora que vocês terão que ser Vishnu e Garunda e não Shaka e Ikki, cavaleiros de Athena.

— Por que permitiram minha ida ao santuário então? — indagou o loiro – Por que permitiram que me tornasse um cavaleiro?

Lakshmi sorriu com amor para ambos.

— Porque vocês precisavam se reencontrar. Vocês não sabem, mas desde eras ancestrais vivemos em guerra com os Asuras, e houve um tempo em que eles conseguiram dominar quase que por completo o oitavo reino. Nesse período eles fizeram muito estragos, inclusive, se envolveram com as encarnações de nossos seres mitológicos e nossos aliados ancestrais com o intuito de nos enfraquecer.

Shaka mirou Ikki e depois a mulher.

— Ele desviou a reencarnação da Garunda para outra terra. — concluiu o virginiano.

— Isso mesmo, e sabíamos que somente Visnhu seria capaz de resgatá-lo. — disse a deusa.

— Então tudo isso foi planejado? – indignou-se Ikki — Tudo? Desde nos tornar cavaleiro até nosso encontro na Ilha da rainha da Morte? Tudo isso foi um capricho dos deuses?

— Sim. — disse Lakshmi tranquilamente — Era preciso. Precisávamos uni-los, pois, o grande dia se aproxima, o final de Kaly Yuga e a renovação do dharma precisam começar.

— Kaly Yuga? — Indagou o cavaleiro de fênix.

— A idade de ferro. — explicou Shaka — A era em que vivemos. Segundo a mitologia hindu é a era das trevas e Kalki, o décimo avatar de Vishnu, deve eliminar o mal e fazer a restauração do Dharma, iniciando uma nova era, o Satya Yuga a era da bondade e da paz.

— Sim, Shaka, e para isso, sua natureza divina tem que estar totalmente desperta. — explicou um homem que se aproximava de Lakshmi. Ikki reconheceu a voz que falara com ele há pouco. Brahma.

Shaka encarou o ancião de branco e depois a mulher.

— O que exatamente desejam que eu faça? — indagou — Meus sentimentos humanos ainda são muito fortes.

— Alguns desses sentimentos humanos fazem parte de sua memória divina. — explicou Brahma – Vishnu e Garunda são uma simbiose kármica e isso significa que um não vive sem o outro.

— Mas... — Shaka ainda hesitou, contudo, olhou dentro dos olhos amarelados do deus – Nosso amor foi carnal. Não me sinto limpo o suficiente para ser um deus.

Brahma sorriu compreensivo e mirou Lashkmi que assentiu com a cabeça.

— Não se sente limpo ou não quer, Shaka? — indagou a mulher — Em suas mãos está o teu destino. Todos os deuses, tanto nós quanto os bárbaros, se envolveram até o momento, mas a decisão de ser somente Vishnu ou ser Shaka de Virgem o cavaleiro de Athena está em suas mãos.

— E quanto a mim? — indagou Ikki irritado por ser completamente ignorado naquela discussão – Qual a minha escolha?

— Você tem duas, Ikki Garunda. — tornou Brahma — Discordar daquele que é sua metade ou segui-lo seja qual for sua escolha. Entretanto, saiba que a decisão que tomarem aqui repercutirá em todas as eras seguintes e vocês estarão atados ao karma do outro, não só como deus e ave mitológica, mas como homens.

Ikki e Shaka se encararam, e o moreno pode ver uma convicção tão forte no amado que estremeceu.

— Eu quero fazer o que seja melhor para a humanidade, Ikki. Você concorda comigo? – indagou e estendeu as mãos segurando as do amado.

— Sim. — o cavaleiro de fênix também não pestanejou.

Shaka encarou os deuses a sua frente.

— Brahma e Lashkmi, nossa decisão é ajudar a terra nesse momento, mesmo que tenhamos que morrer para restabelecer o Dharma, o faremos. Mas somente se evitarmos o domínio das forças do mal que ameaçam o santuário agora. Não me importa ter que morrer e reencarnar por diversas eras até que a missão de Vishnu se cumpra. No momento sou Shaka de Virgem, cavaleiro de ouro, e minha missão é proteger a terra e Athena.

— Tu sabes todas as implicações disso para quem tem uma natureza divina, não Shaka? Está disposto a se sacrificar? — Lashkmi parecia apreensiva.

— Sim. — respondeu o cavaleiro loiro sem pestanejar.

Ikki não entendeu muito bem ao que os deuses se referiam, mas resolveu não perguntar. O momento era apenas deles.

— O punhal sagrado não seria capaz de matá-lo pois não foi empunhado por mãos amáveis. — disse Brahma — Aquele cavaleiro só sentia no peito resquício dos sentimentos de seu irmão gêmeo, ele não o ama de verdade.

— Sei disso. — respondeu Shaka — Não temi em momento algum.

— Então retornem, crianças. – sorriu a consorte sagrada de Vishnu — Esse momento e essa era pertencem a vocês!

O tempo voltou a se mover dentro das ruínas do santuário. Os fios loiro de Shaka voltaram a ser sacudidos pelo vento, as coisas voltaram ao seu lugar...

As gotículas de sangue derramados retornavam lentamente para o corpo do cavaleiro de virgem, enquanto o tempo ao redor era refeito.

Com um golpe devastador, Kanon de gêmeos derrotou Hiranyakasipu, assim como os cavaleiros de ouro destruíram a horda de daemons que ameaçavam o santuário.

Lissa desesperada e sentindo-se fraca pelas pétalas de lótus que caíam sem parar fugiu de volta a Muralha de Enzin para se juntar a Érebo e Kroni.

-Atados pelo Destino-

Star Hill

— Athena!

Saori virou-se sorrindo.

— Sim, Julian, ele acordou.

— sim, conseguiu enxergar com os olhos do coração e estará salvo até que tudo pereça.

— Esse tempo infelizmente não está distante. — falou Athena da sacada do seu templo — Obrigada, Posêidon...

— Pode continuar me chamando de Julian, logo nossos caminhos se encontrarão novamente Athena. Fomos inimigos no passado, mas nessa guerra lutarei pela manutenção da terra!

— Fico feliz por tê-lo como aliado, agora precisamos ir.

Saori se adiantou para a entrada do templo, mirando a espiral formada pelas nuvens. Emanou seu cosmo se comunicando com seus cavaleiros.

"Cavaleiros, estarei no décimo terceiro templo. Sei que estamos sob ataque, mas não temam. Selarei o santuário com meu cosmo..."

-Atados pelo Destino-

Ikki acordou. Até o momento parecia estar em transe. Shaka estava novamente em seus braços, e eles estavam novamente com suas armaduras. O moreno não conseguia se recordar muito bem de tudo que se passara. Lembra-se da luta, de Shaka arrancando o punhal e caindo morto, mas não se recordava de nada além disso.

Um movimento em seu colo chamou sua atenção. O indiano se moveu e franziu a testa, dando sinal de consciência, embora permanecesse de olhos fechados.

— Shaka! — exclamou — Shaka, você está vivo?

— Ikki... — o loiro murmurou e franziu o cenho novamente, como se sentisse dor — Não posso abrir os olhos agora... Preciso concentrar meu cosmo ao máximo. Érebo e Kroni me esperam na muralha dos espectros.

— Eu vou com você!

— Não! – interrompeu-o o cavaleiro de virgem — Essa luta é apenas minha. Volte ao santuário e proteja Athena.

— Shaka...

— Ikki, pelo menos dessa vez, não discuta comigo. — pediu o loiro, empurrando levemente o peito do amado e se erguendo meio trôpego.

Estendeu a mão mirando com suas pálpebras fechadas o pequeno corte que ainda havia nela.

"Saga, você tentou me avisar todo o tempo, mesmo através das mensagens enviadas por Kanon. Como não percebi?" Pensava o cavaleiro de virgem.

— Ikki, vá agora. — disse o loiro.

O cavaleiro de fênix se resignou a obedecer. Saiu correndo em direção ao santuário. Shaka seguiu impassível para a muralha de Enzin, sentindo a chuva de pétalas sobre si e impregnado o ar com seu perfume.

Ikki corria em direção ao santuário, precisava saber como Shun estava, entretanto, Lissa e os demônios remanescentes bloquearam sua passagem.

— Onde pensa que vai, Ikki de Fênix? – riu a primordial — Pensa que se safará por ter me traído?

— Vai querer mesmo me enfrentar agora? — indagou Ikki com um sorriso irônico e queimando seu cosmo de forma assustadora — Justo agora que sei que não detém poder algum sobre a vida de Shaka ou Shun? Morrerá aqui!

— Não seja ridículo. Kroni e Érebo estão do meu lado, você é apenas um inseto em meu caminho, Ikki de Fênix! Na verdade, eu queria matar o avatar!

— Você nunca seria capaz de matá-lo e a tentativa de usar aquele punhal covarde foi patética! — explodiu o cavaleiro de bronze, seu cosmo se tornando cada vez mais devastador — Mas agora chega, Lissa, aqui você encontrará seu fim!

— Ave fênix!

Lissa porém se desviou do devastador golpe que consumiu metade dos seus irmãos no turbilhão de fogo.

A primordial riu.

— Seu poderoso Ave fênix não é suficiente para me derrotar, Ikki, esquece-te de quem sou?

(...)

Quando Shaka chegou a muralha de Enzin, seu inimigo ancestral o esperava. Kroni grunhiu e se atirou contra ele, enquanto Érebo fugiu para perto de sua irmã Lissa, se constituindo um poderoso inimigo a Ikki.

— Maldito seja, Vishnu, encarnação pós encarnação eu ressuscitarei para odiá-lo! – disse o demônio hindu crescendo junto com seu cosmo de forma assustadora e se tornando um gigante.

Arremessou um golpe que era poderosas e gigantescas bolas de fogos contra Shaka.

— Khan!

O cavaleiro se envolveu em seu melhor golpe defensivo, mas por um momento sentiu algo no peito que o desconcentrou o que acabou abrindo uma fenda mínima em sua proteção. Sentia que Lissa e Érebo eram adversários poderosos demais para Ikki.

(...)

— Fale-me, Ikki de fênix, achou mesmo que enfrentaria minha pequena irmã, sozinha? — riu Érebo, a escuridão, o mais poderoso dos daemons.

Ikki se apoiou em um dos joelhos e cuspiu sangue, limpando a boca com as costas das mãos.

— Demônio covarde! — cuspiu Fênix, pois recebera o golpe pelas costas enquanto duelava com Lissa — Prepare-se para morrer!

Precipitou-se sobre Érebo, mas o primordial lutava a velocidade da luz, não conseguia atingi-lo por mais que tentasse. Enquanto isso Lissa ria dos seus esforços e se preparava para seu golpe final.

(...)

— Qual o problema, décimo Avatar? — riu Kroni — Algo o perturba?

Shaka ignorou o demônio.

— Kroni, ouça o som que deu origem ao universo e sofra por sua maldade! — declarou o cavaleiro de virgem. — Ohm...

O devastador cosmo de Shaka se elevou ainda mais ao entoar o mantra. Kroni arregalou os olhos e a última coisa que viu foi os olhos azuis de Shaka se abrirem, antes do seu corpo ser completamente aniquilado pela poderosa energia cósmica do cavaleiro.

"Aquele que a tudo impregna, também destrói o mal." Murmurou o virginiano saindo da posição de lótus e olhando em direção ao santuário.

"Ikki..."

(...)

— Não adianta, Ikki! — riu Lissa — Por mais que se esforce, não pode derrotar aquele que é o senhor da escuridão. Nem o poder de um deus pode derrotar meu irmão o maior dos filhos de Nix e do caos!

Ikki se ergueu novamente sentindo como se todos seus ossos estivessem quebrados. Seus olhos ficaram turvos e ele pensou que desmaiaria a qualquer momento.

— Eu jamais desistirei de destruí-los porque vocês brincaram com tudo que era mais importante em minha vida! — gritou se preparando para um novo golpe.

AVE FÊNIX!

O turbilhão de fogo se expandiu de tal forma que o clarão foi visto a vários quilômetros de distância aniquilando tudo ao redor.

— Boa tentativa, Fênix!

Ouviu a voz de Lissa e em instantes a primordial o erguia pelo pescoço.

— Como? — indagou Ikki arregalando os olhos chocados — Como pode sobreviver ao meu ave fênix?

A mulher riu.

— Eu já disse que seu golpe é patético contra nós seres além dos deuses! — disse ela e se virou para Érebo que sorriu satisfeito — Irmão, permita-me que acabe com ele.

— Claro minha querida Lissa! — disse o espectro.

— Sabe por que eu quis tanto acabar com vocês dois, Ikki? — falou com maldade — Por que odeio esse sentimento patético que os unem encarnação apôs encarnação; durante séculos tentei destruí-los, vocês são inimigos antigos dos daimons. Vocês a mais completa e perfeita simbiose kármica. Precisam ser destruídos!

A primordial começou a flutuar segurando o cavaleiro pelo queixo.

— Prepare-se para morrer Fênix! — gritou Lissa erguendo a mão para acertar o cavaleiro com um golpe devastador.

— CORRENTE DE ANDRÔMEDA!

Seu braço foi seguro pela corrente. Shun aparecia para salvar o cavaleiro de fênix.

— Solte meu irmão, maldita! — gritou Andrômeda.

Lissa riu com perversidade e apertou mais o pescoço de Ikki fazendo-o perder momentaneamente os sentidos.

— Como queira, Andrômeda! — respondeu Lissa e soltou o cavaleiro que despencou de uma altura inimaginável. Shun não teve tempo de pensar em impedir a queda do irmão, quando o corpo de Ikki batesse nas rochas abaixo de si, iria quebra-se inteiro.

— Não! — gritou Shun.

— Morra, Fênix! — gargalhava Lissa. Contudo, sua gargalhada morreu na garganta quando percebeu que tudo ao seu redor foi paralisado. Ikki parou no ar, Shun, Érebo e Lissa não conseguiam se mover.

— O que... o que está acontecendo? — indagou o mais jovem dos cavaleiros de bronze tentando se mover e então viu quem se aproximava — Shaka!

— Perdoe-me Shun, — pediu o cavaleiro de ouro e com um movimento, restituiu os movimentos do de bronze — Na distância que eu estava só conseguiria paralisar a queda do seu irmão paralisando tudo ao redor.

Shaka, muito calmamente, se colocou em posição de lótus e levitou até o cavaleiro de fênix. Quando chegou perto de Ikki que estava parado no ar, imóvel pela força do cosmo de virgem, ele disse:

Voe Garunda!

E expandiu seu cosmo ao máximo.

A ordem foi dada. O cavaleiro de fênix abriu os olhos e emanou seu cosmo, um grande pássaro de fogo emergiu aos céus sobre o olhar estupefato dos demônios. O deus também ascendeu, seus pés parando sobre o luminoso pássaro de fogo.

O cosmo de Shaka elevou-se como nunca antes assim como o de Ikki, e ambos iluminaram tudo ao redor.

E aquele que detém todo o amor e beleza, também extingue a maldade! — falou Shaka — Morram demônios!

Tudo foi envolvido pela luz azul que emanou um cosmo destruidor e varreu os espíritos malignos, incluindo o poderoso Érebo. Um imenso clarão que dominou tudo há uma distância incalculável e trouxe a aurora mais cedo.

Do santuário, os cavaleiros e Athena miravam tudo surpresos, assim como Shun de Andrômeda não acreditava no que estava vendo. Entretanto, contrariando todas as possibilidades e usando seu eficiente poder de telecinese, Lissa conseguira escapar da cosmo energia destruidora dos dois, embora muito machucada, mas antes que pudesse fugir, sentiu seu corpo ser paralisado e praticamente esmagado por um poder devastador, a primordial tremeu e chorou de pavor.

Shaka se aproximou dela vagarosamente, seus olhos que eram puro fogo a encararam.

— Tu ser primordial abjeto morrerá pela ousadia de ter tocado naquele que só pode ser tocado por meus pés! — disse o deus.

Os olhos verdes de Lissa se arregalaram aterrados e nesse momento a metamorfose ocorreu! A pele do cavaleiro de virgem tornou-se azulada e seus cabelos negros como a noite. Seus olhos eram labaredas de fogo.

— A-aquele que a tudo impregna... Vishnu... – murmurou Lissa tentando fugir, mas estava detida, paralisada enquanto uma força aterradora parecia esmagá-la inteira.

Dor. Muita dor era o que sentia a loucura.

— Adidev (O Senhor dos senhores) tem autoridade para destruíste, demônio grego — disse o deus e com um movimento de mão esmagou Lissa como a um inseto.

A loucura, ser primordial e maligno soltou um último brado de dor antes de ser completamente exterminada pelo deus hindu.

Seu brado de desespero ecoou na noite antes de tudo voltar a ser calmaria.

Os olhos de fogo de Vishnu se voltaram para a Garunda que o encarou também. Então a voz de trovão do Deus entoou:

jatasya hi dhruvo mrtyur

dhruvam janma mrtasya ca

tasmad apariharye 'rthe

na tvam socitum arhasiÇ

A Garunda fez uma reverência. E num movimento de braço, eles desapareceram daquele local.

Tudo voltou a ser calmaria...

Shun correu e olhou ao redor na tentativa de encontrá-lo, mas na aurora, somente os troncos e pedras quebradas davam sinal de que houve uma luta ali, todo o resto era silêncio.

— Ikkiiiiii! — gritou o garoto, mas não obteve resposta.

-Atados pelo Destino-

Vocês cumpriram com o destino que escolheram. — disse Brahma — Agora devem pagar esse preço e ele pode ser bom ou mau.

Ikki e Shaka estavam de frente a três deuses: Brahma, Lashkmi e Shiva.

A ameaça de Kroni já não existe. — disse a mulher — Ele e todos os Asuras serão selados até o advento da Satya yuga.

Estamos prontos. — disse Ikki.

Então retornem e que seus kármas prossigam!

Brahma bateu suas mãos e mais uma vez um turbilhão atemporal se formou e eles foram transportado por outra dimensão.

(...)

Shun ainda estava desnorteado quando viu os cavaleiros de ouro se aproximarem a passos firmes e sentiu o cosmo de Athena.

Saori surgia entre seus guardiões e ao lado de Julian Solo. Trazia na mão seu báculo, e seu cosmo resplandecia.

— Senhorita, meu irmão, o Shaka... — o adolescente tentava falar nervoso.

— Calma, Shun. — sorriu a deusa — Eles estão bem. Finalmente bem. Siga-me.

Shun seguiu Athena e os cavaleiros até chegarem a praia, procurando com os olhos e vendo o sol que começava a surgir no horizonte. Visualizou em fim, o irmão e Shaka caídos na areia da praia.

Correu na direção deles, juntos com Mu e Aiolia. Ajoelhou-se perto do irmão que estava desacordado enquanto os dois cavaleiros de ouro faziam o mesmo com o loiro da sexta casa.

— Eles... parece que não respiram! — falou Aiolia olhando para os dois cavaleiros e notando que eles tinham os dedos entrelaçados.

— Não, eles estão respirando sim. — sorriu Mu — Muito suavemente, mas estão respirando...

Aiolia olhou para Mu totalmente confuso.

— Mu, o que foi isso?

— Ah, Aiolia, eu não sei, vimos coisas demais essa noite, coisas inacreditáveis...

Calaram-se e sentiram os cosmos que se aproximavam. Athena com seu báculo seguida pelos demais. A deusa sorria feliz, tinha dado tudo certo, seus cavaleiros estavam salvos da conspiração maligna dos filhos da escuridão e do caos.

Aproximou-se deles e estendeu o báculo sobre a testa de ambos. Logo Shaka e Ikki abriram os olhos e piscaram confusos.

— Athena...

— Saori...

— Não falem nada agora, vocês precisam voltar ao santuário, estão muito cansados. Cavaleiros, ajude-os...

Aiolia apoiou Shaka e Shun fez o mesmo a Ikki, os levando de volta ao santuário.

Tudo voltara a ser tranqüilidade. Saori selou a urna que levava os asuras e aprisionou as almas dos daemons na velha urna de ouro a guardando na muralha de Enzin, soterrando-a depois para que nunca mais eles fossem libertos. Ao menos, não mais naquela era.

— Julian, obrigada pela ajuda. — disse encarando Posêidon que se despedia no heliporto do santuário.

— Não precisa agradecer, senhorita. — disse o rapaz — Em breve nos encontraremos, infelizmente teremos pouco tempo de paz.

A deusa assentiu, e o jovem invólucro do deus dos mares entrou no helicóptero e partiu. Saori mirou para Star Hill a tempo de ver as Moiras lhe acenar, antes de desaparecer.

"Zeus, meu pai, que haja um longo tempo de paz, até que as forças da escuridão voltem a nos ameaçar. Conceda-nos um pouco de paz, mesmo que temporária..."

A deusa não soube se foi ouvida, mas desejou de todo o coração.

-Atados pelo Destino-

O vento do final da tarde grega entrava pela janela e esvoaçava as cortinas claras do quarto de pedra. Os lençóis brancos cobriam parcialmente os corpos, assim como as leves túnicas de algodão que eles vestiam.

Ikki abriu os olhos e piscou com a luminosidade. Sentia-se estranhamente bem, para um cavaleiro acostumados a dores constantes pelas batalhas que sempre travavam, seu corpo estava relaxado, disposto e incrivelmente saudável. Passou as mãos nos cabelos escuros e bocejou se lembrando dos últimos acontecimentos. Arregalou os olhos.

— Shaka... — murmurou e se virou aflito.

Sorriu; seu anjo dormia tranquilamente ao seu lado. Fora apenas um sonho, um sonho ruim. Nada mudara. Shaka estava ali, seguro e sereno como sempre.

Sentiu lágrimas invadirem seus olhos. Estava despertando mesmo de um pesadelo. Tapou os lábios para que um soluço fugidio não acordasse o anjo que ali dormia, mas não deu certo. Shaka se virou em sua direção e abriu aquelas duas imensas safiras para ele. O sorriso que o indiano lhe entregou fez com que todos seus medos desaparecessem.

Shaka se sentou na cama e abriu os braços para aninhá-lo junto a si.

Ikki o abraçou com força, escondendo a cabeça na curva do seu pescoço e aspirando profundamente o perfume dos seus cabelos. Caso pudesse, ficaria eternamente ali enroscado nos braços fortes dele, aspirando seu perfume. Pensar que quase o perdera o enlouquecia, fazia-o querer fugir dali, escondê-lo onde mais ninguém pudesse tocá-lo.

Ficaram muito tempo abraçados em silêncio, um podia ouvir o coração do outro e sentiam no peito uma paz incompreensível, mas que dizia que tudo havia acabado e que jamais se separariam novamente.

A brisa continuava a entrar pela janela; morna, reconfortante como um presente de Éolo aos amantes tão sofridos.

Não sabiam eles que essa paz era passageira e que logo novas guerras surgiriam. Enquanto isso, abençoados pela inocência, eles permaneciam ali, provando um ao outro, saboreando o calor, a paz, se embriagando no amor profundo e essencial que sentiam.

Continua...

Notas finais: Bem esse foi o último capítulo antes de Hades. Tentei ser menos descritiva nas batalhas, mas sem ser evasiva. Pensei também em matar a Lissa junto com o Érebo, mas achei que ela merecia um sofrimento solitário XD!

Eu espero que não tenha sido difícil entender tudo, mas qualquer dúvida é só perguntar e informar o trecho que ficou confuso que corrijo.

Beijos especiais a todos que me acompanharam nessa jornada, teremos mais um ou dois capítulos de fase Hades e então adeus a essa fic. Sentirei muitas saudades.

AnaPanter, Maga do 4, Hannah Elric, Shakaamyia, Danieru, Suellen-San, Kao-san, Arcueid, SabakuNoGaara, faith, Keronekoi, Larrissa_Traum, Marry-chan, Hannah, Alexia-Black

Abraços mega afetuosos!

Sion Neblina

Postado em 08/01/2011