Capítulo Vinte e Um
Ginny deixou-se ficar na cama a manhã inteira. Não tinha vontade de se levantar e enfrentar a realidade. Era como se debaixo dos cobertores estivesse protegida do mundo. Molly já havia passado pelo quarto várias vezes e tentara fazer com que a ruiva levantasse o rabo da cama, mas nada feito.
Sabia que tinha um filho para cuidar e que tinha que se levantar mas também sabia que a sua mãe cuidaria muito bem de Adam. As memórias da noite anterior invadiam a sua cabeça como gumes afiados que a faziam sangrar. Ele podia ter dito que não a Pandora, não podia? Ter se recusado? Ele sabia que ela estava lá, devia ter dito que não queria nada com Pandora!
Virou-se na cama e mergulhou a cara na almofada. As lágrimas começavam a cair e ela queria evitá-las a todo o custo. Não queria ser uma Maria chorona.
-Sabes que não te vale de nada passares o dia na cama? - a voz forte que veio da porta fê-la petrificar. Afastou a boca da almofada para poder falar.
-O que fazes aqui? A tua nova noiva pode desconfiar! – ela disse com acidez. – Na verdade é melhor voltares para a mansão e fazeres sexo desenfreadamente com ela.
-Para com isso! – a voz dele era dura mas não demonstrava qualquer ponta de aborrecimento. – Não te fica bem!
-Oh mas tu fazeres sexo com Pandora á minha frente fica bem?! - ela disse finalmente saindo de debaixo dos cobertores e lançando um olhar fulminante a Draco.
-Eu avisei-t…
-Podias ter consideração por mim e teres dito que não! Sabias que eu estava lá, a ver tudo. Não fazes ideia de como doeu pois não? Devias ter dito não! – as lágrimas escorreram pela face sardenta da ruiva.
-Claro porque eu sempre fui um homem que renuncia a sexo com uma mulher bonita! A Pandora conhece-me melhor do que julgas, se eu dissesse que não ela ia desconfiar de alguma coisa…
-Podias ter dito que estavas cansado! Podias ter dito que naquela noite não, podias ter dito que a odiavas, Diabo! Devias ter pensado em mim, devias ter respeito. Que merda Draco, sabes como me senti ver-te a… fazer tudo o que minutos antes me tinhas feito a mim? Preferia que me lançassem uma Maldição Cruciatus, doía menos!
-Claro e a Pandora cairia de certeza! – ele disse revirando os olhos. – Eu tenho que fingir que nada mudou. Se eu…
Draco afastou-se da parede onde estava encostado e passou as mãos pelo cabelo.
-Ela sabe o que sinto por ti. Se eu dou sequer um sinal de que algo mudou ela vai juntar as peças.
-Eu não sei se aguento… Eu morri ontem! Nunca senti tanta dor, tanto nojo, senti raiva de ti… como foste capaz? Quero dizer, minutos antes estavas comigo…
-Por mais que te explique não vais perceber porque tu não és assim. Sei que o que fiz para ti é incompreensível, para mim… não digo que não custou mas é algo que fiz toda a minha vida: fingir, manipular…
-Desculpa mas eu não sou capaz de fazer esta farsa. Tu tens razão, eu não percebo! Julguei que o meu amor por ti aguentaria tudo mas… é melhor afastarmo-nos enquanto não fazes lá o que queres com este teatro todo porque eu não consigo ficar a assistir a tudo isto calada. Não faz parte da minha natureza engolir sapos. E sinceramente custa-me saber que tu,
mesmo sabendo que me estás a magoar cruelmente, és capaz de continuar com este teatro todo como se nada fosse. Eu fico com medo de não saber o que é fingimento e o que é verdade.
-Eu já te tinha dito. Foste tu que quiseste.
-Eu sei!- ela disse impacientemente. – Eu sei que me avisaste mas julguei que era diferente. Tens razão, eu tenho escrúpulos a mais, tenho moral, sou demasiado Gryffindórica!
-E o que queres fazer?
-Prefiro nem olhar para ti do que ver-te com ela. eu já passei por isto uma vez, não preciso passar por isto de novo. Eu não mereço.
-Então ficamos assim. Não nos vemos, não falamos, não…
-Não! – ela disse sentindo o seu coração reduzir-se a cinzas. Porque é que a sua vida tinha que ser aquele drama todo? Parecia uma daquelas novelas que vinha no Semanário das Bruxas. Parecia que sempre que tinha a certeza que ia ficar junto de Draco, aparecia alguma coisa ou alguém que estragava tudo.
-Muito bem! Então até um d… Adeus! – ele disse e saiu fechando a porta atrás de si e murmurando. – Amo-te ruiva!
Apesar de ser apenas um sussurro, Ginny conseguiu ouvir as últimas palavras do louro e foi como se lhe tivessem roubado o ar. Aquelas palavras feriam-na tanto como lhe davam esperanças. Seria muito pedir segurança, equilíbrio? Era assim tão difícil ela conseguir estabilidade no seu coração? Voltou a se atirar para a cama e fechou os olhos tentando a todo o custo não chorar. E se o plano maluco de Draco não desse resultado? E se ele casasse mesmo com Pandora? E se naquela história toda quem estava a ser enganada era ela? E se ela estivesse destinada a ser sempre a "outra" de Draco? A sua cabeça parecia andar á roda.
Draco entrou no seu quarto sentindo-se um trapo. Ele, no lugar de Ginny, tinha assassinado Pandora na noite anterior. Sabia o quanto ela estava a sofrer e não se conseguia imaginar a passar pelo mesmo. Não a culpava por querer distância dele. Naquele momento ele olhou-se ao espelho e não se viu. Viu sim Lucius Malfoy que brincava com as pessoas, manipulava-as fossem elas pessoas que ele amava ou odiava. Não importava desde que ele atingisse os seus objectivos. Será que ele estava a ficar um homem como o seu pai? É verdade que herdara muita coisa de Lucius e sempre fora educado pelo lema "os fins justificam os meios" mas naquele momento sentiu-se desprezível. No entanto, dentro de si sabia que para apanhar alguém como Pandora, tinha que recorrer a um jogo que ele conhecia e esquecer as regras.
Olhou para o relógio negro sobre a sua escrivaninha. Eram horas de começar o verdadeiro jogo. Colocando a máscara de indiferença que desde pequeno o haviam ensinado a usar, desceu até á sala de chá onde sabia que Pandora estaria. E não se enganou.
-Vamos ao Medibruxo? – ele perguntou, esperando que ela tentasse dissuadi-lo. No entanto tal não aconteceu. A morena ergueu-se e sorriu, passando por ele e encaminhando-se para a lareira.
-Vamos pela Floo certo?
Draco apenas assentiu e foi atrás dela. Não estava a gostar daquilo. A morena não deveria estar tão calma.
Algumas horas depois
Alguma coisa estava errada. O Medibruxo confirmara a gravidez de Pandora, confirmara a data de concepção. Mas Draco não conseguia acreditar. Pandora não podia ter
filhos, era infértil, ou pelo menos Borgin havia o dito. Então como…? Pandora sabia do plano dele, bem, não exactamente mas desconfiava de alguma coisa e ela era esperta. Draco só não sabia o que exactamente ela tinha feito mas conseguira dar a volta àquilo. Sabia que a sua sócia era inteligente, só não estava á espera que fosse tanto. As coisas estavam a correr pior do que esperava. Primeiro Ginny e agora a primeira parte do seu plano corria mal.
Levantou-se da sua cadeira, posou o seu copo de firewhisky sobre a escrivaninha e dirigiu-se á janela.
Pandora de alguma forma conseguira descobrir que Medibruxo ele tinha marcado consulta e tinha provavelmente conseguido falsear os exames ou subornar o homem. Não culpava McLaggen, o homem já na sua juventude era fácil de seduzir e Pandora sabia como fazê-lo fosse com o seu corpo ou com palavras e promessas gananciosas, a mulher sabia como dar a volta a muitas pessoas. Cormac McLaggen devia ter sido fácil se é que tinha sido esse o método da morena. Ele tinha escolhido um ex-Gryffindor exactamente porque julgou que Pandora não fosse desconfiar mas aquele jogo pelos vistos estava a ser jogado a dois.
Suspirou. Tinha que haver maneira de apanhar a sua noivinha.
Tinha que executar a segunda parte do seu plano mais rápido do que inicialmente julgara. Dirigiu-se á lareira e contactou os seus administradores e contabilistas através da floo. Chamou também o seu advogado. Precisava fazer um levantamento do seu património. Quanto era seu, quanto tinha sido herdado, quanto era partilhado com outros sócios e mais, quanto partilhava com Pandora. Precisava de todos os pormenores dos negócios. Ele tinha uma ideia geral da situação, sempre tentara manter-se a par de tudo mas haviam pequenos detalhes que lhe passavam ao lado.
Dois meses depois
Draco sorriu e orgulhou-se da sua própria inteligência. Estava encostado á parede do grande salão de baile. Tinha concordado com Pandora quando esta dissera que queria fazer um baile de noivado.
Os convidados começavam a encher o salão mas Draco tinha os olhos colados na porta. Esperava a entrada de três pessoas e começava a sentir-se ligeiramente ansioso, apesar de não o demonstrar. Cumprimentava todos os que por ele passavam mas sempre atento á porta.
A primeira pessoa que esperava acabava de entrar. McLaggen acompanhado por nem mais nem menos que Hermione Granger. Draco piscou o olho á sua ex-mulher e esta sorriu discretamente.
Atrás deles vinha Mr. Lung. O segundo convidado essencial naquela festa. O homem mais velho dirigiu-se a Draco e cumprimentou-o friamente. O louro sabia que o japonês ainda o julgava responsável pelo dinheiro que estava a faltar. Em breve, mudaria de ideias.
E agora o seu coração batia mais depressa. Já estavam quase todos ali menos ela. Não sabia se Ginny viria, tinha a convidado. Ela precisava estar ali. Precisava vê-la, nem que fosse ao longe. Aqueles dois meses tinham sido um tormento. Nem quando ia visitar Adam se conseguira ver a ruiva. E ninguém parecia querer dizer-lhe como ela estava. Ele precisava saber dela, poder pelo menos ter algum contacto com ela por mais indirecto e impessoal que fosse. A única pessoa que o lembrava que Ginny ainda o amava era Adam. Agarrara-se ao filho de tal maneira, e não era só por Ginny. Quando estava com Adam, mais nada importava. Bastava um olhar do bebé e Draco derretia-se, voltava a ser criança, a ser inocente.
-Draco, querido. Já chegaram todos. Vamos começar o jantar para depois abrir o baile? – a noiva de Draco disse naquela voz arrastada e irritante.
-Só mais uns segundos! – ele disse sem sequer olhar para ela. Pandora lançou-lhe um olhar fulminante e dirigiu-se a um casal convidado.
Nesse momento um grupo de cabeças ruivas acabava de chegar. Draco reconheceu Ron Weasley, Bill e Fleur Weasley, Molly e Artur e… lá estava ela. Tinha cara de poucos amigos, como se a tivessem obrigado a vir. Acreditava que tinha sido mesmo isso que tinha acontecido e Draco não a censurava. Para ela, aquele jantar significava a vitória de Pandora. Se pelo menos ele pudesse dizer-lhe a verdade.
Os empregados começaram a conduzir os convidados para os seus lugares e o louro foi obrigado a dar atenção a Pandora mas durante toda a refeição o seu olhar caia sobre Ginny. Numa dessas vezes os seus olhares cruzaram-se. Draco esboçou um sorriso discreto mas os olhos da ruiva mantiveram-se gelados. Ele sentiu um aperto no coração, a sua vontade foi acabar com aquela fachada naquele momento mesmo e abraçar Ginny, tirar aquela sombra triste do olhar dela, apagar aquela frieza que ela mostrava. Sentiu Pandora segurar-lhe a mão e teve vontade de afastá-la, em vez disso olhou para a sua futura ex-noiva e sorriu. Tinha que manter a farsa até ao momento certo.
A ruiva passou o jantar calada. Sentia os olhos de Draco nela e sentia-se ainda pior. Não queria ter vindo àquele jantar, ver o homem que amava com Pandora. Já tinha vivido aquilo uma vez, não precisava daquela dor de novo. Nas últimas semanas tinha procurado se distanciar de Draco e dedicara todo o seu tempo a Adam mas agora, tudo voltava, mais forte que nunca. Sentia vontade de chorar mas não se ia permitir. O seu olhar cruzou o de Draco e viu-o sorrir-lhe. Como podia ele sorrir-lhe sabendo que ela o amava e ele estava a anunciar o casamento com outra mulher. O seu coração enrijeceu e lançou-lhe um olhar gelado. Viu Pandora segurar a mão e Draco abrir-lhe um sorriso enorme. A ruiva queria se convencer que era fachada mas já fazia tanto tempo, ele já tinha tempo de ter resolvido aquilo. Ela devia ter ficado em casa como planeara inicialmente mas Hermione tinha-a convencido a vir e Ron não a deixava em paz.
Depois do jantar, Draco olhou para Hermione, para Harry e para o Sr. Lung. Cada um deles assentiu com a cabeça e Draco sorriu. Chegara a hora de derrubar o mundo de cristal de Pandora Spiderwick.
