CAPÍTULO 21
Faltava apenas uma semana para retornarmos às aulas e eu estava com Gina na biblioteca pública de Carmel, que não era lá tão repleta de livros quanto a biblioteca da minha antiga escola, mas dava para o gasto. Eu não poderia exigir muito de uma biblioteca de uma cidade turística.
Eu fiquei tão distraída nas últimas semanas pensando em Jesse e em como essas férias teriam sido maravilhosas se ele estivesse comigo, que acabei esquecendo de fazer os trabalhos que os professores tinham passado para ocuparmos nosso tempo. E Gina, como a boa amiga que é, me acompanhara no "esquecimento". Tínhamos ligado para Cee Cee e Adam para ver se eles queriam se juntar a nós nos estudos, mas eles já tinham feito todos os trabalhos e ainda tinham um almoço na casa de uma tia de Adam.
Então agora nós duas estávamos correndo contra o tempo para colocar tudo em dia. Já tínhamos acabado o trabalho de matemática e física – preferimos nos livrar logo do pior – e agora estávamos fazendo o de biologia. Ainda faltava o trabalho de geografia, de inglês e de história. O de geografia, nós faríamos ainda hoje, mas os outros seriam feitos fora da biblioteca.
O professor de inglês tinha nos dado uma pequena relação de algumas obras de Shakespeare para escolhermos um e fazermos um resumo sobre ele. Logo quando o professor passara esse trabalho eu tinha escolhido escrever sobre Romeu e Julieta, mas agora que eu tinha vivenciado minha própria história de tragédia no amor, achei melhor ficar com Macbeth. Mas Gina pegou Romeu e Julieta.
Quando terminamos o trabalho de geografia eu já estava quase atrasada para o jantar e Gina me levou para casa antes de voltar para a sua.
- Se eu ficar aqui eu vou acabar me distraindo com Jake e não vou ler o livro – ela respondera quando eu perguntei porque ela não dormia aqui em casa hoje.
Aquela foi uma das piores noites desde que Jesse me deixara. A noite tinha sido completamente normal. Eu subi para o meu quarto depois de lavar os pratos – ainda estava de castigo – e comecei a ler Macbeth. Eu já tinha lido esse livro na outra escola, então eu apenas li por alto dessa vez para me lembrar de algumas partes mais complexas. Já passava da meia noite quando eu terminei a leitura e fui dormir.
E mais uma vez eu sonhei com Jesse. E foi isso que fez com que aquela noite fosse tão ruim. Não o sonho em si, pelo menos não no início. O sonho começou do mesmo jeito de sempre. Jesse se afastando enquanto eu corria na direção dele sem nunca conseguir alcançar. Eu já sentia que estava quase acordando, com meu corpo sendo sacudido por violentos tremores, quando, de repente, ele parou de andar e se virou na minha direção de braços abertos e com aquele sorriso perfeito no rosto, esperando que eu chegasse até ele. Eu sorri em resposta e corri ainda mais rápido, ansiosa por finalmente sentir seu toque novamente. Apenas cinco metros nos separavam agora. Quatro metros. Três. Eu prendi a respiração antecipando o contato. Dois metros. Um. Eu quase podia sentir sua respiração no meu rosto e aquela mesma eletricidade percorrendo meu corpo. E então eu acordei.
Eu me vi sentada na cama, confusa com o fim abrupto do sonho e olhei ao redor como se procurasse alguma coisa. Ou alguém. Todas as noites eu ainda chorava quando acordava depois daquele sonho estúpido. Mas eu não tinha chorado assim desde o dia que ele me deixara. Eu o senti tão perto de mim. Foi tudo tão real.
Me levantei e fui para o assento da janela sabendo que não conseguiria dormir e abracei meus joelhos apoiando o queixo neles. Eu estava parecendo um doente tendo convulsões de tanto que meu corpo tremia. Tudo que eu queria fazer era gritar como naquela noite até ficar sem voz e precisei cravar as unhas com força na minha perna para controlar esse impulso.
Durante todo esse mês eu sentia meu coração morto, batendo apenas o suficiente para bombear o sangue pelo meu corpo, mas era como se ele estivesse no automático. E nada do que tinha acontecido durante todos esses dias tinha feito o que esse sonho fez. Por um instante, que durou apenas alguns segundos, meu coração voltara a viver novamente. E, por aqueles míseros segundos eu fui feliz. Mas então a realidade me atingiu com força redobrada como se quisesse me punir por ser tão idiota e ingênua por achar que ele pudesse voltar. Meu coração voltou ao ritmo monótono de antes e a dor da perda ficou ainda mais intensa.
- Eu te amo tanto Jesse. – sussurrei para a noite – Eu te amo para sempre.
Assim que o dia clareou, eu levantei, sentindo dor pelo corpo todo por ter ficado tanto tempo na mesma posição e fui para o banheiro escovar os dentes. Penteei o cabelo e troquei de roupa, colocando um vestido azul marinho, e desci logo em seguida. Ainda não tinha ninguém acordado e eu aproveitei para curtir um pouco do silêncio da casa. Peguei uma caixa de cereais de dentro do armário e tirei o leite da geladeira. Sentei em um dos bancos ao lado da bancada de granito e comecei a comer sem estar realmente com fome. Só queria me distrair um pouco.
Então minha vista bateu na mesa da cozinha, onde, há muitos meses atrás, Jesse tinha dito que me amava pela primeira vez. A lembrança daquele momento tão perfeito trouxe novas lágrimas aos meus olhos e eu acabei me engasgando com o cereal que estava na minha boca.
- Coma devagar, Suzinha. – minha mãe falou entrando na cozinha de repente – A comida não vai sair do prato.
Eu virei o rosto para que ela não visse as lágrimas que escorriam pela minha face, mas não fui rápida o suficiente.
- Porque você está chorando, meu anjo? – ela perguntou se aproximando de mim com o olhar preocupado.
- Eu não estava chorando, mãe – mas a minha voz pastosa me traiu.
- Suzannah...
- É sério, mãe. – eu falei enquanto enxugava o rosto apressada – Foi só um cisco que caiu no meu...
- Não me venha com essa desculpa esfarrapada, mocinha. – ela falou, mas sua voz estava gentil – Eu sei muito bem que você estava chorando.
Eu desviei meu rosto do seu olhar, mas ela colocou uma mão no meu queixo me forçando a encará-la.
- Por favor, Suzannah – ela sussurrou e eu identifiquei um profundo pesar na sua voz e no seu olhar – Eu preciso saber o que aconteceu com você naquela noite. Eu não agüento mais te ver desse jeito.
- Eu estou bem. – eu falei no mesmo tom, baixando o olhar.
- Não, você não está. Por mais que você tente mostrar que está tudo bem, eu sei que não está. Você acha que eu não vejo quando você deixa cair essa sua máscara de falsa tranqüilidade quando pensa que não tem ninguém olhando?
- Mãe...
- Eu vejo, Suzannah – ela me interrompeu ainda falando baixo e segurando meu rosto entre as mãos – E o que eu vejo é uma tristeza que eu nunca imaginei te ver sentindo. Na verdade, vai além da tristeza. – seus olhos estavam marejados – É como se você estivesse vazia.
Eu não consegui mais me controlar e comecei a chorar novamente. Ela me olhou aflita e me abraçou com força.
- Eu não consigo te ver desse jeito e não fazer nada, meu amor. – ela também chorava. – Você prometeu para mim que você seria você mesma de agora em diante, mas se essa é a verdadeira Suzannah, então eu quero a antiga de volta. Eu quero minha filha viva de novo.
- Mãe – eu chorei ainda mais, abraçando-a forte – dói tanto.
- O que, Suzinha? O que dói?
Nós continuamos ali abraçadas por mais alguns minutos até que eu não agüentei mais e desabafei.
- Meu coração. – eu falei no meio de um soluço – Meu coração está doendo e é como se essa dor se espalhasse pelo meu corpo todo.
- Filhinha – minha mãe sussurrou e me afastou gentilmente pelos ombros para poder me olhar.
- Por que permitimos que as pessoas entrem assim tão dentro da gente a ponto de saírem carregando um pedaço de nós quando partem? – eu falava rápido quase sem respirar. Eu não falava com minha mãe, nem com ninguém em específico. Eu apenas falava o que estava preso dentro de mim. – Por que nos damos tanto, nos entregamos tanto, nos deixamos tanto em mãos tão cuidadosas dos nossos sentimentos? Por que certas coisas não podem ser como fechar uma janela para evitar que os papéis voem? Por que eu não posso simplesmente fechar a janela e ficar livre do vento?
Minha mãe continuou em silêncio apenas me ouvindo com atenção e depois que eu terminei de falar, as lágrimas escorriam abundantes no meu rosto e ela as enxugou com delicadeza.
- Quem é ele, meu anjo? – ela perguntou com a voz suave, sem acusações na voz.
Eu respirei fundo para tentar me recompor. Eu sabia que tinha feito uma besteira por ter falado tanto, mas eu não estava arrependida.
- Eu não quero falar sobre isso. – eu respondi simplesmente.
- Acho que você já falou o bastante para eu deduzir o que aconteceu, meu bem. – ela afagava meus cabelos gentilmente.
- Eu sei.
- Eu o conheço?
Eu sabia que não me livraria tão facilmente dela então resolvi responder algumas coisas.
- Não.
- É da escola?
E eu lá sou do tipo que me envolvo com aqueles deficientes mentais que freqüentam a minha escola?
- Não, mãe. E eu não quero mesmo fal...
- Porque você não o trouxe aqui em casa?
Na verdade, mãe, ele sempre esteve aqui em casa. Morava no meu quarto. Até passou o Natal e o Réveillon conosco. Minha nossa! Como doía lembrar esses dias. Lembrar como tudo estava tão perfeito e feliz.
- Mãe! É sério, chega desse assunto.
- Tudo bem. – ela ergueu as mãos como se estivesse se rendendo quando viu que meus olhos tornaram a encher de lágrimas – Parei.
Eu me levantei da bancada e coloquei a tigela na pia antes de sair da cozinha, mas ela me deteve segurando meu braço.
- Deixa só eu te dizer uma coisa.
- O que é? – eu perguntei impaciente.
- Eu sei que você está sofrendo agora, mas um dia isso passa. Eu te garanto que daqui a algumas semanas...
- Não, mãe – eu a interrompi, me desvencilhando delicadamente das suas mãos, com uma expressão vazia no rosto – Não vai passar. Eu sei que a senhora deve estar pensando que é apenas uma paixonite juvenil, mas não é. O tempo nunca será suficiente para fazer curar o que sinto.
- É amor? – ela perguntou com o cenho franzido? – Amor de verdade?
- É mais do isso. – eu falei ainda sem emoção na voz.
- Então o quê, minha filha? O que foi que aconteceu? Se não foi o amor que você perdeu então que foi?
- Minha vida, mãe. Eu perdi a minha vida. – eu falei no mesmo tom e saí da cozinha.
Eu fiquei no meu quarto me recompondo da conversa com a minha mãe até que Gina buzinou na entrada de carros. Nós tínhamos marcado para ir ao museu essa manhã fazer o trabalho que o professor de história tinha passado, e fazer o relatório na parte da tarde.
O trabalho consistia em fazer um relatório de três páginas sobre alguns fatos históricos de Carmel. Eu tive vontade de pesquisar na Internet, mas não sabia exatamente o que tinha no museu falando da cidade então preferi não arriscar.
Nem foi tão difícil fazer esse trabalho. O guia do museu era um homem careca e sem graça, mas visivelmente apaixonado pela história da cidade e nos narrou tudo desde a sua criação, e até soletrava algum nome diferente para que Gina registrasse tudo no seu gravador.
Depois que demos nossa tarefa por cumprida, continuamos andando pelo local para apreciar algumas peças ou quadros antigos e passar o tempo até a hora do almoço. Já estávamos na última sala quando eu vi uma pequena miniatura que fez meu coração dar um pulo. Gina também viu e ficou me olhando esperando pela minha reação. Eu apenas olhava para aquela imagem de Jesse tão perfeito em trajes de época sem conseguir me mover. A mesma imagem que eu tinha usado para voltar no tempo. Senti alguma coisa molhando meu rosto e percebi que estava chorando mais uma vez.
- Vamos sair daqui – Gina falou baixinho me puxando pelos ombros em direção à saída.
E eu não me opus. Aquela miniatura era tão perfeita que era como se ele estivesse na minha frente novamente. Mas era exatamente como no sonho. Apenas uma ilusão.
O celular de Gina tocou quando já estávamos na calçada e ela parou para atender. Era o pai dela. Ela falou alguma coisa rapidamente e desligou em seguida.
- Mudança de planos – ela informou enquanto entrávamos em uma lanchonete – Meu pai não vai poder pegar minha mãe no aeroporto então eu vou ter que ir para lá agora. Você se incomoda de voltar sozinha?
- Claro que não. – eu falei indo para o balcão fazer meu pedido.
Nem era tão longe assim. Ou melhor, era, mas eu não me importava em andar.
- Mas assim que eu voltar, eu vou direto para sua casa para a gente fazer o relatório.
- Ok.
Ela pediu um lanche para viagem e se voltou para mim enquanto aguardava.
- Você vai ficar bem? – seu olhar estava parecido com o que a minha mãe tinha me direcionado essa manhã. Aquele mesmo olhar preocupado.
- E por que não ficaria? – perguntei me fingindo de desentendida e franzindo o cenho.
- A foto de Jes...
- Eu estou bem. – eu a interrompi, mas a minha voz saiu um pouco esganiçada me traindo.
Gina suspirou e deu de ombros.
- Não, você não está. Mas eu sei que você não gosta de falar sobre isso então eu não vou insistir.
- Obrigada. – eu murmurei evitando seus olhos.
Ela pegou seu pedido e me abraçou.
- Qualquer coisa me liga. – e saiu em direção ao carro que estava estacionado ali perto.
Eu peguei a bandeja com meu pedido e fui em direção a uma das mesas que ficavam ao lado da janela. Já fazia meia hora que eu estava ali sentada sozinha, mas não queria ir para casa agora. E eu estava distraída tentando não pensar em nada quando um barulho ensurdecedor de uma batida se fez ouvir fazendo com que os vidros da janela tremessem ameaçadoramente.
Em questão de segundos a lanchonete estava praticamente vazia já que os curiosos tinham corrido para o lado de fora para ver o que tinha acontecido. Eu continuei onde estava, não porque eu não tinha curiosidade também, mas porque eu não estava com vontade de encarar nenhum fantasma no momento. Não que eu tivesse certeza que alguém tinha morrido, mas achei melhor não arriscar.
Alguns minutos depois as pessoas começaram a retornar aos seus lugares e eu pude entreouvir algumas frases soltas.
"Minha nossa! Que coisa horrorosa!"
"Você viu a quantidade de sangue?"
"Parece que era um turista bêbado"
"Coitado. Morreu na hora."
Então. Morto na área. Tô fora!
Ok. Me senti um pouco insensível agora. Mas é que eu realmente não estava com ânimo para mediar ninguém. Queria que Gina estivesse comigo. Ela com certeza já estaria no local do acidente vendo se tinha algum fantasma por lá.
Suspirei cansada e levantei. Apesar de tudo eu continuava sendo uma mediadora também. Ou deslocadora, para ser mais específica. Eu me senti na obrigação de ir até lá ver se tinha alguém para ser mediado. Por que não era necessariamente certo que haveria. Só porque o cara morreu de uma hora para outra não quer dizer que ele tenha deixado algum assunto pendente aqui, certo? Hum, sonhar não custa.
Eu estava saindo da lanchonete, totalmente alheia aos meus pensamentos, quando esbarrei em alguém com força e caí de costas esparramada na calçada. Ai, caramba. Essa doeu.
- Me desculpa – o homem em quem eu tinha esbarrado falou. Ele não parecia nem um pouco abalado pelo impacto – Eu estava distraído.
- Tudo bem. – eu respondi, aceitando a mão que ele estendia para me ajudar a levantar – Eu também estava.
E então eu notei o brilho diferente que se estendia por toda sua pele e me desvencilhei rápido daquela mão fantasmagórica, o que foi meio estúpido da minha parte, já que eu ainda estava no meio do caminho para ficar de pé e acabei voltando para o chão.
Antes de levantar novamente sem ajuda eu olhei ao redor para checar se alguém tinha visto alguma coisa. Por sorte era horário de almoço e o sol estava forte, então a maioria dos transeuntes estava enfurnada dentro dos restaurantes e lanchonetes se escondendo do sol escaldante. E ainda havia aquele acidente mais a frente que detinha uma considerável massa de curiosos.
Levantei devagar e olhei para o fantasma que me encarava com o cenho franzido. Ele usava roupas típicas de turistas com camisa florida e bermuda cáqui com bolsos laterais. E ainda tinha um ridículo colar de flores artificiais em volta do pescoço. Lembrei de uma das coisas que uma mulher tinha falado quando entrou na lanchonete: "Parece que era um turista bêbado".
Ok. Achei o fantasma.
- Vem comigo. – falei num sussurro embora não houvesse ninguém por perto.
- Pra onde? – ele perguntou estranhando minha atitude.
Eu não respondi por que naquele momento passou um casal por nós. Lancei um olhar discreto na sua direção e ele acabou me seguindo. Eu o levei até um parque que estava vazio naquele horário e que era rodeado por grandes árvores deixando tudo na sombra e dando a privacidade necessária para aquela conversa. Sentei em um dos balanços e o encarei. Ele estava parado mais à frente com os braços cruzados sobre o peito. Deveria ter cerca de trinta e cinco anos, tinha cabelos loiros encaracolados e um pouco bagunçados e o olhar perdido como todos os fantasmas ficavam assim que morriam.
- Bem – comecei – em primeiro lugar, eu sinto muito pelo que aconteceu. De verdade. E em segundo lugar, eu gostaria que você soubesse que eu estou aqui para te ajudar com o que quer que você tenha de pendência aqui.
- Você sabe onde está o meu carro? – ele perguntou simplesmente.
Hein? Que tipo de pergunta é essa? Essa é a pendência que ele tem aqui?
- Eu o perdi. – ele continuou alheio à confusão que se passava na minha mente. – Não lembro onde estacionei.
Ai não. Por favor, não me diga que eu estou lidando com um daqueles fantasmas que não sabem que morreu. Era só o que me faltava agora. Ser a pessoa a dar a notícia fatídica.
Respirei fundo criando coragem para falar. Odiava fazer isso.
- Como você se chama? – era melhor ir com calma.
- Eddie Davis. – ele estendeu a mão para me cumprimentar.
Eu receei um pouco em retribuir o gesto, mas acabei cedendo.
- Suzannah Simon. – apertei sua mão rapidamente antes de continuar – Então Sr. Davis...
- Só Eddie. – ele falou com um sorriso simpático no rosto.
Tadinho. Tão legal. Morreu jovem.
- Certo, Eddie, qual é a última coisa que você lembra de ter feito?
- Ah, eu estava em uma festa havaiana muito divertida. Eu vi o sol nascer e tudo mais. Foi na praia. Uma espécie de lual. – isso explicava a roupa – E eu acho que bebi um pouco além da conta, mas o coquetel estava tão bom. – ele riu meio constrangido – Quando eu acordei, eu fui procurar meu carro e não achei.
Tentou procurar no poste em que ele estava amassado? Não seria muito legal perguntar isso, seria?
- E você ficou na festa até agora? – afinal, que lual ia até o meio dia?
- Não. Depois que o sol nasceu eu fui andar um pouco pela praia. Acho que foi aí que eu me perdi. Eu não deveria ter misturado o coquetel com o champanhe.
- Alguém já te disse que álcool e direção não combinam? – perguntei tentando a todo custo esconder o sarcasmo.
- Mas eu não dirigi. – ele explicou rápido – E é exatamente isso que eu estou te dizendo. Eu não achei meu carro.
- Você dirigiu Eddie. Infelizmente. – eu levantei e fui andando na sua direção encarando-o – Você saiu da festa e pegou seu carro. E estava tão embriagado que acabou batendo. – ele me olhava como se eu fosse uma louca. Eu mantinha a voz calma para não assustá-lo demais. – E morreu na hora.
Então ele riu. Mas eu não me assustei com sua reação. Estava acostumada com aquilo. Não que eu gostasse.
- Tá bom, e eu sou um fantasma agora. – ele ria tanto que chegava a se curvar.
- É exatamente o que você é. – eu expliquei ainda tentando manter a calma, mas era muito difícil fazer isso quando tinha um ser não vivente rindo da sua cara.
- Certo. – ele ainda ria e me olhou divertido. – Suzannah, não é? – eu apenas confirmei com a cabeça – Você é uma ótima atriz, garota. Muito boa essa pegadinha.
- Não é pegadinha, Eddie. – eu falei séria.
- Ok. – ele tentou controlar o acesso de riso – Então me responde essa: se eu estou morto como é que você está aqui falando comigo?
- Por que esse é um dom que eu tenho: falar com os mortos.
- Tipo uma médium? – ele ainda ria.
- Uma mediadora. – eu não precisava explicar que era uma deslocadora. Isso não importava agora. – Eu ajudo os mortos a seguirem em frente quando eles têm algum assunto pendente no mundo dos vivos.
- Você fala bonito. Quase dá para acreditar em você. Mas tem uma coisa faltando nessa história. – então ele se aproximou mais de mim e tocou nos meus cabelos de leve. – Pelo que eu conheço de histórias de fantasmas, eles atravessam as pessoas.
- É, eu sei. É só outra coisinha que eu posso fazer também.
- Tocar em fantasmas? – ele perguntou com uma sobrancelha erguida.
- Isso.
Ele se afastou novamente e me encarou descrente.
- Desculpa se eu não acredito em você, mas é que, devido às circunstancias atuais, fica meio difícil, sabe?
- Olha, eu até te levaria ao local que você morreu, mas eu acho que a essa altura do campeonato seu corpo já deve ter sido removido. – eu falei já no meu tom de voz normal, sem me preocupar em ser educada com ele. – Mas eu ainda posso te levar até onde está o seu carro para você ver o que sobrou dele. Quem sabe assim você acredita em mim.
- Eu não estou morto, senhorita Simon. – ele falou voltando a rir.
- Você está sim, senhor Davis.
- Não estou não!
- Está!
- Não estou.
- Ok. Parou a palhaçada. – eu não ia ficar ali discutindo quem tinha razão ou não. Tinha mais o que fazer. – Tem um jeito mais fácil de resolver isso.
A forma mais fácil de fazê-lo acreditar que eu estava falando a verdade era fazer com que ele visse seu corpo, mas eu não estava com saco para ir até o necrotério agora. Mas eu ainda tinha outra carta na manga. Era só fazer com que outro fantasma lhe dissesse o que tinha acontecido. Ele não teria como não acreditar assim. Me concentrei em Stephanie e chamei seu nome na minha mente. Abri os olhos esperando que ela aparecesse para me ajudar. Esperei mais um pouco e nada. Onde ela estava?
- E então? – Eddie perguntou quando nada aconteceu. Ele estava com os braços cruzados novamente e batia o pé no chão impaciente. – Eu não tenho o dia todo, sabe? Ainda tenho que procurar meu carro.
- Seu carro está esmagado contra um poste perto da lanchonete onde nos encontramos. – eu respondi irritada. Oras. Ele estava pedindo pela grosseria – Mas não sei se você vai reconhecê-lo. Ouvi alguém dizendo que virou sucata.
Onde estava Stephanie quanto eu precisava? Chamei-a novamente, mas ela ainda não aparecia. Peguei meu celular – é, agora eu tenho um celular. Presente de aniversário que minha mãe tinha me dado. Ela só tinha lembrado de me entregar na noite depois daquela conversa na sala onde eu fiquei de castigo – e liguei para Gina para saber se ela tinha notícias da irmã. Sabia que Gina deveria estar no aeroporto agora, mas as duas viviam juntas, então era provável que Steph estivesse com ela.
- É. Ela está aqui comigo, sim. Espera um instante. – ouvi o murmúrio das vozes das duas conversando em meio ao burburinho do aeroporto, mas não consegui identificar o que falavam. – Ela já está indo.
- Ah. Ok. – que estranho – Valeu. – e desliguei.
Logo em seguida Stephanie apareceu na minha frente, fazendo Eddie pular para trás assustado.
- Que diabos é isso?
- Ofendeu. – Steph reclamou ultrajada.
- Está tudo bem, Steph? – perguntei ignorando a reação do outro fantasma.
- Claro. Eu estava distraída conversando com Gina e não ouvi você me chamar. – ela falou dando de ombros.
- Ah, certo. – era impressão minha ou Stephanie estava evitando olhar nos meus olhos.
- Então, em que posso ser útil? – ela perguntou olhando para todo lugar menos para mim.
Eu resolvi deixar aquilo para depois, então eu expliquei para ela o que tinha acontecido e o fato que o bonitinho ali não estava acreditando que estava morto. Ela conversou com ele por alguns minutos explicando que era normal essa confusão depois da morte e que eu estava falando a verdade. Falou também do meu dom de ajudar os mortos e que a irmã dela era igual a mim. E finalmente, depois que Stephanie atravessou uma árvore puxando-o junto, ele acreditou.
E o incrível de tudo era que a pendência dele era simplesmente achar a porcaria do carro. Eu o levei até o local do acidente e Stephanie foi junto caso ele resolvesse surtar por lá, mas depois que ele viu os bombeiros trabalhando na remoção do que sobrara da máquina ele ficou apenas olhando para a sucata antes de falar:
- Pelo menos eu não sofri. – e seu corpo começou a ficar transparente e então ele se foi.
- Essa foi boa! – eu exclamei, sem me preocupar que alguém me ouvisse já que a motosserra que os bombeiros estavam usando fazia um barulho ensurdecedor.
- Você precisa de mais alguma coisa? – Stephanie perguntou olhando para os bombeiros.
- Não. Era só isso mesmo. – eu respondi voltando a olhar para ela – Obrigada pela ajuda.
- Disponha.
- Está tudo bem mesmo? – eu perguntei quando ela ainda não olhou para mim.
- Está. Eu vou indo nessa. Gina estava me contando uma piada muito boa e eu quero saber o final. Tchau. – e sumiu.
- Tchau. – eu murmurei.
Eu cheguei em casa e fui direto para o meu quarto e liguei o som ouvindo a voz calma de James Morrison logo em seguida. Esse CD não saía mais do meu aparelho.
Depois de cerca de duas horas Gina chegou e começamos a fazer o relatório sobre Carmel. Nós ouvimos o áudio da conversa no seu gravador repetidas vezes até que conseguimos completar as três páginas pedidas pelo professor. O sol já estava quase se pondo quando acabamos, exaustas por ficar tanto tempo sentadas. Nos deitamos no tapete do meu quarto e ficamos olhando para o teto, distraídas.
- Por que Stephanie não veio? – eu perguntei do nada, lembrando do seu comportamento essa tarde.
Então eu percebi que fazia dias que Stephanie não aparecia ali em casa. Mais de duas semanas para ser mais específica. E a última vez que ela viera, ela não ficara nem cinco minutos.
- Ela disse que estava com vontade de assombrar um pouco a nossa nova empregada. Se divertir um pouco.
- Faz tempo que ela não vem aqui. – eu falei depois que parei de rir do que Gina falara. – Está tudo bem com ela?
- Claro. Porque não estaria? – mas a voz de Gina tinha mudado de tom um pouco com se ela estivesse desconcertada.
- Não sei. Ela parecia estranha hoje.
- Impressão sua.
Eu me sentei no tapete para poder observá-la e vi que ela não me olhava.
- Desembucha Gina!
- O que foi? – ela perguntou me olhando finalmente com uma cara de inocente que não me convenceu nem um pouco.
- Não vem com essa. – eu falei ficando irritada – Eu sei que aconteceu alguma coisa. Pode ir falando. Por que Stephanie está assim distante comigo?
Gina sentou na minha frente também e suspirou antes de falar.
- É que – ela começou meio receosa – depois de tudo que aconteceu com você e Jesse e o quanto você ficou abalada depois que ele foi embora, ela não se sentiu muito bem de ficar te forçando a ver outro fantasma o tempo todo. Para que você não tivesse que ficar lembrando-se dele a todo instante.
Eu estava incrédula com aquilo.
- Eu... eu não acredito que ela tenha pensado isso mesmo!
- Pois é... – Gina murmurou.
- Que bobagem.
Ela apenas deu de ombros.
- Será que se eu a chamar agora, ela virá?
- Não sei. Tenta.
Eu me concentrei nela novamente, mas ela não veio. Tentei mais uma vez e nada. Tentei uma nova abordagem.
"Steph, – eu falei na minha mente – Gina me falou dessa sua loucura de me evitar. É melhor você vir aqui agora ou eu vou até aí te puxar pelos cabelos.
- Que estresse! – ela exclamou assim que apareceu perto da janela.
- Que história é essa de achar que a sua presença me incomoda?! – eu falei irritada levantando e indo até ela.
Ela baixou a cabeça evitando meu olhar mais uma vez.
- Eu só pensei que...
- Pensou errado. – eu a interrompi, séria. – Não precisa se preocupar com isso, Steph. Eu não quero que você se afaste por conta do que houve. Você também é minha amiga e eu não quero perder a sua amizade.
Ela ergueu o rosto para finalmente me encarar e seus olhos estavam brilhando intensos, mas ela parecia frustrada com alguma coisa.
- Isso é tão idiota. – ela falou de repente – Essa separação não fez bem para ninguém. Ficam os dois sofrendo pelos cantos e... – então ela se calou como se tivesse falado demais.
- O que você disse? – eu perguntei esquecendo completamente de respirar. Meu coração estava disparado novamente como só ficava quando algo dizia respeito a Jesse.
Mas ela continuou em silêncio. Eu olhei para Gina para ver se ela sabia do que se tratava, mas, a julgar pela sua expressão aparvalhada, ela sabia tanto quanto eu.
- Stephanie – eu quase gritei desesperada voltando a encará-la – você... você f-falou com e-ele?
- Esquece isso, Suze. – Steph respondeu – Se ele souber que eu falei alguma coisa ele...
Ela interrompeu o que estava falando quando eu caí de joelhos, meu corpo perdendo as forças por completo.
- Suze! – as duas exclamaram e correram até mim.
- Meu Deus, Suze! Você está bem? – Gina perguntou aflita.
Mas eu a ignorei e peguei no braço de Stephanie com força.
- C-como ele e-está? – eu gaguejava. O ar parecia ter evaporado completamente do ambiente e eu estava começando a me sentir sufocada.
- Esquece isso, por favor – ela repetiu nervosa.
- Como ele está?! – eu gritei dessa vez fazendo com que as duas se sobressaltassem. – Por favor – eu pedi tentando me controlar –, eu preciso saber.
Ela olhou para a irmã como se pedisse autorização para falar e quando Gina não a impediu ela suspirou pesadamente e voltou os olhos para mim.
- Vazio.
Só isso. Apenas uma palavra e eu desabei por completo. Eu chorei. Eu gritei como naquela noite que ele me deixou há quase um mês atrás. Eu já tinha aceitado a sua partida. Não superado, mas já estava acostumada a conviver com esse crescente sentimento de perda, e essa dor constante que eu sabia que seria minha companheira pelo resto da minha vida.
Mas saber que Jesse estava tão perdido quanto eu, sentindo o mesmo que eu pela separação, isso tinha sido o suficiente para destruir aquela barreira que eu tinha construído a minha volta. A barreira que eu tinha erguido com tanto esforço para conseguir camuflar os meus sentimentos mais profundos.
Eu não ouvi quando Brad quase arrombou a porta com a força com que ele abriu, embora ela não estivesse trancada, nem ouvi quando Jake chegou logo depois perguntando o que tinha acontecido para eu gritar, nem vi o desespero nos seus olhos quando eles me viram chorando daquela forma, completamente fora de controle. Tampouco ouvi quando Gina pediu que Jake me colocasse na cama ou senti quando ele fez isso.
Eu só fazia chorar e gritar a todo instante. Gina conseguiu fazer com que os dois saíssem do quarto e logo em seguida ela veio para a cama e deitou ao meu lado. Ela tentou me abraçar, mas eu não permiti. Não era ela quem eu queria ali do meu lado. Não era ela que eu queria que me abraçasse para me confortar. Quem eu queria não estava ali.
Minha mãe bateu na porta quando chegou do trabalho – provavelmente Jake ou Brad tinham falado para ela o que acontecera –, mas Gina assegurou que eu estava melhor e ela saiu do quarto sem insistir. Por volta das dez da noite eu pedi para Gina me deixar sozinha e depois de uma breve discussão ela acabou cedendo, mas pediu que eu ligasse a qualquer hora se precisasse conversar.
Mas eu não precisaria. Quem eu precisa estava sabe-se lá onde passando por maus bocados, sozinho, enquanto eu tinha toda uma família preocupada ao meu lado. E ele? Quem ele tinha por perto para ajudar a passar por isso? Stephanie de vez em quando? Ou ele era como eu que preferia sofrer sozinho?
Pela primeira vez aquele penhasco que Jesse me levara me pareceu tentador demais. Pela primeira vez eu tive vontade de acabar com tudo aquilo de uma vez por todas. Acabar com a dor. Acabar com o sentimento de vazio que me assolava. Só de pensar em ter que viver uma vida inteira sem ele eu...
Meu Deus. Do que eu estou falando? Eu tenho sorte por que um dia eu vou morrer. Seja de causas naturais ou não. Mas e Jesse? Ele estava condenado a viver eternamente com essa dor. Ele não tinha como se livrar disso com a morte. Ele já estava morto. E isso nunca mudaria porque, graças a mim, ele não poderia seguir em frente. Nunca.
Eu não poderia permitir isso.
Dei um pulo da cama quando tomei a decisão. Poderia ser loucura, mas eu iria fazer. Era a única alternativa para livrá-lo disso. E o primeiro passo seria ir ao museu e pegar aquela estúpida miniatura.
