Capítulo Vigésimo Primeiro

"Eu estou livre, meu amor. Não imaginei que um dia escreveria essas palavras e muito menos que elas seriam verdadeiras, mas eu de fato estou livre e perfeitamente bem. Nosso filho nasceu saudável, com olhos verdes e cabelos dourados, assim como você. Ele dorme tranquilamente ao meu lado agora, farto de tanto mamar. Recuso-me a pensar nos dias de horror que vivi, apenas anseio por deixa-los para trás e retornar para a paz que só encontro no seu abraço. Edmure e Tio Brynden estão mantendo Petyr Baelish, meu captor, preso. Tive o prazer de chutar-lhe exatamente onde dói mais, mas estou guardando a melhor parte para você. Não sei quando o verei de novo, estou tentando evitar ir a Porto Real, e sequer posso imaginar ser colocada num navio novamente... então eu aguardarei suas instruções de como e para onde proceder. Tudo o que eu mais quero é chegar em casa, dormir na nossa cama, ao seu lado, com nossa princesa enfiando-se entre nós e nosso tão sonhado herdeiro seguro em meus braços. Imaginei que seria impossível, mas eu apenas posso ama-lo cada vez mais e sempre com mais intensidade. Com todo meu amor, Catelyn."

Tywin leu e releu as palavras sentindo uma emoção crescente tomar conta dos seus sentidos. Catelyn estava viva e segura! Catelyn dera à luz a um herdeiro, um menino, saudável e de cores Lannister! Jaime observou o sorriso formar-se nos lábios do pai e imaginou exatamente do que se tratava. Havia apenas uma coisa no mundo capaz de fazer com que Tywin Lannister titubeasse em sua resolução gélida de parecer inabalável. E essa coisa tinha cabelos vermelhos e uma voz de comando macia como veludo.

-Lady Catelyn está bem? –ele perguntou.

-Está... –Tywin respondeu num sussurro- Ela está... bem! Ela deu à luz a um menino...

-São excelentes noticias meu pai! –Jaime abraçou o pai, um ato extremamente incomum, mas que o outro não repeliu- Quando ela estará aqui?

-Ainda não sei... Imagino que eu deva ir por ela.

-E desfazer o cerco?

-Você será capaz de manter o cerco. –Tywin disse- Eu apenas não posso mais me eximir. Ela foi encontrada e não graças a mim.

-Você está colocando sua mulher antes dos interesses da nossa Casa.

Mas que interesses? Tomar Porto Real? Ele realmente queria tomar Porto Real e tornar-se rei de uma nação fragmentada? Ele precisaria disso? Tudo o que ele sabia que precisava agora estava a uma semana de viagem para o Sul, hospedada sob os domínios de Oberyn Martrell. O que deixava Tywin completamente desconfortável. Rapidamente escreveu uma resposta, orientando-a a seguir para Blackhaven, nas terras da Tormenta, agora comandadas por Loras Tyrell.

"Eu não sei expressar o alivio que sinto ao finalmente ter noticias suas, escritas de seu próprio punho. Quantas vezes julguei que estivesses irremediavelmente perdida, para sempre longe de mim... Quantas vezes pensei em invadir Dorne e procurar por você eu mesmo... Catelyn, eu já lhe disse isso inúmeras vezes, talvez nenhuma delas por escrito, mas eu a amo e a quero muito mais do que necessito qualquer outra coisa. Sansa e Tyrion estão perfeitamente bem e em segurança no Rochedo, lhes enviarei um corvo avisando sobre sua liberdade e sobre a chegada do nosso herdeiro. Preciso que você siga, caso esteja em condições, para Blackhaven, nos domínios dos Baratheon, agora comandados por Loras Tyrell. Certamente Edmure lhe contará os detalhes de tudo o que houve. Estarei esperando por você lá. Não posso esperar muito mais para tê-la em meus braços. Com todo o amor que já fui capaz de sentir um dia, Tywin."

-Então você vai mesmo partir?

-O comando das tropas fica com você. –Tywin explicou, preparando vestes e provisões para uma viajem cansativa- Devo estar de volta em quinze ou vinte dias.

-Mas meu pai... –Jaime interveio- Não seria melhor deixa-la a salvo em Ponta Tempestade? Então em poucos dias num navio confortável, ela estaria aqui com o bebê. Há realmente alguma necessidade de que o senhor precise ir até lá?

Não havia, mas ele queria ir.

-Stannis concordou em abrir os portões, o povo está clamando por você.

-Isso pode esperar. –Tywin disse resoluto.- Apenas permita que as provisões chegadas da Campina sejam distribuídas pelo povo e esteja presente em cada reunião do pequeno conselho.

-E Jon Arryn? E a família de Stannis Baratheon, o senhor não acha que ele ficará possesso quando descobrir que Pedra do Dragão foi tomada?

-Ele já deve saber a essa altura. A Mulher Vermelha enxerga coisas no fogo, aparentemente. Jon Arryn deve ser preso, seja bastante firme em relação a isso. Mas se surgir uma oportunidade de entregar a Stannis sua família, faça-o.

-O senhor está confiando em mim para comandar as tropas no seu lugar? –Jaime pareceu confuso- Eu fui praticamente banido da família...

-Jaime... –Tywin deixou o que estava fazendo e se aproximou dele- Eu já perdi sua mãe, já perdi sua irmã... Eu não posso me permitir perder você também. Mesmo Tyrion... mesmo ele importa. Então por mais que eu tenha sido duro e agido mal... Eu estava...

-Tentando nos salvar. –Jaime segurou a mão do pai- Vá por ela, eu cuidarei de tudo aqui.

-Esse reino nos pertence. Precisamos nos organizar para tê-lo sob nosso poder. Mas enquanto a rainha esteja longe e nas mãos dos tontos Tully... Eu não conseguirei pensar como um rei.

Catelyn sorria abertamente, observando Edmure tentar acertar um alvo de palha com uma lança curva.

-Como você foi cair nas mãos de um Lannister? –perguntou Ellaria Sand, sentando-se ao lado de Catelyn.

-Acho que muitos já conhecem minha história. –Catelyn disse agradavelmente- Era o melhor a ser feito na situação em que estávamos. Meu noivo havia morrido, todos estavam em guerra...

-Seu marido ordenou que Elia e suas crianças fossem mortas.

-Isso é algo pelo que eu não posso perdoa-lo até hoje. –Catelyn tocou a mão da mulher- Eu pedi que ele vencesse a guerra, pedi que subjugasse os Targeryan, que se tornasse Protetor do Reino ou algo assim, até Aegon ter idade para governar... Eu sinceramente jamais imaginei que os planos eram outros. Eu lhe peço perdão abertamente por tudo isso.

-As princesas se negam a conhecê-la, Lady Catelyn. –Ellaria disse- As Serpentes de Areia, elas se recusam.

-Não posso culpa-las. Em todo caso, eu desejo que elas prosperem e sejam felizes.

-Bom... Eu tenho uma carta para você. –e a mulher passou-lhe o pergaminho enrolado e lacrado com o leão Lannister.

-Obrigada. –Catelyn sorriu, rompendo o lacre rapidamente e lendo o que estava escrito.

Chamou Edmure e disse o que Tywin queria que ela fizesse.

-Você se sente forte o bastante para uma viajem assim? Serão pelos menos dez dias até Blackhaven.

-Podemos comparar uma carruagem. –Catelyn disse- E viajaremos sem pressa.

-Se você se sente pronta... nós iremos. Quando Tio Brynden retornar dessa caçada que empreendeu com Oberyn Matrell, já estaremos prontos para ir.

-Eu aceito tudo... mas nada que envolva um navio.

-Como quiser, irmã.

Melisandre observava o fogo, ajoelhada diante de uma lareira. Stannis estava postado exatamente ao lado dela, mas nenhum deles dizia nada.

-E então? –Stannis perguntou, após uma espera longa e silenciosa.

-Devemos esperar pela Rainha. –Melisandre disse.

-Selyse?

-Não, a verdadeira Rainha. –ela olhou para Stannis parecendo envelhecer alguns anos- Eu temo que R'hllor não esteja exatamente de acordo com o seu reinado, meu senhor. As chamas... elas mostram que somos requeridos em outro lugar.

-Do que você está falando? Que rainha é essa?

-A rainha vermelha. Catelyn Lannister.

-O que você...? –ele titubeou, olhando para Melisandre sem entender o que ela queria dizer.

-Meu Senhor... Um verdadeiro rei faz o que é necessário para proteger seu reino, e com a chegada do inverno no Norte... o reino está em perigo. O Senhor é um guerreiro, não um politico. Talvez seja a hora de estabelecer as novas diretrizes de Westeros. Abra os portões, entregue o Trono de Ferro aos Lannister. Em troca, peça apoio.

-Apoio?

-Apoio, meu senhor. O terror que se anuncia na Muralha é maior do que a Patrulha da Noite pode lidar. Ned Stark estará em sérios problemas.

-Quando?

-Um ano... dois, talvez um pouco mais. Mas até lá, precisaremos do apoio financeiro dos Lannister. A coroa está falida. Seu irmão assegurou-se disso.

-E porque devemos esperar pelo retorno de Catelyn Tully?

-Por que o leão nasceu.

Tywin cavalgava com quase duzentos homens em direção a Blackhaven. A travessia não durou mais do que cinco dias e ele rapidamente se ambientou no lugar. Buscou a melhor acomodação, que esperaria por Catelyn e o bebê, que pelo que ele entendia ainda não tinha nome. No terceiro dia após sua chegada recebeu um corvo de Ned Stark, ao qual não deu muita importância, já que seus homens anunciaram que os estandartes da Casa Tully foram vistos na estrada.

Ele rapidamente montou seu cavalo e partiu para observar a chegada deles do topo da muralha. Viu uma bela carruagem negra, ornamentada com prata e azul metálico. Não parecia ser exatamente confortável, mas sabia que Catelyn estaria ali, contrafeita por não poder estar cavalgando. Edmure e Brynden Tully lideravam a comitiva.

Catelyn estava sonolenta e cansada, já que o filho passara toda a noite acordado, chorando e vomitando. Foi assim durante toda a viagem, ele não gostava de estradas. Apenas quando a mãe resolveu cavalgar com ele, bem preso ao seu corpo por uma echarpe bem amarrada, foi que ele descansou. Então durante todo o caminho ele estivera daquele jeito, passando pelos braços dos tios, de alguns Lordes menos grosseiros, já que a maioria achava que carregar um bebe era uma afronta a sua masculinidade, e sempre voltando para a mãe, decidido a mamar até a exaustão. Mas naquele final de tarde, ela se rendera, apeando do cavalo e refugiando-se na carruagem por conta da chuva que caia. Dormiu quase instantaneamente, com o pequeno deitado sobre seu peito, que mesmo protestando a principio, rendeu-se ao sono.

Quando finalmente a comitiva cruzou os portões, Catelyn despertou, para ver que ainda chovia um pouco. Desceu da carruagem, ocultando o bebe o máximo que podia com uma pesada manta de peles. Foi quando viu a figura de Tywin, encharcado e enlameado, praticamente correndo em direção ao grupo. Ela por um segundo imaginou que estivesse numa espécie de sonho.

-Tywin...? –ela sussurrou caminhando em direção a ele

-Cat... –ele parou, seu rosto contorcido numa expressão que denunciava que ele estava prestes a chorar, algo que ela jamais vira antes.

Ele a olhava como se não pudesse acreditar que a via, observou o volume em seus braços e titubeou, sentindo os olhos queimarem e uma lagrima maldita trair suas convicções. Eles não disseram mais nada, apenas uniram seus lábios num beijo que poderia ter durado eternamente. Ele arfava, sentindo que se coração iria explodir, olhava para o rosto a sua frente, o rosto que amava e com o qual sonhava todas as noites e quase não conseguia acreditar que era real. O alivio que sentia era tanto que suas forças pareciam estar sumindo. Catelyn apenas sorria, secando as lagrimas que insistiam em escorrer por seu rosto.

-Eu estou bem... Meu amor...

-Eu... eu não pude fazer nada... não quando soube que você estava em Dorne, eu não tinha o que fazer, me perdoe, era eu quem deveria estar com você... Eu falhei...

-Tywin... –ela segurou seu rosto com a mão livre- Você fez o que pode, você revirou os Sete Reinos por minha causa.

-Como eu poderia não fazê-lo? –ele disse, encaixando o rosto a curva do pescoço dela- Como não lutar por você? Você é tudo o que eu mais amo no mundo... Tudo o que realmente importa.

-Eu não viveria num mundo sem você. –ela o beijou- Veja, conheça seu herdeiro...

Ela retirou o manto e apresentou o pequeno ao pai, que apenas o observou maravilhado. Tywin passou os dedos pelos cabelos dele, que ainda dormia serenamente. Olhou então para a mulher e a beijou mais uma vez.

-Como ele se chama? –Tywin perguntou.

-Você decide essas coisas. –ela sorriu- Eu o chamava de Tywin a maior parte do tempo, eu conversava com ele como se fosse você, ainda no ventre.

-Eu não consigo pensar em nada... Ele é apenas tão bonito e perfeito...

Catelyn havia pensado em sugerir o nome do pai de Tywin, Tytos, mas sabia que ele o desprezava, mesmo assim, imaginou que a tentativa poderia valer a pena.

-Não, querida. Não este nome. Seu pai ainda vive, Catelyn, e mesmo assim eu o chamaria de Hoster de bom grado.

-Você não está falando serio? –ela riu baixinho.

-Eu estou.

-Hoster Lannister? –ela repetiu, observando o pequeno aninhar-se melhor em seus braços- Você tem certeza?

-Apenas se for do seu agrado.

E como não seria? Catelyn o beijou novamente, agora sorrindo plenamente satisfeita. Observava o rosto do marido, livre de lagrimas e de expressões difíceis. Acariciou sua barba e voltou a beija-lo.

-Eu senti tanto sua falta... –ele disse, fechando os olhos- Cada dia que passava eu sentia que algo em mim morria... algo bom, algo que você criou e que só existe pra você...

-Eu estou aqui agora. Tudo ficará bem... Querido, eu sinto muito por Cersei...

-Não... –ele murmurou- Sem Cersei e assuntos difíceis agora. Você precisa descansar e nosso garoto precisa de um berço.

-Tywin... E sobre Petyr Baelish?

O rosto dele sombreou e ele tocou instintivamente no cabo da espada.

-Você não vai querer estar por perto para ver.