In a different light

Capítulo 20: Achados e perdidos

Autora: TheMaven

Tradutora: Shampoo-chan

Beta-reader: Doks

Depois do "banho", Rin estava exausta demais até para pensar em comer. Puxou um cobertor, enrolou-se nele como uma bola e caiu rapidamente no sono com um único pensamento em mente – ele a amava. Com as próprias palavras na própria voz, com a própria boca, ele tinha dito a ela.

Claro, não foi tão romântico assim. Ele falou como alguém falaria "A grama é verde" ou "A água é molhada". Mas... Era uma coisa boa, não? A grama sempre seria verde. A água sempre seria molhada. E ele sempre a amaria.

Alguém a amava. Ele a amava. Depois de todos esses anos, alguém finalmente a amava.

Sorriu consigo mesma quando o sono finalmente a dominou e os sons do mundo afora silenciosamente desapareceram. Que pensamento maravilhosamente confortável para amortecer a descida dela ao mundo dos sonhos.

Sesshoumaru sentou-se na clareira no lugar habitual e ouviu quando as batidas do coração dela se acalmaram e a respiração tomou um ritmo mais calmo e relaxado. Gostaria de tê-la nos braços enquanto ela cochilava, mas simplesmente não era possível. Havia algumas coisas que ele precisava resolver enquanto ela dormia, e não conseguiria fazer nada com o mesmo nível de confiança se ela estivesse ressonando contra o ombro dele.

Focou a atenção no servo dele, que naquele momento estava andando de um lado a outro do acampamento, preparando as coisas para a partida do grupo. Três dias haviam passado, e estava mais do que na hora de ir embora. Ele tinha que patrulhar as fronteiras, uma reunião para presidir e algumas pesquisas para fazer. Não tinha certeza, mas ele parecia relembrar que um, se não ambos, dos participantes dos ritos de união precisava ser completado ao mesmo tempo que o ritual de "marcamento". Se fosse por conta própria e a marcasse sem saber corretamente como realizar o rito de união, seria péssimo. Sem segundas chances. Rin poderia passar o resto da vida com ele – breves cinquenta anos, mais ou menos –, mas a chance de passar a eternidade juntos ficaria perdida para ambos.

Certamente que poderia controlar os instintos na baía por mais duas semanas. Ele mesmo havia dito que havia outras maneiras de se entreterem. E a recente performance de Rin era uma indicação da aptidão dela para "outras" atividades, não haveria então momento de tédio entre ambos.

Sim, as duas semanas seriam... ligeiramente desconfortáveis, especialmente ao dormir ao lado dela à noite, com o cheiro dela preenchendo as narinas, o corpo aquecendo a pele dele, a respiração e os murmurinhos dela durante a noite estimulando os sentidos... Respirou discreta e profundamente. Você não é um animal, lembrou-se. Só animais que vivem por instinto.

Forçou o sangue demoníaco a retroceder e se acalmar, desviando o olhar da sonolenta companheira, fingindo ouvir algo ao longe.

-Meu lorde? – Jaken indagou.

-Nada, Jaken. Continue com suas tarefas.

O sapo assentiu.

Se você for muito agressivo, relembrou-se, vai assustá-la. Não obstante o que ela diga ou o que queira fazer, você vai... intimidá-la. As ações na caverna foram prova suficiente disso. Se ela estiver incerta desse novo aspecto do relacionamento, então você precisa ser paciente não apenas com ela, mas por ela.

Era uma infelicidade, mas compreensível – a diferença de idade, a diferença nas maneiras de se expressarem. Não foi surpresa que ela se sentisse um pouco desconfortável. Ele mesmo ficou um pouco... enervado pelas emoções que ela tão facilmente evocada nele.

Não quis deixá-la sair para treinar pela manhã.

Há tempos que não necessitava... alguma coisa. Se ele queria alguma coisa, alguém simplesmente estava disposto a dá-lo, e se não, ele não media esforços para pegar à força. Ele era o Lorde das Terras do Oeste, afinal de contas, e tudo naqueles territórios pertencia a ele. "Precisar" era outra palavra inútil no extensivo vocabulário, assim como "frio" ou "doença". Ele nunca sentia o frio, nunca ficou doente, e nunca precisaria de alguma coisa.

Precisar, como aprendera, significava requerer alguma coisa porque era essencial ou muito importante, ou se referia ao estado de pobreza, sofrimento ou infortúnio. E, até recentemente, não havia significado para ele. Pobreza? Sofrimento? Infortúnio? Alguma coisa essencial ou muito importante para ele?

Que disparate.

Verdade, naquele ponto já pensou uma vez que precisava de Tessaiga. Mas mais tarde descobriu que era simples querer. Ele queria a antiga arma do pai, mas Inuyasha precisava dela. O irmão não funcionaria apropriadamente sem ela. Ele queria para aumentar os poderes; Inuyasha precisava dela para manter a sanidade.

Não, ele não precisava de Tessaiga, mas precisava de Rin.

Tomou a oportunidade de, de novo, olhar a forma adormecida da companheira. Tendo estado com ela, não queria nunca mais ficar sem ela. Precisava dela. Ela era o que faltava todos esses anos, e ele se amaldiçoaria se a perdesse simplesmente porque não conseguia controlar os instintos de youkai.

Uma eternidade sem Rin era algo que não desejava enfrentar.

-Jaken.

O outro pulou aos pés dele.

-Sim, meu lorde?

-Este Sesshoumaru tem uma tarefa para você.


Quando Rin acordou, o sol já havia se posto e Jaken havia começado o fogo para a noite. Ela se sentou diante da imagem quente e deslumbrante em vermelho, amarelo e laranja, e procurou com os olhos ao redor da clareira por Sesshoumaru enquanto limpava o sono dos olhos.

-Acho que eu estava mais cansada do que pensava. – ela bocejou.

A resposta dele foi um simples aceno de cabeça.

-Onde estão Jaken e Ah-Un? – pensava que Jaken tinha começado o fogo, mas olhou ao redor e encontrou os lugares habituais deles vazios... e os pertences deles também haviam sumido – E por que tudo isso?

-Nós nos encontraremos com eles em dois dias.

-Aonde eles foram?

-Eu os mandei numa missão.

Rin assentiu em compreensão e deu um discreto sorriso.

-Está preocupada?

-Não, não realmente. – ela balançou a cabeça – Só um pouco... surpresa. Digo, fui dormir, e eles estavam aqui. Acordei e eles sumiram.

Sesshoumaru deu um discreto aceno de cabeça.

-Você está bem?

Percebeu que ele parecia estudá-la, observando-a, aferindo a resposta dele para tudo que ele dizia, percebendo cada movimento que fazia... talvez por desconforto.

-Tudo bem. – disse ela – Quer dizer, estou bem.

Sesshoumaru assentiu de novo.

Rin estava bem. Sentia-se bem. Sem dor, sem machucado... Sentia apenas como estivesse... faltando.

Escondeu um sorriso tímido. Claro, alguma coisa estava faltando. A virgindade dela. Ela a deu, ele a tomou. Não era como se estivesse mesmo sentindo falta... era mais como se tivesse... sumido.

O sorriso tímido virou um acesso de risadas, que ela rapidamente tentou cobrir com a palma da mão. Perguntava-se se alguém falaria, ou poderia notar. Ela parecia diferente agora? Ela estava com o... cheiro diferente?

Revirou os olhos e se forçou a se arrumar. Quanta bobagem. Quanta estupidez... Bem, se quisesse realmente saber, pelo menos a uma pessoa poderia perguntar.

Ficou em pé e suavizou os amassados da saia do quimono.

-Eu gostaria de sair, agora, se estiver tudo bem.

Sesshoumaru assentiu e ficou em pé, também. Ela arqueou uma sobrancelha.

-Você vai comigo? – perguntou.

-Eu devo proteger o que é meu.

Encarou-o por um minuto em óbvia descrença. Na primeira vez, mesmo sabendo das objeções dele, ela implorou e pediu gentilmente que a acompanhasse, o que ele recusou imediatamente, dizendo que ela sempre saía por conta própria, por que então desta vez seria diferente? A segunda vez, ele foi apenas para se reparar com ela depois de ter se acalmado a respeito das divergências com Takeda, e ela escapuliu para o festival para conseguir um pouco de comida. E agora...

-Nós não vamos? – ele perguntou.

Rin caminhou ao redor da fogueira e cruzou a clareira até ficar ao lado dele.

-Sim.

Pelos deuses, se perguntava enquanto caminhavam pela trilha da floresta, isso que significava ser casada com um demônio? Ele a seguiria por todos os cantos a partir de agora?

Deslizou os dedos pelo cabelo, tentando deixá-lo o mais apresentável possível. Sim, ela o amava. Sim, ela adorava a companhia dele. Mas isto iria tornar ambos infelizes.

Quanto tempo estiveram lá no total? Cinco, dez minutos na última vez que lá foram? Quinze, vinte minutos no máximo. E ela sabia que ele odiou cada minuto – torcendo o nariz, enrijecendo a coluna, recusando-se a falar com alguém... ele nem ao menos se apresentou aos sobrinhos.

O lorde não queria saber a respeito das pessoas ou das coisas naquele vilarejo. Não que ela não entendesse. Ele tinha sentidos muito apurados. O que era alto para ela era provavelmente ensurdecedor para ele, e os diferentes odores das barraquinhas de comida, e o incenso do templo, e os perfumes e temperos que eles vendiam por lá... Só de pensar ficava tomada por eles, e ela nem tinha um olfato canino.

Não queria deixá-lo desconfortável, mas queria pegar algo para comer. Queria conseguir alguma coisa para comer, queria conversar com Kagome, queria segurar Tomi de novo, e queria ver se finalmente poderia encontrar Shippou. Tinha certeza de que ele poderia responder a questão anterior sobre a virgindade, e seria menos embaraçoso que perguntar a Inuyasha... que responderia bruscamente e sem maiores preâmbulos: "Então, Rin, finalmente você e meu irmão começaram a se pegar. Talvez agora ele deixe de ser um bundão."

Rin reprimiu uma risada e tentou se focar na situação em mãos. Odiava admitir, mas estava começando a gostar do irmão de Sesshoumaru. Ele sempre dizia coisas engraçadas – bem honestas, dolorosas, engraçadas. E ele sempre arrancava alguma reação de Sesshoumaru.

-O que vai fazer hoje à noite?

Virou o rosto na direção da voz de Sesshoumaru. Estranho como rapidamente se acostumou a vê-lo quebrar o silêncio que frequentemente se instalava entre os dois. Talvez fosse parte do ritual. Talvez o homem era requisitado a iniciar a conversa com a mulher. Talvez quando tudo acabasse, eles voltariam para as coisas de antes – ela tagarelando incessantemente e ele fingindo prestar atenção, ou ela muito insegura para falar alguma coisa e ele acima de dizer uma palavra.

Não. Não queria que as coisas voltassem ao que eram antes. Não queria perder o que eles pareciam estar construindo.

-Rin.

-Não sei ao certo... – finalmente falou. Havia muita coisa que queria fazer naquela noite, mas com Sesshoumaru ao lado... Tinha certeza que ele não ia querer andar pelo vilarejo e ela definitivamente não poderia ir procurar Shippou com ele por perto.

Maldição. De todas as noites para ele querer vir junto...

-Não quero ficar muito tempo. – ela falou – Especialmente desde que vamos começar a viajar amanhã de manhã. Não quero ficar cansada.

-Esta será a última noite que ficaremos perto de um vilarejo. Possivelmente a última vez queira pôr os pés em qualquer vilarejo de humanos.

Bem, grande coisa, ela deu de ombros. Nunca gostou muito de ficar em vilarejos, mesmo. Eles sempre a achavam engraçada, ou a tratavam mal, ou a faziam se sentir totalmente estranha... Mas por que aquilo? Era humana, afinal de contas.

-Não é uma grande perda para mim.

-Não. – ele a encarou – Suponho que não.

-Quero pegar alguma coisa para comer. E... posso ver Inuyasha e Kagome de novo? E Kin e Tomi?

-Eu sou meramente seu acompanhante esta noite. Você pode ir aonde bem a agradar.

-Sério?

Sesshoumaru deu um aceno com a cabeça.

Rin deu um sorriso.

-Entretanto, sugiro que compre uma bainha apropriada para a espada de Mestre Li. Deveria estar pendurada na sua cintura, não presa na sua perna.

-Eu sei, mas...

Sesshoumaru a silenciou com um olhar.

-É um lugar impraticável para guardar sua arma primária... Se atacada, você terá chances mínimas de sacar sua espada de um local tão ruim.

-Eu acredito que sim. – ela admitiu, fazendo uma careta.

-Você estaria morta antes de sua mão chegar ao cabo.

Balançando a cabeça, ela lutou contra o desejo de revirar os olhos.

-Por que você está tão obcecado com a minha morte? – ela riu – Eu o escutei por quatro horas esta manhã, e agora está falando sobre isso de novo.

O lorde não resposta.

-Sesshoumaru?

-Não é como uma obsessão. – ele replicou suavemente – É medo.

Rin engoliu em seco. Ela fez de novo, não? Ele estava falando sério, e ela quis provocar.

-Acredito que já tivemos esta discussão.

"Aquela criatura... chegou tão perto... de levar a única coisa que... mais importa para mim nesta vida, Rin". Respirou fundo e soltou o ar. "Eu fiquei assustado e... E eu não gostei disso."

-Tivemos. – ela concordou – Sinto muito, eu vou... vou comprar uma bainha assim que chegarmos às barracas da pracinha.

Sesshoumaru balançou a cabeça em concordância.

-Algumas vezes eu não penso antes de falar. – disse um pouco envergonhada.

Sesshoumaru ergueu uma sobrancelha, claramente divertido.

-E você acha que eu não sei disso?

Rin deu uma risada, balançando a cabeça.

-Vai pagar caro por essa.

O lorde pareceu perfeitamente insensível às débeis ameaças dela.

-Eu ia ficar só alguns minutos fora, mas já que você parece ter muita coisa para falar ultimamente, vou fazer você ficar mais sociável.

Sesshoumaru continuava não muito impressionado.

-Vamos descer e visitar seu irmão e a mulher dele. Você pode segurar Kin, e eu vou segurar Tomi. Eu acho o mais correto você ter contato com os mais novos membros da sua família, afinal de contas. E você e Inuyasha podem conversar à vontade, e eu posso pedir a Kagome se ela pode me arranjar um desses rosários que respondem ao nosso comando.

Sesshoumaru zombou.

-O quê? – ela riu – Você se acha muito bom para ser rendido pelo rosário?

-Uma magia tão fraca não teria efeito algum sobre mim. – ele disse entediado.

-Mas seria engraçado tentar. – ela falou – Para mim, pelo menos.

-Eu não me submeteria tão cedo a ser rendido por um rosário que me permitir ser castrado.

-Isso seria terrível. – Rin deu uma risada – Especialmente depois de ter me prometido filhos.

-Filhotes. – ele a corrigiu – Nossos filhos serão filhotes hanyo.

-Isso o deixa irritado? – ela perguntou – Ter um meio-demônio como herdeiro?

-Pais fortes geram filhotes fortes. – ele falou calmamente – Com o que eu devo ficar preocupado?

Rin sorriu para si mesma. Ele a elogiou. Depois de anos ouvido Jaken dizer o quão estúpidos, fracos e débeis os humanos eram, o lorde acabara de dizer que era "forte".

Tão logo puseram os pés no vilarejo, Inuyasha se fez presente.

-Bem, bem, bem... olhe só o que encontrei aqui. – desceu do topo de uma árvore na frente deles – Ao que devo a honra da sua presença? – perguntou, indicando com a cabeça Sesshoumaru.

O irmão se esquivou em responder.

-Bem, é o último dia que ficaremos aqui. – disse Rin – Queria vir e dar uma última olhada por aqui, e ele quis vir comigo.

-Oh? – ele deu alguns passos para se aproximar deles – E por quê...? – observou cuidadosamente o irmão e Rin – Deixa pra lá. – bufou – Agora sei o porquê.

Sesshoumaru o encarou.

-Então. – disse Rin rapidamente – O que está fazendo aqui? Por que não está com Kagome e os outros no festival?

-Vigilância. – respondeu calmamente.

Sesshoumaru ergueu uma sobrancelha.

-Alguns aldeões falaram ter visto alguns demônios de tocaia perto da margem do rio esta manhã.

Rin deu uma gargalhada.

-Eram provavelmente Ah-Un e Jaken.

-Como eu pensei. – o hanyo zombou – Bem, melhor prevenir que remediar. Sabe como os humanos são nervosinhos.

Rin assentiu, mesmo não tendo certeza se deveria concordar com ele ou ficar insultada.

-Bem, rasguem daqui, pombinhos. Tenho muito o que fazer.

Rin deu um sorriso e acenou quando ele pulou de volta ao topo das árvores.

Sesshoumaru fez uma carranca.

É, Rin gargalhou. Inuyasha sempre conseguia tirar o irmão do sério.

O restante da noite foi sem maiores eventos. Foram olhar as barracas da pracinha e encontraram uma bainha apropriada para a espada. Pararam numa tenda de comida, e ela comprou arroz com camarão frito. Foram até Kagome e a esposa de Miroku, com os filhos Kin, Tomi e Sachiko perto da praça do vilarejo. Rin foi com eles numa visita por alguns minutos, aninhando Tomi, fazendo cafuné em Kin, e elogiando Sachiko pelas tranças. Kagome até mesmo a deixou tocar na barriga, para poder então sentir o novo bebê chutar.

Enquanto as três mulheres estavam distraídas, Kin engatinhou até onde Sesshoumaru estava, distante a alguns passos. O pequeno deu uma exagerada fungada, depois puxou o hakama branco dele e estendeu os bracinhos para cima. Sesshoumaru baixou o rosto para encarar o filhote do irmão com uma expressão indignada. O que quer que a criança estivesse pensando, ele estava determinado a não dar confiança para ele.

Rin deu uma gargalhada.

-Ele quer que você o segure, Sesshoumaru.

Kagome e a exterminadora voltaram a atenção de Rin para ele com declarada curiosidade.

-Ele percebe que vocês são parentes.- Kagome explicou – Está tudo bem. Pode segurá-lo.

Sesshoumaru zombou. Como se ele precisasse da permissão dela para tocar alguém do próprio sangue. Se ele quisesse segurar o sobrinho, ele o faria. Se não, não o faria.

O filhote continuou a encará-lo em expectativa, os pequenos e curtos braços ainda estendidos.

-Vá em frente. – Rin estimulou – Pegue-o. Como você pode dizer "não" a uma coisa tão fofa como essa?

Estavam rindo dele, todas as três – a exterminadora, a criadinha do irmão e até mesmo a mulher dele. Fofo. Tá bom.

O filho de novo deu um puxão na calça dele.

-Bora.

Sesshoumaru deu uma discreta fungada para cheirá-lo. O sobrinho não tinha herdado apenas os olhos dourados e o cabelo prateado típico de um inuyoukai, o sangue dele era muito semelhante ao do grande pai, Toga. Claro, havia também um traço humano, mas Sesshoumaru supôs que com um treinamento apropriado e uma boa supervisão ele poderia se tornar tão poderoso quanto Inuyasha ou ele mesmo, o que significava que os filhotes dele – sendo meio-demônios, em oposição a um quarto de demônio – tinham potencial para perpassar tanto ele quanto Inuyasha em grandeza.

Intrigante... ele se agachou e colheu o filhote com o braço bom, tomando a oportunidade de estudá-lo de mais perto.

-Não acredito que ele o pegou. – Sango sussurrou.

-Nem eu. – Kagome concordou – Achava que ele iria empinar o nariz e ir embora.

-Bem, isso é muito lindo. – disse Rin – Meu lorde é mesmo cheio de surpresas.

-Isso ele é. – Sango opinou – Quem pensaria que sua alteza tem realmente jeito com crianças?

-Acho que é bom ele começar a praticar agora. Lembro quando os meninos nasceram, Inuyasha ficou fora de si. Não deixou ninguém se aproximar de nós por três dias. Logo que Kaede me ajudou no parto, ele a chutou para fora da cabana e não deixou ninguém entrar.

-É instintivo. – Sesshoumaru falou calmamente.

As duas mulheres pareceram surpresas que ele estivesse prestando atenção. Rin não.

-Os três primeiros dias da vida de um inuyoukai são os mais impressionáveis. Se o filhote não se ligar aos pais, então isso nunca acontecerá. Muitas imagens e cheiros diferentes irão confundi-lo.

A exterminadora e a criadinha ficaram de boca aberta.

-Ele fala um pouco mais, agora. – disse Rin – Quando necessário.

Sesshoumaru zombou e depositou o sobrinho no chão.

-Que tipo de pai é desatento a este simples fato da vida? – ele se aproximou do pequeno grupo de mulheres e crianças, Kin seguindo atrás de perto.

Kagome fez uma carranca ante ao insulto implícito.

-Embora considerando o pai, este Sesshoumaru dificilmente pode culpá-la por sua ignorância. Agora desejo examinar o outro. Tomi, não é?

-"Examinar"? – Sango ergueu uma sobrancelha.

As mulheres continuaram a tagarelar enquanto Rin observava o lorde e os sobrinhos pelo canto dos olhos. Tomi parecia muito com Kin, mas ele tinha mais sangue da mãe que de demônio nas veias. Já as feições eram definitivamente as de um demônio, sem dúvida que ele cresceria muito mais forte que um humano.

Piedoso, ele pensava em várias coisas até sentir o cheiro de lágrimas da esposa.

-Kohaku? Morto? É sério?

Aparentemente, ela perguntou pelo irmão da exterminadora, antigo subordinado de Naraku. Ele havia sido revivido por Tenseiga durante a batalha final. Naraku o golpeou até a morte, foi revivido depois, então poderia ter mais corpos atrás do hanyo assassino. Quanto mais corpos, mais distrações, e melhores as chances de ele vencê-lo. Ele não era alguém que conseguia... trabalhar em equipe. Mas também não era alguém que gostava de perder.

Quantas vezes aquele bastardo ousou vir atrás de Rin? Tentou manipulá-lo? Usá-lo?

Quando todos o encurralaram naquele dia chuvoso alguns anos antes, ele decidiu naquela hora que o hanyo não escaparia, a qualquer preço. Se tivesse que levar todos a combatê-lo, então seria assim. Kohaku era simplesmente parte de um plano maior. Ele não fizera aquilo por "clemência". Não fizera por "gentileza". Fizera para derrotar Naraku... e conseguiu.

-Como? – Rin perguntou – Quando?

-Seis anos atrás. – a exterminadora falou – Ele tinha finalmente conseguido recuperar a memória e... não aguentou. Ele... tirou a própria vida.

-Que horrível... – Rin limpou algumas lágrimas que desciam pelo rosto – Sinto muito. Eu nem sabia que ele tinha uma irmã. Só presumi porque vocês estavam lá, e que você poderia me contar o que aconteceu com ele.

Horrível, Sesshoumaru bufou intimamente. Não era "horrível"; era fraqueza. Ele deu ao garoto uma segunda chance de viver, e ele a desperdiçara. Não que se importasse com o fato. A vida do rapaz não era de interesse dele, afinal... Exceto, possivelmente, pelo fato de Rin parecer afeiçoada a ele.

-Meus pêsames. – ela repetiu – Deve ter sido uma grande perda para você. Eu sei o que é perder um membro da família... ou três – adicionou fracamente.

-Acho que todos nós sabemos. – Kagome falou suavemente.

Talvez estivesse errado, mas tinha quase certeza de que as palavras daquela criadinha do irmão também valessem para ele. Mas depois de se cansarem da exterminadora e da outra mulher, tomaram a direção do acampamento. Rin acenou a ela numa despedida e ofereceu as condolências à exterminadora pelo falecido irmão, e depois ele devolveu o sobrinho para os braços da mãe.

-Indo embora tão cedo?

Rin olhava para o céu. Sesshoumaru esperou até que o irmão aterrissasse.

Inuyasha caiu em pé no chão com um baque, depois deu um sorriso malandro.

-Já fizemos o que tínhamos que fazer. – disse Rin – Mas não pude dizer tchau a Shippou.

-Ele está de mãos ocupadas no momento. – Inuyasha deu um sorriso desdenhoso – Eu o vi agora há pouco ir naquela direção com uma das irmãs do chefe do vilarejo.

Rin ficou visivelmente pálida.

-Irmã de Takeda?

O hanyou assentiu.

-Uma delas. – falou – Mas não esquenta. Ninguém mais viu Takeda desde que Lorde Fluffly colocou um pouco de juízo naquela cabeça.

-"Lorde Fluffly"? – Rin repetiu.

Sesshoumaru franziu o cenho. Inuyasha alargou o sorriso .

-Pois é, Rin. Não acha que é um nome perfeito pra ele? – as mãos passaram muito rapidamente por cima do pelo da cauda de Sesshoumaru.

Antes que Rin dissesse uma palavra, e antes que o meio-irmão desse para trás os passos necessários, Sesshoumaru o agarrou num conhecidíssimo aperto mortal, as garras circulando ao redor do pescoço dele, sustentando-o do chão.

Rin sorria timidamente enquanto os irmãos trocavam olhares.

-Ninguém toca a cauda sem permissão.

-Perdeu o senso de humor, Sesshoumaru? - Inuyasha forçava um sorriso.

Sesshoumaru fez o aperto no pescoço do irmão ficar mais forte, deixando um pouco de veneno escorrer também.

-Não completamente. – falou com calma – Eu acho isto muito divertido.

-Deuses! – Inuyasha praguejou – Pensei que você tivesse ficado mais mole agora. – tentou retirar os dedos que estavam ao redor do pescoço – Rin não deve estar fazendo alguma coisa direito.

Os olhos de Sesshoumaru ficaram momentaneamente vermelhos, depois lançou Inuyasha contra uma parede da casa, destruindo-a. Virou-se para ir embora, ignorando completamente os grunhidos e maldições do irmão.

-Venha, Rin.

A garota lançou a Inuyasha um sorriso triste por cima do ombro e balançou a cabeça.

-E logo agora que estava começando a gostar de você... – depois a volta e se juntou ao lorde.

Inuyasha se forçou a ficar em pé.

-Não aguenta uma brincadeira! – tirou a poeira e lascas da roupa, depois fez a vistoria nos danos – Deuses, Kagome vai me matar quando ver isso aqui.


Nota da Tradutora: Acidente, recuperação, site fora do ar por um longo tempo... Espero que não tenham pensado que desisti da história :( Obrigada a quem comenta. Assim que eu puder, respondo aos comentários!

E pra não perder o costume... lá vai a chantagem emocional: 15 reviews=capítulo novo.