Capítulo Vinte e Um
Who Needs Enemies?
(Quem Precisa de Inimigos?)
George tomou um gole de seu café e olhou para Katie. Os encontros que ela tinha às tardes de domingo com Angelina, antes de ela se mudar para Toronto, tinham continuado com ele no lugar de Angelina. Descobriu que gostava de sair depois do almoço e passar uma hora calma com Katie.
- Então, como estão as coisas com Summerby? – perguntou, fazendo uma careta internamente.
- Bem. – ela disse, dando de ombros.
- Ele tem passado muito a noite? – George perguntou, uma expressão dolorida em seu rosto.
- Ele passa a noite uma ou duas vezes por semana. – Katie disse simplesmente. – Por que isso te interessa?
George se remexeu desconfortavelmente.
- Não interessa. – murmurou. – Só não quero que as pessoas pensem que você é... – coçou o nariz em uma tentativa de esconder sua timidez.
- O quê? – Katie perguntou divertidamente.
- Nada.
- Uma prostituta? – Katie adivinhou. – Uma mulher de poucas morais? – acenou com uma mão. – Pfft. Sou bem maior de idade e se alguém não gosta do fato de que estou fazendo sexo, então isso é problema deles, não meu. – misturou leite ao seu café, e olhou para George. – É isso o que você acha?
George se remexeu e abaixou a cabeça.
- Não. – admitiu.
Katie o estudou astutamente.
- Você já...? – George corou e balançou a cabeça. – Mesmo? – ela perguntou surpresa.
George fez uma careta, e afasto seu café.
- Eu vi o que Fred tinha com Ang. – explicou. – Algo um pouco difícil de seguir. E não estou interessado em transar e cair fora. – de repente, riu. – Quer ouvir algo patético?
- Claro.
- Ron, meu irmãozinho, o Roniquinho, está transando com a namorada dele desde julho. – perante a sobrancelha inquisitiva que Katie ergueu, George elaborou. – Eles apareceram uma tarde, logo no começo do jantar, e os dois tinham aquele sorrisinho de 'acabei de transar loucamente' que Fred costumava dar... – pigarreou levemente. – E quando ela foi lá em casa mês passado, ela passou a noite com a gente. Eu vi o quarto de Ron no dia seguinte. Obviamente eles aproveitaram a noite... – suspirou e pegou seu café. – E aqui estou eu. Sequer beijei uma garota desde que tentei dar em cima de Verity, antes de fecharmos a loja. – matutou. – Aquilo foi um desastre total. – suspirou tristemente.
Katie tamborilou os dedos na superfície da mesa.
- Sabe, - falou pensativamente. – tem essa garota na revista...
- Não. – George disse firmemente. – Nada de encontros armados. – engoliu quase metade do líquido escaldante em sua xícara. – Posso encontrar minha própria mina, obrigado.
- Não se continuar nos chamando de 'mina'. – Katie retorquiu.
- É, bem... – George esfregou a parte de trás de sua cabeça e se recostou em sua cadeira. – Não estou realmente interessado em namorar agora... – olhou para Katie. – Então, o que Summerby acha disso tudo? – perguntou, gesticulando para indicar os dois.
As bochechas de Katie coraram e ela colocou sua xícara firmemente na mesa.
- É meio que um assunto delicado entre nós. – cedeu. – Não falamos sobre isso. Acho que ele tem ciúmes de você.
George bufou.
- De mim? Por quê?
- Não tenho ideia. – Katie suspirou. – Eu posso ir tomar um drinque com um grupo de amigos do trabalho, e não há problema nenhum. É meio estranho, por que tem vários caras naquele grupo.
- Pode ser que é por que você está saindo sozinha comigo, e não com várias pessoas. – George sugeriu.
- Não é como se não tivesse pensado nisso. – Katie suspirou. – Até falei pra ele que ele podia vir comigo, mas ele gosta de se fazer de vítima.
George preferiu não comentar o nível de maturidade de Summerby. Não achava que isso fosse ajudar, e estava claro que Katie se sentia mal com isso.
- Então, alguma novidade sobre Ang? – perguntou, mudando de assunto.
Katie assentiu.
- Sim. Ela já se acomodou com sua tia e seu novo trabalho é tranquilo. Diz que fica um pouco solitária às vezes, mas que está melhorando.
- Isso é bom. – George terminou sua xícara e se levantou. – Preciso terminar algumas coisas na loja, e prefiro fazer isso agora, do que me levantar mais cedo amanhã. – gesticulou para a porta do café. – Posso te levar até em casa... – falou timidamente. – Se estiver pronta para ir.
- Sou perfeitamente capaz de ir sozinha para casa. – Katie disse secamente. Mas ela também se levantou e colocou seu casado de lã, andando na direção da porta. Olhou para George por sobre o ombro. – Bem, você não vem?
-x-
Ginny secou as gotas de chuva de seu rosto, e afastou as mechas ruivas, que tinham escapado do rabo de cavalo, dos olhos. Voou atrás de Demelza, segurando a gole em uma mão, e estabilizando o punhal de sua vassoura entre os joelhos. Olhou para baixo e viu Natalie voando sob si.
- Natalie! – gritou, colocando a mão livre no punhal e segurando melhor a goles. Natalie olhou para cima e voou mais alto. Quando ela passou por si, Ginny lhe passou a bola, que escorregou pelos dedos esticados de Natalie. Chocada, Natalie mergulhou e pegou a goles antes que ela chegasse ao chão.
Suspirando, Ginny pegou o apito pendurado em seu pescoço e o assoprou, sinalizando para o time pousar.
- Desculpe, Ginny. – Natalie disse assim que Ginny desmontou da vassoura. – Posso fazer melhor. A bola escorregou nos meus dedos e eu não consegui segurar... – balbuciou.
- Tudo bem. – disse simplesmente. – Vamos lá... – guiou os jogadores até os vestiários, apertando o cabelo molhado sobre a pia. – Natalie, você não vai cair da vassoura se tirar as duas mãos do punhal por dez segundos. Você vai ter de confiar em mim. Se não começar a se comprometer com o jogo, não vai funcionar. Ritchie e Jimmy, se vocês não conseguem mirar aqueles balaços em alguém, por que se dão ao trabalho de aparecer? Dean, pelo amor de Ravenclaw, isso é Quadribol, não futebol. Você precisa defender três gols, não apenas um. Você tem que ficar circulando e se movimentando, caso contrário você vai deixar passar mais gols do que impedi-los. Dennis, você tem que fazer a mesma coisa que Natalie. Se você vai jogar Quadribol, jogue o maldito jogo. Você está tão preocupado em estragar as coisas, que isso faz você errar ainda mais. – Ginny se sentou na cadeira atrás de uma mesa maltratada. – Voltem para o castelo e se limpem. Vamos praticar na quinta-feira, às seis.
Demelza colocou uma mão sob o cotovelo de Natalie, a incentivando a se erguer.
- Vamos lá, então. – ela murmurou. – Vamos deixar isso para lá e começar a pensar como você vai jogar no próximo treino.
Jimmy segurou o braço de Dennis, que estava encostado na parede, derrotado.
- Vamos lá. É só um treino.
A cabeça de Ginny se ergueu e seus olhos brilharam.
- É apenas isso! – brigou. – Não é 'só um treino'! Você treina como se estivesse jogando para valer, todas as vezes! – crispou os lábios, os transformando em uma linha. – Apenas voltem para o castelo. – Demelza passou um braço ao redor de Natalie e a guiou para fora do vestiário. Ritchie e Jimmy passaram uma mão ao redor do braço de Dennis e quase o arrastaram para fora. Ginny abaixou a cabeça, a descansando nos braços cruzados.
- Gin? – Dean tocou seu ombro gentilmente. – O clima está péssimo.
- Não importa. – falou, sua voz abafada por seus braços. – Precisamos aprender a jogar em todos os tipos de clima. Nem sempre vai estar ensolarado e perfeito. – Ginny virou a cabeça e espiou Dean. – Pode apenas me deixar sozinha um pouco?
- Tem certeza? – Dean perguntou com preocupação. – Está muito escuro lá fora.
Ginny se sentou.
- Dean, foi exatamente por isso que terminamos. Sou maior de idade. Posso me cuidar. Eu não preciso de uma babá para me seguir. E eu não preciso de alguém para garantir que eu chegue inteira ao castelo! – gritou. – Menos ainda você!
Involuntariamente, Dean deu um passo para trás.
- Eu... Eu só quero ter certeza de que você está bem...
- Estou bem. – Ginny brigou, tirando a varinha do bolso e a acenando na direção das próprias roupas e cabelo. Vapor se ergueu em ondas, obscurecendo sua visão momentaneamente. Dean ainda estava parado, incerto, perto da mesa. – Apenas vá, está bem? – ela colocou sua mochila sobre a mesa e começou a fuçar nela. Viu Dean se virar e sair do vestiário, encolhendo os ombros contra a chuva que tinha começado a cair no meio do treino. Tirou um envelope grosso de sua mochila e correu o dedo por sob o selo de cera, sorrindo um pouco com o brasão marcado. O brasão tinha sido o presente de aniversário atrasado de Hermione para Harry. Era um ramo de azevinho em um triângulo. Harry tinha explicado que o triângulo era o símbolo que representava a capa de invisibilidade, enquanto o azevinho representava sua varinha. O envelope abriu ao seu toque e Ginny tirou uma folha de pergaminho dobrado de dentro.
15 de outubro de 1998
Querida Ginny,
George me deu um cheque hoje. É minha parte dos lucros da loja. É muito dinheiro. Eu não preciso dele, mas George não aceitou de volta. Gostaria de dar para seus pais, para tentar pagá-los por tudo o que eles já fizeram por mim, mas eu sei que eles apenas não vão aceitar. Talvez eu possa repor algumas coisas que não dá mais para consertar. Sabe, só colocar lá quando eles não estiverem olhando. Quando eles perguntarem, posso falar que é de George e Ron. Por que é, na verdade. Eles que trabalharam.
As coisas no Ministério estão melhorando. Os outros Aurores estão, lentamente, começado a me deixar em paz, especialmente agora que os detalhes dos julgamentos dos Comensais da Morte estão vazando. Infelizmente, isso inclui o desastre do Departamento de Mistérios. Então, tudo o que fizemos também está vazando. Estou ouvindo bem menos comentários de que não sei o que estou fazendo, e mais perguntas sobre o que eu sei das atividades e métodos dos Comensais da Morte, para tentar capturar os que ainda estão foragidos. Às vezes, preciso admitir que não foi nada mais que pura sorte. Eles ainda deixam travessuras no meu cubículo. Mas, normalmente, esses são os mais novos. Parece que eles querem desesperadamente que as coisas sejam como eram antes. Se o que eles precisam é de uma varinha ou pena falsa, ou até mesmo uma daquelas travessuras trouxas, como o cocô falso de cachorro (e isso foi bastante engraçado), então que seja.
Ainda não estou feliz com minha chefe. Mas seu pai diz que reclamar do seu Chefe de Departamento é um tipo de passatempo no Ministério. Consigo acreditar nisso. A minha é... Bem, não ruim como Auror. Acho que vou deixar por aí. Ela é tolerável, suponho. Só um pouco mais presas às regras e regulamentos. Bastante igual ao Percy nesse aspecto.
Ron está tentando deixar um bigode crescer. Não está dando certo. Ele está muito estranho. E não importa o quanto Hermione reclama, ele não quer tirar. Não é por que ele não consegue crescer um bigode — porque ele consegue —, é mais por que cresce desigual. No outro dia, George disse a Ron que ele tem uma bunda tão peluda, que deve ter sido para onde toda a energia para crescer pelos foi. Preciso concordar com Hermione nessa. Ron fica com uma aparência velha. Acho que é o que ele quer, mas parece que ele está se esforçando demais.
Ele ainda está tentando persuadir Hermione a voltar para a escola. Ela não está convencida. Ela acha que é muito tarde, mas, talvez, se ela falar com a Professora McGonagall... Ela precisa voltar.
Eu acho que você está lidando bem com o time. Se alguém pode deixá-los bom, Gin, é você. Você conhece melhor o jogo que a maioria dos seus irmãos. Eu diria que até melhor que Charlie. Sem ofensas a Angelina, e ela era umaótima jogadora, mas você é uma capitã melhor do que ela, ou eu. Você entende o jogo de uma maneira que nenhum de nós entendia. Já te vi jogar. Você sabe o que está acontecendo, até quando não consegue ver.
Então, vou te dar um conselho. Você pode aceitar, se quiser. Ou pode me mandar calar a boca. Quando estávamos fazendo a AD, eu sabia que, eventualmente, usaríamos aquelas habilidades em uma luta de verdade, só não achei quer seria tão cedo. Mas eu sabia que se não soubéssemos o básico, nunca sobreviveríamos. Sério, era para aprendermos o bastante de magia defensiva para passarmos nossos exames, e não ter lacunas enormes na nossa educação. Pense no jogo como um exame, não uma guerra. Certifique-se de que os está ensinando como jogar, Gin. Você pode não ganhar todas as partidas, e pode não ganhar a taça, mas se você puder deixar o time melhor do que os encontrou, está tudo bem.
Não conte à McGonagall que eu disse isso. Ela vai rescindir minha capitania. Não sei se ela pode fazer isso agora, mas não quero descobrir.
Por que deixou o diário que Andrômeda te deu de aniversário em casa? Eu o encontrei quando estava com Teddy, no fim de semana passado. Os dentes dele estão nascendo, e nada do que eu faço parece ajudar, a não ser andar com ele. Fiquei entediado de andar no quarto de Bill, então levei Teddy para dar uma volta no seu quarto. Não estava xeretando, prometo. Eu vi o diário entre sua cama e a escrivaninha. Eu chequei depois. Está tudo bem. Não que Andrômeda fosse te dar algo com magia negra. Mas eu sei que escrever em um diário pode te fazer se sentir um pouco angustiada. Só fiquei imaginando, isso é tudo, Gin.
Eu vou te ver em algumas semanas. Faremos o que você quiser. Bem, qualquer coisa que não te meta em problemas ou te faça perder pontos. Odiaria que isso acontecesse por minha causa.
Cuide-se, Ginny.
Amor,
Harry.
Lentamente, Ginny dobrou o pergaminho e o colocou no envelope. Ficou sentada por um momento, encostada na cadeira, ouvindo o som da chuva caindo no telhado do vestiário.
-x-
Harry aceitou o último prato que George lhe ofereceu e o secou, antes de se esticar para guardá-lo no armário superior. O fato de Molly ainda manter os pratos em um armário no alto, longe de mãos pequenas e arteiras, o fazia rir sozinho.
- Onde Ron foi? – George perguntou.
- Casa da Hermione.
George torceu o pano de prato e o pendurou na borda da pia.
- Isso o incomoda?
- O quê? – Harry também torceu o pano que usara para secar os pratos. – Ron e Hermione? Não mesmo. Eles estavam nesse caminho há anos. Estava na maldita hora. Eles só precisavam parar de brigar tempo o bastante para perceber. – Harry pendurou o pano em uma barra perto do fogão e deu de ombros. – Ele é meu melhor amigo. Isso não vai mudar.
George foi até o armário enfeitiçado para permanecer refrigerado, e passou uma Cerveja Amanteigada para Harry.
- Algum plano para mais tarde?
Harry balançou a cabeça.
- Não. Estou cuidando de Teddy.
- Pode ir comigo até a festa de Lee. – George ofereceu. Lee estava dando uma pequena festa de Halloween no Caldeirão Furado. – Mamãe não vai se importar de cuidar de Teddy.
Harry pensou nisso, antes de responder.
- Não, estou bem. Há algo que eu preciso fazer. Não tenho certeza de quanto tempo vai demorar, e não quero pedir para sua mãe ficar com Teddy por mais que duas horas.
- Você sabe que ela não se importa.
- Sei, mas Teddy é minha responsabilidade, não da sua mãe. – Harry respondeu, claramente desconfortável em abrir mão de sua obrigação, ainda que por uma noite. Principalmente porque passaria a maior parte do sábado com Ginny, em Hogsmeade.
- Bem, se mudar de ideia, vai ser no andar de cima, na segunda porta. – George contou. – Provavelmente vai até tarde, conhecendo Lee.
- Obrigado. – Harry saiu da cozinha e foi até o quarto de Bill, onde um berço antigo estava encostado na parede, de frente para a cama. Teddy estava sentado dentro do berço, mastigando um mordedor irritantemente, enquanto baba revestia seu queixo. Ele choramingou levemente quando viu Harry e derrubou o anel de plástico molhado no cobertor, erguendo os braços para Harry. Tirando Teddy do berço, o apoiou no quadril, enquanto pegava o mordedor de dentro do berço com a mão livre. Teddy esfregou o rosto no ombro de Harry, choramingando. – Shhh. – Harry murmurou, colocando o mordedor na mesa de cabeceira e tirando a varinha do bolso de trás. Lançando um feitiço para deixar o mordedor gelado, o devolveu para Teddy. – Aqui, morda isso mais um pouco. Sua avó colocou alguma pomada na sua mala, que eu preciso passar na sua gengiva, antes de você dormir. Ela disse que ajuda. – Teddy resmungou, apertando o anel de plástico entre suas gengivas irritadas. – Espero que funcione tão bem quanto ela disse. Você estava bem irritado semana passada. – informou seu afilhado, que o ignorou e continuou a mastigar o mordedor completamente concentrado. – Vamos tomar banho, então. E você vai dormir, pequeno.
Depois de conseguir dar banho em Teddy e, no processo, derrubar água tanto em si mesmo quanto no chão do banheiro, Harry pegou um pouco da pomada que Andrômeda tinha enviado e a passou na gengiva de Teddy. As linhas tensas no rosto da criança sumiram conforme a dor passava.
- Está melhor? – Harry perguntou, passando um pijama pela cabeça de Teddy, se inclinando para esfregar o nariz de Teddy com o próprio. – Espero que sim. – Teddy piscou sonolentamente e murmurou algo sem sentido para Harry. – Certo. Uma história antes de você dormir. E, aí, eu vou precisar ir fazer algo. Mas prometo que estarei de volta em uma hora ou duas. – Harry pegou Teddy e se sentou na pequena cadeira de balanço que tinha aparecido misteriosamente no canto do quarto no mês passado. Junto com o berço, o quarto ficava apertado, mas não tinha problema. Pegou a cópia antiga e maltratada de Os Contos de Beedle, o Bardo que tinha encontrado na prateleira de livros da sala de estar, e abriu o livro na primeira história. – Era uma vez um velho bruxo de bom coração... – Harry continuou a ler quietamente para Teddy, se balançando lentamente no ritmo de suas palavras.
- Tem certeza de que deveria ler algo assim para um bebê? – George perguntou, encostado na batente da porta, lançando um olhar cético na direção do livro.
Harry deu de ombros.
- Não é muito diferente dos contos de fadas trouxas. Eles podem ser bem nojentos. Amputações para remover sapatos que te fazem dançar o tempo todo. Sereias que viram humanas, mas pelo preço de perderem suas vozes e terem a sensação de estarem sendo esfaqueada nos pés toda vez que dão um passo. Princesas comendo maçãs envenenadas.
- Suponho que sim. Papai deu um livro desses para Ginny, quando ela era pequena. Mamãe não lia para ela. Dizia que a fazia sentir que tinha a praga.
Os lábios de Harry se ergueram em um sorriso.
- É, posso ver o porquê... – colocou o livro na mesa de cabeceira e se levantou cuidadosamente. Teddy tinha adormecido com a cabeça apoiada no ombro de Harry, que depositou um beijo no topo da cabeça da criança e a colocou no berço, cobrindo-o com o cobertor.
- Estou indo para a festa de Lee. – George disse. – Tem certeza de que não quer ir?
- Sim, tenho certeza.
- Bem, se mudar de ideia... – George desceu as escadas, fazendo Harry se encolher com o barulho, enquanto olhava para Teddy, esperando que o barulho não acordasse seu afilhado. Teddy continuou dormindo, ignorante de toda a bagunça.
Harry saiu do quarto, fechando parcialmente a porta, e desceu as escadas até a sala de estar, embora mais silenciosamente do que George. Molly e Arthur estavam sentados no sofá, ouvindo ao rádio, enquanto Arthur lia o Profeta Diário e Molly trabalhava no que parecia ser o suéter de natal de Ginny.
- Quanto tempo você demora para fazer todos eles? – Harry a questionou com curiosidade.
- Oh, uns dois meses. Eu os faço sempre que tenho tempo. – ergueu os olhos de seu trabalho. – Era muito mais fácil quando vocês estavam na escola. Não precisava esconder o tempo todo.
- Ela costumava fazê-los à noite, quando os meninos eram pequenos. – Arthur comentou. – Depois que eles iam para a cama.
- Quieto. – Molly repreendeu. – Você sabe tão bem quanto eu que essa era a única coisa nova que os mais novos ganhavam. – lançou um olhar severo a Harry. – Você bem que precisa de coisas novas. – disse. – Esse tênis está uma desgraça. E não tenho certeza de que aqueles seus jeans vão durar muito mais.
- Oh... – Harry olhou para sua roupa gasta. – Não tinha notado...
- Madame Malkin tem novas vestes modernas. – Molly sugeriu. – Talvez você pudesse passar por lá e dar uma olhada.
A boca de Harry trabalhou silenciosamente por um momento, tentando descobrir como responder, mas Arthur o salvou.
- Acho que Harry prefere roupas trouxas, querida. – murmurou para Molly.
- Oh, certo. – ela olhou para Harry. – O final de semana em Hogsmeade está se aproximando, não? – perguntou astutamente. – Você vai querer ficar bonito quando for ver Ginny.
- Vou pensar nisso. – Harry queria se encolher tamanha vergonha. – Vocês podem cuidar um pouco de Teddy? Preciso fazer algo. Estarei de volta em uma hora. – prometeu.
- Claro que podemos. – Molly respondeu. – Demore o quanto precisar.
- Obrigado. – Harry foi até a lavanderia e pegou sua jaqueta, para se proteger do frio do final de outubro. Atravessou o jardim e pulou o pequeno muro que separava o jardim dos estábulos. Foi até o ponto de aparatação e pegou sua varinha, girando no próprio eixo. Reapareceu no final de uma rua que vira poucas vezes.
Harry prendeu o lábio inferior entre os dentes por um momento, e caminhou pela rua que o levaria até o cemitério. Entrou pelo portão e caminhou até os túmulos de seus pais. Os visitava algumas vezes por mês, se sentando quietamente na frente das lápides, ignorando a pequena placa negra, alguns metros atrás de si, onde enterrara Snape. Harry se acomodou no chão, descansando o queixo nos joelhos dobrados contra o peito, parecendo uma criança perdida.
- Sabem o relógio de Molly? – perguntou, hesitando um pouco. – Eles me deram um ponteiro, como presente de aniversário. Eu não contei para vocês, porque não queria que achassem que eu estava tentando substituí-los. – os dedos de Harry brincaram com os cadarços de seus tênis. – É legal ser parte de uma família. É estranho, sabe. Ter alguém para me dizer que preciso de roupas novas, quando ninguém se importava antes. Bem, não que ninguém se importava, mas quem deveria se importar, não o fez.
"Às vezes, eu queria que você estivesse vivo, pai. Por que eu poderia te perguntar como se casar mudou as coisas entre você, Sirius e Remus. Não que Ron e Hermione vão se casar semana que vem, mas isso já está mudando. Acho que deveria mudar. Somos apenas nós três há tanto tempo. Mais uma coisa com que me acostumar. Mas, também, eu contei coisas a Ginny que não contei nem a Ron ou Hermione. Acho que funciona dos dois jeitos, huh?" Harry sorriu subitamente. "Sabe, é por isso que gosto de falar com vocês." Harry se inclinou e tocou brevemente cada uma das lápides. "Eu volto logo." Se levantou e caminhou até o portão, limpando seu jeans. Ficou parado incerto na rua, com as mãos nos bolsos, olhando na direção da casa de seus pais. Tomando uma decisão, começou a andar cheio de determinação em direção a casa. Não estivera lá desde o desastroso Natal no ano anterior. Por que eu não deveria ir ver? Perguntou a si mesmo. É minha casa, afinal.
Quando Harry se aproximou da casa, pôde ver duas figuras paradas na cerca, suas cabeças próximas. De repente, uma delas se ajeitou e começou a arrancar um pedaço da cerca.
- Oi! O que você acha que está fazendo? – Harry gritou.
- Droga! – uma faz figuras resmungou. – Vamos!
- Por quê? – o outro grunhiu, puxando vigorosamente o pedaço da cerca.
- Aquele é Harry Potter, é por isso! – o primeiro sibilou, segurando o cotovelo de seu companheiro, forçando-o a abandonar a cerca. Antes que Harry pudesse falar qualquer outra coisa, os dois aparataram.
Harry correu até entrar no jardim. Várias falhas na cerca, que não estiveram lá em dezembro, o fizeram franzir o cenho. Cuidadosamente, se aproximou da casa, e a porta estava pendurada precariamente na dobradiça. Engolindo em seco, abriu a porta e soltou o ar com força. Pedaços do corrimão estavam faltando e parecia que pedaços dos móveis da sala de estar tinham sumido também, julgando pelas marcas escuras na camada grossa de poeira no chão. Cuidadosamente, colocou um pé no degrau e lentamente subiu as escadas.
Em uma ponta do corredor, uma porta tinha sido arrancada das dobradiças, e se aproximou, prendendo o ar. Parou na porta e pela primeira vez viu a verdadeira destruição do que uma vez tinha sido seu berço. O quarto estava bagunçado. As fotos ainda estavam na parede, mas Harry achou que era apenas uma questão de tempo até elas também desaparecerem. Parecia que os brinquedos, que outrora estiveram no quarto, tinham desaparecido. Harry dedilhou o desenho entalhado no berço, seus dedos se afastando cobertos de poeira.
Afastou a mão do berço, limpando seus dedos na calça, e saiu do quarto. O som de algo sendo quebrado fez Harry se virar e descer as escadas correndo. Saiu pela porta da frente e foi até o jardim. As duas pessoas estavam de volta. Harry tirou a varinha do bolso e a balançou na direção deles. Os dois foram enviados para longe, pousando com um thump abafado em uma clareira do outro lado da viela.
- Essa é minha casa! – gritou para eles. – Não algo para vocês destruírem pedaço por pedaço! – Harry pegou uma pedra do chão e a jogou na direção deles. – Vocês querem algo? Levem isso, seus bundões! – os dois jovens bruxos pegaram a pedra e saíram correndo, o alto pop da aparatação soando pelo vale.
Ofegando, Harry saiu pelo portão e girou. Começou a murmurar os feitiços que ele e Bill tinham colocado n'A Toca quando tinham voltado de Hogwarts em maio, raiva correndo por suas veias. O que uma vez tinha sido um símbolo da resistência contra Voldemort, agora tinha se tornado o alvo da curiosidade das pessoas, que tentavam tirar pedaços da casa para exporem nas próprias. Terminando de dar uma volta na casa, Harry parou na frente do portão e apoiou a ponta de sua varinha no pilar. Quando murmurou as palavras do último feitiço, o portão se fechou e se trancou com um ruidoso click. Harry era o único que conseguiria abrir o portão agora.
Trêmulo, Harry reforçou seu aperto ao redor da varinha e aparatou de volta para A Toca.
