Destino

De todas as coisas que Ginny um dia pensou que poderiam acontecer com ela, estar novamente nos braços de sua mãe estava no final da lista. Aqueles braços eram únicos, um abraço materno, tão aconchegante, amoroso e protetor, um abraço que apenas uma mãe poderia proporcionar ao filho. E ela ficou ali por horas, sentindo a textura da blusa de Molly enquanto seus olhos deixavam escapar facilmente as lágrimas de felicidade por estar novamente ali, ao lado da sua família. Ao lado das pessoas que amava.

Molly observava a filha com atenção enquanto corria a mão livre pelo cabelo ruivo da garota. Havia se surpreendido em demasia quando ela entrara na casa acompanhada de Hermione. Por mais triste que fosse, tinha que admitir que esperava que Ginny entrasse por ali com um aspecto mais frágil. Um pouco mais magra, olheiras de cansaço e até mesmo o cabelo mais quebradiço. Esperava que ela estivesse com a mesma fisionomia desde que vira a filha pela última vez, em meio à guerra.

Mas Ginny não estava nem um pouco parecida com a Ginny que Molly se despedira, achando que nunca mais iria ver.

A garota que estava em seu colo estava com aspecto saudável. Parecia bem alimentada. Os olhos, apesar de estarem visivelmente tristes, ainda possuíam o brilho que todos os Weasley amavam. Os cabelos brilhavam com a claridade do cômodo onde eles estavam. Ela parecia até mesmo mais bonita. Como se naquele espaço de tempo em que ficaram distantes, ela tivesse amadurecido e consequentemente virado mulher.

- Desculpem, mas eu preciso voltar para a casa de Snape.

A voz de Hermione interrompeu a linha de pensamento de Molly e até mesmo de Ginny. As duas olharam para a garota, que estava em pé diante delas, segurando firmemente a bolsinha pequena que continha o Pó de Flu que as fez escapar do castelo.

- Por que você precisa ir? Por que não pode ficar aqui?

Hermione olhou para Molly rapidamente para depois dedicar sua atenção novamente à amiga.

- Greyback já deve ter percebido seu desaparecimento. – ela entortava a alça da bolsinha. – Se eu sumir também, Snape será o primeiro suspeito.

- Você está se sacrificando por mim. – Ginny concluiu.

- Não, Ginny... – naquele momento, Rony entrou na sala, ficando ao lado da namorada. – Não é tanto um sacrifício. É mais para esperar o momento certo... de qualquer forma, não é tão terrível. – Hermione olhou para Rony. – É como se eu estivesse em uma aula de Poções. Snape faz questão de me lembrar como pode ser desagradável.

Um sorriso tímido e nostálgico correu pelo rosto de Hermione. Ela olhou para o chão e Ginny teve a leve impressão de que ela segurava o choro.

- Sinto falta de Harry nessas horas.

Hermione falou, sentindo-se estranhamente leve depois disso. Depois que Harry morrera na guerra, falar o nome do garoto era quase um convite à tristeza. Todos sentiam saudade dele, mas isso não os impedia de lembrar do garoto, não?

O silêncio que ficou na sala quando Hermione saiu mostrou a todos como estavam machucados em demasia por causa daquela guerra.

Aquilo ia durar quanto tempo?


Horas depois, Hermione estava sentada em um banco extremamente desconfortável perto de uma mesa comida por cupins. Seus pés estavam descalços e por mais que ela soubesse que a sujeira que estava sobre todo seu corpo era devido a um feitiço, sentia-se mal. O rosto estava muito mais magro do que antes. Claramente, a garota que havia saído do esconderijo dos Weasley não era nem um pouco parecida com a garota que estava ali sentada.

Ela não precisava perguntar duas vezes para Snape o motivo de precisar se modificar. Ela conseguia escutar os passos pesados reverberando pelo cômodo. Passos de alguém subindo as escadas. Alguém que parecia muito furioso. Ela também não precisava pensar muito para saber quem era, então apenas abaixou a cabeça e fingiu polir um medalhão velho que estava na sua mão.

Dez segundos depois, Greyback praticamente arrancou a porta ao abri-la, andando a passos largos e decididos em direção a Snape, que se levantou da poltrona em um gesto de surpresa e indignação.

Snape não teve nem mesmo tempo de abrir a boca, logo Greyback enfiou as mãos no tecido da roupa do professor e o empurrou com brusquidão, fazendo o moreno se desequilibrar.

- Onde ela está?

Greyback perguntou, visivelmente furioso e confuso. Snape não respondeu, o que fez com que o lobisomem se virasse para a garota que estava sentada ali perto e andasse em direção a ela. Sua intuição lhe dizia que aquela maldita garota tinha algo a ver com aquilo tudo. Seu braço já estava se levantando e Hermione já estava de olhos fechados quando Fenrir sentiu seus músculos perderem a força. Abaixou o braço, claramente não por vontade própria.

Olhou para Snape com fúria.

- Se você não sabe lidar com a sua cria, Greyback, – Snape girou a varinha, indicando que era o dono do feitiço. – Não vou deixar você machucar a minha criada.

- Tenho um sexto sentido absurdo, Snape. E ele está me dizendo que essa garota – apontou para Hermione. – faz parte da fuga da ruiva. Além do mais, ela é uma sangue-ruim. Que diferença isso ia fazer?

- Ela faz parte do Trio de Ouro. O Weasley ainda está vivo. Possivelmente vou usá-la para chegar até ele e quem sabe, com sorte, até o restante daquela prole ruiva.

Snape explicou, olhando com ironia para Hermione, que virou o rosto no mesmo momento. Não queria fitá-los diretamente. Parte porque temia que seus olhos pudessem entregar algo, parte porque Greyback lhe dava medo.

- Acho que a sangue-ruim tem sentimentos por Ronald Weasley.

Snape confessou. Hermione permanecia com a cabeça baixa, pensando em como Snape era bom ator. Greyback franziu o nariz, como se estivesse com nojo daquela informação, mas pareceu se acalmar depois de ter se convencido de que nenhum dos dois ali tinha ligação direta com o desaparecimento da sua ruiva.

- Acha que ela está com a família? – ele perguntou para Snape.

Snape levantou as mãos em um gesto de indiferença.

- É a única opção, já que ela sumiu. Mas como ela sumiu, Greyback? Era impossível sair daquele castelo. A não ser que ela tenha descoberto o quarto...

Ele deixou no ar. Hermione sabia que era uma jogada grande e ao mesmo tempo arriscada. Mas em uma situação normal, ele teria que ter aquela conversa com Greyback.

- Vou precisar relatar o desaparecimento da Weasley, caso você não a ache.

Snape disse em um sussurro. O lobisomem concordou com a cabeça.

- O ideal seria que eu a achasse antes de tudo. – ele pautou.

Snape franziu cenho.

- Antes do que, Greyback?

- Antes da guerra...

O lobisomem ficou pensativo, os olhos cinzentos focados no tapete da sala.

- A quero sem nenhum arranhão...

Ele sussurrou, e logo depois olhou para Hermione, como se estivesse incomodado com a declaração perto da garota. Ela não devolveu o olhar, abaixou a cabeça rapidamente. Greyback nem ao menos acenou para Snape, apenas deu as costas para os dois e abriu a porta, batendo-a com a mesma força que a abrira. O som dos passos pesados indicou que ele descia rapidamente as escadas.

Snape esperou que o som tivesse sido totalmente abafado, indicando que o lobisomem estava longe. Olhou com atenção para Hermione, que se levantava do banco e jogava a flanela e o medalhão velho para o lado.

- Você tirou todo o seu cheiro por onde passou no castelo? – ele perguntou.

- Completamente.

Ela respondeu, convicta. Se existia algo que Hermione era boa, era em fazer feitiços. No fundo Snape sabia disso, e ficou um pouco mais aliviado com a resposta dela. Ele caminhou em direção à poltrona que estava sentado antes de Greyback invadir sua casa, sentando-se novamente e olhando com atenção para as chamas da lareira, como se o fogo tivesse respostas para tudo.

- Acha que ele irá atrás dela?

Hermione perguntou, sentando-se em um banco que estava ali perto. Snape assentiu levemente com a cabeça, não tirando os olhos das chamas.

- Ele não descansará enquanto não tiver Ginny Weasley novamente. Esse é o lado bom do companheirismo dos dois.

- Não vejo como isso pode ser um lado bom.

Ele a olhou dessa vez.

- Greyback terá que escolher entre Ginny e a causa pela qual luta. A distância entre os dois pode ajudá-lo a tomar uma decisão. – voltou a fitar as chamas - Nos resta torcer para que ele tome a decisão que queremos.


O quarto era improvisado. Além de sua cama simples, havia mais duas ali, que estavam desocupadas no momento. Todas as pessoas da casa estavam no primeiro andar conversando sobre um assunto que Ginny fugia sempre quando podia: a rebelião.

Seus olhos estavam focados em uma grade de um parquinho para crianças trouxas que ficava em frente à casa. Não precisava temer ser vista. A casa possuía o mesmo feitiço que outrora a sede da Ordem da Fênix tinha.

Ela suspirou, de repente uma tristeza súbita tomando todo o seu corpo e mente. Molly entrou no quarto naquele momento, carregando uma bandeja nas mãos, que continha o jantar da filha. Ginny olhou para ela com atenção.

- Mãe... não precisava. Eu ia descer dentro de alguns minutos.

Molly apenas sorriu, pousando a bandeja em uma mesinha que estava próxima à filha e a olhando com carinho. Os pães que Ginny trouxera para aquela casa não foram tão úteis quanto ela imaginou que seriam. Claro que todos adoraram pães frescos e feitos por mãos de elfos habilidosos, mas a casa não estava desprovida de alimentos como ela imaginara. De qualquer forma, tudo aquilo poderia mudar caso a guerra realmente voltasse no mundo bruxo.

- Não aguento mais as pessoas me servindo. – Ginny pautou.

- Eu sei, mas sei também que você foi alvo de muitas perguntas, querida. Acho que vou te poupar disso novamente.

Molly respondeu e Ginny calou-se. Depois se lembrou de que ela era a sua mãe, e mães tinham um instinto de proteção anormal em volta dos filhos.

- Obrigada.

A matriarca da família Weasley permaneceu algum tempo calada, apenas observando a filha. O rosto dela parecia triste, e os olhos estavam fora de foco, como se a garota estivesse imersa em pensamentos. E estava.

- Também decidi vir aqui para ter uma conversa série e privada com você. Pois estou preocupada.

Molly confessou, Ginny olhou para ela com atenção, franzindo levemente o cenho.

- Preocupada?

- Sim, você está triste, Ginny.

- Não estou triste, estou com minha família. É tudo o que eu queria desde que fui capturada, mãe.

Molly deu um sorriso amável, aquele sorriso que apenas uma mãe que conhecia a filha poderia dar.

- Filha, conheço você mais do que qualquer um. Eu sei que está feliz. Mas algo lhe incomoda. – Molly olhou para o colar que a filha estava usando. – É ele, não é?

Ginny desviou os olhos no mesmo momento. Quando sua mãe lhe olhava, sentia como se sua mente estivesse sendo invadida. Ela tentou permanecer em silêncio, mas logo as lágrimas chegaram e a necessidade de falar o que estava lhe incomodando ficou mais urgente.

- Sim, é ele. Sinto que, por mais que eu esteja feliz, por mais que eu esteja no caminho certo, estou incompleta. – ela olhou para a mãe. – Eu sinto falta dele, mãe. Não uma falta que uma mulher sentiria por alguém que ama, mas é apenas uma necessidade de tê-lo aqui comigo. Ele me passava uma sensação de proteção. Como se ele não fosse deixar nada ruim acontecer comigo.

Ela desabafou tudo de uma vez, tudo que estava a deixando inquieta e até mesmo mal. Pois se sentia quase suja por sentir aquilo. Molly suspirou e Ginny apenas esperou a briga, o sermão. Que não veio.

- Eu pesquisei um pouco sobre licantropia... e Snape também nos explicou muito sobre a relação que um lobisomem tem com uma companheira. Ginny, Greyback não é o único lobisomem que conhecemos, você se esqueceu de Lupin? Convivemos com ele por anos. Sabíamos a relação que ele tinha com Tonks...

Ginny ficou atenta a tudo o que sua mãe lhe dizia, como se conversar sobre licantropia pudesse deixá-la mais próxima do lobisomem que ela sentia falta.

- Não é uma relação normal. É algo forte demais, inexplicável. Mas isso não quer dizer que é algo errado e falso. O que você sente por Greyback é verdadeiro. Não tente procurar um motivo para senti-lo, ou jogar a culpa na ligação sobrenatural... aceite isso como algo a ser vivido.

Ela terminou, levantando-se de onde estava e passando brevemente a mão no cabelo ruivo da filha. Saiu do quarto logo depois, deixando a garota pensativa.

Ginny se surpreendeu com que a mãe havia lhe falado. Mas se sentiu ainda mais confusa com tudo.


Fenrir andava de um lado para o outro no quarto. Mas sabia que aquilo era o que poderia fazer de mais tolo. À medida que andava, conseguia captar facilmente com seu olfato poderoso o aroma peculiar da garota. Aquilo o deixando louco. Ele tentava ignorar que era o seu lado companheiro falando. O seu lado animal. Mas até isso estava se tornando impossível.

E isso o irritava. Porque ele não queria sentir nada por aquela ruiva. Ele não queria sentir o desespero por ela não estar ali, sob as vistas dele, ao alcance do toque dele.

De repente ele sentiu novamente o aroma dela, mas o que lhe chamou a atenção foi o quão forte aquele aroma estava em uma parte do seu quarto. Ele seguiu aquele rastro de cheiro, aproximando-se do quadro que ocultava boa parte de livros raros de licantropia. O homem da pintura estava sentado na poltrona, apoiado de forma despreocupada no encosto e olhando para o lobisomem com atenção.

- Ela esteve aqui mais cedo, sabe?

Ele disse, e com isso conseguiu totalmente a atenção de Fenrir, que o olhou com os olhos acinzentados furiosos.

- Cale a boca, seu inútil. Você tem um sério problema em deixar qualquer um mexer nos meus pertences.

O quadro se sentiu ofendido. Endireitou-se na poltrona e olhou para o lobisomem rapidamente.

- Ela não é qualquer uma, e você sabe disso. Eu preciso aceitar ordens dos dois. Ela não sabe, mas eu sempre preciso revelar as prateleiras quando ela pede. Tudo que está aí dentro pertence a ela também.

Fenrir estava se afastando do quadro, mas algo na fala da pintura lhe chamou a atenção. Voltou-se novamente para o homem da poltrona.

- Quando ela esteve aqui, ela pegou algo?

- Sim.

- O que ela pegou?

- É melhor você descobrir por si mesmo.

Parte da moldura se descolou da parede e o quadro virou, como se fosse uma pequena porta. Fenrir correu avidamente os olhos pelas prateleiras, conhecia todo o conteúdo ali de cor. Sabia que um livro havia sumido, mas um livro não era nada para ele perto do sumiço dela, e não poderia ajudá-lo.

Já estava quase desistindo quando seus olhos pousaram na última prateleira, e logo ele viu o que havia sumido. O colar. O colar da Pedra da Lua havia sumido. Fenrir havia guardado aquele colar por anos, querendo mantê-lo o mais perto de si possível. Mas ele não acreditava na sua sorte quando percebeu que ela havia levado o colar. Aquilo parecia até mesmo destino.

Sorriu maliciosamente, afastando-se do quadro, que se fechou rapidamente. Fenrir pegou um casaco pesado de couro e jogou-o no corpo.

- Aonde você vai?

A pintura perguntou. Fenrir nem ao menos olhou para o homem quando respondeu.

- Vou buscar o que é meu.