I see nothing in your eyes
And the more I see less I like
Lihhelsing
Ela estava abatida quando Neville entrou na cabine. Luna estava encostada em um canto mais perto da janela lendo algo que obrigaria Neville virar de ponta cabeça pra conseguir entender o que era, mas Ginny estava sentada no meio de um dos bancos, abraçando o joelho e com o olhar perdido.
Ele entrou na cabine mantendo o silêncio que as duas instauraram e sentou-se no banco ao lado de Luna, que o olhou com aqueles intensos olhos azuis e, pela primeira vez em anos, não deu seu típico sorriso. Neville engoliu em seco, mas a verdadeira compreensão de que [i]tudo[/i] estava errado veio com o olhar quase vazio de Ginny.
Quase vazio porque nele Neville ainda via dor e medo. Ele sentiu seu corpo inteiro se arrepiar com a profundidade daqueles sentimentos e finalmente deixou seus próprios olhos correrem pela figura encolhida da garota. Fazia alguns meses desde a última vez que se encontraram, mas em todos esses anos ele nunca a vira tão abatida quanto naquele momento - nem mesmo quando estava dominada por Voldemort.
Ginny tinha emagrecido, seu cabelo estava repuxado em um rabo de cavalo mal feito e tinha olheiras profundas, como se não dormisse direito há dias.
- Você tem dormido, Ginny? – Ele finalmente quebrou o silêncio, e sua voz soou um pouco apreensiva. Ela apenas sacudiu a cabeça negativamente e Neville mordeu o lábio inferior, preocupado. – Comido? – Mais uma resposta negativa que fez o garoto mudar de banco e sentar-se ao lado dela. Ginny nem ao menos se mexeu.
- Eu acho que vou chamar a mulher do carrinho de doces aqui, Neville. – Ele ergueu os olhos e notou que Luna os observava, sorriu agradecido e a loira desapareceu pela porta da cabine.
- Ginny, você não pode parar de cuidar de si mesma... – Cuidadosamente ele passou o braço em volta do ombro dela que, surpreendentemente, cedeu e apoiou a cabeça em seu ombro.
- Eu não tenho notícias deles há dias. Não tenho notícia de ninguém há dias. Fui obrigada a vir para a escola, Neville. Eu não queria. Só vou ficar mais angustiada e preocupada e... – Ele sentiu algumas gotas quentes pingando em seu braço e a voz dela ficar embargada pelo choro.
- Hm, eu sei mas... – Ele respirou fundo, não tinha certeza se sabia bem como era aquela sensação de impotência porque desde que a guerra havia começado ele só tinha uma coisa em mente: DA. – Você não pode se deixar de lado porque eu tenho certeza de que eles não querem que você fique assim. Harry com certeza não iria gostar.
Ele a sentiu ficar tensa, mas não se mexeu. Talvez aquele fosse um assunto delicado demais para abordar naquele momento.
- Não, hm, deixa pra lá. – Ginny se afastou dele, encarando-o diretamente.
- Não Neville. Você não sabe como é. Não sabe como é ter que passar a vida inteira ouvindo que não sou adulta o suficiente para entender as coisas, como é ver todos eles se arriscando enquanto eu fico de mãos atadas, sem poder fazer nada. Eu não posso me arriscar porque eles não querem me perder, eu sou frágil demais. Mas eu tenho que viver com o medo de perdê-los. E ainda com o medo de ser a última a saber que os perdi.
- Você não vai perdê-los, Ginny. Nós não vamos perder ninguém.
- E você não pode garantir! É uma guerra Neville. Não é DADA, não é um treino.
- É, mas nós sabemos que eles estão preparados, Ginny.
- E se eles estão nós também estamos. Vê como é injusto? – Neville desviou do olhar duro dela e notou que Luna já estava de volta. Ele não tinha exatamente como rebater aquele argumento porque sabia que era verdade, mas tinha um plano.
- É. mas...
- Mas o que, Neville? – Luna entregou um punhado de doces para Ginny, que os olhou de canto de olho, mas nem sequer se mexeu para começar a comer.
- Talvez eles tenham nos mandado de volta de propósito.
- O que você quer dizer? – A loira já estava acomodada em seu lugar e agora as duas meninas o encaravam, igualmente curiosas.
- Coma, Ginny. – Ela revirou os olhos, mas pegou um sapo de chocolate e enfiou na boca enquanto o mandava prosseguir – Alguém precisa reagir aqui dentro, meninas. A guerra está lá fora, sim, mas não podemos deixar Hogwarts ser tomada. Dumbledore não ia gostar disso.
- Então você está dizendo que deveríamos...
- Reabrir a DA, sim! – Ele estava visivelmente empolgado, mas as duas ainda transpareciam certo receio.
- E porque, então, não recebemos instruções para fazer isso? – Ginny ficou séria, tentando controlar a ansiedade que sentia com aquela idéia.
- Porque tem que ser segredo. Ninguém pode desconfiar, imaginar, nada. Temos que confiar plenamente em todas as pessoas que formos ingressar, temos que ser dez vezes mais cuidadosos.
- E você acha que vai adiantar de alguma coisa? – O olhar de Luna tinha voltado a ter aquele brilho de esperança típico, o que o animou ainda mais.
- Eu não sei, mas temos que tentar. Temos que tentar de tudo, meninas.
As duas finalmente cederam e os três começaram a planejar o reinicio da DA e aos poucos eles iam se convencendo mais e mais de que eles tinham que fazer aquilo e de que era aquilo que todos queriam que eles fizessem – e, mais do que isso, Neville soube, pela primeira vez, que era isso que ele queria.
