Capítulo XXI

Depois de horas de prazer intenso, e de terem atingido o clímax incontáveis vezes, Harry e Pansy ficaram abraçados e em silêncio, saboreando a presença mútua.

— Estarei sempre com você. Sempre e por toda a eternidade.

As palavras dele aqueceram-lhe a alma e, ainda que por breves instantes, ela se permitiu sonhar com o impossível e se entregar à fantasia.

— E teremos nosso próprio Natal em família algum dia.

Harry inclinou-se e beijou-a nos cabelos.

— Esse é somente o primeiro dos muitos natais que passaremos juntos, minha adorável esposa. — Ele cobriu a mão de Pansy com a sua, como se assumisse um compromisso perante testemunhas. — Somos um casal. Agora e para sempre.

Emocionada, ela tocou o anel que ganhara de presente, desejando, com o ardor de uma criança, que os sonhos se realizassem.

— Agora e para sempre — murmurou, como uma prece. — Não sei o que faria se não pudesse vê-lo... —Pansy calou-se, sufocada pelas lágrimas.

— Não chore, querida. — O marquês a apertou contra o peito. — Você será uma mulher livre nas próximas semanas. Prometo-lhe.

Era urna promessa que pretendia cumprir. com ou sem Dumbledore.

— Agora, meu amor, estamos juntos. Pensemos somente em nós.

Depois de muito fazer amor com Harry, Pansy percebeu que era hora de voltar. Entrou no palácio pela porta dos fundos e subiu os degraus gastos que conduziam à cozinha. Continuava muito escuro e os servos ainda não haviam se levantado naquela manhã de Natal. Andando na ponta dos pés, caminhou pelos corredores desertos e entrou em seus aposentos quando o relógio batia cinco horas. Fechando a porta silenciosarnente, tirou a capa de zibelina e atirou-a sobre urna cadeira.

— Voltando de uma caminhada matinal? Ao ouvir a voz do marido, gelou.

— Você quer alguma coisa? — indagou, seca, tentando controlar o medo na voz.

— Quero que minha esposa mantenha a libido em casa.

— Você é o último dos homens que poderiam fazer exigências. Aliás, onde esteve ontem à noite?

Draco levantou-se, a penumbra do quarto dando à sua alta estatura e força um aspecto ameaçador.

— Não é da sua conta. Agora diga-me onde você esteve.

— Não é da sua conta.

Draco deu-lhe um tapa, estremecia de raiva.

— Esposas sem renda própria feito você não podem se dar ao luxo de tentar ser rebeldes. Seja mais sensata, minha querida.

— Não tenho que ser sensata. Sua mãe ainda está hospedada aqui.

— Minha mãe partiu ontem à noite — ele devolveu, com um sorriso malévolo. — Ela adoeceu e preferiu ir para casa.

Sentindo-se como se o chão fugisse sob seus pés. Pansy lutou para sufocar o terror. Perdera a única carta que trazia na manga e temia pela sua vida depois da ameaça de Draco.

— Infelizmente você não estava disponível para despedir-se de sua sogra. Mas o fiz em seu lugar — o príncipe continuou, destilando malícia. — Agora, falemos sobre sua caminhada matinal. Quem é ele?

— Não existe ninguém. Saí para dar um passeio. E só.

— Você está cheirando a sexo.

— Você está tendo alucinações — Pansy afirmou, recusando-se a demonstrar medo. — Ou talvez o cheiro de sua última parceira ainda esteja em suas narinas.
— Minha última parceira de cama prefere o aroma de jasmins. Não é essa sua fragrância favorita, se me lembro bem.

— Eu não conseguia dormir — respondeu, tentando parecer calma.

— Nota-se. Sua cama sequer foi desfeita.

A resposta vulgar a atingiu como uma bofetada. Um arrepio a percorreu de alto a baixo ante o tom aparentemente indiferente de Draco.

— Essa é uma conversa desnecessária. Saí para caminhar. Estou de volta. Sinto muito que você tenha perdido seu tempo, imaginando coisas descabidas.

— Quão docemente ingênua você é, minha querida. Aliás, você sempre foi assim, tola. Agora, quanto ao seu futuro...

— Meu futuro diz respeito a mim.

— Engano seu. Seu futuro será aquele que eu decidir. A propósito. espero que você tenha aproveitado bastante essa noite, porque foi a última vez que você fez sexo. Vou colocá-la em regime de prisão domiciliar para resguardar sua... virtude. E minha reputação — ele acrescentou por entre os dentes.
— Sua reputação não vale nada. E você não pode me manter prisioneira sem que os outros saibam. — Todavia ela blefava, porque no ano anterior uma jovem rebelde, esposa de um membro proeminente da sociedade local, morrera misteriosamente sem que sua morte provocasse nenhuma reação da comunidade.
— De fato, posso sim. Já conversei com o dr. Snape, um profundo conhecedor das manifestações da histeria feminina. Aparentemente uma vida social agitada costuma desencadear os sintomas desse precário estado de saúde mental, além é claro, de uma possível gravidez — O olhar de Draco era implacável. — Vivemos num mundo dominado pelos homens, minha querida. Pena você não o ter percebido mais cedo.

Com uma breve inclinação de cabeça, o príncipe caminhou até a porta. Desesperadamente, Pansy desejou que o marido sumisse, que aquela cena toda não houvesse passado de um terrível mal-entendido. Porém, para seu terror, ele abriu a porta e fez sinal para que três lacaios entrassem.

— Minha esposa está proibida de receber visitas. Se isso acontecer. vocês serão açoitados até ficarem em carne viva.

Segundos depois, ela era deixada sozinha. Ou quase sozinha. Dois homens estavam de guarda no corredor, enquanto o terceiro acomodara-se numa cadeira, no meio da saleta adjacente ao quarto. Não havia como entrar em seus aposentos, nem mesmo pela janela da sacada, sem ser notado pelo brutamontes encarregado de vigiá-la.

Fechando-se no dormitório, ela recostou-se no espaldar da cama, o rosto banhado em lágrimas. O que fizera para merecer tal destino? Por que eu?. perguntou-se silenciosamente, dando vazão a um choro compulsivo.
Sim, nunca deveria ter saído naquela noite. Fora um erro medonho. Embora seu maior erro houvesse sido se casar com Draco. Não que fosse capaz de mudar o passado, mas encontrara um certo conforto ao imaginar como sua vida poderia ter sido... como existia a possibilidade de achar a felicidade no mundo. Porque naquela noite estivera no céu, atingira o nirvana, conhecera todos os paraísos concebidos pelo ser humano.

Reverente, tocou o anel de rubi que Harry lhe dera e depois beijou-o de leve, na esperança de que o objeto lhe desse ao menos um pouquinho da sorte que suas antigas donas haviam desfrutado. Não, não possuía nenhuma ilusão quanto à brutalidade de Draco. Seu marido era capaz de qualquer coisa, de ir às últimas conseqüências para dobrá-la. Porém, se ele pensava mesmo em destruí-la, acharia a tarefa difícil, porque encontraria resistência. Tinha com quem contar para defendê-la. Harry estava ali. E Neville Longbotton também, um homem que já demonstrara iniciativa. Sem dúvida o porteiro faria perguntas quando a descobrisse trancafiada em seus aposentos. Sem dúvida os servos fariam comentários e os mexericos se espalhariam. Esforçando-se para recuperar a calma, Pansy secou os olhos e inspirou fundo várias vezes.
Não havia razão para pânico. Ao menos por isso ela rezava.