Capitulo 20
"Feche os olhos, Edward, feche. Respire, respire as pessoas."
Bella caminha com os olhos entreabertos, entre as pessoas que esbarram nela, e olha um pouco para cima, para o céu.
"Você sente? São elas... São as pessoas que devem guiar o seu coração. Não pense em nada e respire."
Então, pára. Abre os olhos.
Alessandro está parado, um pouco mais atrás, com os olhos fechados e tentando cheirar o ar. Edward abre ligeiramente um olho e a vê.
"Sinto um cheiro bem estranho..."
Bella sorri.
"Claro. Passou há pouco uma carroça puxada a cavalo."
No chão, perto de Edward, ainda estão os "vestígios."
"Ali por isso que todos me pareciam gente de m..."
"Engraçadinho. Boa essa. Sério, divertida. Mas que papel você exerce dentro de sua empresa?"
"Um importante."
"Puxa vida. Então você deve ter um padrinho o quente."
"Que nada. Formei-me na Bocconi de Milão, depois fiz MBI em Nova York aqui estou, sem a ajuda de ninguém."
"Mas pelo menos diga que não faz piadas assim no escritório."
"Como não, todos os dias."
"Mas o que faz exatamente?"
"Diretor de criação."
"Diretor de criação... É por isso que todos riem das suas piadas! Experimente fazer uma coisa. Escreva as suas piadas e depois peça a sua faxineira para contar por aí. Veja se, depois de dois dias, todos riem ou e só ela que chora por ter sido despedida."
"Você é invejosa."
"Não, sinto muito, pura realidade. E, além disso, posso ser invejosa de quem salienta uma variante bem bolada no surfe para uma prancha gum, quem sabe melhorando a popa roundtail para alargar as curvas. Ou então posso invejar quem teve a ideia de construir um reef artificial para o surfe no quilómetro 58 na Aurelia. Bem bolado. Não invejo certamente um diretor de criação. Mas, conte um pouco, o que se esconde de verdade sob esse título?"
"Como é?"
"Quer dizer, além de boas piadas, o que você faz de sério na sua empresa?"
"Invento aquelas propagandas de que você tanto gosta, onde tem uma bela música, uma mulher deslumbrante, e alguma coisa esplêndida acontece. Em suma, eu penso tudo aquilo que fica gravado na sua mente e que faz que você, ao ir as compras, ou ao entrar numa loja, não consiga deixar de comprar aquilo que eu lhe sugeri."
"Ah, dizendo dessa forma, soa bem. Em outras palavras, você consegue convencer alguém a fazer alguma coisa..."
"Mais ou menos."
"Então, será que você não poderia conversar com a minha professora de matemática que não me deixa em paz?"
"Para milagres, ainda estamos nos preparando."
"Já ouvi. É velha."
"Eu a inventei há muitos anos, mas alguém a roubou."
"Na verdade, eu conhecia desta forma... O que é possível fazemos, o impossível experimentamos, para os milagres estamos nos preparando. Isto também estava na novela Dio vede e provvede!*
"Você está preparadíssima, sabe tudo, hein?"
"Aquilo que me interessa. Venha, venha, vamos entrar aqui, nas Messagerie Musicali."
E quase o arrasta para uma grande loja cheia de CDs, livros, DVDs, mas também VHS e fitas cassetes.
"Olá, Piedro",
Bella cumprimenta um segurança enorme na entrada. Camiseta preta, calças pretas e grandes bíceps brancos e tensos como a sua cabeça raspada.
"Ola, Bella, passeando mais cedo hoje, hein?"
"Sim, eu estava com vontade, e está tão quente... e aqui tem ar-condicionado."
Piedro tenta posar simulando uma propaganda.
"Uuuh, Bella...está tão quente..."
Bella ri.
"Não tão quente, Piedro!"
Entram na loja e se perdem rapidamente entre mil estantes. Bella apanha um livro e o folheia. Alessandro se aproxima dela.
"Ei, você sabe que aquela propaganda de que falava o Piedro, o seu amigo energúmeno, foi feita pelos nossos adversários?"
"Pepe não é um energúmeno. Foi um rapaz super doce. Uma pessoa extraordinária. Está vendo como você se deixa enganar pelas aparências, pela imagem? Músculos, camiseta preta, cabeça rapada e logo é um sujeito mal."
"Eu trabalho sobre as aparências, as imagens. Foi você quem disse para eu me misturar com as pessoas, não?"
"Não, eu falei para respirar as pessoas. Não para observá-las superficialmente. Para você são suficientes uma camiseta justa e dois músculos para classificá-lo. Ele é diplomado em biotecnologia."
"Eu, na verdade, não expressei nenhum juízo."
"Pior, você o carimbou diretamente."
"Eu só falei que ele citou a propaganda dos nossos adversários."
"Então os seus adversários são poderosíssimos. E vencerão."
"Obrigado. Você me deixa com vontade de voltar para o escritório."
"Ótimo, assim você perde com certeza. Você precisa respirar as pessoas, não as poltronas do escritório. Quem sabe justamente Piedro poderia Lhe dar a inspiração. E você até o tratou mal."
"Outra vez? Eu não o tratei mal. E você acha que eu sou suficientemente estúpido para tratar mal alguém como ele?"
"Na frente dele não, mas por trás, pelas costas, sim... Você o tratou mal!"
"Chega... Desisto."
"Olha, tem os CDs de Damien Rice... O e B-Sides...tem até o ultimo, lindíssimo, 9. Deixa eu ouvir um pouco..."
Niki pega os fones. Seleciona a faixa 10.
"Veja que titulo bonito, 'Sleep don't weep'..."
E começa a ouvir, movendo a cabeça. Depois retira os fones.
"Sim, sim, vou comprar. Me inspira, lindo, romântico. E sabe o quê? Vou comprar também, tem outras músicas além de 'The blower's daughter'..."
"Música lindíssima apesar de 'Closer' ser um filme cheio de sonhos rompidos."
"Então não serve para nós... A trilha sonora de nossa história deve ser positiva, não?"
"De qual história você esta falando...?"
"Cada instante que passa é uma história... Depende do que você vai fazer depois com ela."
Edward fica olhando para ela. Bella sorri.
"Não precisa ficar assustado... Veja, esta não tinha no filme! Eskimo é lindíssima...Bem, vamos."
Edward e Bella se dirigem ao caixa. Bella pega a carteira da bolsa para pagar, mas ele se antecipa.
"Nem se fala, eu vou dar a você de presente."
"Olhe que depois não me quero sentir em divida com você, hein?"
"Você é excessivamente prevenida e desconfiada. Mas com quem você sai em geral? Digamos que esta é uma pequena indemnização pelo incidente de hoje de manhã."
"Pequeníssima. Ainda falta consertar a minha moto."
"Eu sei. Eu sei."
Saem e continuam pela via Del Corso, cheia de gente.
"Você vê, passeiam. Não tem dinheiro, habitam na periferia e essa é a sua única diversão. Há a música, o metro, as lojas, algum espectáculo de rua...está vendo aquele mímico?"
Um velho senhor todo pintado de branco para estático em mil posições diferentes para quem lhe atira alguns centavos no pratinho.
"Ou então observe aquele outro..."
Junta-se a um grupo de pessoas que parou para ver alguma coisa. Na beira da calçada, um ancião muito bem-vestido, com chapéu-panamá, camisa clara, paletó de linho e um laço escuro, tem sobre o ombro um corvo. O velho assoma uma melodia.
"Vamos, Francis, vamos... Dance para os senhores!"
O pássaro executa toda uma série de passos, desloca-se ao longo do braço do homem mantendo o ritmo. Chega até a mão e volta para o ombro.
"Muito bem, Francis, agora me dê um beijo", e o pássaro atira-se sobre aquele grão de milho que ele encerra entre os lábios e o rouba delicadamente.
Em seguida, com um pequeno salto o pássaro deixa cair o grão no bico e o engole.
Bella aplaude feliz.
"Muito bem, Francis, muito bem, ótimo, parabéns aos dois!"
Bella coloca as mãos no bolso, encontra algum trocado e o dedica cair no pequeno ninho que está apoiado numa mesinha próxima dali.
"Obrigado, obrigado, muito gentil."
O senhor ergue o chapéu e se inclina desse cobrindo a careca.
"Parabéns! Mas quanto demorou para ensinar a ele todas essas coisas? A música, as ordens e todo o resto?"
O homem sorri.
"Está brincando, moça? Foi Francis que me ensinou tudo. Eu não sabia nem assoviar!"
Bella olha entusiasmada para Edward.
"Vamos, não seja pão-duro... Dê alguma coisa você também..."
Edward abre a carteira.
"Mas só tenho notas grandes..."
"Dê-lhe esta!"
Bella retira uma nota de cinquenta euros e coloca no ninho do pássaro.
Edward não consegue impedi-la. Além do mais, é tarde demais. O homem viu. Quase fica sem palavras. Em seguida, sorri para Bella.
"Obrigado... venha...coloque um desses grãos na boca."
"Mas eu? Mas não é muito perigoso?"
"Não! Francis é muito bom. Pegue."
Bella obedece e põe o grão na boca. Francis levanta vôo de repente, para a um milímetro da sua boca, suspensa no ar, batendo levemente as asas.
Naquele instante, Bella fecha os olhos, enquanto Francis estica o bico e rouba-lhe o grão dos lábios. Bella sente um leve toque e, quase assustada, tem um calafrio.
Então, reabre os olhos. "Socorro!" Francis já voltou para o ombro de seu patrão.
"Viu, conseguiu."
Bella bate palmas, felicíssima.
"Parabéns! Ela foi ótima!"
Bem naquele instante, atrás deles, passa um grosseirão de cabeleira comprida acompanhado de amigos da mesma laia.
"Oi, linda, se você gosta tanto de beijar passarinhos, eu lhe empresto o meu! Ele é adestrado!" e riem obscenamente, afastando-se.
"Nem morta! E, além disso, não consegue sair da gaiola...", grita Bella atrás deles.
Já longe, o cafajeste a manda para aquele lugar com um gesto de mão.
"Você quer que eu diga alguma coisa para eles?", pergunta Edward.
"Deixe pra lá, já resolvi. E depois não faça assim. O meu ex pulava por qualquer coisa. Se ele estivesse aqui, sabe o que ia acontecer? Uma briga, confusão... Era alguém que brigava o tempo todo, a troco de nada. Eu não o suportava."
"Está certo, mas esse aí foi pesado, não?"
"Ouça, os que latem assim, depois não mordem. Era só urna brincadeira de mau gosto. Não vale a pena perder tempo com isso. Além do mais, deixei o meu ex justamente por isso. E agora o que faço, saio com você e age da mesma maneira?"
"Só que eu e você não estamos saindo."
"Ah, não?"
"Não."
"Curioso, estamos andando juntos..."
"Sim, mas não é que marcamos um encontro."
"Mas qual é o problema? Você tem uma mulher ciumenta?"
"Na verdade, neste instante, não tenho."
"Ah, você também está livre?"
E, apesar de lhe parecer absurdo falar disso justamente com ela, não consegue mentir.
"Bem, sim."
"E então, deixe pra lá! Aproveite esses momentos e só! Que chateação! Sempre querendo tudo certinho."
Bella começa a andar mais depressa e toma a frente.
Edward fica ali, diante do homem que olha para ele com o seu pássaro no ombro, ergue a sobrancelha e sorri.
"A moça tem razão."
Em seguida, pensando que o outro poderia se arrepender, o ancião olha para Edward, sorri e coloca os cinquenta euros no bolso.
Edward a alcança.
"Bella, espere. Ok., saímos, mas não saímos, assim ainda devemos fazer a nossa saída, certo? Melhorou?"
"Se você acha..."
"Vamos, não fique brava."
"Eu? Mas quem é que está brava?", e começa a rir.
Bella enfia o braço debaixo do braço de Edward.
"Escute, mais à frente tem um lugar onde fazem uma pizza excepcional, em via della Lupa. Você topa um pedaço de pizza? Em via Tomacelli tem outro que faz um pão que dá vontade de morrer, lá tem também um terraço maravilhoso, podemos subir e é um espetáculo. Depois tem outro em corso Vittorio que faz saladas, chama-se L'Insalata Ricca. Você gosta de salada? Ou então aqui perto, tem um lugar muito bom que faz sorvetes, Giolitti, ou melhor, tem outro que faz suco de frutas fantásticos, Pascucci, perto da piazza Argentina."
"Piazza Argentina? Mas é muito longe."
"Que nada, é um passeio. Então, vamos?"
"Mas aonde? Você falou oito lugares em dois segundos!..."
"O.k., então escolhemos os sucos de frutas, vamos fazer assim, quem chegar em primeiro não paga! E sai correndo, linda, alegre, com as suas calças justas, a sua bolsa de malha, os cabelos castanho-claros ao vento, presas por uma fita azul. E os olhos azuis ou verdes, dependendo da luz.
Edward fica ali, parado, olhando para ela. Ri consigo mesmo. E em seguida, de repente, é como se decidisse atirar para trás todos os seus pensamentos. E parte ele também, atrás dela, correndo a toda velocidade pela via Del Corso. Para a frente, sempre para a frente até virar à direita em direção do Pantheon, com as pessoas que os observam, que sorriem, que ficam curiosas, que param um instante de falar antes de retornar à própria vida.
Alessandro corre atrás de Bella. Está quase alcançando-a. Veja só, pensa Edward, parece um daqueles velhos filmes, tipo Guardas e ladrões com Totó e Aldo Fabrizi quando corriam ao longo dos trilhos da ferrovia, em preto e branco. Só que Bella não lhe roubou nada. E não sabe que, na verdade, lhe está dando algo.
Bella de vez em quando se volta para ver se ele ainda está lá. "Ora, não achei que você estivesse tão em forma, hein?"
Edward está quase para alcançá-la.
"Agora te pego, agora te pego."
Bella acelera um pouco, tenta manter um ritmo mais forte. Mas Edward está sempre ali, a poucos passos dela.
De repente diminui, quase pára. Bella se volta e o vê longe. Parado. Por um instante se assusta. Diminui ela também. Pára de repente e volta-se. Edward põe a mão no bolso do paletó e tira o celular.
"Alo?"
"Edward, é você? É Andrea, Andrea Soldini..."
Edward tenta recuperar um pouco o fôlego.
"Quem?"
"Pare com isso, sou o seu gerente de produto e, abanando a noz, aquele que você salvou na sua casa com as russas..."
"Mas é claro que eu sei quem é você, será possível que você não compreende quando estou brincando? Então diga, qual é o problema?"
"Mas o que você está fazendo, está esbaforido!"
"Sim, estou respirando profundamente as pessoas, para ser mais criativo."
"Mas o que...Entendi. Sexo depois do almoço, hein?"
"Ainda não almocei" e gostaria de acrescentar: ...e, se quer saber, não faço sexo não sei há quanto tempo.
"Então o que é? Me diz."
"Não, eu só queria dizer que estou revendo as nossas velhas propagandas e tive uma ideia de montagem. Se você passasse por aqui, podíamos falar a respeito."
"Andrea..."
"Sim, diga."
"Não me faça ficar arrependido de ter salvado você."
"Não, absolutamente, não."
"Muito bem. A gente se fala depois."
"Posso chamar você se eu tiver alguma outra ideia?"
"Se você não puder resistir."
"Ok chefe."
Andrea desliga. Não deu tempo, pensa Edward de dizer-lhe a coisa mais importante. Não aguento ser chamado de chefe.
Enquanto isto, Bella se aproxima.
"Então, o que acontece?"
"Nada, no escritório não conseguem ficar sem mim."
"Mentira. Chamam você de chefe e com isso você se sente importante, certo?"
"Certo, e daí?"
"Vale para todos a mesma regra, lembre-se, morto um chefe, faz-se outro."
"Ah e, então você sabe o que eu acho? Quem perde, paga também o que está em suspenso."
E Edward passa por ela e começa a correr como um louco em direção Piazza Argentina.
"Ei, assim não vale! Eu voltei para ver como você estava!"
"E quem mandou?"
Edward ri e continua a correr.
"E, além do mais, o que você quer dizer com o que está em suspenso?"
"Explico quando chegarmos, agora necessito de todo o meu fôlego para vencer."
Edward acelera, continua a correr ao longo das ruínas do Pantheon, além da praça, ao lado do hotel e sempre em frente.
Novamente o celular. Edward diminui, mas não pára. Pega o celular no casaco. Observa o display.
Não acredito. Volta-se para Bella, que, enquanto isso, está se aproximando.
"Mas foi você quem chamou!"
"Claro, guerra é guerra. Vale tudo. Você me fez voltar e depois saiu correndo, foi traição, não? Quem com celular fere, com celular será ferido!"
"Sim, mas não deu certo. E dizer que foi você mesma quem disse para eu registrar o seu numero!"
"Você vê, a gente sempre se arrepende de ser boazinha!"
E continuam a correr.
"Diga-me o que quer dizer com essa história do suspenso, senão eu não pago."
"Vamos decidir lá se paga ou não...senão não vale."
E continuam a correr um atrás dá outro até chegar ao Pascucci.
* "Deus vê e prove!" É o nome de uma serie apresentada da televisão italiana em 1996.
Notas Finais:
Então que dizem?
Adoro ver estes dois juntos.
Bella faz muito bem a Edward. Ele fica mais solto. Gosto de o ver assim.
Daqui para a frente ainda fica melhor.
Beijos
