Capítulo 21 - Tempestade

[P.V.: EMMA]

- Morrer? Como assim, garoto? O que você tá dizendo?!

- Eu vi, mãe... – Henry se levantou e começou a andar em círculos, agitado. – Como uma visão, me veio de repente e muito, muito real!

- Ok, Henry, acalme-se...

- COMO EU POSSO ME ACALMAR?! – Henry gritou, mas se arrependeu imediatamente. Ele se sentou no chão e algumas lágrimas despencaram furiosas de seus olhos. Ele respirou fundo e alto algumas vezes, de olhos fechados.

Ruby e Snow estavam apreensivas, mas pareciam petrificadas em seus assentos. Ajoelhei-me de frente para o Henry, gentilmente segurando suas mãos. Henry então me abraçou, soluçando contra meu peito. Não o pressionei para falar... Até porquê, provavelmente eu não entenderia qualquer coisa que ele pudesse dizer em meio a tantas lágrimas e soluços desesperados.

Estranhamente, não conseguia ouvir barulhos – é como se toda a natureza houvesse se congelado. Situações como essa ocorriam apenas quando havia perigo iminente ou um medo exacerbado nos animais. Senti um frio na espinha. De alguma forma, tudo aquilo estava interligado. O céu começou a escurecer vagarosamente, mas não de forma menos assombrosa. O começo da noite se anunciava, e podia sentir a temperatura caindo gradualmente.

Após um tempo, os prantos de Henry começaram a diminuir, nunca cessando por completo. Foi então que ele se desvencilhou de mim, enxugando algumas lágrimas na manga de sua camisa. Ele respirava lentamente, como se estivesse lutando bravamente contra novas lágrimas que teimavam em surgir. Seus olhos estavam extremamente vermelhos e apáticos, muito provavelmente indicando um mecanismo de defesa acionado para que ele pudesse lidar com o que quer que estivesse passando em sua cabeça, agora.

- M-mãe... – Sua voz saiu trêmula, rouca e baixa. Henry limpou a garganta e tentou novamente. – Eu tive uma visão. Muito parecida com as que eu já tive antes... – Seu olhar se fixou em suas mãos, que se mexiam formando desenhos aleatoriamente no chão – E... – Henry respirou fundo, novas lágrimas se formando em seus olhos – Eu vi você morrer... Na minha frente.

- Ok, foi só uma visão, querido...

- Mãe. – Sua voz saiu extremamente grave e pontual. – Não foi só uma visão.

Novamente, senti aquele frio na espinha. Eu sabia muito bem do que ele estava falando. As visões de Henry nunca falharam.

- Eu sei que isso é extremamente doloroso pra você, querido. Mas eu preciso que você me explique isso, tá?

- Eu... Eu não pude ver tudo, eu só vi que... Havia uma batalha. Todos nós estávamos lá, e a minha mãe era... A... Evil Queen, e...

Levantei-me instintivamente e olhei apreensiva para Snow e Ruby.

- Mãe? – Henry me olhou, com os olhos semicerrados. – O que eu não tô sabendo?

- Henry, querido... – Eu disse, sem saber por onde começar. Olhei para Ruby, desesperada. Ela acenou com a cabeça.

- Henry, a Regina vem apresentado uns comportamentos... Diferentes, há um tempo. Quando ela estava dormindo, mais precisamente. – Ruby suspirou – Em resumo: Ninguém sabia, nem mesmo a Regina, mas a Evil Queen se separou dela e estava agindo em seu inconsciente. Agora, ela conseguiu tomar o controle... Não sabemos como.

- Então... A minha mãe...

- Não sabemos como ela está. – Snow disse, também se levantando. – Mas suspeitamos que ela esteja inconsciente, dentro dela mesma.

- Agora faz sentido... – Henry também se levantou e deu as costas para nós. Nós 3 nos entreolhamos, Ruby também se levantando.

- O que faz sentido, Henry? – Ruby perguntou, mordendo o lábio inferior.

- Foi ela que matou você na minha visão, mãe.

-x-

[P.V.: EVIL QUEEN]

Anos de miséria, enfim chegarão ao fim. Eu só queria ser feliz. Era tão difícil assim de entender?! Depois de tudo o que fizeram comigo, tudo o que eu passei... Eu teria, finalmente, meu final feliz. Não importa quem eu tivesse que matar, pra isso. Eu apenas ainda não sabia quem seria o afortunado a morrer para que eu conseguisse minha felicidade. Henry? Emma? No fim, qual deles eu amava mais? Eram sentimentos diferentes, claro... Mas ambos, intensos.

Ouvi um trovão ecoar na distância. Uma tempestade estava chegando, mas não sem anúncio. As nuvens lentamente se aglomeraram, indicando o prelúdio de algo devastador. Sorri para mim mesma. Sempre havia gostado de coisas intensas, e tempestades eram exatamente isso. Havia uma certa beleza na forma que a chuva caía, podendo ser tanto fonte de vida quanto de destruição, dependendo de sua quantidade, forma e intensidade.

Saí do mausoléu e apenas apreciei aquele momento. Olhei para o céu e senti as primeiras gotas d'água tocando meu rosto. Primeiro, gentilmente, como um gélido toque de carinho em um dia muito quente. Fechei meus olhos e sorri, abrindo os braços. Rapidamente, como esperado, a chuva se intensificou. As gotas não eram mais suaves e gentis – eram grossas, agressivas e urgentes. À medida que os segundos passavam, a quantidade de água que caía aumentava progressivamente, atingindo um ponto em que pareciam pequenas facas cortando minha pele e atravessando a minha alma. Eu estava encharcada, mas aquilo não importava. O barulho se tornou ensurdecedor de tamanha potência e virilidade em questão de minutos. Os trovões se aproximavam, assim como os relâmpagos se tornavam mais frequentes. O chão sob os meus pés tremia com tamanha demonstração de poder. Eu sentia aquela energia pulsando e caminhando por todo o meu corpo como se fosse pura eletricidade. Comecei a rir. Gargalhar, na verdade. Aquele era o meu momento – e de mais ninguém. Abri meus olhos e senti meu corpo queimar como fogo. Eu estava emanando eletricidade – havia atingido um patamar de poder que jamais havia conseguido... Ou ousado. Todo aquele sentimento, que antes conflitava dentro de mim, agora estava ali. Nas minhas mãos. Em minhas veias. Por todo o meu corpo, se transformando em faíscas de energia pura e bruta.

Voltei para o mausoléu pouco tempo depois, encharcada, mas contente. A chuva ainda caía em cascatas lá fora, seu barulho indicando que ela não cessaria tão cedo. Desci as escadas escondidas pelo túmulo de meu pai e olhei ao redor. Era hora de esquematizar todos os detalhes do meu plano. A essa altura, todos já deviam saber sobre mim, inclusive Henry. Pegar o coração de um deles não seria nada fácil – principalmente, porque eles estariam todos juntos. Eu precisaria fazer alguma coisa para separá-los, mas... Como? Precisaria usar uma isca. Algo que fosse importante demais para eles não blefarem.

-x-

[P.V.: DAVID]

Já estava ficando tarde, e eu não havia tido sinais da Mary Margaret há um tempo. Tudo o que eu sabia é que ela e Ruby haviam saído para procurar Regina, que havia desaparecido, e mais nada. Neal estava comigo a tarde toda, bastante quieto – talvez por medo da tempestade, ou porque sentia falta da mãe. Eu me sentia deixado de lado, mas haviam coisas mais importantes, nesse momento, e eu teria que me acostumar.

Respirei fundo, enquanto abria uma cerveja. Havia colocado Neal no berço, próximo de mim, e liguei a tv. Nada de muito interessante estava passando, e confesso que minha cabeça não estava no melhor dos lugares para prestar atenção. De repente, a campainha tocou. Quem poderia ser?

Fui até a porta e a abri, me surpreendendo. Era Regina.

- Regina? Onde você estava? Todo mundo está preocupado, te procurando...

- Eu sei, eu... Achei Mary Margaret. – Ela estava assustada, molhada e se cobrindo com o próprio casaco, de forma desconfortável. – Ela tá na floresta, machucada. Precisamos tirar ela de lá, mas eu machuquei meu tornozelo... Eu só consegui chegar até aqui mancando, me desculpa, David! – Ela parecia desesperada, contendo lágrimas.

- Onde ela tá?! – Eu perguntei, pegando meu casaco rapidamente.

- Na floresta, perto da ponte do Pedágio! Por causa da tempestade, ela acabou caindo naquelas pedras instáveis...

- Mas... O que você tava fazendo lá? – Perguntei, com os olhos semicerrados.

- David, agora não é o momento. Mary Margaret precisa de nós! – Havia uma certa súplica em seus olhos.

- Certo. Eu vou lá. Quem mais está lá? Quem mais sabe?

- Só você... Vou avisar os outros, agora. Já estou ligando pra Emma. – Regina disse, colocando o celular no ouvido.

- E quanto ao Neal, eu não posso deixa-lo...

- Tudo bem, eu fico com ele. Afinal, não posso ir a lugar algum com o tornozelo desse jeito, mesmo. – Regina disse.

- Cuida dele, tá? – Supliquei, antes de sair.

A chuva era densa, intensa e eu mal conseguia enxergar algo à minha frente. Corri pelas ruas da cidade o mais rápido que pude, me encharcando no processo. A ponte do Pedágio tinha um significado tremendo pra nós... Foi onde Mary Margaret salvou minha vida, após acordar de um coma. Mas o que elas estariam fazendo lá?

Não demorou muito para que eu chegasse até à ponte. Olhei ao redor, tentando distinguir alguma feição.

- SNOW! – Gritei, tentando ouvir sua resposta. – MARY MARGARET!

Minha voz saía quase inaudível, mesmo gritando, pelos sons da tempestade. Procurei por algum sinal de movimento, atividade... Qualquer coisa. Nada parecia fora do lugar. Corri até a parte de baixo da ponte, que agora estava enchendo. Enquanto corria, sentia que a resposta estava se distanciando cada vez mais de mim. Decidi pegar o celular e ligar para Mary Margaret. Se ela estivesse com seu celular lá, seria mais fácil de acha-la. Após dois toques, ela atendeu.

- MARY MARGARET, COMO VOCÊ TÁ?!

- D-David? O que aconteceu?

- Como assim, o que aconteceu?! A Regina disse que você...

- REGINA?! DAVID, ONDE VOCÊ TÁ?

- Na ponte do Pedágio, procurando você! Regina disse que você se machucou, então eu...

- DAVID! A Regina não é mais ela mesma... A Evil Queen tomou seu lugar.

- O... O que? – Sussurrei, sentindo a água da chuva percorrer todo o meu corpo e pingar no chão. Agachei nas pedras, sentindo uma fraqueza súbita. – Snow... Ela está com o Neal.

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[P.V.: BETH]

- Jane?! O que você vai fazer?! – Perguntei, com os olhos marejados, segurando um pedaço de papel amassado entre as mãos.

Eu sabia que ela estava deprimida, cansada de fugir e confusa. Esse novo sentimento pelo pirata havia mexido demais com ela... Talvez mais do que fosse saudável, pelo menos, naquele momento. Eu estava no quarto da pensão quando vi o bilhete em cima da minha cama.

Beth, querida irmã. Eu sei que te coloquei numa enrascada anos atrás, mas eu prometo consertar isso, nem que seja a última coisa que eu faça.

Sem pensar duas vezes, corri até o barco – eu sabia que ela estaria lá. Não me surpreendi ao ver os dois juntos, mas também não me serviu de alento. Respirei fundo por causa da adrenalina e da corrida – havia saído em disparada assim que li o bilhete. Jane olhou para o papel em minhas mãos e depois para o chão. Ela se levantou lentamente, batendo a mão nas roupas como se as estivesse limpando. Caminhou lentamente, passando por mim silenciosamente e parou em um ponto distante do barco, longe de mim e de Hook. Jane parecia estranhamente calma e quieta, e, por fim, colocou as mãos sobre o quadril, apertando uma mão na outra.

- Bom, eu decidi uma coisa. – Ela disse com uma voz trêmula e baixa, ainda olhando para o chão. Hook e eu nos olhamos apreensivamente. – Eu vou me entregar.

- O QUÊ?! – Eu e Hook perguntamos, ao mesmo tempo. Eu não sabia o quanto ele sabia da história, mas definitivamente já era algo.

- Isso mesmo que vocês ouviram. Vou me entregar. Eu tô... Cansada. – A última palavra saiu com um peso descomunal em meio a um suspiro, e Jane finalmente olhou para mim. – E não é justo que a gente passe o resto das nossas vidas fugindo daquele homem, ainda. É hora de encarar as consequências. – Um sorriso tímido se formou em seus lábios. Sua pele pálida estava ainda mais branca, seus olhos cheios de olheiras... Marcas de um sofrimento sem fim.

- Mas... Se você se entregar... – Hook começou e engoliu em seco. – Você... – Ele não conseguiu terminar.

- Eu posso nunca mais sair, sim... Posso até pegar uma sentença de morte, quem sabe. – Jane respirou fundo - ... Mas é melhor do que continuar fugindo. Do que colocar todos vocês em risco, ter que ficar me mudando... Eu só... Cansei.

Por um momento, fizemos silêncio no barco. Hook olhava intensamente para Jane, que olhava para o chão, e eu alternava entre os dois. Não era justo. Não tinha como ser justo. Ela fez o que fez pra nos salvar. Pra me salvar.

- Se você vai se entregar, eu vou junto. – Disse, resoluta.

- Não! De forma alguma! – Jane esbravejou, apavorada. – EU o matei, você não teve nada a ver com isso!

- Mas eu fugi junto com você! Nós somos cúmplices. Se você cair, eu caio junto. Você não entende? – Minhas lágrimas me traíram e eu me aproximei dela. – Estamos nisso juntas. Sempre estivemos. – Segurei suas mãos nas minhas. Elas estavam geladas, trêmulas e inseguras. Jane também começou a chorar e me abraçou.

- Pode haver... Uma outra maneira. – Hook disse, olhando para o chão.

- Qual? – Jane perguntou, enxugando algumas lágrimas e me soltando. Continuamos segurando a mão uma da outra.

- Bom... Vocês podem ir comigo para outro reino.

- O que? Onde?

- Vocês mesmas já viajaram por vários deles, certo? Com os feijões mágicos. Tudo o que precisamos fazer é escolher um, e pronto!

- Mas nós não temos mais feijões. – Eu disse, exasperada.

- Então a gente consegue mais! Mas, por favor... Não se entreguem.

- Por que não? – Jane perguntou com um nó na garganta.

- Porque eu finalmente encontrei um propósito pra além da minha vingança. Vocês não podem simplesmente me deixar agora, isso... Não é justo com ninguém. Jane... – Ele disse, chegando mais perto. – Você sabe o que eu sinto. Por favor, não vá.

- Esse outro reino... – Perguntei. – Por quanto tempo ficaríamos lá?

- Pra sempre. – Jane respondeu, olhando nos olhos de Hook. – Não é?

Ele apenas assentiu, e eu olhei para o chão. Pra sempre é muito tempo, mas, pelo menos, teríamos liberdade. E também, não é como se tivéssemos construído algo aqui, de qualquer forma. Não tínhamos amigos, parentes, nada. Poderia ser, finalmente, nossa oportunidade de começar de novo.

- Mas e quanto à adaga? – Hook perguntou.

- Bom... Eu só dependo de mim pra me salvar, lembra? – Jane sorriu, e Hook fez o mesmo. – O que você acha, Beth?

Pensei por um tempo. Um longo tempo, pra ser sincera. Caminhei ao redor do barco, ouvindo o rangido da madeira e a tempestade, lá fora. E então, tudo fez sentido. Eu ainda podia fazer isso porque estava livre.

- Tô dentro. Como pegamos esses feijões?

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[P.V.: Belle]

Muito tempo havia se passado desde a última vez que eu havia entrado em contato com qualquer habitante de Storybrooke. Eu havia pensado em mim e em meu filho, finalmente. Sim, filho. Um lindo bebê, que eu havia dado o nome de Gideon, longe de toda essa bagunça e disputa por poder, magia e controle. Por um lado, estava aliviada de me distanciar de tudo. Já que eu havia resolvido dentro de mim a questão de sempre sucumbir ao Rumplestiltskin toda vez, consegui apagar todos os meus rastros. Não deixei nenhuma ponta solta que ele pudesse seguir. Nenhuma magia seria capaz de me encontrar... Só se eu quisesse ser encontrada – e, até agora, eu não quis.

Mas coisas novas aconteceram, e eu não podia apenas deixar meus amigos sofrerem as consequências disso sozinhos. Afinal, Rumple queria auxiliar na maldição pra me ter de volta, e isso prejudicaria a todos. Com uma certa ajuda, consegui um espelho mágico, que me permitia ficar de olho no que estava acontecendo na cidade.

Eu havia me escondido no bosque, em partes que ninguém havia ido até então. Não me atrevi a ser vista. Tudo o que eu precisava, eu mesma plantava ou colhia, e morava em uma espécie de toca. Algo na superfície atrairia a atenção, mas algo subterrâneo era mais difícil de se achar. A entrada era coberta por uma estrutura de madeira e galhos, coberta por folhas grossas e pesadas. Lá dentro, eu e Gideon vivemos uma vida boa, confortável. Livre.

Infelizmente, havia chegado a hora de voltar, de confrontar Rumple e ajudar a impedir essa nova maldição. Eu precisava fazer isso, por mim, e eu sabia exatamente quem eu procuraria para pedir ajuda. Peguei um pedaço de papel de um dos poucos livros que consegui trazer na minha fuga. Com uma pena, comecei a escrever um pequeno recado:

Zelena, é a Belle. Preciso de sua ajuda. O pássaro te trará até aqui.

Cobri o papel em um invólucro resistente à água e amarrei no pé de um pássaro fiel que havia se tornado meu amigo durante esse tempo.

- Eu sei que é pedir muito de você, amiguinho... Tá chovendo bastante lá fora. Mas você precisa entregar isso pra Zelena, por favor.

O pássaro piou com convicção e eu sorri. Fui até a entrada da toca com ele apoiado em meu braço direito. Afaguei sua cabeça gentilmente e levantei a proteção da entrada. Ele voou triunfante na chuva, e eu suspirei. Agora, era só esperar.