Ligações Perigosas
Capítulo 21
Por mais que as suas férias tivessem sido maravilhosas, Jensen estava feliz em voltar ao trabalho e à sua rotina. Ao voltar para casa no final da tarde, colocou sua play list favorita para tocar e foi para o chuveiro, permitindo que a água morna relaxasse seus músculos.
Mal tinha acabado de se vestir quando ouviu a campainha tocar e ficou ligeiramente surpreso ao atender a porta e dar de cara com o seu ex, Matt Bomer.
- Hey – Matt sorriu. Aquele maldito sorriso que fazia Jensen quase querer esquecer todos os problemas que tiveram e arrastá-lo para a cama.
Quase.
- Oi – Jensen de repente ficou sem saber exatamente como agir. Não sabia se apertava sua mão, ou o abraçava, ou... Melhor não. O loiro se viu cruzando os braços sobre o peito, esperando que o outro dissesse o que queria.
- Será que eu posso...? – Matt apontou para a porta e então Jensen se tocou que deveria tê-lo convidado para entrar. Não era mais a casa dele, afinal.
- Claro – Jensen se afastou e lhe deu passagem.
- Você não respondeu minhas mensagens, nem atendeu minhas ligações, então eu... Eu devo presumir que é mesmo o fim, não é? – Matt falou com tristeza na voz.
- Matt... nós já conversamos sobre isso e realmente eu penso que... Que é melhor assim. Pra nós dois – Jensen sentiu que não estava tão convicto assim do que dizia, mas ainda assim manteria a sua decisão, por mais que fosse difícil. Matt tinha tido sua chance para melhorar, para mudar as coisas, e só tornara tudo ainda pior. Jensen já não queria mais ter que lidar com seu ciúme obsessivo, com sua possessividade. Se sentia livre agora, e isso era algo bom, mesmo que às vezes a solidão ainda machucasse.
- Certo. Eu não vim pra discutir, eu reconheço os meus erros, e... Não queria que tudo tivesse acabado daquele jeito. Eu fui relutante no início, mas aceitei o conselho de alguns amigos e estou fazendo terapia. Tenho que admitir que de certa forma, está me ajudando a lidar com tudo o que eu sinto.
- Fico feliz em ouvir isso – Jensen falou com sinceridade. Matt tinha sido parte de sua vida e ainda se preocupava com ele.
- Eu também resolvi aceitar o emprego, em Seattle. Acho que pode ser bom recomeçar em outro lugar, respirar novos ares. – Na verdade tinha sido difícil tomar esta decisão, pois não queria acreditar que seu relacionamento com Jensen havia mesmo terminado, mas era hora de aceitar e seguir em frente. - Eu viajo na semana que vem, e... Bom, eu vim pegar as minhas coisas que ainda ficaram por aqui, se você não se importa.
- Eu já encaixotei tudo e... – Jensen de repente se sentiu mal, parecia que estava querendo se livrar dele. Mas era o certo a fazer. Precisava virar aquela página e recomeçar. - Estão no quarto de hóspedes.
Matt pegou suas coisas e colocou no porta malas do carro, com a ajuda de Jensen, então olhou uma última vez para a casa, sentindo seu coração apertado.
- Eu fui muito feliz aqui, Jensen. Essa casa tem tantas lembranças - Falou com os olhos marejados. - Eu sinto muito por não ter sido a pessoa que você esperava, e por ter estragado tudo.
- Não se culpe, Matt. Eu vou guardar pra sempre as boas lembranças, e… - Jensen engoliu o nó na garganta. - Espero que você… - Jensen ia dizer "seja muito feliz", mas parecia estranho dizer isso para alguém com quem tinha terminado recentemente. Sabia que ele ainda estava machucado - tenha sucesso, no seu novo emprego - completou.
- E eu espero que você encontre o que está procurando - Bomer deu uma passo a frente e o abraçou, se despedindo.
- x -
Jensen estava um tanto depressivo para ficar sozinho em casa naquela noite, e chamou Jared para conversarem. Pediram pizza e se sentaram no sofá da sala para assistirem a um filme, que acabou ficando esquecido em meio a conversa.
- Você algum dia imaginou que a sua vida seria assim? – Jared gargalhou com a pergunta do loiro e Jensen se deu conta da besteira que havia falado. – Não, claro que não, me desculpe.
- Eu nunca fui de fazer planos pro futuro, mas se você me perguntasse há alguns anos, eu imaginava que seria um advogado bem sucedido, teria um carrão e sairia por aí, pegando todos os caras que eu quisesse.
- Deus, Jared… - Jensen deu risadas.
- Claro que eu nunca imaginei as roubadas em que eu me meti, mas eu também nunca pensei que fosse ter um filho. Nem mesmo por adoção. E isso muda tudo, sabe? As prioridades mudam, e… Hoje tudo o que eu quero é poder dar uma vida decente pra ele, e eu quero viver muito pra poder vê-lo crescer, e se tornar um homem. Eu quero fazer parte disso, e quero que seja muito diferente do que foi comigo, sabe?
- Você está se saindo muito bem, apesar de tudo - Jensen sorriu.
- Eu estou tentando. Mas e você? O que você imaginou pra sua vida? Tirando aquela ideia absurda de ser médico - Jared riu com a lembrança.
- Essa ideia ficou pra trás há muito tempo - Jensen riu, pois percebeu que não levava o menor jeito. - Mas eu não posso reclamar, eu sou feliz com o meu trabalho. Eu me sinto realizado com ele, mas na vida pessoal… Eu sempre achei que fosse conhecer alguém especial, e que… Sei lá, isso tudo pode ser frustrante, sabe? Acho que eu não nasci para amar. Cada vez que eu me apaixono, eu penso que vai ser pra vida toda, e então eu me decepciono novamente, e… Será que é alguma falha genética? - O loiro brincou.
- Você é um romântico, Jensen. Românticos sofrem. Mas isso não é uma coisa ruim, afinal. Você só não deu muita sorte até hoje.
- Sorte? Deus me livre, se depender de sorte, eu vou acabar velho e sozinho. Ainda bem que eu tenho você e o Thomas, porque logo nem a minha família mais vai me aguentar.
- x -
Era o mesmo bar, a mesma banqueta em frente ao balcão, e a mesma marca de uísque que bebera naquela maldita noite em que o conhecera, há mais ou menos um ano. Jeffrey já nem sabia dizer o que fazia ali, talvez já tivesse bebido demais, mas ainda não era o suficiente para esquecê-lo.
Olhou mais uma vez ao redor, mas sabia que não encontraria o que estava procurando. Era patético. Sua vida era patética, e era tudo culpa dele.
Quando um homem alto e jovem, de cabelos castanhos curtos se aproximou, tentando puxar conversa, ou melhor, vender seus "serviços", Jeffrey o olhou de cima a baixo. Sequer prestava atenção no que ele dizia, mas sabia onde aquilo iria terminar.
Menos de uma hora depois, estavam no quarto do primeiro motel de beira de estrada que Jeffrey encontrou nas proximidades. O homem estava de joelhos na sua frente, e Morgan segurava seus cabelos curtos, fodendo a sua boca e xingando coisas sem sentido. Ou nem tão sem sentido assim, pelo menos para ele.
"Então ele quer bancar o orgulhoso pra cima de mim? Acha que eu vou correr atrás dele feito um... Foda-se! Eu não preciso dele pra nada. Nada!"
Fez com que o homem parasse de chupá-lo e o empurrou sobre a cama, de quatro. Vestiu o preservativo desajeitadamente em seu próprio membro e o penetrou. O bom de sair com um garoto de programa era que não precisava se preocupar com preliminares, nem com qualquer outra coisa. Eles só queriam o seu dinheiro e nada mais.
"Maldito traidor! Enquanto precisou do meu dinheiro ele estava ali, e agora que conseguiu sair da merda, ele acha que não precisa mais de mim. Mas quem precisa dele, afinal? Eu posso foder quem eu quiser sem ter que aguentar o seu maldito drama" - Jeffrey resmungava, ofegante, pouco antes de gozar e desabar sobre a cama.
Pagou a quantia que o garoto lhe cobrou e ainda lhe deu uma generosa gorgeta. Entrou no carro e dirigiu até a mansão. Era um ato irresponsável, pois tinha bebido, mas agora nem sequer tinha um maldito motorista para chamar.
Ao entrar em casa, parou em frente ao antigo quarto de Jared e passou a mão pela madeira da porta. Tinha se arrependido logo depois de tê-lo mandado embora, mas quando voltara, uma hora depois, Jared já tinha deixado a mansão, levando suas coisas.
Quando se deu conta do que tinha feito, Jeffrey sentiu vontade de correr atrás dele, de se ajoelhar aos seus pés e implorar que voltasse. Mas não o fez. Não por orgulho ou qualquer outro motivo, mas porque tinha certeza de que Jared não voltaria.
Subiu as escadas até o seu quarto, praticamente se arrastando, e pegou comprimidos para dormir, na gaveta ao lado da cama. Quem sabe quando acordasse, tudo aquilo teria passado. Talvez não pensasse mais em Jared, nem no que ele significava, e nem no vazio que deixara, não somente em sua cama, mas também na sua vida.
- x -
Jared estava destreinado, mas logo voltou a pegar o jeito com a mecânica de automóveis. Seu novo patrão, Kurt Fuller, não era de muita conversa e Jared não se lembrava de tê-lo visto sorrir alguma vez sequer, mas não estava ali para se divertir ou bater papo, e sim para trabalhar.
As coisas estavam acontecendo muito rapidamente, e Jared de repente se vira tão cheio de responsabilidades, que pensou que iria surtar. Além do novo emprego, tinha conseguido finalmente a guarda do seu filho em tempo integral. Sua rotina agora consistia em acordar muito cedo, preparar o café da manhã, aprontar e levar Thomas apara a escolinha e ir para o trabalho.
No final do dia, depois do expediente, o buscava na escola, brincavam, lhe dava banho, preparava o jantar, deixava a casa organizada e só então tinha algum tempo livre.
Foi uma mudança radical e complicada no início, mas logo foi se habituando. Thomas ainda pedia pela sua "outra casa", mas cada vez com menos frequência. Jared o levava lá uma vez por semana, para que ele matasse a saudade das pessoas com quem vivera por tanto tempo. Era o certo a fazer, e seria grato a eles por toda a sua vida.
Para a sua sorte, também, havia Jensen. O loiro não era apenas um amigo, era uma espécie de anjo da guarda. Ele o havia ajudado a escolher uma boa escola, a um preço acessível, já que agora o salário de Jared era muito limitado, e estava sempre por perto, disposto a ajudar na sua vida tumultuada.
Como Jensen estava sem namorado e não gostava muito de sair, nas noites de sábado geralmente ficavam na casa de Jared vendo filmes ou jogando videogame, como quando eram adolescentes.
Era quarta-feira e Jared estava no trabalho, quando seu patrão saiu para comprar peças, o deixando sozinho na oficina. Conseguiu se virar com os poucos clientes que apareceram, mas não estava preparado para receber a visita de Jeffrey Dean Morgan.
Não o via desde o dia em que deixara a mansão, há quase dois meses, e de repente seu coração batia tão forte que Jared se perguntou se Jeffrey poderia ouví-lo. Durante esse tempo, Jeffrey lhe enviara mensagens, pedindo para se encontrarem, e até mesmo ligara algumas vezes - ligações que Jared ignorou -, mas nunca tinham estado assim, frente a frente, desde então.
- Jeffrey - Jared se aproximou do carro, tentando não demonstrar o quanto ele ainda lhe perturbava. - O que você faz aqui?
- Meu carro está fazendo um barulho estranho, e como eu não tenho mais motorista, tive que trazê-lo eu mesmo - Morgan o olhava de um jeito que fazia Jared se sentir nu.
- E você veio tão longe procurar uma oficina? A concessionária fica pertinho da sua casa, até onde eu sei - Jared se encostou na lateral do carro e Jeffrey parou ao seu lado.
- Eu estava de passagem por aqui, e foi a primeira oficina que encontrei - Jeffrey sorriu e Jared quase se esqueceu como respirar.
- Infelizmente você vai ter que procurar outra, nós já fechamos por hoje - Jared se afastou e foi até o lavabo na lateral do prédio, onde lavou as mãos sujas de graxa.
Ficar perto de Jeffrey era perigoso demais. Passara todo este tempo tentando esquecê-lo, tentando não pensar sobre a falta que ele fazia, mas de repente todo aquele turbilhão de sentimentos fazia o seu peito sufocar.
- Eu senti sua falta - Jeffrey apareceu ao seu lado de repente, o assustando. Deu um passo a frente, o encurralando entre o seu corpo e a porta do lavabo, tão próximo que Jared podia sentir a respiração dele contra a sua pele.
- Jeff - Jared ia pedir que ele se afastasse, mas foi interrompido quando o empresário o beijou. E mais uma vez Jared não teve forças para resistir. Os lábios de Jeffrey eram mais viciantes do que qualquer droga que o moreno já experimentara. As mãos dele em seu corpo, a barba roçando em sua pele enquanto o beijava, o seu gosto… Não saberia dizer quanto tempo durou, mas Jared foi despertado pelo som do próprio gemido.
- Jeff - Desta vez conseguiu afastá-lo, com alguma convicção. - Você vai me fazer perder o emprego desse jeito - Caminhou em direção ao carro novamente, sem saber exatamente como agir.
- Por que você está fazendo isso? - O olhar de Morgan era pura derrota.
- Isso o quê? - Jared abriu os braços.
- Por que está fugindo de mim? Por que insiste neste emprego sem futuro algum, por que não simplesmente volta comigo pra casa, o seu quarto ainda está lá… te esperando.
- Eu não vou voltar, Jeff. Você com certeza não vai ter dificuldades em encontrar outro motorista, ou personal trainer, ou outro amante… Nada do que você está disposto a me oferecer é suficiente. Acabou. Será que você consegue entender isso?
- Eu não vou desistir. E você vai se arrepender amargamente, eu tenho certeza - As palavras saíram sofridas. A dor da rejeição se fazendo presente, mais uma vez.
- Só vá embora, Jeff. Por favor - Jared trancou a porta da oficina, pois já era hora de buscar seu filho na escola, e ficou observando enquanto o carro de Jeffrey se afastava.
- x -
Mais duas semanas se passaram e de repente, como tudo na vida de Jared, as coisas voltaram a se complicar. Tinha recém saído do trabalho na sexta-feira, quando três homens encapuzados o encurralaram em um beco.
Num primeiro momento, não sentiu apenas medo, mas uma sensação de dejavú. Já tinha passado por uma situação parecida há um ano, mas agora já não devia mais dinheiro a nenhum traficante, não estava entendendo o porquê.
Quando tentou perguntar, sentiu um soco em seu estômago, seguido de outro. Tentou se defender, mas foi segurado por dois homens, enquanto o terceiro batia. Malditos covardes.
- Nós precisamos dele consciente, não precisamos? - Um dos homens perguntou ao agressor, que parou de bater por um momento. - Pelo menos por enquanto.
- É verdade, eu já tinha até esquecido esse pequeno detalhe - O homem pegou um envelope de dentro do próprio casaco e ficou encarando Jared por um momento.
- Jeffrey Dean Morgan - Jared se arrepiou ao ouvir o nome. - O que ele é pra você?
- Jeffrey? - Jared falou com a voz sofrida. - Eu não entendo, ele… - Tentava compreender o que Jeffrey tinha a ver com aquilo, mas não conseguia pensar com lucidez.
Levou mais um soco no estômago e arqueou seu corpo para a frente, devido a dor, ainda sendo segurado pelos outros homens.
- Eu vou perguntar mais uma vez: O que ele é pra você? - Perguntou e deu mais um soco.
- Nada. Ninguém - Jared respondeu rapidamente. - Ele foi meu patrão, eu não entendo o que…?
- Seu patrão? - O agressor gargalhou e tirou algumas fotos do envelope, mostrando-as para Jared.
Para sua surpresa, eram fotos de Jeffrey o beijando, naquele fim de tarde na oficina. Não sabia como eles tinham aquela foto. Estava sendo seguido?
- Ou seu amante? - Mais um soco.
Já sem forças, Jared caiu no chão e o forçaram a se levantar e ficar de joelhos. Um dos homens agarrou seus cabelos para forçá-lo a olhar. Foi então que Jared finalmente se deu conta do que se tratava.
- Não. Nós não temos mais nada, eu juro! - Jared tentou explicar, mas foi interrompido por outro soco.
- Acho que estar perto dele não é muito saudável pra você. Eu aconselho que se afaste, para sempre. Porque ou você fica longe dele, ou eu serei obrigado… - O homem riu e tirou outras fotos do envelope. - A tomar medidas mais drásticas.
Desta vez era uma foto de Jared na porta da escola, com seu filho no colo, outra dos dois na frente da casa em que moravam, e Jared só queria ter forças para se levantar e matar aqueles três filhos da puta, mas sua tentativa foi em vão. Foi atirado no chão e espancado covardemente, com socos e chutes, até perder a consciência.
- x -
Primeiro Jensen recebeu uma ligação da escola de Thomas, informando que Jared não fora buscá-lo, o que era estranho demais, pois o moreno jamais esqueceria de buscar o filho. Jamais.
Então Jensen discou o número do celular do amigo, e todas as vezes caía na caixa postal, o que começou a deixá-lo desesperado. Ligou também para o telefone da oficina, mas ninguém atendia, provavelmente já devia ter fechado.
Sem saber exatamente o que fazer, o loiro tentou manter a calma e definir suas prioridades. Teria que pegar Thomas na escola, e então procuraria por Jared, mas neste momento o seu celular tocou. Quando a atendente do hospital falou que Jared estava ferido e tinha sido internado lá, Jensen teve que usar todo o seu autocontrole para não entrar em pânico.
Ligou para o seu irmão Joshua pedindo ajuda, pois alguém teria que ficar com Thomas enquanto fosse ao hospital.
Como era esperado, por mais que já se conhecessem, Thomas estranhou quando Jensen foi buscá-lo e choramingou, pedindo pelo pai várias vezes. Jensen inventou uma desculpa, dizendo que Jared tivera que ficar no trabalho, pois não queria assustá-lo.
- Sabe de uma coisa, amigão? - Jensen o olhou pelo espelho retrovisor do carro, enquanto dirigia até a casa de Jared para pegar roupas para o garoto. Por sorte, Jared tinha lhe deixado uma cópia da chave. - Eu vou deixar você na casa do meu irmão, Josh. Ele e a Alice são muito legais e eles tem um filhinho chamado Lukas, você vai poder brincar com ele a noite toda.
- Eu não quero - Thomas se encolheu na cadeirinha. - Eu quero o meu pai.
- Eu sei, meu anjo. Mas eu prometo que o papai vai buscar você em breve, está bem?
O menino ficou calado durante o restante do percurso, mas logo que chegaram na casa de Josh, e ele conheceu Lukas, os dois logo ficaram amigos e foram brincar juntos.
- O que houve com Jared? - Josh perguntou, preocupado.
- Eu não sei. Me ligaram do hospital e eu tive que pegar o Thomas primeiro, estou indo para lá agora.
- Certo. Dê notícias quando souber. E não se preocupe, o Thomas vai ficar bem aqui - Joshua tocou o ombro de Jensen, tentando confortá-lo.
- Eu sei que vai. Obrigado, Josh.
- x -
Assim que entrou no quarto do hospital, o coração de Jensen apertou, ao ver o estado de Jared. Segundo a enfermeira, ele havia sido sedado, devido à dor. Seu rosto estava inchado do lado esquerdo, um corte feio na boca e no supercílio, hematomas no abdômen e peitoral, mão e cotovelo ralados… Parecia um pesadelo, como se tivessem voltado no tempo.
Jared estivera fora de encrencas por um ano, por que aquilo estava acontecendo justo agora, quando ele estava feliz e conseguindo recomeçar? O moreno tinha lhe garantido que já não tinha mais dívidas com traficantes, quem é que podia ter feito aquela barbaridade?
A não ser que… Jensen se lembrou então que Jared havia lhe falado sobre Jeffrey ter ligado algumas vezes, sobre a insistência do empresário, querendo que voltasse, e dizendo que Jared iria se arrepender amargamente.
Sem pensar, Jensen pegou o celular de Jared e ligou para o número de Morgan.
- Jared? - A voz de Morgan parecia surpresa.
- Não. É o Jensen. Eu só quero te dizer que eu vou descobrir quem feriu o Jared, e juro que se eu souber que você tem algo a ver com isso, eu irei pessoalmente aí quebrar a sua cara! - Jensen falou e desligou o telefone, sem sequer dar chance do empresário responder.
Menos de uma hora depois, Jared ainda dormia quando Jeffrey entrou no quarto do hospital, ficando cara a cara com Jensen.
- Oh meu deus… - Jeffrey se desesperou ao ver o estado do moreno. Tocou seu rosto com cuidado e fez carinho em seus cabelos, inconscientemente. - O que fizeram com ele?
- Me diga você - Jensen praticamente gritou.
- Por que diabos você acha que eu tenho algo a ver com isso? - Morgan se defendeu.
- O que está acontecendo aqui? - O médico de Jared entrou no quarto, furioso.
- Porque você não conseguiu se conformar em perdê-lo. Porque acha que o seu dinheiro sempre pode comprar tudo! - Jensen continuou a discussão, ignorando o doutor.
- Ele disse isso? Você nem me conhece, como pode me acusar de algo assim? - Jeffrey rebateu.
- Fora! Os dois! - O doutor levantou a voz, fazendo ambos pararem a discussão e olhá-lo, espantados.
- Eu não vou sair. Ele é quem deve sair - Jensen respondeu, parecendo uma criança emburrada.
- Se ele pode ficar, eu também posso - Jeffrey insistiu, cruzando os braços sobre o peito.
- Senhores, o meu paciente precisa descansar. Eu vou pedir que saiam, ou terei que chamar a segurança - O médico falou com toda a calma do mundo, mas em um tom autoritário.
- Certo - Jensen saiu do quarto, puto, e Jeffrey o seguiu. - Está vendo o que você fez?
- O que eu fiz? Você foi o único a fazer acusações, aqui - Jeffrey se encostou na parede do corredor e passou as mãos pela barba. - Agora eu sequer posso vê-lo - Reclamou, num fio de voz.
Jensen não havia pensado direito, mas agora, vendo o desespero do homem, tinha quase certeza de que ele não tinha nada a ver com aquilo. Era absurdo demais.
- Se não foi você, então quem foi? - Jensen perguntou, mais para si mesmo, do que para Jeffrey.
- Por que alguém faria isso? Ele me prometeu que havia quitado suas dívidas. Eu não entendo… - Morgan olhava para as próprias mãos, inconformado.
- Foi o que ele disse pra mim, também - Jensen confirmou. - Eu não sei o que houve, e Jared está sedado, teremos que esperar até ele acordar.
- É o jeito - Morgan suspirou, cansado - A propósito, eu sou Jeffrey Morgan, acho que nunca fomos apresentados, não é?
- Jensen Ackles - O loiro apertou a mão que o outro ofereceu, em cumprimento. - Mas acho que eu já conheço o suficiente de você - Jensen falou com certo desprezo.
- Não, você não me conhece - Jeffrey lhe deu um sorriso irônico e saiu.
- x -
- Josh? - Foi a primeira palavra que Jared falou quando conseguiu abrir os olhos, focando o rosto do médico que estava diante da sua cama. - Joshua Hartnett? Que diabos…? Onde eu estou? - Falou com dificuldade, devido a sua boca machucada.
- Hey. Sou eu mesmo, Joshua, e você está em um hospital. Esse mundo é mesmo pequeno, não? - Sorriu.
- Hospital? Mas eu… O meu filho! Eu preciso ir buscar o meu filho - Jared tentou se levantar e soltou um gemido de dor, voltando à posição inicial.
- Você não pode levantar, cara. Filho? Você tem um filho? - Joshua franziu o cenho.
- Eu… tenho. Eu ia buscá-lo na escola, e então… - Jared fechou os olhos, processando as lembranças do que acontecera. - Eu preciso… meu celular. Tenho que ligar pro Jensen, e...
- Jared, já passa das dez horas da noite, alguém deve estar tomando conta do seu filho. Tem dois amigos seus aí fora, eu tive que expulsá-los do quarto, mas…
- Jensen. Deve ser o Jensen, eu preciso falar com ele.
- Eu já irei chamá-lo - O doutor falou enquanto colocava o estetoscópio no peito de Jared. - Pelo jeito que chegou, de ambulância, você não deve ter prestado queixa ainda, não é? Eu vou chamar um policial aqui.
- O quê? Policial?
- Você sabe quem fez isso? Quem te agrediu? Você precisa registrar queixa, cara. Eles não podem ficar impunes - Joshua falou, muito sério.
- Eu não… Não tem do que prestar queixa, Josh. Eu fui atropelado e sequer vi o carro, foi tudo muito rápido.
- Atropelado? - Joshua o olhou, incrédulo.
- Eu não olhei antes de atravessar a rua, quando saía do trabalho, e…
- Jared… - suspirou. - Eu não tenho muitos anos de experiência como médico, mas eu não sou nenhum idiota, okay? E não precisa nem ser médico pra ver que seus ferimentos não são de nenhum atropelamento.
- Só não chame a polícia, está bem? - Jared implorou.
- Olha, eu não sei no que você está metido, mas eu tenho minhas obrigações aqui. Não irei chamá-los agora porque já é muito tarde, mas amanhã pela manhã, você vai ter que prestar queixa, querendo ou não.
- Josh…
- Eu vou chamar o seu amigo - Dr. Hartnett respondeu, irredutível, então saiu do quarto e foi chamar Jensen.
- Hey - Jensen entrou no quarto e parou ao lado da cama, observando o seu amigo.
- Jensen, o Thomas…
- Ele está bem. Ligaram da escola, e eu fui buscá-lo - O loiro respondeu.
- E onde ele está agora?
- Com o Joshua.
- Seu irmão? Por que não com a Mackenzi, ou sei lá… Tinha que ser o Joshua?
- O Josh é ótimo com crianças, Jared. Você se surpreenderia. Ele e a Alice irão cuidar muito bem do Thomas, fique tranquilo. E ele gostou do Lukas logo de cara, então…
- Okay - Jared suspirou. Não estava em condições de discutir aquilo - Obrigado por cuidar de tudo, Jensen.
- Amigos são pra isso, não são? - O loiro sorriu. - Agora me conte… quem fez isso com você, Jay? E não pense que eu vou engolir essa história de atropelamento que você contou pro seu médico.
- Você falou com o Josh?
- Josh? Que Josh?
- O doutor Hartnett. Joshua Hartnett.
- Josh? Sério? Vocês já ficaram assim tão íntimos? - Jensen franziu o cenho.
- Nós já fomos amigos, Jensen - Jared rolou os olhos. - Ele se formou em Stanford.
- Oh, okay. Eu não gostei dele, na verdade. É um idiota e me expulsou do quarto, como se eu fosse um… - Jensen bufou.
- Ele é um cara legal.
- Certo. Se você está dizendo - O loiro fez uma cara feia. - Mas não fuja do assunto, eu quero saber a verdade.
Jared sabia que não teria como enrolar Jensen, então lhe contou toda a verdade, desde a forma com que fora abordado, etá a ameaça com as fotos.
- Mas então… Você estava sendo seguido esse tempo todo?
- É o que parece - Jared ainda estava assustado com a ideia.
- Então não foi mesmo o Morgan. Quem você acha que encomendou o serviço? A Lauren?
- Eu não sei, Jensen. Pode ser tanto ela como os irmãos dele. Eles não deram nomes, só exigiram que eu me afaste dele.
- E o que você pretende fazer a respeito? Não vai mesmo denunciá-los? Você conseguiu identificar alguém?
- Eles estavam encapuzados, e eu não saberia dizer muito sobre eles, de qualquer jeito. Vou fazer exatamente o que pediram. O que mais eu posso fazer? Eu não posso e nem quero deixar a cidade, Jensen. O Thomas ainda nem se acostumou direito com a nova casa, isso não seria justo com ele.
- Eu sei. Mas eu não acho que você deveria ceder à chantagem. Por que não fala com o Jeffrey? Ele ainda deve estar aqui no hospital.
- Como assim, ainda deve estar no hospital? - Jared estranhou.
- Ele estava aqui antes, eu achei que ele pudesse ser o mandante da surra, e… Eu sei que foi um pensamento idiota, mas foi o que me passou pela cabeça, não precisa me olhar desse jeito.
- Jensen, eu já não estava vendo o Jeffrey, isso não vai ser um problema. Ele quem foi atrás de mim lá na oficina, então eu só preciso fazer com que ele pare de me procurar.
- E como você pretende fazer isso?
- Eu tenho um plano. Só preciso chamar ele aqui.
- Jared, ele… eu não quero defendê-lo, mas ele parecia mesmo arrasado quando viu você nesse estado. Se você falar com ele, talvez ele possa resolver isso, e…
- Não. Ele não pode saber a verdade, Jensen. Eu não posso arriscar, é da vida do meu filho que estamos falando.
- Eu sei - Jensen passou a mão pelos cabelos, nervoso.
- E depois, o que ele poderia fazer? Você acha mesmo que ele enfrentaria os irmãos ou a Lauren por minha causa? - Jared forçou uma risada.
- Eu não o conheço, não sei o que ele faria, mas ainda que indiretamente, ele é o responsável por isso.
- Só me deixe-me resolver do meu jeito, Jensen. Okay? Confie em mim.
- Eu tenho outra escolha? - Jensen se aproximou e o abraçou. - Só espero que tudo dê certo.
- x -
Jeffrey foi até a cafeteria do hospital, tentando esfriar a cabeça. Não iria ficar lá, na sala de espera, discutindo com o amigo arrogante e petulante de Jared. Como ele tivera a ousadia de acusá-lo pelo que aconteceu?
Quando voltou, ficou aliviado ao ver que Jared estava acordado e de ter a oportunidade de falar com ele a sós.
- O que você faz aqui? - Jared perguntou assim que o empresário entrou no quarto.
- Quem foi que fez isso, Jared? - Morgan ignorou a pergunta e foi logo ao ponto. Se aproximou e tentou tocar o rosto do moreno, que se esquivou do toque. - Você me prometeu que havia quitado todas as suas dívidas - Completou, desapontado.
- Não tem nada a ver com traficantes, desta vez.
- Então quem foi?
- Eu me meti com o cara errado. Ele tinha um namorado ciumento, foi só isso. Você deveria ver o estado do outro cara - Jared tentou sorrir.
- Jared…
- Jeffrey, é melhor você ir, okay? O que eu faço da minha vida é problema meu, não tem por que você se preocupar. Só vá cuidar da sua vida, e me deixe em paz - Respondeu, seco.
- Por que você está agindo desse jeito?
- Porque eu estou cansado disso tudo, Jeffrey. Não é porque passamos quase um ano juntos que você tem o direito de se meter na minha vida. De vir aqui, ou lá no meu trabalho… Nós tínhamos um contrato, e ele acabou. Eu precisei do seu dinheiro, e sou grato por isso, mas acabou. Eu não quero que você apareça, eu não quero que me ligue mais, eu só quero esquecer que esse ano existiu.
- Então é isso? Nem uma lembrança boa sequer, foi só um contrato? - A voz de Morgan saiu mais quebrada do que ele queria demonstrar.
- O que você esperava? - Jared endureceu a voz, embora seu coração estivesse quebrado por dentro. - Que eu fosse me apaixonar por você e aceitar ser seu amante? Logo você, que adorava jogar os meus erros na minha cara o tempo todo? Que me usou como se eu fosse um brinquedo, que me humilhou quando trouxe o Tom pra dentro da sua casa e me fez assistir vocês? Que trouxe o Tahmoh para um threesome, só pra não correr o risco de eu sair sozinho com ele, e você não poder me controlar? Você é patético, Jeffrey. - Forçou um sorriso. - Eu sei que você é acostumado a comprar tudo o que quer, sei que adora estar no controle, mas não vai acontecer desta vez. Você se acha um deus, mas não passa de um homem qualquer, solitário e desesperado por atenção. Eu olho para trás, pra tudo o que vivemos, e tudo o que eu consigo sentir por você é desprezo - Ao ver o olhar desolado de Jeffrey, Jared se sentiu a pior das criaturas, mas precisava manter aquele teatro, então continuou. - Pela primeira vez, depois de muito tempo, eu me sinto livre. Agora, por favor, só vá embora e não volte nunca mais.
Jeffrey ficou ali parado por um instante, apenas o olhando e tentando processar o que acabara de ouvir. Engoliu em seco e saiu do quarto, se sentindo tão perdido e tão pequeno, como nunca se sentira em toda a sua vida.
Continua...
