No caminho de volta, me sentei em silêncio por um longo, longo tempo. Estava firmemente agarrada à pasta azul no meu colo como se ela pudesse tentar fugir. Os campos passavam rapidamente lá fora. James me lançava olhares de vez em quando, mas não falava nada. Eu estava dando voltas ao redor de tudo que aconteceu, na minha cabeça, tentado digerir tudo que eu acabara de aprender. Eu sinto como se eu tivesse feito uma graduação em Lily Evans, no espaço de meia hora.
"Eu ainda não consigo acreditar meu pai nos deixou em dificuldades como essas," eu digo afinal. "Sem nenhum aviso ou qualquer coisa."
"Ah, não?" James soava evasivo.
Tirando meus sapatos, eu coloquei meus pés em cima do assento e apoiei o meu queixo no meu joelho, olhando para a estrada. "Você sabe, todo mundo amava meu pai. Ele era tão bonito, e divertido, e cheio de vida, e ele nos amava. Mesmo que ele fodesse tudo algumas vezes, ele realmente nos amava. Ele costumava nos chamar de suas três garotas."
"Suas três garotas." A voz de James estava mais seca do que nunca. "A obsessiva-por-cães em negação, uma adolescente estelionatária, e uma desmemoriada confusa. E todas elas devendo. Bom trabalho, Michael. Muito bem feito."
Eu atirei nele com o olhar. "Você não pensa muito bem do meu pai, não é?"
"Acho que ele se divertiu bastante e deixou as conseqüências de tudo para vocês lidarem", diz James. "Eu acho que ele era um egoísta safado. Mas ei, eu nunca conheci o cara". Abruptamente ele sinaliza e passa para outra faixa. Suas mãos estavam segurando firmemente o volante, eu de repente notei. Ele parecia quase zangado.
"Pelo menos eu fiz de mim mesma um pouco mais." Eu mastigava a minha unha do polegar. "Será que eu nunca falei com você sobre isso? O funeral?"
"Uma ou duas vezes." James me dá um sorriso irônico.
"Oh, certo." Eu corei. "O tempo todo. Devo ter aborrecido você até a morte."
"Não seja boba." Ele tira a mão do volante e aperta a minha brevemente. "Um dia, muito antes, quando nós ainda éramos apenas amigos, tudo isso saiu. A história toda. Como esse dia mudou a sua vida. Como você assumiu a dívida de sua família, marcado uma hora com um dentista especialista em estética no dia seguinte, entrou numa dieta radical, decidido a mudar tudo sobre si mesma. Então você passou na televisão e tudo se tornou ainda mais extremo. Você decolou em sua carreira, você conheceu Lucius, e ele parecia ser a resposta. Ele era sólido, rico, estável. Um milhão de milhas de distância do..." Ele fica em silêncio.
"Meu pai," eu disse eventualmente. "Não sou psicóloga. Mas poderia adivinhar."
Houve um silêncio. Eu assisti a um pequeno avião subindo mais e mais alto para o céu, deixando um rasto duplo de fumaça branca.
"Você sabe, quando eu acordei, achei que tinha aterrizado na vida dos sonhos", eu digo devagar. "Eu pensava que eu era a Cinderela. Que estava melhor do que a Cinderela. Pensava que eu deveria ser a garota mais feliz no mundo..." Eu interrompi assim que James balançou sua cabeça.
"Você estava vivendo toda a sua vida sob pressão. Você foi muito longe muito cedo, você não soube como lidar com isso; você cometeu erros." Ele hesita. "Você alienou suas amigas. Você descobriu que essa era a parte mais difícil de todas."
"Mas eu não compreendo", eu digo indefesa. "Eu não entendo a razão pela qual me tornei uma vaca".
"Não era sua intenção. Lily dê um desconto a si mesma. Você foi empurrada para essa posição de chefe. Você tinha um grande departamento para dirigir, você queria impressionar seus superiores, não ser acusada de favoritismo... e você teve dificuldades. Você fez algumas coisas da forma errada. Então você se sentiu aprisionada numa armadilha. Você construiu esta personagem dura. Isto fazia parte de seu sucesso".
"A Naja", eu disse, me retraindo. Eu ainda não consigo acreditar que fui apelidada de serpente.
"A Naja". Ele assente, ativando um sorriso em sua boca novamente. "Você sabe, isso foi ideia dos produtores da TV. Essa não era você. Embora eles tivessem descoberto algo - que você é bem estilo Naja quando se trata de negócios."
"Não, eu não sou!" Eu levantei minha cabeça horrorizada.
"De um jeito bom." Ele força um riso.
De um jeito bom? Como você pode ser como uma Naja de um jeito bom?
Ficamos na estrada por um tempo sem falar, campos dourados se estendiam longe de ambos os lados. Com o tempo James ligou o rádio. The Eagles estavam tocando "Hotel Califórnia" e, enquanto nós seguíamos assoviando, a luz do sol cintilava sobre o pára-brisa, de repente senti como nós pudéssemos estar em outro país. Numa outra vida.
"Você disse uma vez para mim, se você pudesse voltar no tempo e fazer tudo diferente, você faria." a voz de James estava mais suave do que antes. "Com tudo. Você... o seu trabalho... Lucius... Tudo parecia diferente quando o brilho já não existia."
Eu sinto uma súbita picada, à menção de Lucius. James falava como se tudo estivesse no passado - mas isto é agora. Estou casada. Também não me agrada o que ele estava indicando.
"Olhe, eu não sou uma superficial caçadora de dotes, ok?" Digo fervorosamente. "Devo ter amado Lucius. Eu não iria casar com um cara apenas por causa do glamour."
"No começo você pensou que Lucius fosse o certo pra você", James concorda. "Ele é charmoso, ele é confiável... Na verdade, ele é como um dos sistemas inteligentes de nossos lofts. Coloque na função 'Marido' e ele faz tudo."
"Pare com isso."
"Ele é atualizado. Ele tem uma gama de configurações de humor; ele é sensível ao toque..."
"Para." estava tentando não rir. Eu me inclinei pra frente e aumentei o som do rádio ao máximo, como se bloqueasse James. Um momento mais tarde eu pensei no que eu queria dizer, e baixei o som novamente.
"Ok, veja. Talvez nós tenhamos tido um caso. No passado. Mas isso não significa que... Talvez eu queira fazer o meu casamento funcionar desta vez."
"Você não pode fazê-lo funcionar." James não deixava passar uma. "Lucius não te ama."
Porque é que ele tinha que ser um tão infame sabe-tudo?
"Sim, ele ama." Eu dobrei meus braços. "Ele me disse. Na realidade, foi realmente romântico, se você quer saber."
"Ah sim?" James não soa remotamente incomodado. "O que ele disse?"
"Ele disse que se apaixonou pela minha linda boca e minhas pernas longas e pela maneira que eu balançava a minha pasta." Eu não pude evitar ruborizar conscientemente. Eu sempre lembrava de Lucius dizendo isso, na verdade eu memorizei cada palavra.
"Isso é um monte de lixo." James nem sequer se vira.
"Não é um monte de lixo!" Eu repliquei indignada. "É romântico!"
"Ah, realmente? Então será que ele iria te amar se você não balançasse sua pasta?"
Fiquei momentaneamente embaraçada. "Eu... Não sei. Este não é o ponto."
"Como isso pode não ser o ponto? É exatamente o ponto. Ele estaria te amando, se suas pernas não fossem longas?"
"Eu não sei!" Digo mal-humorada. "Cala a boca! Foi adorável, um momento bonito."
"Foi tudo besteira".
"Ok". Eu projetei meu queixo. "Então o que você ama em mim?"
"Eu não sei. A essência do que você é. Eu não posso transformá-la numa lista", diz ele, quase ofensivamente.
Houve uma longa pausa. Estou olhando sempre em frente, os meus braços ainda fortemente dobrados. James centrou-se na estrada, como se ele já tivesse esquecido a conversa. Estamos ficando mais perto de Londres agora, o tráfego se intensificava à nossa volta.
"Tudo bem", diz ele, finalmente, enquanto parávamos em uma fila de automóveis. "Eu gosto da maneira como você chia em seu sono."
"Eu chio no meu sono?" Digo sem acreditar.
"Tal como um esquilo".
"Eu pensei que eu deveria ser uma Naja," Eu repliquei. "Se decida."
"Naja de dia." Ele assente. "Esquilo à noite."
Estava tentando manter a minha boca reta e firme, mas um sorriso me desafiava. Enquanto avançávamos lentamente em direção à via de alta velocidade, o meu telefone emite um sinal sonoro com uma mensagem, e eu puxei-o para fora.
"É Lucius," digo após a leitura. "Ele chegou com segurança em Manchester. Ele está analisando a extensão de alguns novos terrenos para um eventual projeto por alguns dias."
"Uh-huh. Eu sei." James oscilando em torno de uma rotatória.
Estamos na periferia da cidade agora. O ar parece mais acinzentado e um pingo de chuva de repente caem sobre minha bochecha. Eu me arrepiei, e James coloca a capota da Mercedes de volta. Seu rosto estava imóvel enquanto ele negociava as ultrapassagens nas faixas da via de alta velocidade.
"Você sabe, Lucius poderia ter pago a dívida do seu pai durante o sono", ele diz de repente, num tom tipo-não-tô-nem-aí. "Mas ele deixou que você pagasse. Nunca chegou a mencionar fazê-lo."
Sinto-me desvalorizada. Não sei como a responder a isto; eu não sabia o que pensar.
"É o dinheiro dele", eu digo afinal. "Por que ele deveria? E, mesmo assim, eu não preciso da ajuda ninguém."
"Eu sei. Eu ofereci. Você não aceitou nada. Você é teimosa demais." Ele chega a um cruzamento grande, alinhou-se por trás de um ônibus, e voltou a olhar para mim. "Eu não sei o que você está planejando fazer agora".
"Agora?"
"O resto do dia de hoje." Ele dá de ombros. "Se Lucius está fora."
Dentro de mim, bem fundo, algo começa a se agitar. Uma suave pulsação, que não gostaria de admitir. Nem sequer a mim mesma.
"Bem". Eu tento usar o tom profissional. "Eu não estava planejando fazer nada. Apenas ir para casa, comer alguma coisa, ler esta pasta..." Eu me forcei a dar uma pausa natural antes de acrescentar, "Porquê?"
"Nada". James dá uma pausa também, e franze a testa em frente a estrada antes de ele acrescentar casualmente, "É só que tem algumas coisas suas no meu apartamento. Você pode querer pegá-las de volta."
"Ok". Eu levanto os ombros descompromissadamente. "Ok".
Ele oscilou o carro em volta e nós o fizemos o resto o caminho em silêncio.
James vive no apartamento mais bonito que eu já tinha visto. Ok, fica numa rua brega, em Hammersmith. E você tem de ignorar o graffiti na parede oposta. Mas o lugar é grande e de tijolos brancos, com janelas enormes com um arqueado antigo, e elas se concentram em volta do apartamento até colidir com o prédio vizinho, ficando, portanto, um milhão de vezes mais amplo do que parece olhando pelo lado de fora.
"Isto é... incrível."
Eu estou de pé parada, admirada com seu trabalho em torno do espaço, quase sem fala. O teto é alto e as paredes são brancas e tem uma mesa alta inclinada coberta em papel, ao lado de uma estação de trabalho munida de um imponente Apple Mac. No canto tem um suporte de madeira para desenhos, e no lado oposto tem uma parede inteira coberta de livros, com uma antiquada escada de biblioteca sobre rodas.
"Toda esta fila de casas foi construída como estúdios de artistas". Os olhos de James cintilavam enquanto ele andava ao redor, pegando cerca de dez xícaras de café antigas e desaparecendo com elas para dentro da pequena cozinha.
O sol saiu novamente e estava reluzindo através do arqueado das janelas em direção ao piso de madeira reformado. Pedaços de papel cobertos com linhas, desenhos e esboços descartados, estavam no chão. Largada no meio de todo o trabalho estava uma garrafa de tequila ao lado de um pacote de amêndoas.
Eu levanto o olhar e vejo James parado na porta da cozinha, me assistindo silenciosamente. Ele agita seu cabelo como se tentasse quebrar um clima, e diz, "Suas coisas estão por aqui."
Eu andei para onde ele estava apontando, através de um arco onde ficava uma acolhedora sala de estar. Ela era decorada com grandes sofás azuis de algodão e um enorme pufe de couro e uma velha televisão equilibrada em uma cadeira. Atrás do sofá estavam umas prateleiras de madeira surrada, aleatoriamente preenchida com livros e revistas e plantas e...
"Essa é a minha caneca." Encarei a caneca pintada à mão de cerâmica vermelha que Marlene me deu de presente uma vez no meu aniversário, em cima da prateleira como ela pertencesse àquele lugar.
"Sim". James concordou. "Isso era o que eu queria dizer. Você deixou suas coisas aqui." Ele a pegou e entregou-a para mim.
"E... meu suéter!"
Havia um velho suéter gola role com nervuras estendido em cima de um dos sofás. Eu tinha ele desde sempre, desde que eu tinha dezesseis anos. Como foi que...
Olhei ao redor sem acreditar enquanto mais coisas brotavam em minha visão, como um Olho Mágico. Aquela pele de lobo falsa com a qual eu sempre costumava me embrulhar. Antigas fotos do colégio em seus porta-retratos. Minha torradeira retro rosa?
"Você costumava vir aqui e comer torradas." James segue meu olhar espantado. "Você costumava comer até se empanturrar como se você passasse fome".
Subitamente eu estava vendo o outro lado de mim; o lado que eu pensava ter desaparecido para sempre. Pela primeira vez desde que eu acordei no hospital, sinto como se estivesse em casa. Tinha até um barbante com luzes decorativas ao redor da planta, no canto; as mesmas luzes decorativas que eu tinha no meu pequeno apartamento em Balham.
Todo esse tempo, todas as minhas coisas estavam aqui. De repente eu lembro das palavras de Lucius, na primeira vez que eu perguntei-lhe sobre James. Você pode confiar a sua vida em James. Talvez isso foi o que eu fiz. Confiei a ele toda a minha vida.
"Você não lembra de nada?" James soa casual, mas eu pude perceber a esperança disfarçada.
"Não." Eu agitei minha cabeça. "Só as coisas que vieram da minha vida antes de... " Eu parei assim que vi uma moldura com uma foto que eu não reconheci. Eu me aproximei para ver a foto - e senti um pequeno abalo. Era uma fotografia minha. E de James. Nós estávamos sentados sobre o troco de uma árvore e os braços dele estavam em torno de mim e eu estava usando jeans velhos e tênis. Meu cabelo estava fluindo pelas minhas costas; minha cabeça estava jogada para trás. Estava rindo como se eu fosse a garota mais feliz que já existiu.
Foi real. Foi realmente real.
A minha cabeça formigava enquanto eu observava nossos rostos, claros por causa dos raios de sol. Todo esse tempo, ele tinha provas.
"Você poderia ter me mostrado isso.", eu disse quase acusadoramente. "Essa foto. Você poderia ter trazido ela desde a primeira vez que nos encontramos."
"Será que você teria acreditado mim?" Ele estava sentado sobre o braço do sofá. "Será que você iria querer acreditar em mim?"
Eu estava travada. Talvez ele tivesse razão. Talvez eu tivesse explicado ela de alguma forma, tivesse racionalizado isso, agarrada ao meu marido perfeito, minha vida de sonho. Tentando aliviar o clima, eu ando ao longo de uma mesa desordenada cheia de velhos romances que pertenciam a mim e um vaso com sementes.
"Sementes de girassol." Eu peguei um punhado. "Eu amo sementes de girassol."
"Eu sei que você ama". James tinha a mais estranha, mais insondável expressão em seu rosto.
"O quê?" Eu olho para ele surpresa, com sementes na metade do caminho para a minha boca. "O que está errado? Estas estão ok?"
"Elas estão bem. Tinha uma coisa..." Ele interrompe e sorri, pensando consigo mesmo. "Não. Não importa. Esqueça isso."
"O que?" Eu franzi o cenho, perplexa. "Algo do nosso relacionamento? Você tem que me dizer. Vá em frente."
"Não é nada." Ele dá de ombros. "É meio estúpido. Nós só tínhamos esta... tradição. A primeira vez em que nós fizemos sexo você tinha estado mastigando sementes de girassol. Você plantou uma em um pote de iogurte e eu levei para casa. Era como a nossa própria piada privada. Depois, nós começamos a fazê-lo toda vez. Tal como um souvenir. Nós os chamávamos de nossos filhos."
"Nós plantávamos girassóis?" Eu enruguei minha sobrancelha com interesse. Isso tocou um minúsculo sino na minha cabeça.
"Uh-huh." James assentiu, como se ele quisesse mudar de assunto. "Deixe-me pegar uma bebida pra você."
"Então, onde estão eles?" Eu disse enquanto ele enchia duas taças de vinho. "Você não quis manter nenhum deles?" Eu estava olhando em volta da sala a procura de algum sinal de mudas em potes iogurte.
"Não importa." Ele me entregou uma taça.
"Você os jogou fora?"
"Não, eu não os joguei fora." Ele se dirige ao CD player e coloca algumas músicas bem baixinho, mas eu não ia desistir.
"Onde eles estão, então?" Um tom desafiador se arrastou pela minha voz. "Devemos ter feito sexo algumas vezes, se tudo você disse for verdade. Portanto, deveria haver alguns girassóis por aqui."
James saboreava seu vinho. Em seguida, sem dizer uma palavra ele se vira e gesticula para que eu andasse ao longo de um pequeno corredor. Nós passamos por quarto escassamente decorado.
Lá ele empurra abrindo as portas duplas para uma ampla e adorada varanda. E eu prendi minha respiração. Tinha uma parede repleta de girassóis em volta. De enormes criaturas amarelas chegando até o céu a jovens flores amarradas em varas, abaixo tinham compridos e finos brotos verdes em minúsculos vasos, começando a abrir. Onde quer que eu olhasse, podia ver girassóis. Isto foi ele. Isto foi nós. Desde o imediato início até as últimas mudas remendadas em um pote. Minha garganta estava subitamente apertada enquanto eu olhava ao redor daquele mar de verde e amarelo. Eu não fazia qualquer ideia.
"Então, há quanto tempo... quero dizer..." Eu me aproximo da mais ínfima das mudas, em um minúsculo pote pintado, com apoiado para cima com varetas. "Desde nossa última..."
"Seis semanas atrás. O dia antes do acidente." James pausa, com uma ilegível expressão em seu rosto. "Estou tipo tomando cuidado com essa."
"Foi a última vez que eu te vi antes de..." Eu mordi meus lábios. Houve um pouco de silêncio e, em seguida, James assentiu.
"Essa foi a última vez em que estivemos juntos."
Sentei-me e dei um gole em meu vinho, me sentindo totalmente estupefata. Há toda uma história aqui. Todo um relacionamento. Crescendo e intensificando e transformando-se em algo tão forte que eu iria deixar Lucius.
"Como foi... a primeira vez?" Digo eventualmente. "Como foi que tudo começou?"
"Foi naquela semana que Lucius estava fora. Eu passei lá e nós estávamos conversando. Nós estávamos fora na varanda, bebendo vinho. Mais ou menos como estamos agora." James gesticula em volta. "E depois no meio da tarde, ficamos em silêncio. E nós soubemos".
Ele levantou seus olhos escuros em direção aos meus e eu me senti desamparada, bem no fundo. Ele se levanta e começa a caminhar em direção a mim. "Ambos sabíamos que era inevitável", diz ele suavemente.
Eu estava paralisada. Gentilmente ele removeu a taça de vinho e segurou minhas mãos.
"Lily..." Ele levou minhas mãos até sua boca, fechando seus olhos, e beijando-as suavemente. "Eu sabia..." Sua voz estava abafada contra a minha pele. "Você ia voltar. Eu sabia que você voltaria para mim."
"Pare!" Eu puxei minhas mãos pra longe, meu coração batendo angustiado. "Você não... você não sabe nada!"
"O que há de errado?" James pareceu traumatizado como se eu tivesse batido ele.
Eu nem sequer sei o que há de errado comigo mesma. Eu o queria tanto; meu corpo inteiro me dizendo para ir em frente. Mas eu não podia.
"O que há de errado é... estou apavorada."
"Com o quê?" Ele me olha chocado.
"Com tudo isto!" Eu gesticulo em direção aos girassóis. "É demais pra mim. Você está me apresentando este... este relacionamento completamente maduro. Mas, para mim, é apenas o começo." Tomo um profundo gole de vinho, tentando manter o meu controle. "Estou muito muitos passos para trás. Está desequilibrado demais".
"Nós equilibraremos tudo", diz ele rapidamente. "Faremos funcionar. Eu vou voltar para o início também."
"Você não pode voltar para o início!" Eu empurro minhas mãos sem esperanças pelos meus cabelos. "James, você é um cara atraente, espirituoso e moderno. E eu realmente gosto de você. Mas eu não amo você. Como eu poderia? Não tenho feito tudo isto. Eu não lembro de tudo isto."
"Eu não espero que você me ame..."
"Sim, você espera. Você quer isso! Você espera que eu seja ela."
"Você é ela." Houve uma súbita tendência à fúria em sua voz. "Não me venha com esse papo furado. Você é a garota que eu amo. Acredite, Lily".
"Eu não sei!" A minha voz levanta agitada. "Eu não sei se sou, ok? Eu sou ela? Eu sou eu?"
Para o meu horror, lágrimas desciam pelo meu rosto. Não fazia nenhuma ideia de onde elas vieram. Eu me afastei e limpei minha face, soluçando, incapaz de parar a enxurrada.
Eu quero ser ela, eu quero ser a garota sorrindo sobre o tronco da árvore. Mas eu não sou. Pelo menos eu consegui me conter e dar a volta.
James estava parado exatamente no mesmo lugar que estava antes, uma desolação em seu rosto que cortou meu coração.
"Eu olho em torno destes girassóis." Eu engoli seco. "E as fotos. E todas as minhas coisas aqui. E posso ver que isso aconteceu. Mas parece um romance maravilhoso entre duas pessoas que eu não conheço."
"É você", diz James em uma voz calma. "Sou eu. Você conhece a nós dois."
"Sei disso na minha cabeça. Mas não sinto isso. Eu não conheço isso."
Apertei a mão no meu peito, sentindo que as lágrimas fluiriam novamente. "Se eu pudesse lembrar de apenas uma coisa. Se houvesse uma só memória, um fio..." Eu esgotei em silêncio. James olhava para os girassóis como se tivesse extasiado com cada pétala.
"Então, o que você está dizendo?"
"Eu estou dizendo... Não sei! Eu não sei. Eu preciso de tempo... Eu preciso de..." Eu parei indefesa.
Pingos de chuva começam a cair sobre a varanda. Uma brisa sopra forte para além dos girassóis, que oscilavam uns contra os outros como se estivessem acenando. Por fim James quebra o silêncio.
"Uma carona pra casa?" Ele levanta seus olhos para encontrar os meus - e não havia mais raiva.
"Sim". Eu enxuguei os meus olhos e empurrei o meu cabelo pra trás. "Por favor".
Levou apenas quinze minutos para chegar em casa. Nós não batemos papo. Eu sentei segurando a pasta azul e James mudava de marcha, o seu maxilar imóvel. Ele pára a Mercedes em minha vaga do estacionamento, e por um momento nenhum de nós se move. A chuva estava gigantesca contra o teto agora e havia uma repentina queda de raios.
"Você terá que correr direto para dentro", disse James, e eu assenti.
"Como você vai voltar?"
"Eu vou ficar bem." Ele me entregou as chaves em minhas mãos, evitando os meus olhos. "Boa sorte com isso." Ele movimenta a cabeça para a pasta. "Eu falo sério."
"Obrigada". Eu corro uma mão ao longo dos papéis, mordendo meu lábio. "Embora eu não saiba como eu vou chegar a Alvo Dumbledore para falar sobre isso. Eu fui rebaixada. Eu já perdi toda minha credibilidade. Ele não vai se interessar."
"Você vai conseguir."
"Se eu conseguisse chegar a falar com a ele, estaria tudo bem. Mas eu sei que vou ser ignorada. Eles não têm mais tempo para mim." Eu suspiro e chego para a porta do carro. A chuva estava totalmente caindo com força, mas eu não podia ficar sentada aqui a noite toda.
"Lily..."
Eu sinto um turbilhão de nervos no tom de James.
"Vamos... conversar", eu disse precipitadamente. "Outra hora".
"Ok". Ele segura meu olhar por um momento. "Outra hora. É um trato." Ele sai, levantando as mãos ineficazes contra a chuva. "Eu vou encontrar um táxi. Vai lá, corre." Ele hesita, e depois dá um beijo na minha bochecha e se afasta a passos largos.
Eu me atiro através da chuva para a entrada, quase derrubando a preciosa pasta e, em seguida, parada embaixo do pórtico, recolhendo e juntando os documentos, sentia um novo ímpeto de esperança assim que lembrava os detalhes. Se bem que o que eu disse era verdade. Se eu não pudesse ver Alvo Dumbledore isso tudo não adiantaria nada.
E repentinamente perdi a firmeza quando a realidade da minha situação me atingiu ao chegar em casa. Não sei o que eu estive pensando. O que quer que eu tenha nesta pasta, ele nunca me daria outra chance, daria? Não sou mais a Naja. Não sou mais Lily o pequeno gênio. Eu sou a memorialmente contestada, embaraço-para-a-empresa, incompetente total. Dumbledore não vai mesmo me dar sequer cinco minutos, e muito menos uma audiência inteira.
Eu não estou no humor para o elevador. Para o óbvio espanto do porteiro, me dirijo para as escadas e subi com dificuldade a resplandecente escada de aço e vidro que nem um único residente deste bloco nunca usa. Uma vez dentro, coloquei no controle remoto fogo e tentei ficar de cócoras sobre o sofá creme. Mas as almofadas são tão brilhantes e estranhas, que eu tenho medo que minha cabeça úmida de chuva deixe uma mancha sobre o tecido, assim, no final eu levanto e vou em direção a cozinha para fazer uma xícara de chá. Após toda a adrenalina do dia estava melancólica e desapontada. Então, eu aprendi algumas coisas sobre mim. E daí? Eu me deixei levar pela emoção, com James, com o acordo, com tudo. Este dia inteiro tinha sido um sonho que nunca se realizaria. Eu nunca vou salvar o departamento de revestimentos. Dumbledore nunca vai me introduzir em seu escritório e me perguntar o que penso, e muito menos promover um acordo. Nunca em um milhão de anos. A não ser que... A menos que...
Não.
Eu não poderia. Poderia?
Estou congelada em uma incrédula excitação, pensamento nas implicações, com a voz de Dumbledore passando em minha cabeça como uma trilha sonora. 'Se você recuperasse a sua memória, Lily, então as coisas iriam ser diferentes.' Se eu recuperasse minha memória, em seguida as coisas seriam diferentes.
A chaleira estava fervendo, mas eu nem sequer tinha notado. Como se fosse num sonho, eu puxei o meu celular e disquei diretamente.
"Lene", eu digo logo que é atendido. "Não diga nada. Escute."
N/A: é isso, mais um capítulo e nossa, vocês resolveram parar de ler a história, ou ficaram apenas preguiçosos demais para me mandar reviews dizendo se estão gostando ou não? por favor pessoal, nesse momento estou precisando de reviews para acalmar meu pobre ego destroçado.
É isso. Beijos.
