Capítulo Vinte e Um

Night Bleeds Into Day

- Bree? – a voz de Kathleen soou no escuro.

- Sim? – Kathleen conseguia ouvir o som do saco de dormir de Brianna enquanto ela se mexia, tentando se acomodar.

- Você acha que ele quer que a gente falhe?

Os movimentos de Brianna pararam.

- O que quer dizer?

- Que ele nos deu um trabalho que não podemos fazer para que aprendêssemos?

Brianna se sentou, passando os braços ao redor dos joelhos.

- Acho que não. – disse lentamente. – Perguntei a mesma coisa a Shacklebolt semana passada. Ele também não achava isso. Não me contou nenhum detalhe, mas fiquei com a impressão de que Harry passou por situações bastante desconfortáveis no passado. Forçado a fazer coisas que não era nem remotamente treinado para fazer. Não consigo imaginar que ele faria isso com outras pessoas.

- E se ele tivesse um time de Aurores completamente treinados?

- Acho que ainda estariam aqui. – Brianna afirmou. – Olha... – começou. – Tudo sendo igual, essa missão não é perigosa, de verdade. Mas pense no que aprendemos com o sucesso. E com os erros. Além do mais, - continuou. – o que um Auror completamente treinado teria feito de diferente?

Kathleen não respondeu imediatamente.

- Eu não sei. – disse finalmente.

- Kath, - Brianna disse gentilmente. – pare de se preocupar com isso. Um Auror completamente treinado teria dificuldades em capturá-la nessas condições.

Kathleen suspirou.

- Você já considerou a ideia de que estamos atrasando as investigações?

- Não.

- Parece ter tanta certeza. – Kathleen socou o travesseiro.

Brianna pensou por um momento.

- Tudo bem, então, Kath... Você foi da Sonserina. Você tem essa habilidade única de se colocar no lugar dos outros, e nós somos gratos que você usa esses poderes para o bem. Mas pense nisso por um momento... Se você fosse ela, teria feito algo diferente?

Kathleen fechou os olhos, pensando nas coisas desde o começo. Desde usar um pergaminho que era praticamente impossível de rastrear com magia até se transformar sob um feitiço de desilusão. A casa era em uma área completamente trouxa de Inverness. Até mesmo usar o tempo nublado e chuvoso como vantagem.

Ela abriu os olhos. Conseguia ver a silhueta de Brianna no quarto escuro.

- Não.

Brianna voltou a se deitar no saco de dormir.

- Volte a dormir. Não podemos nos dar ao luxo de ficar com sono amanhã.

Brianna ficou deitada na escuridão sufocante, ouvindo a respiração de Kathleen ficar lenta até ter certeza de que a outra estava adormecida. Estava começando a aparecer. A incerteza e o medo. Corroía o interior deles como um câncer.

Virou a cabeça e olhou para Kathleen, encolhida. Ela não fizera a pergunta mais importante — a mulher poderia realmente matar outro ser humano?

Brianna não era ingênua o bastante para acreditar que a mulher não seria capaz de fazer isso. Era velha o bastante para se lembrar da última guerra. Tinha sido seu primeiro ano de escola. Pessoas tinham sido assassinadas por muito menos do que Harry e a senhora Granger-Weasley tinham feito. Brianna suspirou e saiu do seu saco de dormir, e foi para a cozinha. Precisava de chocolate. Harry mantinha uma boa quantidade de chocolate em um armário. Tinha se impedido de atacá-los até então, mas agora precisava de um pouco. Pelo menos não vou ficar de ressaca, como o álcool faria, pensou.

Piscando quando entrou na cozinha mal iluminada, Brianna encontrou Iain sentado à mesa, sua mão ao redor de uma xícara de algo quente.

- O que está fazendo acordado? – brigou. – Você deveria estar dormindo!

- Shhh! – Iain colocou um dedo sobre os lábios, indicando a porta fechada da lavanderia com a cabeça.

Brianna se afundou em uma cadeira vazia, olhando feio para Iain.

- Por que está acordado? – sibilou.

- Eu não durmo. – Iain disse suavemente. – Bem, não muito. Seis horas é muito para mim. – convocou uma xícara do armário e serviu Brianna do algo quente no bule a sua frente. Passando a xícara para Brianna, ele murmurou: - Chocolate quente. Usei da pilha.

Brianna levou a xícara aos lábios.

- Você nunca apaga?

Iain sorriu um pouco.

- Depende. Quando as aulas acabavam e as férias de verão começavam, eu dormia por quase dois dias direto. Quando isso acabar, eu provavelmente dormir por três dias, acordar para algumas refeições, e aí dormir outra noite.

A porta da lavanderia se abriu com um ranger, fazendo Iain e Brianna pularem em alarme. Por um segundo, Harry ficou parado na porta, o peito pesado, os olhos arregalados e assustados, uma leve camada de suor sobre seu rosto. Rapidamente, ele colocou uma expressão neutra em seu rosto ao ver os treineiros assustados.

- Você está bem? – Iain perguntou.

- Bem. – Harry foi até o armário, onde os copos eram guardados, e levou um para a lavanderia. Parou, uma mão na porta. – Não fiquem acordados até tarde. – aconselhou. – Durmam enquanto podem. – adicionou em voz baixa, se lembrando muito bem das noites sem dormir dentro da barraca.

Fechou a porta cuidadosamente com o menor dos barulhos, e colocou o copo no parapeito da janela, pegando sua varinha. Encheu o copo e bebeu tudo em poucos goles, abaixando o copo com um ofego poderoso.

Mais pesadelos.

Imagens de Albus ficando azul, incapaz de respirar.

Imagens que pareciam se repetir incansavelmente de Ginny, segurando a mão de James em frente de um pequeno túmulo ao lado dos seus pais. E uma lápide dolorosamente pequena ostentando apenas três palavras: Albus Severus Potter.

Pela primeira vez em sua carreira, Harry queria abandonar um caso. Perguntou-se se tinha se deixado cegar por seu desejo de capturá-la e finalmente colocá-la em Azkaban. Ela tinha deixado as coisas tão pessoais que ele não tinha sido capaz de ver além do fato de que era ela. Qualquer outra pessoa poderia ter cuidado do caso. Ele não queria deixar Ginny ou Albus. Ele não precisara deixá-los. Mas estivera tão seguro de qualquer outra pessoa não teria levado à sério e teria estragado tudo.

Sabia que seus treineiros estavam começando a se deixar afetar. Eles riam menos e menos conforme os dias se arrastavam. Kevin não incomodava ninguém para jogar xadrez. Iain não lia mais tanto — os livros acabavam esparramados sobre seu estômago. Kathleen, que já não era muito sociável, se fechara ainda mais. A confiança firme de Brianna estava começando a vacilar. Harry conseguia ver a tensão começar a aparecer no rosto do treineiros novatos. Eric, Benjamin e Lucy tinham sido lançados em uma situação horrivelmente ansiosa.

Nem mesmo seus próprios sonhos não conseguiam decidir o que era pior. Eles iam desde Ginny ou qualquer outra pessoa da família recebendo um daqueles bilhetes até todas as complicações médicas possíveis que podiam acontecer a Albus.

Harry não tinha tanto medo de dormir desde seu quinto ano.

-x-

Ginny esfregou uma toalha seca no cabelo e abafou um suspiro. Ron tinha indicado que alguém viria passar a noite, quando ele trouxera o almoço. Esperava que não fosse um de seus irmãos. Eles pareciam ter problemas em lidar com a situação. Charlie ficara terrivelmente assustado quando Albus parara de respirar, mesmo com os avisos de Bronwyn. Ginny conseguia não entrar em pânico, mas por pouco. Ela não podia permitir que Charlie visse como estivera perto de socar uma parede. Se Harry estivesse aqui...

Mas ele não estava.

Ginny não queria que seus irmãos soubessem o quão perto ela estava de, de fato, entrar em pânico.

- Ginny? – uma voz feminina chegou abafada aos ouvidos de Ginny. Enrolou a toalha agora úmida ao redor do corpo e colocou a cabeça para fora da porta do banheiro. Katie estava parada na porta do quarto, uma cesta larga em suas mãos. Ginny sorriu em verdadeiro alívio. Não teria que se preocupar em manter as aparências em frente de Katie. Katie entenderia a necessidade de descarregar, chorar, gritar.

- Vocês vão vir todas as noites? – Ginny perguntou pela porta parcialmente aberta, enquanto vestia o pijama.

- Sim. – Katie colocou a mala perto da poltrona. – Fleur vem amanhã. Percy vem na quarta. Ron na quinta e Andromeda na sexta. George no sábado.

Ginny saiu do banheiro, uma expressão duvidosa em seu rosto.

- Percy? Mesmo?

- Você não precisa pernoitar com ele. – Katie repreendeu.

- Eu sei. – os olhos de Ginny pousaram na mala. – O que é isso?

Katie sorriu.

- Pacote de cuidados. – abriu a mala e começou a tirar os itens. – A nova Quadribol Trimestral, a última edição de Semanário das Bruxas, esmalte, algumas barras do melhor chocolate da DedosdeMel, alguns livros, e roupas normais. Achei que você pudesse estar cansada de passar o dia de pijama. Pode querer sair do hospital e dar uma volta.

Ginny passou os braços ao redor de Katie em gratidão.

- Oh, obrigada. – estudou as roupas e as guardou no armário. Pegou o esmalte e examinou o pequeno frasco. – Por que o esmalte?

- Quando estava grávida de Fred e Jacob, eu me trocava, fazia o cabelo e me maquiava todos os dias, mesmo que não fosse sair de casa. – admitiu timidamente. – Só me fazia me sentir melhor. É completamente superficial, eu sei, e não atinge nem o começo de tudo pelo que está passando, mas é alguma coisa parecer estar melhor do que se sente.

Ginny examinou o rótulo.

- Cereja Menininha?

- Ou "Vermelho Transe Comigo", como George chama.

Ginny riu um pouco.

- Certo, como se eu fosse precisar disso aqui. – colocou o frasco na mesa ao lado da cama.

Katie se acomodou na poltrona.

- Certo, então. Conte-me o que devo esperar essa noite. Bronwyn me ligou mais cedo e disse que Charlie estava meio abalado por noite passada.

Ginny bufou.

- Abalado? Acho que ele sequer dormiu noite passada. Pelo menos, não antes da última vez que tinha que ir alimentar Albus. O idiota não me deixou dormir. Ficava esperando o alarme soar quando Albus para de respirar.

Katie sequer piscou quando Ginny começou a explicar que, periodicamente, Albus parava de respirar por tempo o bastante para precisar de intervenção. Ouviu pacientemente enquanto Ginny jogava montanhas de informações nela, desde o que Albus fazia quando estava com fome até o que precisava ser feito se o alarme disparasse, guardando tudo em sua memória. Depois de dois anos cuidando de um par arteiro de gêmeos, Katie praticamente conseguia escrever sua coluna no Semanário das Bruxas com uma mão, enquanto trocava fraldas com a outra. Lembrar-se de tudo o que Ginny tinha lhe dito seria fácil. Já pelo sono interrompido, Katie supôs que ela e George não tinham uma noite ininterrupta de sono em dois anos, então isso não seria muito difícil de lidar.

George estivera estranhamente silencioso sobre seu papel no nascimento de Albus. Ele só lhe contara sobre isso depois de ele e Katie colocarem, cansadamente, os meninos nos berços e terem ido se deitar. Mas apenas sob a proteção da escuridão, depois de ele ter apagado a luz. Sempre tinha sido assim com George. Ele não falava de nada muito emocional a não ser que estivesse completamente escuro, e ele não olhasse em seu rosto. Katie não precisava vê-lo. Ela conseguia ouvir na voz dele, e sentir na maneira que a mão dele apertava a sua, e o braço se apertava ao redor de sua cintura.

-x-

- Ele é tão pequeno. – George murmurou, seus lábios sob a orelha de Katie. – Tiraram ele de Ginny assim que ele saiu. – colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha dela – Três Curandeiros na sala só para ele. Três curandeiros em cima dele, murmurando feitiços e resmungando entre si. Palavras como "pneumonia" e "bradicardia". – a voz de George ficou um tom mais baixa. – Eles não sabem se ele vai ficar bem – confessou – Mas a parte estranha, Katie, é que o bebê não fez nenhum barulho. – a voz rouca de George ficou assustada. – Era apenas Ginny chorando. – pausou. – E Ginny nunca chora na frente de outras pessoas.

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- Katie? – Ginny acenou uma mão em frente ao rosto de Ginny. – Está aí?

Katie piscou e Ginny entrou em foco.

- Sim. Desculpe.

- Não é tão ruim quanto parece. – Ginny repetiu – Parece pior do que é.

Katie inclinou a cabeça para olhar para Ginny. As linhas de expressão estavam claras em seu rosto. Talvez para alguém que não conhecesse bem Ginny, ela parecesse calma, apesar da falta de sono, mas Katie conseguia ouvir o leve tom de desespero na voz de Ginny. A ideia de que se repetisse algo vezes o bastante, acabaria sendo verdade. Repetir mecanicamente de novo e de novo, de modo que virasse um mantra.

Era algo que Katie conhecia e entendia muito bem.

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Bill tropeçou em uma pequena mala ao lado da lareira quando saiu do Flu. Seu pé, acidentalmente, chutou um par de agulhas de costura para o outro lado da sala, espalhando os novelos de lã. Resmungando, Bill se inclinou para pegar os itens de costura e os colocou na mala. Ouviu risadas abafadas no banheiro do andar de cima. Victoire e Maddie estavam se aprontando para o jantar, tentando limpar a sujeira acumulada por passar o dia brincando no jardim. Bill foi para o andar de cima, sabendo, por experiência, que Maddie e Victoire derrubariam mais água no chão do que nelas mesmas. Supôs que deveria limpar tudo antes de Fleur descobrir. Ela estava muito cansada a maior parte do tempo, ultimamente. As garotas eram muito parecidas com sua mãe, exceto pelo cabelo. Estava mais para loiro do que ruivo, mas ainda existia um tom avermelhado sob todo aquele loiro. Elas mais do que compensavam pela falta de características físicas dos Weasley com seu descaramento. Bill podia ter sido Monitor Chefe, mas compensava isso sabendo quando olhar para o outro lado.

- Oi, papai! – Victoire exclamou com uma toalha de rosto molhada e coberta de espuma em suas mãos. Ofereceu para Maddie, que colocou uma mão suja na toalha, rindo quando Victoire esfregou sua mão entre as dobras da toalha. – Outra mão! – Victoire cantarolou para Maddie, e repetiu o processo, secando as mãos de Maddie com outra toalha. Rapidamente, Victoire esfregou a toalha no rosto de Maddie, antes de lavar o próprio rosto e mãos apressadamente.

- Olá, Vic. – Bill se escorou contra a batente, observando Victoire pendurar a toalha molhada na borda da pia. – O que vocês fizeram hoje? – Bill seguiu suas filhas para o andar debaixo, ouvindo sem prestar muita atenção quando Victoire tagarelou sobre o que ela e Maddie tinham feito. Elas entraram primeiro na cozinha, onde Fleur estava sentada à mesa, a cabeça apoiada nos braços.

Ela se sentou corretamente quando as garotas entraram na cozinha iluminada, uma mão afastando o cabelo do rosto. Fleur acenou a varinha para o fogão e uma tigela de soupe au pistou pousou na mesa. Bill sorriu um pouco. Durante o namoro e noivado, Fleur tinha pacientemente lhe apresentado comidas francesas propriamente feitas, assim como ele tinha tentado lhe ensinar a fazer o chá do jeito certo. Ela tinha hesitado em fazer alguns dos pratos mais tipicamente ingleses, mas Bill não se importava. Havia outras maneiras de conseguir torta de carne, mesmo que Fleur se recusasse a beijá-lo até que ele praticamente houvesse usado um Scourgified em seus dentes.

Bill sorriu para sua esposa, sentindo suas antigas cicatrizes puxarem. Lembrava-se daquele dia em que ela havia perguntado abruptamente o que ele via quando a olhava. Assustado, ele tinha deixado escapar que apenas a via. Ela não respondera. Apenas o estudara, os olhos cerrados. Ele não tinha entendido sobre o que ela estava falando até a levar à Toca, para anunciar o noivado. Fred, George e Ron tinha praticamente caído um sobre o outro quando Fleur entrara na sala de estar.

Fleur passou uma tigela de sopa para Bill.

- O quê? – ela perguntou, confusa.

Bill pegou um pedaço de pão e o cobriu de manteiga.

- Nada. – mastigou seu pão, cuidadosamente escolhendo as palavras certas a serem ditas. – Acho que eu deveria ir hoje à noite.

Fleur suspirou, e colocou uma tigela de sopa em frente a Victoire.

- Estou bem. – ela afirmou, separando alguns vegetais da sopa para Maddie, usando a varinha para esfriá-los um pouco.

- Você não precisa ficar acordada a noite toda, apenas para voltar para a casa e ter de lidar com as meninas. – Bill retorquiu.

Fleur o olhou, e correu a colher por sua própria tigela.

- Ginny precisa de nós. – disse simplesmente. – E eu estarei lá para ajudar.

Bill colocou a colher na tigela, sabendo que agora era a hora para uma retirada estratégica.

Mais tarde, depois de as meninas terem tomado banho e se deitado, ele viu sua oportunidade. Não era o único a ganhar de Ron no xadrez rotineiramente por nada. Fleur estava esparramada no sofá, uma revista presa em suas mãos frouxas, adormecida. Bill olhou para o relógio. Era apenas oito e meia. Ela estava dormindo muito mais do que quando estivera grávida de Victoire ou Maddie. Emoldurou sua bochecha com a mão, o dedão roçando pela curva da maçã do rosto dela. Seus olhos azuis se abriram.

- Que horas são?

- Hora de você ir se deitar. Esse sofá vai te deixar com dor nas costas.

- Non. – ela fechou os olhos novamente, e soltou o ar lentamente. – Acordarei a tempo de ir ao hospital. – garantiu.

Os lábios de Bill se crisparam em uma careta. Ela era tão teimosa quanto ele, às vezes.

- Fleur, por favor, me deixe ir em seu lugar.

Fleur abriu um olho. Sentou-se e olhou feio para Bill.

- Você terá que prometer que não irá discutir nada importante com Ginny, sim?

- Defina importante. – Bill retorquiu.

Fleur se ergueu, as mãos no quadril.

- Você não pode falar sobre Harry ou a missão.

Bill soltou o ar que estivera segurando.

- Fleur...

- Prometa, ou eu vou ao hospital imediatamente.

- Certo.

- Bon. – ela começou a subir as escadas, mas parou, um pé no primeiro degrau. – E Deus me ajude; se Ginny me contar que você sequer pensou nas palavras "Harry Potter", você irá dormir nesse sofá terrivelmente desconfortável até esse bebê nascer! – Fleur ameaçou.

Bill meramente assentiu. Particularmente, sentia que Fleur estava sendo levemente irracional, mas ela sempre ficava um pouco dramática quando estava hormonal. Seria uma noite longa.

-x-

A cozinha fracamente iluminada estava ainda mais escura pela quantidade de Pó Escurecedor Instantâneo do Peru que usavam regularmente no cômodo da frente. Um homem jovem estava sentado à mesa frágil, cortando as letras de revistas, empilhadas precariamente em uma cadeira. Ultimamente, não via Potter na cabine da imprensa. O rumor era que ela estava sozinha ultimamente, enquanto seu marido estava perambulando por aí, caçando sombras. Sorriu sem humor perante a ideia de que ela estava sozinha na casa vazia, com duas crianças.

Não era nada além do que ela merecia. Puta arrogante, rosnou para si mesmo. Nunca gostara dela. Ela a odiava mais agora do que em seus últimos dias jogando. Potter tinha acabado de começar a jogar para Holyhead como Artilheira reserva, mas, em um jogo, o último dele, ela tinha entrado na partida como Apanhadora. A apanhadora principal e a reserva das Harpies tinham saído do jogo com concussões bastante severas. Ela assumira a posição, mandando um sorriso insolente para o camarote de família, onde sua família estava, quando passou por ela.

E Harry.

Fazendo uma careta, o homem arrumou as letras das primeiras palavras, colando-as ao pergaminho com a varinha.

Ele tinha entrado no jogo, logo depois dela.

Potter viu o Pomo de Ouro antes dele.

Ela saíra do mergulho, o Pomo em sua mão, gritando em triunfo. Fora quando ele sentira as primeiras pontadas de amargura.

Ele a odiava e à sua maldita vida encantada.

Cada letra que adicionava ao pergaminho era mais uma volta na faca que afundava nas costas dela.

Dava-lhe uma sensação doentia, que era quase um prazer sexual.

-x-

Ginny olhou para o diário em seu colo. Quando o tirara da mala que Katie trouxera noite passada, ela se lembrara de algo que Ron e Hermione tinham feito quando Hermione fora para a Austrália. Ela começara a escrever, enquanto estava sentada na cadeira de balanço durante o dia.

Não escrevera apenas sobre o bebê.

Escrevera sobre Charlie e o desenho dela amamentando Albus que ele tinha feito.

Escreveu uma resposta à carta que Harry deixara em seu livro.

E a que ele deixara na escrivaninha em casa. A que ela não deveria ter lido.

Escreveu sobre Katie e o pacote de cuidados.

Sobre como Ron lhe levava o almoço e lhe fazia companhia enquanto ela comia, falando sobre a loja.

Como sentia falta de James e como seu medo de que algo acontecesse a Albus a prendia ao hospital, e como o medo começara a se mesclar com ressentimento por ela sentir que precisava negligenciar um filho para poder cuidar do outro. E a culpa profunda e dolorosa que sentia ao ser forçada a escolher entre seus dois filhos. Esperava que James não se lembrasse.

Ginny tinha escrito tanto durante o dia, que sua mão estava doendo durante o jantar. Seus dedos estavam tensos e precisou parar, porque não conseguia mais segurar a pena e escrever de forma legível naquele dia.

A porta se abriu e a boca de Ginny se abriu em choque ao ver Bill parado lá ao invés de Fleur.

Bill ficou parado incertamente, emoldurado pela batente.

- Fleur não pôde vir hoje. – ele murmurou. – Ela pediu para lhe trazer isso. – ofereceu a mala de costura em que tropeçara mais cedo.

Ginny deixou o diário de lado e saiu da cama, pegando a mala da mão de Bill.

- Ela está bem?

- Sim, só não está se sentindo muito bem. – Bill disse tensamente. Entrou no quarto e se afundou na poltrona.

Ginny observou quando ele começou a tamborilar os dedos no braço na poltrona. Dando de ombros, voltou para a cama e voltou a pegar o diário, correndo os olhos pelo que tinha escrito, quando Bill começou a ficar inquieto, puxando um fio solto na costuma da poltrona. Ele soltou vários suspiros curtos pelo nariz. Depois de vários minutos assim, Ginny não aguentou mais.

- Qual o problema?

- Nada.

- Oh, pelo amor de Merlin, Bill, se você vai fazer isso a noite toda, apenas vá para casa. – a cabeça de Ginny voltou a se inclinar sobre o diário.

Bill cruzou os braços sobre o peito e olhou feio para o topo da cabeça da sua irmã mais nova.

Ginny não ergueu os olhos.

- Desembucha, Bill, antes que eu peça a Ewan para te tirar daqui. – ameaçou.

- Como pode estar bem com isso? – Bill sibilou.

Ginny, sentindo que o famoso temperamento Weasley estava chegando à superfície, tirou a varinha de baixo do travesseiro e a acenou para a porta, antes de adicionar um feitiço de silêncio no quarto.

- O que quer dizer?

- Harry! Te deixando dessa maneira! É assim que o resto do seu casamento vai ser? Com ele fora o tempo todo?

Cuidadosamente, Ginny deixou o diário de lado, e se ergueu da cama. Tremendo com raiva mal escondida, ela marchou até onde Bill estava.

- Meu casamento – começou quietamente. – não está aberto à discussões com você ou qualquer outra pessoa.

- Então, por que não pensa nos seus filhos, para variar, e não em si mesma? – Bill gritou, erguendo-se. – Esse é o jeito mais estável de criá-los? Você quer que eles a ouçam chorar à noite, esperando que ele volte para casa sabe Merlin de onde?

- Desde quando você tem o direito de questionar minha vida, William Arthur Weasley? Minha vida! – Ginny quase gritou, cutucando o peito de Bill com um dedo.

- Eu tenho todo o direito! Eu sou seu irmão!

Ginny sentiu sua mão se erguer em um reflexo, e conseguiu se impedir de estapear Bill a tempo. Ficou parada em frente a Bill, os punhos cerrados, ofegando com o esforço de não bater na cabeça do idiota do seu irmão.

- Eu sou adulta. – disse lentamente. – Esse é o trabalho dele. – adicionou. – Ele não me deixou. – cuspiu. – Nem eu o deixei.

Ginny se forçou a dar um passo para trás. E outro, até que sua mão encontrar a maçaneta. Girou-a raivosamente, abrindo a porta.

- Saia. – disse simplesmente. – Se tudo o que você vai fazer, é me atormentar por algo que nem ele, nem eu, têm algum tipo de controle, então pode ir embora.

A boca de Bill se abriu em surpresa.

- Apenas não quero vê-la magoada, Ginny.

- Apenas vá, Bill. Não posso fazer isso agora. – o olhar de Ginny não se desviou de Bill.

- Mas... O bebê... – Bill ergueu o pulso, já adornado pelo bracelete verde.

- Se você sente que tem que fazer isso, então pode ficar na área de espera. – Ginny brigou. – E ele tem um maldito nome! É Albus! Não "o bebê"! – indicou a porta com a cabeça. – Saia do meu quarto, Bill. Se eu precisar pedir de novo, vou deixar que Ewan peça.

Os ombros de Bill caíram em derrota, e ele saiu do quarto, parando na porta.

- Gin? – ergueu uma mão hesitante na direção dela, mas ela balançou a cabeça silenciosamente, os olhos brilhando. Bill abaixou a mão, como se tivesse sido queimado e caminhou na direção da área de espera.

Continua...

N/T: Obrigada pelos comentários n capítulo anterior.

A tradução do título do capítulo é algo como: a noite se transforma em dia.

Até semana que vem. ;)