03 de novembro de 2016 – Socorro
(Santana)
"Então senhorita Tomiko, conte um pouco da sua experiência?" – aquela era a quinta candidata que eu entrevistava na semana usando a minha hora de almoço na Columbia.
Eu usava o escritório do professor Harris, até porque na condição de meu mentor e orientador, ele quebrava alguns galhos para mim. Não agüentava mais. Era inacreditável no quanto havia diferenças significativas naquilo que você imagina quando lê um currículo e com uma pessoa se apresenta. Estava pouco ligando para a aparência da pessoa, embora isso causasse boa impressão ou não. Fato. Mas o trabalho que queria que o candidato desempenhasse podia ser basicamente feito em casa com um computador e um celular. E um encontro obrigatório comigo uma vez por semana para relatórios. Por hora, eles aconteceriam na Columbia, mas em breve eles passariam a ser na saletinha comercial que estava para alugar. Eu pagaria todas as contas referentes as despesas da Rock'n'Pano e oferecia um salário mínimo. Lógico que uma pessoa qualificada dispensaria a oferta de trabalho. Mas as coisas também não estavam tão fáceis e os bons empregos ainda eram ralos numa era de pós-crise econômica. Poucos eram quem conseguiam fazer mais de dez mil por mês em Nova York. A Rock'n'Pano me rendia mais que isso por mês. Mas eu tinha de pagar impostos, contas, a porcentagem dos artistas, a empresa que terceirizava as vendas on-line, taxas de correio, embalagens. Isso porque o investimento da matéria prima – o tecido –, vinham de zaide, que era meu sócio. Ele arcava com os custos de produção. No final, sobrava algo em torno de sete a oito mil dólares, que passariam a ser ainda mais abstraídos com a manter um funcionário e um aluguel porque tornou-se necessário um lugar físico da Rock'n'Pano para receber meus clientes maiores. Não podia mais fechar negócios em restaurantes e sorrir amarelo ao dizer que não havia realmente um endereço comercial em Nova York. A verdade é que chegou a um ponto em que ou eu realmente tocava as coisas como tinham de ser ou eu vendia a Rock'n'Pano. Ou fechava a empresa, mas essa possibilidade corroia o meu estômago.
Ao menos era organizada suficiente para dividir minhas finanças. O meu salário da Weiz, por exemplo, era totalmente aplicado dentro de casa. O dinheiro que lucrava com a minha pequena empresa era usado em mim, basicamente. O meu salário na Weiz era seguro. O dinheiro que ganhava na Rock'n'Pano variava, embora eu tivesse uma projeção cuidadosa dele.
"... e eu também tive experiência de dois anos em tarefas administrativas de uma unidade da Forr" – ela terminou o relato.
Olhei para Tomiko. Como o nome sugeria, ela era descendente de japoneses, mas nascida nos Estados Unidos. Uma filha de imigrantes assim como eu. Tinha 26 anos, formada em uma Community College do Brooklin, o que era legal, de certa forma, porque não tinha consigo os vislumbres colossais de um aluno da NYU ou de Columbia, com eu. Passou por alguns empregos, permanecendo tempos razoáveis em cada um deles, e garantiu que depois que se graduou sempre se manteve na área administrativa. A qualificação dela era nenhuma maravilha, mas ela tinha toda capacidade para fazer e pela experiência bem que merecia mais que um salário mínimo. Porém, o serviço da Rock'n'Pano permitia acumular outro emprego.
"Por que saiu da Forr?"
"Houve um passaralho" – era uma gíria para demissão em massa que era comum em empresas que estavam com a folha no amarelo ou vermelho e precisavam cortar gastos. Às vezes acontecia passaralhos por causa de modernizações e reestruturações. A questão é que a simples palavra era auto-explicativa para alguém como eu. Tomiko fez nada de errado.
"Tomiko. Preciso esclarecer algumas coisas aqui. Minha empresa tem dois anos de mercado. Eu sempre fiz praticamente tudo com uma pequena ajuda do meu avô, que é o meu sócio. Mas estamos em ritmo de crescimento, que apesar de lento, já pede contratações. A sua função seria ajudar a tocar tarefas de rotina e de relação com clientes via web. Coisas como controle de venda, estoque e responder dúvidas básicas por e-mail ou telefone. O trabalho pode ser feito todo na sua casa: basta ter um computador e eu posso te fornecer um celular da empresa. Nos falamos todos os dias e nos encontraremos uma vez por semana aqui e, em breve, na sala comercial da Rock'n'Pano. Só que, para essas funções e encontros, pago um salário mínimo. A pergunta é: você trabalharia comigo nessas condições? Estaria disposta a cumpri período de experiência de três meses sob contrato temporário?"
"Gostaria de um pouco de honestidade?" – ela franziu a testa e eu acenei – "O mercado de trabalho está cada vez menor e a sua empresa me parece promissora. Não digo que as condições de trabalho sejam dos mais atraentes, mas eu conheço a Rock'n'Pano, é uma loja de internet bem-falada, e penso nessa oportunidade também como uma aposta pessoal."
Se o currículo dela estiver correto, Tomiko está há uns dois meses desempregada. Essa parte do desespero convenientemente sempre fica de fora nas entrevistas. Nunca pegava bem ser tão sincera. Gostei dela. Muito melhor do que o cara que disse que queria trabalhar comigo mesmo recebendo uma miséria porque sabia que eu era a herdeira da Weiz Co. Esse, pelo menos, não parecia ser o caso de Tomiko. E se ela sabia desse pequeno grande detalhe do meu próprio currículo, fez bem em não revelar.
"Tomiko, eu ainda tenho algumas entrevistas a atender, mas eu gostaria de saber de antemão se você tomaria passar por um rápido treinamento do sistema na Rock'n'Pano na próxima segunda-feira? Eu posso te mostrar em uma manhã tudo que você vai precisar saber para cumprir o determinado. Topa?"
Ela arregalou os olhos e abriu um sorriso.
"Claro!" – disse com genuíno entusiasmo.
"Combinado então" – estendi a mão para selar o acordo informal – "Eu te ligo amanhã no final do dia para confirmar local e horário. Conforme for, a gente assina esse contrato provisório na ocasião."
"Será um imenso prazer, senhorita Berry-Lopez. Não tenho nem palavras" – ela ficou tão feliz que achei por um momento que fosse me abraçar e me dar um beijo. Mas Tomiko manteve a postura. Ainda bem.
"Até lá, senhorita Tomiko" – a cumprimentei mais uma vez – "Vinda longa e próspera."
Ela me olhou como se eu tivesse duas cabeças e eu imediatamente senti o meu rosto ficar quente. Essas influenciações nerds de Andrew nunca me faziam bem. Simplesmente saiu. Acho que a frase ficou na minha cabeça porque estive com o meu ex-namorado àquela manhã. Timidamente, Tomiko ergueu a mão com a palma voltada para mim e separou os dedos como o sinal vulcano de cumprimento. Disparei a rir.
"Definitivamente nos veremos na segunda."
Tomiko saiu feliz do escritório do professor Harris. Eu mesma arrumei as minhas coisas para sair de lá rapidamente. Era verdade que tinha que entrevistar mais uma pessoa, mas essa teria de ser o candidato perfeito para tirar a vaga de Tomiko, o que eu duvidava.
"Como foi?" – o professor Harris entrou no escritório com um livro debaixo do braço. Era a imagem mais forte que tinha daquele velho rabugento que aprendi a gostar e admirar.
"Acho que dessa vez foi..." – disse sem dar maiores explicações, pois ele estava inteirado do problema.
"Era uma mocinha muito bonita que saiu daqui."
"Parece ser adequada para o trabalho. Conta muito o fato de estar desesperada por um emprego."
"Ela disse isso?"
"Nas entrelinhas."
"Humm" – meu professor deixou o livro em cima da mesa dele e encostou-se à mesa – "Hoje eu dei uma lida no projeto da tese que você quer trabalhar" – levantei a sobrancelha com a mudança de assunto – "Achei simplório demais para o seu histórico em Columbia. Vou recusá-lo, Santana."
"O quê?" – acho que dei um pulo de um metro com o choque – Não, não, não. É um projeto correto. Não pode fazer isso comigo, professor!"
"Na verdade eu vou. Isso ainda é uma decisão não-oficial, mas eu vou te recusar como orientanda, a não ser que você me apresente outro projeto mais condizente com a sua capacidade em duas semanas. Caso contrário, ficarei feliz em indicá-la outro colega. O professor Muñoz talvez?"
"Duas semanas?" – esbravejei.
"Eu daria uma, mas estou ciente que você é uma menina ocupada."
Senti vontade de chorar. Bateu um desespero súbito.
"Mas professor..."
"Santana, eu sei da pressão que sofre e do trabalho que acumulou par si. Mas aqui, neste ambiente acadêmico, não posso levar isso em consideração, não posso te privilegiar porque você é herdeira de um império sugador de empresas menores e o seu colega é um cara normal. Eu vou exigir o mesmo dos dois. A questão é que o seu projeto é correto, mas é fraco. Foi algo que você penou para poder levar com a barriga no próximo semestre. Você pode até tocá-lo em frente, mas não sob minha orientação. Então você tem a escolha de procurar outro professor ou elaborar outro projeto: um que esteja a altura da sua capacidade. Porque este, minha cara aluna, parece coisa de um sophomore medíocre."
Professor Harris pegou pesado e lutei contra as lágrimas que queria brotar m meus olhos.
"O que o senhor sugere?" – estava tremendo.
"De mais uma olhada na linha de pesquisa desenvolvido pelo meu grupo de estudos e faça um paralelo de todo o trabalho que você desenvolveu em Columbia. Tenho certeza que encontrará alguma inspiração."
"Sim senhor, eu vou tentar..." – coloquei minha mochila nas costas e saí arrasada do escritório.
Estava me sentindo a pior. Eu tinha uma relação complicada com o professor Harris. Ele era um dos docentes mais capacitados e respeitados de Columbia. Uma indicação dele significava emprego certo em qualquer empresa. E ele se transformou no meu mentor, apesar de detestar a figura de Caleb Weiz. Se não e engano, os dois tiveram alguns embates ao longo da vida. Digamos que o professor Harris seja um humanista dentro do capitalismo. O senhor Weiz não. Claro que não sou a única aluna predileta, por assim dizer. Há um pequeno grupo seleto de alunos que ele "elegeu". Não é que eu quisesse isso, mas ei, aconteceu. Professor Harris fez um bom julgamento no episódio que roubaram o meu trabalho no primeiro semestre de faculdade, fui monitora dele de classe e ele tornou-se meu conselheiro dentro da Columbia desde então. Por isso é um saco desapontá-lo. O pior de tudo é que ele tem toda razão: fiz um projeto propositadamente fácil.
Peguei a minha bicicleta e voltei para casa. Em breve já não seria possível mais sair para a faculdade de bicicleta por causa do frio. Estava prevista uma primeira nevasca do ano para o final da próxima semana e o governo colocou a população em alerta para ficar em casa comprar suprimentos, pilhas para lanternas e etc. Não havia toque de evacuação, o que seria relativamente improvável em Nova York, mas enfim, o tempo estava maluco com o aquecimento global. Coisas que eu só iria me preocupar em comprar no fim de semana e em dobro porque Johnny e Quinn com certeza ficariam conosco.
Quando cheguei em casa, silêncio. Rachel estava fazendo um ensaio fotográfico para uma revista, desses em que ela veste roupas caríssimas e faz uma entrevista idiota qualquer em que provavelmente vai mentir sobre a natureza do relacionamento dela com Mike. Rachel se transformou na senhora gif do seriado dela. É só entrar no principal fórum e pronto, a popularidade dela é alta, principalmente nessa segunda temporada. Acho divertido ler algumas mensagens de garotas que xingam Mike e até dirigem palavras racistas a ele porque gostariam de ver minha irmã trepando com Rom na vida real. É uma grande piada. A verdade é muito distante do que os fãs imaginam. O que fariam elas se soubessem que a atriz que adoram no momento está de casamento marcado com a namorada de longa data? Às vezes dava vontade de trollar.
Requentei o que sobrou do jantar no microondas e engoli antes de tomar uma ducha para ir trabalhar na Weiz. Estava com preguiça de encarar metrô e decidi pegar um táxi. Cheguei ao trabalho em 20 minutos por conta do transito. Meu chefe olhou atravessado. Ele estava assim comigo há algum tempo porque mandou a gente trabalhar num projeto que eu não concordava. Queria convencer a diretoria a fazer um movimento arriscado dentro de uma empresa que não estava sob ameaças imediatas no mercado e , ao contrário, precisava urgente de uma campanha para melhorar a imagem frente a comunidade. Meu chefe era o cara das estratégias, mas isso não queria dizer que os diretores e o presidente acompanhariam as decisões. Eu tinha uma cadeira na diretoria por representar diretamente o senhor Weiz na ausência dele, apesar de não ter um cargo alto na empresa. Minha condição era puramente de herdeira e aprendiz.
Carl Burklin, o atual presidente da Weiz, era um sujeito profissional no cargo, não um político. Era um carreirista, um pragmático. Foi por isso que o senhor Weiz optou por deixá-lo no cargo em vez de um diretor acionista capaz de fazer besteira atrás de besteira em prol da política. Vez ou outra eu ia para a sala dele acompanhar algumas reuniões e aprender. O meu chefe não via com bons olhos essa aproximação porque apesar de eu cumprir horário de estagiária e receber como uma, era com se ele estivesse o tempo todo um inimigo no cercadinho em que ele deveria supostamente reinar. Mas nunca fiz nada para confrontá-lo e até tínhamos um ótimo relacionamento, até o momento em que ele mandou o pessoal do departamento calcular riscos de um movimento agressivo para a Weiz Co. Algo que eu questionei apesar de ter feito o meu trabalho corretamente. E questionei de forma acintosa a ponto de que caso fosse uma funcionária comum, teria passado no departamento pessoal na mesma hora. A questão é que eu era intocável por hora.
"Reunião em 20 minutos, Lopez."
Ele avisou porque esse seria um dos momentos com o corpo diretor em que eu estaria presente por representar o senhor Weiz. Apenas acenei. Em geral, ficava calada nesses eventos e estava disposta a continuar invisível apesar de não concordar.
Deixei a minha bolsa no meu chiqueirinho que tinha meu computador, um porta-retrato da minha família, enfeitezinhos e um monte de post-it pregados. Peguei o meu celular e acompanhei meu chefe até a sala de reuniões. Fomos os primeiros a chegar e eu o ajudei a colocar as pastas com os relatórios no lugar em que cada um costumava sentar. Aos poucos os doze diretores da Weiz Co. foram chegando: oito homens e quatro mulheres, tirando eu e o presidente. Mas apenas nove estavam na casa naquele dia. Eles conversavam animadamente sobre casualidades e até sobre programas de TV. Charlie Harrison, por exemplo, comentava sobre o último vídeo viral que assistiu no Youtube. Carl Burklin combinava uma partida de basquete contra o pessoal da Google.
Todos acomodados e o meu chefe começou a explanação do novo projeto que tinha o pré-aval de um dos diretores. Gostava de observar as expressões deles nesses momentos. A grande verdade é que o poder de decisão ficava nas mãos de cinco diretores e o presidente batia o martelo. Os diretores que compareciam a essas reuniões porque era de direito e porque todos eles tinham a vaidade de aparecer. Coloquei o meu celular no silencioso e resisti a tentação de ficar navegando na internet, até porque eu conhecia aquilo de cor.
"O que acha, senhorita Lopez?" – para a minha surpresa, Burklin pediu que eu me pronunciasse. Raramente ele fazia isso. Olhei para os demais diretores, que me encaravam curiosos. Evitei trocar olhares com meu chefe.
"Eu sou contra. Todos os indicativos comprovam o período de estabilidade e calmaria que a Weiz Co. atravessa apesar do mercado ainda apresentar turbulências. Eu entendo que se adotarmos essa estratégia e ela funcionar, apesar dos riscos, os ganhos podem vir em dobro. Metaforicamente a gente sairia da nossa calmaria e iria para a guerra mais uma vez em águas bem agitadas. Por outro lado, acredito que a melhor política é aproveitar a calmaria para fazer alguns reparos. As projeções para os negócios atuais são positivas e serão ainda melhores caso os republicanos vençam as eleições semana na próxima terça-feira, o que é provável. A questão é que eu não sou contra a ousadia, mas considero que devemos ter doses de cautela. Estamos a salvo por hora, mas a nossa imagem como empresa é péssima. Uma manobra agressiva vai só piorar isso e o lucro imediato que obteremos pode se transformar em revés a médio prazo, como está previsto também nas projeções, dependendo do movimento do mercado."
"Resumindo, a senhorita é contra" – Burklin franziu a testa e depois deu um sorrisinho – "O que faria em vez disso?"
"Concentraria esforços para reverter essa péssima imagem. Recuperar imagem significa reforçar e valorizar o peso da nossa marca, que perdeu muito valor nos últimos anos. Na pesquisa anual das empresas mais lembradas pelo público, não chegamos nem as 100 primeiras da costa leste, onde nossa influência é maior. Não somos sequer lembrados na pesquisa das marcas favoritas do consumidor, e olhe que temos em nosso comando uma das tecelagens centenárias de Nova York. Somos uma empresa que movimenta bilhões de dólares anualmente e somos vistos como diabos nas sombras. Hoje meu professor na Columbia se referiu a Weiz como empresa sugadora. Ninguém ambiciona trabalhar pela Weiz por realização profissional, mas porque a gente paga bem. Até porque se não pagar, sobra ninguém para tocar o barco. Verdade seja dita, somos viscos como os escrotos de Nova York" – Burklin e dois outros soltaram uma gargalhada, me interrompendo brevemente – "Não digo para mudarmos nossos negócios... por hora... mas é fundamental concentrarmos em trabalhar na imagem agora na calmaria para nos prepararmos melhor pra a tempestade. E se faz imediato fazer uma reestruturação de marca e limpeza da nossa imagem. Muito mais do que manobras para conseguir alguns níqueis a mais."
"Agora eu entendi porque Caleb investiu tanto em você, Lopez" – Schneider, o diretor-acionista mais antigo sorriu – "É espirituosa em suas palavras."
"Espirituosa é uma palavra" – Burklin brincou com um pedaço de papel – "E Lopez está certa sobre a reconstrução da imagem. Não gosto desse projeto, mas autorizei o estudo dele porque queria ter certeza das projeções que apenas intuí. Há lucros que não valem à pena, meus senhores, e esse é um deles. Os números mostram que o nosso financiamento na indústria farmacêutica continua a ser o mais lucrativo ao lado da frente imobiliária. As projeções nesses dois mercados são de estabilidade então acredito que devemos ter margem para trabalhar sim em algumas reestruturações de marca. O trabalho tem que ser em cima disso a partir de agora. De acordo?" – nenhum diretor discordou. E aquele que pré-ordenou o projeto se encolheu – "O trabalho é esse agora. Quero o pessoal de projetos trabalhando junto com o pessoal de relações públicas e marketing. Vamos voltar a discutir isso em fevereiro" – acenou para a secretária executiva – "E senhor Davis, faça com que Lopez trabalhe em uma das frentes do projeto. Quero ela 100% envolvida nisso."
Suspirei. Era uma vitória o projeto ter sido reprovado. Por outro lado, odiei ouvir a última parte. Eu não queria estar a frente de absolutamente nada. Significava menos tempo para Rock'n'Pano e para a faculdade. Começou a me dar um desespero, uma aflição descomunal, sobretudo quando o meu chefe passou por mim com olhar de ódio. O problema não foi a pesquisa rejeitada. Era a comissão que ele deixaria de receber. Voltei ao meu chiqueirinho e olhei para o meu monitor e não tinha sequer coragem para ligar a CPU. Uma colega passou por mim com um sorriso sorrateiro. Meu coro seria arrancado.
Voltei para casa sentindo aflição. Era como se estivesse com falta de ar sem necessariamente estar. Bateu um pânico. Não por causa das Weiz, da Rock'n'Pano ou do projeto rejeitado na Columbia. Mas porque tudo isso estava acontecendo ao mesmo tempo. Deitei na minha cama e ali fiquei.
...
"Acorda!"
Levei um susto e dei um salto. Meus olhos demoraram um pouco a focalizar a minha irmã. Rachel estava com uma roupa elegante, cabelos escovados e bem maquiada.
"O quê?" – ainda estava perdida.
"Se você estivesse de pijama, não estranharia, mas você dormiu com a roupa do trabalho e a luz do quarto acesa. Tive de te acordar. O que houve?"
"Que horas são?" – ainda precisava me localizar.
"São quase onze."
"Onze? Por que chegou tarde?"
"Saí para jantar com Nina e o pessoal que esteve no ensaio. A produtora e o fotógrafo, pelo menos."
"Oh! Bela roupa."
"Eles me deram alguns modelos, mas eu não posso sair por aí usando enquanto a edição da revista não sair. Agora sua vez. De novo, o que houve para você dormir de luz acesa com as roupas de ir trabalhar?"
"Cansaço, desespero, um pouco de pânico. Faça a lista" – sentei-me à beira da cama ao lado da minha irmã.
"Dia cheio?"
"Dia impossível. Eu só tenho coisas da Rock'n'Pano para resolver, tenho que refazer o projeto da minha monografia final, e ganhei a infeliz notícia na Weiz que o presidente da empresa quer que eu participe efetivamente de um projeto de reestruturação de imagem" – passei a mão no rosto – "Tudo de uma vez, e eu só sou uma. Não sei nem por onde começar, o que priorizar. Nada!" – e encarei a minha irmã – "Ao menos o salão da festa do seu casamento já está reservado. Só falta você acertar."
"Certo. Posso te ajudar com alguma coisa?" – olhei bem para Rachel para ver se ela estava me gozando ou propondo ajuda só para eu recusar, como provavelmente faria. Mas lembrei da parte do desespero e disparei – "Você pode cuidar da agenda da Rock'n'Pano para mim?" – minha voz saiu miúda.
"O que preciso fazer?"
"Dispensar candidatos. Fazer uma entrevista amanhã com um sujeito e dispensá-lo a não ser que ele seja absolutamente perfeito, convocar uma candidata, ir conferir uma sala no Bronx para ver se ela é alugável, se não tem goteira e fiação solta."
"Ok!"
"Ok?"
"Não parece ser tão difícil assim. Eu posso fazer tudo isso."
"Exceto lidar com os candidatos" – suspirei. Havia coisas que não podia delegar.
"Mas eu posso visitar as salas, posso fotografar tudo e te mostrar depois. Posso até levar o Johnny comigo para ver essas questões técnicas já que ele é o senhor quebra galho."
"Eu vou te amar eternamente por essa..." – levantei-me e alonguei os braços.
"Por que não coloca um pijama? Eu preparo uma sopinha de copo para você."
Rachel saiu do meu quarto e eu providenciei um pijama. Conferi o meu celular. O dia foi tão movimentado que nem abri as mensagens que tinha recebido do meu namorado. Mensagens perguntando como estava, se estava tudo bem e que me amava. E uma pequena notícia de que ele conseguiu vender metade da edição do livro. Significava que tinha vendido 500 cópias, o que era genial para um escritor iniciante e desconhecido que lançou por uma editora pequena. O mercado editorial era uma bitch, mas Johnny aprendia a lidar com ele. Escrevi um pequeno retorno antes de tomar a minha ducha. Quando saí do quarto, havia uma caneca de sopa com algumas torradinhas a minha espera. Rachel também havia se trocado e tirado a maquiagem do rosto.
"Como foi o ensaio fotográfico?" – tomei um gole da sopa.
"Tirando o fato do fotógrafo ter se insinuado para mim umas três ou quatro vezes, foi ótimo. Será que essa classe é sempre assim? Por causa das cenas que faço em Slings and Arrows, Josh recebeu hoje uma ligação da FHM para um ensaio sensual em trajes íntimos. Paga-se bem."
"Sério?" – gargalhei – "Vai topar?"
"Não agora. Não é o momento."
"Por que não? Você já mostrou os peitos no teatro e na televisão. E teve aquele close do seu traseiro naquela cena do seriado. Qual o problema em mostrar a sua ótima forma física vestida em calcinha e sutiã?"
"Porque eu não quero ficar estigmatizada. Seria como se eu reforçasse para o público que eu realmente gosto de fazer coisas assim. Não é verdade. Faço porque o roteiro pede e não é gratuito. É diferente de fazer por exibicionismo ou por ser a única forma de se conseguir coisas. Como se eu conseguisse papéis fazendo testes de sofás."
"Mesmo? Achei que testes de sofá só rolassem com atrizes iniciantes."
"Engano seu. Tem muita atriz com nome que dá para um diretor para conseguir um determinado papel... enfim. Essa não sou eu, Rachel Berry-Lopez. Então vou dizer que fiquei honrada pelo convite, mas não posso aceitar."
"Menos mal."
"Por quê?"
"Achei que você não faria por causa da Quinn."
"Não vou mentir que penso nela também. Como não? Estou de casamento marcado, Santy. Só que neste caso, eu realmente pensei na minha imagem."
"Está certa, se for olhar por este ângulo. Fico orgulhosa, Ray."
"E eu de você" – ela passou a mão nos meus cabelos – "Mas me preocupo muito contigo. Quando não é a sua complicada vida amorosa, é o seu trabalho exagerado. Vai chegar a um pouco em que vai precisar fazer escolhas, embora eu sei que você não seja exatamente livre para tal."
"Eu me formo ano que vem e estou contratando gente para a Rock'n'Pano para não ter que vender a minha empresa. Eu já sou amarrada a Weiz Co. por um contrato. Não vou querer desistir tão fácil assim de algo que eu construí junto com zaide. É uma coisa minha, sabe? Meu xodó. É que as coisas convergiram de tal forma que eu me deu desespero. Mas há jeito para tudo, certo?"
"Acho que sim..."
"Johnny vendeu 500 livros" – disparei e Rachel não pareceu impressionada – "Isso é bom. Comemore!"
"Yupi" – ela fez uma cara que me fez gargalhar – "Sabe que estava pensando?"
"Hum?"
"A gente poderia jogar poker durante a nevasca da próxima semana já que ninguém vai poder sair de casa."
"Isso é a sua idéia de diversão?"
"Ou a gente pode sair da cidade e ir para a casa dos nossos pais em Ohio."
"Tenho impressão que você prefere mil vezes encarar a nevasca aqui do que ir para a casa dos nossos pais. Tudo isso só porque Shelby implicou com o seu casamento? Você não deveria deixar ela afetar tanto a sua vida. Você liga demais para a opinião dela, fica magoada demais com as respostas atravessadas que Shelby dá às vezes. Não deveria, Ray."
"Claro!" – ela balançou os ombros – "Quem é Shelby afinal? Ela só é a nossa mãe!"
"Uma que ficou ausente da nossa vida por 16 anos e não fez tanta falta assim."
"Então? Poker na nevasca ou correr para Ohio?" – ela desviou o assunto na cara dura e eu estava cansada demais para insistir em discussões.
"Eu posso te dar a resposta depois? Está difícil pensar por hoje."
"Ok" – ela deu um beijo na minha testa – "Boa noite, Santy."
Olhei a minha irmã sair da cozinha e então terminei de comer minhas torradas. Tinha tanto que fazer, tanto... queria que Johnny estivesse aqui para dormir abraçadinho comigo. Só dormir e mais nada.
