LEON

Não queria que fosse assim. Foram tantos meses sem vê-la, sem ouvir sua voz, sentir o seu cheiro. Foram longos meses sem noticias de Ada Wong. E depois da conversa com Jake, o ex-policial passou cada segundo de seu dia apenas se controlando para não ficar pensando nela, durante esse tempo, teve Manuela ao seu lado, esteve ocupado com a missão... Achou que conseguiria... A quem estava enganando? Queria ser um homem controlado, queria ser dono de suas próprias emoções. Queria seguir em frente... por que tinha que ser tão fraco?

Leon sentiu o mesmo frio na barriga, o mesmo galopar dentro do peito quando botou os olhos na espiã outra vez. E essa vez foi a que ele ficou mais paralisado, mais do que todas as outras. Ada estava bronzeada, o que denunciava que provavelmente ela esteve em algum lugar com sol, ainda mantinha os cabelos curtos, a franja dela estava maior, o suficiente para por atrás da orelha, ela tinha os olhos escuros e as pupilas dilatadas, Leon não sabia dizer se ela estava nervosa por vê-lo, se era a escuridão do local ou a adrenalina por causa da missão. " – Tanto tempo assim?" – Respondeu. O suficiente para esquecer? O suficiente para desistir de nós? E de todas as vezes em que se encontraram, absolutamente todas, essa foi a segunda vez que Ada desviou o olhar. Ela sempre o encarou nos olhos, sempre, um olhar penetrante, altivo e até cheio de soberba. Mas hoje, seus olhares de cruzaram por um momento tão breve antes que ela finalmente o ignorasse. A ultima vez que isso aconteceu, foi em Raccon City...

Ada virou-lhe as costas e quase que instantaneamente o filho do Wesker caminhou até ela. Leon pôde sentir algo partir dentro do peito quando o ruivo a tocou no ombro e a espiã pousou as mãos sobre a barriga por cima do colete a prova de balas que ela estava usando. Havia mesmo uma mulher grávida ali, era a mulher que ele amava e pela primeira vez essa mulher pareceu verdadeiramente frágil. Leon sempre quis cuidar dela, sempre quis protegê-la, porém hoje, foi a primeira vez que ela realmente aparentava precisar. Aquela Ada Wong era diferente da mulher que ele conheceu... parecia tão... humana. Contudo, ao lado dela estava Jake Muller e foi nos braços dele que Ada se encolheu, chegando inclusive a empalidecer por alguns segundos.

" – Está tudo bem?" – O ruivo perguntou baixinho, a mão direita envolvia Ada pousando em um ombro dela, a esquerda tocou a mão da espiã que pousava sobre a barriga depois de guardar a pistola novamente no coldre. Ele tinha a voz doce e a acolhia protetoramente, ela parecia tão pequena perto dele. Então o rapaz ergueu o olhar para Leon, Jake tinha o cenho franzido, os olhos apertados e brilhantes, cheios de raiva.

" – Claro." – Ela respondeu com um sorriso. " – A chegada do agente Kennedy, assim do nada me assustou um pouco, só isso." – Finalmente ela voltou-se para Leon outra vez, passando o braço em volta da cintura de Jake. Agora ela o olhava nos olhos outra vez, e voltou a ter a mesma postura de Ada Wong, segura de si, com um sorriso nos lábios e o queixo erguido. " – Devia parar de chegar assim de repente Kennedy. Um dia ainda posso acabar atirando em você."

Talvez se ela tivesse atirado, não teria doído tanto. Ada nunca o machucou mais do que agora, quando ela apareceu diante dele, tão linda, grávida e abraçada a outro homem, sorrindo e fazendo piada, como se há apenas alguns meses não tivessem feito juras de amor um ao outro naquele maldito hotel em Bruxelas. Só então Leon percebeu que ainda tinha o fuzil empunhado, enquanto o casal a sua frente já havia guardado as armas há muito tempo. Sentiu a face arder, de vergonha. Queria que ambos pensassem que ele não se importava, que nem ligava, queria que Ada achasse que ele esqueceu e seguiu em frente assim como ela. Mas sua reação obviamente o denunciou. Leon sentia os ombros e o pescoço doerem e tão tenso que ficou. " – O que faz aqui, Ada?" – Perguntou. Mesmo se tratando de Ada Wong, era estranho e inédito ver uma mulher grávida invadindo um laboratório secreto com um colete a prova de balas e armada até os dentes.

Ela suspirou. " – Longa estória."

Realmente esperou dela uma resposta diferente?

" – E você, o que faz aqui?" – Leon sentiu raiva quando a voz de Jake tocou-lhe os ouvidos. De onde aquele garoto tirou tanta arrogância para achar que podia lhe cobrar satisfações? Por que ele se comporta como se tivesse colhões enormes? Só porque me roubou a mulher e teria com ela o filho que devia ser meu? Queria muito que Jake tivesse mesmo sido mais arrogante do que realmente foi, infelizmente o rapaz parecia verdadeiramente mais preocupado com a mulher do que com o fato de tê-lo encontrado novamente. Leon percebeu, o olhar que Jake tinha para Ada não era só desejo ou paixão, era uma devoção genuína. Jake sabia da estória toda... então como não ficar preocupado com ela? Afinal ela estava grávida e a maneira como ela foi até Jake... se estivesse no lugar dele, também ficaria preocupado, não era hora para ela ter emoções fortes ou se sentir mal. Então percebeu que ele próprio não queria fazer a ela nenhum mal, terminaram de uma maneira confusa e muito ruim, mas não queria que sua presença provocasse qualquer desconforto a ela. Talvez fosse de bom tom dar sim algumas explicações.

" – Muhamed Rachid, trabalhou como cientista chefe do departamento de ciência e tecnologia do governo do Turcomenistão, ele pediu exoneração do cardo há três anos, e um ano depois desapareceu do mapa. A CIA tem motivos para acreditar que ele está trabalhando aqui, minha missão é interroga-lo e se possível leva-lo a embaixada americana."

Ada desfez o abraço em Jake e empunhou sua TMP novamente em duas mãos. " – Certo. Prometemos não ficar no seu caminho... se você não ficar no nosso."

" – Não posso te prometer isso sem saber primeiro o que veio fazer aqui."

A espiã olhou para Jake e riu. " – Dois com um, Senhor Kennedy." – Jake pousou a mão na pistola que descansava no coldre de couro.

O que é esse sujeito, se não um cachorro de guarda a mando dela? – Pensou. Uma ordem, um único sinal dela, era tudo o que Jake precisava para obedecer como um bom cão. E também, como não ser? Leon conhecia muito bem as vantagens de estar ao lado dela e todas as qualidades que ela tem, podia imaginar o quanto aquele rapaz sentia-se bem afortunado por tê-la e para completar, ela carregava o filho dele na barriga. No lugar de Jake, não apenas faria o mesmo, como já o fez. Ada nunca foi sua mulher, nunca carregou um filho seu e mesmo assim, todas as vezes que se viu contra a parede e precisou escolher, escolheu a ela. Chegou a conclusão de que era um cachorro tanto quanto Jake, porém um cachorro chutado.

" – Eu te garanto que o nosso assunto não tem nada a ver com você. Estamos indo rastrear o primeiro andar a procura do nosso homem, se quiser vir conosco atrás do seu, tudo bem. Não queremos confusão."

Jake olhou surpreso para ela, visivelmente não gostou da ideia que tê-lo por perto. Isso por si só já empurrava Leon para aceitar a proposta. " – Claro." - Foi com satisfação que escutou o ranger dos dentes de Jake.

" – Vir com a gente?!" – O ruivo exclamou, incrédulo. Ele estava tenso mas pareceu se acalmar quando Ada o tocou no peito, era incomodo para Leon vê-la alisando o rapaz com tanta intimidade.

" – Alexei já está em um ponto, conosco já são duas áreas para um potencial conflito e formos descobertos, se Leon for por outro caminho, serão três. Por hora é melhor seguirmos juntos, para evitar chamar atenção. Quando instalarmos as câmeras móveis, cada um segue seu rumo."

Era triste de assistir. Bastavam algumas palavras ditas com a voz mansa e um toque suave no peito, e o grandão desmontava. Leon conhecia alguma coisa da personalidade de Jake, sabia que ele era ciumento, inseguro, possessivo e explosivo, testemunhou uma coisinha aqui e outra ali entre o ruivo e a Sherry... mas Ada parecia saber – ou ter aprendido –muito bem como domá-lo e Leon sentia ódio por isso. Por saber do que ela era capaz de fazer como mulher, por testemunhar a mudança e o amadurecimento de Jake ao lado dela, por imaginar mesmo que brevemente como seria a vida daqueles dois juntos, muito provavelmente uma vida feliz... ódio porque aquele rapaz, graças a um acidente, um descuido, uma esporrada bem dada no dia certo, conseguiu roubar para ele tudo o que Leon um dia quis.

Leon acreditava que se não fosse pelo bebê, Ada estaria com ele agora. Tudo o que Jake conquistou não passou de um golpe de sorte. No caso de Leon, azar. Desencontros. Se sua noite com Ada tivesse sido uma semana antes, ou depois... a essa hora poderia ser ele alí ao lado dela esperando o filho chegar. Se tivesse conversado com ela ou invés de beijado Helena, Jake ainda teria o filho, mas talvez Ada ainda fosse sua. Só isso, toda a felicidade de Jake era baseada em erros, logo, seria assim tão difícil de destruir?

O que você está pensando, infeliz? Aonde quer chegar com isso? Esqueceu que agora você tem uma esposa te esperando em casa, esqueceu a Manuela? – Repreendeu-se.

Quando deu pó si, já seguia o casal rumo ao almoxarifado. Com um pequeno computador de mão e alguns cabos, Ada conseguiu hackear uma câmera e através dela, rastrear todas as outras existentes no andar térreo. Agora a espiã tinha tudo o que acontecia no andar em tempo real através de seu pequeno computador. Subiram as escadas rumo ao primeiro andar, Leon não sabia como, mas os espiões pareciam já conhecer alguma coisa do local, lembrando da maneira como se encontraram, julgava que ambos vieram justamente dalí. O corpo jogado no vão da escada confirmou a hipótese.

" – Jake, acho que podemos carregar esse corpo para a sala de controle, se mais alguém passar por essa escada pode ser um problema." – Disse Ada.

Matar sentinelas de organizações criminosas fazem parte de qualquer missão daquele nível, saber que um ou outro homem como aquele estava por aí com o pescoço quebrado não chocava Leon, provavelmente acabaria fazendo o mesmo muito em breve. Deu alguns passos para ajudar a carrega-lo, mas em troca da camaradagem, recebeu apenas o olhar fuzilante de Jake deixando bem claro que ele não devia se aproximas e que sua ajuda não era bem vinda. Com um movimento rápido, o rapaz jogou o homem no ombro, tão fácil como se carregasse uma toalha molhada, caminhou com o corpo na frente, sem mostrar qualquer dificuldade.

Leon e Ada seguiram Jake até a sala de controle, lá havia um armário de ferro onde Jake escondeu o defunto. Então a espiã se debruçou sobre um dos computadores enquanto Jake desmontava uma sucessão de pequenos objetos que piscavam uma luzi vermelha bem pequena. Eram câmeras móveis. Testaram uma à uma. Através do mapa que Ada acessou no computador principal, puderam observar toda a tubulação para circulação de ar do prédio, a pequena grade na parede logo em cima de suas cabeças já dava acesso aos daquele andar.

Jake era alto e ao subir numa mesa, já alcançou a grade, arrancando-a. Ada passou para ele um dos dispositivos, que foi cuidadosamente colocado dentro da tubulação. Mais outro e mais outro. No fim do processo, Jake colocou a grade de proteção de volta no lugar, e em seu computador de mão, Ada não apenas controlava os dispositivos remotamente, como tinha acesso a suas imagens e capturar os sons. Em cada grade de cada sala, ou que dava para qualquer corredor... tudo era vigiado pela espiã. Até que essa aparelhagem era realmente útil, através dela o próprio Leon podia procurar seu homem economizando tempo e de uma maneira muito menos arriscada. Em que mundo a DSO vive que nunca pensou num equipamento assim antes? Leon perdeu algum tempo apenas olhando para ela. A espiã usava uma legging preta que imitava couro, era justa ao corpo mas elástica e confortável, o vestido era curto e de mangas compridas, vermelho como não poderia deixar de ser, estava justo no corpo por baixo do colete. Tentou de todas as maneiras enxergar melhor a barriga dela, mas o colete atrapalhava assim como o casaco felpudo preto que ela usava. Lembrou que Ada nunca foi de sentir frio e hoje estava muito mais agasalhada do que o de costume, talvez fossem os hormônios.

" – Hey! Heroi. Vai ficar aí olhando o quê? Caminho da roça!" – Disse Jake, parado na porta de saída olhando para Leon com uma expressão nada satisfeita. Ada guardava o computador de mão no bolso do colete e sorria para Jake seguindo-o até o corredor.

Era horrível, vê-la seguir outro homem, e deixando-o para trás.

Tomaram a escada novamente e chegaram até o segundo andar. Ada e Jake pareciam ter os principais pontos perfeitamente monitorados. O radio tocou.

" – Nada no térreo, nada no andar superior. Encontraram algo?" – Era uma voz masculina.

" – Ainda não. Mantenha o curso, nos encontramos a diante. Ah, temos um quarto agente conosco."

" – Agente Kennedy, eu sei." – disse a voz.

Leon não sabia quem era esse homem, muito menos como este já sabia de sua presença ali, tinha certeza sobre ter sido bastante cuidadoso ao entrar. Era bom tomar mais cuidado.

Uma vez no segundo andar, se depararam com o primeiro contratempo da missão. A tubulação estava bloqueada em dois lugares, provavelmente graças a alguma obra de manutenção, isso inviabilizava o acesso a toda a ala norte e leste.

" – O que vocês vão fazer agora?" – Leon perguntou. E a expressão de Jake mesmo sem Ada dizer uma única palavra, pó si só, já respondeu a pergunta. Afinal, se aquele menino estava tão seguro de si, o eu tinha demais e deixa-lo sozinho com Ada?

" – Jake, leve um rádio extra e mais munição também, nunca se sabe. Me avise quando terminar de colocar os dispositivos e..." – A espiã olhou para o ruivo durante um bom tempo. Infelizmente, havia carinho demais naquele olhar. – " – depois volte imediatamente."

" – Ou podemos esperar Alexei. Não estava nos planos te deixar sozinha." – Disse Jake.

Sozinha? Quem está sozinha? Eu estou aqui, moleque!

" – Não podemos perder tempo esperando Alexei, além do mais, eu não estou sozinha." – Leon quase comemorou por finalmente alguém naquela conversa ter se lembrado dele, mas então percebeu que Ada falava apenas de sua TMP. " – Ela está comigo."

" – Eu não confio nele! E se ele te levar presa?" – Jake apontou para Leon.

" – Ótimo, então leve-o com você." – Essas ultimas palavras de Ada soavam miseravelmente simples na boca dela. Leve-o com você. Leon sentiu como se sua presença ali não fizesse a mínima diferença. " - é bom que ele te ajuda." – Ela completou.

Os olhos de Jake inflamaram quase a ponto de explodir. " – Eu não preciso de nenhuma ajuda!" – Então os ombros do grandão caíram, com um enorme pesar. " – Além do mais, se ele se comportar... é melhor que fique. Para não te deixar literalmente sozinha aqui."

Leon ergueu o queixo. " – E como eu devo me comportar?"

" – Não me provoca, almofadinha. Se tentar qualquer gracinha eu..."

" – Você o quê?" – Leon deu um passo a frente quando Jake fez o mesmo...

" – Jake!" – Dessa vez foi Ada a falar, ela tomou a mão do ex-mercenário entre as dela e depois o tocou no rosto. As mãos dela pareciam tão pequenas e delicadas perto daquele bruto. " – Vamos manter o foco na missão, sim? O Kennedy não vai me prender." O ruivo bufou baixinho e olhou para Leon uma última vez antes de beija-la. Uma cena lamentável e desnecessária, se Leon soubesse que Ada apelaria à um beijo para acalmar aquele bronco, não o teria provocado. " – Agora vai Jakob, e volta logo."

Yakob?

Volta logo?

" – Eu volto." – ele respondeu, antes de puxa-la para mais um beijo e finalmente sair.

Ada não disse mais nenhuma palavra, muito menos se dignou a olhar para ele. Ela botou a TMP na cintura e puxou o computador de mão outra vez e parecia concentrada somente no trabalho e em ignora-lo. Quem era ele para cobrar algo agora? Ele era um homem casado, sua esposa o aguardava em Oskemen, cheia de amor e carinho. Ada agora tinha uma família. Seus sentimentos estavam não apenas conflituosos, mas também errados e amorais. Qualquer sentimento por Ada não era mais permitido, não havia mais nenhum lugar nesse mundo ou além dele, onde um Leon e uma Ada pudessem ficar juntos e isso fosse aceitável. Esquece ela, Leon. Apenas deixe-a ir. Ela nunca foi sua, portanto nunca a perdeu. Esqueça-a!

" – Por quê?" – Escapou dos lábio de Leon, quase como um sussurro.

Os olhos da espiã, agora claros e brilhantes se ergueram até ele, confusos. " – O quê?"

Leon não sabe o que deu nele, seus pés se moviam sozinhos, assim como todo o seu corpo. Quando deu por si, já segurava a mulher pelo cotovelo. " – Por quê, Ada? Você disse que me amava, eu abri o meu coração pra você. Eu teria feito qualquer coisa, qualquer coisa! O que aconteceu? Por quê você me deixou esperando enquanto se divertia com aquele garoto?"

" – Primeiro, solta o meu braço." – Ela tinha a voz fria e baixa. Era como se ainda existisse um muro de gelo entre os dois e Leon poda senti-lo.

" – Primeiro você me responde!"

" – Ora vejam só." – Ada sorriu, ainda fria e em forma de deboche. " – O Senhor Kennedy está irado. Ele exige respostas, aposto que não me pretende me deixar ir até que eu as dê, acertei?"

" – Exatamente."

" – Claro. Mas então eu te pergunto. Por quê agora? Em dezessete anos você não deu a mínima! Em dezessete anos qualquer resposta para você sempre foi o suficiente. Que diferença fazia se eu ia ficar ou sumir outra vez? Nenhuma! Que interessante você resolver se rebelar, exigir suas respostas e se achar cheio de direitos justamente agora, depois que acabou!"

O que mais doía além do fato dela dizer com todas as letras que acabou, foi o fato de talvez, ela não estar assim tão errada, talvez ele tenha sido mesmo um covarde todos esses anos e quando resolveu lutar por ela, já era tarde. " – Não é isso. Não foi bem assim, você sabe muito bem disso, Ada!"

" – Aliás, parabéns pelo ataque de macheza agora. Estou realmente surpresa. Eu só aceitei ficar aqui com você porque tinha certeza que não me incomodaria. O Leon que eu me acostumei a ver, ficaria aqui dentro muito bem comportado, com cara de bobo, passivo, aceitando qualquer explicação sem demonstrar qualquer interesse no que eu faço ou deixo de fazer. Admita, o Leon que realmente se importava comigo ficou em Raccoon City!"

" – É mentira!" – Sua voz saiu mais alta do que queria, e podia sentir os olhos arderem. " – É mentira. Você sabe muito bem tudo o que nós passamos juntos, sabe muito bem cada vez que eu teria matado ou morrido, por você! Eu me arrisquei por você, eu fiz inimigos por sua causa, eu menti e traí, por você! Como você tem a coragem de dizer que eu não e importei?"

" – Eu também! Leon você não sabe... até aonde eu fui capaz de ir, por sua causa! Porque se você soubesse... não teria feito o que fez!"

" – Helena, é dela que você está falando? Me fala, por que aquele beijo te incomodou tanto? Foi só um beijo! E você que esteve fodendo com Jake esse tempo todo? Eu não merecia um desconto depois de descobrir que você estava grávida de outro?"

O queixo de Ada caiu, ela tinha a boca aberta na mais puxa expressão de indignação. Afinal ela acreditava verdadeiramente que tinha mais direitos e menos deveres que ele naquela relação? O pior de tudo é que Ada nunca pareceu tão cheia de dignidade quanto agora e ofendida também.

" – Que bom Leon, saber que é isso mesmo o que você acha. Eu peço desculpas pelos transtornos causados, eu te garanto que isso nunca mais se repetirá. Aliás escutar da sua boca foi algo... revelador." – Ada desviou o olhar e soltou o cotovelo com um solavanco. Ela virou de costas e voltou a se concentrar no aparelho que tinha em mãos. " – Nossa conversa acaba aqui."

" – Não." – Aquele não podia ser mesmo o fim, não dessa maneira. Leon a puxou novamente e só percebeu que exagerou na força quando Ada gemeu ao bater de costas contra a parede. " – Olha pra mim!" – Ela olhou, cheia de raiva e tentando se soltar. " – Diz que me esqueceu, que não me ama mais e que não me quer por perto, nunca mais."

" – Leon, eu não vou avisar de novo, me solta!"

" – Ainda não é tarde demais. Eu errei, você também errou, mas a gente pode consertar. Eu não me importo do bebê não ser meu... quer dizer, eu não me importo mais..."

" – Cala a boca." – Ela avisou de novo, fria.

" – Eu amo você, Ada. E eu sei que você também me ama. Você não sabe o quanto a minha vida tem sido um inferno, eu nunca fui tão infeliz, eu faria tudo pra ter você de volta. A gente recomeça do zero. Eu até te perdoo pelo seu deslize...eu..."

" – Oh! Meu deslize?"

Leon não respondeu e nem terminou de ouvir a pergunta, apenas atacou os lábios dela num beijo que ela resistiu bravamente, depois de muito forçar, ela abriu a boca por breves segundos e o louro imediatamente tentou aproveitar a chance para botar a língua lá dentro, mas quando percebeu o que ela fez, já era tarde... uma mordida, uma mordida forte no lábio inferior. Leon chegou a acreditar que tinha perdido um pedaço da boca quando finalmente conseguiu se soltar afastando-se um pouco de Ada, então sentiu o cortar do vento e o rosto arder violentamente depois de um alto e sonoro tapa.

Olhou para a mulher diante de si, ofegante, assustada e irada. Passou a língua por entre os lábios e sentiu o gosto metálico do sangue. Uma situação familiar. Helena, Ada... e provavelmente quando contasse o acontecido, Manuela faria o mesmo. E então veio a vergonha, quando Ada abraçou a barriga e fez uma ligeira expressão de dor. Definitivamente, ele perdeu a cabeça, ele praticamente atacou uma mulher grávida que foi deixada ali, sozinha com ele.

" – O que foi? Você está bem? Ada, eu sinto muito..." – Leon tentou caminhar até ela.

" – Não. Não se aproxime." – Ela avisou com o mesmo tom de voz, gélido. Tentando controlar a respiração e com as sobrancelhas franzidas de dor. " – Leon, vai embora. Por favor."

" – É o bebê? Você está passando mal, eu não posso te deixar aqui..."

" – É só uma pequena contração, é normal. Sai da minha frente e eu vou ficar bem."

Nada podia ser mais frustrante e vergonhoso do que isso. Parece que quanto mais ele tenta ajeitar as coisas, pior fica. Leon já estava em desespero, vendo Ada ir embora e dessa vez, pra sempre. " – Me deixa ficar, Ada..."

Então, a porta se abriu e junto com a corrente de ar frio, veio a ultima pessoa que poderia de fato melhorar a situação.

" – O que está acontecendo aqui?" – Jake olhou primeiro para Ada, com a face enrubescida, escorada na parede e segurando a barriga. Imediatamente foi até ela, envolvendo-a nos braços, a mulher pareceu ficar terrivelmente mais tensa depois que o ruivo chegou. " – Você tá bem? O que aconteceu?" Ada não respondeu, o olhar dela chegou até a parecer assustado. Mas foi quando Jake olhou para Leon, que finalmente, as coisas pareceram ficar péssimas.

Leon sabia que tinha a pele clara e fácil de marcar, o tapa de Ada foi forte e provavelmente ele tinha os cinco dedos da mão dela carimbados bem no meio do focinho, para completar, tinha um lábio sangrando. Nesse momento, Jake pareceu até crescer, exatamente, era como se ele pudesse ficar maior do que já era. " – Desgraçado. Você tá morto." – Disse o ruivo, baixo, mas suficientemente ameaçador.

O louro não teve tempo nem de empunhar o fuzil, o filho da puta era muito rápido, Leon não sabia nem dizer exatamente de onde ele veio, só sentiu as costas e a cabeça baterem violentamente contra a parede enquanto tinha o pescoço espremido com toda força. Seus pés estavam erguidos do chão e o ar faltava. Tudo que ele escutava era o ranger dos dentes de Jake Muller.

" – E eu não vou fazer isso rápido, você vai morrer bem devagar!"

Tentou usar todos os golpes que conhecia para se desvencilhar dali, mas não só as mãos, como os braços e todo o corpo de Jake pareciam ser feitos de pedra. Lembrou que tinha uma faca escondida na bota... se conseguisse alcança-la... sem entender porque, viu que Jake o soltou e que caiu no chão. Começou a puxar o ar novamente, aliviado pois sentia que já estava quase desmaiando. Foi aí que percebeu, o lamento quase inaudível de Ada.

A espiã estava abraçada a Jake, o rosto colado nas costas dele, os dois braços o apertavam forte e ela implorava. " – Deixa ele ir, Jake. Por Favor. Está tudo bem... deixa ele ir embora."

Jake virou-se novamente para a mulher e pousou as mãos na barriga dela. " – Está tudo bem? O que ele fez?"

Leon pôs-se novamente de pé, Ada parecia responder baixinho qualquer coisa sobre estar tudo bem, ser apenas uma contração e não ter acontecido nada demais. Do outro lado, estava ele e Leon não iria embora feito um covarde, um bandido que fez mal a Ada e depois fugiria, ficaria ali no mínimo até toda a situação ter sido esclarecida.

" – Você tem trabalho a fazer Leon, nós também. Acho melhor você ir sozinho a partir daqui." – Disse Ada.

Jake a ajudou a tirar o colete para ficar mais confortável, Leon então pode ver bem a barriguinha que surgiu ali, redonda com uns seis ou sete meses. O ex-mercenário fez um carinho protetor nela, mesmo atento as feições da mulher que agora parecia estar melhor. Puxou um caixote que estava próximo e ajeitou-o para que Ada sentasse. " – Já passou?" – ele perguntou baixinho ajoelhando aos pés dela.

" – Já."

" – Acha que vem outra?"

" – Acho que não." – ela respondeu, então o ruivo a beijou, primeiro na barriga, depois na boca.

Ainda de costas, Jake olhou para Leon por cima do ombro. Ele ainda estava transtornado, a única coisa que o mantinha quieto era o fato de Ada estar passando mal. Por um momento, Leon teve a impressão de um brilho estranho ter corrido os olhos de Jake, que ficaram consideravelmente mais escuros.

" – Vá." – O ruivo rosnou. E infelizmente, Leon percebeu que não havia mais lugar para ele ali.

JAKE

" – Eu sabia que não devia ter te deixado aqui."

" – Jakob, eu já disse. Não foi nada demais, nós discutimos e foi só."

" – Tem a marca da sua mão na cara dele... e ele estava sangrando. Eu te conheço, você não faria algo assim por pouca coisa. Devia ter deixado eu quebrar o pescoço dele."

Ada tocou-o no rosto por cima da cicatriz, depois lhe acariciou os cabelos. Ela sorria e estava bem outra vez. " – Confia em mim, você não queria fazer isso. E ia se arrepender muito depois."

Jake não tinha tanta certeza. Mas cedeu. Cedeu porque ela pediu, e porque não tinha nenhum pedido que ela fizesse, que ele não atendesse prontamente. Preferiu não contar que escutou uma parte da discussão dos dois antes de abrir a porta, estava um pouco afastado, não chegou a tempo de escutar nada nítido, mas sabia que era uma discussão e por fim, escutou o tapa. Leon era um imbecil, quem provocaria uma mulher naquele estado? Jake passou todos esses meses cuidando dela, controlando o próprio ciúme, se controlando em cada vez que teve vontade de discutir, gritar ou sair quebrando qualquer coisa, justamente por sabia que ela estava grávida e até um ogro troglodita – palavras da Sherry sobre ele uma vez - como ele, tinha o mínimo de noção em saber o quando aquele era um momento delicado. " – Foi por causa dele que você teve essa contração. Ele te deixou nervosa." – Era triste ver que de alguma maneira, Ada ainda tentava defender o agente americano.

" – Não foi por causa dele, Jake. Eu também me descontrolei. Dá um desconto... eu estou uma pilha de hormônios, e eu não vejo a hora de botar esse bebê pra fora."

O ruivo tremeu um pouco. Quando o bebê nascer, Ada não precisará mais dele, talvez ela não o mande embora imediatamente pois até onde sabia, a relação dos dois ia bem. Mas o fato de Ada nunca deixar claro se ela tinha planos futuros para os dois ou não, o deixava muito inseguro. E para completar, quando ele foi até ela disposto e deixar a situação mais clara, escutou um mundo de respostas que não queria ouvir. A verdade era que Ada amava aquele palhaço que ela mesma esbofeteou, e por causa disso Jake foi capaz de tudo, mentir, enganar e até engolir o próprio orgulho. Agora que o pivete estava chegando, restava saber, o que mais ele teria que fazer para continuar ao lado dela.

" – Jake..." – A voz doce de Ada o tirou de seus devaneios. Ela o segurou suavemente pelo rosto e o beijou, longamente. Depois, ainda com seus rostos colados, ela disse: " - Eu sei que você descobriu quem ele é."

" – O que?"

" – Leon. Você sabe... quem ele é." – Ela o beijou de novo. " – Ele não sabe, nem nunca vai saber. E você sabe por que?"

Ada descobriu que ele sabia quem era o pai do pivete. E agora? " – Como você descobriu, há quanto tempo?"

A mulher sorriu. " – Isso importa? O que importa é que você esta aqui, e ele não. Você sabe a verdade, e ele não. Você conheceu uma parte de mim, da minha família e da minha vida privada que ninguém nem mesmo Leon, nunca tiveram acesso. Foi com você que eu acabei dividindo o momento mais delicado da minha vida, eu confiei em você e você não me decepcionou. E quando tudo isso acabar, é com você que eu vou ficar, não com ele."

Jake sorriu. Então ela fez uma escolha e essa escolha foi ele. Com tantos no mundo, ela escolheu um ruivo mal educado, bronco e sem nenhuma qualidade em especial. " – Eu posso não estar a altura do seu... Herói. Mas eu prometo te dar o meu melhor." – e de fato, Leon podia ser o herói e o bonzinho que todos falam, mas com Ada ele falhou miseravelmente, não chegou nem perto de dar o melhor que tinha.

" – Não diga isso Jakob. Você não é menos que o Leon em nada, nem ele, nem ninguém. Você é perfeito como é. Você é generoso, bonito e tem bom coração. É fiel e leal e é capaz de tudo para proteger quem você ama. Você não tinha motivos para ficar inseguro quando namorava a Sherry e não tem motivos para ficar inseguro agora. Você ainda é tão jovem... tem o mundo inteiro a sua espera. Você merece todo o amor do mundo e vai ter."

" – Eu não entendo. Você diz que vai ficar comigo e agora parece estar se despedindo, como se 'todo o amor do mundo' fosse longe de você. Eu não quero o mundo inteiro. Eu só quero você."

Ela pareceu achar graça. " – Serio? Desculpe, não foi essa a intenção." – Ela se levantou do caixote e o puxou pelas mãos. " – Ainda temos um sujeito para encontrar, e um assassinato pra resolver. Depois..." – Parou aonde estava, rodou nos calcanhares e virou-se novamente para ele. Beijaram-se uma vez mais. Não existia dúvidas que Ada era uma mulher apaixonada, principalmente quando ela o beijava. Jake tinha certeza absoluta que era capaz de fazê-la feliz, e que toda aquela estória com Leon tinha os dias contados para terminar de acabar!

" – Depois?"

" – Me prometa que ficará longe do Kennedy. Deixa ele pra lá. Quer que ele fique no passado? Ótimo, eu também. Então vamos começar deixando-o exatamente no lugar onde ele pertence, no passado. Eu não quero você inseguro quando esbarrar nele, eu não quero discussões a respeito dele, eu não quero o nome dele nas nossas discussões e principalmente, eu não quero saber de outra cena como aquela se repetindo. A partir de agora ele é o nosso segredo, morto e enterrado. Vale a pena sujar suas mãos por alguém como ele? Eu acho que não. Então, promete?"

Jake se deu ao luxo de perder algum tempo pensando no que faria. Entrou em uma sala e a viu passando mal, depois de discutir e esbofetear aquele almofadinha. Que homem no lugar dele não iria querer picar o Ken em pedacinhos? Então olhou para Ada novamente, ela parecia aflita. O que era normal, que mulher ia querer ver um ex-amante e pai de seu filho brigando por aí com o atual? O mínimo que podia fazer por ela era oferecer a tranquilidade de não passar por aquilo outra vez.

" – Eu prometo."

Ada beijou-o uma ultima vez, deixando que o toque suave percorresse seu peito, fazendo-o suspirar. " – Bom garoto." Ela piscou de maneira sugestiva e saiu na frente.

Continua...