CAPÍTULO XXI
Amira estava em sua cabine quando uma batida soou na porta.
- Entre – ordenou.
Saladino entrou na atmosfera acolhedora daquele aposento e azuis luziram na direção dela.
- Vim ver se precisava de alguma coisa.
- Estou bem - respondeu Amira sem fitá-lo. – Obrigada. Não precisa se preocupar.
- Pensei que estaria menos arredia e poderíamos conversar - ele a fitava atentamente, como se quisesse vasculhar sua alma, e Amira desviou seu olhar, ouvindo-o completar: - Mas vejo que me enganei. Devemos chegar a Éeia em dois dias – e virou-se para deixar o quarto.
- Saladino – chamou-o, fazendo-o girar nos calcanhares e encontrar castanhos intensos sobre os dele. – Por que aceitou essa condição?
Ele pareceu ponderar por algum tempo as palavras dela. Os cabelos caíram sobre seu rosto ao fitar o chão, e parecendo lutar consigo mesmo, respondeu-lhe quase num sussurro:
- Pareceu-me o melhor a se fazer no momento.
Amira abriu a boca para protestar, mas o ar frio vindo do corredor bateu-lhe no rosto, anunciando a saída do sultão apressadamente de sua cabine. Ela foi até a porta, fechando-a, enquanto deixava seu olhar sobre a madeira escura.
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O vento soprava forte, enfurnando as velas e fazendo com que o Pérola cortasse as águas rapidamente em direção ao Mediterrâneo. Jack estava ao timão, o olhar atento no horizonte, quando Johnny se colocou ao seu lado em silêncio. Ele observava cada movimento do pai e depois de algum tempo falou-lhe:
- Alguma vez teve medo ao enfrentar os perigos que surgem durante as suas viagens? - O menino deixou seu olhar vagar pela figura do pirata, que parecia ponderar o que responder.
- Por quê? - Sorriu sem fitá-lo, num desdém. – Está com medo agora?
- Talvez – disse firme Johnny. – Eu não sei explicar direito, não temo por mim. Eu...
- Tem medo que eu deixe acontecer algo a sua mãe, não é? - Dessa vez os olhos de Jack pararam sobre o filho, cintilantes.
Johnny assentiu brevemente, baixando a cabeça.
- Eu acho que já discutimos isso, garoto – rebateu mordaz. – Não há a mínima possibilidade disso acontecer, savvy?
O garoto levantou os olhos, encarando-o com um brilho escuro.
- Eu ouvi o que pediu para Barbossa...
Jack crispou os lábios e desviando seu olhar para o mar, respondeu com seu modo afetado:
- Sabe, Johnny, não é muito educado ficar espreitando atrás de portas - ponderou. – Acho que em algum momento sua mãe deve ter-lhe dito isso.
- Não quero que faça o que está pretendendo – interrompeu-o secamente.
Dessa vez Jack não pode fugir ao olhar do filho, ou sequer questioná-lo. Johnny o fitava tristemente, um olhar que Jack nunca vira antes, e do qual jamais esqueceria. Travando o leme ao curso, se aproximou do filho com seus passos arrastados, e pondo-se a frente dele, sussurrou-lhe:
- Escute com atenção, garoto – o dedo girou no ar como sempre fazia, enquanto seus olhos penetravam os de Johnny. - Existem coisas pelas quais jamais um pirata deve abrir mão de sua vida... Você acabou de me perguntar se já tive medo de enfrentar os perigos que surgem nas minhas aventuras, pois bem, tenho medo agora!
Johnny o fitou surpreso e Jack sorriu-lhe cínico.
- Entenda, filho, eu jamais pensei deixar meu coração nas mãos de uma mulher. Sempre o dediquei ao mar e minhas ambições pessoais – Jack interrompeu o que dizia e deixou seu olhar vagar no horizonte. – Entretanto, bastou que eu visse sua mãe uma única vez, depois de tantos anos distantes, para que esta certeza fosse por água abaixo... Eu não estava preparado para perder o controle que tinha sobre meu coração, mas também não estava preparado para deixá-la partir. Nunca estive...
- Vovó se meteu entre vocês, não foi? - disse Johnny. – Igual como essa tal de Éris está fazendo agora.
- Sim – murmurou Jack, pensativo -, mas eu a conhecia muito bem para deixar-me enrolar por ela, no entanto, Éris... Dela podemos esperar qualquer coisa. – Fitou o menino, dando-lhe um tapinha nas costas antes de prosseguir: - Eu não deixei que sua mãe partisse uma vez e não vou deixar que isso aconteça agora.
- Promete, papai?
- Tem minha palavra, guri – disse-lhe Jack com um sorriso. Johnny abraçou-o fortemente, enquanto o ouvia dizer baixo: – Não há nada mais importante que vocês dois em minha vida. Não vou desapontá-lo...
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Elizabeth e Will se aproximavam da ilha de Éeia quando um vento forte mudou a direção das velas, fazendo Will manejar o leme com toda a força que tinha para impedir que o Imperatriz alterasse seu curso. As ondas chocavam com ferocidade contra o costado do navio, deixando que os salpicos do mar molhassem os marujos. Elizabeth se juntou ao marido no castelo da popa e levando a luneta aos olhos, murmurou:
- Estamos perto - disse devolvendo-a ao cinturão.
- Isso é uma forma dela nos dar boas vindas? - interpelou Will, empenhado em manter o leme seguro naquela posição.
- Creio que não... - respondeu Lizzie, vendo uma parede de água se erguer diante de seus olhos.
Will fitou o acontecimento surpreso, a última vez que vira algo parecido fora há anos atrás. Poseidon surgiu em meio ao mar revolto, fazendo-lhes uma breve reverência e deixando os marujos do navio sem ação.
- Vejo que não poupou esforços, capitã. Obrigado.
- Não abandonaríamos Jack e Amira – afirmou Lizzie, ao passo que Will concordava com a cabeça.
- As coisas pioraram muito - disse o deus com pesar. – Éris está tentando alterar a história e se ela conseguir, o mundo que conhecem pode sofrer sérios danos.
- O que mais há envolvido? - perguntou Will irritado.
- Ela está se resguardando caso Jack tente alguma coisa para não lhe dar o livro – explicou Poseidon com o olhar preocupado. – O que sabemos não ser uma possibilidade descartável.
- Sim – afirmou Elizabeth. – Jack não é bobo.
- Não – concordou o deus -, muito pelo contrário, ele já tem um plano.
- Tem? - surpreendeu-se Will.
- Sim, capitão Turner. – Azuis brilharam sobre eles. – Vai fazer exatamente aquilo que a jovem sra. Turner previu.
Will lançou um olhar furtivo para a esposa, que fingiu não percebê-lo, concentrando sua atenção no deus.
- Entretanto, ele não pretende barganhar sua liberdade junto com a dos outros.
- Como não? - cortou Lizzie.
- Ele não quer arriscar a vida de Amira ao fazer isso.
Percebendo a tensão expressa no semblante da esposa e de Poseidon e se sentindo extremamente desconfortável diante das palavras dos deus, Will tentou amenizar a situação, dizendo-lhes:
- Não vai adiantar discutirmos isso agora se não chegamos ainda a Éeia – ponderou. – Precisamos ter armas para lutar contra Éris ou não salvaremos ninguém.
- Tem razão, Will – aquiesceu Elizabeth decepcionada e fitando com castanhos intensos o deus, prosseguiu: – Circe já sabe que estamos aqui?
- Sim – assentiu Poseidon. – Ela os espera, contudo, eu os advirto: não comam, nem bebam nada que ela ofereça.
- Ela tenciona nos envenenar? - perguntou Will preocupado.
- Todo cuidado é pouco. – Sorriu-lhe o deus. – Somos deuses, não piratas.
- É um grande alento – murmurou Will com sarcasmo.
- Desejo-lhes boa sorte – disse fazendo sua voz ecoar pelo navio ao sumir nas águas do mar, que voltaram a ser calmas após sua partida.
- Algumas vezes eu penso que o preço a ser pago pelo que mais se deseja na vida é alto demais - Lizzie fitou o horizonte, onde um ponto escuro começava a ganhar contornos mais definidos.
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A noite caiu sobre o Holandês, o navio navegava calmamente em direção ao desfecho incerto de todos seus tripulantes. Amira rolava entre os lençóis, os pensamentos indo até Jack; podia sentir a respiração dele próxima, os lábios que se partiam para tomar os seus. O coração acelerou e gotas de suor brotaram de sua pele enquanto ofegava suavemente sob os lençóis, sentindo as mãos fortes do marido percorrerem seu corpo, arrepiando-a. Num gesto desesperado, lutando contra seus devaneios, sentou-se na cama abrindo os olhos e encontrou somente as paredes frias do navio. Os olhos marejaram enquanto levava a mão até eles, escondendo-os do mundo.
Em sua cabine, Saladino estava deitado na cama fitando atentamente a lua brilhante no céu. Não conseguira dormir, seu coração estava inquieto e a marca da safira em seu peito ardia terrivelmente. O que fizera? - se perguntava diante da luz prateada que inundava seus aposentos. – Nunca em toda sua vida havia agido daquela forma! - Pôs-se de pé, passando as mãos pelos cabelos escuros e balançando a cabeça negativamente disse para si mesmo: - Mas há Amira... - Estava arriscando demais.
Andou algum tempo pelo quarto, os pensamentos confusos, mas quando voltou a olhar o céu estrelado, azuis brilharam e apesar de sua religião não permiti-lo, sentiu uma imensa vontade de se entregar ao rum. Sem pensar duas vezes, deixou a cabine em direção a cave.
Amira havia se levantado, não conseguira voltar a dormir, não depois de ter sonhado com Jack e o sentido tão perto. A falta que sentia dele e do filho preenchendo cada espaço de sua alma. Precisava se acalmar ou colocaria tudo a perder, em silêncio deixou a cabine procurando por algo que ela sabia muito bem a deixaria anestesiada por um bom tempo. Em passos suaves, desceu as escadas em direção a cave do navio.
A cave, como sempre, era escura e úmida e exalava um forte odor de maresia que inundava o ar. Saladino empurrou a porta, entrevendo apenas uma parte do lugar, e abrindo mais um pouco, fazendo-a ranger, entrou naquela atmosfera insalubre. Em passos lentos e cuidadosos, passou por entre algumas prateleiras que estavam vazias e ostentavam cracas e bolor por toda sua extensão, aprofundando-se ainda mais na penumbra. Os olhos se acostumaram à escuridão, deixando que percebesse os contornos dos objetos a sua frente, mas um leve ruído seco atrás de si o fez interromper sua busca e virar-se calmamente para o local de onde o som viera. Com passadas suaves, para não assustar o que quer que fosse que produzira o barulho, escorregou pelo chão enlameado.
Não precisou esgueirar-se por muito tempo pelo interior lúgubre para que seus olhos se surpreendessem ao se deparar com a figura feminina que o encarava em castanhos cintilantes. Ele a fitou atentamente, percebendo a garrafa de rum entre seus dedos e o sorriso maroto em seus lábios.
- Ora, ora... Capitão – disse com uma voz melodiosa pouco peculiar a sua pessoa numa situação com aquela, enquanto castanhos analisavam, capciosos, a figura do sultão. Ao estalar os lábios, continuou cínica: - Também sentiu sede?
Saladino não respondeu, azuis estavam intensos sobre ela, em como se movia sedutoramente naquele pequeno compartimento até ele, enquanto umedecia novamente os lábios com rum. Os cabelos pretos estavam soltos, caindo lisos pelos ombros, e a camisola que lhe cobria o corpo bem feito parecia estar ali somente para torná-la ainda mais tentadora. Com muito custo, ele desviou azuis de Amira, lutando contra o desejo que lhe queimava as veias. Ela pareceu perceber e não se importar com isso, parando diante dele e estendendo-lhe a garrafa, mantendo o leve sorriso nos lábios rosados.
- Eu divido com você... - Seu coração pulava no peito, mas a voz dela o fez erguer azuis e a ver morder sedutoramente o lábio inferior, finalizando: – Não se acanhe.
- O que faz aqui? - controlou-se, mantendo seu semblante sério diante dela e a resposta lhe parecendo óbvia.
Ela sorriu-lhe condescendente, aproximando seu rosto do dele e soprando-lhe:
- Não sei. – Os olhos desceram lascivos até os botões abertos da blusa escura que Saladino usava e deixava entrever o peito castigado pelo sol. – Diga-me você – sugeriu num murmúrio ao pé do ouvido, enquanto Saladino abaixava a cabeça, deixando que os cabelos escuros cobrissem-lhe a face.
- Está tarde – rebateu baixo, deixando que seus olhos vagassem pela prateleira ao seu lado. – É melhor acompanhá-la até sua cabine.
- Não! - protestou – Não seja um desmancha prazeres!
- Amira, você não está no seu normal e eu...
- Não vai se aproveitar disso? - interrompeu-o fazendo-o encará-la em azuis brilhantes. A língua deslizou suavemente pelos lábios, enquanto a mão delicada tocava-lhe a pele exposta do tórax. – É um bom homem. Só que eu prefiro os maus... Piratas! – riu-se dele enquanto seus dedos brincavam sobre sua pele. - Você não me quer, é isso?
A voz dela era sussurrada junto ao seu ouvido, exigente. O toque era quente e inebriante, e foi preciso mais do que sua simples consciência do que é certo ou errado para deixá-la sem resposta. Fechando os olhos, simplesmente respondeu:
- Não...
- Mentira. - Os lábios roçaram de leve a pele do pescoço do sultão, percorrendo o caminho até os lábios.
Sem demonstrar qualquer receio pelo que estava fazendo, Amira tomou os lábios dele ardorosamente, sentindo os braços do sultão a enlaçarem pela cintura e puxarem-na par si. A mão forte subiu até sua nuca, impedindo-a de fugir, enquanto a outra procurava pela barra da camisola, e ele a prensava com seu corpo contra a parede úmida da cave. Amira enterrou suas mãos nos cabelos dele, tornando o beijo mais intenso, murmurando:
- Jack...
Saladino largou a barra da camisola, deixando que escorregasse de volta ao lugar, e levou suas mãos até os ombros dela, afastando-a, fazendo-a encará-lo, dizendo:
- Pare! - sacolejou-a. – Está me entendendo? Pare com isso, já!
- Você abriu mão de sua vida para estar aqui... Para ficar comigo! - Castanhos cintilaram, sua respiração ofegava, e Amira continuou com a raiva brotando de cada poro: - Tome sua recompensa!
Saladino fitou-a surpreso e ao mesmo tempo envergonhado, sabia o que fizera e porque fizera, mas como convencê-la de que havia feito tudo por amor?
- Não foi esse seu trato com Éris? - sorriu-lhe debochada, os olhos marejando. – Ter-me no final da aventura? Por que esperar mais?
- Isso não está certo - ponderou, sentindo o peso da culpa sobre os ombros.
- O que esperava? - perguntou-lhe irritada, as lágrimas banhando seu rosto. – Amor? Eu amo o Jack!
O silêncio preencheu o ar e vendo-o abatido por suas palavras, ela o quebrou, completando:
- Achou que a deusa me faria ficar apaixonada por você? - gracejou. – Nunca! Meu coração está há léguas de distância daqui, sultão, e mesmo que eu morra, ele nunca será de outro homem!
- Basta! - rosnou. – Volte para sua cabine!
- Não há como fugir da verdade. - As palavras saíram entrecortadas pelo choro.
- Acredite ou não, tudo que espero conseguir é a sua felicidade...
Azuis deram lugar a pretos e o semblante de Saladino se tornou grave, fazendo com que Amira percebesse o esforço dele em lutar contra o mal que se apossara de sua alma. Ela recuou, a tristeza de tê-lo agredido borbulhando em sua mente, quando o viu completar triste:
- Agora, por favor, saia!
Obedientemente, ela o deixou sozinho na cave, tomando a direção de sua cabine. Aquele navio era definitivamente amaldiçoado. Fossem quais fossem as condições para ser seu capitão, havia uma coisa que ele sempre deveria fazer: abrir mão de quem mais amava...
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N/A:
Amadas,
Queria muito agradecer a paciência de vcs, o carinho e a amizade! Eu não sei explicar porquê, mas eu amo a cena da Amie e do Salah nesse caps... É tudo de bom!
Bjoas bem grandes para Taty, Aline, Larinha, Dora, Bia e Carla. Briagaduuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu!!
Amo vcs!
