REALMENTE ESTRANHO
Casa da Liz. Buenos Aires, Argentina.
O dia estava particularmente bonito, sem um mínimo sinal das ilusões caóticas da deusa Apate. Mesmo assim, Liz caminhava de um lado para o outro, bastante ansiosa:
_Você não acha que eles estão demorando demais? – Ela perguntou para Shaka, que meditava num canto do estúdio de dança. – Eles saíram há horas! Será que aconteceu algo?
Sem demonstrar preocupação, o cavaleiro de Virgem respondeu:
_Improvável.
_Mesmo?
Shaka respondeu com um simples gesto de cabeça. Elizabeth, porém, cruzou os braços e voltou à sua agitação. Em determinado momento, ela se dirigiu à janela e desejou ver Catarina e Aioria chegando, mas a rua estava completamente vazia.
_Você acha mesmo que nada aconteceu? – Ela perguntou outra vez. – E se...?
A Musa da Dança se conteve. Seus olhos se voltaram para Shaka. Era difícil admitir, mas ele esteve certo todo o tempo sobre as ilusões que assolaram a capital argentina – e soube combater muito bem a fonte delas. Sendo assim, ele possivelmente estava certo sobre a segurança de Catarina e Aioria, apesar da demora de ambos.
_Devo estar ansiosa à toa.
_Sim, você está.
Liz não gostou da confirmação do cavaleiro, porém, resolveu não retrucar. Após algum tempo, ela tomou coragem e disse:
_Acho que eu... Devo pedir desculpas a você.
Shaka demonstrou certa surpresa em seu semblante:
_Desculpas?
_Sim – Liz não sabia se deveria se aproximar dele. – Desde o início você tentou me alertar sobre as ilusões, mas eu demorei a ouvir. E mesmo depois disto, eu fui um tanto... Impaciente com você.
_Impaciente?
_Sim.
A Musa da Dança se esforçou para encará-lo. Shaka, mantendo os olhos fechados como de costume, permaneceu em silêncio por mais tempo do que ela gostaria:
_Você não vai dizer nada? Eu estou... Pedindo desculpas.
O cavaleiro de Virgem, então, compreendeu:
_Se é este o caso – ele fez uma pausa. – Eu aceito as suas desculpas.
_Ótimo – Liz disse e seguiu olhando para ele como se ainda esperasse algo. – Bom, acho que agora é a sua vez, certo?
_Minha vez?
_Sim, de pedir desculpas.
Shaka levantou as sobrancelhas e disse:
_Pelo quê?
Liz se surpreendeu e, sem muito pensar, disse:
_Por ser tão... Tão... Arrogante! E incompreensivo! E por chegar simplesmente me dizendo que eu sou uma deusa grega desmemoriada e...
_Mas você é. Devido à ação do Caos – ele falou sem compreender aquela súbita explosão de palavras e temperamento. – Pensei que este ponto estava suficientemente esclarecido.
_Sim, eu posso até ser uma deusa grega desmemoriada! Mas você não acha que poderia ter me contado de outra maneira?
Shaka pareceu pensativo por alguns segundos. Depois, disse:
_Um desvio no caminho...
Liz não esperou pelo fim da resposta. Ela apenas deixou o estúdio de dança na direção do seu quarto e, segundos depois, o barulho de uma porta sendo fechada violentamente foi ouvido. Sem achar que estava errado, Shaka voltou à sua meditação:
_Om...
Santuário. Casa de Libra.
Escondida atrás das mechas do seu cabelo escuro, Mai observava as convidadas que chegaram inesperadamente na hora do chá. Sem constrangimento algum, Kieve liquidava com os últimos biscoitos da bandeja, enquanto King lambia as migalhas em seu rosto.
_Você é um guloso, sabia? – A Musa da Comédia disse para o cachorro, com a boca bem cheia. – Assim vai ter dor de barriga.
King apenas balançou o rabo e seguiu lambendo as migalhas nas bochechas de Kieve. Por sua vez, Sophi fazia muitas perguntas sobre o Santuário, e Dohko parecia feliz em respondê-las.
Por um breve momento, Mai sentiu o peso do ciúme em seu peito. No entanto, Kieve arrotou e, em seguida, lhe falou baixinho:
_Não esquenta, fofa. Essa daí tá caidinha por aquele esquisito, o que tem as pintinhas na testa. Só não vê quem não quer.
_Me-mesmo?
_Sim. Presta atenção na conversa – Kieve disse e começou a imitar Sophi. – O Bu é cavaleiro de Áries há muito tempo? Por que só o Bu conserta armaduras? O Bu isso, o Bu aquilo...
Mai riu da imitação e falou:
_Acho que o nome de-dele não é Bu.
_Tanto faz – Kieve respondeu. – O importante é que você não tem concorrência.
Mai corou. Se Kieve havia percebido o seu sentimento por Dohko, será que outras pessoas perceberiam também?
_Ah, relaxa – a Musa da Comédia disse ao perceber a tensão da irmã. – Eu não vou contar pra ninguém que você gosta dele. Mas fique sabendo que a paixonite está estampada na sua... – num gesto quase familiar, Kieve tirou os cabelos do rosto de Mai. – Cara. Engraçado... Olhando bem, eu acho que conheço você de algum lugar.
_Ta-talvez porque nós so-somos irmãs.
Kieve riu e lambeu as migalhas dos dedos:
_Eu não acredito nessa loucura – ela disse descontraidamente. – Mas se você tiver outros biscoitos por aí, eu continuo fingindo que sim.
As duas riram e tomaram o caminho até a cozinha. Mai tropeçou no caminho, mas Kieve a segurou antes que fosse ao chão. King seguiu as duas, claro. Enquanto isso, Sophi esperou um momento, até que ambas estivessem longe, e perguntou:
_Como ela está?
_A Mai?
_Sim.
O cavaleiro de Libra suspirou e respondeu:
_Triste na maior parte do tempo.
_Imagino que seja difícil para ela.
Dohko assentiu e sugeriu:
_Se vocês se aproximassem mais, talvez ela...
_Entendo.
Sophi pousou a xícara na mesinha e se dirigiu até a cozinha. Passados alguns minutos, ele ouviu risadas, inclusive a de Mai. Isto deu um enorme alívio ao seu coração.
_Mas quem é Bu? – Perguntou-se.
Terminal de Cruceros Quinquela Martín. Buenos Aires, Argentina.
Apesar da aparente normalidade, as autoridades argentinas decidiram manter o espaço aéreo fechado por tempo indeterminado, e exatamente por isto o terminal de cruzeiros estava repleto de gente. Assim como Catarina e Aioria, todos ali pretendiam deixar o país, mas esbarravam no mesmo problema:
_Não há passagens disponíveis, senhor – o cansado funcionário da empresa de navegação disse automaticamente.
_Mas nós precisamos sair daqui – o cavaleiro de Leão insistiu. – O próprio cosmos depende disso!
O funcionário não deu a mínima e respondeu:
_Eu sinto muito senhor. Próximo!
Aioria estava disposto a insistir, mas foi arrastado pela multidão que cercava o guichê da companhia, e logo o funcionário deu a mesma resposta para outra pessoa. Não muito longe, Catarina conversava com uma autoridade do terminal de cruzeiros, a qual lhe explicava a situação:
_Quando foram informados de que a cidade estava sendo atacada, os navios que esperávamos mudaram as suas rotas para longe daqui.
_Compreensível – a Musa da Tragédia disse. – Obrigada pela informação, senhor.
O homem respondeu com um gesto de cabeça e se foi. Não demorou e Aioria se aproximou de Catarina, visivelmente preocupado:
_Eu não consegui passagens – ele disse. – E você? Conseguiu alguma informação?
_Os navios desviaram as rotas – ela respondeu. – Mas se pararmos para pensar, seria realmente estranho se, com a cidade supostamente em chamas, um navio de passageiros quisesse ancorar aqui.
De repente, gritos empolgados foram ouvidos. Várias pessoas no terminal correram como se estivessem avistando algo surpreendente. Aioria se pôs em alerta, apesar de não sentir perigo próximo. Para a sua surpresa, um apito de navio soou.
_Mas o quê...?
Não demorou e um navio de passageiros despontou no horizonte. Catarina se aproximou da pequena multidão que agora observava aquela chegada inesperada. No entanto, o seu semblante curioso foi se transformando e...
_Ah, não... De novo não – ela disse ao ver o RMS Titanic II.
Superando a marca de um capítulo por ano. ^^ Obrigada por acompanharem. Bjs
