Capítulo 21 – Ciúmes
A ansiedade dominava o espírito de Misha Collins, que aguardava que Jensen e Jared aparecessem. Ele caminhava de um lado para o outro na sala. Às vezes olhava para o primo, mas não se atinha o bastante, devido ao intenso nervosismo. Só voltou a observá-lo, quando percebeu que o garoto levantou, o mais rápido que pôde.
Cambaleante, Alan tentou ir ao banheiro a tempo de pôr tudo que havia no estômago para fora em um forte enjôo, porém não conseguiu. Caiu logo depois, por causa do violento mal-estar.
O moreno o abraçou por trás, em um claro sinal de que não se importava que o menino sujasse a casa inteira. O que o mais velho queria era vê-lo melhor. E não mediria esforços para cooperar no que pudesse, pois se sentia culpado pelo precário estado de saúde do mais novo.
– Ta tudo ok – balbuciou, enquanto o outro tremia em fortes espasmos musculares, devido à grande quantia de heroína que usara. – Tudo vai dar certo – garantiu.
O rapaz escutou, com imenso alívio, alguém bater à porta. Ackles o chamara. Mas Collins gritou que não podia atendê-lo agora. Aflito, o loiro retirou a chave do bolso e a abriu. A visão, entretanto, não o agradou em nada. Claro que o jovem não se sentia bem, mas Misha não precisava ficar tão perto dele – o ciúmes do maior falava mais alto. Padalecki vinha logo atrás, e ajudava o moreno a amparar Alan, que mal conseguia permanecer de pé.
– Nós vamos levá-lo a um hospital. A ambulância já ta lá fora esperando – tranqüilizou Jared, enquanto dois médicos adentravam a pequena casa.
– Sim. Vou limpar tudo aqui, depois irei pra lá. Obrigado por tudo, Sr. Padalecki – ele se aproximou de Jensen. – Valeu, querido – sussurrou.
– De nada – respondeu secamente. – Vou falar com minha mãe – e deu as costas ao namorado.
O colega da polícia, que saía junto com o loiro, notou quão incomodado ele se sentia. E fazia uma idéia do porquê. Jared se certificou de que Alan estava em companhia dos médicos e de que os mesmos se afastavam. Só então pôde falar com o loiro.
– Você não gostou de ver os primos juntos, não é? – murmurou, para que ninguém os escutasse.
– Eu já disse... Aquele idiota gosta do Mi... E eu não vou deixar as coisas serem assim...
– Quer parar, cara? Alan está quase morrendo e você fica de ceninha... Até parece que nem conversou com o Misha, que não sabe os motivos que o levam a proteger o garoto. O que houve antes é sério demais, Jensen. Muito provavelmente o drogaram e o estupraram depois, então não é hora pra isso.
– Nossa, obrigado pelo apoio moral, Jay. Foi bastante valioso – ironizou.
– Eu não vou passar a mão na sua cabeça, amigo. E é exatamente porque considero você como a um irmão mais velho. Tente ter equilíbrio, tanto para ajudar seu namorado quanto para trabalhar. Se esse caso atrapalhar você, terei de pedir auxílio ao Sr. Beaver, o que acha?
– Eu sei cara, você ta certo – respondeu, após suspirar. – Eu só fico louco de ciúmes ao vê-los juntos assim.
– E eu entendo. Só controle um pouquinho isso, ta? A situação não é fácil, porque você não pode estar com o Misha como gostaria por causa da sua família... Mas calma. Não perca a razão.
– Ta, valeu – os dois andaram até a entrada da lanchonete. Donna lhes informou que a ambulância tinha saído em disparada, já que a situação de Alan não era muito boa.
Enquanto que Ackles conversava com a mãe, Jared retornava à casa do moreno, a fim de lhe tomar o depoimento. No caminho, porém, recebeu um telefonema animador:
– Alô, Jay? – falou o chefe. Padalecki estranhou, de início, o modo diferente de Jeffrey, que durante o trabalho nunca o chamara desse jeito. – Temos muito que comemorar, rapaz. Graças a sua descrição, em um telefonema para Pellegrino, o criminoso Philipe foi preso.
– Fala sério? Que bom! Será um alívio enorme para todos aqui – respondeu. – O senhor participou da operação?
– Sim, acompanhei o Sr. Mark Pellegrino e o Sr. Jim Beaver. E encontramos várias seringas de heroína com o cara, o que significa dizer que ele ta mais do que encrencado.
– Ok, então darei a boa notícia a todos por aqui. Obrigado por ligar, chefe.
– De nada, Jared. Cuidem-se. E acompanhe o caso de perto. Embora o psicopata esteja na cadeia, temos um provável caso de estupro, o que complicaria a situação de Philipe.
– Sim senhor. Até logo – despediram-se, e o policial bateu à porta da residência de Misha. – Posso entrar? – perguntou, assim que o viu.
– Sim, claro. Fique à vontade. Terminei de limpar tudo agora pouco – disse. – Sente-se.
O moreno mais novo se acomodou no sofá. Pensou em algo que pudesse usar para tomar o depoimento do rapaz, mas resolveu improvisar: tirou da mochila que trazia consigo um mp4. Após iniciar a gravação, fez as perguntas necessárias ao outro, que não se negou a relatar o que houve.
Collins respondeu a tudo detalhadamente, embora se mostrasse ansioso para obter notícias de Alan e para, na medida do possível, conversar com Jensen, pois sentira que algo não estava bem entre eles.
Antes que Padalecki saísse, ele pediu que o policial entregasse um bilhete ao colega. E assim foi feito. Jared esperou o momento certo – porque Josh não saía de perto do irmão e da mãe –, para alcançar a Ackles o que o moreno lhe escrevera.
Tratava-se de um recado simples: o rapaz queria vê-lo. Mas o loiro não daria o braço a torcer, não agora. Como sabia que Collins pretendia conversar com ele antes de ir ver o primo, Jensen o deixou esperando e, quando surgiu a oportunidade de deixar a lanchonete, subiu ao quarto e foi dormir. Estava irritado por ter visto os dois tão próximos. Não queria pensar na possibilidade de perder o moreno, sem compreender que, na verdade, tal atitude não era a mais correta. O ciúmes, entretanto, não lhe permitia raciocinar. Por isso o melhor a fazer era dormir. Quem sabe no dia seguinte tudo se acalmasse para eles.
Misha, por outro lado, aguardava que o loiro aparecesse. Impaciente, circulava pela sala, ia ao quarto, depois à cozinha beber um pouco de água para se acalmar. Nada, porém, o tranqüilizava. Ele sabia que Jared entregara o bilhete ao policial mais velho, mas não entendia por quais motivos Ackles não viera conversar. Claro que sentia que o maior estava irritado e porque não dizer enciumado, no entanto não via razão para tamanho gelo que levava do namorado.
– Eu só cuidava de Alan... Droga – murmurou consigo. – Acho que ele não vai aparecer.
O menor procurou ignorar a ansiedade e a incerteza que preenchiam seu coração. Precisava descansar para, no dia seguinte, se entender com o homem que amava. Sim, embora estivessem juntos a poucas semanas, o moreno tinha absoluta certeza, por todos os momentos de carinho e de prazer que compartilharam, de que o amava. Por isso não conseguiu ter uma noite tranqüila de sono. Revirou na cama até que seu horário de trabalho chegasse. Levantou apressado e, sem beber sequer um copo de café, se dirigiu à lanchonete.
Quando iniciaria o dia com a costumeira limpeza no balcão de atendimento, Jensen o chamou. Tinha uma expressão séria e o semblante fechado. Eles foram à rua para que conversassem com maior privacidade.
– Eu vou direto ao ponto – começou. – Não gostei nada de ver Alan e você agarrados daquele modo... – comentou, sem cumprimentar o menor.
– Primeiro, nós não estávamos agarrados. O garoto tava passando mal. O que queria que eu fizesse?
– Eu sei, mas ele não é responsabilidade sua. Você não precisa fazer isso...
– Ei, Jen, eu não quero brigar, ok? – Misha tinha o tom sereno. – Só que não sei como fazer você crer que Alan e eu não temos nada...
– Eu sei que vocês não têm nenhuma proximidade, mas já tiveram... E isso me incomoda – admitiu.
– Entendo – respirou fundo e olhou para as nuvens no céu. – Mas assim como eu tive meus relacionamentos, você também teve os seus, não é? – o loiro assentiu. – E então, por favor, não vamos dificultar tudo... Por que eu te amo.
– Eu também, Mish – ambos não contiveram o desejo de se beijarem. Embora não quisessem fazer aquilo em um local público, a vontade era maior.
Quando se deram conta, seus lábios já estavam grudados em um beijo intenso. Ackles puxou o moreno para mais perto, enquanto sua língua pedia passagem em um beijo cada vez mais profundo. Bem que Collins queria fazê-lo parar, temeroso de que alguém da família do loiro os visse atracados. Qualquer linha de raciocínio, porém, era impossível de ser seguida com os habilidosos dedos do policial tocando em seu quadril e a quente língua se movendo em sua boca.
Somente se afastaram, quando Mackenzie – irmã de Jensen –, surgiu. Ela iria para a escola e, por sorte, estava sozinha. Ao vê-los juntos, a menina os observou demoradamente. Quanto aos dois, gelaram de pavor. Misha, porque pensava que, provavelmente, perderia o namorado e o emprego; Jensen, porque apesar de ter contado para ela sobre a relação deles, tinha vergonha de admitir o envolvimento que eles tinham.
Loiro e moreno permaneceram estáticos, como se esperassem que a garota lhes dissesse algo de relevante. Nenhum dos dois esboçava qualquer reação, apenas olhavam, confusos, para os próprios pés.
