Somebody to Love You
Capítulo 21
O queixo de Rachel desabou quando ela absorveu o significado pleno do que Santana inocentemente acabara de revelar. Antes que ela pudesse reagir, a boca de Jesse estava na sua, calando efetivamente a resposta cortante que ele tinha certeza que ela estava a ponto de soltar para a líder de torcida. Com os braços presos firmemente em torno do corpo magro de Rachel, ele a sentiu tremer. Aproximando a boca do ouvido dela, ele ofereceu, em voz baixa, palavras de cautela.
"Fique calma. A última coisa que você quer é uma briga pública".
A resposta dela foi o mais suave sussurro.
"Não vou fazer nada idiota. Mas preciso sair daqui".
Pegando outro guardanapo, Jesse rabiscou uma nota rápida e discretamente chamou outra vez o garçom. Ao aceno do homem, Jesse jogou algumas notas sobre a mesa – o rapaz merecia uma gorjeta pelo serviço, mesmo que eles não tivessem tido a chance de pedir nada – antes de colocar sua jaqueta sobre os ombros de Rachel. Assim que ela puxou o capuz sobre sua cabeça em uma tentativa de disfarçar-se, eles saíram da cabine, e seguindo os passos do garçom, dirigiram-se para a porta de trás. Assim que desapareceram em um canto, Brittany avistou um pedaço da silhueta que se afastava de Jesse. Ela franziu a testa enquanto tentava reconhecer os cachos escuros estranhamente familiares.
"Ei, San, aquele ali não é o filho do Sr. Schue?"
Santana virou sua cabeça na direção que Brittany apontou, mas foi um segundo tarde demais. Virando-se para a loira à sua frente, ela pressionou para mais informação.
"O Sr. Schue não tem um filho, Brit. De quem você está falando?"
"Você sabe, daquele cara que saiu do Vocal Adrenaline. Ele era a cara do Sr. Schue".
"Jesse St. James? você acha que o viu aqui?"
"Bom, eu só vi a trás da cabeça dele. Ele tinha cabelo cacheado".
"Um monte de gente tem cabelo cacheado, Brit, e já que o St. Jerk era finalista no ano passado, tenho quase certeza que ele se mandou do Ohio na primeira oportunidade. Não posso imaginar por que ele voltaria a Lima. O único laço dele à cidade é a ManHands, e não tem chance de ela ter dado bola pra ele depois de ele ter dado o fora nela e depois aquele banho de ovo antes das regionais".
"Tem razão. Provavelmente não era ela. Então, vamos voltar a você e o Finn..."
Assim que eles saíram do restaurante para a rua de trás, Rachel saiu correndo, precisando dissipar um pouco da raiva que borbulhava dentro dela. Jesse a seguiu sem esforço, mantendo o ritmo mesmo quando ela disparou nos metros finais até o Range Rover. Assim que eles pararam, ele a observou com cuidados, tentando sondar a reação dela ao que tinham acabado de ouvir. Ficou aliviado ao perceber que, apesar de os olhos dela estarem brilhando, estavam secos. Incapaz de ficar parada, ela começou a perambular, xingando Finn enquanto o fazia.
"Aquele babaca podre, imprestável! Como ele fez isso comigo?"
"Dormir com a Santana?"
Jesse viu-se inconscientemente prendendo a respiração enquanto esperava a resposta dela, odiando o significado de uma resposta afirmativa. Se ela estava furiosa com Finn por ter feito sexo com outra garota, seria um claro indicativo de que ela nutria sentimentos mal-resolvidos pelo idiota.
"Isso".
Ela viu o lampejo de dor que apareceu no rosto dele antes que ele rapidamente o disfarçasse. Erguendo uma mão até o rosto dele, ela o acariciou suavemente, buscando acalmá-lo.
"Não foi isso que eu quis dizer. Não me importa que ele tenha dormido com outra..."
Ele ergueu uma sobrancelha, em ceticismo, mas não fez outro comentário. Ela apressou-se a explicar.
"O que me irrita é que, de todas as pessoas que ele podia ter escolhido, ele elegeu a Santana. Ela é meio que a rainha do colchão de McKinley. Ele não a ama. Não sei nem se ele gosta dela de verdade. Mas ele deixou que ela fosse a primeira mulher dele".
"E isso te irrita por que...?"
"Eu te falei que o sexo é muito importante para uma garota. Por algum motivo, achei que também era pro Finn. Achei que ele era diferente, e é desapontador saber que ele é apenas como qualquer outro cara".
A voz dele era baixa quando ele falou.
"Você quer dizer que ele é como eu".
"Não, eu..." Ela se calou e suspirou profundamente. "Tá. Sim. Fico perturbada de saber que você esteve com outras meninas".
"Não desde que nos conhecemos".
Os olhos dela se arregalaram ao que ele admitiu.
"Eu... não sabia. Nem uma vez? Nem mesmo quando você esteve em San Diego com o... seu time?"
"Especialmente não nessa época. Eu estava magoado e precisava de espaço, mas foi então que eu percebi plenamente que você tinha se tornado bem mais importante pra mim que apenas mais um exercício de atuação".
Ele fez uma pausa momentânea, para organizar os pensamentos, passando uma mão pelo cabelo enquanto o fazia. Ela sorriu ao gesto, que já era tão querido para ela.
"A sua decisão de escalar os três me deixou completamente maluco. Quando parti em minha viagem de uma semana para o oeste, eu tinha prometido a mim mesmo que te deixaria para trás e me prepararia para meu retorno ao Vocal Adrenaline. Jurei que faria o que fosse necessário para conseguir isso".
"O que quer dizer?"
"Eu tinha todas as intenções de entrar em coma alcoólico e transar com qualquer garota que oferecesse".
"Mas não fez?"
"Ah, eu consegui um dos dois. Engoli álcool o suficiente para nublar seriamente meu julgamento, mas havia uma linha que eu não conseguia me forçar a cruzar. Você estava sempre lá, na minha cabeça, inabalável. Toda vez que eu considerava sequer a ideia de levar uma de minhas colegas para a cama, parecia uma traição. Acho que foi quando eles começaram a perceber tudo, notando o quanto você era importante pra mim. Foi o que os fez tão determinados a fazerem de você o objeto de nossa funkificação".
"Obrigada por explicar tudo isso".
"De nada".
Ele pegou as mãos dela nas suas antes de continuar.
"Não posso mudar o passado, Rach. Eu obviamente não sou nenhum virgem. Mas posso te prometer que isso – quando quer que decidamos dormir juntos – não vai ser insignificante, e não vai ser uma vez só. Porque, até agora, isso foi tudo que eu conheci. Com você vai ser diferente".
Ela não pôde evitar arquear uma sobrancelha a ele.
"Que certeza de si mesmo, não?"
A resposta dele não tinha um traço de humor.
"Tenho certeza de nós".
Às palavras dele, ela o abraçou pela cintura e o puxou para perto, apoiando a cabeça em seu peito e ouvindo os batimentos cardíacos lentos e estáveis. Apesar de ainda estar louca de raiva de Finn, a conversa com Jesse servira para dissipar um pouco de sua fúria. Como se esperando ler a mente dela, ele ergueu seu rosto para o dele e olhou fixamente nos profundos olhos castanhos.
"Sente-se melhor?"
"Sim, obrigada. Mas ainda estou brava com o Finn. Ele mentiu pra mim. Repetidamente".
A voz dela se ergueu quando a força de sua ira a subjugou mais uma vez.
"Ele disse que me amava. Como pode ter dito isso e então ser desonesto comigo, por meses sem fim? Ele teve várias chances de abrir o jogo, mas nunca o fez. Estava provavelmente rindo de mim pelas minhas costas, achando graça do quanto eu era inocente por acreditar em tudo que ele dizia".
"Ele não foi o único que não foi honesto, Rach".
"Do que está falando?"
"Você também mentiu pra ele".
"Não menti não! Eu confessei a ele que não dormi de verdade com você. Contei a verdade".
Ele deu um olhar incrédulo para ela.
"Sempre?"
"Sim. Eu nunca..."
A negativa prendeu em sua garganta, e seu rosto se tingiu de embaraço.
"Eu entendo que você esteja brava. O Finn esteve mentindo pra você, há muito tempo, então a sua raiva tem justificativa. Mas você dificilmente não tem telhado de vidro. Você sequer mencionou a ele que estávamos trocando mensagens? Contou a ele sobre nossos telefonemas até altas horas da noite? Ele sabe que você fugiu do casamento da mãe dele pra me encontrar?"
A cada uma das perguntas dele, ela balançou a cabeça, reconhecendo em silêncio a dura e fria realidade que ele a forçava a examinar. Lentamente, a raiva que ela sentia começou a abrandar, e o rush acompanhante de adrenalina sumiu, deixando-a arrasada e trêmula. Jesse destrancou o carro, e eles entraram em seu relativo calor. Rachel conseguiu um sorriso instável enquanto desabava no abraço reconfortante dele.
"Não estou apenas brava com o Finn", ela admitiu baixinho.
Ele acariciou gentilmente as costas dela, em um gesto de silencioso encorajamento.
"Estou brava comigo mesma também. Por algum motivo que não posso explicar, coloquei o Finn em um pedestal. Ele não merecia, mas eu o idealizei em minha mente. Então, mesmo que ele não partilhasse das minhas paixões, me ignorasse metade do tempo, estivesse mais que disposto a me criticar e raramente me defendesse quando outros me atacavam física e emocionalmente, eu o visualizei como um namorado dos sonhos. Era louco e estúpido, e baseado em autodúvida, mas, mais importante, era injusto com você".
"Comigo?"
"Sim. Com você. A partir do momento que te conheci, Jesse, eu fiquei fascinada. Total e completamente. Você era tudo o que eu sempre quis – inteligente, engraçado, talentoso, lindo... E ainda assim eu não conseguia me soltar da fantasia. A loser se torna popular por namorar o quarterback. Era um clichê ruim, mas eu estava vivendo-o. Eu dei tanto desconto ao Finn por causa disso, mas não fiz o mesmo por você".
"Ele ainda está no pedestal?"
"Mas nem perto! Já tem um tempinho que ele não está muito seguro. E o que eu descobri esta noite... Bem, terminou de derrubá-lo".
"Não posso dizer que lamento em ouvir isso".
"Mas me deixou com um grande problema".
"Qual?"
"Não quero mais esperar até depois das seletivas. Não posso suportar a ideia de continuar a fingir ser a namorada apaixonada do Finn. Tenho vontade de socá-lo, não de cantar com ele".
Ele riu à imagem da morena baixinha dando um soco no estranhamente alto jogador de futebol.
"Acho que vou pagar pra ver isso", ele brincou.
Em resposta, ela lhe deu um empurrão brincalhão. "É serio. Preciso do seu conselho".
"Você sabe que eu estou em um conflito de interesses aqui. Meu coração queria que você desse o fora nele há semanas. Minha cabeça sugere que você mantenha o plano original. Sei o quanto a competição é importante pra você".
"Mas não tenho como esperar até lá pra confrontá-lo, e, quando eu o fizer, não vai ter volta. Eu e ele vamos estar definitivamente acabados".
"Se você fizer isso, ainda vai ser capaz de cantar com ele, se for isso que o Schue no fim decida fazer?"
"Eu não vou ter problemas. Sou profissional. Vai ser um bom treino para o dia em que estiver dividindo o palco com algum idiota que insiste em comer sanduíche de alho antes de uma cena de amor. Mas não posso dizer o mesmo sobre as habilidades de Finn nesse ponto".
"Então eu sugiro que se arrisque e vá em frente".
"Tudo bem".
Pegando sua bolsa, ela a abriu e começou a revirar o que continha.
"O que está fazendo?"
"Procurando meu telefone pra ligar pro Finn".
"Agora?"
"Por que esperar? Por que deixar pra amanhã o que posso fazer hoje?"
Ele considerou lembrar a ela que eles deviam ir à casa dos tios dele, mas repensou a ideia. Tão cedo ela se livrasse do Hudson, mais cedo eles podiam estar juntos às claras. Além do que, tendo que fugir do restaurante sem comer, ele achava que ainda era relativamente cedo. Ele observou quando ela apertou um dos botões de discagem rápida, sorrindo maldosamente quando notou que era o sete. Tinha quase certeza que ele mesmo estava mais alto na lista.
Ela segurou a mão dele enquanto esperava impacientemente que Finn atendesse. Depois de vários toques, o telefonema foi para caixa de mensagens. Ela fez uma careta quando ouviu a mensagem, e então desligou sem deixar recado. Jesse a fitou, intrigado.
"O que houve?"
"Eu esqueci. O Finn saiu da cidade com a mãe dele, o Kurt e o pai do Kurt. E fez questão de dizer que não planejava ficar agarrado ao telefone enquanto estavam viajando. Além do que, isso é algo que quero fazer pessoalmente".
"Sabe quando ele vai voltar?"
"Depois de amanhã, de acordo com o que acabei de ouvir".
"Então nada mais pode ser resolvido esta noite, certo?"
"Certo".
"Vamos então ir pra casa do Drew. Ele e a Cat estão nos esperando, e estou faminto".
Os lábios dela se curvaram num sorriso maroto.
"Parece que você ainda me deve um jantar fora, St. James".
"E vou cumprir, prometo".
"Jesse?"
Tendo ouvido a porta que levava à garagem abrir, Drew chamou, incerto, o nome do sobrinho.
"Oi, tio Drew, sou eu".
A voz do homem mais velho ficou mais alta à medida que se aproximava do saguão.
"Não estávamos te esperando tão cedo. Tá tudo bem? Ou você já conseguir destruir as coisas com a Rachel?"
Drew calou-se subitamente quando avistou os adolescentes em questão. As mãos de Rachel estavam enfiadas firmemente nos bolsos de trás da calça de Jesse, enquanto os dedos dele estavam enroscados nos cabelos dela. Envolvidos em um beijo apaixonado, os dois ficaram ignorantes de qualquer um que não fosse um e outro.
"Acho que não", Drew comentou secamente antes de pigarrear para sinalizar sua presença.
Jesse relutantemente afastou os lábios dos de Rachel. Virando-se apenas de leve na direção do tio, ele manteve um braço ao redor da garota ao seu lado, jogado casualmente sobre os ombros dela.
"Odeio desapontá-lo, tio Drew, mas parece que ainda não destruí nada até agora", brincou Jesse, com um confiante sorriso de malícia no rosto.
"A noite é jovem", retrucou Drew.
"Viu o que eu tenho que aturar?" Jesse queixou-se para Rachel.
Ela apenas riu da chateação falsa na voz dele, e moveu-se em direção a Drew, que a envolveu em um abraço de boas vindas.
"Mas, sério, por que voltaram tão cedo? O restaurante não correspondeu aos efusivos elogios que a Cat e eu fizemos?"
"Parecia ótimo. Amamos o ambiente, e os cheiros estavam de babar. Mas nunca tivemos uma chance de fazer o pedido", admitiu Jesse.
"Por que não?"
"Algumas pessoas que eu conheço apareceram", confessou Rachel.
"E vocês não queriam ser vistos juntos?"
"Em parte. Se tivéssemos sido muito cuidadosos, provavelmente poderíamos escapar sem ser notados, mas elas estavam na mesa bem atrás da nossa e..."
Rachel calou-se em meio à explicação, pois seus anteriores sentimentos de raiva afloraram. Jesse interferiu fluidamente para continuar o relato da saída abortada.
"Entreouvimos uma notícia bastante chocante sobre o Finn, e a Rachel sentiu vontade de tomar ar. Quando saímos, pareceu a melhor escolha virmos para casa".
Nenhum deles tinha percebido a chegada de Cat, até que ela apareceu ao lado de Rachel e silenciosamente abriu os braços. Rachel aceitou o abraço, grata.
"Isso quer dizer que vocês não comeram?" Cat perguntou solícita.
"Nadinha", confirmou Jesse.
Cat imediatamente tomou as rédeas da situação. "Drew, por que não acende um fogo? Rachel, querida, vá com ele. Você parece gelada. Jesse, me ajude a preparar comida pra vocês dois".
Todos sabiam que era melhor não discutir as ordens de Catherine St. James quando ela estava com um humor exigente. Rachel obedientemente seguiu Drew para a sala de estar enquanto Jesse uniu-se à tia na cozinha. Enquanto ela reunia os ingredientes para uma pizza vegan, suas verdadeiras intenções para intimar o sobrinho ficaram aparentes.
"Ela está mesmo bem?"
"Ela está furiosa, e está magoada – mesmo que ela esteja dando seu melhor para disfarçar de mim este sentimento em particular".
"Por que ela faria isso?"
"Ela está tentando me poupar. Descobriu esta tarde que o Finn dormiu com uma das líderes de torcida, e tem mentido para ela sobre o assunto há meses. Ela está furiosa – e com razão – mas eu sei uma traição dessas a feriu profundamente. Ela não quer que eu pense que ela ainda se importa com o canalha, mas eu entenderia se ela estivesse triste e deprimida. E seria capaz de lidar, porque sei que eu e ela somos sólidos".
"Pobre Rachel. Ela com certeza não tem tido muita sorte com os meninos ultimamente".
"Ui".
"Se a carapuça servir, Jesse. Vocês podem ser sólidos, como você diz, mas isso é apenas porque você teve a incrivelmente boa sorte de se apaixonar por uma garota muito generosa. Pessoalmente, eu teria seduzido algum garoto a te dar uma boa surra, e me afastado com um sorriso enquanto você estivesse no chão, machucado e sangrando".
"Nunca imaginei a senhora como sendo vingativa".
"Normalmente não sou. Mas eu já vi vocês dois antes. Ela foi a melhor coisa que te aconteceu, e você cometeu o maior erro de sua vida quando permitiu que seu time ditasse seu comportamento em relação a ela".
"Por que está me contando isso agora?"
"Porque não suporto a ideia de isso acontecendo de novo. Você mudou de fato enquanto esteve fora. Notei uma maturidade maior em você, e isso é bom para o seu futuro com a Rachel. Espero que você aprecie a magnitude do presente que ela te deu ao concordar em voltar pra você".
Jesse assentiu. Satisfeita, Cat continuou.
"Mas se você a ferir uma vez. Se fizer isso de novo, não precisará se preocupar com a reação dela, porque meu novo objetivo na vida será fazer você se arrepender do dia em que nasceu".
"Pode deixar".
"Certo, acabou a bronca. Agora use o famoso charme dos St. James e dê um jeito de trazer a Rachel pra cá, mas seja sutil sobre isso".
"Alguma vez eu não fui sutil?"
Cat revirou os olhos.
"Ai, por favor. Caia fora, e leve esse ego gigantesco com você".
Dando um risinho convencido para a tia, Jesse dirigiu-se à sala de estar. Brecou na entrada enquanto observava Rachel e Drew profundamente envolvidos em uma conversa. Estava para sair discretamente quando ouviu seu nome ser mencionado. Curioso, ele ficou em silêncio, mal ousando respirar enquanto esperava as palavras seguintes.
"O Jesse pode não querer que eu te conte isso, mas ele ficou um desastre em junho. Honestamente, nunca o vi tão arrasado. Ele veio ficar um tempo conosco, e, nas primeiras semanas depois do seu rompimento, ele mal saía do quarto. E quanto à música que eu ouvia sair de lá em todas as horas... bom, vamos dizer que se eu criasse uma playlist com aquele troço, eu provavelmente a batizaria de Música Para Cortar os Pulsos. Ele nunca foi uma criança alegre – era muito sério e ambicioso pra isso – mas ele estava definitivamente melancólico. Eventualmente, ele começou a passar mais tempo conosco, mas basicamente evitou os amigos pelo resto do verão, e pareceu ter perdido todo o entusiasmo por ir à UCLA. Ah, e ele recusou-se a permitir que a Cat comprasse ovos. Dizia que simplesmente vê-los embrulhava-lhe o estômago".
Rachel surpreendeu tanto Jesse quando Drew ao rir suavemente.
"Comigo foi o contrário. Papai e eu não comemos ovos, mas eu insistia em ter alguns em casa. Acho que foi um tipo de terapia reversa".
"Deu certo?"
"Deu. Não estremeço mais quando vejo alguém segurando um".
"Fico feliz em saber. E também fico feliz – eufórico, de fato – que você tenha voltado à vida do Jesse. Ele ilumina-se quando fala de você. Você é boa pra ele".
"E ele é bom pra mim. Parece certo estar com ele de novo. Senti falta dele. Senti falta de você e da Cat também".
Pela segunda vez naquela noite, Rachel viu-se envolvida nos braços fortes de Drew. Jesse escolheu esse momento em particular para entrar casualmente na sala.
"Oi, vocês dois. Estou interrompendo?"
"Nadinha. Chegou a tempo de pegar lenha na garagem".
"Certo. A propósito, Rach, a Cat queria que você desse uma forcinha a ela. Aparentemente meus talentos domésticos não estão em alta hoje".
Drew ergueu a sobrancelha. Pareceu querer fazer algum comentário, mas um olhar de Jesse o aquietou. Assim que Rachel foi à cozinha, Jesse respondeu à silenciosa pergunta do tio.
"A Cat quer falar com ela. Me disse para ser sutil".
"Me surpreende que ela tenha acreditado nessa, considerando o quanto você cozinhou para ela".
"Tenho quase certeza que ela sabe o que eu fiz. Mas ela gosta de falar com a Cat, então não é como se fosse um esforço para eu convencê-la".
Drew riu.
"Interrogatórios separados, hein? Como foi o seu?"
"A Cat basicamente ameaçou fazer da minha vida um inferno se eu ferir a Rachel de novo".
"Ela teria que entrar na fila".
"Eu me pergunto se a Rachel sabe o quanto vocês estão profundamente ao lado dela".
"Se ela não sabia antes, depois de hoje vai saber. Agora vá pegar aquela lenha".
Quando Rachel entrou na iluminada e ventilada cozinha dos St. James, ficou apenas levemente surpresa ao ver a pizza já no forno, e Cat sentada à mesa com duas canecas fumegantes de chá à sua frente.
"Você não precisava da minha ajuda".
"Não. Só queria bater um papinho".
"Não precisava mandar o Jesse dar uma desculpinha qualquer sobre ele não saber cozinhar. Nós duas sabemos que ele é melhor nisso do que eu".
"Eu acho que ele precisa ser mais sutil", Cat ria.
O sorriso de resposta de Rachel foi caloroso quando ela acomodou-se na cadeira à frente de Cat. Levando a caneca à boca, ela bebericou o líquido quente apreciativamente.
"Como sabia que eu precisava disso?"
"Sou vidente", brincou Cat. "É de família".
"Obrigada".
"De nada".
Um silêncio fácil caiu entre elas. Cat foi a primeira a falar.
"Rachel, você sabe o quanto nós – o Drew e eu – gostamos de você, certo?"
"Sim".
"Não tenho certeza se você percebeu... bem... quando você e o Jesse namoraram na primavera, nós acabamos vendo você como sendo nossa... quase como a filha que nunca tivemos".
Os olhos de Rachel ficaram úmidos à confissão de Cat.
"Enfim... sei que você tem dois pais ótimos, e não estou tentando assumir o lugar deles... mas simplesmente queria que você soubesse que, se tiver algo sobre o que você gostaria de conversar... algo que você acha que poderia ter uma opinião feminina... eu sou uma boa ouvinte, e dou bons conselhos – ou pelo menos me dizem isso".
"Você deve ser mesmo vidente", Rachel murmurou, com um olhar perplexo no rosto.
"Algo te incomoda?"
"Sim. Eu amo meus pais, amo muito, mas nos últimos dias ando tão constrangida..."
"Por quê?" A pergunta de Cat foi gentil.
"Eles começaram a falar comigo sobre sexo... e contracepção..."
"É mesmo?"
"Quero dizer, não que eles não tivessem falado antes. Ouvi o papo sobre os fatos da vida há anos. Mas agora não é mais abstrato. É sobre o Jesse, e eu... e eles marcaram uma consulta pra mim com a nossa médica pra começar a tomar anticoncepcional".
A última parte saiu aos borbotões, de tão ansiosa que Rachel estava por finalmente discutir a situação com alguém que poderia dar uma perspectiva feminina.
"Isso parece prático da parte deles. Eles sempre foram assim racionais?"
Pousando a cabeça nas mãos por um momento enquanto ponderava a pergunta de Cat, Rachel foi acertada por um repentino insight.
"É completamente diferente dessa vez!"
"O que? O jeito com que eles reagem ao seu namoro com o Jesse?"
"Não, isso não mudou nada. Agora que penso nisso, eles sempre aceitaram a presença dele. Meu pai gostaria que a gente se controlasse um pouco mais, mas ele nunca nos deu uma bronca. Tenho quase certeza que papai o mantinha sob controle".
"Então a diferença que você está falando..."
"É com o Finn. Meus pais nunca me pediram para tomar cuidado ou me precaver quando eu estava com ele".
Ela franziu a testa enquanto tentava entender as abordagens aparentemente contraditórias aos dois garotos em questão. Incapaz de alcançar uma conclusão satisfatória, ela encolheu os ombros, derrotada. Cat sorriu sabiamente em resposta.
"Eles não são cegos, Rachel, e nem somos nós. A gente vê o jeito que você e o Jesse se olham. O jeito com que se comportam perto um do outro. Mesmo quando não estão se tocando, é tão óbvio que vocês querem se tocar. Tem essa eletricidade entre vocês dois. É poderosa, e é impossível de ignorá-la".
"O que está dizendo é que meus pais perceberam isso com o Jesse, mas não com o Finn?"
"Não sei muito sobre o Finn – só o pouco que o Jesse me contou – mas é o que eu acho. Também suspeito que, se aconteceu com eles como foi com o Drew e eu, seus pais pegaram vocês dois aos amassos pelo menos uma vez".
Rachel ficou cabisbaixa, recusando-se a encarar Cat, mas a leve coloração rosada que tingiu suas bochechas foi toda a confirmação que a mulher mais velha precisou.
"Olha, Rachel, não quero me intrometer. Você sabe que amo o Jesse como um filho, e você também é muito especial pra mim. E você, especialmente, é muito jovem. Mas, em muitos aspectos, é muito mais madura que várias meninas da sua idade, e tenho ciência de que vai chegar o momento em que você decidirá que está pronta pra dormir com o meu sobrinho. Então, mesmo que eu não apóie exatamente, não sou boba de proibir. Mas, exatamente como os seus pais, eu quero ter certeza de que vocês dois estejam preparados. Se tiver alguma pergunta, qualquer coisa sobre a qual esteja insegura, agora ou depois que ver a sua médica, não hesite em perguntar. Tá?"
Rachel deu um pequeno aceno, antes de dar a Cat um sorriso grato.
"Acho que vou aceitar a oferta".
"Ficarei muito feliz se aceitar".
Levantando-se de sua cadeira, Cat rodeou a mesa e deu um aperto apoiador no ombro de Rachel, antes de farejar o ar.
"Acredito que a pizza tá finalmente pronta".
Tendo decretado que deviam se aproveitar do forte fogo que Jesse e Drew haviam acendido, Cat e Rachel encheram duas bandejas com comida e bebidas, e dirigiram-se à sala de estar. Assim que entraram, Jesse moveu-se de leve e bateu no espaço ao seu lado, chamando Rachel para sentar-se ali. Acomodando-se confortavelmente, ela lhe passou uma fatia de pizza antes de servir-se de uma. Por vários minutos, nenhum deles falou, enquanto enchiam suas barrigas e matavam sua sede com a cidra sem álcool que Drew lhes servira.
Assim que acabou o jantar, Drew sacou de um dos jogos de tabuleiro favoritos da família. Depois de vários e hilariantes rounds de Imagem e Ação, Drew e Cat saíram discretamente, deixando Rachel e Jesse a sós. Apoiando-se em uma ponta do sofá, ela esticou as pernas, pousando os pés no colo dele. Pegando um dos pés dela, ele começou a massageá-lo habilmente, fazendo-a gemer de prazer. Ele riu ao som.
"Cuidado. O Drew e a Cat podem pensar que estamos fazendo algo que não devemos".
"Ótimo. Eles e os meus pais já estão convencidos de que só pensamos nisso".
Ele a encarou, com os lábios curvados em um sorriso sedutor, enquanto seus dedos subiam pela perna dela.
"Bom, pode não ser tudo que eu penso... Mas tenho que admitir que você é uma grande distração".
Sentando-se, ela aproximou os lábios da orelha dele, e suas palavras murmuradas causaram arrepios na espinha dele.
"Pode esperar, St. James. Você ainda não viu nada".
"Isso é uma ameaça?"
Ela passou a língua lentamente pelo lábio inferior, e o coração dele disparou.
"Não. É uma promessa".
Pouco depois, Jesse estacionava na frente da casa de Rachel. O relógio do painel marcava 23h51.
"Te trouxe pra casa a tempo. Acha que isso vai me dar pontos?"
"Com certeza... Conquanto que eu entre em casa antes do horário marcado".
Ele deu um olhar inocente para ela.
"Não posso pensar em qualquer razão pela qual você não entraria".
"Eu posso", ela sussurrou, antes de enfiar os dedos nos cabelos dele e puxá-lo para mais perto.
"Está tentando me colocar em confusão?" Ele perguntou em voz alta, com a voz rouca e os lábios dela a centímetros dos seus.
Em resposta, ela fechou o espaço entre os dois, pressionando seu corpo sobre o dele enquanto suas bocas se colavam. Não pela primeira vez, ele maravilhou-se com a facilidade que era perder-se nela... No gosto e no cheiro e na sensação dela. Ele já havia começado a mordiscar o pescoço sensível dela quando se afastou abruptamente.
"Eu acabei de começar a ganhar a boa vontade deles. Por mais tentadora que você seja... Que isso seja... Não posso me dar ao luxo de estragar".
"Eu sei. E eu devia entrar".
"Devia sim".
Relutantemente, ele desvencilhou-se do abraço dela e rodeou rapidamente o carro para abrir a porta dela. Quando os pés dela estavam no chão, ela pousou a cabeça no peito dele, inspirando o cheiro da colônia dele e o aroma que era unicamente Jesse. Enquanto ele a acompanhava até a porta pela segunda vez em muitas noites, ele parou pouco antes de chegarem aos degraus da frente.
"Quer que eu vá com você amanhã?"
"Pra consulta com a médica?"
"É. Se você achar que vai ajudar eu estar lá".
A expressão dela ficou séria enquanto ela contemplava a sugestão dele. Não demorou em que ela decidisse.
"Eu gostaria. Vai me acalmar. E, além do que, eu dificilmente vou dispensar uma oportunidade de passar tempo com você".
"Te pego amanhã às 10h30?"
"Combinado".
Os lábios dele roçaram na testa dela, e ela o abraçou com força em resposta antes de murmurar uma única palavra.
"Obrigada".
"Por me oferecer pra ir à sua consulta?"
"Por saber o que eu precisava esta noite. Por me distrair do Finn. Por me distrair do melhor modo possível".
"Às ordens. Um seu criado", ele murmurou, antes de dar um beijo casto no canto de sua boca.
Quando ela entrou, os dois sobressaltaram-se um pouco quando a voz de Leroy explodiu de dentro de casa.
"Parabéns, St. James. Passou no primeiro teste. Agora se afaste da porta e vá pra casa. Vai vê-la amanhã".
Com um sorriso e uma piscadinha, Jesse entrou no Range Rover e o manobrou para a rua. Rachel acenou até que os faróis dele sumiram, antes de subir as escadas e se preparar para dormir. Passaria o dia seguinte com o garoto que amava, e precisava de seu sono de beleza.
