Disclaimer: Twilight não me pertence, mas essa história, assim como a filha da Bella e do Edward sim, portanto respeitem!

Obrigada a Cella por betar o capítulo, obrigada a Dandara por pré-ler, e obrigada às duas por terem dado dicas, opiniões sinceras e etc!

SURPRESA: tenho um agradinho pra quem ler esse capítulo. Vejam detalhes na N/A.

Arranjem um lugar confortável pra sentar, porque não vai ser tão fácil. Apresento o capítulo mais difícil que já escrevi até hoje.


Capítulo 20: Respostas

- Estou pronta.

Edward na mesma hora entendeu o que eu estava lhe dizendo. Segundos de silêncio passaram antes que ele falasse.

- T-tem certeza?

- Toda.

Eu assisti o sorriso agraciar seu rosto lentamente, como o sol saindo tímido depois de um intenso dia de chuva. No entanto, eu não poderia retribuir igualmente, nem que eu quisesse. O sentimento instável e desconfortável dentro de mim não permitiria.

- Obrigado, Bella. Muito obrigado, você não faz ideia do quanto isso significa pra mim.

Extasiado poderia descrever o seu estado. Tive medo de que ele se ajoelhasse aos meus pés, bem no meio daquele hospital.

- Sim, eu imagino. – Significa tudo pra nós, pensei ao murmurar. - Eu só espero estar fazendo a coisa certa.

- Você está. – completou com convicção.

Concordamos de nos encontrarmos quando as coisas estivessem menos turbulentas, no fim dessa semana. Eu iria ao seu apartamento e daria um jeito de deixar Claire em casa sem que ela desconfiasse de nada - e ele faria o mesmo para despistar Tanya. O aspecto proibitivo da ocasião não me agradava, mas era melhor do que ter que lidar com perguntas desconfortáveis. Eu havia pensado em propôr um lugar neutro para os dois, como um restaurante, porém preferi não arriscar. Algo dessa natureza lidaria com emoções demais para ser compartilhadas com terceiros.

Durante o restante do dia, Edward parecia estupidamente contente quando estava na minha presença, agindo com mais gentileza do que o normal, a ponto de me irritar. O traço de sorriso em seu rosto só me deixava ainda mais nervosa.

Alice conseguira chegar após 12 horas em dois aeroportos, na madrugada de segunda-feira. Edward entrou no quarto com a irmã atordoada, porém não puderam visitar Rose por muito tempo, já que a garota dormia profundamente devido aos remédios.

Quando Alice me avistou esperando pelos dois no corredor, ela veio em minha direção, cabisbaixa e com olhar distante. Pálida como uma folha de papel em branco, a não ser pelo arroxeado sob os olhos, os quais estavam opacos, não indicando nem tristeza, nem raiva. Eu jamais havia visto minha amiga assim. Era um estado de choque, sem dúvidas. Sem palavras, eu apenas abracei seu corpo rígido, enquanto Edward acariciava suas costas em círculos.

Nos sentamos na bendita sala de espera, em silêncio, enquanto Esme explicava com mais detalhes o que havia acontecido. Alice estava inerte ao meu lado, estóica, olhando para o nada, apenas assentindo a cabeça quando era conveniente. Jasper chegou minutos depois, trotando em passos apressados; seus olhos estavam como duas imensas órbitas azul claras, o desespero espelhado ali.

Alice se ergueu rapidamente e ambos se encontraram em um abraço. Segurando um ao outro com a força e segurança que só os casais mais amorosos conseguiam. E então eu vi o angustiante momento em que Alice desabou - bastou que ela olhasse mais uma vez para o marido. Seu peito arfava, até que a primeira lágrima que parecia estar presa dentro de si há dias escapou.

- Ela estava grávida, Jasper. Grávida. – falou, escondendo o rosto no peito de Jasper.

- Sim, querida. – ele murmurou complacentemente, tão perturbado quanto.

- E eu nem soube que nós seríamos... – suas palavras não ditas perduraram no ar.

- Está tudo bem. Vai ficar tudo bem, meu amor. – Jasper falou, lhe abraçando com força. Era tudo o que ele poderia fazer naquele momento.

Eu voltei para casa depois de quase 10 horas no hospital no domingo. Após um fim de semana inteiro revezando com a família Cullen o posto de acompanhante de Rose, eu me sentia exausta. Minhas costas ardiam, doloridas, e minha cabeça pulsava. Depois de um longo e merecido banho de banheira, eu escovei os dentes, pus o pijama e beijei a testa de Claire, que dormia na minha cama naquela noite.

Deitei a cabeça no travesseiro em alguma hora avançada da madrugada de segunda-feira. Ouvindo o suave e compassado ressonar da respiração de minha filha, adormeci envolta por uma tranquilidade que era mais do que bem-vinda.

Meu estômago estava embrulhado desde que acordei. Minhas mãos suavam e tremiam. Minha boca estava seca como o deserto, e eu quase esquecera minha bolsa na redação ao sair do trabalho, tamanha a agitação que estava na minha mente.

Em frente ao apartamento de Edward, eu andava de um lado a outro há cinco minutos. Ou mais. Tentava achar toda a coragem que tive em mim, semana passada naquele hospital, para tocar a campainha e acabar de uma vez por todas com isso.

Olhei o relógio novamente. Eram 19h35 de sexta-feira. 10 de julho de 2010. Oito anos e dois meses desde que Edward saíra de casa. Chegou a hora, Bella. Vocês já perderam tempo demais, minha consciência me alertou, me impulsionando com um passo a frente.

Apertei o botão da campainha com trepidação. Alguns segundos sem resposta passaram, e eu prendi a respiração. Estava de olhos fechados quando ouvi o trinco girar, e os abri ao sentir a porta se abrindo.

- Oi. – Edward foi o primeiro a dizer.

- Oi. – minha voz falhou.

Com o cumprimento desconfortável, ele me convidou para sua casa. Caminhei com passos hesitantes para dentro da sala. Com uma mão estendida, ele gesticulou para o sofá, onde em seguida me sentei. Foi um alívio tirar o peso das minhas pernas, quase bambas. Edward, no entanto, permaneceu de pé próximo a porta.

- Você chegou cedo. – comentou.

- Na verdade, não, estou cinco minutos atrasada.

- Estava com medo de entrar?

- O quê? – perguntei afoita. Mas é claro que ele tinha me flagrado andando de um lado a outro no corredor como uma idiota. Merda.

Edward sorriu suavemente.

- Eu vi o seu carro lá embaixo.

Abri a boca para falar, mas não tive chance.

- Não se preocupe, eu não estava espionando. Estava trocando de roupa, pra dizer a verdade. – emendou.

Assenti a cabeça lentamente.

- Tudo bem – E então notei que ele vestia roupas despojadas, como eu não via há muito tempo. Seu cabelo estava molhado, sua pele brilhava com o viço típico do pós-banho.

Com a minha última palavra pendurada no ar, ficamos em silêncio. O bendito silêncio que entre nós era sempre barulhento demais. Mas eu ainda não tinha condição de quebrá-lo.

- Então, você quer beber alguma coisa? – de repente, ele falou. - Tem água, suco, vinho tinto, vodka...

- Seleção eclética. – eu bufei uma risada desajeitada. Ele deu de ombros. - Ahn... Acho que aceito uma taça de vinho.

Resolvi que o encorajamento do álcool nesse momento poderia fazer bem. Mas sem exagerar, prometi a mim mesma.

Edward se encaminhou para a cozinha, e eu fiquei na sala, desconfortavelmente sentada na ponta do assento, com as pernas cruzadas e as mãos entrelaçadas segurando o joelho, encarando a grande televisão preta em frente. O silêncio me deixava mais impaciente, e meu pé livre não parava quieto. Estiquei a cabeça na direção da cozinha quando ouvi tilintares de vidro. Vi quando Edward se esforçou para abrir uma garrafa nova e que devia ter custado caro. Talvez não tivesse sido uma boa ideia pedir vinho de cara. Céus, por quê isso parecia tão estranho?

- Você não jantou ainda, não é? – perguntou com a voz alta.

- Não, saí do trabalho agora há pouco.

- Ótimo. Eu tenho dois embrulhos bem guardados no forno. Foi Nahuel quem preparou, tenho certeza que você vai adorar. Ah, e ainda estão quentes.

- Você não precisava se dar ao trabalho, mas obrigada. – falei.

Edward veio até a mim e entregou minha taça. Deu meia volta para a cozinha enquanto eu dava o primeiro gole no líquido, o qual desceu queimando pela minha garganta. Minha boca estava tão seca que com certeza acabei tomado alguns goles a mais do que o razoável de uma vez só.

Percebendo a movimentação de Edward pela cozinha novamente, pensei em ser útil por gentileza. Ficar olhando para o nada já estava me deixando agoniada.

- Precisa de ajuda? – perguntei.

- Não, claro que não. Você é minha convidada.

- Edward, eu não sou sua convidada. Só estou aqui porque... – ao invés de terminar a frase, bebi outro gole de vinho.

Ele parou para olhar para mim por um instante.

– Olha, eu sei que é difícil aceitar que eu sou uma pessoa legal e não um imbecil, mas tenha um pouco de fé. Não há problema algum em deixar que eu te sirva.

Eu não tinha nenhuma resposta afiada na ponta da língua, então apenas assisti enquanto ele colocava pratos e talheres à mesa de jantar, onde já havia uma toalha estendida apenas sobre a metade que usaríamos. Edward voltou para buscar duas travessas, equilibrando uma em cada mão, muito perto de derrubá-las ao chão.

- Está quente. – falou repousando as travessas com rapidez antes de sair abanando as mãos sem luvas e xingando baixo. Eu sacudi a cabeça, e senti vontade de sorrir ao ver a cena afobada. Ambos estávamos ansiosos, era fácil de notar, e foi bom não me sentir sozinha na situação.

Edward sentou-se na cadeira da ponta, e eu ao seu lado esquerdo. Não era próximo demais, tampouco distante demais. Me dava segurança em ter meu próprio espaço.

Ele me serviu com cuidado. Havia algo de diferente na sua maneira. Eu me lembrava de tantas outras ocasiões em que Edward servira um prato para mim, e no entanto, não era como antes. Havia uma suavidade nos movimentos de suas mãos, se contrapondo à afobação e rispidez que eu me recordava de outros tempos. Eu me perguntei o que havia mudado para deixá-lo assim.

- Isso cheira muito bem. – comentei. Meu estômago pareceu resolver desembrulhar naquele instante, e eu salivei ao olhar a comida.

- É medalhão de filé mignon ao molho de alho poró e risoto de cogumelos. Ou algo assim. Eu apenas pedi pra que preparassem um jantar especial.

Um jantar especial.

Minha cabeça rodou com a entonação da sua voz profunda ao falar as palavras. Ele havia pensado em tudo, e agia como agiu no hospital no final do domingo. Tudo só para mim.

Meu coração se apertou. Eu não queria que Edward tivesse ilusões de que minha presença significava outra coisa, e muito menos saberia lidar se ele estivesse com segundas intenções.

- Edward, eu agradeço muito por tudo isso. – indiquei com a mão para a mesa posta. - Mas... Você tem que estar ciente de que só porque estou aqui, não quer dizer que tudo será magicamente resolvido. Eu vim para conversar, e só o que eu posso fazer é te ouvir e questionar. Se está fazendo tudo isso só para me agradar ou...

Ele parou por um instante de mexer com o garfo em seu prato, erguendo a cabeça com um olhar que deixava escapar sua insegurança bem mascarada.

- Eu sei, Bella, eu tenho total consciência. Eu só queria te deixar confortável e ser cortês. E acredite, já estou grato por você ter tomado sua decisão por vontade própria. Isso basta.

- Ok. Ótimo. – disse dando uma garfada, decidindo deixar de lado o assunto, ao menos enquanto ele soasse sincero. Eu não queria parecer rude, afinal de contas.

O jantar era realmente delicioso, porém me abstive de demonstrar exageradamente meu apreço.

- Está muito bom mesmo. – comentei.

- Eu disse.

- Então... como está Rose?

- Meu pai falou que será liberada amanhã pela manhã, mas irá permanecer em repouso absoluto por algumas semanas. Parece que ela não ficou nada contente em saber que terá de se locomover em cadeira de rodas até a fissura na bacia curar completamente.

- Pobrezinha. – comentei. - E Alice e Jasper? Da última vez que eu liguei, eles pareciam mais calmos, mas bastante tristes.

- Pois é, foi isso mesmo que notei na nossa última conversa. Eles disseram também que o Emmett não quer deixá-la sozinha nem um minuto.

Eu sorri.

- Ele realmente a ama. É uma graça todo o cuidado que tem com Rose.

- Eu conheço exatamente esse sentimento. – murmurou Edward. O tom estranho me deixou desconfortável. Eu desviei o olhar e bebi mais do vinho.

- Espero que Tanya não tenha te dado muito trabalho para desmarcar seu programa dessa noite.

- Nós não tínhamos nada marcado, mas ela viria aqui. Não foi problema nenhum, também. Eu apenas disse que precisava conversar com você a respeito de Claire. Ela tem sido surpreendentemente compreensiva com o fato de eu ser pai, então ela levou numa boa.

- Exceto que não vamos falar sobre Claire.

- Sim, mas eu não menti completamente. – deu de ombros. - Ao menos ela sabe que você está aqui. Eu não gosto de esconder coisas de Tanya.

Aquilo me fez refletir. O pedaço de filé que estava engolindo desceu pesado, quase me engasgando. Eu sabia que deveria perguntar-lhe.

- Você... Você contou a ela o que houve? Na sua festa?

Eu vi seus olhos se fixarem nos meus por milésimos de segundos antes de vagarem pela mesa.

- Não. Claro que não. Eu te prometi, não foi? Não contaria a ninguém.

- Que bom.

- E Claire, como está?

- Ótima. Está na casa da Rachel, deixei que dormisse lá. Pensei que ela tivesse ligado para avisar.

- Não. Deve ter esquecido.

- Bom, você precisa buscá-la amanhã cedo, então, se ainda quiser passar o fim de semana com ela.

- Claro, sem problemas.

Em poucos minutos, nós terminamos a refeição entre um comentário e outro apenas para preencher o espaço entre nós. Resolvi parar de beber antes que ele enchesse a minha terceira taça de vinho, apenas lhe agradecendo. Obviamente, Edward não permitiu que eu levasse meus utensílios até a pia, rapidamente retirando a louça suja enquanto eu continuava sentada à mesa.

Meu coração voltava a bater mais rápido e o frio na boca do estômago ressurgia à medida que eu ouvia seus passos pela casa, suas tarefas na cozinha terminando. Após o que pareceu uma eternidade, mas antes do que eu desejava, Edward retornou para o meu lado.

Nós nos pronunciamos ao mesmo tempo.

- Eu acho que...

- Vamos...

Eu assenti para que ele continuasse.

- Bom, você está confortável aí? Quer sentar no sofá? – perguntou.

- Não, tudo bem. – falei tentando recostar minha coluna rígida na cadeira preta e macia, cruzando os braços sobre o peito.

- Ok. – ele sentou-se no mesmo lugar de antes. Eu esperei para que Edward desse o primeiro passo.

Ele exalou o ar uma vez.

- Bom. – coçou a cabeça e mexeu no cabelo. Seus olhos pularam por vários lugares, mas não pararam sobre os meus, deixando-me ainda mais sob tensão.

- Bom... – encorajei.

Segundos depois, Edward fixou o olhar na mesa enquanto dava um sorriso sorrateiro, como se lembrasse de algo engraçado. Eu lancei-lhe um olhar inquisitivo, e ele sacudiu a cabeça antes de falar com a voz mansa.

- Sabe, eu visualizei esse momento milhares de vezes. Até cheguei a sonhar, várias e várias noites. Mas ter você aqui, na minha frente, sabendo que agora é pra valer... Eu já tinha começado a acreditar que isso nunca mais iria acontecer. E, bom, agora estamos aqui, fazendo essa situação parecer uma reunião de negócios. – falou com uma risada curta, e eu sorri porque a sensação era quase essa. - Me sinto tão nervoso como se eu estivesse à frente do gerente do banco pedindo um empréstimo. Definitivamente, não foi assim que eu sonhei com esse momento.

Suspirei com um sorriso complacente.

- É verdade. Mas de que outra maneira poderia ser? Eu não imagino nenhum outro jeito mais agradável para resolver um assunto como esse. Confrontar algo assim é duro. Quero dizer, por que acha que evitei por tantos anos?

O sorriso de Edward esmaeceu em seu rosto e ele assentiu.

- É claro, você tem razão. Então... Por onde devo começar?

Eu molhei os lábios, pensando em como responder. Não haviam vastas opções, e a minha mente preferiu ressaltar o caminho óbvio.

- Eu quero que você me diga o que diria há oito anos. Me fale o que iria dizer antes de eu saber de qualquer coisa, quando você ainda sonhava com esse dia. Eu quero que me conte desde o começo.

Ele apenas meneou a cabeça e inspirou profundamente. Aos poucos, sua feição foi endurecendo. O cenho franzido indicava que refletia sobre algo. E eu nunca quis tanto ler pensamentos como naquela hora. Apesar da minha ansiedade, deixei que Edward tomasse seu tempo.

Seu olhar perdeu-se no horizonte a sua frente, fixado num momento distante do aqui e agora, e então eu soube que ele começaria a falar.

- Primeiro você tem que entender que aquela noite foi um resultado. Um acúmulo de acontecimentos na minha vida, de ações e sentimentos que em alguma hora iriam implodir dentro de mim. Isso foi a primeira coisa que o terapeuta me disse, na minha primeira consulta. Eu pedi que ele me explicasse em termos leigos e diretos e ele explicou, "Você se tornara um homem-bomba".

Edward limpou a garganta pois sua voz falhara. Eu percebi que ele travava uma batalha contra suas palavras, as quais saíam com dificuldade.

- Você deve se lembrar, Bella, de quando me conheceu. Nós tínhamos 13 ou 14 anos, e já desde aquela época eu sempre fui uma pessoa impulsiva, obstinada, e principalmente muito teimosa. Sabe, há algo que meu pai, Carlisle, sempre me dizia quando eu era adolescente. Ele falava que alguns jovens têm uma arrogância irritante de achar que o mundo gira em torno deles; que são imbatíveis, que podem ter tudo o que desejam e que sempre terão. Antes eu torcia o nariz, mas hoje eu sei o quanto eu costumava ser assim, tão arrogante de achar que a vida seria como eu sempre planejei. – falou e virou-se minimamente para me olhar de esguelha. - Portanto eu cresci dessa forma. Desde cedo tracei uma reta para alcançar meus objetivos, e apenas seguia em frente sem pensar nos sofrimentos do passado. Eu cresci evitando olhar pra ele, e isso era uma grande motivação para que eu não visse obstáculos à minha frente. Foi a forma que eu encontrei de me livrar de tudo de ruim que já existira na minha vida.

Meu coração se apertou um pouco. Sim, eu conhecia esse lado de Edward. Ele havia sido o primeiro a me notar na escola. Havia iniciado nosso primeiro beijo, e havia me pedido em namoro. Estava sempre à frente no nosso relacionamento. Não porque eu era submissa, mas porque ele era obstinado demais em conseguir o que queria. Antes mesmo dos 18 anos Edward já havia decidido que ficaríamos juntos para sempre, e que eu era a mulher da sua vida.

- Tudo o que você mais queria na adolescência era ter seu consultório e que eu fosse sua esposa, não havia forma de te contrariar. – eu falei. - Só que aí o inesperado aconteceu...

- Claire. – disse ele, assentindo lentamente. - Ela foi o primeiro desvio do meu planejamento irrefreado. Mas acredite em mim, Bella, eu jamais culpei nossa filha por nada de errado na minha vida, apesar de tudo. Muito pelo contrário, a existência dela me ensinou coisas que eu demoraria mais que o necessário a aprender. Ela fez surgir sentimentos em mim que eu jamais poderia imaginar que eu possuía, e que estavam esquecidos lá no fundo. A nossa filha me tornou uma pessoa melhor. Me transformou em um homem, aos pouquinhos. E eu sei que ela fez o mesmo com você. Em cada conquista ou dificuldade da nossa pequena família, nós três crescemos, juntos.

Nossa pequena família que agora não existia mais, completei mentalmente. O nó que surgiu na minha garganta não me permitiu falar. Eu concordei com a cabeça esperando que ele prosseguisse.

- Mesmo com toda nossa situação, desde que Claire nasceu, até pouco tempo depois de nos casarmos, eu ainda pensava que podia ter o controle total da minha vida. Meu plano continuava intacto. – ele prosseguiu. - Nossa rotina não era nada fácil, mas pra mim parecia que tudo correria de um jeito simples e harmonioso para sempre, e que daríamos um jeitinho em todas as dificuldades. Eu estava cego pela minha arrogância, e sonhando tão alto que um dia a queda seria inevitável, percebe?

Tudo o que havia na minha memória sobre o período de nossas vidas que ele descrevera – dos nossos 18 aos 22 anos - era um confuso emaranhado de sentimentos intensos, muito cansaço, muitas alegrias e, principalmente, esperança para o futuro.

- Sim, percebo. Mas eu jamais percebi qualquer arrogância em você. – Talvez eu que estivesse cega de amor e não reparei, completei mentalmente e sorri de leve, sem saber como dizer aquilo. - Eu achava até... fofo que você ainda se mantivesse firme a tantos planos e sonhos de infância, quando muitos dos meus foram varridos pro canto. Me deixava feliz saber que o choque de precisar amadurecer tão rápido não havia te arrebatado tanto quanto me arrebatou.

- Bella, até uns 21 anos você achava fofo o meu hábito irritante de nunca pentear o cabelo. Se você passava por cima disso, então passaria por cima de tudo o mais. – ele brincou, me fazendo rolar os olhos, quase envergonhada.

- Edward, me responda uma coisa. – pedi num impulso. Ele aquiesceu e eu fui em frente. - Você era feliz comigo naquele tempo, em especial?

- Eu era tão feliz, Bella. – falou com suavidade. - Sabe, poucos dias depois da nossa união no cartório, eu me peguei pensando. Me lembro nitidamente da cena. Sentado na soleira da janela num dia de chuva em 1999 enquanto esperava você voltar da casa dos seus pais com Claire, surgiu um pensamento espontâneo: "caramba, pela primeira vez na vida eu me sinto completamente feliz". Eu me dei conta de que tinha a minha família, e estava caminhando para a realização de um sonho profissional; estava quase terminando a faculdade e prestando a prova para a Escola de Medicina pela primeira vez. A minha outra família não enfrentava dramas há anos, e tudo estava indo conforme o planejado.

Ele pausou e olhou para mim, certificando-se que eu estava o acompanhando. E eu não conseguia tirar meus olhos dele.

- Só que alguns anos depois, na terapia, - continuou. - Eu consegui entender que o meu grande problema nessa fase era ter expectativas altas demais, e cobrar de mim mesmo que tudo permanecesse em ordem. Você não deve ter reparado nisso, Bella, simplesmente porque eu era muito bom em esconder meus sentimentos. Desde criança eu internalizava minhas emoções, muita coisa do que eu sentia. Era o meu mecanismo para conseguir lidar com as crises e situações difíceis. Era uma saída fácil e covarde. Uma forma de me manter tranquilizado, calmo. E então, obviamente, no momento em que eu desesperadamente necessitei expôr pra você o que eu sentia, você não quis saber de nada, e com razão. Foi uma ironia cruel que eu tomei como lição.

Eu queria interrompê-lo e falar tantas coisas, principalmente questioná-lo por nunca ter se aberto comigo sobre esses assuntos. Mas achei melhor deixar para outro momento, optando ao invés disso por perguntar algo que eu precisava entender. Meu coração começava a sofrer toda vez que ele falava de seu passado.

- Edward, você nunca me disse muito sobre a sua história com seu pai. Praticamente tudo o que eu sei foram coisas que Alice ou Esme me contaram. Por favor, me diga qual é a sua história? Por que continuou guardando tanta mágoa, tantas coisas negativas durante esses anos todos?

- Porque eu não era bem-vindo por ele.

Eu franzi o cenho.

– E o que isso significa? Não faça rodeios, Edward, não agora. Por favor, eu preciso entender.

Ele estava relutante em dizer, eu percebia. Mas afinal suspirou, e quando sua voz saiu, notei que prendia o choro.

- Meu pai... Anthony. – falou com enorme desprezo. - Ele começou a ficar agressivo depois que eu nasci. Eu fui um acidente, não era pra eu existir. Alice era a princezinha, e deveria ter sido a única. O salário de professora da mamãe e o dele, de vendedor de carros, poderia sustentar apenas uma criança. Mas então a família começou a passar por diversas crises financeiras, e ao invés de tentar melhorar de vida, Anthony se entregou à bebida. Agora você pode entender, Bella. Se eu não tivesse existido, minha mãe talvez não tivesse passado por nenhum sofrimento.

Eu esperaria por qualquer conclusão, menos aquela. Senti-me furiosa com seu auto-desprezo.

- O quê? Edward, isso provavelmente é o maior absurdo que eu já ouvi da sua boca. Não acredito que você está se condenando por nascer. – sibilei, esperando com todo coração que suas feridas não fossem tão profundas dessa forma. Eu não queria que ele desejasse não existir. Se Edward não existisse, minha vida seria outra, e eu não precisava ter bola de cristal para adivinhar que não seria tão boa quanto era agora.

Ele sacudiu a cabeça.

- Não estou dizendo isso. Eu já aceitei o fato de que eu jamais devo me culpar, porque a culpa é toda do doente do meu pai biológico. Mas mesmo assim, é um fato; as coisas poderiam ter sido diferentes.

- Você já parou pra pensar que talvez as coisas pudessem ter sido da mesma forma, mesmo você não tendo nascido? Quem te garante que de uma hora para outra seu pai não iria fazer o mesmo, ou talvez até coisa pior? Talvez sua mãe nem tivesse forças pra fugir, se não fosse por você e sua irmã. Não é possível prever as hipóteses de coisas passadas.

- Você está certa, e faz esse assunto soar fácil de entender. Mas não é. Não pra mim, porque isso é uma mancha no meu passado. Você não faz ideia do que é crescer com a sombra de medo por algo voltar a acontecer, e com o peso de uma culpa que nem mesmo é sua.

- Não, eu não faço ideia, Edward, esse é o problema! – esbravejei, freneticamente. - Se ao menos você tivesse pedido por uma luz, uma guia. Eu podia ter sido essa pessoa pra você. Por Deus, eu pensei que você soubesse que eu era capaz de me atirar na frente de um carro se isso te poupasse de alguma dor. Tem ideia do quão impotente eu me sinto depois de saber de toda essa merda? É como se nada do que fiz na sua vida tivesse valido a pena.

Ele ficou em silêncio por longos minutos após meu desabafo acalorado, apenas deixando que minhas palavras assentassem em seu interior.

- Não diga isso. - Edward voltou a falar, e eu busquei seu olhar, apreensiva. - Não diga que nada do que fez valeu a pena. Você foi a melhor coisa que já me aconteceu, Bella. Mas aparentemente eu nunca soube fazer o que era certo pra não te perder. Eu estive errado, todo aquele tempo, porque fui covarde por não me comunicar com a pessoa mais importante pra mim. Acabei criando a minha própria armadilha.

Edward estava certo, e eu só podia concordar.

- Que bom que você tem isso em mente. Mas agora me conte sobre o que passou pela sua cabeça para sair de casa daquela forma. – pedi secamente para que prosseguisse de acordo com a ordem dos fatos. Meu coração já palpitava e minha barriga estava gelada apenas com a ansiedade.

- Claro. – disse limpando a garganta, enquanto eu arrancava minhas cutículas com os dedos sem mesmo notar. - Bom, depois da primeira vez que falhei o teste da Escola de Medicina, tudo passou a ser uma bola de neve. Não conseguia mais parar em um emprego, eu estava andando desleixado; o nosso dinheiro começou a apertar depois que nos mudamos para nosso apartamento, e eu precisava estudar, além de tudo. Não conseguia mais lidar com os problemas da forma como sempre achei que podia. Eu só conseguia pensar que estava me distanciando cada vez mais do modelo de homem que eu queria ser, do futuro que eu queria dar a vocês.

- Você queria ser bem-sucedido como Carlisle ou Jasper, sempre falou isso. – confirmei, e ele aquiesceu.

- Sim. Eles eram meus modelos, principalmente o meu pai Carlisle. Eu cresci vendo a forma como ele tinha salvado nossa família, e como todos os dias ele salvava as famílias de tanta gente. Isso era o meu sonho maior. Poder ser capaz de ajudar a salvar vidas como esses homens faziam. Mas então as coisas foram dando errado, e eu me vi impotente. Eu nunca fui um aluno exemplar na faculdade, sempre passei de ano raspando perto da média, então obviamente uma hora eu teria que encarar as minhas dificuldades dentro da Medicina. Pouco a pouco, eu ia percebendo que não havia nascido para ser um médico como meu pai e meu cunhado. Mas, como sempre, resolvi varrer isso para debaixo de um tapete para que ninguém reparasse, nem mesmo eu. Me enfiei de cabeça nessa fantasia.

- E então, naquela noite... – eu pressionei, já que não podia mais aguentar esperar.

- Então, naquela noite, eu saí correndo do bar depois do erro de ter beijado aquela mulher. E enquanto eu caminhava, a minha cabeça martelava em uma só coisa: a lembrança mais remota e obscura que eu tinha; Alice e eu escondidos no armário de casacos no corredor de nossa casa, na noite em que o meu destino inteiro mudou pela primeira vez. Eu tinha só 4 anos de idade, e muita coisa se embaralhou na minha memória com o tempo, mas disso eu tenho certeza. Nunca vou me esquecer de ver, entre uma fresta da porta, minha mãe sendo atacada e machucada por um homem muito maior que ela. Os gritos, os ruídos dos murros, o som do choro da minha irmã... – Edward engoliu em seco, e agora não mais escondia suas lágrimas. - À medida que eu me aproximava da nossa casa, o pânico que tomou conta de mim foi esmagador. Sempre prometi a mim mesmo que eu não seria como aquele bêbado traídor, mas o pavor de que a genética falasse mais forte sempre esteve adormecido no fundo da minha consciência. Se a história se repetisse, bastava apenas um pequeno estopim pra que tudo de ruim que possivelmente existisse em mim viesse à tona. Você pode entender agora, como eu me senti, Bella? Você leu as cartas, sabe o que aconteceu naquele bar. Eu beijei aquela mulher e logo em seguida me senti o pior ser humano. Percebi que estava trilhando o mesmo caminho de Anthony. Tudo começava a se encaixar e se assimilar com a história das minhas origens: eu estava há meses vivendo uma mentira sobre o meu emprego, magoando a minha esposa... E aí eu decidi que não poderia continuar naquela situação, já que eu conhecia muito bem o final infeliz que nós poderíamos ter.

Ele parou para respirar um pouco, me fitando por alguns instantes. Era claro que tudo o que ele dizia tinha uma lógica, mas era duro compreender. Minha cabeça doía pelo tensão do meu próprio choro contido.

- E então sua única solução foi simplesmente nos deixar? – perguntei de uma vez, a voz quase não saindo mais. - Por que, sinceramente, Edward, até agora tudo o que você me contou fez sentido, mas esse próximo passo não é nem...

- Bella. – chamou, me interrompendo. - Eu sei disso. Deus, como eu sei que nada a partir daí faz mais sentido. Eu não era eu mesmo naquela noite. Eu pirei. Ou melhor, tive um ataque de pânico, como me explicou o meu terapeuta mais tarde. Cheguei em casa sentindo que poderia fazer uma besteira, como se alguma força maior que eu fosse me obrigar a ferir vocês duas ou sei lá, me suicidar. Meu medo de errar, de perder o controle sobre mim mesmo foi tanto que eu só conseguia pensar em como resolver aquilo de uma maneira rápida e eficiente. Na minha cabeça, o mecanismo de salvamento era um só: fugir. Foi isso o que minha mãe fez na noite de 1981, foi o que a minha família fez durante anos ao enterrar o passado tão bem, mesmo que ele estivesse mais vivo do que nunca. E pra que isso desse certo... pra que você e Claire não precisassem sofrer o que eu sofri, quem deveria estar longe era eu. Pra mim a melhor solução era cortar o mal pela raíz de uma vez antes que eu ferrasse com tudo.

- Mas você ferrou com tudo, de qualquer forma. – acrescentei o que era uma obviedade.

Vi a vergonha enlaçar sua expressão, enquanto enxugava suas lágrimas ao responder.

- Sim.

Meu coração estava mais apertado do que nunca. Embora eu me sentisse ultrajada pela forma como ele conduzira a situação naquela época, eu não seria capaz de gritar agora, para minha surpresa. Havia um conflito em mim, entre a Bella de antigamente que queria explodir de fúria, e a Bella madura de hoje em dia que somente precisava compreender o homem ao seu lado. Mas as duas sentiam-se tristes pelo caminho que Edward escolhera para nossas vidas.

- Isso foi tão estúpido, Edward. Eu sei que existem mil e uma explicações psicológicas que você vai tentar me dar, mas... – comecei, balançando a cabeça. - Às vezes o amor pode e deve falar mais alto. O amor, a lealdade que você tinha prometido a nós. Foi burrice deixar tudo isso de lado e se permitir ser tomado pelo medo de errar.

Ele assentiu a cabeça lentamente.

- Claro, mas não era assim que eu pensava naquela época. Eu não tinha a real ideia de que meus atos teriam tantas consequências. Pensava que você me esqueceria com o tempo e que me acharia um imbecil por fugir. Eu tenho plena consciência de que eu não soube amar direito. Fui um enorme egoísta.

- Sim, você foi.

Passou-se um momento de silêncio a mais, antes que eu lhe perguntasse.

- E o que você fez nos dias seguintes?

- Eu aluguei um quarto de um motel barato na estrada usando um nome falso, onde ninguém conseguiria contato comigo. O surto de pânico durou umas duas semanas. Nesse período eu virei um zumbi, sem sair do quarto, comendo fast-food só quando me sentia fraco e só dormia por exaustão. Naquele lugar não havia telefones ou televisão, e o silêncio da noite era enlouquecedor. Apesar disso, foi bom, porque em meio ao caos que estava minha mente, a tranquilidade do lugar me permitiu focar em algumas coisas. Como por exemplo, o que eu faria quando meu dinheiro acabasse ou quando quisesse voltar a ver Claire.

- Você não manteve contato com ninguém mesmo?

- Ninguém. Foi apenas quando o dinheiro acabou que eu liguei para minha mãe. Ela quase me matou pelo telefone. – ele sorriu suavemente com a lembrança. - É claro que senti uma culpa imensa por não dar notícias, mas não era hora de pensar nisso. Conforme minha crise passava, eu fiz algumas resoluções. Havia decidido que daria um tempo a mais longe de você, porque de alguma forma eu simplesmente sabia o quão magoada e enfurecida comigo você deveria estar. Mas seria só um tempo até que as coisas se acalmassem e eu pudesse explicar os meus problemas e buscarmos juntos por uma solução. Mas você nunca mais me deu oportunidade de me explicar...

- E o que seria essa solução?

- Acho que... Ficaríamos separados enquanto eu fosse me tratar. Do quê, exatamente, eu não tinha certeza, eu só sabia que eu não estava sendo eu mesmo há tanto tempo, que alguma coisa eu deveria consertar. Talvez entrar em uma cliníca de reabilitação ou um hospital psiquiátrico, embora todos que me aconselharam na época diziam que tudo não passava de uma tremenda hipocondria, e que eu era perfeitamente saudável.

- Eu provavelmente não te aceitaria de volta com essas condições, também.

- Ou talvez aceitaria. – ele rebateu. - Você não disse que não temos como prever as hipóteses de coisas passadas?

Eu abri a boca para discordar, mas não havia como, então apenas assenti.

- Touché.

O silêncio que nos envolveu estava carregado.

Eu estava estupefata, absorta em todo o relato que acabara de escutar. Havia muita coisa ao mesmo tempo para que eu pudesse unir as peças do quebra-cabeças nesse momento. Eu sabia que só com o tempo isso iria se ajeitar. Praticamente tudo que eu sempre quis saber havia se estendido diante de mim, e agora muitas respostas preenchiam seus devidos lugares sob as perguntas.

Olhei para Edward, e seu olhar estava vago no horizonte mais uma vez. Tive a certeza de que ele estava perdido em seus pensamentos.

Havia sido sempre assim. Talvez o seu grande defeito fosse este: pensar demais. Pensar coisas ruins que sequer podiam existir. Pensar obsessivamente sobre o futuro, esquecendo de viver o presente. Pensar e repensar o seu amor por mim. Ele fizera tudo isso ao me deixar - mesmo que sua decisão repentina naquela noite tivesse sido tão impensada, regida pelas emoções.

Ele suspirou fundo uma vez, tomando minha atenção.

- Bom, isso é tudo, eu acho. Ou pelo menos boa parte da história.

Assenti a cabeça em concordância, e ele prosseguiu.

- Bella, eu não quero te pressionar, mas preciso te ouvir. – falou tocando minha mão, de repente, e eu dei um sobressalto com o susto, afastando minha mão. - Por favor, diga alguma coisa. No que está pensando?

Pensava em milhares de coisas. Nas hipóteses, nos sinais que deixei escapar, nas consequências que seguiram-se durante todos esses anos; até mesmo nas remotas soluções para o nosso presente que meu coração teimava em ressaltar.

- Estou pensando que... – Sequer sabia por onde começar. Suspirei e escolhi o pensamento que pairava na superfície. - Estou pensando no quanto eu me sinto traída. Eu já sei que você não se relacionou com outras mulheres enquanto estava comigo, mas a traição é de outra natureza. Você me subestimou ao não dividir seus problemas comigo, porque julgou que eu não fosse suportá-los. Foi egoísta de sua parte guardar toda dor, medo, dúvida dentro de você. Foi egoísta fazer uma escolha tão drástica e covarde sem me consultar ou me dar opções. E não estou falando do dia em que você fugiu de casa, pois já entendi que ali você estava alterado. Estou falando dos meses... anos anteriores que você poderia ter pedido minha ajuda, se comunicado comigo. Você desonrou tudo o que existia entre nós, Edward. Porque um casamento tem que ser um elo eterno e infinito entre duas pessoas, mas você ignorou completamente esse fato... Eu nunca me iludi achando que tudo era perfeito; eu pensava que você pudesse se apaixonar por outra pessoa, que você pudesse se cansar de viver comigo, mas fugir daquela forma? Era a última coisa que eu esperava. É isso que eu estou pensando. Me sinto decepcionada e traída.

Cheguei a perder o fôlego com as palavras que saíram como uma tonelada de dentro do meu peito, indo parar direto sobre os ombros de Edward. À medida que eu falava, reparava na forma como ele retraía o corpo em sua cadeira. Quase me senti mal.

- Você está total e irrevogavelmente certa. – sussurrou ele. - Eu só posso pedir perdão. Me perdoe, Bella.

O seu tom resignado me fez encará-lo. Em seus olhos eu enxerguei solidão. Um olhar que eu havia enxergado diversas vezes em nossos últimos anos de convívio, e que me machucava, apesar de tudo. Racionalmente, eu sabia que deveria ponderar e escolher sua sentença - culpado ou inocente?

Eu sacudi a cabeça.

- Ainda não. Está muito cedo pra isso, Edward. Eu preciso de tempo pra colocar tudo em ordem e tentar sintetizar essa situação na minha cabeça.

- Tudo bem, é justo. – ele aquiesceu. - Eu já disse uma vez, e volto a dizer: eu vou estar aqui à sua espera.

Meu corpo já pedia para que eu fosse embora, exausto dessa conversa. Mas ainda havia apenas uma questão a ser mencionada. Apesar de tentar evitá-la ao máximo, seria tolice achar que conseguiria escapar. Coragem, Bella. Só falta mais um pouco.

Precisei respirar profundamente duas vezes antes de falar.

- Quando nós estávamos no seu quarto, no dia da sua festa. Você disse que... Você falou aquilo. – Eu não conseguia vociferar as palavras. Estavam entaladas na minha garganta, atrapalhando meu ar, então fui direta. - Por quê?

Edward sabia exatamente do que eu estava falando. Ele assentiu a cabeça, me prendendo em seu olhar.

- Porque é a verdade. Eu nunca deixei te amar, e vou te amar pra sempre. De uma forma ou de outra, mas vou.

Meu coração foi parar no estômago. E se antes eu tentara manter uma postura falsamente fria, aquelas frases haviam arrebentado algo em mim, implodindo-o. Já não conseguia mais ver através das lágrimas. Não conseguia mais olhar para aquele homem, e então desviei meu rosto completamente.

Meus pensamentos embolavam minha cabeça a ponto de me deixar zonza. Isso não estava certo, o que ele disse não fazia sentido. Depois de tantos anos desejando escutar novamente aquela confissão, ouvir aquilo não tinha sido decepcionante. Não, agora tinha sido desesperador, tolo e errado.

- Isso é loucura. – com um suspiro trêmulo, falei.

- Não, não é. Eu posso ter uma cabeça fodida, Bella, mas o meu amor por você é uma certeza bastante lúcida na minha vida. Você tem que acreditar.

- Então todos esses anos você se manteve afastado de mim, mas continuava me amando de longe?

Edward suspirou exasperado.

- Bella, eu tinha o desejo irracional de ficar longe para te proteger, sim, mas depois de algum tempo eu vi que era o erro mais imbecil que eu poderia cometer. Porém naquela altura você já não queria mais sequer olhar na minha cara. Então o que eu podia fazer? Tentei me aproximar, mas...

- Não! – quase gritei, erguendo um dedo em seu rosto. - Você não vai me fazer sentir culpada. Você não tem esse direito.

- Me desculpe se soou dessa forma, Bella. – falou com a voz mais suave, me fazendo recuar. - Mas você tem que concordar que eu tentei... Pelo menos em algum momento eu tentei voltar pra casa, tentei uma reconciliação, só que você nunca esteve aberta a me receber de volta. Quando eu percebi que não iria dar em nada, e que você já tinha prosseguido com sua vida, eu desisti de correr atrás.

Eu não conseguia rebater pois aquilo era verdade. E essa verdade doía demais. Se eu não tivesse sido tão orgulhosa, tão teimosa, talvez tudo pudesse ter sido resolvido e mudado anos atrás.

- E você sabe que eu estava no meu direito de não querer te ouvir, não é? Se ponha no meu lugar, naquela época. Eu tinha toda a razão para agir daquela forma. Eu sempre morri de medo de que você destruísse o que havia restado do meu coração, da minha autoestima, de tudo...

- Sim. Eu não estou te culpando de jeito nenhum, eu assumo todas as consequências do que eu fiz, inclusive suas reações quando eu decidi voltar. Só estou dizendo os fatos. Estou tão errado assim?

Relutantemente, eu sacudi a cabeça, mas precisava continuar a questioná-lo.

- E onde entra Tanya nessa equação? Você não tem vergonha de si mesmo? Comprometer-se com alguém, prometer uma união eterna, e então manipular os sentimentos dela dessa forma? – inquiri. Não sabia se sentia mais pena de sua noiva iludida ou dele, que me olhava tão confuso quanto eu me sentia.

- É claro que sim. – respondeu entre dentes. - Merda! É claro que sinto. Todos os dias. Mas ela sabe.

- Ela sabe o quê?

- Tanya sabe que você é a pessoa da minha vida e que isso nunca vai mudar. Mas concordamos em ficarmos juntos assim mesmo.

Eu soltei uma risada seca e nada humorada ao me levantar de súbito.

- Vocês dois são malucos! – exclamei, com necessidade de expulsar minha energia acumulada. - É isso. Ninguém pode viver numa situação doentia como essa sem ser doente. Você não está nada curado, Edward!

Andei de um lado a outro em sua sala na penumbra. Minha cabeça martelava de dor, e meu peito ardia, o baque emocional se manifestando fisicamente em meu corpo.

- Eu não sou mais o doente que eu costumava ser, mas... Talvez o fato de não conseguir te esquecer seja algum tipo de obsessão. Eu não sei, posso perguntar ao meu terapeuta. – ele soltou uma risada estrangulada. - Mas essa é toda a verdade. Agora você sabe de tudo. Me despi completamente, e você agora pode escolher o que fazer com todas essas informações.

Escolher o que fazer era a última coisa que passava na minha mente. Eu precisava gritar, espernear, beber. Ou dormir e só acordar daqui a um ano. Estar na presença de Edward nessa sala já me sufocava.

- Acho que não temos mais o que conversar por hoje. – sibilei, pegando minha bolsa sobre o sofá. - Preciso ir para casa.

- Está bem. Eu não vou te pressionar em nada, Bella. Você é livre pra fazer o que tiver vontade. Você já sabe tudo o que eu sinto, então... Se nunca mais quiser falar comigo, ou se decidir não me perdoar, eu... eu vou entender.

- Obrigada pelo jantar. – apenas sussurrei. Limpei as lágrimas antes de me virar e abrir a porta. Suspirei fundo e caminhei sem olhar para trás.

A meu favor, o elevador estava parado no andar, e eu adentrei rapidamente. Meu relógio marcava 22h30. Três horas de uma conversa que resumia quase dez anos de nossas vidas, e ainda parecia surreal. Uma parte de mim sentia orgulho por eu ter sido a mulher madura que eu havia me tornado há tantos anos, e não estar saindo desse prédio histérica, como aconteceria em outros tempos. Porém agora que eu sabia da verdade, minha preocupação era apenas uma.

Conseguir perdoar Edward e seguir em frente. Virar essa página de nossas vidas, sem fardos ou mágoas. Eu sabia, com toda a certeza, que a partir de hoje tudo mudaria, para melhor ou pior.

E agora eu deveria ser forte para aguentar esse período de transição.


N/A: ESPERE! LEIAM AQUI, É COISA BOA!

Vá no meu perfil e procure a história "Mais Uma Vez: Extras", postei o ponto de vista do Edward sobre o que ele pensou depois dessa conversa de hoje.

Minha referência quanto ao "ataque de pânico" do Edward se baseia no que li aqui www. psicosite. com. br/tra/ansanico. htm Se você identificou algum erro médico, bom, não vou mudar a essa altura da história, mas prometo que levo em consideração. Lembre-se que é uma (fan)ficção.

Quero muito MUITO saber o que estão pensando sobre esse capítulo. Esclareceu suas dúvidas? Ainda restam perguntas? Estou aberta às suas críticas. Comuniquem-se comigo! PMs, DMs, email, tweets, reviews... eu leio tudo. rs

Beijos!