"Lily!" a mãe dela, Sophie – de quem, agora, eu possivelmente sabia até mesmo o número de sardas no rosto, de tanto que Lily tentara me explicar tudo sobre a família – exclamou assim que a viu, abraçando-a sem se importar com as sacolas que a filha segurava. Ambas tinham o cabelo exatamente do mesmo tom, mas essa parecia ser a única semelhança física entre as duas; os olhos eram de tons completamente diferentes e os contornos do corpo não eram muito parecidos, mesmo se descontasse a diferença de idade entre as duas "Ei, que saudades"

"Eu também, mãe" ela respondeu, sorrindo, tentando dar um jeito de continuar no abraço sem que amassasse alguma das coisas que segurava. Ao não conseguir, separou-se um pouco dela e deu meio passo para trás, colocando as sacolas na mesma mão para segurar a minha com a outra "James, acho que você já sabe quem ela é"

Sorri "Mrs. Evan..."

"Ah, sem formalidades. Eu te chamo de James e você me chama de Sophie" ela me interrompeu, sorrindo, pegando minha mão estendida mas colocando-se na ponta dos pés para me beijar a bochecha. Era exatamente como Lily me dissera, informal, aparentemente ávida por novidades "O que é isso tudo?"

"Presentes. Os que estão comigo são para a Petúnia e Vernon e os com James para você, para papai e para o Dudley" Lily respondeu por mim, entrando primeiro na casa "Onde está o papai, aliás?"

"Levou o Dudley lá para cima. Não queria ir de jeito nenhum para ficar vendo o desenho da TV da sala de estar" ela respondeu, pegando todas as bolsas que estavam com Lily e deixando-as em cima de um móvel de madeira ornamentado com uma toalha florida. A casa dos Durleys estava realmente como Lily me descrevera "Foi chantageado, obviamente, com a possibilidade de jogar videogame lá em casa amanhã durante o café, mas... ai, que lindo...! Peter, você tem que descer!"

Lily olhou para mim e, depois de pegar o presente para o sobrinho e deixá-lo no mesmo lugar dos da irmã e do cunhado, me abraçou pela cintura e beijou meu ombro por cima do casaco. Eu sorri para ela de volta e beijei sua testa em resposta, logo depois nós dois voltando a olhar para Sophie que, agora, observava com cuidado o ornamento que havíamos dado.

"Obrigada" ela continuou, olhando para a gente "Para os dois. Começou bem, James"

Ri, leve, mas parei a fala antes mesmo de começar ao sentir um aperto de Lily em minha cintura. Virei os olhos para a escada e vi o pai dela já no final dos degraus, desfazendo o meio abraço que mantinha com Lily quando ela fez menção de esboçar uma corrida até ele.

"Ei, Lils" ele cumprimentou, abraçando-a, beijando o topo de sua cabeça. Demorou menos tempo para soltá-la e, de imediato, olhou para mim, os olhos se fixando nos meus sem uma segunda olhada "James"

Sorri para ele e lhe estendi a mão "Como vai?"

Ele sorriu de volta.

"Pode chamá-lo de Peter também" Sophie disse, sorrindo ao olhar de um para o outro até, divertida, parar os olhos em Lily "Com licença, mas vou roubar minha filha rapidinho"

"Para a cozinha? Boa sorte" Peter brincou, rindo um pouco ao receber da filha uma careta divertida. Nós dois ainda as seguimos com o olhar até que desaparecessem em uma curva no corredor, meus olhos perigosamente pendendo para o fim do sobretudo curto de Lily até que me lembrei de que estava na presença do pai dela.

E que ela mudara o vestido escolhido exatamente para não mostrar a tatuagem, então era melhor não arruinar o esforço.

"Ela continua sem saber fazer nada?"

"Uma coisinha ou outra" discordei, sorrindo, negando também com a cabeça "Não chega a ser um desastre"

"Você não a viu aos dezesseis" ele retrucou, ainda parecendo meio divertido. Desceu os olhos dos meus para a garrafa de brandy que eu acabava de lhe estender, pegando-a com um meio sorriso no rosto ao voltar a levantar o olhar para mim "Lily disse que era a minha favorita?"

"Meu pai" corrigi "Mandou lembranças, aliás"

"E dicas, pelo visto" ele completou por mim, sorrindo, virando-se nos calcanhares enquanto, com um gesto, me chamava para segui-lo até o que eu achava ser o jardim dos fundos da casa "Mais alguma?"

"Esquecer o futebol"

"United?"

"É"

"Esperto, o Charlus" ele falou enquanto passávamos pela varanda, me deixando andar um pouco na frente. Deixou a porta aberta atrás da gente e seguiu para o jardim, recoberto por uma tenda florida exatamente como o resto das estampas da casa "Apesar de ter sido um bom jogo contra o Chelsea"

Sorri, prendendo a minha vontade de dizer que a filha dele havia ido a esse jogo comigo no lado do Manchester. Tudo bem, Lily me dissera que o fanático de verdade era o avô, mas isso não queria dizer que eu poderia relaxar com o pai.

Principalmente porque Lily me dissera que era importante para ela. E eu estava disposto a não decepcioná-la.

OoOoOoOoOoOoOoOoOoOoO

"Então..." mamãe começou no seu tom de quem não quer nada – mas que, invariavelmente, iria levar a algum lugar -, terminando de colocar algum ingrediente misterioso em uma panela. Petúnia e ela sempre gostaram de cozinhar e, por isso, faziam todos o almoços de todas as festas de família juntas, o que eu sempre terminava por agradecer por ser uma total negação na cozinha frente às duas "... Um colunista famoso, jovem e bonito"

Sorri, só assentindo com a cabeça em resposta, sem vontade de dizer alguma coisa enquanto levantava os olhos para a janela. Pelo vidro, eu conseguia ver James e papai descendo os degraus da varanda dos fundos, um rosto voltado para o outro como se estivessem conversando.

Como eu queria saber o que era.

"E o primeiro namorado que você traz aqui desde aquele do fim da faculdade" ela continuou, sem levantar os olhos da panela, mas com um sorriso no canto do rosto. Ela gostara de Luke – que, inclusive, estava no último período de medicina, o que era um ponto a favor para ele – e sofrera mais do que eu quando eu dissera que havíamos terminado "O que deve significar alguma coisa"

"Significa, sim" concordei, mordendo o lábio inferior e me preparando para uma sequência de perguntas. Essa incapacidade de conter o que queria perguntar era um dos motivos por eu, quando mais nova, sempre procurar papai para contar alguma coisa; quando eu comecei a sair, mais ou menos aos treze anos, sempre que chegava em casa mamãe tinha uma sequência de perguntas a me fazer. E, quando eu respondia algumas, ela sempre queria saber mais, o que acabou por me afastar um pouco dela no quesito confidências. Não que eu não contasse as coisas para ela – claro que contava. Era minha mãe e eu a amava, afinal de contas -, mas era sempre papai – um pouco mais reservado, que sempre esperava que eu dissesse o que queria primeiro, e que nunca insistia em uma pergunta caso eu não quisesse responder – quem sabia de tudo primeiro, porque eu me dava bem melhor com pessoas que respeitavam o espaço dos outros "Como sei que o certo não é perguntar há quanto tempo namoram, vou perguntar há quanto se conhecem"

Ri "Desde o meio de outubro"

"E como ele é?"

Pensei em James, e em como poderia gastar o dia tudo ali sem conseguir chegar perto de todas as palavras que eu tinha para ele. James era divertido, profissional, responsável, delicioso, carinhoso, sexy, brincalhão, provocante, imediatista, lindo, maravilhoso, perfeito na cama – e eu começava a achar que fora dela também, o que fazia meu coração bater mais forte mesmo nos lugares mais inusitados – e tão único em vários quesitos que, em determinado momento da conversa, eu me perderia tentando descrevê-lo e hesitaria por segundos antes de recomeçar com força renovada.

"Demais" respondi enfim, os pensamentos ainda correndo soltos "Adoro ele"

"Parece mesmo que sim" finalmente, ela levantou os olhos do que fazia, seguindo a direção do meu olhar para os dois homens no jardim. Estavam de pé perto do final da tenda, os rosto ainda na direção um do outro, James com um sorrisinho de canto até onde eu conseguia ver "E ele parece mesmo ser uma boa pessoa, apesar de Petúnia e Vernon não terem sido muito receptivos"

Revirei os olhos, irritada, contendo um suspiro ao pensar na minha irmã. Ela tinha todo o direito de não gostar do James – eu nem ligava muito para isso, na realidade – da mesma forma que eu não gostava do Vernon, mas isso não dava o menor direito a ela de sair falando por aí sobre suas opiniões.

"Falando neles..." comecei, resolvendo ajudá-la a fazer alguma coisa. O que exatamente eu ainda não sabia, mas era melhor começar a tentar "... onde estão?"

"Arrumando o Dudley lá em cima" ela respondeu "Petúnia me pediu para ficar tomando conta da carne e fazer o molho enquanto eles o ajudam a se vestir"

"Quer que eu..." mas parei a fala ao reparar que eu não poderia fazer nada ali "... leve alguma coisa lá para fora?"

Ela riu "Leva os pratos?"

Relanceei os olhos para a bancada que ela me apontava, fazendo que sim no segundo seguinte. Separei metade da pilha e segurei-a contra meu corpo enquanto saía da cozinha, agradecendo a papai e a James por terem deixado a porta aberta.

"Epa" meu pai disse assim que me viu, cortando a própria frase no meio. James, também já virado para mim, sorriu na minha direção, vindo até mim com os braços a meio caminho de se estender para pegar os pratos "Sua irmã já desceu?"

Neguei com a cabeça, rodeando a cintura de James quando ele voltou até a gente, as mãos agora livres "Ainda lá em cima"

"Já devia ter descido" papai retrucou "Por causa de vocês"

"Nós chegamos cedo" James discordou, os dedos acariciando de leve a curva de meu pescoço com o ombro "A gente quis..."

"Lily, os outros pratos!"

"Ah, claro" bati em minha própria testa "Eu tenho que..."

"Deixa que eu vou" James me interrompeu, sorrindo, uma das mãos caindo por minhas costas e a outra desfazendo meu aperto em sua pele "Obrigação do namorado que está sendo apresentado"

Ri e belisquei sua cintura antes de deixá-lo ir, seguindo-o com o olhar preso em suas costas conforme ele chegava perto da varanda. O cabelo, como sempre arrepiado perto de sua nuca, e seus ombros largos me fizeram não desviar os olhos dele, mais uma vez começando a divagar sobre...

"Pai" eu cortei minha linha de pensamento ao meio ao reparar onde ia chegar – na parte em que James era maravilhoso para mim, então eu também queria que meus pais vissem nele tudo o que eu via com exceção da parte física – e voltei a me virar para meu pai, sorrindo antes de abraçá-lo "Como está?"

"Perfeito" ele respondeu, beijando o topo de minha cabeça "Você também me parece bem"

Sorri e me afastei um pouco.

"Eu estou" respondi, alegre, incapaz de conter o sorriso mesmo que quisesse "Tem o James, claro, não vou mentir. Mas estou bem no trabalho, melhor que nunca, e quero demais me especializar em alguma outra área"

"Qual?"

"Não tenho certeza por qual começar" disse, encolhendo os ombros "Por isso, queria passar lá em casa para pegar os seus livros e clarear um pouco as idéias"

"Tente as palestras, Lils" ele discordou, apontando com um gesto de cabeça para dentro de casa "O pai dele, por exemplo. Discursa absurdamente bem sobre..."

"Mas os horários não batem" reclamei "A maioria das palestras é às quartas e sextas, e eu não posso simplesmente adiar algumas consultas"

Ele não me respondeu de imediato.

"... Certo" sorriu "Posso ver se consigo colocar algumas no sábado. Não as de agora, mas as de daqui a umas cinco semanas. Elas param por causa do Natal, quer dizer"

"Você consegue?"

"Posso tentar, Lily"

"Te amo"

"E vai me amar mais se eu conseguir, não...?"

"Muito" brinquei com ele, rindo "Falando em Natal, posso trazer o James?"

Dessa vez, o sorriso era mais brincalhão.

"Até agora, sim" começou, piscando-me o olho "Se ele continuar desse jeito, inclusive, pode até trazê-lo sem avisar"

Tive a certeza que meus olhos brilharam e daria tudo para ter tempo de retrucar, mas já dava para ouvir a conversa de mamãe e de James logo atrás da gente. Papai também não falou mais nada e só olhou para os dois enquanto arrumavam alguma coisa na mesa, chegando um pouco para o lado quando eles fizeram menção de vir até a gente.

"O Dudley já desceu e já está brincando com o joguinho que vocês deram a ele, Lily" mamãe anunciou, indo para o lado de papai "Tá tão bonitinho, e só está esperando os pais desceram para vir falar com... olha ele ali, que fofo!"

Fofo era a palavra exata.

"Lily"

"Petúnia" cumprimentei de volta, dando o melhor dos meus sorrisos "E Vernon"

"Lily" ele disse de volta, também sorrindo de volta "James"

James sorriu em resposta, meneando a cabeça.

"Então..." mamãe parecia feliz ao extremo com qualquer coisa que ela fosse falar, os olhos castanhos chegando a brilhar "... vocês se lembram um do outro"

"Impossível esquecer" Petúnia respondeu "Depois de um encontro tão marcante em uma farmácia"

Estreitei os olhos.

"Acho que começamos do jeito errado" James disse, pegando minha mão, parecendo bem mais calmo que eu. Sim, ele continuava bem difícil de irritar, mas eu achei simplesmente o máximo ele não ter arqueado a sobrancelha em ironia como se estivesse desafiando minha irmã "Recomecemos. Prazer, James Potter"

"... Bom novo começo" ela retrucou depois de um tempo, finalmente esboçando um sorriso. Era aquele de 'já-que-vou-ter-que-lidar-com-ele-mesmo' que ela também adotara com Luke, mas mesmo assim um sorriso "Agradeça o presente dos dois, Dudley"

"Obrigado" ele disse, obediente, até mesmo chegando a baixar a cabeça. Contive meu comentário de que aquela forma de agradecer seria formal demais mesmo para a família real, contendo também a vontade que eu tinha de despentear seu cabelo cuidadosamente penteado para o lado "Posso te chamar de tio...?"

James, com a mão ainda na minha, soltou uma risada leve ao concordar, mas eu desviei os olhos dele antes que resolvesse olhar para mim. Quer dizer, não fazia exatamente idéia de como estava o meu rosto agora, mas meu coração batia tão rápido que eu podia apostar que meu rosto ficava um pouco vermelho agora.

Só por causa de sua afirmativa.

"Eu já passei de duas fases, tio" Dudley continuou, a voz repleta de orgulho infantil "E estou no meio da terceira"

"Rápido assim?"

"Eu sou muito bom"

"E vai ficar ainda melhor quando treinar mais um pouco" Vernon falou, com a mão no ombro do filho "Pode continuar, Dudley, mas quando o pessoal começar a chegar encontre com a gente lá na porta, certo?"

O menino fez que sim e, cumprimentando a gente de novo, voltou a cruzar o jardim, Petúnia e Vernon seguindo-o de perto por uma razão que eu achava ser o cuidado da roupa. Imediatamente, tirei minha mão da de James e cruzei meus braços à frente do corpo, gesto que não tinha feito para me poupar do discurso de Petúnia que aquilo era sinal de falta de receptividade.

E era mesmo, mas também podia indicar frio. E ela não entendia isso.

"Tanto frio assim?" James perguntou, sorrindo, a mão que antes estava na minha deslizando por minhas costas até, já na minha cintura, me puxar para mais perto endireitei de imediato. Me aninhei de imediato, aproveitando seu calor e sem sair dessa posição durante todo o tempo em que conversamos com meus pais, só saindo dali ao ouvirmos os primeiros convidados chegarem.

Senti muito por isso.

OoOoOoOoOoOoOoOoOoO

"São os pais da Marlene" Lily disse, o corpo pendendo um pouco para o lado para, possivelmente, conseguir ver melhor. Eu, que estava de frente para ela, virei um pouco o corpo, terminando o movimento quando ela pegou minha mão e começou a me puxar em direção a eles. O máximo que falou para uma irmã do Vernon foi um pedido de desculpas e outro de licença, tão decidida na tentativa de sair de perto das idéias de arrumar um marido rico e ficar em casa cuidando de cachorros que mal me deu tempo de fazer a mesma coisa "Se eu tivesse que escutar mais uma vez o que ela faz com a bonificação do marido, eu... sei lá, nem consigo achar algo pior que isso"

Não respondi nada de imediato, mas concordava com ela. Quando Petúnia nos apresentara à cunhada, eu nunca poderia adivinhar que passaria os três minutos seguintes prendendo as risadas das expressões de discordância de Lily frente à tudo o que a outra falava enquanto também prendia algumas respostas mal-criadas prestes a sair da minha boca.

Eu nunca poderia adivinhar que Lily e a irmã seriam diferentes a esse ponto.

"Entende o tempo psicológico agora, não entende?" ela continuou, dando dois passos mais rápidos para se colocar à minha frente e, assim, voltar a ficar de frente para mim. Eu, que já sorria devido à pergunta, abri o sorriso, trazendo-a mais para perto ao tocar sua cintura "Pareceram dez horas"

Ri "Me diverti com você tentando calar a boca para não colocar sua irmã em uma situação difícil"

"Atenuou em quantas horas?"

"Umas sete" respondi, sorrindo "Você é divertida, ruiva"

"Falando desse jeito, parece que você não tem o mesmo efeito sobre mim" retrucou, as mãos deslizando por meus braços até chegarem nas minhas. Pegou-as e deixou-as cair ao lado dos nossos corpos, balançando-as de leve "Deus sabe como eu teria saído dali no primeiro segundo se você não tivesse soltado aquela ironia sobre o chapéu dela que ninguém entendeu"

"Mas foi exatamente por ninguém entender que eu soltei" defendi, beijando a pontinha de seu nariz com carinho "Depois de todo aquele discurso de..."

"Lily?" nós dois nos viramos ao ouvir a voz de uma mulher – que, claro, descobri ser a mãe da Marlene – ao lado da gente, Lily deixando minhas mãos e a abraçando enquanto eu ainda me virava "Você está liiiiinda"

Eu sorri.

"Esse é o James?"

Lily riu.

"James, essa é a Maggie" disse, sorrindo ainda, chegando a morder o lábio inferior – porque não, não deixei de olhá-la – logo depois que ela e eu nos separamos do cumprimento. Só pela expressão dela, dava para perceber as pessoas que ela avaliava valer à pena ou não; antes da mãe de Marlene, somente os avós e alguns dos primos, inclusive um garoto de mais ou menos dezesseis anos que parecera particularmente interessado em seu colo "E aquele dali que está vindo para cá com meus pais é o Derryck"

Eu relanceei os olhos para ele, a imagem de Maggie firme em minha mente. Marlene era muito mais o pai que a mãe na aparência, com o cabelo preto ao invés do loiro e com os olhos azuis ao invés do castanho.

"Quase chegamos atrasados" Maggie comentou enquanto esperava os dois chegarem até a gente, com um gesto rápido colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha "Estávamos esperando Marlene, mas ligamos para ela e ela disse que não vinha"

"Ah, claro. Ela está terminando um projeto" Lily respondeu, me lançando um olhar rápido e meio perdido. Eu só sorri e fiz que sim, me inclinando até alcançar seu ouvido e, encostando meus lábios em sua pele, murmurar um 'ok' no tempo exato de voltar á minha posição original "James, esse é o Derryck"

Ele estendeu a mão para mim, retribuindo meu sorriso.

"James Potter, ahn...?" falou, baixando a mão. Tão logo fiz a mesma coisa Lily voltou a entrelaçar nossos dedos, o corpo vindo para a frente do meu quando fiz uma pequena pressão para abraçá-la, com a outra mão, pela cintura "Você sabe, o Peter ali lê sua coluna"

Ri, mas nem tive chance de responder.

"Isso é tão legal, não é? Esse conhecimento prévio, quer dizer" Maggie comentou, com ninguém em particular, os olhos até mesmo correndo de um para o outro "Onde vocês se conheceram?"

"A gente?" Lily perguntou, caindo um pouco para trás e levantando os olhos para me ver, me fazendo baixar um pouco o rosto até apoiar o queixo em sua cabeça "Em uma boate"

"Impossível não notar a filha de vocês" respondi também, mas olhando diretamente para os Evans. Sophie tinha uma sobrancelha arqueada divertidamente, como se esperasse alguma coisa a mais, e Peter um olhar meio indecifrável mas ligeiramente divertido, como se soubesse que havia muitas entrelinhas ali "Não tirei os olhos dela até hoje"

A roda riu, e eu me permiti sorrir ao sentir as mãos de Lily apertando as minhas. Apesar de termos omitido, obviamente, a parte em que eu disse uma frase e ela foi comigo para o meu apartamento, tudo o que eu disse não chegava nem um pouco perto de ser mentira.

"Aposto que não" Maggie comentou, quase rindo, piscando um olho castanho para mim "Eu realmente quis dizer que ela estava linda e..."

"Maggie! Derryck!" Vernon exclamou, Petúnia ao lado, o maior sorriso do mundo no rosto. Era exatamente como Lily me dissera depois de falarmos com seus avós maternos; seria o pai de Marlene chegar para Vernon não sair mais de detrás dele, sempre preocupado ao visar a possibilidade de se tornar um investidor melhor ao falar com ele "Não sabem como estão nos fazendo felizes em aparecer por aqui!"

Os dois sorriram, e Lily olhou para mim com uma sobrancelha arqueada como quem fala algo como 'não te disse?'. Eu sorri, divertido, e belisquei de leve sua bochecha, adorando-a.

"Principalmente para poder agradecer pela dica que nos deu" Petúnia continuou por ele "Manter o investimento na libra"

"A cotação do euro realmente baixou"

"São ainda impressionantes os efeitos da crise na Irlanda" Vernon concordou, efusivo, antes de se virar para mim "Pena que o James ali é jornalista político e não deve entender nada de economia"

"O suficiente para saber que foi na Islândia" repliquei, estreitando os olhos para não arquear a sobrancelha e parecer antipático demais. Queria, de verdade, que esse clima de guerra entre Lily e a irmã se atenuasse – além de, obviamente, agradar aos pais dela e fazer com que ela ficasse feliz com isso – mas isso não significava eu deixá-lo me atacar como que para demarcar território.

Mas eu não me importava nem um pouco com isso.

"Nunca pensei em você como um jornalista exclusivamente político" Peter comentou, me fazendo desviar os olhos de Vernon para olhá-lo. Sorri, leve, para deixar o clima um pouco menos pesado, conseguindo um sorriso com o mesmo tom de volta "Você deu uma aula sobre economia social há dois domingos"

"Economia social...? Não ando às voltas com isso desde que a Inglaterra anunciou que deve cortar gastos públicos e aumentar o tempo mínimo de aposentadoria. A monarquia quer pagar o casamento do príncipe Willian com o nosso dinheiro"

"Mas é a população economicamente ativa que banca os aposentados"

"E cabe aos trabalhadores que estão chegando trabalhar para bancar"

"Não há trabalhadores chegando em número suficiente" discordei, negando devagar com a cabeça "A taxa de natalidade caiu, e está abaixo da de reposição. Se o governo não fizer isso, o valor da aposentadoria pode baixar no futuro"

"É trabalhar dois anos mais para receber vinte" Lily entrou na conversa, parecendo prender um sorriso, o que eu conseguia ver de seus olhos verdes brilhando "Aprendi tem duas semanas"

Todos, com exceção dos Durleys, rimos.

"Melhor servir o almoço" Petúnia disse, interrompendo de vez a conversa. Segurou o braço do marido e, juntos, saíram dali, dirigindo-se à mesa.

"Eu vou lá ajudá-la" Sophie disse, virando nos calcanhares para segui-los. A mãe de Marlene soltou um 'Com licença' e foi atrás, e as duas seguiram para a casa começando a conversar sobre alguma coisa "Você vem, Lily?"

"Eu...?" ela perguntou, desanimada, mas deu de ombros depois de um tempo. Virou-se para mim e, nas pontas dos pés, me deu um selinho, logo depois virando-se para o pai e para Derryck "Tratem-no bem, ok?"

"Pode deixar, não vou deixar isso daqui virar um interrogatório"

Peter revirou os olhos depois da fala do amigo, mas sorria.

"Vamos lá, James" me chamou "Abrir a sua garrafa para um drink rápido antes de comermos"

"Tomamos outro depois?"

"Se o Derryck aqui não acabar, por que não?"

Ri, deliciado, enquanto os seguia para a entrada lateral da casa.

OoOoOoOoOoOoOoOoO

"Olha só essa chuva" comentei com James assim que senti seu toque em minha cintura e seu beijo em minha bochecha, apoiando a parte de trás de minha cabeça em seu ombro. Ele estava quentinho ali, bem diferente da temperatura que, apesar da falta de vento, estava muito mais gelada do que eu esperava "Nunca achei que fosse agradecer tanto ao mal gosto de Petúnia nessa tenda florida"

"Quê isso, ruiva" ele riu "Dependendo do ponto de vista, aquelas margaridas até que são..."

"São girassóis, James"

"Girassóis, que seja"

Ri e dei uma cotovelada na altura de seu estômago.

"Ei!" ele protestou, rindo, afastando-se um pouco de mim "Não me culpe por só conhecer rosas, ok?"

"Só rosas, é...?"

"Pelo menos, antes de te conhecer"

Arqueei a sobrancelha.

"Lírios" ele riu de novo, piscando-me o olho "De uma caixa no seu quarto, que você ganhou na sua festa de quinze anos daquela sua tia ali"

Não precisei seguir o movimento discreto de seu dedo para saber de quem ele falava, sorrindo para ele enquanto o puxava, delicada, para perto de mim de novo. Ele segurava, na mão direita, uma taça de brandy – porque sim, o almoço correra extremamente bem e Derryck, papai e ele se reuniram na copa e se prepararam para outra rodada - e o líquido com gosto delicioso de maçã chegou a escorrer um pouco por entre seus dedos mesmo com meu cuidado.

"Que bom que estamos no jardim" ele brincou, piscando-me o olho, a outra mão segurando meu pescoço "Melhor do que no tapete persa da sala de estar da sua irmã"

"E eu sei como ela gosta daquele tapete" concordei, beijando sua boca "E como o Vernon é orgulhoso, por exemplo, de poder dar a ela"

Ele não me respondeu de imediato, os dedos acariciando meu rosto. Estavam gelados, as pontas tão frias que poderiam afastar qualquer um, mas eu até mesmo me aproximei.

James era sempre bom.

"Ela gosta disso, então cuida como ninguém" continuei, pegando sua mão e enfiando-a entre as minhas para ver se esquentava como o resto dele "Nunca vou me esquecer do dia em que quase quebrei um vaso de um antiquário. Papai teve que interceder por mim, acredita?"

"Por que não acreditaria?" ele retrucou, dando de ombros "Gosta muito mais dele?"

"Do papai?"

"É"

"Talvez" respondi, pensativa, meus olhos voltados para cima "Sabe aquela espécie de escadinha lá na frente?"

"Hum?"

"Esperava toda noite ele chegar do trabalho sentada nos da minha casa, no segundo degrau" completei, rindo, fazendo-o sorrir "No inverno, levava um cobertor e um pouco de chocolate quente, e só saía dali quando ele chegava e me arrastava escada acima"

Ele riu dessa vez.

"Imagina só" começou "A minha ruiva pequenininha, encolhida em um cobertor, estendendo os braços para o pai pegá-la no colo"

Fiquei quieta, abrindo a boca para responder mas perdendo qualquer possibilidade ao realmente realizar as palavras dele.

Minha. Minha, minha, minha.

"Tenho que ver fotos suas mais nova. Tenho que..."

"Ótima chance, então" nós dois nos viramos para minha mãe, a mão dele entre as minhas descendo e entrelaçando nossos dedos "Vão querer mesmo voltar para Londres com essa chuva?"

Nós dois olhamos para o temporal.

"Fiquem aqui, tomem café da manhã com a gente e voltem amanhã" ela continuou "Peter e eu aproveitamos, James, e mostramos alguns álbuns da Lily criança"

"Única e exclusivamente para me envergonhar, quer ver?"

James riu quando eu terminei de falar.

"Tô dentro, então" concordou, estendendo a taça até então esquecida por mim. Minha mãe sorriu e bateu a dela na dele, o sorriso ainda no rosto ao se virar para dar a volta "Está tudo bem, não é?"

Fiz que sim, mordendo o lábio inferior para não sorrir demais. A verdade é que meio que já havíamos previsto que poderíamos ter que dormir aqui – visto que James e eu até colocamos roupas íntimas na minha bolsa, devido à possibilidade de terminarmos em um hotel – mesmo sem toda essa chuva, e que dormir na casa dos meus pais estava sendo até melhor do que em qualquer outro lugar.

Eu queria que James fizesse parte da minha vida, mais do que já fazia. Muito mais do que já fazia.

"Por que não estaria?" perguntei, divertida, piscando-lhe o olho "Só porque minha mãe deve querer mostrar a você meu primeiro tombo no balé, minha primeira grande decepção – quando meu hamster morreu. Até enterrei no jardim ao lado da casa, com uma plaquinha de plástico amarrada em um palito de fósforo – e como eu ficava com o corpo maravilhoso naquela beca gigante de formatura?"

Ele riu, deixou minha mão e, com um movimento de cabeça, me chamou para sairmos dali. A maioria dos convidados – graças a Deus, graças a Deus, graças a Deus. A família do Vernon não era, realmente, das melhores – já havia ido embora, o que fez com que a gente conseguisse cruzar o jardim sem parar a cada metro para responder a alguma piada ou pergunta inoportuna de uma tia minha ou da cunhada de Petúnia.

Que realmente sabia a hora errada de dar uma opinião dispensável.

"Sua mãe também é assim?"

"Pior" ele respondeu, bebendo um gole de brandy. Me ofereceu o resto e, quando eu peguei, enfiou as mãos no bolso do casaco "Multiplique a quantidade de comida que sua mãe me ofereceu por três e por sete as coisas que ela falou que ia me mostrar. Aí está minha mãe dividida por dois"

Ri, alto, prestes a abrir a boca para retrucar quando senti um olhar em minhas costas. Virei um pouco a cabeça e, ao ver que era meu pai, virei também o corpo, estendendo o drink no ar e sorrindo ao conseguir que ele fizesse o mesmo movimento de volta.

"Vamos lá?" James perguntou, um tom de sorriso na voz, o corpo também meio virado agora "Só estava indo devolver o copo"

"Vamos" concordei, lembrando-me da bebida e deixando-a, mesmo inacabada, em uma mesa qualquer. Petúnia ia reclamar depois, obviamente, mas eu queria ter mais de papai e James "Gostou dele?"

Ele baixou os olhos para mim, sorrindo de canto e baixando o tom de voz para que papai e Vernon não corressem o risco de escutar caso fôssemos longe o suficiente na conversa "Importante mesmo, não é?"

Fiz que sim, e ele se aproximou de mim o suficiente para me beijar a lateral da testa, pelo menos uma das mãos saindo do bolso para pegar a minha e apertá-la. Era a melhor resposta que eu poderia receber agora.

OoOoOoOoOoOoOoOoOoO

"Não, mãe. Essa não" Lily reclamou, estendendo a mão para pegar a foto que Sophie estendia na minha direção. Sentados à mesa da sala de estar da casa dos Evans, Lily parecia cada vez mais desesperada em nos tirar dali para algum lugar seguro que não envolvesse álbuns antigos de fotos e histórias comprometedoras "Não pega essa, James, eu juro que... James!"

A foto era dela, com mais ou menos uns quatorze anos, deitada no sofá da sala com o cabelo todo esparramado, a boca entreaberta e as sandálias penduradas na mão.

"Chegou bêbada em casa"

"E Petúnia fez questão de tirar a foto para me chantagear depois" Lily resmungou, arrancando a foto da minha mão em um gesto extremamente rápido. Eu sorri, divertido, e peguei sua mão para lhe beijar a palma "Não que tenha precisado. Papai desceu seis da manhã e eu ainda estava no décimo quinto sono"

"Ficou de castigo?"

"Até que não" ela negou com a cabeça também e voltou a se sentar entre o pai e eu, um movimento do corpo indicando que cruzava as pernas em cima da cadeira "Pena atenuada por ser uma ótima aluna e nunca esconder nada deles, me parece"

"E valeu a dor de cabeça do dia seguinte" Peter comentou, sorrindo um pouco, guardando a foto que Lily lhe dera "O garoto de dezesseis anos que você viu hoje, James, tinha quatro, e ela teve que tomar conta dele"

"Não me lembro de uma dor de cabeça tão grande" ela concordou, mais divertida agora. Antes, parecia prestes a fechar a caixa de fotos "Como gritava, o Kyle. Nunca amaldiçoei tanto Marc de uma vez só"

"Marc...?"

"Irmão da Marlene e responsável pela bebedeira" Sophie respondeu "Conhece ela?"

"Conheço" disse em resposta, meneando também a cabeça "Ela, e a Mary e a Alice. Mas melhor ela, por causa do apartamento"

Ela sorriu "Divide o seu com alguém?"

Neguei.

"Sempre morou sozinho depois da casa dos pais?"

"Não" era Peter a quem respondia agora "Até os vinte e três, morava com um amigo meu, mas ele é fotógrafo e queria um apartamento com três quartos só para ele para fazer dois como uma espécie de... estúdio não é o termo exato, acho. Ele revela algumas fotos ali"

"E você ficou com o apartamento?"

"Vendemos" discordei "Meus pais tinham dado para mim, mas eu não precisava de um com dois quartos grandes e um pequeno e com uma sala e cozinha daquele tamanho. Além do quê, não sabia se conseguiria manter sozinho sem ainda ter estabilidade no trabalho"

"Essa eu não entendi" Lily interrompeu, o rosto pendendo para o lado, o cabelo molhado – viemos andando da casa dos Durleys para cá e, mesmo com a chuva um pouco mais fraca, havíamos nos molhado um pouquinho – escorregando pelo ombro coberto pela blusa larga que colocara logo depois de chegarmos. Era de um cinza escuro, quase preto, e escorregava por um de seus ombros, deixando-o nu juntamente com suas pernas "Ele mudou porque queria um apartamento maior, mas você está dizendo que era grande demais"

"Para mim" discordei, sorrindo, apertando de leve sua perna por debaixo da mesa. Ela estreitou os olhos na minha direção, a sombra de um sorriso no rosto enquanto sua mão ia para cima da minha "E foi uma boa idéia, de qualquer jeito. Com a minha metade..."

"Você deu para o seu amigo metade do valor?"

"Mãe!"

"Achei legal, ué"

Ri "Engraçado, ele só aceitou depois que eu troquei a conta no banco e não dei o número novo para ele"

Os outros três riram.

"Onde você estudou?"

"Na..."

"Não sei se prefiro as fotos ou esse interrogatório" Lily me interrompeu, endireitando-se na cadeira, com a mão direita colocando uma mecha do cabelo atrás da orelha "É como entrevista de emprego"

"Pior" o pai dela respondeu, claramente prendendo um sorriso "Mas tudo bem, voltemos para as fotos. Onde está aquela, Sophie, em que ela acabou de arrancar os sisos..."

"Não. Não, não, não" ela praticamente gemeu, projetando o corpo para cima. Pegou a caixa fechou-a logo em seguida com a tampa, segurando-a em seu colo "Desculpe, James, mas prefiro as perguntas. Tudo, menos essa foto"

Sorri, me deliciando, e não respondi nada por um momento. Mirei seu perfil – as sardas visíveis em sua bochecha, a linha de seu nariz arrebitado, a pinta pequena que ela tinha no final da sobrancelha esquerda – por esse tempo e tive a impressão de que meu sorriso só aumentou quando ela sentiu meu olhar e virou o rosto, piscando os olhos devagar enquanto também abria um sorriso.

"Ela é horrível, acredite" continuou, apertando a caixa nas pernas ao ver meu olhar e minha sobrancelha arqueada "Não sei nem porque não tive a idéia de acordar no meio da noite e acabar com essas fotos e..."

"Fácil. Nós temos os negativos" Sophie brincou, arrastando a cadeira no tapete para levantar. Sorriu ao ver a careta que Lily lhe mandara, a língua para a boca em um gesto quase infantil, mas continuou com o movimento "Vou trazer um pouco de bolo, ok?"

Abri a boca para responder, mas não tive nem mesmo de dizer alguma coisa antes dela virar as costas e seguir em direção à cozinha. Toda vez que me oferecia alguma coisa era assim; saía antes que eu pudesse aceitar ou negar, um gesto que eu acreditava ser uma estratégia para que eu não tivesse tempo de dizer que não.

"Tem bolo pronto aqui, é?"

"Tá brincando, Lils?" Peter perguntou, divertido, fazendo com que nós dois olhássemos para ele "Fez praticamente uns dez depois que soube que o James vinha, um de cada sabor para não correr o risco. E não é exagero"

"Ela poderia ter perguntado" Lily argumentou, tirando a mão de mim agora "Seria mais fácil"

"Não precisava, na realidade"

Peter sorriu para mim "Está só sendo educado"

"Talvez" concordei, sorrindo de volta "Mas podia mesmo fazer só um"

"Ele come de tudo mesmo" Lily disse "Ele e o Sirius acabam com a comida lá de casa e..."

"Sirius?"

Ela piscou, e depois olhou para mim.

"É o meu amigo do apartamento" respondi "Sirius Black"

Ele estreitou os olhos.

"Ah, bem... Sirius e Marlene estão meio que juntos" Lily disse depois de um tempo, fazendo uma carinha engraçada de... de sei lá o quê "Apresentamos um ao outro em um bar. Só não conte à mamãe, porque ela vai contar à mãe de Marlene, que vai perguntar quanto tempo vai durar a viagem e..."

"Viagem?"

Ela piscou de novo, me fazendo rir.

"Andou mentindo para Maggie, então" Peter afirmou ao invés de perguntar, o rosto caindo para o lado "Ela tem mesmo um projeto para entregar?"

"... Já entregou"

Ele soltou um sorriso, mas deu de ombros.

"Ok" concordou, agora olhando para mim "Você sabe que..."

"Prontinho!" nós três olhamos para a mãe de Lily que, agora, cruzava a porta da cozinha com a maior bandeja de bolo que eu já havia visto em minha vida "Prove, James, e veja se gosta"

E, então, ela começou a falar alguma coisa com o marido, e Peter respondeu e começou uma conversa leve sobre a dona da padaria que já havia sido babá de Lily e que se assombrara com o fato dela já estar namorando. Foi nesse momento em que olhei mais uma vez para Lily e esperei até que ela me olhasse de volta, me permitindo me inclinar rapidinho para ela até que minha respiração tocasse seu pescoço e meus lábios ficassem perto de seu ouvido.

"Gosto" murmurei, sorrindo "Estou adorando, na realidade"

O sorriso que ela me devolveu foi... demais. É, demais.

OoOoOoOoOoOoOoOoO

"E, finalmente, o meu quarto" eu apresentei, exageradamente teatral, sorrindo quando ele riu. Não comentou nada, entretanto; seus olhos correram pelo cômodo e, avaliando cada cantinho dele, terminou por manter o sorriso no rosto enquanto me abraçava por trás e me beijava a bochecha "O que foi?"

"Adorei a cama" murmurou, mordendo a maçã do meu rosto quando praticamente gargalhei. Seus braços me apertaram mais forte, suas pernas se embolaram nas minhas e sua boca, mais uma vez, me beijou, o mesmo lugar que antes havia mordido "Convidativa"

"Para daqui a uns dez minutos" concordei, rindo, praticamente me contorcendo para escapar de seu abraço. Cruzei metade do quarto – o que não era muita coisa já que, na divisão de quando chegamos, eu escolhi ficar com a segundo suíte mas com o quarto menor, e Petúnia se resolveu com o closet e um espaço até mesmo maior que o do meus pais, mesmo tendo que usar o banheiro do corredor – e me virei para ele, com um gesto rápido de mão apontando o quadro de fotos "Não quero que você fique com a péssima impressão de que não sou fotogênica"

"Você já parou para pensar que eu vejo você?" perguntou, mas veio até mim com um sorriso até mesmo divertido. Colocou-se atrás de mim e segurou meus ombros, as mãos movendo-se de uma forma que chegavam perto de massageá-los "E de todos os ângulos possíveis?"

"Você queria ver fotos minhas, não queria?" provoquei de volta, fechando os olhos, tendo plena consciência de que minha voz falhou rapidinho "Quero te mostrar as que não me envergonham, por favor"

Ele não me respondeu, as mãos deslizando de meus ombros pelos meus braços até entrelaçar nossos dedos. Os dele, mais quentes desde que entramos na casa dos meus pais e ficamos horas, literalmente, conversando na sala – passando por perguntas para ele, por momentos de mostrar as minhas piores fotos e por conversas surgidas totalmente do nada sobre tudo -, acariciaram de leve minha pele, movendo-se devagar como se soubesse que aquilo ficava no limiar de me excitar e de me fazer abraçá-lo para não largar mais.

Talvez soubesse, na realidade.

"Estou feliz por isso" comentou, apertando minha pele o suficiente para eu entender a mensagem de me virar. Mas, mesmo assim, só olhei para ele por um tempo, piscando os olhos ao esperar por mais "Sério, ruiva. Queria mesmo conhecer mais de você"

Tive a minha vez de não responder nada, somente mantendo o olhar por um tempo que não poderia precisar. James sorria seu sorriso de canto e tinha o brilho de sempre em seu olhar, mas seu sorriso tinha um quê novo - que combinava com a novidade também em seus olhos - que eu reconhecia como seriedade.

Que ele demonstrara durante todo o dia.

"Estou feliz por você conhecer" disse, finalmente, deixando meu rosto cair para o lado enquanto sorria. Não era como se eu não conhecesse o lado menos brincalhão de James, mas era a primeira vez que o reparava voltado para mim; todas as vezes em que ele se policiava para não retrucar algum comentário de Vernon que discordasse só para não piorar o clima com Petúnia – que sim, parecera aceitá-lo, mas do jeito dela -, todos os momentos em que ele tivera paciência de lidar com a curiosidade do mamãe e todas as conversas que ele mantivera com papai sobre tudo que vinha à cabeça de qualquer um dos dois "De verdade"

"E eu, mais uma vez, feliz por isso" ele me sorriu de volta e, baixando o rosto, beijou minha boca. Era a primeira vez que a gente conversava de verdade sobre nós dois, e esse era definitivamente um dos motivos pelos quais eu sentia meu coração se acelerar.

Algo extremamente comum ultimamente.

"De novo, por conhecer?"

"Pode ser" ele respondeu, segurando meu rosto com as duas mãos, curvando o seu próprio para que nossas bocas se encaixassem melhor "Mas falava de você estar feliz"

Sorri, entreabrindo os lábios, meu corpo se curvando para trás enquanto envolvia seu pescoço com meus braços. Passara o dia todo querendo beijá-lo desse jeito, envolvendo seu pescoço e enfiando meus dedos em seu cabelo enquanto acariciava seu rosto e suspirava com a combinação de seu beijo e o toque de suas mãos em qualquer parte de mim. Queria sentir seu cheiro, seu gosto, sua textura, me perder total e completamente nele como não queria parar de fazer nunca mais.

Nunca mais.

"... Você estava certo" sussurrei contra sua boca, ambas as mãos segurando a barra de sua blusa para puxá-lo para cama. Não era de casal mas também não era de solteiro, o que permitiu que a gente coubesse com até mesmo um pouco de facilidade "Esqueça os dez minutos"

Ele riu, os lábios ainda nos meus, as mãos deslizando pela lateral do meu corpo até encontrar a barra da blusa para dormir que eu vestia. Era uma das poucas vezes em que eu tinha menos roupa que ele – essa, obviamente, o dia em que eu escolhera as roupas para levar para a casa dele e mais dois ou três dias -, o que me frustrava de um determinado ponto de vista; continuava querendo sentir seu cheiro, seu gosto, e continuava a querer tocá-lo, desesperada para tirar suas roupas e senti-lo com tudo o que eu poderia.

"Você..." ele começou, afastando-se um pouco para tirar a blusa. Não voltou a baixar o corpo de imediato e só me olhou por um tempo – os olhos correndo de meus olhos para a minha boca, da minha boca para o meu colo para, daí, escorregarem por minha barriga até minha calcinha -, um suspiro escapando ao procurar minhas mãos e entrelaçar nossos dedos contra a cama "... Deus, é gostosa demais"

Sorri, deliciada, meu rosto caindo no travesseiro quando ele se inclinou para me beijar. Abri as pernas para que seu corpo se ajeitasse melhor sobre o meu, tentando alcançar com os dedos o fim de sua blusa para que pudesse, finalmente, ter mais de sua pele contra a minha.

"Apaixonante" ele continuou, tirando ele mesmo a peça de roupa. Dessa vez, subi o corpo, nos encontrando na metade do caminho e forçando o dele um pouco para o lado para que invertêssemos as posições "Mandona, mas apaixonante"

Ri, correndo os dedos pela parte superior de seu corpo até alcançar o botão de sua calça "Você gosta"

Ele sorriu e, com um olhar excitado – lá estavam os traços mais verdes de seus olhos – pegou uma de minhas mãos e enfiou-a em sua cueca, me fazendo gemer contra sua bochecha ao senti-lo.

"De você, de qualquer jeito. Como já disse" respondeu, tirando a mão. A minha, entretanto, continuou lá, movendo-se no ritmo em que eu já percebera que ele preferia enquanto a outra tentava tirar, com a ajuda dele, o resto de suas roupas "Adoro"

Era mais um gemido que uma fala, o que me fez sorrir em satisfação e continuar ao beijá-lo. Tive que me afastar para que pudesse deixá-lo nu, voltando para ele enquanto pegava minha bolsa – estrategicamente colocada ali quando subi para trocar de roupa - e jogava todo o conteúdo no chão para ficar mais fácil de achar as camisinhas.

"Minha carteira" ele murmurou, os dedos afastando a parte de trás do tecido que escondia meus seios e o corpo se inclinando para o meu para que não nos separássemos demais "Ali, no... deixa que eu pego"

Sorri e me afastei – não, ainda não tinha achado a carteira, preocupada em manter meus olhos abertos frente ao prazer que era ter seu membro roçando minha calcinha – decidindo esticar o braço para pegar o controle da TV e ligá-la para abafar um pouco os nossos sons. Era óbvio, claro, que os meus pais sabiam que a gente não ia simplesmente deitar e dormir, mas daí a ter que ouvir a quantidade de gemidos – e até mesmo algo mais – que eu soltava com James era demais.

"Vamos, tira o resto da roupa" ele disse, sussurrando em meu ouvido, preocupando-se em baixar minha calcinha enquanto eu tirava a espécie de top que vestia. Me apoiei nele para que ficasse mais fácil o deslizar do tecido por minhas pernas., mordiscando seu lóbulo esquerdo antes de tirar seus óculos e abandoná-los na mesinha de cabeceira "Vem aqui"

Gemi, alto, ao senti-lo ainda sem a camisinha, prendendo o impulso de baixar meu corpo em direção ao seu membro com o ultimo bom senso que eu tinha. Ele também parecia se controlar para não subir o corpo, o lábio inferior mordido em excitação enquanto tirava as mãos de mim para abrir o pacote do preservativo, os olhos entreabertos pendendo para os meus enquanto beijava de leve minha boca.

Deus, como eu o queria.

"James, eu..."

"Eu sei" porque sim, ele realmente sabia "Merda, como eu sei"

Suspirei e me afastei um pouco, ajudando-o a deslizar a camisinha. Não afastamos os olhos um do outro, nós dois corados pela excitação e pela expectativa, nós dois suspirando e entrecortando respirações.

"Deita" ele continuou, com um empurrão entre o forte e o fraco me fazendo cair para trás. Colocou-se por cima de mim e segurou minha cabeça pela minha nuca para que ela não caísse no vazio, me ajudando a chegar para frente para que tivesse mais liberdade de movimento.

O que eu, definitivamente, ia precisar, visto a sua boca que deslizava para meu colo e seus dedos que já estavam embaixo de meu umbigo. Gememos ao mesmo tempo, nos masturbando, até que tirei a camisinha nos gestos e rimos – excitados, quase desesperados – antes de repormos o preservativo.

Fomos dormir de madrugada.

OoOoOoOoOoOoOoOoO

"Marnie...?" murmurei, preguiçoso, assim que atendi o celular. Não havia nenhuma luz no quarto – contar com a luz da lua na Inglaterra era restrito a romances açucaradas – e, por isso, afastei de novo o meu celular do rosto para poder ver as horas. Eram quase quatro da manhã "Aconteceu alguma coisa?"

"Aconteceu" ela me respondeu, a voz também repleta de sono. Até ela precisava dormir às vezes "Bin Laden?"

"Hum?"

"Foi morto pelos EUA"

"Foi mor... O quê?" perguntei, ainda em sussurros, mas com o tom um pouco mais forte. Lily até mesmo esboçou uma reação no sono, o que me fez me afastar um pouco mais para que ela não acordasse "Quando?"

"Obama ainda não fez o pronunciamento oficial, mas uma fonte disse que há mais ou menos duas horas"

"Fotos?"

"Até agora, uma. Mas o editor de imagens diz que foi manipulada"

"Bom" recomecei, passando os dedos em minha nuca enquanto prendia um bocejo "Eles não mentiriam sobre isso. Dois segundos depois poderia aparecer um vídeo"

"Também acho que não" respondeu, sem conseguir prender seu bocejo "Johnson vai mandar em dez minutos para o seu e-mail algumas coisas para..."

"Eu escrevo" interrompi, resolvendo passar os dedos pelo cabelo de Lily para ver se ela se acalmava um pouco. De vez em quando, eu tendia a pensar que ela tinha o sono mais leve que eu já vira, sempre se remexendo ao estranhar cada movimento novo meu "Mas vou precisar do revisor. Só estou com o celular"

"Não está em casa?"

"Em Yorkshire"

"E não levou o computador?"

"Não pretendia dormir aqui" respondi "Você revisa para mim?"

"Sullivan está na redação" discordou, bocejando mais uma vez. Dessa vez, não consegui prender o meu "Não precisa de muito, ok?"

"Ok" respondi, desligando, abandonando o celular na mesinha de cabeceira. Dei uma olhada em Lily antes de me levantar e, sem me preocupar em vestir alguma coisa, fui até o banheiro. Decidi não acender a luz e abrir a torneira da água gelada para acordar mais rápido, tentando me lembrar onde havia deixado os óculos enquanto voltava para o quarto e tentava reconhecer os contornos no escuro.

O que é meio difícil, visto que eu não conhecia direito e, ainda por cima, estava cego pela miopia.

"James...?" imediatamente, voltei os olhos para a cama, indo até ela quando ouvi o som do corpo de Lily se levantando. Não consegui me impedir de sorrir quando ela, muito mais adormecida que acordada, segurou minha cintura com ambas as mãos quando me projetei sobre ela "Que horas são...?"

Não respondi nada de imediato, afastando a franja lateral desordenada de seus olhos. Ela reagiu ao toque frio por causa da água e quase pulou, me fazendo rir antes de beijar rápido sua boca "Quase quatro da manhã"

Ela piscou os olhos, mal conseguindo abri-los depois. Com uma pressão em minha cintura, me puxou mais para perto, o queixo se apoiando em meu ombro conforme seu corpo descia e tentava me levar junto.

"Tenho que escrever" discordei, beijando, agora, a lateral de sua cabeça. Me afastei um pouco para desfazer o meio abraço e saí de cima dela, mas Lily só se levantou até o suficiente para se sentar "Volte a..."

"Algum problema?"

Sorri "Não para mim"

"Furo de reportagem?"

"Não sei" respondi, rindo mais uma vez quando ela piscou os olhos e fez uma cara de quem não entendia "Mais gente deve saber, claro, mas ainda não houve nenhum pronunciamento oficial de que..."

"Pode me contar? Estou curiosa" me interrompeu, dessa vez puxando o edredom junto com ela. Encolheu-se embaixo dele e juntou, por baixo da roupa de cama, as mãos ao corpo, mas uma delas se separou e fez um gesto para me chamar junto "Sempre fico curiosa, aliás, quando as coisas começam nesse tom de mistério"

"E eu não sei?" repliquei, divertido, pegando o celular e fazendo o que ela mandava. Estava mais quente, claro, mas o que me distraiu de verdade foi o roçar de seus seios nus na lateral do meu corpo "Bin Laden pode ter morrido"

Sua cabeça pendeu para o lado "Sério?"

"É"

"Morto?"

"Pelos EUA"

"Uau" piscou de novo os olhos mas, dessa vez, eles ficarem menos tempo fechados "É para o site?"

"É" respondi, outra vez beijando-a. Agora, era a maçã de seu rosto, e logo depois o canto de sua boca "É melhor você voltar a dormir, ruiva. Está frio, e você dormiu pouco de ontem para hoje"

Ela não respondeu "Onde você pretende escrever?"

"Mando um e-mail pelo celular"

"Não" discordou, sua vez de se afastar "Meu antigo laptop deve estar em algum lugar por aqui. Eu procuro para você"

Sorri.

"Valeu" agradeci, arrancando dela um outro sorriso e conseguindo um beijinho rápido na boca antes dela se levantar. A luz continuava apagada e eu sem os óculos mas, mesmo assim, eu me ocupei em fazer com que o delineamento de seu corpo virasse todas as curvas e nuances que eu conhecera nesses poucos meses.

Todas as curvas e nuances pelas quais eu me apaixonara.

"Parece que mamãe não mentiu quando disse que não havia mexido no meu quarto"

"Parece que a sua memória é boa demais" retruquei, divertido, mais uma vez me ajeitando na cama. Peguei o laptop e o apoiei no travesseiro, abrindo-o e esperando que ele ligasse enquanto deixava o carregador que ela me estendia ao meu lado "Não lembro nem onde deixei – se é que fui eu - os óculos"

Ela riu, baixo, a cabeça se apoiando em meu ombro. Desfiz o gesto com um movimento lento e quase delicado e, sob seu olhar, passei o braço por seus ombros e a abracei, fechando os olhos ao cheiro de sua pele.

"Você não quer dormir, não é?" perguntei, sorrindo quando ela, brincalhona, negou. Nenhum de nós dois disse nada por um momento, eu por estar perdido em pensamentos e ela por um motivo que eu desconhecia e queria conhecer "Ei"

"Hum?"

"Adoro sua teimosia, sabia?"

Lily retribuiu com uma mordida carinhosa em minha mão direita, que passava por seu colo, e com um murmúrio de prazer ao ceder ao puxão que a levaria para o meio de minhas pernas. Ela mesma apoiou o travesseiro nas pernas e se ajeitou de modo a me deixar escrever, os dedos deslizando por minhas pernas e arranhando-as durante todo o tempo em que estive escrevendo.

Eram quatro e quarenta e alguma coisa quando terminei, tarde demais para voltarmos a dormir. Abandonei o laptop no chão ao meu lado e ela se virou para mim, o edredom escorregando conforme se ajoelhava e pendia o corpo para o meu.

Que corpo.

"Esquece o que eu disse sobre você adorar sexo de manhã" comecei, beijando sua boca, escorregando os lábios pela linha de sua mandíbula até seu ouvido "Adora a qualquer hora"

"Quem pode não adorar com você?" retrucou, mordendo meu lóbulo "É perfeito"

A recíproca era verdadeira.

OoOoOoOoOoOoOoOoO

"Sete e meia da manhã" murmurei para James enquanto descias as escadas, me virando para ele por cima do meu ombro direito "E o Dudley já está acordado, veja só. Anda melhor que eu"

Ele levantou os olhos exatamente quando eu voltei a olhar para frente, apertando meus ombros no que eu achava ser um gesto de concordância. Estava dois degraus acima de mim para que nossos passos não se embolassem mas, mesmo assim, chegamos ao fina da escada com quatro paradas para que não caíssemos.

"Jogando videogame, mas acordado" disse assim que pisamos na sala, levantando os olhos para ele "Mas certo, o filho não é meu e não vou me meter na educação dele"

Ele riu, mas desviou os olhos para fitar a tela da TV.

"É um daqueles jogos de luta" disse, sorrindo, olhando para mim "Você comprou qual, afinal?"

"Os dois" respondi, sorrindo també sua mão e entrelacei nossos dedos pouco antes de chegarmos à cozinha, onde estavam Petúnia, Vernon e mamãe "Bom dia"

"'Dia, Lily" mamãe respondeu, fechando a porta da geladeira "'Dia, James"

"'Dia" ele meneou a cabeça em cumprimento também para minha irmã e meu cunhado "Vernon, Petúnia"

Eles responderam com outro aceno;

"Cadê o papai?" perguntei, sentando em uma cadeira e apontando a do lado para James. Ele veio, colocou nossas mãos por cima da mesa e começou a brincar distraidamente com meus dedos, rodando o pequeno anel em meu mindinho "Saiu?"

"Está no telefone do lado de fora" mamãe respondeu, agora colocando um pouco de café em duas xícaras diferentes "Açúcar, James...?"

"Não, obrigado"

"Sério? Está forte"

James riu.

"Sério" confirmou, deixando minha mão agora "Valeu, Sophie"

Mamãe sorriu de um jeito contido, como se não quisesse sorrir, e começou a menear a cabeça em concordância ao mesmo tempo em que abria a boca para dizer alguma coisa. Não deixei – de todas as mães, a minha conseguia me envergonhar sem querer mais do que qualquer uma poderia fazer às filhas – e, engolindo mais rápido o café, tratei logo de arrumar alguma coisa para falar.

"Por que ele não está aqui dentro?" perguntei, apontando com o queixo a figura de papai. No jardim, ele se apoiava na mureta dos fundos da casa, uma xícara de café na mão enquanto falava "O café esfria em dois segundos com esse tempo"

"É conversa de trabalho" respondeu, sentando-me à minha frente "Ficou barulhento aqui dentro depois que o Dudley começou a demonstrar sua insatisfação com os noticiários"

"Você não deve saber, Lily, mas ele realmente gosta daquele desenho do cachorrinho do canal interativo" Petúnia entrou na conversa, o tom deixando claro sua insatisfação "Mas o canal deixou de passá-lo. E todos os outros três que gravamos também só estão no noticiário"

"Ah, claro" era James, agora "Morreu o Osama..."

"O presidente dos EUA morreu?" Vernon perguntou, interrompendo James. Este piscou os olhos e apertou novamente minha mão, prendendo um sorrisinho enquanto eu prendia a surpresa ao ver a confusão "Isso é sério?"

"Não" James negou, visivelmente na tentativa de manter o tom sério. Vernon tinha mesmo dificuldades com nomes parecidos "Quem morreu foi o..."

"Peter! O presidente dos EUA morreu"

Papai, já na porta da cozinha, piscou os olhos.

"Não, Vernon" tentei dessa vez, apertando de volta os dedos de James "Ele continua bem. Quem morreu foi o Osama"

"Então!"

Vi que papai prendeu uma revirada de olhos e um movimento de negação com a cabeça. Não era nenhum segredo para mim de que ele não gostava do Vernon, mas ele fazia o máximo que seu bom senso permitia para que Petúnia não percebesse isso.

"O presidente dos EUA, Vernon, é Obama. Esse que o James e a Lily estão falando é o Bin Laden" mamãe explicou, sempre paciente o suficiente para saber lidar com todo mundo com um sorriso complacente no rosto. O meu, tenho que admitir, havia muito mais ironia e diversão, decididamente influenciado pela opinião ruim que eu tinha sobre ele "Como foi isso?"

Olhei para James, ainda sorrindo, abrindo o sorriso quando ele simulou com os lábios um 'Vá em frente' divertido.

"Ele estava em uma casa no Paquistão" mais cedo, logo depois que James e eu saímos do banho, o celular dele apitou avisando que havia recebido um e-mail. Ele abriu sob meu olhar, prendendo uma risada enquanto eu tentava fingir não prestar a menor atenção, e disse que estava tudo bem em me mostrar. Desde então, mal conseguia conter minha excitação em ser uma das primeiras a saber o que já tinha sido descoberto pela imprensa "Em uma cidadezinha perto da capital..."

"Islamabad"

"Islamabad" agradeci a James com mais um aperto de mão "Todos os canais devem estar mostrando essa casa agora, falando como era uma das áreas mais militarizadas do mundo e como poderiam haver dicas de que havia alguma coisa de errado ali"

"Fotos?"

"Uma" respondi, alegre. Estava como uma criança, me sentindo o máximo "Mas três... quais foram mesmo?"

James riu "BBC, CNN, News. E, agora, o New York Times e o Washington Post"

"Então. Eles declararam que é manipulada"

"E é mesmo?"

"O editor de imagens do News jura que é. Mas só esses cinco jornais fizeram a declaração, então fica a dúvida" James respondeu, mais uma vez me fazendo sorrir. Papai e ele estavam realmente se dando bem, principalmente se eu colocasse em comparação a primeira vez do Vernon "Mas Obama já fez um pronunciamento, e os documentos que vazaram dão detalhes do que aconteceu"

"Mas tem duas versões diferentes" recomecei, animada, puxando a mão de James em minha direção "Não é? Uma fonte diz que uma das esposas morreu e a outra que só recebeu um tiro na perna"

"É"

"Não consigo me acostumar com isso" Petúnia disse, finalmente, com a sua expressão de que entrava em uma parte da conversa na qual poderia, enfim, opinar "Como essas mulheres muçulmanas aguentam dividir o marido com outra? Não deixo nenhuma mulher chegar perto do Vernon"

James e eu nos entreolhamos, divertidos.

"Mas tem pesquisas, Petúnia..." ela olhou para mim, piscando os olhos "... que dizem que o ser humano é realmente feito para ter mais de parceiro"

"Eu não acredito em ciência" Vernon disse, me fazendo imediatamente arquear uma sobrancelha. Poderia apostar tudo o que quisesse que papai estava do mesmo jeito atrás de mim "Acho que grande parte das pesquisas não passa de manipulação"

"Acha, é...?" papai perguntou, realmente atrás de mim, realmente com seu tom de 'estou-com-a-sobrancelha-arqueada' e realmente ao ponto de parecer desafiador "James?"

"Me sinto obrigado a discordar de uma ou outra" ele começou, divertido, piscando o olho rapidinho para mim – que estava quase surpresa, na realidade - antes de se virar um pouco para vê-lo "Sou totalmente monogâmico, por exemplo"

Meu pai e minha mãe riram, alto, e eu sorri em total deleite. Levantei e, na metade do caminho, beijei sua boca em um selinho leve, sem conseguir deixar de sorrir enquanto ia até a pia.

"Gostei" papai murmurou para mim, baixinho mesmo "Nota nove e meio só por causa do time"

Revirei os olhos, brincalhona e divertidamente, enquanto pensava que havia tempo em que me sentia tão feliz.

OoOoOoOoOoOoOoOoOoO

"Hoje está ainda pior que ontem" Lily disse assim que pisamos do lado de fora da casa dos Evans, descendo os três degraus mais rápido do que eu esperava "O frio, quer dizer"

Sorri "Achei que gostasse de frio"

"E adoro. É bom senti-lo" ela respondeu, sorrindo, me abraçando pela cintura. Apoiou o queixo em meu peito quando segurei seu rosto, fechando os olhos enquanto deixava que eu escorregasse algumas mechas de seu cabelo por meus dedos "Mas quando eu estou na minha casa, enfiada em um cobertor, com um copo de mokaccino e apoiada em um cara gostoso logo depois que a gente acabou de transar"

"Não se preocupe, a gente compra uns quatro copos de café antes de subirmos" retruquei, rindo contra o topo de sua cabeça quando ela quase gargalhou, me apertando mais contra seu corpo. Enfiou as mãos por debaixo de meu casaco e arranhou minhas costas com as unhas longas, os ombros se movendo devido à risada mas se acalmando conforme seus dedos percorriam minha coluna "E, embora eu ache que qualquer tempo é justificativa para ficar na cama, na iminência de neve é realmente..."

"Delicioso" ela completou por mim, afastando-se um pouco, o rosto caindo para trás apenas o suficiente para me dar um beijo, leve, na boca "Perfeito"

Sorri, sem deixar que ela se afastasse, e segurei sua nuca, minha outra mão deslizando as costas dos dedos por sua bochecha. Lily, mais uma vez, fechou os olhos, soltando um muxoxo de prazer quando pressionei a língua contra seus lábios. Entreabriu-os de leve e, com um suspiro, apertou minha cintura, um dos braços saindo de debaixo de minha roupa e deslizando por meu corpo até chegar em meu cabelo.

"Deus, James..." ela murmurou, enfiando os dedos nos fios de minha nuca, o pescoço caindo para o lado quando mordisquei sua orelha "Você é..."

Mas calou a boca.

"Você também, ruiva" concordei, sem precisar do complemente que ela não encontraria agora. Não que Lily fosse ruim com as palavras; ela só não era muito aberta à idéia de falá-las a qualquer hora. Principalmente comigo, eu achava "Você também"

Ela sorriu, deslizando a bochecha pela minha, beijando minha boca. Quatro selinhos depois, voltou a me abraçar, a cabeça se encaixando em meu ombro e os olhos piscando antes de voltarem a se fechar. Sorri e beijei o topo de sua cabeça, acarinhando sua nuca e seu rosto enquanto a prendia pelo pescoço contra meu peito.

"Odiamos interromper o casal..." Lily e eu nos separamos um pouco e olhamos para a porta de casa dos Evans, ela sorrindo e corando um pouco ao ver os pais e eu deixando-a escapar apenas o suficiente. Era novo – para não dizer, mais uma vez, surpreendente – vê-la corada desse jeito, parecendo uma menina linda e não a mulher forte que era "... mas o táxi já está esperando vocês"

"Ok" Lily respondeu à mãe, sorrindo, terminando de se afastar de mim. Abraçou-a em despedida e, depois, foi para o pai, deixando a mãe livre para que ela me lançasse um olhar que parecia... bom, de mãe.

"Você deve me achar clichê agora..." ela começou, em um tom apenas um pouco mais baixo que o normal. Mas, mesmo assim, Lily e o pai pareciam não ouvir; conversavam sobre alguma coisa, e só pelo tom de sua voz eu sabia que ela sorria "... mas cuide bem dela"

Sorri.

"Deixa comigo" embora Lily fosse a mulher mais independente que eu jamais tinha visto, eu não conseguia deixar de pensar que queria cuidar dela. Até mesmo chegar ao extremo de mimá-la um pouco, algo que, definitivamente, era novo para mim "Não pretendo te decepcionar"

Ela sorriu e me deu um abraço rápido, dando um passo para trás para que eu pudesse me despedir de Peter. Agora, ele entregava à Lily uma pilha de livros, mas ao terminar virou-se para mim e me estendeu a mão.

"Foi um prazer" falou, sorrindo "Espero te ver mais"

"Espero vir mais" retruquei, também sorrindo "Até mais"

Ele meneou a cabeça, também dando um passo para trás. Lily ainda soltou um último sorriso para cada um deles antes de dar as costas e, equilibrando todos os livros em apenas uma das mãos, pegar a minha com a outra, praticamente dando uma corridinha até o táxi.

"Me dê isso" pedi, estendendo o braço para indicar os livros. Ela não lutou muito, até mesmo brincando e fazendo uma reverência quando abri a porta do carro e deixei-a passar "Suas possíveis especialidades futuras?"

"Uhum" ela respondeu, pausando um pouquinho enquanto dizia ao motorista à estação em que pegaríamos o trem de volta para Londres. Virou-se para mim mas, antes de me dizer qualquer coisa, inclinou-se para a janela e deu um último 'tchau' para os pais "Pode vir aqui no Natal?"

Sorri "Dia vinte e cinco ou vinte e seis*?"

"Cinco" respondeu, me dando um beijo rápido na boca "Pode?"

"Vem comigo no vinte e seis?" repliquei, ainda sorrindo, meu nariz tocando o seu e nossas respirações se misturando "Não é nada de aterrorizante, só tem meus pais e, talvez, Sirius"

Ela riu, baixinho "Torço para um 'talvez, Marlene'"

"É uma boa idéia" concordei "Eles se dão bem"

"É" ela beijou meu queixo antes de se separar um pouco para, assim, tirar os livros do meu colo para poder se aproximar. Apoiou-se em mim e, mais uma vez, fechou os olhos, encolhendo os braços frente ao corpo quando a abracei "Eu vou"

"Eu venho" repliquei, penteando seus fios. Estavam de um tom mais escuro agora no frio, a cor mais que acobreada combinando perfeitamente com o tom quase pálido de seu rosto "Vou ter que te dar seu presente antes, mas venho"

"Não me provoque, Potter" ela retrucou, sem conseguir colocar o tom ríspido que queria na voz. Sorria, até "Não sei nem porque estou te dizendo isso, mas até mesmo pedi ajuda do Black"

"Eu já sabia"

Ela abriu os olhos, beirando surpresa.

"Nunca confie no Sirius, ruiva" ri com sua careta "É algo que se aprende com o mínimo de convivência com ele. Descobri logo na segunda semana em que dividíamos o quarto na escola"

"Traidor"

"Por quê...? Tudo continua valendo, não é?"

"Mas, agora, você sabe"

"Acredite, eu saberia de qualquer jeito" discordei, rindo um pouco mais uma vez "Você não é muito boa em manter coisas omitidas, sempre deixa escapar uma coisa ou outra como agora"

"Isso é bom?"

"Numa dessas, consegui um de seus presentes. Claro que é bom"

Ela levantou os olhos para mim, interessada, mas deu de ombros ao ver que eu não diria nada.

"Acho que sei do que você está falando" ela disse, endireitando-se um pouco no banco "Perdi as contas das vezes em que tive que prender minha boca para não discordar das idéias de Petúnia e da irmã do Vernon"

"Eu vi você mordendo a língua na história do marido rico" concordei "Você e sua irmã são bem diferentes"

Ela só meneou a cabeça por um tempo.

"É estranho pensar nisso. A gente era bem ligada quando mais nova" comentou, dando de ombros mais uma vez. Não parecia chateada ou algo assim, mas sua expressão ganhara um quê pensativo "Até que eu fui para uma escola e ela não, e a gente acabou se separando"

Fiz que sim "Você escolheu mudar?"

"Nós duas, mas ela fez primeiro o exame de admissão e não passou. Eu consegui, junto com Marlene" respondeu, afastando-se um pouco de mim. Eu sorri, sem querer forçar nada – vendo-as assim, ainda melhor do que no dia da farmácia, foi mais que suficiente para me fazer perceber que elas realmente não estavam bem – e beijei sua boca, também em endireitando para que ficássemos mais confortáveis "Ela não ficou muito feliz, acho. E eu não fiquei feliz dela ter ficado com um nível de inveja que parou, praticamente, de falar comigo"

"Você se sentiu mal por isso?"

"No começo, sim. Depois... sei lá, James. Ela quer um marido rico para que possa ser bancada, eu quero o meu dinheiro para que possa ser independente de qualquer tipo de pessoa. A gente não ia dar muito certo mesmo"

Olhei para ela e avaliei sua expressão, um sorriso pequeno em meu rosto ao me inclinar para lhe beijar de novo a boca. Cada dia mais, eu via como Lily era apaixonada pelo que fazia – essa vontade de estudar mais, de querer mais, de saber que podia mais. E não apenas no trabalho, mas em tudo o que ela fazia – e, cada vez mais, me apaixonava por isso. Ela era decidida, forte, verdadeira, sexy, espontânea, divertida, e ainda surpreendente, e não havia mais nada que eu queria agora.

Eu só queria Lily. E muito.

OoOoOoOoOoOoOoOoOoO

"Vou roubar um pouco daqueles seus biscoitos, ok?" James disse, despenteando meu cabelo enquanto passava por mim e ia até a cozinha. Eu sorri, tentei ajeitar meus fios e sentei na bancada do lado da sala, apoiando meu queixo em minhas mãos enquanto o observava "Já tem aberto?"

"Na prateleira de cima" respondi, tamborilando meus dedos por minha bochecha enquanto seguia seus movimentos. James não precisava se esticar como eu para alcançar o armário, mas mesmo assim sua blusa se levantava o suficiente para eu me deliciar um pouco mais com seu corpo "Pega o controle aí na mesa?"

Ele depositou o controle na bancada para mim, e eu me virei para ligar a TV. Estava no canal de notícias e, como eu não podia deixar de esperar, falava da morte de Bin Laden, mas eram notícias velhas que James e eu já havíamos lido nos milhares de e-mails que ele recebera enquanto estávamos no trem.

"Cold Case, House, CSI ou Brothers & Sisters?" perguntei, sem precisar perguntar se ele queria manter naquele canal. James já sabia aquilo tudo de cor "Acho que também é hora de Law & Order... não, calma aí, acho que estou confundindo com sábado"

Ele riu "House"

"House" concordei, colocando na Universal. Passava, exatamente, a musiquinha de entrada e o nome do Robert Sean Leonard "Vamos pedir o quê para comer?"

"Escolhi o seriado já, ruiva" ele retrucou, passando por mim e me dando um selinho divertido. Rodeou minha cintura com um dos braços e me tirou do banco, me fazendo rir enquanto me empurrava até o sofá para que sentássemos juntos ali "Além do quê, como você tão gentilmente disse para o seu pai, eu como de tudo e acabo com o seu estoque de comida em casa"

Quase gargalhei "É verdade"

"Não estou dizendo que não" ele mesmo apontou para o pacote de biscoitos, divertido, apoiando-se em um braço do sofá depois de tirar o que calçava. Eu não me preocupei exatamente com isso e só me apoiei nele, deixando meu rosto cair para trás para lhe dar um beijinho no queixo "E aí...?"

Pensei um pouco "Gosta de comida turca?"

"Uhum"

"Comida turca, então"

Eu o senti sorrir contra a parte de trás de minha cabeça antes de me endireitar um pouco para pegar o celular no bolso do meu sobretudo, colocando no número da agenda e entregando-o a ele para que pedisse o que quisesse. Afastei-me um pouco mais para tirar o sobretudo sem me importar com o frio – a gente já havia regulado a temperatura para mais ou menos quinze graus, mas ainda estava um pouquinho longe para isso - e subi um pouco o corpo para tirar a meia calça, só me lembrando no meio do caminho que a sandália também estava ali.

"Tira o vestido também" James sussurrou contra meu ouvido, brincalhão, antes de ter a sua vez de se afastar para começar a falar com o atendente do restaurante, o tom de voz já normal. Eu sorri para ele, divertida também, e beijei sua boca em um selinho leve antes de me levantar "Tem cadastro?"

"No nome de Marlene" respondi, indo até meu quarto para realmente trocar de roupa. Sem pensar duas vezes, peguei um casaco dele que estava jogado no chão – entre todas as roupas que eu tirara e ainda não tivera tempo de verdade para arrumar – e o vesti, tirando meu cabelo de dentro do tecido já de volta ao corredor "Quanto tempo?"

"Quarenta minutos" ele respondeu, batendo com a mão no espaço do sofá entre suas pernas. Com um sorriso, me aninhei nele, aproveitando seu abraço para buscar por calor "Com fome?"

Ri e peguei o pacote de biscoitos, roubando dois antes de devolvê-lo a ele. Começamos uma conversa leve sobre tudo e sobre nada ao mesmo tempo que duraria até depois do almoço, mal saindo do sofá durante todo esse tempo que, de alguma forma, passou extremamente rápido para mim. Eram duas da tarde quando abandonamos os pratos em cima da mesa da cozinha e fomos para o meu quarto terminar de arrumar as minhas coisas para o apartamento dele, e eram apenas duas e quinze quando esquecemos tudo aquilo e caímos na cama para não sairmos dela pelo resto da tarde. Transamos, conversamos, e transamos de novo, e agora estávamos aqui de novo, conversando, ignorando a passagem do tempo.

"Sabe, James...?" eu perguntei, interrompendo a mim mesma – falávamos sobre o filme do rei George VI – quando o pensamento cruzou minha cabeça "Não estou sentindo falta do Mokaccinno"

Porque não, não estava mesmo. Os beijos de James – em minha boca, em meu rosto, em qualquer parte de minha pele -, seus toques, seus sussurros e seus gemidos soltos sem nenhuma tentativa de serem presos eram mais do que suficiente para que eu esquecesse de todo o resto. Era o jeito como ele segurava com força meu cabelo – sem deixar de ser, de certa forma, carinhoso, e por isso o cara mais perfeito na cama – ao me apoiar na parte final da cama, era a maneira com que me olhava, era o modo como também se importava com meu prazer além do dele. Eram os risos soltos sem vergonha, os sorrisos provocantes e excitados quando me via corar em excitação e fechar os olhos, os movimentos de seu corpo contra o meu que, em qualquer posição, me faziam chegar onde eu queria e até um pouco mais.

Era James.

"Claro que não" ele riu, alto, beliscando minha cintura "Da mesma forma que eu não estou sentindo falta do edredom"

"Quem disse que eu estou?" a minha pele contra a dele era a melhor coisa do mundo "Visões românticas são sempre melhoradas pela vida real, afinal de contas"

"Que bom que concorda comigo em não querer romances certinhos de sexo só depois do casamento"

"Mas a minha visão de antes envolvia sexo antes do casamento"

"Só para deixar as coisas mais fortes"

Ri, mordendo seu pescoço, me aconchegando mais em seu abraço. Senti que ele fechava os olhos e me apertava mais contra seu corpo, sentindo o cheiro de meu cabelo enquanto beijava a maçã de meu rosto.

"E eu que pretendia voltar para casa" murmurou, fazendo um sorriso surgir em meus lábios "Não saio daqui mesmo"

"Não quero que saia"

"Outro acordo"

Sorri.

"E amanhã é segunda" ele continuou, beijando minha testa "Segundas são cruéis"

Ri mais uma vez "Gosto das minhas segundas"

"Gosta porque não morreu o cara mais procurado do século" retrucou, beijando agora a pontinha de meu nariz "Me visite na sua hora do almoço para ver o caos que vai estar aquilo dali"

"Droga" resmunguei, baixinho, piscando os olhos para ele "Sem almoço?"

Ele sorriu.

"Tento dar meu jeito" disse, o polegar em meus lábios, os olhos nos meus "Que horas amanhã?"

"Uma"

"Uma, então" concordou "Embora preferisse não sair daqui"

"Mais um acordo"

A gente combinava, afinal de contas.

OoOoOoOoOoOoOoOoOoOoO

*lá na Inglaterra, o dia vinte e quatro para eles é como se fosse um dia comum. Há o Natal, no dia vinte e cinco mesmo, e o que eles chamam de Boxing Day, no dia vinte e seis. Por isso as datas, ok? Explico melhor isso no capítulo em si *-*

Quarenta e cinco páginas no Word, treze mil palavras e exatamente quatorze dias depois – alguém acredita? XD – aqui estou eu, postando o capítulo vinte e um de Drinks. Sim, foi difícil, foi muito difícil de escrever, mas tenho que dizer que, sem a bal – live, seria impossível. Ela me respondeu um e-mail gigantesco falando que era preciso levar lembrancinhas, que brandy era uma ótima pedida, que deveria rolar um papo mais sério sobre alguma coisa para o Peter concordar com o James e não com o Vernon e que não seria inverossímil eles dormirem lá. E, obviamente, me explicou essa história do Natal inglês, ainda me dando dicas preciosas para esses capítulos.

É óbvio que esse capítulo vai para ela. É como se fosse a co-autora ;)

Agradecimentos também à Nanda Soares, Gabriela Black, bal – live, Mrs. Mandy Black, Sally Ride, Mila Pink, Luiza Potter 170, Mrs. Nah Potter, Malu Evans, Justine, NG, Nathália, Samantha Sophie.

Li – voltar ao Brasil, então? Você quer? Engraçado, dou tudo para sair daqui u.u Mas deve ser aquela história de não ter nenhum lugar como a casa da gente, mesmo que quando se tenha quinze anos – como eu – tudo o que mais se deseja é viajar pelo mundo. Europa, albergues, estradas e especialmente Londres que me aguardem ^-^

Ju Darkside – capítulo postado, o mais rápido que pude! Como vê, foi o maior e mais complicado deles, então espero que goste ;D

Renata – próximo capítulo, aqui está. E sim, sim, sim, os dois são demais, não é? Adoro o jeito como tratam um ao outro \o/

Só gostaria de pedir uma coisinha aqui; gente, estamos quase em junho. Eles no início de dezembro. Mas pensem que tudo o que está acontecendo agora no mundo real tenha se adiantado seis meses, ok? Licença artística XD

Beeeeeeijos *-*

PS: repararam que uma retirada futura da camisinha está se manifestando?

PPS: e que uma conversa séria dos dois sobre eles mesmos também?