Olá pessoas... e sem delongar muito...

Disclaimer: Declaro que todos os personagens aqui descritos não pertencem a mim e sim ao CLAMP. E que a fic, classificada como T, contém cenas de violência.


Cap 21 – Meu coração é seu

Escrito por: Cherry_hi

Revisado por: Yoruki Hiiragizawa

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Shaoran acordou como se tivesse levado um tapa, puxando o ar ruidosamente para os pulmões. Sentiu o braço direito inerte doer barbaramente, assim como seu abdômen. Estava mentalmente esgotado e destruído. Mas, estranhamente, sentia-se um pouco mais forte. O suficiente para se levantar do chão. Olhou ao redor, procurando Sakura e a localizou alguns metros distante dele, acordada e aterrorizada. Procurou então pela Madoushi e localizou-a perto do seu trono, caída no chão também.

Ele foi até Sakura, arrastando-se penosamente. Ele segurou uma de suas mãos frias, que entrelaçaram seus dedos nos dele como se ele fosse uma tábua salva vidas.

- Você está bem?

- Eu não consigo sentir as minhas pernas. - o medo transparecia em sua voz e a deixava ainda mais pálida.

- Calma… fique calma… você pode estar só em choque.

- Shaoran… eu vi… eu sonhei…

- Você também?!

- É… quando ela estava tentando… quando ela te pegou… de repente ouve uma explosão, uma luz… e…

- Eu sei. Eu sei…

- Ela… ela…

-Eu sei.

Ele olhou ao redor. A temperatura do salão voltara ao normal e a luz lá no alto brilhava branca novamente, mas por onde ele corria os olhos, via pilares quebrados, o piso de pedra rachado e até mesmo uma parte do mezanino que desabara, cobrindo o chão e o ar com um pó branco e fino. Por fim, pousou o olhar novamente na Madoushi caída, que começava a se mexer lentamente. Num gesto instintivo, ele levantou parte o corpo de Sakura e o abraçou, como que para protegê-la. Ela não protestou e até se abraçou a ele, mas o largou parcialmente e soltou um grito.

- Shaoran… seu braço… sua barriga…

- É… ela bem que tentou… mas não sou fácil de matar…

- Calem-se!

A Madoushi se levantou do chão, cambaleante, mas definitivamente não parecia ser a mesma pessoa que momentos antes estava sentada calmamente em seu trono. O cabelo estava praticamente todo branco, quebradiço e embaraçado, caindo sobre o rosto murcho e encovado, cuja pela estava seca, cheia de manchas e rugas. Quando ficou de pé, não conseguiu ficar ereta e as mãos cadavéricas e magras se apoiavam, trêmulas, no trono. Somente seus olhos, voltados furiosos para o casal, pareciam iguais, exibindo um brilho abrasador.

- Gastei mais energia do que eu esperava com vocês! Maldito anel! Maldita seja minha irmã, interferindo nos meus planos!

- Como foi que você escapou?

A pergunta de Shaoran pegou a Madoushi de surpresa, mas ela se recuperou rápido.

- Não é da sua conta!

- Como foi que você escapou? - ele não ia se deixar intimidar

- Eu vou te mandar para o inferno! - ela gritou com a voz esganiçada.

- Pode me mandar, mas antes me responda: Como você está viva?

- Por que você quer saber disso?

- Porque quero entender suas motivações.

Ela pareceu estar preste a explodir outra vez. Sakura se encolheu, trêmula, mas ele se manteve impassível, irredutível. Subitamente ela deu com os ombros, sentando-se pesadamente no trono e respondeu, mesmo que sua voz transmitisse má-vontade:

- A minha Irmã me salvou.

Shaoran ficou em choque. Se a Madoushi Branca tinha lhe salvado quando o momento perfeito para matá-la havia surgido e ela sabia de tudo o que acontecia… por que ela o mandara tentar matar a Akai no Madoushi agora?! Não fazia sentido algum!

- Eu fiquei agonizando naquele bosque, incapaz de reagir. Eu na verdade desejei de verdade que a morte me levasse. Mas minha Irmã surgiu logo depois, trouxe-me de volta e cuidou das minhas feridas. Mas, mesmo quando eu já estava bem fisicamente, eu vivia um inferno particular. Se eu dormia, eu sonhava com ele tentando me matar. Se eu estava acordada, eu revivia cada palavra que ele me falou, cada ferida que ele me causou, de novo e de novo. Não comia, não bebia… desejava apenas que a dor passasse, mas ela não ia embora nunca…

"Eu pedi para que minha Irmã me fizesse esquecer. Eu implorei! Mas ela voltou a dizer que eu precisava lidar com a dor e aprender com ela! Disse que seria muito pior se ela me fizesse esquecer e que eu deveria tentar! Mas eu tentava… e não conseguia… a dor, a decepção, a mágoa… tudo não me deixava continuar!"

"Eu definhei, envelheci tanto que logo poderia morrer… mas aí eu percebi que não queria morrer! Eu era o ser mais poderoso que existia e não poderia me deixar abater por um coração partido. Aos poucos fui transformando o amor em ódio, a tristeza em desprezo… mesmo sabendo que sentimentos tão negativos eram ruins para mim, foi a maneira que eu encontrei de seguir em frente, de lidar com a dor. No fim, me tornei amarga, mas eu conseguia viver um dia de cada vez."

- Então… - Shaoran ponderou depois de um logo silêncio aturdido - Esses… esses anéis… são só uma vingança? Você quer punir a nós, homens, pelo seu infortúnio?!

Um sorriso altivo e frio esticou os lábios secos dela.

- Não. Isto foi apenas um bônus, um ricochete que o feitiço que joguei em cada homem cujo coração eu roubei.

- Então… para que…

- Vocês, humanos, são tão desagradavelmente curiosos! - ela cortou, aborrecida - De qualquer modo, os dois irão morrer, não só por serem insolentes e curiosos, mas porque adentraram nas minhas memórias e viram meu passado. Mas estou muito cansada agora… preciso recuperar minhas forças antes de matá-los.

- Madoushi, eu nunca vou te perdoar. - ele falou, secamente, com uma coragem que ele jamais pensou que fosse sentir - Mas eu entendo você. Não é fácil se recuperar de uma decepção. Por isso… eu queria entender os seus motivos. Acho… que tenho esse direito, já que vou morrer por causa disso.

Ela o olhou atravessado.

- Não preciso e nem quero seu perdão. Para mim, vocês são todos iguais!

- Não somos!

- Você pode falar o que quiser, Shaoran, mas não vai mudar minha opinião!

Shaoran engoliu a resposta atrevida que estava na ponta da língua, em vez disso, perguntou secamente:

- Se não é para se vingar dos homens, para que então você precisa dos cem anéis?

Ela ficou olhando furiosa para Shaoran por algum tempo e ele até achou que ela fosse se recusar a responder…

- É para um feitiço. Um feitiço que vai me livrar de todo o sofrimento que eu tive.

- Livrar do sofrimento? Mas eu pensei que você não pudesse… esquecer sem a ajuda da…

- Há outras maneiras de fazer o sofrimento ir embora. Minha Irmã realmente não deseja me ajudar, então eu arrumei outra forma: eu vou retirar a minha capacidade de amar.

Um silêncio pesado se faz, enquanto o rapaz se recupera da surpresa.

- Retirar sua capacidade de amar?! É impossível!

- É impossível Shaoran? Você está abraçado a minha pequena cobaia. E o experimento foi um sucesso.

Ele olhou para Sakura, que parecia tão surpresa quanto ele, com os olhos voltados atentamente para a Madoushi.

- Eu consegui realizar o feitiço para extrair a capacidade de sentir emoções relacionadas ao amor e paixão com sucesso. Mas é um feitiço que eu não posso realizar em mim mesma, sem a ajuda de um catalisador poderoso. Por isso, eu precisava dos cem corações humanos. Achei que finalmente… eu ia me livrar desse sofrimento.

- Você tem… certeza… de que esse feitiço… funciona mesmo?

Era Sakura quem perguntava, com a voz fraquinha, insegura.

- Claro que funciona, sua burra! Você é a prova disso! Por que essa pergunta idiota agora?!

- É que… a Shiro no Madoushi… disse que…

- Ah! Ela acha que o feitiço não funciona. - cortou a Madoushi, arrogante - Ela já me falou isso. Eu vou provar a ela que está errada!

- Mas…

- Cale a boca, Sakura! Não me irrite ainda mais!

A moça se encolheu contra o corpo de Shaoran, que estreitou o corpo trêmulo contra o seu.

- Não é culpa dela!

- Mas é claro que a culpa é dela! Se tivesse seguido minhas ordens a risca, eu já teria feito o feitiço! Se ela tivesse ficado noiva de VOCÊ em vez daquele duque odioso, nada disso teria acontecido!

Sakura gemeu baixinho, mas Shaoran mal escutou… acabara de ter uma ideia… na verdade, lembrara-se de uma coisa… Ponderava se valia a pena trazer aquilo a tona, se ele poderia ganhar algo com aquilo… talvez a sua própria segurança não, mas…

- Madoushi! Você disse que minhas irmãs… se salvariam… se você conseguisse os cem anéis?

- Sim, Shaoran! Suas irmãs ficariam a salvo do mal que estão sofrendo, mas isso não vai acontecer. Não sem o último anel.

- E se eu disser que pode? Aqui e agora?

A Madoushi pareceu completamente surpresa, mas Sakura soltou um gemido e sussurrou, apavorada:

- Shaoran, não!

Ele olhou surpreso para a moça.

- Você sabe do que eu estou falando?

- Sei! Por que você acha que eu o deixei com você?!

- Espera… você sabia que ia acontecer isso?

- Eu… desconfiava…

- Do que vocês dois estão falando?! - bradou a Madoushi, irritada. - Do que você sabia, Sakura?! Fale!

Mesmo fragilizada como estava, ela fez seu poder se manifestar e os dois tiveram que se curvar diante dela.

- Acalme-se, Madoushi. Eu vou falar, mas eu tenho algumas exigências…

- Quem você pensa que é para tentar me chantagear?! Você é um reles humano! Posso te matar a hora que eu quiser!

- Vai ser difícil com o anel negro que eu estou usando.

A ruga entre os olhos, já bem pronunciada, tornou-se ainda maior!

- Moleque insolente! Então não vai se importar que eu torture Sakura um pouco mais.

- Vá em frente! Pode fazer - ela e Sakura soltaram uma pequena exclamação surpresa, mas Shaoran continuou, pensando rápido - Só que você está fraca, Madoushi e não pode ficar gastando seu poder à toa. Não é mais fácil você ouvir o que eu tenho a dizer e depois julgar se é razoável ou não minhas condições?

Ela parou para pensar, embora seu rosto ainda exibisse grande contrariedade em ser obrigada a concordar com ele.

- Muito bem! Fale o que você quer. Mas não garanto que aceitarei suas imposições.

- Se você garantir que minhas irmãs e minha mãe irão parar de sofrer.

- Se eu completar o feitiço, isso vai acontecer, independente da minha vontade. - responde ela, cansada e aborrecida

- E também quero que Sakura volte para a época e o país dela, com o seu coração restaurado.

Sakura volta o seu olhar para ele, entre surpresa e atormentada, mas não fala nada.

- Isso já é um pouco mais difícil. Ela viu dentro da minha mente. Ela sabe os meus segredos. Ela não pode viver.

- Por favor, Senhora! O que ela iria fazer com isso que você chama de "seus segredos"? Acredito que, como eu, ela nem gostaria de ter entrado na sua mente. E, convenhamos, quem acreditaria nela? Ela nunca vai falar nada…

- Mas… as nossas leis…

- Você já quebrou uma porção de leis! Qual é o problema de quebrar mais uma?

Ela parecia contrariada, mas por fim ponderou.

- Muito bem… pode ser… e o que mais?

- É só isso.

- Não!

Era Sakura, que mesmo trêmula e com muito medo, gritara a palavra com uma angústia palpável. Mas ele sorriu com suavidade.

- Está tudo bem…

- Bem?! Isto está longe de estar tudo bem! Tem ideia do que vai acontecer com você?!

- Eu vou ficar sobre o julgo de duas maldições.

- Shaoran! Você será infeliz para o resto da sua vida.

- Eu seria infeliz de qualquer maneira. - ele usou o braço bom para acariciar o rosto martirizado da moça - Mas se eu posso salvar a sua vida, eu não me importo. Se eu viver, o que eu acho difícil, eu vou me consolar sabendo que você está bem, em algum lugar, em algum tempo, distante de mim… mas bem.

Ela começa a chorar, embora não pareça perceber que as lágrimas estão rolando de seus olhos. Antes que pudesse argumentar qualquer coisa, a Madoushi diz:

- Ah… é claro! O anel que ela usou enquanto vocês estiveram na Escócia! - ela dá um sorriso horrível, calculista - Se ela ficou mais de uma semana com ele no dedo…

- Ela ficou bem mais que uma semana com ele! - ele falou, secamente.

- Muito bem! Não vejo porque devo aceitar suas condições agora que sei do que se trata. Vou simplesmente obrigá-lo a dar-me o anel!

- Eu estou usando o anel negro também e torturar Sakura só vai fazê-la gastar sua energia. - ele fala, rapidamente - E, eu juro por Deus, se você torturar Sakura, eu me levanto e morro tentando te matar!

Ela deu uma gargalhada sinistra.

- Eu gostaria de ver você tentar, Shaoran, mas você tem razão. Eu estou muito fraca. E, apesar de que eu deveria matar você, Sakura, por, além de não cumprir o trato, ter me escondido essa informação importante, eu vou ser razoável e fazer o que ele pediu. Sua vidinha será poupada e seu coração, devolvido.

- Não…

- Calma, Sakura… - ele pede, quietamente. E depois, se dirigindo a Madoushi - Você jura?

- Que insolente… mas sim, eu juro!

- Muito bem… Sakura, meu bem, eu não consigo mexer minha mão direita, então você vai tirar o anel do meu dedo.

- Não, Shaoran… - ela pediu, em vão

- Eu já estou decidido. Se você não fizer isso, vou ser obrigado a pedir para que a Madoushi faça isso… e eu não confio nela.

- Eu não posso… fazer isso com você…

- Sou eu quem estou decidindo isso! - ele replica com calma, mas firmemente - Faça o que eu estou pedindo, por favor.

Ela queria protestar, queria se recusar a fazer o que ele lhe pedia, mas, com as mãos trêmulas, ela pega a mão esquerda e retira o pequeno anel de sinete…

- Pegue o negro e coloque no seu dedo.

- Não… não!

- Faça o que eu estou pedindo, Sakura!

- Se você não usar o anel, você vai…

- Eu sei… mas se você usar o anel, será mais difícil ela te atingir e eu quero que você fique em segurança. Eu não confio nela.

- Ah… não confia em mim, Shaoran? - A Madoushi falou de seu trono, em tom de deboche.

- Por favor… pegue o anel…

Ainda mais relutante, ela retirou o anel negro e o colocou no próprio dedo anelar. Levantou os olhos assustados pra ele, que sorriu, encorajando-a. Ela parecia querer protestar, discutir, mas ele a empurrou levemente na direção da Madoushi, deixando-a sem escolha…

Ela se levantou com dificuldade, pois suas pernas ainda pareciam meio dormentes e, cambaleando, foi até o trono. Embora tremesse da cabeça aos pés, ela corajosamente foi até o trono da Madoushi e lhe ofereceu o anel. A feiticeira o pegou com altivez e o examinou brevemente.

- Posso sentir… sim… essa energia quente, cálida, mas também vibrante… este anel vai servir direitinho… obrigada, Shaoran, por se sacrificar por nada!

- Minhas irmãs… Sakura… - foi tudo que ele disse, com um grunido.

- Claro… é que… você poderia ter pedido para que eu poupasse a sua vida… ou… que eu tirasse sua maldição… mas não… pediu em favor dessa mulher que te fez tanto mal… e ainda por cima protegeu-a com o anel que me impossibilitava de fazer isso com você.

Ela apontou para ele e o rapaz sentiu choque doloroso percorrer o seu corpo, derrubando-o no chão pela milésima vez. Mais do que nunca, sentiu-se exausto, sem forças, sentindo que seus olhos se fechavam sozinhos e toda sua força de vontade era o que os mantinha abertos.

- Não faz isso com ele! - ele escutou Sakura gritar.

- Ah, por favor! Não finja que se importa com ele… ele terá o que merece por ser um tolo. Eu o deixarei viver, com o peso de duas maldições sobre seus ombros. Posso não ser minha Irmã que tudo Sabe, mas aposto que ele não dura uns dez anos antes de tirar a própria vida. Vai ser divertido…

- Você é muito cruel!

- Ele é cruel. Todos os homens são cruéis! Ou você já se esqueceu do que o Yue fez a você?!

- Shaoran é diferente!

- Por que você está defendendo-o?! Ou você acredita que ele realmente ama você?!

Shaoran levantou o rosto penosamente para ver a reação de Sakura à pergunta. Ela parecia ter enrubescido um pouco.

- Eu não sei o que ele sente por mim… mas ele é uma pessoa gentil, esforçada. Veja o que ele fez pelas irmãs dele! E… eu sei que você tem razão… eu não mereço o que ele fez por mim.

Shaoran queria falar que ela merecia, queria defendê-la… mas sua voz simplesmente não saía.

- Pare com esse discurso! Agora é tarde, de qualquer maneira. Consegui o que eu quero e agora eu estou a um passo de, finalmente, por um fim no meu sofrimento.

- Mas primeiro cumpra o que você prometeu a ele. Faça a família dele se livrar da maldição!

A Madoushi deu um sorriso cruel.

- Eu nunca disse que as irmãs dele iam se livrar da maldição.

- O quê?! Mas você… - começa Sakura, aturdida e furiosa, mas a Madoushi a interrompe.

- Eu disse que as irmãs dele iriam parar de sofrer, mas a maldição estará para sempre no seio da família Lisbury. O que acontece, minha ingênua e tola Sakura, é que elas terão o reflexo do que acontecerá comigo.

- O quê?!

- O feitiço que farei vai fazer com que eu perca toda a minha capacidade de amar e de sofrer com as consequências desse sentimento tão irrelevante. Porém, eu sou uma das três Grandes Senhoras e possuo influência direta na vida de todas as criaturas femininas de todos os tempos e mundos, todas sofrerão o impacto junto comigo. Ou seja… todas elas perderão a capacidade de amar e, por conseguinte, jamais sofrerão por amor.

- Não…

Shaoran finalmente conseguira articular alguma coisa, completamente devastado. Não era assim que ele queria… não era assim!

- Você não pode fazer isso! - Sakura gritou, igualmente aterrorizada por aquela ideia.

- Ah, posso! Aliás, vocês deveriam ter pensado nisso antes… quando a minha Irmã morreu, todas as criaturas femininas obtiveram o poder de permanecer em qualquer mundo diferente. Porque influenciamos diretamente na vida de todos!

- Jamais me passou pela cabeça… mas… você não pode Madoushi! Isso é muito egoísmo!

- EGOÌSMO?! - urrou ela, levantando-se do trono e fazendo uma onda de poder violento atirar Sakura longe, ao chão - Egoísmo é o que minhas Irmãs fizeram comigo, recusando-se a me ajudar quando mais precisei delas! Pois bem, a única solução que encontrei foi essa e logo estará feito. Vai ser muito melhor quando nós pararmos de sentir esse sentimento que nos faz sermos tão fracas, que nos faz nos humilharmos por atenção. Que nos faz sofrer! Seremos racionais, fortes, superiores aos homens. E eu tenho certeza, não tardará muito para que nós, mulheres, viremos o jogo e subjuguemos os homens! Isto é uma coisa que eu mal posso esperar para ver!

- Você vai se arrepender…!

- Claro que não. Estou esperando isso há muito tempo.

- Você não entende! Por que acha que eu quero meu coração de volta?! Eu odeio sentir esse vazio, como se houvesse um buraco no meu peito! Eu não posso… eu não quero… ficar com esse vazio para sempre! Eu quero meu coração de volta!

- Menina estúpida! Acho que o feitiço que eu fiz em você deve ter se desgastado, pois você não sabe o que está dizendo! Mas… se prefere voltar a sofrer, pegue seu coração de volta e experimente voltar a sentir amor. Poderá amargar as dores de um coração partido por alguns instantes, antes de parar de sentir tudo!

- EU QUERO MEU CORAÇÃO PRA SEMPRE!

- CALE-SE! Menina atrevida! Acostume-se com a ideia, pois não há nada o que você possa fazer! Como eu falei, se quiser seu coração de volta por alguns instantes, tenha-o, mas se apresse.

- E onde está?!

- Pergunte para Shaoran.

Aquilo era a última coisa que eles esperavam ouvir. Eles ficaram vários segundos olhando a Madoushi, estupefatos, achando que ela enlouquecera de vez. E ela deu uma risadinha desagradável.

- Sabe, é bastante irônico. Quando eu tirei seu coração, ou sua capacidade de amar, eu não pude destruí-la. Não dá para fazer. Então eu guardei dentro de uma pedra preciosa, que são ótimos receptores de magia. Mas não ia querer ficar com aquela coisa nojenta perto de mim. Então incrustei a pedra em um pente dourado e o dei para você. Veja... Estava o tempo todo com você. E, para tê-lo de volta, basta destruir a pedra. Mas, ironicamente, você o deu para o pequeno Shaoran quando se encontraram pela primeira vez. No final, o homem que mais desejou seu coração era aquele que sempre o tivera.

Sakura e Shaoran trocaram olhares estarrecidos. Ela parecia estar destruída, o espírito quebrantado, vazia. Aquele havia sido o golpe final que ela dera em sua alma, estilhaçando-a. Estivera o tempo todo com ela… o tempo todo… depois ela dera para Shaoran… mas estivera o tempo todo com eles!

- Quando eu soube que você havia dado o pente a ele, não briguei com você ou reagi porque eu já sabia que não importava você ter seu coração de volta, se iria perdê-lo depois. Mas o destino encarregou-se de lhe dar a última oportunidade de sentir seu coração antes de perdê-lo para sempre.

Tremendo, Shaoran sentou-se penosamente no chão e, com mão boa, procurou dentro do seu casaco a pequena esmeralda que sempre carregara com ele. E ele a olhou como se nunca tivesse visto uma esmeralda antes, impávido, estonteado. O tempo todo estivera com ele…

- Shaoran… - ele desgrudou o olhar da jóia para olhar para Madoushi, que nesse momento fazia flutuar o seu anel de noivado, onde se juntou a outros noventa e nove anéis que surgiram no ar e começaram a fazer um círculo ao redor dela, cada um com um leve brilho esbranquiçado - Se você quebrar a pedra em vez de Sakura, ela se apaixonará por você. Mas, se ela quebrar, o coração dela se manterá intacto. Ela lhe deu o coração dela então acho que você tem o direito de decidir, não é? E essa parece ser uma ótima compensação, mesmo que temporária, pelo o que ela lhe fez.

Os olhos do rapaz se encontraram com os da moça, que pareciam apavorados. Ela parecia lhe implorar para que lhe devolvesse a pedra, que ele apertava inconscientemente na mão.

- Decidam-se logo. O feitiço que estou fazendo vai demorar um pouco, mas não é para sempre e, assim que eu terminar, pouco importará quem quebrou ou deixou de quebrar a pedra, pois ela se extinguirá para sempre.

Os anéis começaram a girar rapidamente ao redor da Madoushi, brilhando como pequenas estrelas, enquanto ela fechava os olhos e murmurava palavras estranhas. Mas Shaoran mal reparara nisso. Sua atenção estava concentrada na pedra e em Sakura.

A moça fez menção de se aproximar, com uma expressão levemente feroz, como se quisesse arrancar a pedra à força, e ele, instintivamente, a protegeu contra o corpo, apertando-a mais forte. Simplesmente não sabia o que fazer. Estava ao seu alcance o que mais almejara, o tempo todo. Mas poderia ele fazer aquilo com Sakura? Ser egoísta ao ponto de forçar a moça a se apaixonar por ele por alguns minutos, antes que tudo fosse perdido? Mas… ao mesmo tempo… ele sofrera tanto pra chegar até ali, fizera tantos sacrifícios. Ele merecia… ele merecia o amor dela! Era seu por direito e ela mesma havia lhe entregado!

Os minutos se passaram. Madoushi continuava a fazer o feitiço, concentrada e os dois não se mexiam, incapazes de fazer qualquer movimento. Ele olhava no fundo dos olhos dela, verdes e vazios de paixão, mas cheios de angústia, de tristeza, de raiva… eles estavam fadados a destinos terríveis e tudo que eles tinham eram alguns minutos que se passavam rápidos.

Subitamente, ele tomou uma decisão...

- O que está acontecendo?!

Era a Madoushi que gritava, ligeiramente em pânico. Os dois voltaram os olhares para ela e viram os anéis girarem tão rápidos ao redor dela que os pontos brilhantes pareciam uma linha só, que circulava ao seu redor. Mas havia um ponto da linha que brilhava muito forte, numa luz quase ofuscante, que era quente, firme, intensa…

- Que energia é essa? O que está errado com esse anel? Eu não consigo controlar essa luz! É insistente, resistente!

A Madoushi visivelmente lutava com o anel, fazendo várias tentativas de toldar aquele brilho intenso, usando suas faixas vermelhas para tentar conter o brilho. Mas elas eram consumidas por ele, que parecia se alimentar daquilo, tornando-se maior, soltando pequenas faíscas que, quando atingia a feiticeira, faziam-na gritar de dor, soltando pequenos chiados e fumaça.

- Pare… PARE!

Ela visivelmente lutava. E, quanto mais ela lutava, mas o anel reagia, luzia quase como um farol, uma luz resistente que exauria todos os esforços que ela fazia para detê-lo. E ela parecia se curvar para que ele brilhasse ainda mais…

Subitamente, vinda sabe-se lá de onde, a Shiro no Madoushi surgiu ao lado da Irmã. Usando seus poderes, ela conjurou vinhas verdes, grossas e resistentes como cordas, que amarraram firmemente os braços da Akai no Madoushi. Esta olhava aturdida para a irmã.

- Você!

Mas antes que esta pudesse esboçar qualquer reação, a luz brilhou ainda mais, fazendo-a virar-se para o lado, para fugir do fulgor e, ao mesmo tempo, a feiticeira ruiva pegou um pó de dentro de uma bolsinha que levava e o soprou na direção da irmã. Era um pó verde, que flutuava preguiçoso e pesadamente na direção dela, mas que, quando a tingiu, a fez ficar imediatamente sonolenta e inerte.

Logo em seguida, a Shiro no Madoushi estendeu a mão esquerda com a palma aberta para os anéis que continuavam girando. Estes imediatamente ficaram imóveis. Então ela começou a fechar a mão e os anéis começaram a tremer. Ela parecia estar tentando esmagar uma pedra muito dura e invisível, claramente fazendo muito esforço. Os anéis reagiam tremendo com mais violência.

Mas, quando ela finalmente ela conseguiu fechar a mão, os anéis explodiram todos ao mesmo tempo em uma nuvem de pó branco e luminoso, com um barulho de trovão. A nuvem pairou alguns segundos no mesmo lugar e depois se espalhou rápida e violentamente, levada por um vento invisível, para todas as direções. Shaoran viu quando uma pequena parte desse pó brilhante pairou a centímetros de seu rosto e ele foi tomado por uma súbita necessidade de inspirar o ar profundamente. Foi o que fez e ele sentiu que o pó que respirava preencher todo o seu pulmão, todo o seu tronco, todo o seu ser, inflando-o como um balão, fazendo-o ficar leve, leve como nunca se sentira antes… era a maldição que finalmente saía de suas costas. Ele estava livre!

- NÃÃÃÃÃÃO!

Mesmo apática, a Madoushi teve forças para gritar, com a voz revelando todo o seu desespero e tentou lutar contra as vinhas que a prendiam.

- Kaho, o que foi que você fez?!

- Eu livrei todas aquelas pobres almas inocentes que sofreram tanto por conta de seus atos.

- Você me condenou!

- Não, Irmã. Eu a salvei, por mais que pareça o contrário.

A Madoushi desequilibrou-se e caiu de joelhos no chão. Mesmo sonolenta, ela chorava fazendo as lágrimas lavarem o rosto enrugado.

- Você me odeia! Quer me ver sofrer! Quer me destruir! Me matar!

- Eu nunca tive a intenção de matá-la, querida. - ela falou, com doçura.

- Mentirosa! E a bala… e a bala… - ela repetia, apoiando as mãos no chão, parecendo lutar contra o sono, as lágrimas pingando no chão como uma cascata.

- Eu sempre soube que você pararia a bala. Eu sempre soube que esta seria a única oportunidade que teria de pará-la sem derramar sangue ou machucar pessoas inocentes.

- Você… plane-planejou… tudo… d-desde o começo…

- Não. Apenas deixei o destino seguir seu curso e interferi na hora apropriada.

- Eu… eu… e-estou… morrendo…

- Você não vai morrer. Apenas lancei um feitiço do sono. Você precisa descansar. Está no seu limite.

- Eu…

Mas a Akai no Madoushi não parecia ter forças para lutar. Seus braços fraquejaram e ela quase se deitou no chão. A Shiro no Madoushi se aproximou, sentou-se ao seu lado e, com extrema gentileza, colocou a cabeça grisalha em seu colo, onde ficou acariciando o rosto enrugado e cheio de sofrimento. A Irmã lutava contra o efeito do feitiço, mas ela estava muito fraca. Porém, teve forças para dizer, quase num sussurro:

- Kaho… você me odeia…

- Eu amo você, querida.

- Então… me… faz… esquecer…

A feiticeira ruiva fechou os olhos longamente e uma lágrima caiu teimosamente de seus olhos claros.

- Su Yung, não posso fazer isso. Eu odeio ver como seu coração se encheu de ódio e amargura, em como a tristeza destruiu sua alma bondosa, mas… se eu a fizesse esquecer, seria muito… muito pior. Por mais que você não queira, é algo que só você pode lidar.

- Eu… n-não… consigo…

- Eu vou lhe ajudar, meu bem. Você dormirá por um longo tempo, para recuperar o seu corpo. E eu farei você ter sonhos bons, que a ajudarão a entender seus sentimentos e a curar essa enorme ferida em seu coração. Vai ficar uma cicatriz, contudo ela vai te fazer ficar mais forte. Acredite em mim.

Os olhos avermelhados estavam se fechando sozinhos.

- Você… n-não… vai… me… deixar? - ela perguntou como uma criança com medo do escuro.

- Nunca a deixei.

A Akai no Madoushi suspirou pesadamente, fechando os olhos e fazendo rolar as últimas duas lágrimas…

- Eu… só… queria… que… ele…

O seu rosto se tornou extremamente relaxado. Em paz, pela primeira vez em muito tempo. Tão em paz que as rugas começaram a desanuviar o rosto. A boca frouxa se firmou em uma expressão neutra. As manchas na pele sumiram uma a uma. Os cabelos começaram a se tingir de um negro intenso como ébano, brilhantes e sedosos. Até suas roupas pareciam ter ficado mais belas e vistosas.

A Madoushi Branca acariciou o rosto rejuvenescido a irmão, olhando-a com carinho e compaixão. Logo em seguida, levantou o olhar para o casal, que assistia aquele extraordinário desenrolar de acontecimento, paralisados e aturdidos. Ela sorriu para eles, com ternura.

- E creio que vocês também necessitam de um merecido descanso.

Antes que Shaoran pudesse protestar, ela novamente soprou aquele pó verde na direção deles. Tinha um cheiro agradável e suave, mas que imediatamente o deixou sonolento. E ele dormiu antes mesmo que sua cabeça encostasse no chão.

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Shaoran abriu os olhos, sendo ofuscado por um grande clarão. Levantou automaticamente a mão para proteger o rosto do sol e lembrou-se, admirado, que aquela mão deveria estar imóvel.

- Você está completamente curado, Shaoran.

Ele levou um susto ao ouvir a voz da Madoushi Branca e, franzindo os olhos, localizou-a sentada elegantemente numa poltrona a alguns metros da cama onde ele estivera deitado. Ele se sentou com certa dificuldade, não porque estava ferido ou dolorido, mas porque seu corpo estava acostumado a ficar deitado.

- Quanto tempo eu dormi?

- Uma semana.

- Uma semana?! - ele repetiu, aturdido.

- Sim. Você estava no limite quando o pus para dormir. Curar o seu braço, o seu ombro e a ferida no abdômen consumiu bastante energia do seu corpo então prolonguei sua recuperação. Nós só o acordávamos para alimentá-lo, e era tão breve que você não se lembra de nada.

Shaoran afastou as coberta alvas e cheirosas, revelando um pijama listrado confortável, que suspendeu levemente na altura onde deveria estar o misterioso ferimento do abdômen, franzindo levemente as sobrancelhas para a pele lisa e sem cicatrizes.

- Não me lembro de ter sido ferido aqui. Quando vi, já estava sangrando e sentindo dor.

- Foi a minha Irmã. Ela fez a bala que deveria matá-la voltar-se contra você. Mas a bala já foi retirada e você ficará feliz em saber que não terá sequelas.

Ele largou o pijama e recostou-se nos travesseiros, pensativo. Reconheceu o quarto onde estava como aquele em que estivera no antigo palácio, os pilares tomados pela hera verdejante e as flores que se espalhavam pelas paredes parecendo lhe dar boas-vindas. As janelas estavam bem abertas e as cortinas brancas balançavam à menor brisa que entrava. Ele suspirou.

- Então… tudo acabou.

A Madoushi sorriu, misteriosa

- Uma flor sempre morre para dar espaço ao fruto.

Ele a olhou, intrigado, mas não estava com muita paciência para pequenas charadas.

- Onde está a Sakura?

- Ainda dormindo. Ela tinha feridas bem mais profundas que as suas, mesmo que não parecesse, mas ela também vai se recuperar plenamente. Meiling está com ela, embora ela só vá acordar amanhã, porém achei que você iria apreciar o gesto.

- Eu fico muito agradecido… por tudo.

O sorriso dela pareceu vacilar um pouco. Ela se levantou e se aproximou da cama, mais alta e imponente do que nunca, mas Shaoran já não a temia de forma alguma. Ela então depositou um pequeno objeto nos lençóis dobrados à sua frente, que cintilou a luz clara da manhã. Era a esmeralda. Quase como hipnotizado, o rapaz a pegou e a examinou atentamente, reparando outra vez na rachadura em sua superfície.

- Creio que você tem muitas perguntas para mim. Por isso fiz questão de estar em sua presença quando você acordasse. Afinal, você merece, depois de tudo o que lhe fiz passar, esclarecimentos.

- Você nos fez passar? Então… nos mandou propositalmente até o novo palácio, quando podia evitá-lo?

- Como eu falei para minha irmã, eu não planejei nada. Apenas deixei o destino agir e interferi no momento mais propício. Mas sim, eu já sabia que vocês seriam machucados, torturados física e psicologicamente e os mandei para o que seria uma batalha árdua, nada fazendo para atenuar a dor que vocês passariam.

- Realmente, se tivesse nos avisado pelo que passaríamos…

- Não teria dado certo, Shaoran. Minha irmã precisava acreditar que estava no controle da situação e prepará-los a alertaria de que algo estaria errado. Ela precisava consumir boa parte do seu poder para que eu pudesse dominá-la no momento certo. Tudo aconteceu como deveria ser.

Apesar de ainda achar que ele fora terrivelmente manipulado, ele preferiu deixar aquele ponto específico de lado.

- O que aconteceu com a Madoushi?

- Ela está dormindo. E dormirá por um longo tempo, até que as feridas de seu coração se fechem o suficiente para ela conseguir aguentar a dor.

Ele hesitou, sem saber se deveria ou não perguntar o que se passava pela sua cabeça. Porém, ao ver a Madoushi lhe sorrindo, serena, lembrou-se que ela sabia de tudo e que, de qualquer forma, ela lia seus pensamentos.

- Quando estive pela primeira vez aqui, você disse que, mesmo sabendo de tudo, não podia interferir no destino dos outros… o que você fez… lá no Palácio… não foi contra os seus princípios?

- Sim, foi… mas… eu não via como a situação ia se resolver sozinha. Não de uma maneira favorável. Se não fosse a minha interferência, neste instante todas as criaturas femininas do mundo estariam incapazes de amar… até mesmo eu.

- Então… ela teria conseguido? Ela teria controlado aquele anel que saiu do controle?

Ela deu com os ombros, parecendo se divertir.

- Tudo o que sei é o que aconteceu. E devemos esquecer o que poderia ou não ter acontecido. Graças ao seu anel, Shaoran, eu tive a oportunidade colocá-la para dormir. E no final das contas, como o meu próprio destino também estava em jogo, eu não considero tão grave a minha interferência…

- Espera… meu anel?! - ele perguntou, aturdido - Foi o meu anel que causou aquele estrago todo?!

- É, Shaoran. E você não deveria estar surpreso.

- Como assim?! Claro que estou surpreso!

- Shaoran… você ama a Sakura de verdade. E isso fez toda a diferença.

Shaoran permaneceu mudo, sem saber o que dizer.

- Todos os outros noventa e nove anéis estavam preenchidos com o desespero do amor não correspondido que a maldição faz os homens sofrerem. Mas o seu não. Você ultrapassou a esfera da maldição e foi capaz de amá-la verdadeiramente. Intensamente. E esse amor se transferiu para o anel, uma energia tão pura… tão radiante, que ela pensava não existir, que ela repudiava. A enfraqueceu e a machucou. O seu sacrifício, o seu amor por Sakura salvou a todos nós.

Ele ficou calado alguns instantes.

- Nunca pensei que o amor tivesse… esse tipo de força.

Ela abriu mais o sorriso.

- Pois deveria. Como você acha que o homem que minha irmã amava se livrou do feitiço que ela estava tentando fazer?

- Ele usou o amor?! Não entendo…!

- Quando minha Irmã tentou controlar os sentimentos dele, o que o fez se livrar foi o pensamento da mulher que ele amava. Ele não podia pensar em perdê-la e isso lhe deu forças para sair do controle dela.

- Entendo.

Mais alguns segundos de silêncio.

- E agora… estamos livres da maldição, não é?

- Sim. Você não sente seu corpo mais leve? Um grande fardo saiu de seus ombros naquela noite. Seu, de suas irmãs, de sua mãe e de todos os homens e seus descendentes que sofreram com a maldição.

Ele suspirou, aliviado.

- Então… minha família está bem.

Seu olhar foi atraído novamente para a pequena esmeralda, que ele pegou.

- Eu não acredito que estava o tempo todo aqui.

- Eu sei…

- Claro que sabia.

- Mas eu não podia contar porque senão…

- Seria uma interferência também? - ele perguntou, sarcástico

- Lembra que eu falei que tinha meus interesses em vocês irem até a Madoushi? Você pode me culpar o quanto quiser, mas eu precisava que vocês passassem por tudo o que aconteceu. Se eu falasse que a jóia era o coração de Sakura… vocês teriam ido?

- Ela não deixaria Sakura em paz se não fôssemos. Então... iríamos de qualquer maneira.

Mas ele sabia, no fundo, que a maior motivação era o coração. Ele fez a pedra faiscar na luz.

- E pensar que um objeto tão pequeno guarda uma coisa tão importante.

- Jóias são excelentes relicários. Mas você sabe, Shaoran… aí não está o coração dela de verdade… é só uma pequena parte. A capacidade de amar ainda está intacta. Porém ela nunca vai admitir isso.

- Não… eu acho que… ela sabe disso… quando estávamos… no palácio… ela tentou falar alguma coisa… com isso, mas… a Madoushi não deixou…

- Eu não disse que ela não sabe… você a conhece o suficiente para saber o quão teimosa aquela moça pode ser.

- Bom… a maldição passou e… eu continuo gostando dela. Talvez até mais.

- É Amor, Shaoran. Mas não pense que vai ser fácil convencê-la.

- Que desculpas ela dará desta vez?!

- Aguarde e você verá. Na verdade, eu não devia ter dito nada!

Mais uma vez ele fica em silêncio.

- Bom… eu vou deixar você descansar mais um pouco e mais tarde iremos jantar.

Ele agradece e mais uma vez fixa o olhar novamente na pequena pedra. Ele escuta a porta bater. Suspirando ele, se recostas nos travesseiros e logo começa a cochilar, com a pedra bem segura nas mãos.

'

Sakura respirou fundo, enchendo seus pulmões com o a brisa fresca e limpa daquela noite, ali no jardim da Shiro no Madoushi. Acordara mais cedo naquele dia, um pouco assustada, mas completamente curada e se sentindo bem como havia tempos não se sentia. Até seus dentes que haviam caído durante a tortura haviam sido repostos. A Shiro no Madoushi estava ali e lhe explicara que tudo havia se resolvido. O pesadelo acabara. O seu poder de cura havia sido retirado e agora ela envelheceria como qualquer pessoa normal. Estava quase tudo perfeito…

Faltava apenas ela ter eu coração de volta e poder voltar pra casa. Mas, toda vez que ela pensava nisso, seu peito doía um pouco. A Madoushi lhe explicara que ela poderia manter a promessa e lhe transportar para o exato ponto onde tudo começou. Agora, com uma maturidade 500 anos superior, ela sabia que não iria chorar quando fosse ao casamento de Yukito com Chou-hime. Não sentiria mais nada.

Mas estava com medo. Ao mesmo tempo em que desejava voltar, ela não queria. Habituara-se àquele mundo moderno, onde ela tinha mais liberdade como mulher. O pensamento ocidental, as tradições européias… a tudo isto ela estava acostumada…

E, mesmo que ficasse no mundo ocidental, ela teria o mesmo problema. A sociedade, em que país fosse, privilegiava mais as aparências e a fortuna, mais do que qualquer coisa. E, fora o desprezo, ainda tinha o fato de que não poderia contar com ninguém naquele mundo. Claro, havia Tomoyo… mas ela acabara de se casar e eles mal tinham dinheiro para eles mesmos… não podia impor sua presença

E havia Shaoran.

Ela acabara de jantar com ele, Madoushi e Meiling. Fora agradável ao extremo, mas quase não conseguira olhar para o rosto do rapaz. Ela se sentia embaraçada por um motivo desconhecido, tímida… quase não falara nada, deixando toda a conversa fluir mais entre ele e Meiling, que, extravagante como sempre, flertava abertamente com o jovem. Ela se irritava com isso, mas não demonstrava. Às vezes o pegava fitando-a com o olhar mais carinhoso que já recebera na vida, e ela, para sua própria consternação, sentia-se corar...

Ele jurava que a amava. E, mesmo depois da maldição, ela via que era verdade. Não tinha como negar. Quando ele se jogara na frente dela no momento que a Akai no Madoushi ia matá-la… ninguém nunca havia feito tal coisa por ela. E ele já tinha dado outras provas de amor que ela se recusava a enxergar. Sua única desculpa era que ela precisava se proteger. Havia sofrido muito e… ter mais uma decepção… ela achava que não suportaria.

Mas estava lá a prova incontestável de que era verdadeiro. E, se ela decidisse ficar no ocidente, na época atual, ele a receberia de braços abertos. Afinal, ele era seu marido, por mais que ela detestasse a ideia. E, mesmo que ele não fosse, ele iria ajudá-la. Ela tinha certeza…

Então porque ela hesitava? Por que ela tinha tanto medo?!

Era um medo irracional, sem motivo. E talvez um pouquinho de orgulho. Ele já falara tantas vezes que a amava, que faria qualquer coisa por ela… e ela sempre o desacreditando, humilhando… para que ele faria de novo?! Porém, no fundo, ela sabia que havia outro motivo...

Ela gostava dele. Embora isso lhe parecesse impossível, por causa do feitiço, ela tinha que admitir que gostava dele. Como a Shiro no Madoushi havia dito, o feitiço que estava nela impedia que ela se apaixonasse, mas amor… bom… ela não sabia se chegava a tanto, mas ela compreendia que tinha um carinho muito especial por ele. E o que aconteceria quando o seu coração fosse devolvido? Quando fosse... completa de novo?

- Sakura?

Ela tomou um grande susto, pois, perdida em seus pensamentos, não escutou a aproximação do rapaz, chegando a dar um gritinho de surpresa.

- Nossa… não chega mais assim, tão sorrateiro, por favor! - ela pediu, bruscamente.

- ...Desculpe!

Ela corajosamente mantinha-se calma e composta, e igualmente se esforçava para olhar diretamente nos seus olhos. E não falou nada, tentando controlar o tremor leve de seu corpo.

- Você estava bem quieta no jantar… tem certeza que está tudo bem?

- Sim, eu estou bem. Na verdade, só estava… pensativa com tudo o que aconteceu. Mas, mesmo que eu quisesse falar alguma coisa, duvido que aquela espevitada deixasse! - Pelos Céus, por que ela tinha que ser tão grossa?!

- É o jeito dela. - ele respondeu, sacudindo os ombros. Depois, pigarreando um pouco, ele falou formalmente - Eu… queria mesmo falar com você.

- Vá em frente. - ela volveu, tentando não demonstrar a tensão que tomava conta dela.

Ele tirou alguma coisa do paletó e ela sabia o que era, antes mesmo que ele mostrasse a pedra que faiscava à mínima luz do céu sem lua, sentido seu coração se acelerar.

- Eu creio que isto é seu.

Encurtou a distância que ainda os separava e, pegando uma das suas mãos, depositou a pedra ali. Ele a percebeu trêmula, enquanto ela olhava aquele objeto, incrédula, os seus olhos começando a marejar.

- Você… está… me… devolvendo?

- Claro. - ele respondeu, quietamente.

Ela não conseguia articular as palavras direito. Seus olhos estavam embaçados pelas lágrimas.

- Eu… eu… pensei… que…

- Sei o que você pensou. E confesso que a tentação foi muito grande. A… Madoushi Vermelha falou aquilo para me tentar, me testar… e eu quis… eu quis… apertar essa pedra...

Ela não falou nada. Ela não conseguia falar.

- Só que eu não podia. Não só porque é errado eu forçar você a se apaixonar por mim… como também eu não quero. Se for para que você me amar… tem que ser porque eu mereço. Tem que ser porque eu mereço o seu amor… como você merece o meu.

Ela queria dizer alguma coisa, mas a emoção que sentia, indecifrável, mas muito intensa, não deixava as palavras saírem. Após algum tempo, ele perguntou, embora hesitando um pouco:

- Você vai quebrá-la?

Ela balançou a cabeça em afirmação.

- Quando?

Ela não respondeu e não se mexeu.

- A… Madoushi branca disse que… amanhã… vai nos mandar para casa.

Ela tremeu mais visivelmente, mas continuou sem falar nada, apenas chorando, parada no mesmo lugar.

- Você… já se decidiu… para onde vai?

Ela balançou a cabeça, em sinal de negação. E, após mais alguns momentos de silêncio e alguma hesitação…

- Eu… posso estar presente quando você quebrar a pedra?

- Não!

A voz finalmente saiu, em pânico, aguda, mais alta que ela pretendia. Ele mantém a expressão neutra, mas empalidece perceptivelmente e a moça se arrepende por ter sido tão incisiva em sua negativa. Porém, antes que pudesse se desculpar ou falar qualquer coisa, ele se adianta:

- Entendo… eu respeito a sua decisão. Me desculpe pela pergunta inapropriada - alguns segundos de silêncio constrangedor - Eu já vou me deitar. Não fique muito tempo no jardim sozinha, por favor.

Ele se foi. Ela ficou olhando até que ele sumisse na escuridão, a pedra bem apertada em sua mão trêmula, derramando lágrimas grossas e sem saber porque exatamente ela estava chorando.

'

Ela passou a noite inteira acordada, confusa, magoada, insegura, temerosa… era tanto pra se sentir que as emoções se misturavam e a paralisavam, mas que impediam seus olhos inchados e vermelhos, mas sem lágrimas, de se fecharem. Deitada na cama, ela tentava achar uma posição confortável para dormir, socando o travesseiro e tentando por uma ordem em seus pensamentos.

Ela não sabia o que fazer. Sentia apenas que precisava tomar uma atitude, fazer alguma coisa, mas que tinha muito pouco tempo para se decidir. Perdida em seus pensamentos, revia, como um filme de lembranças, o momento em que ele lhe entregara a esmeralda…

- Talvez a maior prova de amor que ele tenha lhe dado até então.

Sakura se levantou da cama como se tivesse levado um choque, o coração a mil. Lá estava a Madoushi, sentada na mesma poltrona que Shaoran costumava lhe velar. Mesmo em meio às sombras, Sakura podia jurar que ela estava com aquele sorriso irritante no rosto.

- Você gosta de assustar as pessoas. Definitivamente.

- É divertido.

Sakura se recostou nos travesseiros, sentada e suspirou, levando as mãos no rosto.

- O que você está fazendo aqui?

- Você precisa conversar sobre o que está sentindo. - respondeu a feiticeira, brandamente.

- O que tem para se conversar? Minha mente está um caos e eu não sei o que devo fazer!

- Então não guarde para si suas aflições. Coloque para fora. O que você está sentindo?

Ela passou muito tempo calada, pensando.

- Eu sinto que eu sou uma mal-agradecida.

- E por que você se sente assim?

- Porque eu sou uma covarde.

- Por quê?

- Você só sabe perguntar isso?! - Sakura rebateu, na defensiva.

- Está tentando mudar de assunto. Me responda.

Ela permaneceu em silêncio. Então esticou a mão até o pequeno criado mudo ao lado da cama e pegou a pequena esmeralda.

- Eu… sei que ele me ama. Eu já sabia disso antes que ele… me devolvesse o meu coração. E… acho que você tem razão.

- Ah, é? - ela deu um sorriso divertido - E no que tenho razão?

- Eu… eu… acho… que gosto dele também. Mesmo… mesmo que eu não tenha me… apaixonado por ele… eu… eu quero ficar ao lado dele.

- Sim… então por que simplesmente não corre para o quarto dele agora e confessa os seus sentimentos? Creio que ele ficaria extremamente feliz.

- Eu… não… posso!

- E por que não?

- Você sabe o porquê! - responde ela, irritada mais consigo mesma por estar chorando novamente.

- É bom que você coloque para fora. Este é o motivo desta conversa.

Ela ficou muda por vários instantes, não porque se recusasse a falar, mas sim porque era difícil colocar em palavras seus sentimentos.

- Eu… me pergunto… como ele pode me amar. O que há em mim que ele possa… gostar tanto?

- Sakura, quando você era uma humana… normal… antes de conhecer minha Irmã, você era uma pessoa insegura. Quando você foi enfeitiçada e perdeu seu coração, você se sentiu mais segura, tanto por causa da sua beleza quanto porque era um efeito colateral do feitiço… mas essa insegurança jamais saiu de você. Você acha que é uma pessoa indigna de ser amada por alguém, mas não verdade.

- Ele disse… ele disse… - ela foi engolfada por uma onda de tristeza que a calou por alguns momentos - Ele disse… que eu mereço o amor dele! Como? COMO?! Eu só mereço o desprezo dele! Pelo o que eu fiz a ele e à família dele! Pelas vezes eu o humilhei, desprezei… sendo que ele sempre foi uma pessoa muito melhor que eu!

- Sakura… você precisa se perdoar. Você fez coisas muito ruins a muita gente e sabe disso.

- Eu podia ter… evitado… podia ter lutado…

- Se não fosse você, seria outra pessoa. Minha Irmã, que é a grande culpada de tudo, não desistiria tão fácil…

- Mas…

- Ainda mais, você conseguiu frustrar os planos da minha Irmã, mesmo ela não sabendo. Veja, a ideia dela era que você não pudesse amar ninguém, mas o que você fez por Tomoyo, Shaoran e também por muitas outras pessoas que você ajudou no seu longo caminho provam a sua boa índole.

A Madoushi se levantou, pegou a pedra no criado-mudo e mostrou para Sakura.

- Está vendo essa rachadura? Você sabe o que é isso?

- Não…

- Isto é o seu coração querendo se libertar. Ao longo dos anos, a cada momento que seu coração se enchia de esperança, amor, compaixão, carinho por outras pessoas, a rachadura ia crescendo. Você nunca a percebeu porque ela ficava virada para a parte em que o pente dourado escondia. Mas, nos últimos anos, quando conheceu Tomoyo, ela se tornou maior porque sua amizade com ela é verdadeira e pura. E, quando conheceu Shaoran, ela também cresceu. Logo, logo, a pedra vai se rachar e quebrar sozinha, a partir do momento que você admitir seu amor e carinho.

- Então… de um jeito ou de outro… meu coração seria meu de volta… se eu não tivesse seguido pelo caminho que eu segui e tivesse feito tudo o que eu fiz?!

- Ah, Sakura… não tire conclusões tão apressadas e bobas! - a Madoushi sentou-se na beirada da cama dela e pegou delicadamente sua mão - O caminho que você trilhou e, mais importante, as pessoas que você conheceu, foi o que possibilitou que a esmeralda quebrasse. Uma jornada muito longa e dura, mas necessária. Agora você é uma pessoa muito melhor, um tanto orgulhosa, é verdade, mas com um coração muito bondoso. E é isso que você não consegue enxergar, mas que Shaoran vê através dessa camada de prepotência que você projeta para os outros.

- Eu… me arrependo… cada vez… mais… do quanto… eu fui… dura com ele…. - ela falou, com amargura na voz

- Todavia fez o que fez querendo proteger. Não só a você, cujo coração ainda está muito machucado com tudo o que aconteceu, mas também a ele. No momento que soube quem era ele, de quem era neto, tentou se afastar para que ele não sofresse duplamente da maldição.

Sakura ficou em silêncio algum tempo, enxugando as lágrimas com as costas da mão.

- Mas… não é só isso… eu sinto outra questão que lhe incomoda… algo mais profundo e, talvez, mais grave…

- Sim… há…

A Madoushi esperou que ela encontrasse novamente as palavras.

- Estou com medo de quebrar meu coração e voltar ao normal… quando eu era feia…

- Você não era feia. - interferiu a Madoushi, um tanto duramente.

- Quando eu… era… só eu… desajeitada, gorda, ingênua… eu… me acostumei a ser assim… como sou… agora.

- Bom… posso lhe dizer que provavelmente seu corpo vai reter algumas características que você adquiriu ao longo dos anos… como, por exemplo, uma naturalidade e leveza que você possui agora… mas sim, você voltará a ser como era há 500 anos.

- Mas… não vai ser mais eu!

- Sakura… é só a sua aparência que vai mudar. Sua índole continuará a mesma.

- Mas… mas…

- Você está com medo que Shaoran esteja apaixonado por essa Sakura perfeita que você é hoje… e que fique desapontado se ver como você realmente é. - a Madoushi falou por ela.

- Eu… não aguentaria… ver… aquele olhar… decepcionado… que eu sempre via nos olhos da minha mãe e do meu pai… nele. Eu não suportaria ouvi-lo dizer que eu era mais bonita antes!

- Mas… não tem como saber, não é? A não ser que você se mostre para ele… como realmente é.

- Eu… não tenho… coragem!

- Então… você nunca vai saber?

- Você… poderia… me dizer.

A Madoushi deu uma risada leve

- Eu sei… mas não posso lhe contar. Isso seria contra os meus princípios. Eu não posso interferir.

- Eu queria tanto… ter certeza.

- Todos nós queremos. Mas… seria muito fácil, não é? Sabe… tem um físico que vai nascer daqui a alguns anos que elaborará um experimento mental para tentar encontrar explicações para vários problemas que os cientistas elaboram. Explicando de uma maneira simples, você coloca um gato vivo dentro de uma caixa opaca juntamente com um frasco de veneno e um dispositivo que pode ser acionado ou não, quebrando o frasco de veneno dentro da caixa. Não há como saber o dispositivo foi acionado ou não, a não ser abrindo a caixa, mas esse ato pode interferir no funcionamento do dispositivo, disparando-o ou não.

- Então… como saber que o gato ainda está vivo?

- Somente se a caixa for aberta.

- Mas… o tal dispositivo…

- O cientista precisa se arriscar. Ou nunca saberá.

Sakura ficou calada. E a Madoushi sorriu.

- Você deve dormir agora. Logo será manhã e você precisa descansar um pouco.

- Eu não consigo dormir.

- Eu posso lhe ajudar com isso.

Ela pegou de dentro do bolso de suas vestes alvas um punhado daquele mesmo pó verde que ela usara antes e o soprou delicadamente em sua direção. O cheiro leve insinuante, como o de um buquê de flores, a fez ficar sonolenta imediatamente. Instintivamente, procurou se deitar nos travesseiros, enquanto sentia a Madoushi cobrí-la com os lençóis.

- Sakura.

Ela se esforçou para abrir os olhos que já estavam fechados. Tonta, tentou localizar o rosto da Madoushi, mas só conseguiu perceber os olhos claros brilhantes e o sorriso enigmático.

- Pessoalmente, eu acho que, se o cientista nunca abrir a caixa, o gato vai morrer de qualquer jeito.

Quando ela deu por si novamente, já estava amanhecendo. E ela achou que aquela última parte da conversa tinha sido apenas fruto da sua imaginação. Rolou para o outro lado e voltou a dormir.

'

- Eu gostaria de agradecer aos dois por tudo o que fizeram… e também pedir perdão por todo o sofrimento que igualmente causamos. - A Madoushi pediu, com uma humildade que surpreendeu Shaoran.

- É muito difícil perdoar tanto mal… principalmente o que a sua Irmã causou.

- Mas você pode sempre tentar, não é mesmo?

- De fato, posso.

Havia chegado o momento das despedidas. Meiling havia feito um excelente trabalho restaurando as roupas de Shaoran, que parecia até melhores do que quando eram novas. Sakura também estava vestida com um quimono tradicional, carregando uma malinha com alguns outros pertences. Ela desviava o seu olhar toda vez que ele a encarava,, parecendo constrangida e, ao mesmo tempo, angustiada. Ele queria muito perguntar o que ela tinha ou mesmo tentar fazer alguma coisa por ela, mas havia se decidido, na noite passada, quando ela lhe negara o pedido de estar presente quando a pedra fosse destruída, que não iria mais interferir nas decisões dela. Ou corria o risco de se decepcionar e se machucar outra vez.

- Shaoran, eu recuperei uma coisa que você perdeu lá no palácio.

Confuso, ele viu a Madoushi estender a mão em sua direção e, surgido do nada, um pequeno anel de ouro faiscou e caiu na palma branca. Shaoran o reconheceu.

- Mas… como…? Pensei… que você… o tivesse…

- Eu o destruí naquele momento, mas o refiz, intacto… e sem nenhuma maldição sobre ele. Achei que iria querê-lo de volta… apesar de tudo.

Ele lentamente pegou o anel da mão estendida e o observou. E, sem poder evitá-lo, olhou de soslaio para Sakura, ao seu lado. Ela mais uma vez evitava olhá-lo parecendo ainda mais desconfortável que antes. Ele suspirou e colocou o anel em seu dedo mindinho, em que sempre usara.

- Antes de irem, eu tenho dois últimos favores a pedir a vocês.

Ele estremeceu sem querer e a Madoushi notou, dando uma risadinha.

- Não se preocupe, Shaoran. Não tem nada demais. É bem simples.

- O que você quer de nós? - ele perguntou educadamente, mas com cautela.

- Bem… há um motivo para que os humanos ou qualquer outra criatura não saibam os nossos nomes. Se alguém souber e, um dia pronunciá-los em voz alta, nós somos obrigadas a aparecer diante da pessoa que nos invocou e temos que realizar três desejos.

- Nossa… isso é verdade?! Isso me parece tão… familiar.

- Creio que algumas histórias sobre fadas madrinhas e gênios em lâmpadas mágicas possam ter sido… hum… inspiradas neste fato.

- Entendo… - falou o rapaz, ainda bastante admirado.

- O que eu gostaria de pedir a vocês é que eu possa alterar as lembranças de vocês para que se esqueçam somente de nossos nomes. Não que eu não confie em vocês - acrescentou a Madoushi, ao ver a expressão levemente indignada de Sakura - Mas é um tabu, uma proibição. Uma lei que não pode ser quebrada. Ninguém além das Três Grandes Senhoras e do Grande Senhor Soberano sabem os nomes umas das outras.

- Eu acho uma bobagem… mas acho que entendo - falou Shaoran, dando com os ombros - Você pode apagar os nomes das minhas lembranças.

- Sakura?

Shaoran virou-se para a moça no momento em que ela afirmava com a cabeça, olhando sempre para frente. Levemente decepcionado, ele voltou sua atenção a feiticeira.

- Mas antes… eu gostaria de usar esse tabu ao nosso favor. Eu… tenho esperança de que… se vocês invocarem minha Irmã, que está morta, ela poderá reviver.

- Isso é possível?

- Nunca foi tentado… mas tenho bons pensamentos a respeito disso. - ela respondeu, parecendo animada - E… acho que funcionaria melhor… se os dois dissessem juntos o nome dela. Vocês ainda se lembram, não é?

Pela primeira vez, eles se entreolharam, brevemente. E afirmaram com a cabeça. A Madoushi pareceu satisfeita.

- Meiling. - ela chamou

A bruxa de cabelos negros apareceu do ar ao seu lado. Ela suspirou.

- Está na hora, não é?

- Sim, querida. Segure a minha mão. - e então se virou para os dois, que pareciam confusos - Quando eu soprei a vida eterna em Meiling, eu usei um punhado do pó resultante da morte da minha Irmã, para que ela pudesse ter os poderes das trevas. Se a invocação der certo, a parte que existe em Meiling dela sairá e se ela não estiver comigo, voltará a ser humana. Você tem certeza, não é?

A pergunta fora endereçada à bruxa. Ela lançou um breve olhar triste a Shaoran, sorriu e disse:

- Tenho. Gosto muito da eternidade.

- E quanto a vocês dois, eu peço que se dêem as mãos… - Shaoran tateou até sentir a mão trêmula de Sakura segurar a sua - e agora, você Shaoran, segure a minha mão. A partir do momento que a ela voltar a viver, eu não terei nem poder e nem autoridade para permitir a estadia de vocês aqui. Se não estiverem segurando minha mão, morrerão imediatamente. Vocês estão prontos?

Mais uma breve troca de olhares constrangidos. E, ao mesmo tempo, eles chamaram:

- Yuko.

De início nada aconteceu. Uma brisa começou a soprar, balançando as copas das muitas árvores do jardim. Então, eles viram um único grão de pó preto faiscante surgir contra o céu azul e planar preguiçosamente até a frente deles. Então outro grão surgiu e se juntou ao primeiro. E mais um grão. E mais um. Logo, eram tantos que não se podia contar, vindo de todas as direções, se juntando aos primeiros para formar uma pedra cada vez maior, que faiscava ao menor movimento. Ela foi ficando cada vez maior, tomando forma de algo que lentamente lembrava o torso de uma figura humana muito magra e com um busto avantajado..

Duas extremidades na parte superior se destacaram, enquanto mais grãos de pó negro surgiam e moldavam dois braços finos e longos. Abaixo do torço, ondas de pó se espiralaram para formar as pernas compridas. O rosto começou a se moldar, um rosto fino e bem proporcionado.

- Ah!

Meiling gemeu, enquanto, ela parecia ser arrastada em direção da figura que se formava. Ela resistiu, enquanto a Madoushi segurava bem a sua mão. Mas as suas roupas, que era quase todas escuras, pareciam irresistivelmente atraídas. E ondas de pó preto começaram a deixar as vestes da moça, que foram se descolorindo até se tornarem brancas. Somente os cabelos dela continuaram negros e ela parecia um pouco pálida.

Então ele sentiu Sakura ser atraída também na direção da Madoushi e ele, por instinto, apertou a sua mão. E ele viu no momento em que um único grão negro pareceu sair do peito da moça e se juntar aos outros. Por fim, ele sentiu uma pressão no seu dedo anelar, onde ainda usava o anel negro que Meiling lhe dera e o viu se quebrar em alguns pedacinhos do pó, que se juntaram aos outros…

As feições finas do rosto já estavam bem talhadas e os últimos grãos se juntaram para formar uma grande cascata lisa que eram os seus cabelos. Quando o ultimo grão se juntou aos outros, ela se mexeu, uma estátua de pedra negra viva. E, como uma camada de tinta que se descasca, pedaços de preto começaram a cair onde era pele alva, detalhes dourados de suas vestes, seus olhos claros como luas, a boca vermelha. E a Kuroi no Madoushi havia, afinal, voltado a vida

Ela mesma parecia não acreditar que estava ali, olhando para si mesma com espanto. Fitou, confusa, Sakura, Shaoran, Meiling e, por último, sua irmã, que chorava lágrimas discretas de emoção.

- Irmã… o quê…?

- Invocação. - foi o que a Madoushi Branca disse, se controlando - Primeiro de tudo, por favor, dê permissão a Sakura e a Shaoran para que possam estar aqui no nosso mundo.

Mesmo parecendo confusa, ela não hesitou e aproximou-se dos dois. A presença dela, um pouco mais acentuada que a da Irmã Branca, o fazia pensar que estava na frente de uma multidão. Ela colocou as mãos na cabeça dos dois brevemente. E ele sentiu como se fizesse parte da multidão… ele experimentou soltar a mão da Madoushi e viu que estava seguro outra vez. Logo em seguida, Sakura soltou sua outra mão.

- Então Meiling… qual a cor que você quer agora? - perguntou a Madoushi Branca.

- Sempre achei que vermelho me caía muito bem.

- Foi o que imaginei.

Com um gesto vago da mão, ela apontou para a moça, que imediatamente fechou os olhos e suas vestes começaram a se colorir de um vermelho intenso, animado, vibrante como fogo. Quando a transformação terminou, ela reabriu os olhos e pareceu satisfeita, pegando as pontas de seu vestido flamejante e rodopiando no mesmo lugar.

E só então as duas Madoushis se aproximaram e, sem dizer uma palavra, se abraçaram, longamente. Agora também a Madoushi preta chorava e uma energia flutuava entre elas, que a Shaoran pareceu notas de saudade e tristeza.

Quando se separaram, a Madoushi preta suspirou.

- Então… aconteceu tudo como você achava que aconteceria.

- Aconteceu como tinha que acontecer. Espero que um dia você possa me perdoar por não ter interferido.

- Você sabe que sim.

- E algum dia você vai conseguir perdoá-la?

A Madoushi preta suspirou outra vez.

- Quem sabe.

A Madoushi Branca sorriu e virou-se para o casal, que observava tudo a certa distância

- Agora, eu vou apagar de suas memórias com relação aos nossos nomes. Não vai doer e vocês não vão sentir nada.

Ela inspirou delicadamente o ar e o soprou na direção dos dois, um ar frio, levemente cheiroso, que subia pelo seu nariz e descia livre pelo peito, como o cheiro de chá de hortelã. E, tal como começou, terminou. Shaoran tentou se lembrar do nome que acabara de chamar, mas não conseguia. Era a sensação de que estava para se lembrar de algo que havia esquecido, que estava ali, na ponta da língua, mas que não vinha…

- Pronto. Isto deve bastar.

- Irmã… como eles sabiam os nossos nomes? - perguntou a Madoushi Preta, olhando intrigada para o casal.

A Madoushi Branca apenas sorriu e pegou na mão dela. Então um ar de compreensão se instaurou na expressão da Madoushi Preta. E, logo em seguida, foi substituída pelo assombro.

- Nossa… isso tudo aconteceu… depois que eu fui morta?

- Sim.

Ela voltou a olhar para os dois.

- Imagino que tenha sido horrível. Minha irmã já agradeceu e se desculpou, mas eu também gostaria de pedir perdão, por todo o sofrimento que causamos.

- Você não precisa pedir nada. É tão vítima quanto nós.

Ela sorriu, cravando nele seus incríveis olhos claros.

- Você é um humano muito sábio. Porque passou por maus bocados ultimamente e isso amadureceu seu espírito.

- E vai precisar desse amadurecimento para enfrentar o que estar por vir. - acrescentou a Madoushi Branca, formal.

O coração dele pareceu ser perfurando por um punhal.

- O que você quer dizer com isso?! Aconteceu alguma coisa minha família?! Minhas irmãs…

- Elas estão bem. Eu me refiro às explicações que você deverá dar quando regressar. Foi difícil para elas perderem o irmão no momento que mais precisavam dele. E como você não pode contar a verdade, enfrentará algumas acusações injustas por algum tempo.

Os ombros deles caíram.

- Eu sei. Sempre estive ciente disso. Só espero que um dia elas possam me perdoar.

- O tempo curará as feridas e elas o perdoarão. E também…

Ela deixou a sentença no ar, mas olhou significantemente para Sakura, que corou e desviou o olhar. Ele suspirou, triste.

- Entendo…

- Sakura irá depois de você. Ela não sabe para onde vai ainda, então eu permiti que ficasse um pouco mais… mas você precisa partir. Já ficou fora muito tempo e suas irmãs precisam de você.

Ele apenas afirmou com a cabeça.

- Posso… me despedir dela…?

– Claro.

Shaoran virou-se para Sakura. Ela, após algum tempo, o olhou também, parecendo estar fazendo um esforço muito grande para isto. Estava inquieta, ansiosa, embora se esforçasse para se controlar. E seu olhar parecia aflito e triste.

- Você está bem?

- Estou… apenas… indecisa sobre o que devo… fazer agora.

- Você… ainda não quebrou a pedra, não é?

Ela pareceu tremer, por um segundo. Mas controlou-se, apertando as mãos bem apertadas.

- Não… você saberia… se eu tivesse quebrado a pedra…

- Você não… sabe se vai ficar no nosso tempo… ou voltar?

- É… eu… não sei o que vou fazer… por um lado eu morro de saudades dos meus pais e do meu irmão… mas me pergunto se vale a pena voltar. Eu teria… a mesma… vida que eu tinha antes… de acontecer.

- Imagino que as diferenças culturais e a modernidade sejam um atrativo pra você… ficar no século XIX.

- Sim.

Shaoran queria dizer muita coisa. Queria pegar nas mãos dela e reafirmar seu amor, dizer que seria feliz se ela aceitasse ser de fato sua mulher. Queria implorar para que ela ficasse com ele. Mas ele não fez nada disso. Havia se preparado tanto para o momento do adeus e, ainda assim, era tão doloroso quanto foi ao vê-la definhar em seus braços quando ela esteve entre a vida e a morte. Era, afinal, como se ela estivesse morrendo de novo. E sentia que seu autocontrole não suportaria se ele tentasse argumentar com ela. E ela já havia deixado bem claro que não o queria. Para que se humilhar mais? Respirando fundo para controlar-se, ele apenas disse, formalmente:

- Se… você decidir ficar… na nossa época… e precisar de ajuda… ou alguma coisa… me procure.

Ela fechou os olhos e inspirou profundamente. Ela parecia estar em conflito consigo mesma, mas ele não tinha forças nem cabeça para interpretar aquelas reações. Ele havia chegado ao seu limite. Aproximou-se dela, pegou as mãos trêmulas e as apertou. E inclinou-se para depositar um beijo em seu rosto, o último que daria e esperava que ela jamais esquecesse.

- Boa sorte, Sakura… e cuide-se bem.

Ela não disse nada. Ele se virou para encarar as Madoushis, apenas para evitar olhá-la.

- Bom… acho que estou pronto.

- Será que eu posso ter uma palavrinha com você agora, Shaoran? Acho que também mereço uma despedida.

Era Meiling, que parecia triste e ansiosa. Eles foram para um canto mais afastado, embora soubessem que as Madoushis ouviriam tudo o que acontecesse por ali.

- Você ficou mais bonita de vermelho.

- Obrigada. Embora eu gostasse da liberdade de ir e vir pelos mundos e pelo tempo à vontade, não eram os meus poderes. Agora que sou da Ordem Vermelha, posso fazer um pouco de tudo. Só que estou presa aqui.

- Significa que nunca mais nos veremos, não é?

- É…

Assim como ele, Shaoran sabia que a moça queria falar um monte de coisas, que gostaria que ele ficasse. Porém, assim como ele, se controlava.

- Eu vou zelar por você daqui. Mesmo que não possa estar presente, eu desejo a sua felicidade.

- Meiling… você é uma grande amiga… eu agradeço, do fundo do meu coração, por tudo o que você fez. Eu nunca me esquecerei.

Ela o abraçou, bem apertado. Depois de muito tempo, ela o largou e ele percebeu que os olhos dela estavam molhados.

- Ah, que coisa! Parece que entrou alguma poeirinha nos meus olhos. - ela disfarçou, rindo, enxugando o rosto com as costas da mão.

Ele riu também, mas, quando o momento passou, a tristeza da despedida outra vez o pegou desprevenido, tornando seu semblante sombrio e vazio. Ele se aproximou dela e pegou sua mão, beijando-a.

- Adeus, Meiling.

- Não diga Adeus! Eu sei que essa é a despedida final, mas… adeus é algo... muito definitivo. Eu não estarei lá, eu não vou poder intervir, mas se você acreditar que eu o quero bem e que estou zelando por você, eu estarei com você.

Shaoran sentiu um nó na sua garganta impedir as palavras que iria dizer. E, na verdade, nem precisava. E, de alguma, ele se sentiu melhor. Não feliz, nem animado… mas melhor.

- Meiling tem toda razão. - disse a Madoushi Branca, se aproximando deles - Se um dia você precisar de ajuda, pense em mim. Você pode achar o contrário, mas lhe serei eternamente grata, Shaoran. E por isso eu tentarei, ao meu modo, ajudá-lo quando você precisar. E tentarei fazê-lo feliz.

Instintivamente, o rapaz virou-se para a direção onde deixara Sakura e notou, sem surpresa, que ela não estava mais ali. Talvez fosse melhor mesmo ela não estar presente quando ele se fosse. Já era difícil o suficiente aguentar aquela pressão no peito que o impedia de respirar.

- Obrigado. Isso é… muito importante pra mim. Sinto-me honrado por essa... deferência.

Ela deu uma daquelas risadinhas misteriosas que ele não gostava.

- Ora, não precisa ser tão formal, Shaoran. Isso faz parte de algo que quero lhe dar. Um presente. Para demonstrar minha gratidão.

Ela se aproximou e ele se manteve imóvel, embora um tanto desconfortável. Ela estava ligeiramente mais alta que ele, mas conseguia olhá-la nos olhos sem fazer esforço. Ela pôs a mão na sua cabeça e ele sentiu um vento gelado envolver seu corpo, mas que lhe era agradável, suave e doce, que cheirava frutas e flores.

- Eu acabei de lhe conceder uma graça. Para você e toda a sua família. Todo aquele que carregar o nome da família Lisbury será extremamente feliz.

- Então… minhas irmãs…?

- Sim… sua mãe, suas irmãs, filhos, netos, bisnetos… nunca eles sofrerão o que vocês sofreram.

- Eu não sei o que dizer. - ele rebateu, sem jeito e muito emocionado.

- Eu aceito um obrigado. - ela rebateu, maliciosa.

- Obrigado.

- E quanto a mim - disse a Madoushi Preta, também se aproximando - Você e Sakura me invocaram e por isso tenho que realizar três pedidos, mas estou ligeiramente confusa em como vocês farão isso. Afinal, vocês me invocaram juntos.

- Ah, eu tenho a solução para isso. - falou a Madoushi Branca - É simples: cada um deles tem direito a um pedido e meio.

- Um pedido e meio? - repetiu Shaoran, incerto.

- Sim. O pedido inteiro deve ser realizado pela minha irmã, que na verdade seria mandar os dois para o tempo e o local que vocês desejarem. E quanto ao meio pedido… este deve ser algo que ambos desejam. E esse sou eu quem me encarrego de realizar.

- É uma quebra de protocolo, Irmã. - observou a Madoushi Preta, embora parecesse estar se divertindo com a situação.

- Eu sei. Mas estou apenas aliviando a sua responsabilidade de realizar um desejo.

- Eu acho que é bem mais que isso.

- Um desejo em comum entre eu e ela? - ele repetiu, desta vez com o semblante triste - Creio que não há nada que nós desejemos em comum.

- Eu tenho um palpite… - foi o que ela respondeu, vagamente. E ele suspirou, conformando-se. Quando disseram que ele teria direito a três desejos por invocar a Madoushi Preta, tivera esperanças que pudesse utilizá-los para outros fins. Mas agora percebia que a Madoushi Branca já havia planejado tudo desde o começo e era melhor se conformar.

- Bom… acho que não há mais nada para fazer aqui. Quanto antes eu voltar, melhor.

- Muito bem, Shaoran. - A Madoushi Preta falou energicamente - Para onde e para que tempo você quer voltar?

- Eu quero voltar para a minha casa de campo, onde atualmente minha família está, no tempo presente.

Ela ergueu as sobrancelhas pretas e finas.

- Achei que você fosse querer voltar um pouco no tempo. Talvez… para o exato momento em que você fugiu. Assim, suas irmãs não sofreriam com a sua ausência.

- Eu também pensei… mas é melhor. Lorde Nobelli, Fenmei… eles sabem que não estou na Inglaterra. Seria difícil explicar.

- Acho muito sábio de sua parte. Então… a casa onde suas irmãs estão… no tempo presente. Muito bem.

- Um momento Irmã. - a Madoushi Branca pediu, colocando sua mão no ombro do rapaz - Shaoran, vocês está com todas as suas coisas?

Ele se surpreendeu com aquela pergunta.

- Hã… sim.

- Tem certeza?

- ...sim. Eu conferi antes de sair do quarto, para ver se não estava esquecendo nada.

- Cheque de novo, por favor.

Admirado, ele abriu a mala e verificou suas coisas. Todas as suas roupas, que antes estavam em péssimo estado e que foram restauradas por Meiling estavam ali.

- Está tudo aqui.

- Tem certeza? - ela repetiu, com uma nota divertida na voz.

Ele deixou a mala no chão e apalpou os bolsos.

- Minha arma!

- Ah…

- Mas… eu tenho certeza que coloquei no meu bolso!

- Acho que você se enganou - disse a Madoushi Branca, enquanto a Madoushi preta e Meiling olhavam para ela com certa surpresa.

- Mas… mas… - ele tentou argumentar. Lembrava-se claramente de ter posto a arma no bolso, logo após perguntar a Meiling se poderia ficar com ela, já que fora modificada.

- Tenho um palpite… que a sua arma está lá perto da fonte.

- Como… COMO… ela foi parar lá?! - ele perguntou, incrédulo.

- Não sei. - ela respondeu, animada - Mas acho bom você ir atrás. Aquela arma é um presente e eu não gostaria que você a deixasse aqui.

- Está bem… - ele respondeu, olhando-a desconfiado e ainda estarrecido. Hesitante, ele caminhou pelo jardim e as três o observaram até o que o perderam de vista.

- Achei que nós não pudéssemos interferir! - falou a Meiling, olhando para Madoushi Branca com reprovação.

- Não estou interferindo. Só estou ajudando alguém a abrir uma caixa.

Meiling ficou sem entender, mas a Madoushi Preta deu uma risadinha, enquanto a irmã olhava, também sorrindo, para o jardim.

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Ela não conseguia mais se controlar. As lágrimas desciam enquanto ela corria, sem rumo, pelo jardim. Se ela tivesse ficado para se despedir, ela choraria e ele ficaria preocupado com ela. Ele ficaria ainda mais triste do que já estava…

Quando finalmente parou, sem fôlego, deixou-se escorregar por tronco de uma árvore até o chão. Incapaz de se controlar, ela deixou seus sentimentos fluírem através do choro, gemendo alto, sem se importar em fazer barulho. Mas nada parecia capaz de aliviar a dor.

Ela conhecia aquela dor, embora julgasse incapaz de senti-la enquanto seu coração estivesse trancado na esmeralda que trazia em sua mão. O peso do desespero, do sofrimento… de saber que amava alguém, mas que não tinha jeito. Não tinha volta. E ela percebera aquilo no momento em que ele lhe beijara a testa.

O amava tão profundamente que chegava a ser assustador. Amava sua bondade, sua inteligência, sua gentileza, sua nobreza de espírito, sua coragem… e o amava acima de tudo porque ele a amava, apesar de que ela mesma não conseguia se amar.

Arrependia-se de tudo o que fizera a ele. De como fora má, cruel com o rapaz. Ela queria pedir seu perdão de joelhos e implorar para que, apesar de tudo, pudesse ficar ao seu lado.

Mas o medo a impedia. Ela tinha tanto medo quebrar a esmeralda e voltar à aparência anterior, quando era feia… e ele a rejeitasse. Imaginava o tempo todo ver o desapontamento nos seus olhos… ela seria capaz de se matar!

Confusa, ela olhou para a esmeralda. Percebeu que a rachadura em sua superfície estava maior, quase trincando ao meio. A Madoushi havia lhe dito que seu coração queria se libertar. No fundo, ela queria ser capaz de se apaixonar de novo, de sentir a deliciosa sensação do abraço, o beijo que fazia seu corpo inteiro arder de paixão. De amá-lo como uma mulher ama um homem. Se entregar a ele por amor e pelo desejo. Algo que ela sentira quando a Madoushi lhe "emprestara" um coração, mas que agora se esquecera. Ela apenas sabia que era muito bom e que a paixão deixava um enorme buraco em seu peito. O que deveria fazer?

Repentinamente, se deu conta que estava fazendo a pergunta errada. O certo a se perguntar era: o que ela desejava fazer? E a resposta era simples e vinha em sua mente instintivamente: ela queria estar com ele. Pedir que ele a abraçasse e que nunca mais a soltasse, pois seus braços eram um lugar onde ela se sentia protegida, confortada… e, enquanto pensava isso, elevada pela doçura daqueles desejos inocentes, nem percebeu que a esmeralda trincou ainda mais.

Queria estar com ele. Mas… e se ele a rejeitasse, por causa de sua aparência? Talvez pudesse deixar a esmeralda bem guardada em algum lugar e manter-se bela como ele a conhecia, pedindo para que ele a perdoasse. Ela tinha certeza que ele a aceitaria. Porém, isto seria injusto com ele. O amor que ela sentia por ele era algo como o amor de uma pessoa distante, fria. Em sua condição atual, era estranho pensar em beijá-lo, abraçá-lo… fazer amor lhe parecia até errado! Seria muito egoísta de sua parte. Ele a desejava como mulher, tinha suas… necessidades. Claro, ela poderia se submeter a ele, mas tinha a impressão que Shaoran não aceitaria. Teria que ser porque ela também o desejasse… mas, de novo, o medo da rejeição a fazia ter calafrios mesmo agora.

Se seu desejo maior era ter ele por perto, talvez a solução fosse voltar para a sua época e manter-se escondida, em algum lugar que pudesse zelar por ele, observá-lo de longe (a esmeralda trincou um pouco mais). E, quem sabe um dia, se tivesse coragem, se mostrar para ele…

A esmeralda quebrou.

Espantada, ela olhou para a esmeralda rachada em duas partes antes que ela emitisse uma luz muito forte e começasse a quebrar em pedaços cada vez menores, até virar um pó brilhante verde. O pó circulou ao seu redor, cada vez mais rápido e a envolver-la em luz, cada centímetro de pele, cada fio de cabelo e ela sentiu seu corpo mudar, tornar-se mais pesado, enquanto, dentro de si, sentia uma luz quente preencher o vazio que existia em seu coração, explodindo em uma emoção que lhe era estranha e familiar. E, tão rápido quanto começou, terminou. Ela estava de volta outra vez.

Sentiu a velha ansiedade engolfá-la, enquanto olhava para as suas mãos, ligeiramente mais fofinhas que antes. O quimono que usava estava apertado na cintura e no busto, evidenciando seus quilinhos a mais. Seus cabelos estavam ligeiramente mais crespos que antes e a pele, um pouco mais pálida, não do jeito bonito, mas quase doentio.

A única coisa realmente boa que sentia era aquele calor maravilhoso que se espalhava do seu peito para o resto do corpo, como se tivesse um tesouro precioso guardado em seu coração. Era o amor, o amor que agora penetrava naquele lugar recém curado, preenchendo com luz e transbordando seu corpo. E agora, sentia o desejo de beijá-lo, de sentir seu corpo junto ao dele como se quisessem se fundir em um só. De ser uma parte importante da sua vida, para confortá-lo, ajudá-lo.

Cambaleante, ela se levantou. Lembrou-se da fonte que existia bem perto de onde estava e foi até lá. Queria olhar como estava seu rosto, tinha o desejo doentio de confirmar que perdera a beleza que fascinara tantos homens, inclusive o que amava… mas, ao chegar à beira da fonte, estancou. Tinha medo do que poderia ver, do seu rosto redondo, desproporcional, ansioso… uma nova onda de tristeza a invadiu. Ela deu um passo para trás, desequilibrando-se e caindo. Além de tudo, voltara a ser desajeitada.

As lágrimas não paravam de cair. Ela começou gemendo, depois murmurando infelicidades e, quando percebeu, estava soluçando alto, gritando descontrolada. Nunca fora tão infeliz na vida.

- Sakura?

O coração dela saltou, esquentando seu peito, seu corpo inteiro gelado de infelicidade. Ela devia estar sonhando, delirando!

- Você está bem?

Aquela voz não era ilusão. Ele estava ali, atrás dela! Ainda não tinha ido embora!

- O que você está fazendo aqui?! - ela perguntou, estridente

- Eu vim buscar minha arma. Você está bem? - ele repetiu a pergunta e ela podia sentir a preocupação em sua voz.

- Eu… estou bem.

Tem… certeza? Você… me parece diferente.

Ela o ouviu se aproximar e entrou em pânico.

- Não se aproxime de mim! - ela gritou

Os passos pararam na mesma hora e um silêncio pesado caiu sobre os dois como uma barreira. Ela se arrependeu no momento que gritou. Por que ela tinha que ser tão grossa, tão cruel com ele que só queria ajudá-la? Ela realmente não merecia o amor dele.

- Está bem… vou respeitar suas decisões. É evidente que você não me quer por perto.

Mais lágrimas afloraram pelo seu rosto. Ela queria fazer alguma coisa… qualquer coisa, mas o medo a paralisava. Se ele a olhasse, ele a rejeitaria. E ela não podia suportar…

- Adeus, Sakura.

- ESPERA!

...mas ela suportaria viver sem saber? Suportaria passar o resto da vida se questionando o que ele teria feito? Vivendo um talvez ao invés do não…

...ou do sim?

- Eu… eu… - ela engoliu em seco, tentando ganhar coragem - Eu… quebrei… a esmeralda.

Mais silêncio, embora agora ele parecesse leve, ansioso, como se ele estivesse procurando as palavras certas.

- E como… você está se sentindo?

- Eu… estou… com medo…

- De quê?

Reunindo toda a bravura que podia, ela se levantou… e, lentamente, ficou de frente para o rapaz. Mas não teve coragem o suficiente para abrir os olhos.

Passou-se um longo tempo, em que o único som que ela ouvia era a brisa balançando a copa das árvores e as batidas de seu coração, ansioso e dilacerado pela ansiedade. "Ele deve estar me achando horrível. Deve estar se perguntando como pôde se apaixonar por uma mulher tão insignificante." ela se envenenava, preparando-se para o golpe, abaixando a cabeça e sentindo-se derrotada.

- Sakura. - o tom da voz do rapaz era indefinível e ela chorou, trêmula.

Perdida em sua tristeza, ela ouviu passos. Achou que ele havia se afastado, ido embora. Por isso sentiu um choque imenso quando sentiu a mão dele, quente, em seu rosto, obrigando-a a levantar a cabeça. Um choque tão imenso que ela abriu os olhos e olhou direto no fundo dos olhos do rapaz. Embora as lágrimas embaçassem sua visão, ela viu claramente um sorriso terno em seu rosto. E, em seus olhos, ela viu o amor que ele sentia por ela, inabalável e incontestável.

- Você continua tão linda quanto antes. Aliás… tem algo… em você agora que a faz… ser ainda mais bonita.

- Não minta pra mim! - ela pediu, colocando suas mãos sobre seus olhos, mas ele as pegou e as entrelaçou com as suas próprias mãos.

- Não estou mentindo. Olhe bem pra mim… eu não mentiria pra você. Nunca!

Ela se forçou a olhar, tentando respirar profundamente, trêmula. Era verdade. Ele não estava mentindo.

- Como… como… p-ode me a-achar… bonita? Eu… eu sou… feia… desajeitada! Todos me diziam… i-isso!

- Você perdeu aquela… beleza fria, perfeita demais. Agora… do jeito de que você é… eu posso sentir… que você é humana. E doce. Eu adoro isso.

- Mas… mas…

- Você está realmente mais gordinha… talvez um pouco mais pálida… mas isso a gente consegue resolver. Faça um regime, pegue um pouco de sol… mas eu não me importo. Eu… amo você do jeito que você é agora.

Ela recomeçou a chorar com mais força, mas agora era porque agora ela sentia um enorme peso sair de seus ombros e seu peito se encher de uma luz diferente, maravilhosa.

- Você… não mentiria pra mim, não é?

- Eu já falei que não. E sabe de uma coisa? Sabe o que está mais lindo ainda em você? Seus olhos.

- Meus olhos?

- É… tem… alguma coisa neles… além de verde está mais… quente, acolhedor… eles estão com um brilho… tão… encantador. Eu… poderia ficar olhando para eles… pra sempre… sem entender como eles conseguem me deixar ainda mais apaixonado por você.

- Como… você pode ser… tão… perfeito?

Ele riu um pouco, mas logo ficou sério de novo, parecendo pensar.

- Era por isso… que você não queria que visse a… transformação? Tinha medo de que eu achasse feia e não quisesse mais?

Ela apenas confirmou com a cabeça, incapaz de falar. Então ele a abraçou.

- Então eu não a amaria de verdade se fosse assim. Eu te amo, minha flor, não pela aparência, mas porque você é o que é.

- Eu… tinha… tanto… medo… na verdade… ainda tenho…

- Pelo quê? - ele perguntou, pacientemente.

- Eu… mudei… por dentro também… eu… não… mais… segura… calma… elegante… eu…

- Eu vou adorar descobrir as coisas que agora você é. E eu tenho certeza que a sua bondade, teimosia, senso de justiça não mudaram. E são essas coisas que me fazem amá-la.

Num repente, ela retribuiu o abraço, apertando-o fortemente contra o seu corpo, atropelando-se enquanto dizia:

- Shaoran, me perdoa! Eu te amo, eu sou uma idiota porque eu só percebi isso tarde demais! Eu fui tão cruel, mesquinha, malévola! Eu não mereço o que você sente por mim, não mereço! Mas eu quero ficar com você! Se você não me perdoar, ao menos me deixe ficar perto de você, por favor! Por favor, eu…

- Sakura, calma! - ele pediu, meio rindo, meio surpreendido, saindo do abraço para olhá-la nos olhos - Calma.

- Mas você precisa saber. Eu preciso que você me entenda… eu…

- De tudo o que você falou só uma coisa eu escutei. Mas eu queria que você dissesse de novo porque acho que estou sonhando… você disse que me ama?

- Sim… eu te amo. E também, no momento que quebrei a esmeralda eu… eu percebi que estou também apaixonada e que eu preciso de você.

Ele parecia emocionado demais para dizer qualquer coisa, mas sua expressão de extrema felicidade era o suficiente para saber que ele estava mais feliz do que ele jamais estivera na vida.

- Eu… achei que nunca fosse ouvir você dizer isso. - e a beijou.

Os lábios trêmulos o receberam com entusiasmo inocente, de alguém que tinha pouca experiência, mas muito desejo. E ele a guiou pelos caminhos da paixão, abraçando-a como se quisesse fundir seus corpos, fazendo o amor fluir em volta dos dois. Talvez aquele momento fosse um sonho. Se fosse, ela não queria nunca mais acordar.

Mas quando se separaram e se olharam, ela soube que era de verdade. E agradeceu, do fundo do coração… porque ela não merecia. A vida lhe dera um enorme presente, um amor que seria seu… verdadeiro.

- Eu… não mereço você, mas… obrigada… por me amar.

- Nunca mais diga isso, meu amor. - ele falou, beijando-a de novo até ambos ficarem sem fôlego. Depois de respirar fundo ele completou - Isso quer dizer que você vai voltar comigo e vai ficar ao meu lado, não é? Aliás, eu nem deveria perguntar! Eu nunca mais quero ouvir você dizer não pra mim então…

Ele pegou seu anel de sinete e colocou no dedo anelar esquerdo da moça, que sorria e chorava ao mesmo tempo.

– ... eu estou intimando a senhora a voltar comigo. O nosso casamento não foi muito… ortodoxo, então proponho que nos casemos numa igreja a caminho de casa… da NOSSA casa.

Ela sorriu, mas as lágrimas continuavam a rolar pelo seu rosto.

- Eu não deveria estar chorando… estou feliz… VERDADEIRAMENTE feliz… pela primeira vez em 500 anos!

- Você está chorando de alegria… e eu prometo que você nunca mais chorar de tristeza. Eu vou te fazer feliz.

- Você me faz feliz.

Não havia nada mais a se dizer. Todas as palavras do mundo não conseguiam traduzir o que os olhares que eles trocavam expressavam. E não precisava. Eles sabiam. E quando ele a beijou outra vez, ela sentiu que, embora não tivesse mais seu coração, porque ele pertencia ao rapaz que ela amava, ele estava seguro e nunca mais ele seria machucado.


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Comentários e agradecimentos no final do Epílogo ;)