CAPÍTULO 21

Sawyer já estava pronto para sair quando escutou, vindo do aparelho de tv da sala, um som abafado, como uma mini-explosão, PUFF!, seguido por um resmungo coletivo "AAAHHHH!".

Soltando o ar com força, ele ainda deu uma ajeitada no casaco de couro, elegante e meio gasto, que combinava rusticamente com os jeans e as botas. Pensava com má vontade em como sua casa estava, cada vez mais, parecendo um clube de recreação para os vizinhos.

Quando não virava um salão de jogos – pôquer, tabuleiro, até dominó já tinha tido campeonato! – seu living se transformava em um autêntico cineclube, como agora, com a vizinhança inteira lá enfiada para assistir filme, com direito até a pipoca de microondas!
Culpa de Hurley, claro, e sua eterna mania de confraternizar: primeiro trouxera o encostado do Charlie, que por sua vez, rebocava a barrigudinha aonde quer que fosse. Depois vieram Sun e Jin, este com o agravante de viver atrás dele para melhorar seu inglês.

Por sorte, Desmond e Penny eram mais reservados, porém mandaram seus dignos representantes e sucessores. Um casal de meia-idade que moravam na mesma rua, num prédio mais adiante e estavam na fila para ficar com o apartamento do casal Hume assim que estes partissem na viagem de barco pelo Pacífico. Bernard, dentista quase aposentado, e Rose, dona-de-casa meio mandona, já ensaiavam considerar o condomínio como sendo território deles e pareciam querer começar a freqüentar o Hurley Country Clube.

Sawyer balançou a cabeça em desagrado, enquanto enfiava a carteira no bolso e pegava as chaves do carro. Ah, sim, ainda tinha Locke, adorador de gamão e aulas de filosofia, que quando menos se esperava, escolhia a casa dele como sala de aula!
Era o fim da picada! O que estava acontecendo com a vida dele, afinal?
Sawyer estava inquieto e insatisfeito. E apesar de sua decisão, horas antes, de se divertir com a palestra e aproveitar bastante a noite, o mal-humor e um ruído interno o envolvia.
Até que os vizinhos não iam lá tantas vezes assim, e não é como se ele não gostasse disso. Esse era o problema, ele estava gostando.
Eram serões calmos, que o relaxavam. No fundo sabia que se não fosse a palestra, ia se sentar no sofá, junto com todo mundo, ver o filme idiota que eles escolhessem ou jogaria gamão com Locke.

E era exatamente esse apaziguamento que lhe dava a sensação agonizante de estar sendo domado por aquela vida amena e por aquelas pessoas que ele já começava a contar como seus amigos. Gostar deles e se sentir gostado por eles o deixava se sentindo exposto e vulnerável, como na vez que Kate entrara em seu quarto, para descobrir seus segredos. E se aquela gente descobrisse seus pontos fracos, e se Kate localizasse suas fraquezas? O que seria dele?

Se pelo menos as coisas tivessem continuado como antes, quando ele ainda tinha controle sobre a situação, antes dela aparecer. Mas a chegada da garota sardenta modificara tudo e só servira para acentuar seus fantasmas e temores mais íntimos. Como ela mudara tanto, tantas coisas, em tão pouco tempo, lhe escapava, mas era a realidade.
Olhando-se seriamente no espelho, se perguntou, pela enésima vez, se saberia o momento certo de acabar com aquela brincadeira e voltar a ser quem era na realidade e que nada tinha a ver com aquela imagem de vizinho bonachão que estavam tendo dele.

Seria uma boa lição para toda aquela gente – Sawyer calculou ruinosamente, em especial para a Sardenta, se mostrasse sua verdadeira face, fazendo o que sabia fazer de melhor: mentir, passar a perna em todos eles, depenando-os e deixando-os com cara de idiotas!
Ele sorriu desdenhoso e malvado.

Não seria pela grana, óbvio! Eram um bando de manés, sem um tostão no bolso. Seria só para mostrar quem ele era!
Estava perdendo seu tempo ali, apenas vivendo e ... sendo feliz!
Por isso suas ações nessa noite eram tão importantes para ele, marcavam o início de seu desapego, o momento de começar afrouxar os laços e se preparar para voltar à sua vida real.

Suspirou, cansado.

De repente, cortando a linha de seu pensamento, um novo PUFF! alto e inconfundível veio da TV, seguido de uma nova onda de "AHHHHH!" o fez correr, curioso, até a sala.

De fato, a sala/clube abrigava todas as pessoas que Sawyer imaginara: Charlie, Claire, os Kwon, Locke e os novos sócios, Bernard e Rose. Todos aglomerados em frente a TV de 32 polegadas de segunda mão e péssima qualidade que Hurley, orgulhosamente, comprara em uma loja de penhores, e que no momento estava apagada e soltando cheiro de fio queimado.
A turma falava alto, dava palpites, reclamava e se queixava ao mesmo tempo.
- Que é que houve? – perguntou Sawyer chegando na sala.

- Dude! A TV deu um estouro e apagou! Logo agora que vai começar a maratona De Volta Para o Futuro, os três filmes em sequência! É muito azar... Jin tá tentando consertar a tempo, você sabe, os orientais tem muito jeito com coisas eletrônicas! – Acrescentou, enquanto observava Jin e Bernard se espremendo atrás da TV para mexer nos fios.
Franzindo a testa, Sawyer respondeu:
- Pois a única coisa que ele tá fazendo é dar uns tapas na lateral do aparelho e isso até a Olivia Newton-John ali faria, se ela coubesse, Cérebro. Isso que dá comprar essa coisa toda cacarecada!

Fazendo beicinho, Hurley replicou:
- Tvs de 32 polegadas são caras e essa tava num preço super legal...
- Claro que estava, porque ela não funciona... – repontou Sawyer com falsa tolerância.
Charlie interferiu:
- Hummm, parece que somos muito exigentes por aqui, né? Especialmente quando não compramos nada pra casa.
Sawyer olhou de esguelha e não disse nada.
- Olha, - continuou Charlie, atormentador – parece que ficamos sem ter o que dizer...
Se virando para Charlie, Sawyer falou em tom baixo e ameaçador:
- Cara, se você falar na terceira pessoa do plural de novo, se referindo a mim, vou te enfiar na máquina de lavar, com as calcinhas de Claire e tudo, lá dentro!
Raciocinando rápido, Charlie deu o troco:
- Promete?
Vencido pelo cinismo de Charlie, Sawyer deu um riso engasgado:
- Você é muito tarado, Oliver Twist.

PUFFF!
AHHHHH!

Sawyer virou os olhos em desesperada impaciência.
Locke comentou, achando graça:
- Você podia ter comprado uma nova, Hugo.
Estranhando a declaração e ignorando o olhar de pânico no rosto de Hurley, Charlie respondeu:
- Não sei como, com a miséria que pagam no Frango Frito... só se Hurley ganhasse na loteria! – e deu uma risada da própria tirada.

Locke, com os olhos brilhando de ironia, encarou Hurley, que se encolheu de nervoso. Ele olhou os amigos, que simplesmente não haviam escutado a conversa, entretidos com Jin e Bernard tentando consertar a televisão ou não tinham entendido qualquer significado oculto nas palavras de Locke. Ainda intimidado, Hurley buscou apoio em Sawyer, que também não parecia ter notado nada demais.
Um pouco mais aliviado, Hurley enfiou umas pipocas na boca.

Sun estava dando algum tipo de instrução em coreano para Jin, provavelmente alguma coisa bem óbvia como "Cuidado, homem, não vai levar um choque!", a julgar pela reação típicamente masculina que recebeu de Jin, alguma coisa como "Eu sei, não me atrapalha,mulher!"

Menos sutil, Rose gritou:
- Bernard! Sai daí, você é um desastre com eletricidade! Você é um dentista, não um técnico de TV.
- Rose, meu amor! – ele respondeu, entre os dentes – Eu te amo, mas cala a boca!
Os dois começaram uma pequena, mas aguerrida discussão sobre as habilidades de Bernard e a falta de confiança de Rose. Sawyer olhou para o teto com uma expressão sofrida, como se estivesse sendo torturado.
Jin e Bernard continuaram mexendo nos fios até que outro PUFF! e mais cheiro de fio queimado se espalhou no ar.

Todos começaram a falar ao mesmo tempo.
Claire, mais prática ofereceu:
-Gente, vamos lá pra casa, senão perdemos o inicio do primeiro filme. Que graça tem filme sobre viagem no tempo quando se perde o início?
Sun interveio:
- Nossa TV é maior que a sua, podemos ir pra lá.
Claire e Rose estavam concordando, quando outro PUF! se fez ouvir.
- Caramba, Bruce Lee! – berrou Sawyer para se fazer ouvir – Você vai acabar tocando fogo na casa toda, tira esse fio da tomada!

Desistindo diante do tumulto, ele se encaminhou para porta antes que sua roupa ficasse com cheiro dos fios queimados.
- Hurley, vou indo, senão me atraso – e acrescentou – Espero que a casa ainda esteja aqui, quando voltar!
Todos continuaram a discutir em voz alta.

PUFFF!

Isso era demais!
- HURLEY! TIRA ESSE FIO DA TOMADA!