Naomi acompanhou Eros em sua recuperação que durou quase um mês. Um mês também Hisoka ausente, e ainda se meteu em uma empreitada a pedido de Illumi. Don havia voltado para York Shin depois da eleição para o próximo presidente da Associação dos Hunters. Para "disfarçar" qualquer suspeita de que ele estivesse envolvido no atentado contra Eros, Don tratava Naomi com mais gentileza, ainda promovendo-a como uma das escritoras profissionais do jornal onde trabalhava. Naomi ficou tão incrédula que recusou a promoção no início. Ser uma escritora remunerada e de um local específico que paga bem – como a redação de um jornal – era o sonho de muito jovem escritor ali. Mas devido ao sucesso dos livros que escreveu, principalmente o último, Naomi pode desfrutar dessa vitória.

Voltou para a casa tão feliz, quase sendo atropelada por um carro ao atravessar distraída. Chegou em casa, passando primeiramente no apartamento do primeiro andar – onde Eros já estava convalescente, porém não podia sair da cama. Naomi cuidava dele, hospedando-se temporariamente ali até ele ficar totalmente recuperado.

– Eros, tenho uma novidade para te contar!

– Fala, Naomi, o que é? – perguntou curioso.

– Fui promovida a um dos cargos mais bem pagos da empresa!

– Epa! Isso tem que ser celebrado! Ah... mas não posso beber nada... – ele comentou com um sorriso conformado.

– Água você pode. Vamos brindar com água! Onde estão os copos?

– No armário em cima da geladeira. A garrafa com água geladinha está no congelador.

– Vou pegar!

Voltando com a garrafa e os copos comuns, brindaram com água mesmo.

– Você está melhorando, Eros. Logo, poderá voltar a trabalhar.

– Ah... ando desanimado com o meu trabalho ultimamente.

– ...entendo.

– Sabe... queria um negócio mais evoluído.

– ...cansou de ser stripper?

– De ser stripper não, exatamente... mas de garoto de programa sim. Bom, de stripper também, queria algo mais produtivo, sabe?

– Gosta de escrever?

– Escrever? Como assim?

– Escrever histórias, ser um escritor. É muito bom escrever histórias e você deve ter tantas para contar... pode usá-las como base para seus contos!

O ruivo coçou a cabeça de fios avermelhados e assanhados.

– Ah, não sei se dou para isso!

– Nunca vai saber se não tentar! – ela piscou um olho para ele.

Ele sorriu, fazendo sinal com o indicador para ela se aproximar. Ela se aproximou um pouco e ele pediu para que se aproximasse mais. Ela o fez e ele deu-lhe um beijo surpresa nos lábios, pegando Naomi de surpresa. Ela não fugiu, deixando-se levar por aqueles beijos superficiais onde somente brincavam com os lábios um do outro.

– ...você é demais, sabia? – ele disse, terminando o beijo.

– ...não sei o que faço com você, Eros.

– Faça o que quiser... – disse em um tom sensualmente provocativo.

Eles começaram a rir daquilo.

– Vou deixar você descansar, sabe. Depois, eu venho com o jantar.

– Confio em você! – disse ele, piscando os olhos para ela que se retirava do quarto dele.

Naomi achava que Hisoka tinha se esquecido dela, pois não retornava a ligação. Estava tão dividida... entre manter o romance distante e até duvidoso com Hisoka e recomeçar sua vida amorosa com Eros. Mas agora, ela sabia conviver com aquelas dúvidas, antes tão perturbadoras em seu coração. Mantinha-se neutra. E qualquer coisa, ela ligava para o outro ruivo. Mas ele nunca queria decidir nada até o dia que se reencontrasse. E ela temia também irritá-lo. Sabia que ele tinha um quê de insanidade e que era poderoso, e que ele poderia até mata-la. Ela sabia também que Eros não seria tão herói dela se tivesse que confrontar com Hisoka. Ela temia mais que tudo perder Eros, até mesmo porque ele era seu maior e único amigo.

Ela estava confusa, perdida... e duplamente apaixonada.

...

Dois anos se completaram desde que tudo começou.

Naomi já estava em sua casa, em sua cama, pensando no Hisoka – até com mais frequência que Eros. E ele já estava recuperado, mais forte e decidido a aprender a lutar. Ele nunca foi interessado em lutas, mas vivendo naquela cidade violenta, precisava aprender. Ele pensava assim. Também tinha voltado a trabalhar na boate novamente, mas estava evitando programas. Reconhecia que, no fundo, queria impressionar Naomi evitando a prostituição. Em tempos onde não conhecia amores, curtia tudo isso. Sexo era seu hobby predileto e libertino.

Depois de uma missão que cumpriu após a eleição do novo presidente da Academia Hunter, Hisoka tinha retornado a York Shin, e a primeira coisa foi ficar sentado em um galho grosso de uma árvore, distante do centro da cidade. Estava com as mãos sujas de sangue. Ficava admirando o sangue do Hunter que estava perseguindo e que agora estava morto, graças ao Hisoka. Terradein havia contratado caçadores profissionais para eliminar ele e um "amigo" o qual esteve envolvido nessa missão, Illumi. Olhou de novo para a mão ensanguentada. Lembrou-se do sangue dela. Do mesmo sangue da pureza que havia rompido prazerosamente. Seu corpo, seu cheiro… sua luxúria crescia bastante naquela noite fria. Era hora do reencontro. Já havia passado tempo demais e seria naquela semana mesmo. De repente, enquanto estava pensativo, o seu smartphone tocou. Era Don quem o ligava.

– Onde estava, Hisoka? Estou precisando ter contato novamente com você! Ainda vou precisa-lo para concluir a parte final do plano.

– Ah, sim? Perdão... tive outras tarefas para resolver, que havia me esquecido... – disse ele, com um sorriso maroto nos lábios.

– Bom, vou precisar que capture a Naomi para mim.

Os olhos de Hisoka se estreitaram ao ouvir aquilo. Ele ainda insistia nela... e de uma forma perigosa.

– Mas claro – disse ele cinicamente.

– Vou te mostrar onde é essa casa dela onde morava com os pais dela.

Don enviou a foto momentaneamente para Hisoka ver. Uma casa formidavelmente bela. Naomi era rica. O ruivo ficou surpreso, pois ao julgar pelo tipo dela, pelo comportamento simples dela, não achava que ela fosse rica.

– Quero que a leve para lá nesse dia...

O loiro acertou todos os detalhes com o ruivo.

Enquanto isso, Naomi suspirava se lembrando dos momentos que teve com Hisoka.

– Ah, bruxo do amor… você ainda existe? – Naomi perguntou para aquela Lua, como se ela pudesse dar a resposta.

O bruxo do amor... era como Naomi chamava Hisoka secretamente. Adormeceu pensando nele, como sempre fez nesses dois anos. Mesmo atraída por Eros. Ela ainda amava Hisoka. Incrível como ele tinha esse poder mesmo estando tão longe, de mantê-la presa para si. Era o bruxo do amor, mesmo.

...

Em mais um dia ensolarado e energético, Naomi acordou animada, arrumando-se para o trabalho quase cantarolando. Uma estranha alegria que nem ela entendia o porquê dela. Ao terminar de se arrumar, deixou comida para Kuro e saiu. Eros já esperava na porta do apartamento, na moto. Depois de recuperado, parecia mais robusto, mais poderoso visualmente. Sempre com aquele capuz, que variava de cores – porém a maioria das vezes usava a de cor preta.

– Anda, Naomi! Atrasando ultimamente?

– Fui ver como estava meu gatinho. Sabe que não saio de casa tranquila sem deixar água e ração para ele. – dava a desculpa enquanto montava na moto, atrás dele – Falando nisso, a ração do Kuro está acabando.

– Depois a gente vai ao mercado e compra tudo que nós dois estamos precisando em nossas casas. – ele ligava a motocicleta, pronto para partir. Mas antes olhou para Naomi, para verificar algo – já pôs o capacete?

– Vou colocar.

Após Naomi "obedecer" Eros, ambos partiram para o trabalho dela, onde ele a deixou.

– E aí, Eros... pensou na minha proposta?

– De trabalhar aqui como escritor? Ah... vou ver. Estou de olho em outros empregos... acho esse muito ...intelectual para mim.

– Mas você não é estúpido! E aqui, eu posso te promover, hein?!

– Humm... o bom desse emprego só seria ter uma chefinha assim, gostosa e me assediando e me promovendo... aí, sim! – Eros mandou essa indireta cantada, mas não imaginava que Naomi passou por isso com seu chefe Don. Ela apenas riu sem jeito, não pela piada... mas pelas certas lembranças ruins. – olha, eu só estou brincando, viu?! – disse ele, vendo que ela fez uma cara indecifrável, sem saber se ela gostou ou não.

Naomi riu, dando um beijo no capacete dele, em direção ao rosto.

– Está tudo bem, seu bobo!

Ele tirou o capacete e ofereceu a bochecha para ele dar o beijo ali.

– Não deu para receber o beijinho. Dá de novo!

Ela deu, rindo. Como era gostoso beijar aquela pele tão sedosa, aquela bochecha tão macia, sem indícios da barba que ele sempre fazia com frequência quando começava a crescer. E eros apreciou o toque de lábios levemente molhados de gloss.

– Você é perigoso, Eros! Bom vou indo. Dezenove horas você passa aqui?

– Passo, sim! Até lá, então!

Naomi tirou e capacete e deu para ele, que só partiu ao vê-la entrar no edifício. E lá de cima da janela do escritório de Don, alguém observava seriamente a cena lá embaixo. Após o ruivo de capuz partir, o loiro foi rapidamente ao toalete do escritório fazer uma bochecha e lavar o rosto, ajeitando-se para receber sua secretária e subchefe do seu setor.

– Ei, Naomi! Como está?

– Estou ótima, Don! Já estou pronta para trabalhar.

– Ótimo. Ah, e o próximo livro... você já está elaborando os capítulos?

– Estou sim. Quando terminar eu passo para você revisar.

– Certo. – ele foi sentar em seu gabinete.

– Don...

– O que foi?

– Você acha que eu devo escrever algo menos picante? Sabe... agora não sou mais uma escritora iniciante. Talvez eu escrevesse coisas mais maduras.

– Mas seus livros já são assim, minha querida... e mais, não mude seu estilo. Foi isso que te empurrou para o sucesso. O último livro que escreveu foi uma alavanca!

– Verdade...

– Lembra-se daquelas feministas loucas que fizeram aquele protesto aqui em frente? – comentou rindo.

– Lembro... na verdade, lembro sempre que entro nesse prédio. Você me ajudou a dispersar aquelas mulheres...

– O que não faço pela minha funcionária predileta? – ele desceu os óculos, revelando olhos azuis tão sensuais e perigosos. Antes "daquela" noite acontecer, ela até admirava aqueles olhos. No momento atual, ela sente um calafrio interno. Naomi só não amaldiçoava totalmente aquela noite porque foi nela em que conheceu Eros, que a salvou.

Ela resolveu calar e voltar a mexer nas teclas do computador. Don também não estendeu conversa. Deixava-a livre e confortável o possível diante dele. Deixava aproveitar até que chegasse a hora em que ela teria que aceita-lo como o seu homem. E se aquele cara da moto a seguisse, imediatamente mataria. Estava tudo acertado. Tinha como aliado um dos Hunters mais perigosos.

No final do expediente, Naomi despediu-se de Don normalmente e foi esperar Eros na esquina. O local estava meio vazio, diferente do que costumava ser. Ela sentiu de repente um arrepio na espinha. Don ligou para Hisoka.

– É agora. Antes que venha aquele babaca busca-la.

– Deixa comigo.

Hisoka controlava a ansiedade. Precisava focar em seu trabalho até que precisasse acabar com isso, antes que Don fizesse algo de mal com ela. Seria uma aventura mais louca e perigosa que a mais recente que teve.

Naomi pegou em seu celular para ligar para Eros, avisando que tinha saído. No momento em que desligou o aparelho, ela sentiu uma leve pontada na nuca, o que a fez perder a visão repentinamente. Tentou abrir os olhos, mas não conseguiu mantê-los abertos. Tinha perdido a consciência. Os saltos de cor roxo escuro se aproximaram em um barulho discreto. Foi a única coisa que Naomi ouviu antes de perder totalmente a consciência.

– Perdão mas isso será rápido, prometo. – disse Hisoka, pegando Naomi nos braços e saindo rapidamente dali. Sorria, podendo tocá-la novamente. Ainda tinha o mesmo peso leve. Frágil, pequena, adorável. Como queria leva-la para si, mas aquela ainda não era a hora. Mas tendo-a em mãos, sentia-se seguro em relação a ela. Definitivamente, Don não faria nada de mal a ela com ele ali.

Era o começo de uma nova aventura entre os dois, depois de dois longos anos...

(agora a história seguirá no seu tempo atual. Se relerem o primeiro capítulo, vão reconhecer o tempo atual em que a autora parou antes de começar o flashback desse tempo em que ela esperou por Hisoka. Mais novas loucuras virão por aí!)