Capítulo XXI
- Fique perto de mim – Elizabeth ordenou a William. – Você sabe o quanto esses lugares são horrorosos – completou, empurrando a porta encardida a sua frente, onde um tabuleta de madeira, pendurada por grossas correntes, indicava em letras mal feitas: Noiva Fiel.
- Vocês marcaram de se encontrar aqui? - ele perguntou, fitando o lugar a sua volta com um olhar de preocupação. – É uma das piores tavernas que já entramos.
- É um lugar seguro – disse Gibbs. – A proprietária é uma velha amiga de Jack.
- Amiga? - inquiriu William, com um sorriso malicioso.
- Não interprete as palavras erradamente, Wiiliam – ponderou Elizabeth. – Leve ao pé da letra. A única paixão do seu tio Jack sempre foi o mar.
- Até ver Amira com vinte e um anos - murmurou Gibbs, seguindo os dois até o balcão.
Elizabeth interrompeu seus passos e, virando-se, encarou o imediato, dizendo:
- Não deveria dizer isso, Sr. Gibbs – ela o alertou.
- Eu conheço o Jack, Sra. Turner – retrucou o imediato -, há bastante tempo, e sei o que digo. Ela o enfeitiçou!
- Cale-se, Sr. Gibbs! - rosnou Elizabeth. - Essa conversa não vai nos levar a lugar algum, e não temos nada com isso. – O imediato olhou-a contrafeito, mas sem se importar com isso, ela completou: - Jack sabe se cuidar, e se ele resolveu se apaixonar, tanto melhor para ele. Não será um pirata rabugento.
- Se apaixonar por uma... - ele evitou completar a frase.
Elizabeth entendeu muito bem onde ele queria chegar, e não lhe deu muita atenção, continuando seu caminho até o balcão.
– Não é um bom agouro esse tipo de envolvimento... É só pensar no que aconteceu ao Jones.
Haviam chegado ao balcão. Elizabeth lançou um olhar fulminante na direção de Gibbs, que se calou no mesmo instante. William, que vinha o lado da mãe e não prestara muita atenção na conversa dos dois, encostou-se no balcão, imitando-os, e lançou um olhar de reconhecimento a sua volta.
A mulher de cabelos castanhos desalinhados, que saíam em profusão de um coque mal preso sobre a cabeça, limpava os copos atrás do balcão encardido e não notou a presença deles. Elizabeth debruçou-se sobre o tampo manchado de madeira e a chamou:
- Arabella!
- Elizabeth! - respondeu a mulher, levantando os olhos e sorrindo. – Há quanto tempo! - Virando-se para o imediato, acrescentou: - Gibbs!
- Olá, Bella – disse o sr. Gibbs.
- Que bons ventos os trazem aqui? – perguntou, dando um olhar furtivo para a porta. – E aonde está Jack?
- Chegará em poucos dias – respondeu Elizabeth.
- Entendo – ela disse, limpando um último copo no avental encardido. – O que vão beber?
- Rum – respondeu Gibbs.
Ela assentiu, retirando-se por uma porta e voltando pouco tempo depois com uma garrafa e dois copos. Colocou-os em frente aos dois e se dirigiu a William:
- Novo grumete, Lizzie?
- Não, Bella – riu Elizabeth. Afagando os cabelos do menino, completou: - Este é o William, meu filho.
- Um belo rapaz – disse Arabela.
William desviou seu olhar para Arabella, fitando-a atentamente. Os cabelos castanhos vinham presos num coque desalinhado no topo da cabeça, os olhos traziam um brilho intenso. Na realidade, não dava para saber se ela fora bonita na juventude, mas definitivamente possuía traços suaves e um sorriso agradável. William respondeu a ela com uma leve reverência.
- Prazer, Srta. Arabella.
Ela sorriu novamente, acrescentando:
- Você me fez lembrar seu tio Jack... Sempre galanteador. – Encarou-o em castanhos intensos. – Imagino que tenha muito de seu pai, William, mas tem os olhos e o sorriso de Lizzie. A propósito, Jack já lhe contou sobre nossas aventuras?
- Aventuras? - disse William, intrigado.
- Sim – assentiu Arabella. – Eu, Jack e Fitz, um amigo aristocrata, nos aventuramos pelos mares do Caribe algumas vezes quando tínhamos um pouco mais de treze anos.
- Como conseguiram? - indagou o menino curioso, os olhos brilhando de satisfação.
- Bom, eu arrumei uma pequena embarcação para nossa empreitada – a mulher disse com gosto. A voz suave, clara e vibrante como a de William. – O Craca! E com ele fomos atrás de nossas aventuras.
- Vocês enfrentaram muitos perigos? - William quis saber.
- Já ouviu falar da Espada de Cortês? - Bella perguntou.
- As aventuras de Jack Sparrow – murmurou Elizabeth. Com um olhar curioso, perguntou a Arabella quase num sussurro: - Esse Fitz é o corsário conhecido por Long Silver?
- Sim – ela respondeu, um pouco consternada, e completou apressadamente: -, mas naquela época ele era nosso amigo. - Os olhos dela brilharam cheios de vida, como se as cenas que lhe vinham à cabeça ganhassem vida novamente. – Ele é uma boa pessoa... para quem o conhece bem – concluiu, quase num murmúrio.
- Diga mais, Arabella, eu conheço a lenda que cerca a espada – incentivou William. – Vocês a acharam?
- Sim – ela disse, voltando a sua alegria habitual –, nós a achamos. Mas aprenda uma coisa, meu lindo menino, não se deve menosprezar poderes mágicos e lendas. Todos são verdadeiros – acrescentou. – Eu os vi com meus olhos e os senti na pele: sereias, fantasmas e feitiços.
- Não assuste o menino, Bella - retrucou Gibbs.
- Você sabe que cada letra e vírgula é verdade, meu caro – rebateu Arabella. – Acho que se mentisse, eu o assustaria mais.
- Você não me assusta - disse William, fitando a mãe, que lhe deu um olhar carinhoso. – Eu entendo muito bem de lendas e feitiços.
Nesse momento, uma menina que não devia ter mais de treze anos surgiu atrás de Arabella com seus cachos loiros e os olhos de um azul intenso. Elizabeth estreitou seu olhar sobre a pequena figura; havia traços de Bella em seu rosto, mas todo o resto a fazia lembrar de alguém que ela só vira uma vez, e a distância. O sobressalto de Arabella a fez desviar o olhar para William e sorrir.
- Oh, querida – disse Bella –, você está aí.
A menina limitou-se a sorrir sem jeito, enquanto Bella se virava para William e dizia:
- Essa, William, é minha filha, Inês.
William fez uma leve mesura com a cabeça em direção à menina, que o olhava ruborizada. Ele a ouviu dizer baixo:
- Olá, William.
- Não querem ir brincar lá dentro? - perguntou Elizabeth.
- Você quer? - perguntou Inês.
- Claro – respondeu William, indo rapidamente na direção dela.
Arabella levantou a parte do balcão que servia de passagem e o deixou passar. Com um leve sorriso nos lábios, viu-os sumir na penumbra da porta.
- Não sabia que tinha uma filha, Bella – observou Gibbs.
- Eu não gosto que ela fique por aqui – ela disse rapidamente, limpando o balcão com a ponta do avental. – Ela é muito nova para ficar no meio desses bêbados.
- Você está certa – concordou Elizabeth, vendo a expressão de assombro passar pelo rosto de Arabella. E querendo extrair um pouco mais daquela história, comentou: - Eu pensava que Long Silver estava morto...
Ela viu a mulher a sua frente perder a cor e interromper a respiração, e em frações de segundos se controlar, comentando displicentemente:
- Eu também – anuiu, desviando o olhar para um ponto distante, como se contemplasse o lugar ao seu redor. E numa falsa indiferença, continuou: - E não está?
- Não – respondeu Gibbs prontamente. – Ele nos atacou há cerca de um mês nas costas de Madagascar.
- Atacou? – ela perguntou, intrigada.
- Sim – interveio Elizabeth. – Uma pilhagem, creio eu. Coisas das Índias Orientais. Mas Jack foi muito astuto!
- Jack estava com vocês? - Arabella estava com o semblante contraído ao dizer as palavras, e os dedos amassavam a ponta do avental que estava entre eles.
- Ele foi atrás de Silver para salvar a irmã - completou Gibbs, levando um leve pisão de Elizabeth nos pés, que lhe arrancou um sonoro grunhido.
- A irmã de Jack? - murmurou Bella, procurando algo em suas mãos. – Ela também estava lá?
- Você conhece Amira? - indagou Elizabeth.
- Só de nome – disse a mulher, com a voz baixa. – Eu nunca soube que Jack tinha uma irmã até vê-lo comentar com Fitz sobre isso. – Ela parecia aturdida com suas lembranças, mas prosseguiu firme: - Eles se encontraram aqui uns treze anos atrás. Acho que foi a última vez que se viram.
- Eu me lembro - concordou Gibbs. – Uma conversa calorosa, aquela! Silver já estava com a carta de corso, e Jack o acusou de traidor. – Gibbs deu um grande gole na garrafa e continuou, para desespero de Arabella, que agora procurava algo no chão pára ocultar sua face de Elizabeth. - Então, o maldito do Silver disse algo a respeito de poder fazer o que lhe desse na telha sem sofrer punições. Jack troçou dele, dizendo que esse tipo de vida não lhe atrairia nunca, e Silver respondeu que a única coisa que o demoveria de seu intuito seria Amira.
A cor havia definitivamente deixado os lábios de Arabella, e Elizabeth pensou que a mulher fosse desmaiar, mas a viu se controlar pela segunda vez, e disse consigo mesma: Que força de vontade!
- Você imagina como Jack ficou, não é? - disse Gibbs para Elizabeth, que fingiu não entender e deu-lhe outro pisão. Meio sem graça, ele ainda completou: - Eu nunca o vi de tão mau humor.
- Eu também não – confirmou Arabella. – Eles se levantaram e apontaram as pistolas um para o outro. Achei que teria meu bar estilhaçado, mas Gibbs afastou Jack que já estava bêbado, e eu levei Fitz para dentro – encabulada, ela desviou seu olhar de Elizabeth.
- Bom, agora eu sei de onde vem a rixa entre eles. – Elizabeth sorriu, tentando demonstrar que não percebera o desconforto de Arabella em tocar naquele assunto.
- Eles sempre tiveram suas diferenças, Lizzie – explicou Arabella -, mesmo jovens, mas nunca os vi ameaçar um ao outro daquela maneira.
- Nada que uma boa noite nos braços de mulheres carinhosas não curasse – disse Gibbs, piscando o olho para Bella.
- Você pode chamar o William, Bella? – Elizabeth interferiu. – Já estamos de saída.
- Claro, Lizzie. – Arabella sorriu de volta, feliz por se ver livre daquela situação.
Assim que viu a mulher sumir pela porta a sua frente, Elizabeth encarou Gibbs com um olhar fuzilante.
- O que foi? - indagou Gibbs, grogue.
- Sr. Gibbs, o senhor merece uma lição por sua impertinência – Elizabeth o repreendeu.
- Eu só disse a verdade – retrucou o homem.
- A verdade que devia ter sido esquecida em algum lugar nessa sua mente – ela ponderou. – Não notou como Arabella ficou?
- Ela ainda é apaixonada por Silver, não é? – Ele sorriu debilmente.
- Vocês homens! – murmurou. Dizendo mais para si mesma que para Gibbs, completou: – Então Jack sabia que Fitz estava interessado em Amira antes mesmo do capitão Teague chamá-lo?
- Sim – confirmou o imediato -, mas ele não quis voltar. Quis se afastar completamente daquela maldição! - Bebeu o último gole da garrafa antes de concluir: - Principalmente depois que visitamos Tia Dalma, e ela o lembrou de que seu débito com Jones havia de ser requisitado em pouco tempo.
- Isso explica muita coisa...
Elizabeth via seus pensamentos flutuarem até o dia em que seu casamento foi interrompido por Lorde Becker, e ela se viu presa a uma aventura atrás do baú de Davy Jones.
– Então, Tia Dalma sempre jogou com todos desde o princípio?
- Exatamente – murmurou Gibbs. – Jack sabia, mas se deixou levar. Preferiu isso a ter que enfrentar os doces olhos da irmã. Ele nunca quis saber de uma mulher de fato, preenchendo seus dias, ou qualquer coisa assim. Acho que o simples fato dessa possibilidade se tornar verdadeira, e da pior forma possível, o deixou mais louco do que já é normalmente.
- E não adiantou muito, não é? - sorriu Elizabeth.
Gibbs devolveu o sorriso e balançou os ombros levemente em assentimento. William entrou na taverna acompanhado de Arabella e Inês e, com um aceno de cabeça, despediu-se das duas. Elizabeth e Gibbs também se despediram, negociando antes de sair uma quantidade de rum para a viagem, e voltaram para o Pérola.
Na taverna, com a pálida luz da lua entrando pela janela do seu quarto, Arabella deixou finalmente as lágrimas inundarem seu rosto. Como foi difícil ouvir as palavras de Gibbs, por mais verdadeiras que elas fossem. Sempre amara Fitz, e a melhor lembrança que tinha dele estava deitada no quarto ao lado e ia fazer treze anos. Seu coração se comprimiu no peito, aquele nome atormentara sua mente por anos, e agora Amira em pessoa estaria em Tortuga em poucos dias. O que faria?, pensava arduamente, enquanto as lágrimas não paravam de surgir – E se Fitz também vier? Jack sabia de quem Inês era filha, sabia que Fitz fora avisado do acontecido, mas sabia também que ele não respondera a nenhuma carta de Arabella. Amira, Jack, Silver... todos aqueles nomes giraram em sua mente, e ela adormeceu cansada de chorar.
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N/A: Oi, flores! Estou muito feliz com as reviews que tenho recebido! Obrigada!
Beijos no coração da Aline, Taty, Ieda, Carlinha, Bia, Dora, Dorinha e Cap"Lara. Amo vcs demais!!!!
Aí estão a Arabella e a Inês, e todo mundo achando que era o Gibbs o pai! Hahahaha, nada disso! Quem diria, Fitz é papis, e isso ainda vai dar muita dor de cabeça.
Eu espero que vcs tenham gostado do aparecimento dessas personagens, a trama vai ficar ainda melhor.
Próximo caps:
- E que problema seria tão importante para Jack quanto a eternidade, sra. Turner? - Barbossa mordeu mais um pedaço de maçã e azuis luziram em direção a Elizabeth.
- Familiares, eu diria - Ela sorriu.
- Sei... - Ele devolveu-lhe o sorriso - Quer me convencer que Jack se importa com a família?
- Eu diria que muito - Elizabeth sustentou o sorriso.
Beijos com gosto de rum e até terça! Bom Findis!
