Os dias que se seguiram a conversa de Thórin e Soi foram, aos poucos, sendo preenchidos pelo espírito de inquietação que insistia em sacudir a rotina do casal. Noites mal dormidas, respostas monossilábicas da parte dele, silêncio da parte dela e aquela maldita sensação de incompletude que teimava em atormentá-lo a despeito das alegrias da vida em família.
Sentados no banco do jardim, enquanto viam Breno brincar na grama, o casal permanecia em silêncio. Soi apoiava a cabeça no ombro de Thórin sem saber como encontrar uma saída para aquela situação impossível. Seu marido estava cada vez mais distante. Cada vez mais infeliz.
Thórin por sua vez, se culpava por não parar de pensar em Erebor, mesmo que tantos tesouros tenham sido depositados em suas mãos naquele mundo. Se ele pudesse escolher, esqueceria de onde viera a fim de que sua família não fosse mais punida pela teimosia de seu espírito.
Soi ergueu a cabeça do ombro do esposo ao perceber que alguém se aproximava. Thórin aguçou a vista.
- Aquele é Gerald? – ele indagou.
- Sim, é ele mesmo, mas... não está sozinho.
O casal se levantou a fim de receber seus visitantes. A mulher que acompanhava o empresário permaneceu a uma certa distância, enquanto ele se aproximava com a mão estendida a fim de cumprimentar os velhos amigos.
- Como tem passado? – perguntou jovialmente.
- Você sabe – Thórin respondeu, apertando a mão do mago – , Gandalf.
- Sim eu sei – ele retorquiu, sério. – Por isso estou aqui – disse mirando aquela que havia vindo com ele – e trouxe uma amiga.
- De quem se trata? – Thórin indagou.
Gandalf fez sinal para que ela se aproximasse e o coração de Soi disparou ao reconhecer a amiga.
- Sasasadie...?
- Isso mesmo, meus temerários amigos – Gandaf confirmou.- 'Sadie', que sabemos ser uma escritora ímpar em seu mundo e usa as palavras para encantar magicamente seus leitores, está aqui também como... bom... vocês sabem quem...
Thórin piscou.
- Galadriel?
- Salve Thórin, Escudo de Carvalho. Vejo que passou por muita coisa desde nosso último encontro, quando você se propôs a pagar qualquer preço para – ela mirou Soi – recuperar seu amor.
Thórin leu censura por trás das palavras de Galadriel.
- E sua presença aqui significa que não consegui – ele propôs. – Significa que não estava preparado para o que me aguardava? – indagou, pousando o braço nos ombros da esposa.
Galadriel fitou-o, séria, quase solene.
- Não, Escudo de Carvalho. Eu é que não estava preparada para a rebeldia de sua raça. Porém confesso que tem sido um desafio interessante costurar os buracos que você insiste em abrir na teia da minha trama. E é justamente para propor mais um remendo que eu estou aqui.
- Que enigma é esse, elfa?
- Bem. Como Gandalf citou, neste mundo sou uma escritora e teço minhas teias moldando o destino dos personagens que amo. E agora vocês estão em um impasse. Thomas é feliz com Soi neste mundo, porém Thórin deseja voltar a Erebor e não tem paciência de esperar o devido tempo para que isso ocorra.
Thórin baixou os olhos. Galadriel percebeu.
- Todavia sei que não é sua culpa. Thomas e Thórin são a mesma pessoa. Não há como separá-los.
- E não há como uni-los – ele completou.
Galadriel sorriu.
- Isso depende...
- Depende de quê, elfa? Eu não posso viver duas vidas ao mesmo tempo!
- Por que não? - ela indagou.
- Não seja cruel, minha cara Sadie – Gandalf se interpôs –, seu hábito de fazer mistério com tudo está apenas fazendo-os ficarem ainda mais ansiosos.
- Está bem, Gandalf. Você conta ou eu conto?
Thórin e Soi apertavam as mãos um do outro, enquanto o casal de seres mágicos brincava com seus corações.
- Meu caro Escudo de Carvalho - Gandalf principiou –, você é um personagem, um ser criado pelo mais habilidoso de todos os escritores, que, assim como eu e Galadriel, teve o privilégio de transcender a palavra escrita e ganhar um corpo neste mundo.
- Isso... eu ... já... sabia... – ele disse impaciente.
Gandalf sorriu. Anões não tinham muita disposição para ouvir explicações longas.
- Bom, tal fato se deu pelas habilidosas mãos de nossa escritora aqui presente. E já que o caminho de Arda para este mundo já foi percorrido, não há porque não se possa percorrê-lo na direção contrária...
Thórin e Soi franziram o cenho.
- A que Balrogs você está se referindo, mago?
Galadriel tomou a palavra.
- Eu proponho que, da mesma forma que você deixou seu mundo para viver uma aventura com Soi, ela deixe o mundo dela e viva uma aventura com você no seu mundo.
Marcela piscou.
- Mas... eu já fiz isso... foi quando tudo começou...
- Não, minha cara – gandalf esclareceu –, começou, mas não terminou. O que a senhora Galadriel propõe é que você viva uma vida ao lado de Thórin Escudo de Carvalho, no mundo dele, na história dele, que se torne um personagem, como ele.
- Mas como? O livro já está escrito. Não pode ser mudado!
- Como não pode, Soi? – Sadie levou as mãos à cintura. – E o que você acha que nós fazemos o tempo todo?
- Nós?
- Sim, cara autora de 'Outono'.
Marcela ruborizou. Já havia tanto tempo que havia deixado sua velha história para traz. Afinal, para quê continuaria se tinha Thórin em pessoa a seu lado?
- Vejo que começou a compreender... – Galadriel comentou. – Eu proponho que a história de Thórin seja reescrita com você ao lado dele.
- Você faria isso, Sadie? Quer dizer, Galadriel?
A elfa-humana sorriu.
- Embora o desafio seja tentador, não deverá ser pelas minhas mãos que Thórin retornará a Terra Média. E sim pelas suas.
Soi quedou-se com a boca entreaberta.
- Isso se ele também concordar – Sadie se dirigiu a Thomas – em deixar a vida dele em suas mãos.
Thórin cruzou os braços, os olhos brilhando em direção a esposa.
- É só me dizer quando.
- Mas, mas... – Soi gaguejava.
- Acalme-se, filha adotiva de Dúrin – Gandalf veio em socorro da moça.
- Como posso ficar calma, Gandal? É um desafio muito grande! Recontar a história? Como vou saber o que mudar e o que não mudar? Posso mudar o final? Posso...
- Fazer com que ele não morra? – Galadriel indagou, sorrindo.
Soi respondeu que sim com seu silêncio.
- E você já não o fez quando trouxe um exército de Harad para salvar a vida dele em Outono?
- Por favor, Sadie. Você não poderia fazer isso por mim? – suplicou com as mãos juntas.
- Nem em mil anos, Soi – Gandalf se interpôs. – Chega das tramas de Galadriel. Os portais dela já bagunçaram o fluxo entre os mundos de uma forma que acho que não tem mais volta. Espero que em suas mãos, pelo menos sua história consiga reencontrar o equilíbrio perdido.
- Como se você também não tivesse gostado de brincar de empresário nesse mundo, Gerald.
Gangalf ajeitou a gravata, pigarreando.
- Confesso que tudo tem um lado positivo.
- Então está decidido – a elfa-humana prosseguiu. – Você encontrará em seu quarto o instrumento adequado para iniciar sua missão.
Marcela franziu o cenho.
- Bem, creio que isso era tudo – Gandalf iniciou a despedida.
- Só mais uma coisa – Marcela solicitou . – Se vocês aparecerem na história que eu escrever, vocês... é...
- Se nós nos lembraremos deste momento? – Galadriel astuciosamente deduziu. - Não, minha criança. Estaremos todos em suas mãos. Você será a dona do portal agora.
- Que Mahal tenha piedade... – Thórin brincou, recebendo em seguida um murro carinhoso em seu ombro.
Galadriel e Gandalf riram.
- É melhor deixar que se entendam – a elfa-humana propôs.
- Concordo – respondeu o mago.
Os sábios deixaram o jardim sob olhar ansioso do casal.
No quarto...
- O que você acha? – indagou o marido.
- É bonito – respondeu a esposa.
- Tem as bordas arredondadas – Thórin tocou-o com as mãos.
- É verde – Soi levou a mão ao queixo.
- O que você esperava? Veio de uma elfa da floresta. Queria que fosse dourado?
- A echarpe era...
- Por falar nisso... por onde ela anda?
- Não faço ideia... ou melhor... – Soi pousou as mãos no teclado, sentindo a magia que emanava do portal.
- No que você está pensando? – Thórin indagou.
- Que a echarpe seria um bom começo... para a história...
Thórin compreendeu e seu coração se viu ansioso com as perspectivas que se descortinavam a sua frente. Ele pousou a mão dele sobre a dela e sussurrou em seu ouvido:
- Leve-me para casa...
Soi fechou os olhos... e quando os abriu... viu o Condado.
