At your Side

Capítulo 20

Os olhos de Lisia se abriram conforme a claridade invadia o quarto. A primeira coisa que conseguira sentir, foi pontadas no canto da cabeça lhe indicando que enfretaria um sábado completamente entregue a ressaca causada pela balada da noite anterior. Ela sentia como se seus olhos fossem duas bolas de beiseball, pesadas e sonolentas, sensíves a claridade da funesta tentativa do Sol ultrapassar as nuvens negras que indicavam mais um dia de Outono. A vontade de sair de onde estava deitada era mínima. Poderia passar o resto do dia dormindo naquela cama, abraçando o travesseiro que, definitivamente, não era o seu.

Sobressaltada, Lisia levantou-se colocando a mão na testa ao sentir sua cabeça dar mais uma fisgada. Dera uma boa olhada ao redor e percebera que aquele lugar definitivamente não era seu quarto e aquela cama - tanto quanto o travesseiro - não eram seus. O travesseiro tinha cheiro de homem barato, pensou ela, puxando-o para perto das narinas e afastando-o rapidamente sentindo uma leve náusea. E a cama, sem comentários. Nada se comparava a sua cama com colchões duplos que a faziam alcançar praticamente o telhado.

Olhando para o lado, Lisia esticara uma das mãos em direção a cabeceira e puxara um pequeno quadro que estava sobre ela. Não demorou muito a reconhecer as figuras da foto. Todos vestiam becas azuis e os sorrisos lembravam o mesmo sorriso que ela teve no rosto no dia em que se formara. Pôde reconhecer James, Lily, Sirius e Remus. Seus olhos castanho-esverdeados pousaram sobre a figura do garoto que não lembrava em nada com a do seu namorado. As feições continuavam gentis assim como a simplicidade do sorriso. Foram essas qualidades que fez Lisia se encantar de primeira, mas o restante do conteúdo não a agradava totalmente.

Fazendo uma comparação mental com seu antigo namorado, a garota acabou percebendo que Remus não lhe dava a assitência de que precisava. Parecia que Lisia só matinha o relacionamento para não se sentir sozinha na grande cidade. Suas amigas moravam em lugares distantes e, as amigas do seu primo, não pareciam muito animadas em receber sua presença. Lily era gentil com ela muitas vezes, mas Alice nunca escondeu sua repugnância. Para a melhor amiga de Lily, Lisia era mais uma menina mimada querendo chamar a atenção.

Mas desde que conhecera Remus, tudo parecia ter mudado. Ele se revezava entre ela, a faculdade e o estágio - assim como ele dizia à ela na maioria das vezes. O relacionamento foi difícil de começar, já que intervenções como as de Sirius quase a fizeram desistir para tentar um novo relacionamento. A verdade era que Lisia e Remus não viviam mais no mesmo plano. Remus tinha suas vontades com relação ao futuro enquanto ela preferia manter-se segura onde estava. Ter dinheiro nessas horas lhe dava o conforto que precisava, mas não preenchia o carinho que o rapaz lhe proporcionava.

A situaçãomudou ainda mais com o retorno de Marcela. Remus parecia afoito e tornou-se distante. Ele não pensou duas vezes em abrir uma discussão quando ela e sua melhor amiga se confrontaram naquele dia que a viram no hotel. Marcela poderia ser encantadora, mas Lisia não deixou de vê-la como uma ameaça. Só de pensar nela, relembrar a noite anterior, Lisia sentira sua cabeça laterjar mais uma vez.

Tateando em busca de sua bolsa, Lisia levantou-se com um pouco de dificuldade e logo ficou agradecida ao ver a figura do primo segurando um copo de água e o que parecia ser um comprimido, surgindo pela porta semi-aberta. Lisia olhou para baixo rapidamente para ver se estava comportada e, calmamente, deslizou as mãos pelos cabelos longos e macios dando controle a eles lhe oferecendo uma aparência melhor.

- Boa tarde!

- Hum...tarde?

- São quase uma hora.

Lisia esticou o pescoço até a cabeceira mais uma vez e vira o relógio. Realmente, ela dormira bastante não era à toa que se sentia lenta demais para o horário.

- Eu não lembro de nada. - Lisia encolhera os ombros e sentira seus ossos doerem. Parecia que tinha sido jogada da escada e pisoteada.

- Pudera! Sirius lhe trouxe quase babando de tanto álcool que você consumiu ontem. - James lhe estendera o copo com água e o comprimido. Lisia não hesitou em ingerir, já que detestava sentir qualquer tipo de dor.

- Sirius quem me trouxe? - perguntou Lisia, confusa.

- Sim, foi ele. - reafirmou James, balançando a cabeça positivamente. - Por que?

- Pensei que tivesse sido Remus. - disse Lisia um pouco decepcionada.

Parecia que suas suspeitas de que ele havia ficado com Marcela aos poucos se tornavam verdadeiras. Ela não queria pensar nisso e queria acreditar que Remus não seria capaz de fazer isso com ela.

- Remus nem chegou ainda se quer saber. Deve ter chegado, se trocado e ido trabalhar.

- Ele disse que não trabalharia hoje. - disse Lisia. Sua voz ecoou como um sopro.

James ajeitou a ponte dos óculos, sentando na cama de Sirius. Nem ele estava entendendo nada.

- Você e ele não saíram juntos?

- Tanto nós quanto Sirius e a tal Marcela. - respondeu Lisia, sentando-se ao lado dele. - Acredito que ele tenha ficado com ela.

- Com ela quem?

Lisia fuzilou o primo com o olhar.

- Marcela e Remus. Entendeu agora?

James riu.

- Marcela e Remus? - James ainda ria, deixando os nervos de Lisia aflorarem. - De onde você tirou isso?

- É muito óbvio você não acha? - perguntou Lisia. - Eles sempre foram amigos. Aposto que sempre tiveram uma quedinha um pelo outro.

- Mas ele namora você.

- Mas nada impede que ele fique com ela, apareça na minha frente e termine comigo. - Lisia fitou o copo tentando se conformar com a possível idéia, mas sua mente ainda insistia em dizer que Remus não faria isso com ela.

- Deixa de bobagens, Lisia. Remus nunca faria isso com você. - disse James apoiando uma mão no ombro da prima. Ele conhecia Remus o suficiente para saber que ele não daria um golpe baixo desse. A não ser que tivesse algum motivo. Um grande motivo.

- Eu não quero pensar sobre isso...- Lisia apoiou uma das pernas na cama, ficando totalmente de frente para James. - ... quero saber como você está. Nunca mais nos falamos. Você parece muito cansado.

Não era nem a primeira e nem a segunda pessoa a dizer isso a ele. Isso já estava se tornando uma espécie de rotina.

- Eu estou trabalhando bastante. A empresa do seu tio está uma bagunça.

- Humm... eu pensei que você não gostava de trabalhar lá.

- Nem gosto, mas alguém precisa se distrair. E tem mais: me re-matriculei na faculdade. Acho que agora ficarei ocupado integralmente e é isso o que eu realmente quero. - explicou James, calmamente.

- Você não vai pirar não!? - perguntou Lisia, sorrindo.

- Estou praticamente pirado já. - James sorrira também. Um sorriso estranho que Lisia não deixara de captar.

- E as namoradas?

- Que namoradas?

- Ah! Não me diga que James Potter não está ficando com ninguém. - Lisia estava desacreditada. Uma das coisas que adorava ouvir era seu primo falando de seus relacionamentos confusos.

- Nada! - respondeu ele, simplesmente. - Estou focado no lado profissional.

Aquele não era o James que Lisia costumava conversar. Além de cansado, ele parecia mais magro. Sua respiração era estranhamente mais pesada e os nós de seus dedos estavam realmente muito brancos. Parecia que ele não dormia e não comia a dias.

- Remus me contou da sua ida ao hospital. Soube que está com anemia.

James suspirou. Maldita seja a boca de Remus.

- Mas eu estou me cuidando.

- Não é o que parece.

- Não vamos discutir isso, tá bom? - James se alterou para espanto da prima.

- 'Tá. Como você quiser. - disse Lisia, dando de ombros.

James levantou-se um pouco inquieto. Tirou o celular do bolso e consultou o relógio. Já era tarde e ele precisava levar algumas tintas que Sirius comprara para pintar o apartamento de Emme.

- Olhe, eu vou precisar dar uma saída. Tem comida na geladeira e pizza que Sirius comprou a três dias.

Lisia revirou os olhos.

- Sirius e suas porquices.

- Somos homens. Você não esperava que fossemos na pedicure todo final de semana, né!?

- Obviamente que não. A última coisa que eu preciso agora é um primo gay.

- Que preconceito é esse? - perguntou James, rindo.

- Nenhum, mas seriam muitas emoções para um dia só.

- Certo! - James balançou a cabeça. - Estarei na casa da Emmeline caso precise de mim.

- Quem vai estar lá?

- Hum... eu, Sirius, Lene...talvez a Lily...

O ar pareceu sumir dos pulmões de James por alguns segundos. Dizer o nome de Lily era o mesmo que pedir a ele que cortasse os pulsos.

- Lily, então.

- A histérica Lily.

- Não sei, mas ainda acho que vocês ficarão juntos.

- Acho que só você pensa assim. - James lhe dera um beijo na testa. - Comporte-se.

- Pode deixar, prometo não queimar a casa.

James sorrira e passara pela porta fechando-a com cautela. Sem pressa, caminhou até a sala, pegando as chaves do carro e se entregando a brisa gélida da tarde. A única coisa que esperava era que aquele dia fosse muito melhor que o anterior.


Remus abrira os olhos ao sentir um desconforto imenso nas costas. Parecia que um dilacerador corroía toda a extensão da sua coluna, fazendo-o ficar cravado no chão sem nenhuma opção de escapatória. Além disso, sentia o frio percorrer seu corpo, como se estivesse dentro de um freezer pronto para congelamento. Quando seus olhos se acostumaram com a claridade, ele sentira a famosa dor de cabeça da ressaca invadir seu ser. Era a segunda vez em sua vida que ele exagerava na bebida, já que a primeira havia sido no baile de formatura. À partir daquele dia, havia jurado para si mesmo que jamais beberia mas, pelo visto, o desejo de esquecer os problemas foi muito mais forte do que seu auto-controle.

Calmamente, sentou-se no que ele percebera ser um colchão muito fino no piso de algum lugar que ele definitivamente não conhecia. As cortinas estavam semi-abertas e o frio parecia mais forte conforme ia erguendo seu corpo a fim de descobrir sua localização. O lugar em que estava parecia organizado demais, silencioso demais e Remus por um momento pensou que havia entrado na casa errada. Onde estaria, ele não fazia a menor idéia, mas o espaço lembrava muito a algum lugar que já passara as férias. Não exatamente igual, mas era totalmente familiar.

Um quarto de hotel.

A lembrança da noite passada fizera sua garganta secar. Por breves segundos, recusou-se a olhar para os lados já que sabia que em alguma parte Marcela estaria. Sua mente tentou repassar as cenas da noite anterior, mas lembrava-se de poucas coisas. Lembrava do momento que chegou, de Lisia indo dançar com Sirius e de Marcela tentando convencê-lo a não beber mais. Depois disso, sua mente parecia ter sido apagada restando apenas flashes dos beijos intensos que havia trocado com quem até então seria sua melhor amiga.

Deixando o receio de lado, Remus virou-se para o lado e vira Marcela dormindo solenemente, totalmente coberta deixando apenas a mostra seus cabelos negros que Remus não precisava fazer nenhum esforço para lembrar o cheiro. Nunca passou por sua mente chegar ao extremo com a garota embora sempre soubesse que era dela que ele realmente gostava. Passou seu último ano colegial imaginando como seria beijá-la, claro, mas jamais em tocá-la de outra forma ainda mais bêbado.

Sem pensar muito, ele se ergueu em direção a cama e levou uma de suas mãos até os cabelos da jovem fazendo-a mover-se lentamente. Ela poderia acordar a qualquer momento e por mais que Remus a achasse linda, o problema iria muito além do que havia acontecido. Marcela e Remus poderiam não se olhar mais na face e ele tinha namorada o que realmente bagunçava toda sua vida. Mas, de acordo com a expressão corporal de Lisia no corpo de Sirius, Remus acreditou que a noite dela não tivesse sido tão diferente da sua.

Era traição, ele sabia. Mesmo que pensasse em terminar com Lisia todas as vezes que ela o surtava, trair era uma de suas últimas opções já que sempre julgara o ato como baixo e incorreto, além de trazer grande sofrimento a pessoa que passou um tempo compartilhando sua vida ao lado de quem ela acreditou seriamente que a amava. Remus queria encontrar sua culpa, mas não conseguia. No fundo, queria lembrar de tudo mas ao mesmo tempo não queria lembrar de nada, pois seria doloroso demais.

Lentamente, sentou-se na cama ao lado de Marcela. Ficou de frente para a garota que ainda dormia, contornando sua face com as pontas dos dedos, até pressionar seus lábios contra os dela fazendo-a acordar.

- Remus?

Marcela afastou os cabelos da face. Sua voz ecoou pelo recinto completamente sonolenta.

- Estou aqui! - disse ele, lhe dando um beijo na testa.

- Eu percebi isso... - Marcela o encarou confusa. - Espera...

A realidade pousou muito mais rapidamente em Marcela do que em Remus. Ela não parou para compreender que estava deitada na cama do hotel que praticamente se tornara seu. A confusão que ele tivera por alguns minutos, logo fora desatada pelo cérebro perspicaz da garota.

- Remus... - ela sentou-se, sem fitá-lo. A realidade parecia muito mais dolorosa e seus cabelos despenteados não pareciam ser o maior dos problemas.

- Marcela, eu sei o que você está pensando. - Remus buscou seu olhar, funestamente.

- Sabe!? - perguntou ela, dando um suspiro.

- Você... se lembra de alguma coisa?

A jovem abaixou a cabeça desviando seu olhar dos olhos de Remus. Ela se lembrava de praticamente tudo, já que estava menos bêbada que ele.

- Algumas partes. - omitiu Marcela com a voz fraca. Sentiu um arrepio na espinha ao lembrar do toque de Remus e de seus lábios contra os seus. Ela estava se sentindo muito indigna naquele momento, mas não adiantava resmungar por algo que ela poderia ter impedido com um pouco mais de força de vontade. - E você?

- Algumas partes também. - respondeu ele, com firmeza. Queria abraçar Marcela naquele momento, pois ela parecia extremamente indefesa.

- Estou me sentindo um lixo sabe!? - Marcela voltou a fitá-lo conseguindo deixar transparecer toda sua chateação. - Eu estou com medo.

- Não precisa ter medo.

- Como não, Remus? Você tem uma namorada...um compromisso...e eu estou aqui no papel de oferecida, a vadia que seduz e induz namorados de outras pessoas.

- Eu não quero que se sinta mal.

- Não tem como eu me sentir pior.

Macela esticou suas mãos até seus cabelos, afastando-os de seus olhos que pareciam negros e pesados de tanta chateação que ela sentia.

- Eu não quero que se sinta desse jeito, porque a culpa não é só sua. É minha também. - Remus apontou para si mesmo, observando-a deslizar os dedos pelos cabelos.

- Qual é o seu grau de culpa, sendo que você tem namorada?

Remus encarou aqueles olhos claros sem ter o que dizer. Na realidade, ele não sentia culpa alguma. Se pudesse, ficaria com ela a partir do momento em que abrira os olhos.

- A minha culpa é tão grande quanto a sua. - mentiu Remus tentando parecer magoado. Queria que Marcela se acalmasse e nada mais convincente do que assumir tudo sozinho.

- Você vai contar a verdade para Lisia?

- Eu tenho que contar. Que tipo de namorado infiel eu seria? - Remus aproximou-se um pouco mais de Marcela, ficando receoso quando ela se afastara.

- Ela vai me odiar mais do que já odeia. - Marcela dera um longo suspiro, fazendo-a lembrar que sua cabeça doía.

- Nao se preocupe com isso agora. Não quero você sofrendo por antecedência. - Remus a observava carinhosamente e Marcela se questionou se ele ainda estava sob efeito da bebida.

- Você realmente se sente culpado, Remus? Por que... simplesmente não parece.

Remus levantou-se, dando as costas para a garota. Sentia-se nervoso agora e ansioso.

- Remus?

- Não, eu não me sinto culpado. - ele não se virou ao responder. Permaneceu parado onde estava, esperando que Marcela lhe acertasse algo nas costas.

Mas a única coisa que ela lhe dera foi o silêncio.

- Marcela?

- Você precisa ir embora.

- Hey, espera!

- Resolva primeiro a situação com a Lisia. - pediu ela, olhando-o perdida. - Depois conversamos, Remus. Simplesmente não é possível que você não sinta nenhuma culpa.

- Por que você acha que eu não sinto nenhuma culpa, hum?

- Não faço idéia.

Remus virou-se e voltou a se sentar na cama, pegando uma das mãos de Marcela e segurando com um pouco de força.

- Porque eu prefiro estar com você do que com a Lisia. Você não faz idéia do quanto me fez falta durante esses anos. Haviam momentos que eu pensava em te visitar. Eu não me sinto culpado porque mesmo bêbado eu queria algo desse tipo... por mais que não fosse agora ou desse jeito.

Marcela agora realmente estava confusa. A lembrança de Sirius lhe dizendo como Remus se sentia com relação a sua pessoa veio à tona com uma força extraordinária. Seus olhos pareciam perder o foco enquanto aceitava dentro de si o que Remus dizia. Mas era difícil. A culpa pesava demais em seus ombros.

- Vá resolver as coisas com Lisia e depois conversamos, ok? - disse Marcela, puxando sua mão de volta e se recostando no travesseiro. - Eu não quero que me procure até ter tudo resolvido. Eu não sei o que dizer, Remus, com toda sinceridade.

- Não diga nada... - Remus a encarou com pesar. Por mais que não sentisse culpa, ele não suportava ver Marcela triste. - ... tudo vai se resolver, eu prometo.

A vontade que ele tinha de beijá-la era extrema, mas ela nem lhe dera tempo de reagir. Sem dizer mais nada, Marcela levantou-se e foi em direção ao banheiro deixando Remus para trás, sentindo a culpa sufocante expremer seus pulmões.


N/A: A única coisa que posso dizer é que morri de saudades e agradeço a todas as reviews. Eu vou continuar tentando a postar essa fic e provavelmente seja mais freqüente, pois tudo parece mais fácil agora.

Beijos nas bochechas!