Regina estava sentada em seu salão oval. Com a nuca apoiada sobre a cadeira giratória, ela admirava cada detalhe, cada pequeno pedaço daquele lugar. O lugar que havia sido seu trono. O local onde criara um império poderoso, mas que ela pressentia que ia acabar. Seus olhos ficaram marejados quando ela passou os dedos sobre a sua cadeira, a cadeira da autoridade. Forrada no mais nobre tecido, desenhada artesanalmente por arquitetos. Uma herança que ela estimava com seu coração.

Mas ela sabia que tudo aquilo deixaria de ser seu. Uma breve olhada nas pesquisas e nas estatísticas bastava para lhe provar o que ela temia: Robin tinha conquistado sua cidade. Tinha conquistado seu povo. Tinha a conquistado. Se não antes, com a perda da criança. O olhar de pesar dele, a entrevista dela para a imprensa.

O gosto em seus lábios era amargo, mas ela tinha que admitir.

Ela perdera a guerra.


Flashback on

Zelena arrumava o cabelo de Marian, cuidadosamente.

"Tem certeza que quer fazer isso, Marian?"

"Sim. Precisamos achar ao menos alguma coisa boa nisso tudo. Se posso ajudar o Robin, vai ser assim."

"Está tudo bem entre vocês?"

Marian olhou em volta e a interrompeu, impedindo que ela continuasse a arrumá-la.

"Não muito. Ele está sempre distante, não presta atenção no que eu digo. Ele tem cuidado de mim com todo o carinho, mas é como se a cabeça dele não estivesse ali."

"Vocês precisam conversar."

"Não temos tempo agora. Campanha primeiro, casamento depois."


"Robin, tem um minuto?"

Zelena fechou a porta do quarto atrás de si e ficou parada olhando-o colocar a gravata. Ele a encarou em silêncio.

"Se me permite dizer, a gravata verde vai realçar melhor seus olhos e lhe dar um ar de jovialidade."

Ele olhou para o espelho e sorriu timidamente. Concordando com ela, alargou o nó e trocou as gravatas.

"Está tudo bem com ela?" Perguntou ele, quebrando o gelo.

"Ela está meio nervosa."

Robin olhou-se no espelho. Ele a viu parada atrás dele, pelo reflexo. Seus olhos verde-esmeralda brilhavam com um aspecto escuro. Cauteloso, ele se virou para ela novamente.

"Zelena, sobre aquele dia..."

"Não se sinta culpado. Foi sexo. Só isso." Ela sorriu, sem pudor algum.

"As coisas foram longe demais."

"Robin, a sua caretice me encanta. A maneira como você se locomove de 'vou comer tua boceta, vadia' para 'eu sinto ter lhe violado'. Acorda. Foi uma das melhores transas da minha vida, mas eu sei que não era eu quem você queria naquela cama."

"Não sei do que você está falando." Infelizmente, a maneira como o maxilar dele rangeu o denunciou.

"Sabe, claro que sabe. Robin, a Marian é minha amiga. Não importa se ela tiver sete filhos, se ela se vestir como uma rainha, ela comprar a melhor lingerie, ser a melhor esposa do mundo, nada disso vai fazer diferença se ela não é a mulher que você quer."

"Zelena..."

"Não precisa me contar nada, eu prefiro não saber. Mas a Marian vai acabar ligando os pontos."


"Como muitos de vocês sabiam, estávamos esperando o nosso segundo filho. Estávamos felizes, incrivelmente animados por termos um novo membro em nossa família. Mas vocês devem imaginar como essas campanhas são estressantes. Exaustivas. E talvez por isso, meu corpo não pôde lidar com tudo. E eu perdi minha criança."

Ela entrelaçou os dedos nos dedos de Robin, e os jornalistas se apertavam ainda mais contra suas câmeras.

"Sim, era um bebê com menos de 12 semanas, mas ainda assim, era um membro da nossa família. Eu chorei sua perda durante horas e horas e ainda choro. Sei que vocês tem sentido um leve endurecimento da personalidade de Robin e um ligeiro distanciamento entre nós. Robin inclusive pretendia desistir da sua candidatura para nos dar tempo, para que pudéssemos cuidar um do outro. Mas eu não pude deixar. Não pude permiti-lo abandonar este sonho porque eu acredito fielmente que ele é a melhor pessoa para esse cargo e nosso filho ou filha não desejaria ficar no caminho de algo tão grandioso."

Flashes de câmera estouraram sobre eles, e a multidão de jornalistas foi à loucura quando Marian puxou Robin contra si, num abraço caloroso e começou a chorar.

Flashback off


Ela estava em pé, ao lado da janela, quando sua equipe chegou. Eles observaram Regina de costas, o vestido tubinho vermelho, a meia calça preta e o louboutin afiado. Pronta para matar.

"Graham e Gold ficam. O resto está dispensado. Voltem na hora do almoço."

A voz reverberou como uma ordem, mas ela sequer se moveu. Continuou de costa, aguardando em silêncio o último par de pernas atravessar o saguão frontal.

"O que iremos fazer agora? Espero que tenha uma boa carta na manga porque o Robin..."

Regina deu meia volta em seus saltos, e o olhar felino em seus olhos fez com que Graham se calasse imediatamente. Ela caminhou até a mesa, mas não se sentou. Cravou as unhas em sua cadeira e o olhou nos olhos.

"Você sabe quem está passando uns dias lá em casa, Graham?"

"Eu deveria saber?"

"Ruby."

"A assistente do Robin? Não sabia que eram amigas."

"Não éramos."

Ele relaxou sobre a cadeira. Ela sorriu.

"Mas agora somos. E imagine a minha cara quando eu descobri que você coagiu a menina a seduzir o Robin simplesmente para que você pudesse lançar mais uma bola de lama moral contra ele usando o meu nome de escudo."

"Regina."

"Eu não terminei. Vou te dar doze horas, Graham. Doze horas para empacotar suas coisas, reincidir seus contratos e se mandar daqui. Sumir, desaparecer. Viajar para Las Vegas, encher os bolsos com as fichas dos cassinos e deixar o Elvis fazer seu casamento em uma tenda qualquer. Doze horas até que eu abomine ver a sua cara, me arrependa de um dia ter namorado você."

Graham gargalhou. Sua incredulidade era chocante. Ele estendeu as mãos e entrelaçou os dedos atrás da nuca.

"Você não tem esse poder, love. Você já perdeu essa eleição. Olhe para o cara" – Graham apontou para o televisor, que mostrava um dos comerciais promocionais de Robin. "A cidade toda quer colocá-lo no colo e consolá-lo."

"Graham, vou ser bem clara. Independente de eu ser prefeita ou não, a melhor coisa para você é ir embora. Se daqui doze horas você ainda estiver aqui, eu vou vigiar seus passos e grampear até os sons que você fizer sentado no vaso sanitário. Eu vou vasculhar a sua vida, o seu dinheiro, a sua família, a sua cabeça, e tudo que eu encontrar vou esmigalhar de um jeito que vai levar três gerações para ser reconstruído. Não duvide da minha capacidade. Você não vai ter um minuto de paz. Vai enlouquecer de paranoia e eu vou interná-lo no pior buraco fedorento e asqueroso que eu achar. Vai ficar com medo que eu sabote seus funcionários, vai demitir todos vez após vez, e vai ficar noites e noites com insônia profunda, temendo que no momento que fechar os olhos eu pegue você. Vá em frente. Me teste."

Ele se levantou e saiu, sem sequer olhá-la nos olhos novamente.

"Belo teatrinho." A voz de Gold atravessou sua audição. "Qual foi a ameaça que preparou contra mim? Espero que seja melhor do que a que usou com ele."

"Gold" – Sibilou ela, o sangue ardendo em suas veias. "Eu só vou lhe dizer uma coisa. Antes de machucar outra pessoa desta cidade por conta dos seus negócios ilícitos, ou que fazer o que chama de justiça com as próprias mãos, lembre-se de que eu conheço o seu ponto fraco. Lembre-se que basta uma ligação para que eu tire Neal e Belle de você."

"Você não se atreveria."

"Rosne o quanto quiser, Gold. O que eu tenho a perder afinal? Meu casamento está desmoronando e eu já perdi o meu cargo. Acredite, tenho destruição de sobra. Você também está demitido. Caia fora."


Regina bateu na porta com Roland no braço. Marian atendeu.

"Mama!" Grunhiu Roland, feliz. Ele desceu do colo de Regina, abraçando as pernas da mãe e depois correu para dentro da casa. Marian por sua vez, lembrou-se nitidamente da discussão de Robin e Regina em frente ao mercado. As mãos, o toque, a raiva. A maneira como Robin chegara em sua casa.

"Obrigada por cuidar dele."

A voz de Marian estava seca e dura, mas Regina cogitou o fato de ela estar enlutada.

"Marian, eu sinto muito pelo que aconteceu. Quando o David me contou..."

"O 'David' te contou?" – Sibilou a mulher à sua frente.

"Sim, por quê?"

"Nada. Apenas curiosidade." Marian enrolou-se mais contra o casaco que usava. "Enfim, tudo que eu não preciso agora é de pessoas com pena de mim. Principalmente, se essa pessoa for você."

E com isso, Marian fechou a porta na cara dela. Sem dizer tchau, sem dizer nada. Regina ficou ali parada por alguns segundos, pensando no que acabara de acontecer. Ela sabia. Sabia sobre eles. Aquele desgraçado devia ter contado para ela. E se ela já sabia, não ia demorar muito para toda a cidade saber.

Inclusive David.