Capítulo XXI

- Vasculhem o Castelo!- Benjamin Linus dava ordens à cavalaria inglesa como se fosse um General. Mikail Bakunin não gostava disso, mas seria paciente dessa vez porque odiava Lorde James Sawyer tanto quanto o Conde Linus, além disso, desde que a endiabrada fugira de Dark Falls, o General acreditava que ela conseguira se reintegrar ao grupo rebelde e como desconfiava de Lorde Sawyer, juntou dois mais dois. A mulher demoníaca poderia muito bem estar escondida no castelo do nobre.

Os homens de Mikail começaram a percorrer todo o castelo abrindo e fechando portas. Lady Ana-Lucia, Rose, Nikki e Sun foram acuadas na cozinha. O Capitão Shephard que estivera na biblioteca tentando se distrair, desanuviando seus pensamentos de Lady por algum tempo, notou a estranha movimentação no castelo. Voltou correndo aos aposentos de Sawyer e disse a Kate:

- Tem algo errado aqui, milady.

- O quê?- disse ela, sentando-se na cama, havia cochilado um pouco e assustou-se com a entrada repentina do Capitão.

- Há homens da guarda inglesa vasculhando o castelo, talvez estejam procurando pela senhorita. Já devíamos estar na Inglaterra onde estaríamos protegidos, mas seu cunhado me fez de prisioneiro! Se ao menos a senhorita não fosse tão teimosa...

Kate ouviu o barulho de passos pesados de botas de infantaria e lançou um olhar de pânico para Jack.

- E agora? Se me pegarem aqui não hesitarão em me atirar em Dark Falls novamente e meu cunhado será indiciado por dar abrigo à uma fugitiva! Minha irmã cairá em desgraça e o Conde Linus tentará assumir nosso Clã!- Kate falou depressa, desesperada.

- Eu vou dar um jeito.- foi tudo o que Jack disse.

- Como?

- Segure firme no meu pescoço quando eu a levantar, Lady Austen.

Ele a tirou da cama, carregando-a nos braços e a levou rapidamente até a janela.

- O que vai fazer, Capitão?- Kate indagou assustada olhando para a altura da janela.

- A senhorita vai ficar aí em cima até eu conseguir me livrar desses homens.- respondeu ele, sentando-a na janela.

Ela observou o parapeito estreito e Jack a fez olhar para ele:

- Sei que consegue, és a endiabrada!

Com esforço, ela colocou-se de pé no parapeito e evitou olhar para baixo, para que a força da gravidade não a tentasse. Escorou-se à parede e ficou quase na ponta dos pés. Jack estava aflito por deixá-la naquela situação, mas não havia saída. Os guardas do General Bakunin não poderiam encontrar Kate no castelo.

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Na cozinha do castelo, o Conde Linus empurrava Lady Ana-Lucia contra uma parede, gritando a plenos pulmões diante das outras mulheres horrorizadas.

- Onde está aquele crápula que te roubou de mim? Aquele bastardo do Sawyer?

- Eu não sei! – balbuciou Ana-Lucia.

- È claro que sabes, pois só estás protegendo teu queridinho não é, infeliz?

Ana-Lucia nada respondeu.

- Pois saibas que teus momentos de felicidade com aquele patife acabaram. Teu casamento com ele não vale, ele se apropriou de minha propriedade indevidamente e como imagino que não és pura, não preciso esperar por mais nada. Sawyer será preso, e eu assumirei o Clã.

- Nunca!- Ana-Lucia cuspiu no rosto dele.

Furioso, o Conde revidou com um tapa na face morena e delicada. Rose levou as mãos à boca, chocada.

- Deixe a senhora em paz, conde, por favor! Espere até que Lorde Sawyer volte e o senhor se entenderá com ele.

- Cale-se, criada insolente! Depois que Sawyer for preso tudo o que é daquele patife pertencerá a mim, inclusive essas ruínas que ousam chamar de castelo.

Ele saiu arrastando Ana-Lucia para as escadas. A moça se debatia e tentava arranhá-lo, mas o Conde era forte. Apertando-a com força junto de si ele ordenou aos guardas ingleses que estavam na cozinha.

- Fiquem de olho nestas camponesas!

O General Bakunin cruzou os braços sobre o peito, estava assistindo a tudo sem intervir porque seu interesse maior era encontrar a prisioneira fugitiva, os problemas pessoais do Conde Linus não lhe interessavam.

Subiu as escadas atrás do Conde pronto a inspecionar pessoalmente cada compartimento do enorme castelo, seus homens tinham retornado afirmando não terem encontrado nada. Não deu a menor atenção quando Linus se trancou na biblioteca com Ana-Lucia.

Ele a empurrou para dentro do amplo salão cheio de estantes e livros e a atirou ao chão. Ana-Lucia gemeu de dor quando caiu de qualquer jeito, suas costelas bateram com força contra o chão de pedra, mesmo assim, ela ergueu o olhar desafiante para o homem que a maltratava.

- Ès uma mulher muito estúpida. Por que aceitou fugir com esse imbecil do Sawyer? Achou que eu não fosse descobrir teu paradeiro, mulher infame! O Saawyer tem o título da nobreza, mas é um pobretão. Todo o patrimônio que era da família dele agora me pertence. Então que tal facilitar as coisas para ti mesma? Diga-me onde aquele porco está e eu prometo que não serei violento contigo, de verdade, creio que irás até gostar do que estamos prestes a fazer.

- Fica longe de mim!- avisou Ana-Lucia.

- E como pretendes fazer com que eu fique longe, querida? Certamente tua castidade já não é mais empecilho porque aquele desgraçado se apropriou da mercadoria primeiro do que eu!

Lady Ana-Lucia se levantou do chão, com esforço, se não tomasse uma atitude logo seria violentada por aquele homem, tentou apelar para o bom senso dele, se é que ele teria algum.

- Por favor, não faça nada comigo! Eu suplico Conde Linus. Eu sou uma mulher casa perante os olhos de Deus e das leis da Escócia, a essa altura posso até estar carregando um filho em meu ventre. Se não me respeita, ao menos respeite isso!

- Não dou a mínima se podes estar prenha daquele maldito! Se estiveres pior para ti, pois mandarei matar a criança assim que der à luz. Não compartilharás meu leito sendo mãe do filho de outro homem.

Ele foi se aproximando dela devagar e Ana-Lucia se encolheu até encostar-se na parede. Havia uma única vela acesa na biblioteca com o intuito de espantar insetos pestilentos. Tentou raciocinar rápido, talvez fosse sua única chance.

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Jack esperou que o General Mikail Bakunin entrasse no quarto vazio onde ele estava escondido. Tinha quase certeza que seu plano para proteger Kate daria certo, assim como o General ele também era inglês e o fato de ser médico e ter sido nomeado Capitão da infantaria pelo próprio rei Jacob, trazia-lhe muitas vantagens.

O General andou pelo quarto, examinando tudo minuciosamente, mas seus olhos se encheram de ódio quando avistou o Capitão Shephard encostado à janela.

- O que está fazendo aqui Capitão? Procurando a endiabrada para cair nas graças do rei Jacob? Pois saiba que por sua culpa, por não ter me deixado interrogá-la como se deve a bruxa fugiu e agora está usando de seus poderes para que não seja mais encontrada.

- Se a endiabrada fugiu General Bakunin foi porque tu és um incompetente e creio que o General Locke ficará muito zangado em saber a respeito das irregularidades que o senhor vem cometendo na Escócia. O povo escocês está descontente com seu comando e isso só atrai ainda mais a ira dos rebeldes.

- Capitão Shephard, vou ignorar essas palavras ofensivas sobre a forma como comando e mais uma vez indagar o que faz aqui? Diga-me, estou curioso!

- Não lhe parece óbvio, General? Estou aqui porque fui convidado por Lorde Sawyer. Sou um hóspede deste castelo.

- Pois eu não sabia que mantinha amizades com os escoceses, especialmente com um nobre falido que nenhuma importância tem para a sociedade escocesa.

- Não sei muito sobre os problemas financeiros de Lorde Sawyer, General, mas sei que ele é um dos pilares das Colinas, as pessoas o respeitam muito e se queremos manter o govern inglês forte na Escócia temos que nos unir aos líderes escoceses. Tenho certeza que o rei Jacob aprovaria o que estou fazendo.

- Certo, me convenceu.- disse o General, ironicamente.

Jack fitou o homem com firmeza e naturalidade, embora estivesse preocupadíssimo com Kate do lado de fora da janela dos aposentos de Lorde Sawyer, logo ao lado.

- Agora me diga o senhor, o que o traz ao castelo de Lorde Sawyer? Pobre ou não creio que o homem não aprovaria essa entrada repentina no castelo dele, afinal ele é um nobre.

- Estou aqui com os meus homens porque recebi uma denúncia de que Lorde Sawyer esconde uma mulher clandestina aqui.

- Pensas que é a endiabrada?- perguntou Jack, temeroso.

- Na verdade achei que se encontrasse a endiabrada escondida aqui seria meu prêmio, mas não, o Conde Benjamin Linus me procurou para denunciar que sua noiva Lady Ana-Lucia Austen foi seduzida e raptada por Lorde Sawyer na noite do casamento dele. A denúncia provou ser verdadeira porque encontrei a dama em questão lá embaixo.

O Capitão Shephard alargou os olhos. Então ele não estava ali por Lady Austen e sim pela irmã dela.

- E onde está a dama?- indagou preocupado.

- O Conde Linus a levou para uma das salas do castelo disposto a se entender com ela, não vou intervir, sabes como, em briga de marido e mulher...

- Ela não é mulher dele!- rebateu Jack.

- O Conde mostrou-me documentos de que o irmão da moça tinha consentido a mão dela em casamento, portanto, a única coisa que ainda tenho a fazer aqui é esperar que Lorde Sawyer resolva aparecer e eu possa prendê-lo por rapto e apropriação da mulher de outro homem.

Jack não podia acreditar naquilo. Não imaginava que Sawyer tivesse raptado Ana-Lucia para casar-se com ela. A dama havia mencionado outro noivo anterior à Lorde Sawyer, mas não comentara nada a respeito do fim do compromisso.

- Tenho certeza que deve ter havido um mal-entendido!- disse Jack.

- Eu não creio que...- começou a dizer o General quando ambos ouviram gritos vindos da biblioteca. Jack sabia que eram de Ana-Lucia, apressou-se para lá e o General foi em seu encalço.

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Os pés de Lady Austen tremiam a cada passo que ela dava no caminho estreito em que atravessava colada às paredes externas do castelo cobertas de hera. O Capitão havia dito que permanecesse quieta rente à janela do quarto onde estavam, e ela ficou lá algum tempo temendo escorregar à força de sua respiração.

No entanto, ouviu os gritos de sua irmã, alguma coisa estava muito errada no castelo. Caminhava como em uma corda bamba junto às paredes quando alcançou a vidraça da biblioteca, quebrou-a com o próprio punho, e sangue escorreu por seu braço. Mas Kate não se importou e adentrou a biblioteca.

O salão era grande e ela caiu atrás de uma estante. Sua irmã gritava e praguejava enquanto um homem a ameaçava.

Lady Ana-Lucia estava caída no chão, com os botões do vestido aberto revelando a renda do espartilho branco, as saias até os joelhos revelando o folho da calçola e as botas pretas com as quais ela tentava chutar Benjamin Linus.

O homem ria e a empurrava no chão sentindo prazer em vê-la amedrontada e desesperada. Tinha aberto as calças e estava preparado para rasgar as roupas debaixo de Ana-Lucia quando Kate surgiu diante deles e o atingiu em cheio no rosto com a vela que Ana-Lucia não conseguira pegar para queimá-lo.

- Kate!- ela gritou.

Benjamin ficou tão desesperado de dor que nem percebeu quem o havia atingido. Imaginou que fora Ana e gritou,:

- Vadia! Tu vais pagar!

Nesse momento, Jack e Bakunin entraram na biblioteca que era um pouco do outro quarto onde estiveram conversando. Mas os gritos de Ana-Lucia tinham sido tão altos que eles puderam escutar de lá.

- Mas o que aconteceu aqui?- indagou o General e Kate se escondeu atrás de uma estante de livros, se Bakunin a visse, certamente a reconheceria. Jack notou que ela se escondera e tratou de desviar a atenção do General.

- Como o que aconteceu? Um crime infame estava perto de acontecer aqui.- disse ele, ajudando Ana-Lucia a se levantar. Linus ainda segurava o rosto machucado, lagrimando de dor.

- Sim, um crime de assassinato.- disse o Conde. – Essa prostituta tentou me matar!

- Esse homem nojento tentou me violar, sou uma mulher casada, meu marido tem direito de matá-lo!

- Lady Sawyer tem razão, esse homem é um criminoso!

- Nenhum crime foi cometido se o Conde Linus possui direitos sobre a dama.- falou o General Bakunin.

- E quem disse que ele possui algum direito sobre a minha esposa?- a voz de trovão de Lorde Sawyer soou na biblioteca. Ele estava suado, as roupas amarrotadas, tinha quebrado a cara de meia dúzia de guardas para chegar depressa à biblioteca e encontrar Ana-Lucia.

Ao vê-lo, ela correu para os braços dele. Com ódio mortal no olhar, Lorde Sawyr tirou o casaco e cobriu o vestido rasgado da esposa.

- Que bom que chegou, Lorde Sawyer.- disse Bakunin. – Finalmente poderemos esclarecer a quem a dama pertence afinal.

- Lady Ana-Lucia Austen é minha esposa.- afirmou Sawyer. – Tenho um documento escrito pelas mãos do irmão dela provando que tinha pleno direito de casar-me com ela, e casei. O documento que este homem tem afirmando que Ana-Lucia era sua noiva foi invalidado a partir do momento em que Lorde Austen desfez o compromisso.

- Ele não tinha o direito!- bradou Linus. – Se ele fizesse isso eu poderia tomar dele todos os bens dos Austen, já que o lorde tem dívidas comigo.

- Faça isso se quiser, minha esposa e sua família não ficarão desamparadas já que no presente momento eu sou o homem mais rico das Colinas.

- O quê?- indagou o Conde, espantado.

Até Kate que ouvia tudo atrás da estante ficou muito surpresa com a revelação do cunhado.

- Sendo assim, a coisa muda de figura.- disse o General Bakunin, que adorava puxar o saco de nobres endinheirados. – Vejo que acaba de cometer um grande erro Conde Linus, tentou violar a esposa de um nobre de linhagem como Lorde Sawyer. Tem duas alternativas, ou eu o prendo agora ou Lorde Sawyer pode desafiá-lo para um duelo.

- Eu quero o duelo!- falou Sawyer, ainda abraçando Ana-Lucia, trêmula nos braços do marido.

- E eu serei o padrinho.- anunciou Jack.

Kate alargou os olhos: - Era impressão sua ou Jack tinha acabado de se oferecer para ser o padrinho de um duelo contra um inglês?

- Amanhã ao meio-dia. Escolha seu padrinho Conde Linus, Lorde Sawyer escolherá as armas.

- Quero pistola. Duelo até a morte, se misericórdia.- disse Sawyer.

Continua...