Capitulo 20 – Preço justo a pagar
Meia desorientada com o que se tinha passado nos aposentos de Jack, ela passou a mão pelos cabelos várias vezes, tentando achar um lugar aonde não o visse por um bom tempo, que não sentisse a presença dele pelo menos a uns bons metros de distância. Foi então que, em sua mente, surgiu-lhe um único sítio sossegado: os aposentos de Alessandro.
O Comodoro, que se mantinha deitado na cama de olhos fechados, assustou-se com o barulho da porta, que se abriu de rompante. Ele levantou-se num pequeno salto e, rapidamente, desembainhou a espada, pensando tratar-se de uma invasão. Perla arregalou os olhos, espantada com a situação, mas logo Alessandro guardou a espada, atrapalhado com as circunstâncias. Ele se aproximou então, ajoelhando-se aos pés dela, enquanto lhe segurava as mãos, procurando desesperadamente por perdão.
-Peço mil desculpas alteza, mas pensei que estávamos sendo invadidos e…- Ao ver o rosto da amiga, ele calou-se, fitando-a em silêncio. – O que se passa? – Continuando agarrado ás mãos dela, levantou-se.
Perla largou gentilmente as mãos de Alessandro, e caminhou até á cadeira que estava encostada á parede, onde se sentou. Deixando um olhar terno cair sobre ele, concluiu que não teria coragem de desabafar as coisas que estava sentindo em relação a Jack, além do que, isso não lhe parecia justo com o amigo. Foi então que, resolveu revelar-lhe algo que deveria ter contado quando estavam em Singapura. Perla baixou a cabeça, olhando para as suas mãos à procura das palavras certas para começar aquele discurso. Sentia sua consciência pesada, por isso respirou fundo e fitou-o novamente, vendo a expressão preocupada trespassar os olhos de Alessandro.
-Alex, é que… – Perla emudeceu, fechando repentinamente os olhos, em busca das tais palavras certas que custavam tanto a sair. – O que se passou…
-Jack fez alguma coisa que não devia? Se ele ousou tocar em você, vou-lhe mostrar que não se brinca com a dignidade de uma princesa... – Ao vê-lo exaltado, e pronto para sair do quarto, Perla levantou-se para impedi-lo de ir adiante.
-Não é nada disso. Jack… -Ela suspirou, revirando os olhos. – Ele tem se portado bem comigo. Quem não tem se portado bem com você sou eu. – Alessandro estreitou os olhos, franzindo o cenho. – Tenho lhe mentido sobre algo que você já devia saber…
-E o que é Perla? Você está me preocupando.
-Sabe a ilha em que nós vamos aportar? A Ilha Desaparecida? – Ele assentiu. – Bom, eu não te contei tudo sobre ela... – Ela fez uma pausa antes de prosseguir: - Existe uma Deusa que a protege.
-Deusa? Como assim?
-Você se lembra de quando a gente estudava a arte grega, e o nosso tutor nos mostrava um livro que tinha aqueles grandiosos quadros de Deuses Gregos? Das estatuetas e templos desenhados que estavam tão bem pintados em nossos livros…
-Por favor, pare de enrolar e vá directa ao assunto. - interrompeu-a - Qual Deusa protege essa ilha?
-Éris, a deusa do caos e da discórdia. – Alessandro ficou surpreso. – Ela foi castigada, e mandada para lá. Por isso esta chave – Ela procurou a cruz ancorada no seu pescoço, mostrando a ele, e continuou: –, vem passando de geração em geração, até chegar a mim. Silver sabia que a Ilha Desaparecida tinha uma guardiã, alguém que pudesse entrar na ilha e obter a Mão de Midas sem o maior sacrifício. O pior é essa Deusa….
-Por que me escondeu isso até agora? – intercedeu Alessandro de braços cruzados, á medida que expressava um rosto de decepção. – Porque me enganou? Eu sempre estive disposto a te ajudar. Eu arrisquei meu cargo de Comodoro para me colocar neste navio e te acompanhar onde fosse possível! – Alessandro colocou as mãos nos ombros dela pedindo sinceridade á medida que os olhos de Perla marejavam. – Eu só queria saber o porquê, Perla. – Ele concentrou seu olhar amargo nos olhos esmeraldas, vivo, dela.
-Eu tive medo! – respondeu, por fim, numa voz rouca. – Medo de que você quisesse me deixar a parte, e arranjasse uma maneira de resolver as coisas…
-Você não confiou em mim Perla. Aposto até que pediu ao capitão para me prender, só para eu não assistir as reuniões que você presenciou. – contrapôs Alessandro largando os ombros dela, meneando a cabeça.
-Por quem me toma Alex? – Ela juntou as mãos, desamparada. – Eu nunca faria isso, eu ia te contar…
-Quando estivéssemos chegando á Ilha, como está acontecendo. – Ele virou-lhe costas ofendido. – Eu não sei mais quem você é Perla, principalmente, no que você se transformou. - Perla tentou colocar-lhe a mão nas costas dele, mas não tendo coragem parou a meio, fechando a mão com força e a chorar, desculpou-se:
-Me perdoe. – Ao ver que Alex não respondia, ela saiu lentamente do quarto, fechando a porta.
Alessandro andava de um lado para o outro, com as mãos atrás das costas e a passos penosos, pensando naquela pequena discussão com Perla. Nunca tinham discutido antes, apenas tiveram aquele pequeno desentendimento quando Perla achou melhor acabar o seu noivado com ele. Alessandro parou e concentrou-se num ponto fixo, percebendo que ela estava se transformando numa pirata, algo que ele fez de tudo para não acontecer. Tinha que falar com ela novamente, ver se poderia trazê-la à razão, já que não adiantaria nada apelar pelo seu sentido. Confiante, ele deu duas passadas até a porta, e ao abri-la, ficou surpreso ao encontrar Jack encostado a parede, com um sorriso manhoso estampado nos lábios.
-Ela só vai partir seu coração, isso é um facto. – comentou Jack num tom de desdém, observando uma maça. - E mesmo que eu te avise, ou garanta, que aquela garota só te vai machucar terrivelmente, você ainda vai estar apaixonado por ela. O amor não é maravilhoso? – ironizou, dando uma dentada bem suculenta na maçã. – Servido? - Ofereceu Jack, apontando a fruta para Alessandro.
-Você é muito ousado, senhor Sparrow! Ousado demais. – Alessandro franziu a testa, incomodado. - E eu não estou gostando nem um pouco do tom como está falando.
-Eu estou apenas querendo ser seu amigo, você sabe, criar laços de amizade! - Jack caminhava em torno do Comodoro, esbracejando suas mãos lentamente no ar. – Eu até simpatizo com você!
-Piratas não criam laços de amizade, e eu não estou minimamente interessado em ser seu amigo, pirata. – acentuou bem com voz de desprezo. - Pessoas como eu, evitam relacionar-se com piratas como você.
-Não pretendo manchar seus antecedentes, mas creio que você mesmo já os manchou. – Alex fez um rosto de quem não estava entendendo. – Você é amigo de uma pirata, Perla Bonny…
-Princesa Perla Neblon. – corrigiu Alex bufando indignado.
-Meu caro, lamento desapontá-lo, mas Perla tem tudo para se considerar mais uma pirata do que propriamente uma princesa. Ora pense comigo: ela entrou de livre e espontânea vontade num navio pirata, participou de uma reunião da Corte da Irmandade e vai em direcção a uma ilha onde se esconde um belíssimo tesouro, além de ter uma sede de vingança interminável contra Silver… – Jack chegou-se perto do ouvido do comodoro e concluiu: – Ela te mentiu, ou seja, enganou um oficial, um Comodoro, para ser mais concreto. Como vê, a lista dela começa a ficar mais comprida que meu braço. Agora me diga, o que Perla tem de princesa? – Jack fez uma cara de triunfo à medida que Alessandro o encarava desconcertado.
-O que você pretende mesmo, capitão? – questionou Alessandro suspirando.
-Nada, meu caro, apenas queria te abrir os olhos. Agora com licença, tenho um navio para comandar. – Ele andou um pouco, mas parou, girando nos calcanhares e apontou os dedos indicadores para Alex. – Pense nisso, comodoro. – E dito aquilo desapareceu por entre o desvio que dava para a cave.
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Nos aposentos do Holandês Voador, Elizabeth encontrava-se deitada na cama espaçosa de Will, enquanto ele enfiava um fio numa agulha velha. Elizabeth entreabriu os olhos e, embora sua visão estivesse embaçada, observou a sala bem iluminada, deparando-se com Will a sua direita, pousando a agulha na mesa. Ao vê-la acordar, ele colocou-lhe um pano molhado na testa para limpar o suor, e com uma expressão zangada, encarou-a.
-A senhorita tem explicações a me dar!
-Will…- Ela arfou suavemente e revolveu mirá-lo. - Me perdoa, mas eu não queria preocupar você…
-Você podia ter morrido! – Num tom bravo, ele pegou na garrafa de rum. - O que passou pela sua cabeça?
-Não volta a acontecer. – Vendo os olhos ternos dela, Will adoptou uma expressão relaxada, passando-lhe a garrafa.
-Ahh Elizabeth, eu fiquei tão preocupado quando vi aquele rasto de sangue no mapa. – Elizabeth agarrou a garrafa e bebeu um pouco, com o olhar perdido no espaço ao ouvir as palavras de Will. – Quem te acertou?
-Black Dog. – respondeu sem hesitar, fazendo Will olhá-la exaltado. – Ele disse que este foi só um aviso. – Ela entregou-lhe a garrafa, tentando-se manter confortável nas almofadas.
-Maldito seja aquele canalha. – Will rasgou então a camisa ensanguentada de Elizabeth e entornou um pouco de rum, parando simplesmente ao ouvir o gemido vindo da esposa, devido ao ardume que o líquido causava.
-Logo, logo ele vai saber qual a sensação de ser baleado! E espero que o tiro seja certeiro…
Will pegou então a pinça e tentou, com muito cuidado, procurar a bala perdida naquele minúsculo buraco que estava exposto no abdómen da sua esposa. Por várias vezes, a bala esteve quase saindo, mas recuava sempre a pinça ao ouvir o gemido de dor de Elizabeth.
-Assim que eu a retire, esta dor vai passar. – Will deu-lhe um pano para que ela morder, e assim ele pudesse concluir o seu trabalho.
Com algum sacrifício, Will conseguiu agarrar com a pinça o pequeno projéctil, seguido pelo berro abafado de Elizabeth, que lacrimejou com a dor aguda que lhe causou. Ela olhou a bala ainda na pinça de Will, enquanto tentava controlar sua respiração alterada.
-Aqui está. – Will pousou a bala e a pinça na mesa e pegou de seguida na agulha. – Só falta coser para estancar o seu sangue.
-Está esperando o quê? – disse, incentivadora. – Já enfrentei coisas piores que uma agulha. – Will ganhou coragem, então, para coser o ferimento aberto.
Ele sentia o corpo da sua esposa tremer, cada vez que inseria a agulha na pele ferida dela. Tentava fazer aquilo o mais depressa possível, para não ter que ver sua mulher suportar aquela dor infindável, roçando sem crer a mão na sua ferida.
-Me desculpe, mãos de ferreiro não mudam…
-Continue. – pediu ela carinhosamente, pegando na mão dele e apertando-a com força.
-Está quase, só falta mais um pouco. – encorajava-a Will, ao ver a mulher abanar afirmativamente com a cabeça, enquanto ele dava a última volta com a linha. – Pronto! – Ela cuspiu o pano para o lado.
-Obrigada. – agradeceu, dando balanço ao tronco para se levantar.
-Onde pensa que vai? – retrucou, impedindo-a de se levantar ao colocar-se sobre ela.
-Eu já estou boa, eu… – mas não teve tempo de terminar, pois sentiu uma pequena dor, deixando-se cair lentamente na cama.
-Você vai ficar aqui até eu achar que está boa. – Ela sorriu maliciosamente, vendo o marido levantar o sobrolho, estranhando aquele sorriso.
-Sinceramente, há coisas melhores para se fazer aqui, senhor Turner, você não acha? – Elizabeth puxou-o pela camisa, ficando a milímetros de distância da boca dele. – Quero aproveitar todos os segundos a seu lado, já que tempo é algo que não temos. – concluiu numa voz descontente.
-Você tem razão! – arrematou Will, suspirando tristemente ao beijar o braço de Elizabeth.
-Eu não me conformo, Will! Lutamos tanto para ficar juntos e o destino prega-nos esta peça. – Ele desviou seu olhar, fechando os olhos ao sentir o peso daquelas palavras sobre sua alma. – Eu não consigo aceitar isso. – Elizabeth expressava um rosto revoltado, tentando controlar suas emoções. - Eu te amo tanto. – Aquela frase fez Will abrir os olhos e encará-la apaixonadamente.
-É esse amor que me dá forças para lutar todos os dias contra o meu destino amaldiçoado, só para te ver mais um dia. – Ele a beijou sem mais hesitar.
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-Perla, você está bem? – perguntou Gibbs, vendo-a sair da escotilha transtornada.
-Droga, nada me corre bem. – Gibbs chegou perto da garota, que se encostava num dos canhões.
-Pela cara, discutiu com o Jack…
-Antes fosse. – respondeu fazendo beicinho à maneira Jack Sparrow. – Foi com Alessandro. – Ela cruzou os braços e olhou para o infinito. – Resolvi contar aquilo que devia ter-lhe contado quando estávamos em Singapura: o que a ilha continha.
-E o que ela contem? – Gibbs estreitou os olhos, esperando curiosamente que Perla respondesse.
-Uma Deusa…
-Maria, mãe de Deus! Outra Deusa? – ponderou ele mantendo os olhos arregalados. – Será que o Olimpo todo decidiu vir habitar a terra? Por que Jack não me contou isso mais cedo?
-Porque esse assunto só interessa a mim e à princesinha metida a pirata. – retrucou Jack, num tom mordaz. – Savvy? – com as mãos elevadas sobre o peito, Jack foi caminhando lentamente, enquanto Perla fazia de tudo para não o encarar. – E preparem-se, podemos chegar á Ilha Desaparecida a qualquer momento.
-Está certo, capitão. – Gibbs olhou para o cinto de Jack e não evitou perguntar: - Jack! Como vai sua mãe? – Jack apenas olhou para a pequena cabeça que continha no cinto.
-Cada vez melhor. – retrucou num tom sério, mas ao mesmo tempo debochado. – E ela me disse que bons ventos nos levam, caro Gibbs, bons ventos. – rebateu indo em direcção ao leme, encontrando o sr. Cotton muito concentrado no caminho.
-Jack está demasiado entusiasmado com essa Ilha. – observou Perla vendo ele apossar-se do leme. –Confesso que tenho um mau pressentimento para com essa Deusa. – Ela levou a mão ao peito e suspirando pausadamente fitou Sr. Gibbs, com uma expressão preocupada. – Tenho medo de arriscar tudo por nada ou… Eu não sei, sinto-me insegura.
-É tentando o impossível que se chega à realização do possível. – argumentou Gibbs, encorajando a garota. – Só aqueles que se arriscam indo longe, têm a oportunidade de ver quão longe podem ir, e pode apostar que, sem arriscar, não vivemos a esperança.
-E se tudo correr mal?
-Como costumo dizer, quem não sobe as altas montanhas não conhece a planície. – Perla abriu um sorriso confiante. – Nós temos de ser ousados para com as novas descobertas, senão, nunca conheceremos nossos limites, e olhe que, ao homem ousado, a fortuna estende a mão.
-Tem razão, isto foi apenas um desabafo, talvez uma parvoíce minha…
-Você tem a força da sua mãe, e… -Gibbs baixou despercebidamente a cabeça e prosseguiu: - a audácia de seu pai. – Logo levantou a cabeça, fitando os olhos verde-esmeralda concentrados em si. – Por isso, não tema nada. Viver é correr riscos, e cada um mais difícil que outro, lembre-se disso minha querida.
-Sr. Gibbs, pode deixar de conversar e tratar do seu trabalho? Preciso que os marujos subam um pouco mais as velas. – berrou Jack do castelo de poupa, e completou cínico: – De preferência hoje que amanhã pode ser tarde.
-O que você fez para deixá-lo de mau humor? – interviu num tom divertido, o qual deixou Perla apreensiva e tensa, de olhos arregalados.
-Nada, nada. Juro! – retrucou tossindo, como se estivesse entalada com a própria saliva, deixando Gibbs desconfiado.
-Sr. Gibbs. – chamou-o Jack novamente, vendo que o primeiro imediato dava ombros e caminhava pelo convés.
-Ouviram bem seus cães sarnentos, toca ao trabalho! Acabou a hora da malandragem! A todo o pano!
Perla olhou para Jack, que mantinha seu olhar preso no horizonte. Sua expressão era enigmática, o que a deixava confusa. Não a aquietava nada saber que estavam chegando á maldita Ilha, embora fosse aquilo que tanto queria. Apesar das palavras confortantes de Gibbs, Perla não conseguia esconder o receio que tinha, principalmente, aquela perniciosa sensação de aperto no peito desde que tinha discutido com Alessandro.
Ela maneou a cabeça lentamente para a amurada do navio e respirou fundo, a modos de armazenar uma boa quantidade de ar nos pulmões. Sorrindo de leve, Perla passeou o dedo lentamente pelo seu lábio inferior, como se ainda sentisse o sabor do beijo de Jack, penetrando-lhes. Como se ainda captasse a essência dos beijos roubados dele, que ela correspondeu sem hesitar a cada chamamento da boca de Jack. Rapidamente passou as mãos sobre os braços, sentindo um arrepio só de lembrar da sensação que tivera ao sentir novamente o corpo dele sobre o seu. Pela segunda vez, teve para se entregar por completo aquele homem, mas desta vez, tinha sido ela que não havia permitido avançar. Recordou que, no momento da praia, tinha ficado ofendida por Jack ter parado, e nisso agradecia-o. Imaginava que Jack tinha ficado amuado por ter sido ela, desta vez, a impedir que aquele momento fosse além daqueles beijos.
Sentia-se confusa, suas vidas eram completamente diferentes, e ela não queria sofrer mais do que estava sofrendo, pois sabia que, depois daquela aventura acabar, os dois nunca mais se veriam.
Seus pensamentos foram quebrados quando os marujos puxavam o cordame para aprontarem as velas e, num momento, Perla deixou seus olhos caírem novamente na imagem do capitão, que por sinal tinha calhado de olhar para ela, fazendo Perla sentir-se sem jeito. Rapidamente ela desviou o olhar para onde estivera olhando.
-Mulheres. – praguejou Jack observando a pequena cabeça de sua mãe.
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A noite se apossou rapidamente de todo o horizonte num manto escuro e estrelado, levantando toda a neblina da manhã como uma cortina embaraçada. No mar do Caribe, cinco navios iluminavam aquelas águas escurecidas à medida que iam mareando a uma velocidade moderada, cortando as ondas sem piedade alguma. No Adriatic Sea, os lampiões ténues ameaçavam apagar-se a qualquer momento devido à brisa provocada pelo avançar dos navios.
-Pewal, certifique-se que as velas conseguem resistir até ao amanhecer. – ordenou Silver, passando por Pewal num modo descontraído.
-Sim capitão. – Vendo que Silver não tinha parado, Pewal correu até ele. – Senhor, já que Jochem morreu, quem está pensando por no lugar dele? – Silver parou, voltando-se até ao marujo que havia estacado a poucos centímetros dele.
-Estava pensando por sr. Richel, mas ele é um perfeito imbecil, além de incompetente. – Silver revirou os olhos, pensando. – Bom, só me resta você seu inútil!
-Obrigado capitão…
-Não me agradeça de novo senão, desta vez, te corto a garganta. Agora vá cumprir o que eu te pedi, anda logo. – bradou Silver repugnantemente, vendo o pequeno garoto tropeçar em seus pés, á medida que corria. – Idiota.
Em passadas secas, ele desceu as escadas da escotilha e caminhou apressadamente até aos seus aposentos, deparando-se com Estella penteando seus cabelos longos e encaracolados. Ao sentir a presença de Silver, ela permaneceu impassível, continuando a pentear os cabelos. Lentamente, ele fechou a porta, indo até á cama, onde se sentou para tirar as botas de couro e depositá-las no chão num barulho oco, o que deixou a assustada.
-Eu já sai de seus aposentos! Só vim mesmo tratar um pouco de mim… – informou num tom ríspido
-Pode ficar…
-Não, esta cabine é demasiadamente pequena para nos os dois. – concluiu ela pousando o pente com brusquidão na mesa e logo levantou-se, mas uma tontura a fez tombar novamente na cadeira.
-Você continua frágil.
-Isto não altera em nada. Eu não vou esquecer o que você me disse, aliás, vou apenas acrescentar na minha lista mais um factor para te odiar, mediante os precedentes que você fez questão em merecer. – rebateu ela levantando-se novamente, apoiada à cómoda.
-O que tenho de fazer para limpar a imagem que tem de mim? – indagou num tom franco, o que deixou Estella desamparada.
-Prove-me que pode mudar. – Ele passou a mão pelos cabelos, inquieto, mas ela intercedeu: - Apenas prove que você pode ser um homem melhor do que aquilo que é. Isto, é claro, se tudo o que você me falou sobre seus sentimentos for verdade. A não ser, que tudo o que você me disse até agora, foi só para se aproveitar de mim.
-Correcção, eu nunca me aproveitei de você. Tudo o que você fez foi de livre e espontânea vontade, princesa. – retrucou num tom de escárnio, fazendo Estella abrir a boca atónita, sem saber o que dizer. – Mas se quer uma prova... – Ele ergueu-se da cama e, com a mão no seu queixo, passou em torno dela. – Eu lhe darei a prova.
Silver parou atrás dela, agarrando-a suavemente pela cintura e num gesto feroz pegou-a pelo pescoço, fazendo Estella arrepiar-se. Ele aproximou a boca dele ao seu ouvido, e por entre os cabelos que dançavam calmamente com sua respiração, soltou num murmúrio:
-Sinta-se uma mulher lisonjeada, nunca cedi a capricho de nenhuma mulher como cedo ao seu. Há uma hora dessas, você estaria degolada por sua impertinência.
-Você ainda não me matou porque precisa de mim. – respondeu num igual murmúrio com seus olhos fechados, á medida que sentia a mão de Silver deslizar pelo seu pescoço.
-Porque nenhuma mulher conseguiu mexer tanto comigo, como você consegue. – Ela virou-se de relance para ele, fitando seus olhos escuros envoltos em malícia. – Mas não se acanhe, diga logo o que quer como prova? Devo relembrar que, pode pedir tudo, menos para eu deixar de ser pirata...
-Paz. – Silver estreitou o olhar á medida que franzia o sobrolho, despercebido. – Uma vida que não envolva sangue e mortes. Quero paz Silver, no mar ou em terra, tanto faz. É só isso que lhe peço.
Ele a encarou por segundos silenciosos, tentando chegar a um conceito mais racional que o fizesse fugir daquela proposta, se assim pudesse chamar. E, naqueles intermináveis segundos, chegou á conclusão que não havia nada a fazer. Sentia que tinha sido castigado por Deus, o preço justo pela almejada imortalidade seria cair de encantos por uma mulher que o trouxesse á razão nas suas horas de insanidade. Alguém que ele quisesse ter a seu lado e que reprovasse as atitudes repugnantes que ele tomava, alguém que acalmava o monstro que habitava dentro dele. Uma mulher que, apesar de ser frágil e ter um cargo importante para a sociedade, tinha conseguido ocupar o coração negro de um cruel pirata.
-É justo! – concluiu Silver, sério. – Cada condição tem um preço alto a pagar. Eu já paguei demasiado pelas minhas atitudes, estou pronto a me deixar levar pelo doce sabor do vento.
-Obrigada. – agradeceu Estella sorrindo docemente. – Posso estar a cometer a maior loucura da minha vida ou até mesmo ser egoísta ao ponto de querer esquecer Siracusa, mas a única coisa que eu realmente não posso fazer é enganar meu coração.
-Quer casar comigo? - Silver nem se acreditou ao ouvir aquela frase sair da sua boca, mas já que estava, continuou: - compartilhar uma vida em conjunto… – Estella ficou atónica ao ver Silver sem graça depois de proferir tais palavras. – Eu não tenho muito jeito para essas coisas, por isso se você quiser, tudo bem, senão quiser...
-Eu aceito... – interveio Estella, fazendo-o encará-la incrédulo, e soltando um vasto sorriso, completou: – Edward Silver Vallenueva.
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Em Siracusa, todo o reino estava perto das ruas do palácio, observando o chegar de uma carruagem negra bem trabalhada e pomposa, com esbeltos cavalos brancos, até aos portões do palácio, velozmente. Nesses mesmos portões altivos estava Amélita, a ama e governanta do palácio, e um dos conselheiros do Rei: Sir Richard. Quando os cavalos pararam á sua frente num ricochete, o cocheiro saltou num pulso e correu para abrir a porta da carruagem de onde saiu um homem nobre e elegante, acompanhado por uma mulher de cabelos ruivos encaracolados e duas crianças: um bebé de um ano e um garoto de dezasseis anos.
-Bem vindos a Siracusa, Sr. Dalton! – O homem apenas fez um aceno com a cabeça. – Vejo que veio acompanhado pela sua esposa.
-Como não sabia quanto tempo ia ficar afastado de Geórgia, resolvi trazer minha família. Espero que não haja incomodo com isso.
-Claro que não, senhor.
Ao mesmo tempo, Sir Richard torceu o nariz ao ver o aspecto da mulher á sua frente. Ela usava um simples vestido rosado, longo, não muito próprio para uma mulher com a sua categoria. As suas jóias, embora fossem feitas de ouro, eram igualmente simples. O que lhe dava um aspecto humilde, apesar do homem concluir que aquela mulher não tinha nascido em berço nobre, muito pelo contrário
-Como deve saber, esta é minha esposa Arabella Smith Dalton e estes são meus filhos: – O garoto aproximou-se do pai que colocou seus dedos sobre os ombros do filho. – Frederick e Alicia. – Ele apontou para a menina que dormia calmamente nos braços de Arabella. – E o Rei Hieron como está?
-Faleceu á três dias atrás! – concluiu Amélita numa voz melancólica, evitando que as lágrimas caíssem.
-Vossa Majestade desejava que você fosse o seu substituto, temporariamente claro, só até uma de suas filhas voltarem. – informou Sir Richard fazendo um sinal para prosseguirem até ao palácio. – Façam favor. – Fitzwilliam deu o braço á mulher e ambos seguiram o conselheiro real. - Em antes de falecer, vossa majestade conseguiu convocar a delegação das Doze Cidades. Eles já se encontram reunidas no salão de cerimónias, prontos para promover você a sucessor temporário do reino.
-Meu marido está ciente das condições que o trazem a Siracusa, Sir Richard. – rebateu Arabella cansada da arrogância do homem á sua frente. – Em consideração ao seu primo, e para não deixar o reino na desordem, Fitzwilliam aceitou de bom grado o cargo que lhe propuseram. – Fitzwilliam olhou para a sua mulher com um sorriso carinhoso.
-Meu primo caiu na total desgraça. – murmurou ele desviando o olhar para o céu. – Casou com uma pirata que fugiu e acabou morta pelos seus próprios guardas. Lord Beckett roubou-lhe parte daquilo que ele tinha investido nas Companhias, suas filhas desapareceram misteriosamente e, para finalizar, a Marinha Real que as procurava, foi brutalmente assassinada em alto mar. Claro que o desgosto foi matando-o aos poucos.
-Lá nisso tem razão. – afirmou o conselheiro, olhando-o de soslaio. – Ele rezava todas as noites para poder permanecer vivo e ver novamente as suas filhas. – Amélita deixou finalmente as lágrimas escorrerem ao ouvir aquilo, tentando engolir o choro.
-As minhas meninas! – sussurrou Amélita num soluço angustiante.
O resto do caminho foi feito no total silêncio, onde apenas as árvores iam dançando delicadamente com o vento fraco vindo do mediterrâneo e, á medida que iam caminhando, elas pareciam sussurrar entre si. Arabella observava atentamente cada detalhe do jardim que, embora tivessem em Dezembro e o frio começasse a consumir o calor humano existente em cada corpo, continuavam perfeitos, como se fosse primavera todo o ano. Ela soltou um leve sorriso ao pensar que nunca tinha apreciado tão belos jardins, e logo desviou sua cabeça para a linda menina que dormia em seus braços.
Sua infância tinha sido passada em Tortuga, a servir ás mesas no Faithful Bride, aturando aqueles bêbados que passavam sua santa noite lá. Mas sua vida mudou completamente quando conheceu um certo forasteiro, que causou a maior confusão na sua taverna á procura da bolsa que lhe tinham roubado. Ela acariciou gentilmente a cabeça da menina e sorriu ao vê-la dormir tão serenamente, e voltou a recordar-se dos melhores anos da sua vida. Quantas aventuras tinha passado no Barnacle com a tripulação que Jack Sparrow tinha formado ao longo da jornada.
Ela maneou lentamente a cabeça para o seu marido, que continuava com uma posse robusta e suspirou. Apesar do seu amor e ódio com Jack Sparrow, ela acabou caindo nos encantos do aristocrata. E sim, esta tinha sido a vida que tinha optado para ela: viver na aristocracia do condado de Dalton, junto de Fitzwilliam que, depois das aventuras com Jack terem terminado, voltou a Tortuga passado anos, só para pedir em casamento a jovem empregada de mesa do Faithful Bride. Fitzwilliam amava-a e os anos nunca mudaram esse sentimento, embora, ás vezes, sentisse falta da liberdade de outrora teve.
-Sente-se bem? – averiguou Fitzwilliam docemente, fazendo ela repousar o seu olhar sobre os olhos castanhos do esposo.
-Estou um pouco cansada por causa da viagem, mas está tudo bem. – Num tom sereno lhe respondeu, recebendo um beijo na testa em troca.
No hall da grandiosa entrada do palácio, Amélita encaminhou Arabella e os seus filhos para o patamar de cima onde se localizavam os quartos, enquanto Sir Richard guiou Fitzwilliam até uma grande sala, repleta de cadeiras e, mais á frente, uma enorme mesa, onde se encontravam onze pessoas sentadas a espera de Fitz.
-Então, você é Fitzwilliam P. Dalton Terceiro, o parente mais chegado do rei. – observou um homem velho que usava um turbante vermelho na cabeça. – Creio que lhe tenham informado os motivos que o trazem aqui!
-Sim! – Ripostou num tom grave que entoou nas quatro paredes. – Sei que meu primo, visto não ter mais nenhum parente próximo a quem deixar o reino, me encarregou a mim de ocupar o trono até que uma das princesas regresse. Caso isso não acontecer, serei eu o rei de Siracusa, começando uma nova dinastia.
-Essas informações estão todas bem claras nesta carta. – Um homem negro ergueu a carta a modos de a mostrar a todos presentes. – Vossa Majestade deixou também umas pequenas indicações para serem seguidas, alguns de seus negócios no estrangeiro.
-Como disse, encontro-me devidamente informado sobre tais evidências. – Ele deu dois passos para pegar a carta.
-Visto ter sido essa a última vontade do rei Hieron, creio que, devemos perguntar ao sr. Dalton se, se subjuga a este impasse! – ponderou uma mulher loira, entrelaçando os dedos e pousando seu queixo sobre eles.
Fitzwilliam olhou para todos os presentes e, durante algum tempo em silêncio, pensou no que Arabella lhe aconselharia naquele momento. Foi então que suspirou e mantendo sua posse olhou directamente para a mulher loira, que mantinha a sobrancelha erguida a espera de uma resposta.
-Se foi essa, a última vontade de meu primo, eu irei concretizá-la sem o maior sacrifício. – retrucou num tom de desprezo perante aquelas pessoas que o olhavam de maneira sarcástica.
-Muito bem. Considere-se a partir de hoje, um membro da delegação das doze cidades e o ocupante temporário do trono. Amanhã oficializaremos tudo diante do povo.
-Certamente. Agora, se me dão licença, eu preciso me retirar. A viagem foi muito cansativa. – Numa reverência curta, Fitzy nem esperou alguém falar e saiu pelo corredor até encontrar uma ampla porta.
Olaaaaa
Bom, agora eu tenho noção que este capítulo teve paradinho, mas minha cabeça não tem dado para muito…tenho andado sem imaginação e noto que isso começa a fazer-se notar na fic.
Vou tentar meter um pouquinho mais de acção, mas vamos ver o que sai desta cebeça.
Quero agradecer ás pessoas que continuam acompanhando esta fic: Rô, Ieda, Likha Sparrow,Dorinha, Jane, Fini Felton, Carlinha Turner e Bruno. Obrigada mesmo pelo apoio :)
Próximo capitulo "A Ilha Desaparecida", eu vou tentar não demorar muito para postar.
Bjokas e fikem bem
Taty Black
