Disclaimer: Copyright Jo-Ro e Pink Floyd.
A/N: Eu sei que estou meio que fazendo um emaranhado com a linha-do-tempo-de-acordo-com-o-canon, mas eu garanto que tudo FARÁ SENTIDO e seguirá conforme Relíquias da Morte. Eu escrevi de maneira que pudesse incluir a traição de Sirius só porque eu adoro essa história, e, sim, isso envolve alguns ajustes no canon, mas eu prometo – e vocês terão que confiar em mim – que fará sentido canonicamente. Além disso, EU ESTOU ciente do erro de 1976/77. Esse erro é resultado de eu ter me esquecido daquela cena em RM onde temos datas canon, e ter usado o hp-lexicon ao invés disso. Sinto muito. NO ENTANTO, não faz realmente diferença alguma. Mas obrigada a todos que apontaram =P
Antes: Sirius tem um sonho recorrente sobre afogamento. O ex de Lily, Luke Harper, tem um irmão Comensal, Logan, que está se escondendo na loja abandonada dos Harper para executar um trabalho; Lily e Luke ouvem o auror Lathe discutindo sobre ir ao vilarejo, e Luke sai correndo. Lily convence James a emprestá-la o Mapa do Maroto para que possa segui-lo, mas ela não dá todos os detalhes e promete estar de volta à passagem secreta antes do pôr do sol. É lua cheia, e Sirius diz a Snape como entrar no Salgueiro Lutador, porque quer dar o troco a Snape por "corromper" seu irmão mais novo, Regulus.
Chapter 21- "... Life is But a Dream"
(… A vida é apenas um sonho)
Or
"Brain Damage"
("Dano Cerebral")
"Merda."
Lily estendeu os braços para se firmar novamente quando quase caiu no chão úmido e escuro. James não tinha mencionado que o túnel era cheio de buracos, e mesmo com a varinha acesa, a ruiva viu-se tropeçando bastante. Novamente firme, ela deu um passo hesitante, e então outro, e outro, até estar confiante o bastante para retomar seu ritmo acelerado pelo corredor escuro e estreito.
(Logo)
"É melhor ir embora," aconselhou Remus com a voz fraca, sentando-se sobre as tábuas de madeira rachada na antessala da Casa dos Gritos. A mobília – colocada puramente para exibição, há seis anos – estava toda em pedaços, e o chão era o único lugar que restava para sentar. "O sol vai se pôr em alguns minutos, e então não demora muito para... para eu me transformar."
Madame Pomfrey olhou com empatia para o jovem pálido à sua frente. "Eu vou só colocar isso no armário," disse ela, indicando as roupas dobradas que trouxera da ala hospitalar. Remus assentiu agradecido e recostou a cabeça na parede, enquanto a enfermeira colocava a roupa cuidadosamente dobrada no armário na parede, que ela começou a selar magicamente. "E... sua varinha?" perguntou ela hesitante.
"Embaixo de alguns tijolos soltos na lareira," respondeu Remus. "É mais fácil de achar tendo um lugar seguro onde sempre a deixo."
"Você gostaria que eu…?"
"Ah. Sim, obrigado."
Remus deu a varinha à bruxa, e ela a colocou no local referido. "A lua... ela se põe... às cinco horas, correto? Devo vir, então?"
"Deve esperar até as seis… seis e meia," respondeu o outro. "Só por segurança. E eu... hum… eu posso não estar acordado."
"É claro." Madame Pomfrey parou próxima à porta, como que sem saber se deveria dizer "boa noite" ou alguma coisa, mas pensou melhor e saiu depressa. Remus suspirou desalentado, ignorando a dor de cabeça violenta e a sensação de mal estar no estômago da melhor forma possível. Nunca usava relógio na lua cheia (afinal, só iria quebrá-lo), mas sabia que não ia demorar muito. Só tinha que esperar.
(Passagem)
Lily estivera no corredor por pouco mais de vinte minutos antes de ele terminar abruptamente. Ela chegou a um muro escuro de pedra, e, a princípio, achou que estava em um beco sem saída. No entanto, um exame da cena mostrou uma frágil escada de madeira ao canto, e, com a ajuda de um poderoso Lumos, a ruiva viu que a escada se estendia bastante para cima, até outro patamar. Ela pensou por alguns instantes e em seguida colocou a varinha entre os dentes, começando a subir a escada, que, em adição ao chiado agourento, era bastante escorregadia.
Mesmo assim, chegou ao patamar superior em segurança, e – à luz da varinha – só conseguiu distinguir o que parecia um alçapão no teto não muito distante. Não havia nenhuma escada ali, mas as pedras na parede eram desiguais o bastante para que pudessem ser facilmente escaladas. Com a varinha entre os dentes novamente, Lily segurou um tijolo saliente e colocou um pé entre outros dois. Testou seu peso, vendo que a parede a seguraria, e começou a curta escalada.
Quando sua cabeça estava a centímetros do alçapão, a garota agarrou uma pedra firmemente em uma mão e, com a outra, sacou a varinha, batendo na porta de madeira e murmurando "Patefacio.". A porta não se abriu como ela esperava, mas dissolveu-se completamente. A ruiva sentiu o toque de ar frio, e pôde ver um pedaço do céu que escurecia.
Não foi sem dificuldade que a bruxa conseguiu subir e sair para o gramado mal cuidado, que – se a informação de James estivesse correta, e ela não tinha razão alguma para duvidar – era do jardim por trás do boticário. Suas meias estavam encharcadas, e, quando a iluminação melhorou, viu que estava bastante suja do túnel, mas não tinha tempo para se preocupar com isso. Afastou as pernas do buraco através do qual subira, e quase no instante que o fez, o barro em torno da abertura se fechou de novo, selando-a com bastante naturalidade.
Lily olhou em volta à procura de algo com o que pudesse marcar o lugar, e localizou uma pedra branca perto da cerca, que achou que serviria. Quando a entrada do túnel foi marcada, ela levou um instante para encontrar seu rumo. Havia vozes vindo da loja ao lado, e, achando que o boticário seria menos receptivo a uma garota estranha aparecendo no seu quintal, a bruxa deslocou-se para trás de um grande arbusto antes de tentar a cerca. Não era alta, e ela pulou sem dificuldades. Estava, então, na empoeirada estrada secundária (felizmente deserta), que era paralela à rua principal. De lá, poderia determinar para onde ir em seguida.
Segurando a varinha, a ruiva correu na direção oeste para a área que James mencionara. O sol continuava a descer no céu, e ela não tinha muito tempo.
Enquanto se deslocava, a garota tomou ciência de uma comoção audível à distância, que ficava cada vez mais alta enquanto ela continuava pela estrada. As lojas e as casas impediam que visse a estrada principal, mas pelos gritos podia adivinhar a causa, e isso só fez com que se movesse com mais urgência.
Logo, a estrada virou num caminho, e então o caminho fundiu-se com outro, que afunilou quando o terreno tornou-se mais verde e montanhoso. Lily subia em meio a arbustos e logo em seguida sobre rochas, até alcançar o lugar que achou ser o que James se referiu. Havia uma caverna pequena e rasa, baixa o bastante para a garota ter que baixar a cabeça para entrar. Mesmo na penumbra, o fundo da caverna era bastante visível da entrada. A bruxa franziu o cenho, passando a mão ao longo da áspera parede de pedra.
James não mencionara uma senha para essa entrada... e se Luke já tivesse passado? Mas ele tinha dito que a passagem que ela tomou a levaria até ali em um tempo muito menor... deveria esperar...?
Lily apontou a varinha para a parede da caverna, batendo uma vez e murmurando, como antes, "Patefacio." Nada aconteceu. Ela xingou baixinho e recuou momentaneamente, antes de avançar de novo e repetir o gesto, desta vez com um feitiço básico: "Dissendium."
O efeito foi imediato: não muito diferente da entrada do Beco Diagonal em Londres, as pedras da parede da caverna começaram a se reorganizar, rolando e deslizando para fora do caminho, revelando um túnel comprido e escuro. Lily deu um passo hesitante à frente. "Luke?" indagou na escuridão, mas encontrou silêncio. Um pouco mais alto: "Luke?"
Ainda nenhuma resposta. A ruiva deliberou, retirando o Mapa do Maroto do bolso, embora soubesse que Luke desaparecera dele há algum tempo. Talvez James lhe informara a passagem errada... era quase impossível dizer pelo mapa...
"Luke!" tornou a gritar, entrando na passagem. Mais uma vez não recebeu resposta alguma e estava a instantes de escolher entre à loja dos Harpers e explorar o túnel, quando uma voz distante respondeu.
"Quem está aí?"
Reconhecendo a voz do ex, Lily suspirou aliviada, mas não respondeu à pergunta de imediato. Em vez disso, ouviu atentamente e – após alguns segundos de silêncio – podia distinguir o som de pés se arrastando.
"Quem está aí?" Luke tornou a gritar, e ele parecia mais perto. Ainda assim, ela não respondeu. Os passos cessaram por alguns segundos, antes de começarem de novo, ficando cada vez mais altos enquanto ele evidentemente se aproximava.
Quando estavam bastante nítidos, Lily arriscou uma resposta: "Luke, sou eu! Lily!"
Ou ele ia sair para encontrá-la ou ia se virar e correr... as duas opções eram aceitáveis, mas ela torcia pela primeira. Novamente, o tamborilar dos pés de Luke parou brevemente, antes de retomar, em um ritmo bem mais rápido. Ele apareceu na entrada do túnel um minuto depois, sério e ofegante.
"Lily? O que está fazendo aqui? Como foi que você…?"
Lily enfiou o mapa no bolso antes que o rapaz o notasse e correu até ele. "Não importa, Luke. Sei o que está fazendo aqui, e não posso deixar que faça."
"Não tenho tempo para isso," insistiu ele, tentando esquivar-se dela. A ruiva moveu-se depressa para impedir seu caminho, e ele percebeu que ela segurava a varinha. "Vai me azarar?"
"Nesse momento, não tenho planos de azará-lo," respondeu ela com a voz trêmula. "Por favor, Luke," prosseguiu. "Os aurores estão na loja – ou vão pegar seu irmão ou não... o que você vai fazer? Vai enfrentá-los? Você só vai acabar morrendo ou sendo preso, ou..."
Ele parecia abatido. "Você tem certeza? Sobre os aurores? Estou atrasado?"
"Atrasado… atrasado para o quê?"
"Eu só queria avisá-los," murmurou ele. O rapaz sentou-se em uma pedra próxima à entrada da caverna. Lily – consciente de ter prometido a James que estaria no túnel antes do escurecer, mas incapaz de fazer qualquer coisa com relação à inevitável passagem do tempo – sentou-se também. "Eu tenho que tentar." Com os cotovelos apoiados nos joelhos, ele apoiou a testa nas mãos.
"Luke," começou a grifinória suavemente, "por favor. O que está acontecendo?"
Ele olhou para ela com seus tristes olhos castanhos, massageando os dedos através dos cabelos ondulados. O sol mergulhou no horizonte. "Quanto tempo você acha que ele vai ficar em Azkaban?" perguntou o bruxo, ignorando a pergunta dela. "Muito tempo?"
"Eu não sei," respondeu a ruiva com sinceridade. "Depende, não é? Se ele se render – se ele testemunhar..."
"Logan não é um covarde," sussurrou Luke. "Também não é um traidor."
Lily não discutiu nenhuma das afirmações. "Como foi que quebrou o braço, Luke?" perguntou ela em vez disso. O rosto dele ficou rígido – inflexível e reservado. "Luke, por favor. Eu tenho que saber. Você sabe que eu jamais seria capaz de contar a alguém."
Ele a observou atentamente e em seguida suspirou. "Logan estava aqui no dia do funeral de Black", começou ele, com resignação na voz e no rosto. "Ele me pediu para dar continuidade ao trabalho que mencionou em fevereiro."
"Trabalho?"
"Eu não sei os detalhes," respondeu vagamente. "Transferir alguns objetos – não muito legais, obviamente. Eu não sei se foi para os Comensais da Morte..."
Por mais que tentasse, Lily não conseguia determinar se Luke acreditava ou não que havia alguma possibilidade do contrário. Ela certamente não acreditava.
"…eu disse 'não' a ele," continuou o rapaz. "Ele ficou com raiva. Disse que eles precisavam de outra varinha, e que seria uma boa oportunidade para mim. Eu sabia que era ilegal – implorei para que ele se entregasse, mas... é claro que ele não se entregaria. Eu temia que ele tornasse a se machucar, e dessa vez não haveria ninguém para cuidar dele. Conheci alguns de seus amigos que estariam no trabalho com ele, mas também não confiava muito neles, então..." Ele parou de falar.
"Então você concordou em ajudar?" concluiu a ruiva.
"Não. Eu disse a ele que esperaria em nossa antiga loja. Se houvesse algum problema, eles podiam aparatar lá, e eu limparia a barra deles, como antes."
Lily não tinha energia para se preocupar com o crepúsculo. Seus olhos estavam paralisados no rapaz. "O que houve?" perguntou sem fôlego.
O corvino sorriu amargamente. "Houve um problema," ele disse. "Alguém morreu. Os outros aparataram para a loja. Eu fiz tudo que podia para limpar a barra deles, e então eles – eles tiveram uma discussão. Sobre mim. Um deles achou que eu devia ter contado a alguém, por causa... por causa do problema."
Porque os aurores apareceram, substituiu em sua mente.
"Eu não contei," jurou ele, infeliz. "Eu não contei a ninguém. Eles brigaram sobre isso. Logan ficou do meu lado. Ele não acreditava que eu contaria. Sabia que eu não contaria. Acreditou em mim. Fez os outros recuarem, até receberem uma mensagem que dizia que havia aurores em Hogwarts novamente. Isso foi hoje pela manhã. Então, houve outra briga."
"Eles quebraram seu braço?" perguntou ela. "Os Comensais... hum, amigos de Logan?" Luke encarou as mãos silenciosamente, e de repente a garota entendeu. "Não foram os amigos de Logan, não é?" sussurrou. "Foi Logan."
Luke se encolheu. "Ele tinha que fazer isso, Lily," insistiu o bruxo. "Ele tinha que provar aos outros que era leal – que eu era de confiança! Ele tinha que garantir que acreditariam nele!"
E o olhar em seus olhos partiu o coração da ruiva. Pela primeira vez, ela entendeu, realmente entendeu, Luke Harper. Ela viu as consequências dos últimos meses – as consequências de suas lealdades conflitantes sobre Logan, sua tristeza por seu pai, seu receio por sua família, sua decepção com ela. Ele estava dilacerado. A fraqueza que ela percebera em fevereiro – sua instabilidade – o deixara em pedaços, e agora ele se agarrava em algo no qual sempre acreditou, embora seu cérebro racional devesse ter lhe mostrado a razão. Apesar de ter quebrado o braço e só Merlin sabe o quê mais, Luke acreditava em Logan. Ele tinha que acreditar.
Seus olhos castanhos estavam arregalados e dilatados. Ele não... ele não parecia completamente ali, e isso partiu o coração da garota.
"Ah, Luke," murmurou ela, quase incapaz de conter as lágrimas.
"Logan tinha que fazer isso," repetiu ele com firmeza. "Ele tinha que fazer. Ele não tinha escolha. Eu estou bem. Perfeitamente bem."
"Tá bem," sussurrou ela. "Tá bem, acredito em você."
"Não me apazigue, Lily. Ele tinha que fazer isso."
"Está bem," repetiu ela, mais alto, mas com a voz trêmula. "Tudo bem, Luke." A luz diminuiu. "Temos que voltar ao castelo," continuou, estendendo a mão e segurando a dele. "Você tem que voltar ao dormitório. Se Lathe... se alguém desconfiar que você tem algo a ver com isso…"
Ele, porém, não parecia estar ouvindo. Olhava para fora da caverna, através do vilarejo, como que procurando alguma coisa. "Eu devia ter encontrado uma forma de vir para cá via flú," murmurou ele, provavelmente para si. "Se tivesse encontrado, teria conseguido avisar a Logan. Pelo menos a Logan. Eu poderia tê-lo tirado da loja quando os aurores apareceram. Quanto tempo você acha que ele vai ficar em Azkaban, Lily?"
"Eu não sei," ela tornou a dizer. "Luke... temos que voltar ao castelo. Não há nada que você... nada que a gente possa fazer por Logan agora."
Para sua surpresa, ele assentiu. O rapaz rumou em direção à entrada da passagem agora selada, e então parou. "Como foi que você chegou aqui, Lily?"
"Tem outra passagem," respondeu ela. "Ela saí no jardim do boticário."
Luke olhou pensativo para o chão rochoso, calculando algo, antes de tornar a erguer os olhos para ela. "Devemos pegar esse caminho."
"Não," disse Lily com firmeza. "Sei o que está pensando. Não pode ajudá-los, Luke! É tarde demais."
"Ficaremos fora da rua principal, eu juro," prometeu ele. "Vamos pegar o caminho de volta. Se eu pudesse apenas dar uma olhada... só para saber que Logan está bem."
"Não dá para ver nada da estrada," respondeu ela. "Não há nenhuma chance, Luke."
"Mas você disse que viu os aurores…"
"Eu ouvi os aurores."
"Isso será o bastante. Por favor, Lily. Se há ao menos uma pequena chance..."
Após um instante, foi contra sua vontade que ela respondeu: "Está bem." Luke exalou aliviado. "Mas há condições. Se não ouvirmos nada, não voltaremos, e nós não vamos parar."
"Está bem."
"E me dê sua varinha."
O rapaz olhou de forma estranha para ela. "Lily, você não pode..."
"Eu não quero convocá-la," ela interrompeu, forçando-se a falar com firmeza. "Mas, Luke, eu o farei se necessário."
O corvino hesitou, então sacou a varinha e entregou a ela. "Vamos, então," disse ele, passando por ela em direção ao ar livre. "Mostre o caminho."
(Atrasado)
"Bem, onde você acha que ele está?" insistiu Peter.
"Eu não sei," retrucou James, andando de um lado a outro do dormitório. "Se soubesse, eu diria – ou, melhor ainda, eu iria encontrá-lo. Então, claramente, eu não sei."
Peter, que estava sentado em uma das camas, apenas suspirou. "Bem, por que não podemos usar o mapa para encontrá-lo?"
James cessou temporariamente sua caminhada nervosa. "Não... não podemos. Eu não estou com ele."
Os dois Marotos ficaram calados por um tempo, e então Peter tornou a falar. "Você deu a Lily quando vocês dois estavam aqui em cima, não foi?" perguntou baixinho, e o outro confirmou. "Por que ela precisava dele?"
"Ela… ela apenas precisava, só isso."
"Ela… ela está em apuros?"
"Por que diz isso?"
Peter deu de ombros. "Você parece achar que ela está."
James não respondeu de imediato, mas caminhou até a cama e sentou ao lado do amigo. "Eu não sei," disse ele. "Tenho a sensação de que ela pode estar. Eu devia ter ido com ela."
"Por que não foi?"
"É só uma sensação." Prongs suspirou. "Ela disse que ficaria bem, e que... que não devia me incomodar. Enfim, Moony precisa da gente hoje à noite. Você viu como ele fica se não estivermos lá quando ele se transforma." James tornou a se levantar. "O que nos traz de volta ao maldito Sirius..."
"Ainda temos tempo," disse Peter calmamente. "Ele vai estar aqui. Ele sempre está."
(Estrada)
Ela segurou a mão de Luke enquanto caminhavam. Não era um ato romântico, mas também não era controlador. Ela apenas abria caminho – o rapaz meio passo atrás dela – em direção ao boticário, e, pela primeira vez, segurar a mão dele parecia natural.
Lily ficou tensa quando vozes vindas da cidade tornaram-se audíveis. As palavras podiam ser distinguidas à medida que se aproximavam da loja dos Harper... Ela não ouvia mais os aurores: só a conversa dos espectadores. Da discussão dos moradores, a garota entendeu que Lathe e os aurores tinham colocado escudos para impedir que os Comensais da Morte aparatassem ou usassem a rede de flú. Parecia que os aurores iam entrar, ou já tinham entrado, na loja... além disso, só podiam adivinhar.
"Luke," implorou ela, quando o corvino desacelerou para ouvir melhor. "Por favor, vamos nos apressar. Se alguém te avistar, você vai se encrencar."
"Você também," apontou ele, embora tenha obedecido ao puxão de mão dela.
"Não estou falando sobre estar fora do castelo," disse ela. "Estou falando de alguém suspeitar que você esteve envolvido no que aconteceu: no trabalho de Logan."
Luke ficou calado até chegarem ao boticário. Os dois escalaram a cerca baixa para o jardim dos fundos e moveram-se sorrateiramente para trás de um arbusto, assegurando-se de que o quintal estava limpo. Seguros de que estava, Lily puxou a varinha de Luke do bolso e ofereceu ao bruxo.
Ele olhou desconfiado para ela.
"Eu confio em você," disse ela. Luke pegou a varinha, e os dois foram ao local que ela marcara com a pedra branca. A ruiva bateu na terra uma vez com a varinha, e disse: "Patefacio."
Como antes, o barro e o mato pareceram dissolver, revelando o túnel pelo qual ela viajara não muito tempo antes. Ele parecia mais incerto. "Como é que descemos?"
"Pela parede. Há pedras… é uma escalada fácil. Aqui... Lumos." A varinha acendeu, e a garota a apontou para baixo do túnel, revelando a parede e chão escuro e úmido abaixo. "Tenha cuidado quando aterrissar," ela avisou quando ele se posicionou para descer. "Há outro nível abaixo, que é o verdadeiro túnel, então não saia correndo, ou vai cair."
Ele assentiu e começou a descer. A ruiva continuou segurando a luz, vigiando a loja enquanto o fazia. Luke estava completamente no subterrâneo, mas ainda escalando a parede quando ela pensou ter ouvido uma voz muito mais perto do que a loja dos Harpers.
"Alguém está vindo," murmurou ela.
"Quê?" perguntou ele. "Vou pular para o fundo."
Mas não havia tempo, e ela sabia disso. Podia ouvir a maçaneta da porta dos fundos da loja remexendo... eles teriam companhia em instantes, e mesmo que ela pulasse no túnel agora, o buraco poderia não se fechar a tempo... o boticário veria... ele podia até descobrir para onde levava, e a passagem dos Marotos estaria arruinada. Além disso, arriscava expor Luke...
"Siga o túnel de volta ao castelo," ordenou ela depressa. "Vou pela sua passagem."
"Espere, Lily…"
Mas ela já estava se afastando do buraco, e a terra fechou-se mais uma vez. A ruiva foi para uma árvore próxima, mas a porta já estava se abrindo, e um bruxo idoso com uma bengala apareceu na escada. Ela congelou, e ele a viu.
O bruxo sacou a varinha imediatamente. "Você, garota!" vociferou. "O que está fazendo no meu jardim?"
"Hum… eu… quer dizer, eu…"
"Não devia estar aqui!" vociferou o bruxo, ignorando sua gagueira. "Está escuro, garota! Não sabe que há Comensais da Morte por aí?"
"B-b-bem, eu só estava…"
"Não importa! Eu sei exatamente o que está fazendo! Roubando minhas folhas de ditamno, não era?"
"Ah, não, eu estava…"
"Sim, sim, estava! Agora saia já daqui, antes que eu chame aqueles aurores para dar um jeito em você! Ouviu, garota?"
Ela não esperou para vê-lo brandindo a bengala ameaçadoramente para ela. Em pouco menos que um único movimento, a jovem se virou e pulou a cerca, correndo para a estrada mais uma vez. O bruxo gritava atrás dela, mas sua voz logo se desvaneceu com os gritos vindos da rua. O céu estava bastante escuro, mas os reflexos de centenas de feitiços podiam ser vistos lampejando contra as nuvens.
A estrada estava ficando mais estreita e empoeirada de novo, antes de Lily diminuir o passo ligeiramente. O anoitecer ardeu em sua consciência, devido à promessa que fez a James, mas não tinha o que fazer com relação a isso agora. Ela tinha tentado entrar na passagem, não é? De qualquer forma, logo estaria no outro túnel.
"Bode! Mandella!" soou uma voz próxima de repente – de uma estrada paralela, pensou ela. Ela desacelerou de imediato, escondendo-se atrás de uma árvore. Segundos depois, três bruxos e uma bruxa apareceram na estrada à sua frente, andando depressa. Um bruxo, um homem de cabelos grisalhos com um cavanhaque, era quem falava, e ele berrava ordens para os outros três. "Peguem essas estradas. Robards, você se junta a Gibbon na extremidade oeste. Ninguém vai embora, ouviram?"
"Sim, senhor," concordou um dos bruxos – provavelmente Robards. Ele começou uma corrida pela estrada na direção de Lily. Os escudos de aparatação devem tê-lo impedido de viajar magicamente para a outra extremidade da estrada, e apesar da escuridão e a árvore colaborarem para protegê-la de vista, enquanto Robards passava e o bruxo grisalho continuava a berrar ordens para os outros dois, a garota encostou-se no tronco e suspirou.
"Merda."
(Calmo)
Como os terrenos ficavam calmos após o escurecer.
Ocorreu a Snape, quando saiu do esconderijo entre as árvores espalhadas a oeste do castelo, que a escola era um lugar muito mais fascinante quando os colegas tinham se recolhido nos dormitórios e salas comunais durante a noite. Sem a conversa ignorante, inútil e maçante dos companheiros, Hogwarts era algo inteiramente diferente. Talvez fosse por isso que ele preferia as masmorras ao Salão Principal, e a biblioteca à sala comunal.
O céu ficava cada vez mais escuro. A lua subiria em breve, e aquele era o momento que Black dissera que ele conseguiria entrar no Salgueiro Lutador.
Severus olhou para o céu que escurecia através da copa das árvores, e sentiu-se sorrir. Estava quase lá agora. Depois de todos aqueles anos, faltavam apenas minutos...
Já conseguia ver a expressão de James Potter quando descobrisse... descobrisse que ele sabia...
(Ideia)
"Merda."
A voz autoritária do auror desapareceu – ele parecia estar caminhando de volta para a rua principal. O outro bruxo e a bruxa, porém, permaneceram onde estavam, e Robards ia em direção ao outro lado da estrada. Como é que ela conseguiria voltar ao castelo?
"Merda, merda, merda…" sussurrou. "Tudo bem. Tudo bem, controle-se, Lily. Acalme-se. Você consegue."
Ela passou os olhos em volta, e então – avistando uma lacuna entre as duas lojas – se esforçou para ter uma ideia. Olhou em volta do tronco da árvore para se certificar de que o caminho estava livre; em seguida, movendo-se depressa, fugiu por entre as duas lojas. Havia uma cerca de madeira adiante, mas uma escada apareceu com o movimento de sua varinha, e Lily subiu, caindo no chão do outro lado com um desconfortável "Ai".
Ela se levantou depressa, fazendo careta ao colocar peso sobre o tornozelo, mas abortando todo pensamento de dor. Não tinha muito tempo.
Saiu do beco e entrou na rua principal, achando-se entre uma residência e uma das lojas de roupa menores. A rua estava cheia de espectadores, todos olhando para o espetáculo na loja dos Harpers. Em meio à multidão que empurrava, porém, ela viu muito pouco, e não podia perder tempo olhando melhor. Enfiou a varinha no bolso das vestes e tentou se deslocar entre a multidão de moradores, todos esticando o pescoço para dar uma olhada melhor no tumulto.
"Todo mundo para dentro!" gritava um auror enquanto corria para cima e para baixo da rua, mas ninguém lhe dava mais atenção do que davam a Lily, que se abaixava em meio à multidão, indo de encontro à maré o mais rápido que podia. "Entrem, entrem!" gritou o auror infeliz, atirando faíscas para o céu inutilmente. "Entrem! Para sua própria segurança, por favor, entrem em casa!"
Cerca de um terço dos espectadores se embaralhou sem entusiasmo de volta aos seus domínios, mas a maioria não. Ainda assim, ficando colada às portas das lojas, a ruiva podia mover-se rapidamente – esperava que rápido o bastante para superar aqueles bruxos de Robards...
Lily tinha sido acotovelada, chutada e pisada antes da multidão começar a diminuir e as lojas tornarem-se escassas. Ali, a estrada se partia em três direções – uma levava ao sul (Lily não sabia para onde), uma levava à Casa dos Gritos, e a última – o caminho que se estendia bem diante dela – levava à Estação de Hogsmeade. O auror enviado para vigiar não chegara ainda, e ela tomou o caminho do meio na carreira.
(Agora)
A qualquer momento aconteceria.
Remus respirou fundo, desejando prestar atenção em qualquer coisa, exceto na transformação iminente. Talvez o mais preocupante fosse a ausência dos outros Marotos – eles normalmente já haviam chegado a essa altura, e ele torcia para que o fato de não terem aparecido não ser uma indicação de problema. Ainda assim, embora não usuais, as chegadas tardias não eram inéditas: eles estariam lá em breve. Sempre estavam.
A poeira estava grossa sobre as tábuas de madeira, e Remus começou a fazer desenhos com os dedos. Draco dormiens nunquam titillandus, escreveu. Em seguida, embaixo disso, acrescentou Moony esteve aqui, e isso o fez sorrir um pouco, porque era o tipo de coisa imatura que Sirius faria. Ele limpou as duas últimas palavras, substituindo-as por Contra Mundum. Abaixo das palavras, gravou um círculo na poeira – a lua, ele supôs, pois ela sempre estava no fundo de sua mente – e então, para distrair a mente das coisas, desenhou dois pontos para os olhos e uma linha curva para uma boca dentro da forma. Era quase oval, na verdade, refletiu.
A Casa rangeu no vento em movimento, e Remus perguntou-se vagamente se choveria de novo. O rosto que desenhara o encarou.
De nihilo nihil, escreveu – era algo que tinha lido antes. Quando moveu o dedo para cima, a poeira do chão agarrou-se a ele, suave como veludo. Se olhasse de perto, poderia ver cada pequena mancha cinza. Por que elas se juntavam daquela forma, afinal?
Remus manteve a mão espalmada, e com a palma borrou a imagem e a maioria das palavras com ela. Desejou estar com o relógio, para que pudesse saber o minuto exato, mas mesmo sem ele, sabia muito bem que o que aconteceria ia acontecer em breve... em minutos. Só faltavam minutos. Seu estômago se agitou em antecipação, e a cabeça latejou. Se ao menos as janelas não estivessem tapadas, poderia ver o céu.
Nihil, agora aparecia em sua inscrição.
Uma dor rápida disparou de seu estômago, e Remus segurou as costelas, gemendo. Dessa vez, a agonia não diminuiu. Ela cresceu e se expandiu, e, com os pés, empurrou-se contra a parede. Uma dor familiar torturou seus ossos, músculos e sua pele. Ele ofegou.
N/T: Significado das palavras em latim. "Contra Mundum", seria "contra o mundo". "De nihilo nihil", seria "do nada"; e "Nihil" seria "nada". Caso algo esteja errado, sintam-se à vontade para me alertar ^^
Estava começando.
Sirius adentrou o dormitório masculino pouco antes das nove horas.
"Onde diabos você estava?" indagou James, pulando da cama imediatamente. Mas o outro ria, e não parecia incomodado com a agitação do amigo. "Moony vai se transformar em alguns minutos! Você está com a capa, certo?"
"Estou," ele confirmou, puxando a Capa da Invisibilidade e largando-a em uma cadeira. Seu andar estava irregular e ele parecia relaxado demais: James percebeu o motivo logo em seguida.
"Você está bêbado?" perguntou ele, suspirando.
"Quase."
"Não é seguro com você bêbado," disse Peter. Ele estivera deitado em sua cama, mas com a chegada do outro se sentou. "Lembra o que aconteceu da última vez?"
"Eu só estou um pouco tonto, só isso," começou Sirius, revirando os olhos. "Obrigado pela preocupação, vô, mas..."
"Tudo bem," interrompeu James. "Vamos conjurar um pouco de café para você..." Ele o fez com um aceno de varinha, e em seguida atravessou o quarto para entregar a taça. "Beba isso. Vamos perder a transformação, mas tudo bem."
Sirius soltou uma grande gargalhada latida. "Nós vamos perder mais do que isso esta noite, Prongs."
"O que quer dizer?" questionou Peter.
O sorriso dele se alargou mais ainda. "Eu sou um gênio," afirmou. James não pôde deixar de sorrir um pouco também.
"O que foi que você fez, Gênio?"
"Eu peguei Snape." Sirius tomou um gole do café. "Eu planejei minha vingança."
"Brilhante," respondeu o amigo. "Mas isso pode esperar para amanhã. Hoje à noite nós..."
"Não, não." Padfoot sentou-se na cadeira sobre a qual colocara a capa. "Eu já fiz. Já está feito. Na verdade…" ele verificou o relógio, "a segunda fase começa a qualquer instante."
Ele queria chegar a Remus o mais breve possível, mas o fato de Sirius finalmente estar sentindo prazer em alguma coisa (qualquer coisa) foi o bastante para distrair James ao menos momentaneamente. Fazia uma eternidade que Sirius não parecia tão genuinamente feliz. James imitou a expressão do amigo e sentou-se também. "Bem, vamos ouvir, então. Qual é a brilhante vingança?"
Sirius tomou outro gole de café, provavelmente para prolongar o suspense. Quando colocara a taça sobre a mesa e deslocara a cadeira para encarar os outros dois propriamente, seus olhos dançaram de alegria. "Eu contei a Snape."
O outros aguardaram, e quando nenhuma explicação se seguiu, James insistiu, confuso: "Você contou o quê... a ele...?"
Sirius suspirou, e então explicou com uma satisfação inconquistável: "Eu dei a ele exatamente o que ele sempre quis. Eu contei a ele como entrar no Salgueiro Lutador."
James não entendeu; seu sorriso não desaparecera direito quando disse: "Não seja idiota, Sirius. O que você fez de verdade?" Mas enquanto as palavras escapavam, ele começou a ler a expressão no rosto do amigo. Não era uma piada.
"Imagine, Prongs!" disse Sirius entusiasmado. "Ele vai descer até lá, passar pelo salgueiro, ver Moony, e – pode imaginar? Pode imaginar a cara dele?" Sirius estava tão absorto em seu divertimento, que literalmente não percebeu a mudança na expressão do amigo.
"Padfoot," ele quase sussurrou, levantando-se. "Você está… você está brincando, certo? Isso é uma piada. Tem que ser uma piada..."
Porque não podia ser verdade…
"O que há de errado com você, Prongs?" zombou Sirius após outro gole de café. "Snivellus vai..."
"Diga que está brincando," ordenou James com os dentes cerrados. Sirius o encarou em desafio.
"Não estou. Eu contei a Snivellus como passar pelo Salgueiro Lutador." Ele notou pela primeira vez que Peter o encarava – não com admiração e divertimento, mas com choque... até mesmo horror. "Qual é o problema com vocês dois?"
James ignorou a pergunta completamente. Ele foi depressa até a janela, olhando para o céu nublado e escuro. "Merda," xingou, pegando a capa da cadeira de Sirius.
"Ei!" protestou Padfoot, ligeiramente deslocado. "Ei, Prongs! O que está fazendo?"
James, já a meio caminho da porta, girou nos calcanhares. "Você contou a Snape?" gritou. "Você jura por Deus que contou a ele como chegar até Moony?" A expressão de Sirius foi a confirmação. "Por quê? O que em nome de Merlin te possuiria para fazer isso?"
Sirius olhou, confuso, para a fúria gélida de James e o medo e choque de Peter. "O que quer dizer com 'por quê?' Você sabe por quê... é Snivellus. Ele..."
"Ele está prestes a ser mordido por Remus!" rugiu James, e o dormitório pareceu encolher. O ar ficou escasso. Além de James, tudo o mais parecia pequeno, silencioso e nervoso, e nunca – em seis anos – Sirius ou Peter o viram assim. "Você tem alguma ideia...? Alguma mínima ideia do que isso significa? Moony poderia ser preso... ele poderia ser morto – qualquer um deles poderia…" Ele fez menção de colocar a capa, mas Sirius o impediu, agarrando seu braço.
"Onde você vai, Prongs?"
"O que você acha? Eu vou descer para impedir isso!"
Como os terrenos ficavam calmos após o escurecer, pensou Lily.
Ela arrastou-se encosta acima em direção ao castelo, cansada e agitada, mas agradecida por ter sorte o bastante para passar pelos portões antes que se fechassem.
O céu estava bastante escuro agora, e a ruiva não tinha energia para se preocupar com como voltaria para o castelo. Tinha o Mapa do Maroto, afinal – ele devia fornecer alguma passagem lá dentro. De qualquer forma, se preocuparia com isso quando estivesse mais perto da escola. Também se preocuparia com o que dizer a James depois, e sobre o que fazer quanto a Luke, e o que dizer a Lathe caso a interrogasse de novo. Depois. Agora não. Agora, só tinha que desfrutar o ar frio no rosto e tranquilidade da paisagem de Hogwarts.
Aconteceu exatamente como Black disse que aconteceria. Severus tocou o nó entre as raízes sem ser espancado até a morte pelo Salgueiro, e, imediatamente – como prometido – a árvore congelou. A abertura estava lá, pronta e esperando por ele, e, tirando a sujeira dos joelhos, Snape mergulhou de cabeça.
A aterrissagem foi brusca e desconfortável, e ele machucou as mãos ao deslizar. Ao fazer uma parada turbulenta na parte de baixo, o sonserino gemeu um pouco, mas ignorou a dor e se levantou aos tropeços. A princípio, teve que se abaixar para não bater a cabeça no teto baixo e irregular, mas um túnel se estendeu diante do rapaz, e, enquanto o percorria depressa, a manobra tornou-se mais fácil.
Severus não tinha ideia de quanto tempo andou pela passagem; escorregou duas vezes, mas mal sentiu, e seguiu adiante com firmeza. Seus pés pareciam correr por conta própria, as mãos estendidas para se firmar, embora não tivesse nenhuma noção da direção. Seu coração batia descontroladamente de emoção.
A excitação, a emoção – só sentira algo parecido uma vez antes, e estivera nervoso e furioso demais para apreciar. Agora, tinha tempo, muito tempo, para saborear.
O túnel ascendeu, cada vez mais íngreme; ele estava quase escalando. Suas meias estavam encharcadas e havia lama debaixo de suas unhas. Mais íngreme, mais íngreme. Deslocava-se depressa demais – suas mãos estavam cortadas. Tudo estava escuro. Escuro, frio e seco.
Então, o caminho parou. Um alçapão baixo apareceu.
Excitação, medo, expectativa – não conseguia respirar.
Então…
"Snape!"
Seu sobrenome soou, ecoou de uma fonte distante, que Severus não precisava reconhecer para identificar. Snape sacou a varinha (quando foi que a guardara?), acendeu-a e olhou à volta. Ainda estava sozinho.
"Snape!"
Podia ouvir passos moverem-se. Tinha que se apressar.
Com a varinha, Severus abriu o alçapão, e empurrou-se para cima pela parede de pedra. A voz no túnel não se repetiu.
O vasto gramado começava a se nivelar, enquanto Lily caminhava rumo ao norte, depois do lago. Hogwarts – com seu cume semelhante a um pedestal – brilhava azul sob a luz da lua, um contraste com as nuvens escuras que rodopiavam à sua volta. Em seu ritmo, a garota ainda estava a cerca de dez minutos de distância, e talvez devesse ter se apressado um pouco, mas Lily temia pensar em tomar as decisões concernentes à sua chegada. Então, com as mãos nos bolsos, prosseguiu se arrastando, com a grande lua branca como sua única lanterna.
Severus se encontrava em uma sala – uma antessala grande, empoeirada e abandonada. As janelas estavam fechadas com tábuas, e ele estava sozinho. Exceto pelo ranger das tábuas ao caminhar cautelosamente sobre elas, a casa ficou tranquila, completamente silenciosa, por alguns segundos.
Então, lá de cima (os degraus estavam frágeis e a maior parte destruída), houve um estampido, e Severus pulou.
Sua varinha estava pronta, ele olhou para a escada, caminhando lentamente naquela direção.
Ele apareceu no topo da escada – cinza, enorme e rosnando. Um lobisomem.
A criatura o viu, não havia dúvida, e Severus sabia por que não atacou de imediato – não havia necessidade. Podia percorrer a distância entre eles em segundos... não havia como Severus alcançar o alçapão antes de o monstro (Remus Lupin!) chegar até ele.
O rapaz ficou congelado por vários segundos, inconsciente a tudo, exceto o monstro no topo da escada, que mostrava os dentes alegremente. Então, várias coisas aconteceram ao mesmo tempo.
No momento em que o lobo começou a se mover – pulando para o primeiro andar – Severus ergueu a varinha para atacar, e, no mesmo instante, uma mão agarrou seu braço, puxando-o com força para trás.
O lobo aterrissou a meros centímetros de onde Sev se encontrava antes. O sonserino caíra com a força com que seu defensor o puxara para trás. Ele deslizou pelo chão empoeirado.
"A porta!" gritou a voz de James Potter.
Automaticamente, Snape tentou protestar, mas logo percebeu que discutir era imprudente. O lobo recuperou o equilíbrio que perdera no salto, e girou uma das enormes patas na direção dos dois bruxos. Potter tornou a puxar Severus, mas dessa vez não o retirou rápido o bastante. As garras do monstro rasgaram sua perna, como se ela fosse feita de seda.
Com um grande som de corte, o lobo se afastou, levando sangue e carne consigo.
Severus gritou de dor, e James o puxou de novo, gritando algo que o sonserino não entendeu.
O capitão abriu o alçapão com o pé e quase jogou a forma inerte e agonizante de Snape dentro do túnel. Remus, o lobo, avançou depressa, e James lançou um feitiço estuporante nele.
O lobisomem parou atordoado, e então caiu no chão com uma pilha, levantando poeira. James pulou dentro do túnel com um Snape gemendo.
Ele respirou fundo, tentando pensar no que fazer em seguida. "Dá para calar a boca?" vociferou o grifinório para Snape. "Estou tentando pensar."
Mas a perna de Snape sangrava profusamente, e ele ignorou James. No fim, ele não tinha muito tempo para pensar mesmo. Um estrondo, seguido por um rosnar, informou-lhes que Remus estava acordado do feitiço estuporante, pois os efeitos eram minimizados devido ao tamanho e à potência do alvo. Em pânico, o capitão agarrou-se na parede de pedra e tentou fechar o alçapão. Estava atrasado.
A pata pesada de Remus manteve a porta de madeira aberta contra o chão da casa. Seus olhos amarelos fixos em James, e ele se preparou para atacar.
"Estupefaça!" gritou o capitão de novo; ele não esperou para ver o efeito. Andou pelo túnel e apontou a varinha para Snape.
"Desculpa, mas não tenho escolha," murmurou, antes de acrescentar: "Estupefaça."
Snape finalmente parou de gemer quando perdeu a consciência. James se abaixou e, com a adrenalina contribuindo na pressa, jogou o sonserino por cima do ombro. Ele fechou os olhos e, por um instante, permitiu que o mundo à sua volta ficasse silencioso ao se concentrar.
A sensação familiar se apoderou de seus músculos, fazendo-os congelar e em seguida se expandir, como se estivesse realizando um alongamento complexo (ampliado dez vezes). Sentiu os cabelos crescerem, fazendo cócegas na nuca, e seu batimento cardíaco desacelerou levemente. Sua temperatura subiu e, por um momento, seus pensamentos ficaram incoerentes.
Em seguida, sua mente tornou a clarear, e ele disparou correndo túnel abaixo, Snape ainda pendurado sobre suas costas. No entanto, enquanto corria, o ruído no chão de pedra não era o dos seus sapatos, mas de cascos.
Lily estava perto agora. Ela retirara o Mapa do Maroto do bolso e estava procurando uma passagem para entrar no castelo. Havia um lugar junto a uma das paredes do pátio que parecia ser o ideal, mas não podia ter certeza até tentar, e não havia indicação de como poderia passar. Se o pior acontecesse, ela poderia conseguir se levitar até a janela do dormitório...
A garota devolveu o mapa ao bolso e continuou a atravessar o gramado. Ela estava em um lugar que qualquer um que olhasse pela janela poderia vê-la facilmente, e se estivessem em um piso inferior, provavelmente conseguiriam identificá-la (bom, o cabelo ruivo não ajudava).
Realmente, Hogwarts era linda à noite – toda ela. O castelo negro, o lago resplandecente, o Salgueiro Lutador completamente parado...
Espera…
Quê?
Nunca, em seis anos, Lily tinha visto o Salgueiro Lutador completamente parado. Relativamente calmo, sim, mas nunca parado.
A cerca de cinquenta metros da árvore, ela parou para se assegurar que tinha visto direito, e tinha. A árvore estava congelada como uma estátua. Confusa, a garota aproximou-se lentamente. Então...
"Que diabos...?"
Algo apareceu na base da árvore, e mesmo à luz da lua cheia, Lily não conseguiu decifrar o que era. Ela se aproximou, e viu uma figura sombria mancar ao surgir pelas raízes, como se o chão a estivesse vomitando para cima. O Salgueiro estremeceu, fazendo a ruiva se assustar, mas antes que começasse a retomar sua típica agitação, os ramos mais uma vez congelaram.
A coisa – Ah, Deus, parecia um corpo – foi completamente expelida das raízes, e Lily estava prestes a se aproximar, quando algo mais apareceu da base da árvore. Era – bem, ela não tinha ideia do que era, exceto que era branco. Muito, muito branco.
Antes que a coisa branca (criatura?) tivesse surgido inteiramente, porém, o brilho em torno dela pareceu desvanecer, e só restou outra figura sombria. No entanto, essa se deslocava com mais facilidade do que a outra, movendo-se ativamente pela grama. O Salgueiro tornou a estremecer, mas a segunda figura parecia golpear a árvore, e ela congelou de novo.
A segunda figura (uma pessoa, um homem, um aluno, ela achou que podia definir assim) levantou-se cambaleando e agarrou a primeira pessoa pelos braços, arrastando-a em direção ao castelo. As pessoas – quem quer que fossem – não viram Lily. Ela abriu a boca, com total intenção de chamar a atenção para si, quando pensou melhor e lembrou-se do mapa. Com as mãos tremendo, a ruiva tornou a tirá-lo do bolso.
James Potter e Severus Snape.
Lily ofegou.
Ela caminhou depressa, praticamente correndo, atrás deles, e mais uma vez ia chamá-los, quando tornou a visualizar o mapa. Um terceiro ponto (que não era o dela) aparecera e estava saindo do Salgueiro Lutador.
Remus Lupin.
Lily girou nos calcanhares. O Salgueiro começou a tremer de novo, e ela não tinha certeza de que estava fora de seu alcance. Porém, ele não congelou como antes, e por um segundo ela se preocupou com Remus.
Espera… Remus? Ele não tinha ido para casa pelo restante do…?
"Lily!"
A voz de James gritou seu nome, e ela se virou. "James, o que diabos está...?"
"Lily," interrompeu ele, pânico, raiva e medo soando em sua voz. "Corra!"
"O que você…?"
Mas ela descobriu exatamente ao que James se referia sem que o bruxo dissesse uma palavra sequer. Um grande uivo arrepiante ecoou pelas terrenos, e Lily olhou por cima do ombro. Na base do Salgueiro Lutador estava – estava alguma coisa... ela não conseguia...
A árvore se debateu, a coisa saltou para fora de sua trajetória, e a garota percebeu exatamente do que se tratava.
As peças se encaixaram. Lily agarrou a varinha e seguiu as instruções de James, disparando em uma corrida na direção dele.
Remus. Lobo. Snape. James. O Salgueiro. Lobisomem. Remus.
Ah, Deus.
James há muito largara a forma aparentemente inconsciente de Snape e, para o horror de Lily, ele agora corria... não para longe do lobo, mas diretamente para ele.
"James!"
"Leve Snape para o castelo e espere por mim!" gritou James ao passar por ela. Lily, ainda a cinco ou seis passos de Snape, parou e virou-se para ver o que James pensava que podia fazer contra um lobisomem (mesmo um que podia ou não ter sido seu melhor amigo), mas James se foi. Em seu lugar, galopando em direção ao lobisomem, estava a gigante criatura branca que ela avistara mais cedo.
Um cervo.
"Merda."
Lily cambaleou na direção de Snape. A perna dele sangrava e ele estava pálido. Ela caiu sobre a grama ao seu lado, tocando em seu rosto freneticamente e murmurando "Acorde, acorde, acorde, Sev, por favor..."
Se estivesse pensando de forma mais clara, teria usado magia, mas a atenção da ruiva estava dividida entre o amigo inconsciente e o lobisomem e o cervo, que pareciam estar fazendo algo entre brincando e lutando, o tempo todo evitando os ataques da árvore. Então, Lily apontou a varinha para Snape e disse, "Wingardium leviosa."
O corpo dele ficou rígido e ergueu-se alguns centímetros do chão. A ruiva levantou-se cambaleando, movimentando um Snape levitado, de modo que ele fosse à sua frente. Eles alcançaram a curta trilha até o castelo, mas ela não prosseguiu. A garota direcionou a varinha – e, por extensão, Snape – até a trilha, baixando-o o mais delicadamente possível perto da parede do castelo mais próxima. Em seguida, ela voltou em direção ao Salgueiro Lutador.
Seu coração saltou quando percebeu que os dois, James (como um cervo) e Remus (como um lobisomem), tinham desaparecido.
"Merda," tornou a xingar. Sua mão disparou para a testa, e ela tentou controlar a respiração. E agora? E agora? Onde estava James? Como foi que ele…? E Remus...? E…
E o mapa.
Lily o arrancou do bolso de novo e procurou algum sinal de James ou de Remus. No entanto, nenhum deles apareceu. Ela ergueu os olhos para o verdadeiro Salgueiro Lutador. Ele estremeceu e em seguida começou a balançar.
É claro – eles deviam ter voltado para debaixo da árvore. James devia tê-lo levado para lá... como um animal, ele não poderia ser transformado... claro... mas Snape – como foi que Snape...?
Lily se virou e correu até a trilha o mais rápido possível. Snape estava como que dormindo na grama, e, ajoelhando-se ao seu lado, ela verificou o ferimento em sua perna, percebendo pela primeira vez o que poderia significar. O sangue martelava em seus ouvidos enquanto ela subia os restos rasgados de sua calça para ver o corte.
Mas não eram marcas de dentes. Eram arranhões.
Lily acenou a varinha duas vezes, conjurando duas toalhas brancas, que rapidamente amarrou em torno da porção da perna que sangrava. Verificou seus olhos, e viu que não pareciam fora do normal... ele não parecia ter desmaiado... parecia mais ter sido estuporado...
O sonserino começou a se mexer, e a garota percebeu o que devia ter acontecido. Ela apontou a varinha para ele.
"Desculpa," murmurou. "Mas acho que você deveria estar dormindo."
Ela não o estuporou, mas lançou um rápido feitiço para dormir em vez disso. Ia durar mais e seria um pouco mais confortável para ele. Em seguida, tornou a checar o mapa. Um caminho se estendia abaixo do Salgueiro Lutador, mas era interrompido antes de alcançar qualquer destino compreensível, e se James tivesse, de fato, guiado Remus por essa passagem, eles já não estariam mais visíveis no mapa.
Lily sentou-se, e passou uma mão pelo cabelo, que estava úmido de suor e preso à sua testa. Nuvens escuras ameaçavam chover a qualquer instante, mas a lua ainda estava bastante visível.
Ela não soube por quanto tempo ficou ali – olhando para o céu – mas provavelmente não foi mais do que alguns minutos. Em seguida, baixou o olhar para o mapa mais uma vez e, para seu alívio, James aparecera de novo. Ela se levantou e esticou-se para vê-lo sair do Salgueiro Lutador, mas sua visão foi ofuscada e ela não o viu até ele estar do outro lado do gramado. Ele ainda estava na forma de cervo, e dessa vez quando se transformou, ela viu acontecer.
A claridade quase iridescente desapareceu primeiro, ficando cada vez mais escura, enquanto os membros e os músculos mudavam de forma; a cabeça diminuiu, a longa juba branca encolheu e tornou-se escura, e o galope transformou-se em corrida. Quando ele alcançou o caminho, havia apenas James Potter, nenhum cervo... nenhum (e o pensamento ocorreu à jovem pela primeira vez) Prongs.
"James," sussurrou ela quando ele os alcançou; o suor em seu rosto brilhava, e suas roupas estavam agarradas. "Você está bem? O que...?"
"Eu deixei a porta aberta," murmurou James distraidamente, ajoelhando-se ao lado de Snape e examinando sua perna. "Foi idiota, mas eu não acho... foi só... enfim, ele escapou e então eu tive que... você que fez isso? Com o ferimento?" Ele apontou para as bandagens que ela conjurara.
"Sim. Mas, James, v-v-você não está sendo coerente. O que houve? Aquilo... aquilo era… o lobo… era…" James ergueu os olhos para ela com expectativa. "Era R-Remus, não era?"
Ele assentiu em silêncio. "Ele está trancado na casa agora," explicou o Maroto vagamente. "Não vai sair de novo."
"Eu não entendo," sussurrou ela, enquanto James removia as toalhas e apontava a varinha para os cortes. "Como foi que Severus o encontrou?"
Ele não respondeu. Em vez disso, perguntou: "O que está fazendo aqui fora, Lily? Você prometeu que voltaria à passagem antes do anoitecer."
"A passagem foi bloqueada pelos aurores," disse ela impaciente. "Como foi que Sev...?"
"Os aurores?" retrucou James, olhando para ela. "Que aurores?"
Lily percebeu o erro, mas era tarde demais. "Os... os aurores no vilarejo." E porque não havia mais sentido em negar por mais tempo. "...os que foram enviados para capturar Logan Harper."
James a encarou. "Foi por isso que você... que você tinha que buscar Harper..."
"Ele estava indo atrás de Logan, eu tinha que..."
"Você mentiu para mim…"
"Não menti!"
"Bem, você me enganou…"
"James, agora não é hora para isso," lembrou-lhe Lily. "E considerando que eu acabei de ver você se transformar num gigante cavalo branco..."
"Cervo."
"O que seja… não acho que devia estar me dando lição sobre honestidade!" Ele ficou calado por alguns instantes, retirando o sangue da perna de Severus com as toalhas de Lily. "Ele devia ir para a ala hospitalar," apontou ela. "Arranhões de lobisomens são..."
"Eu sei," ele interrompeu. "Vou levá-lo para lá. Eu só... eu não quero que pareça tão ruim quando Madame Pomfrey olhar. Eu..."
"James, você está sangrando!"
A ruiva percebeu o grande rasgão na parte de trás de um dos ombros dele – uma clara marca de garras.
"Já tive piores," disse ele secamente. "Mas vou precisar que você me ajude a resolver isso antes que eu leve Snape até Madame Pomfrey. O.K.?"
"Eu não sei como curar arranhões de lobisomem..."
"Então, que bom que eu sei. Pelo menos bem o bastante. Só observe, certo?"
Lily nunca o ouvira falar tão bruscamente – e isso era relevante. Ela observou e escutou James fechar os cortes na perna de Severus, o tempo todo tentando reunir tudo em sua mente.
"Está bem," sussurrou ela, "então, Remus é um... um... um..."
"Lobisomem."
"Isso."
James assentiu desalentado.
"E você é um… um Animago."
Ele tornou a assentir, os olhos fixos em Snape e a expressão sombria.
"Prongs," esclareceu. "Mas… mas eu li o registro. Você não está nele. Então... então você não deve ser… registrado." Ele não se opôs. Moony, Wormtail, Padfoot e Prongs, pensou. Moony, Wormtail, Padfoot e Prongs. "Moony – é… é Remus? Por conta da lua. Porque ele é… Mas, então… Wormtail e Padfoot… são os apelidos de Peter e Sirius. Quê...?" Ela parou. "Eles se transformam também. Como você. É isso?"
James levou um bom tempo para responder. "Peter é um rato," disse por fim. Lily aguardou uma explicação sobre Sirius.
"E… e 'Padfoot?'" incitou.
"Um cachorro," ele quase sussurrou.
A pele da perna de Snape tinha praticamente fechado. Um pequeno ruído vindo do céu anunciava chuva iminente. "Tudo bem," disse ela. "Acho que consigo consertar seu ombro... mas você promete que vai deixar Madame Pomfrey dar uma olhada nele também?"
"Não."
"Mas..."
"Você faz ideia do problema que Remus poderia enfrentar por atacar um aluno, que dirá dois?" retrucou James. Lily o encarou – honestamente, não tinha pensado daquela forma.
"Então, por que está levando Snape para Madame Pomfrey?" perguntou ela. "Sabe que ela vai ter que recorrer a Dumbledore."
James gesticulou para que ela fosse consertar seu ombro, e ela obedeceu. "Há dois motivos," disse ele sério. "Um, Snape viu Remus. Ele sabe como passar pelo Salgueiro e entrar na Casa. É tarde demais para fazer alguma coisa quanto a isso. A segunda... bem, olhe para a perna dele."
Lily tirou os olhos do trabalho que fazia com a varinha e olhou para o que ele fez. O corte de Snape estava muito lentamente tornando a se abrir, e algumas gotas de sangue escorriam por ele. "Por que está fazendo isso?" perguntou ela, em pânico.
"Tem que ficar fechando os cortes por um tempo," disse ele enquanto começava a trabalhar na perna de Snape de novo. "São ferimentos amaldiçoados."
A ruiva terminou de fechar o ombro de James. Ela acrescentou algumas ataduras por precaução e costurou as vestes dele com magia. "Tem que deixar Madame Pomfrey dar uma olhada nisso," insistiu, mas ele sacudiu a cabeça.
"Peter pode consertar o meu," disse ele. "Confie em mim... temos muita prática." O Maroto se levantou. "Lily, acho que não preciso dizer isso, mas... o que você viu hoje, não pode contar a ninguém."
Ela assentiu. "E quanto a Sev…?"
"Sinceramente…?" James baixou os olhos para o sonserino e suspirou. "Não faço ideia."
Começou a chover.
"Volte ao dormitório," James meio que ordenou. "Eu vou levá-lo à ala hospitalar."
"Você não precisa de nenhuma…?"
"Você pode entrar no pátio oeste com bastante facilidade. A porta destrava com o encantamento magnus aperio."
"James…"
Mas antes que ela pudesse terminar o que queria dizer, eles foram interrompidos.
"Aí está você, Prongs," disse Sirius Black ao se aproximar. "O que está... Evans, o que você está...?" Ele notou Snape e parou. Lily viu a rosto de James ficar mais e mais pálido.
"É melhor ir embora, Lily," disse ele, sem tirar os olhos do amigo.
"James, o que é…"
"Lily."
Seus olhos avelã brilharam perigosamente, e a ruiva era esperta o bastante para discutir. Puxando o capuz para se proteger da chuva, ela se virou e partiu.
"Prongs…" começou Sirius quando estavam sozinhos; ele deu um passo adiante, mas James se afastou.
"Não," retrucou. "Não, fique bem longe de mim, Sirius!"
A chuva ficou mais barulhenta e pesada, e o capitão encarou friamente seu companheiro Maroto, que parecia atordoado demais para falar.
"James…"
"O que diabos você estava pensando?" interrompeu o outro. "O que diabos estava planejando? Matar Snape? Assassinar Snape? Colocar Remus em mais encrenca do que consigo sequer imaginar… Evans estava aqui fora – ela poderia ter sido... Snape poderia ter... Você iria... Porra, Sirius, o que estava pensando?" E sua voz suavizou ligeiramente no final, de modo que Sirius teve coragem de chegar mais perto.
"Eu não estava pensando… eu só... não sei, eu estava... Regulus, e..."
"E a pior parte," disse James com amargura, como se não tivesse ouvido o outro com suas tentativas fracassadas de articular um pensamento. "A pior parte é que eu realmente pensei que você fosse diferente... diferente de Snape, dos sonserinos, da sua maldita família. Eu pensei... eu pensei que você fosse um de nós. Mas eu estava enganado, não é? Você não é diferente. Você é exatamente como eles."
"Cala a boca," ordenou Sirius. Futuramente, ele jamais saberia dizer o que o fez dizer o que disse em seguida, exceto a raiva e o medo que estiveram fervendo dentro dele por muito tempo. Ele sentiu uma chave procurar a fechadura em sua mente, e enquanto as palavras se formavam em seus lábios, podia ouvir o clique de uma porta se abrindo. Ele sabia o que estava dizendo, e podia ver a raiva nos olhos de James antes que aparecesse neles, mas já estava ultrapassando o limite e passando do ponto de retorno. "Não pode dizer isso, James. Não finja que se importaria com Snape se não fosse por ela. E só porque está preocupando com o que ela pensa, você não pode..."
Um simples movimento, sério; o simples movimento fluído de seu braço, armado para trás e impulsionado para frente com a adrenalina como combustível, até sua mão firmemente em punho entrar em contato com o rosto de Sirius.
Sirius cambaleou, tropeçando e escorregando de costas – sobre a grama molhada. James não olhou para onde seu melhor amigo caiu. Snape estava acordando novamente. O Maroto pegou o sonserino delirante.
"Fique bem longe de mim," repetiu ele por cima do ombro, antes de partir para o castelo.
Água gelada em seu cabelo e uma dor embaixo de seu olho esquerdo.
As últimas palavras de James desapareceram em sua mente, e Sirius não ouviu nada além de uma batida pesada em seus ouvidos: as batidas de seu coração. Água gelada em seu cabelo e uma dor embaixo de seu olho esquerdo. Lentamente, a água escorreu por seu pescoço... seus ombros também estavam molhados... o colarinho de suas vestes... a grande lua branca ameaçadoramente suspensa em meio às rodopiantes nuvens acinzentadas e um céu negro sem estrelas.
Já estivera ali antes.
Fique bem longe de mim.
Era o sonho… o sonho do afogamento.
Matar Snape? Assassinar Snape?
Sirius esperou. Esperou a água submergi-lo e envolvê-lo.
Você não é diferente. Você é exatamente como eles.
Ele aguardou deslizar para baixo da superfície, afundar, afogar-se.
Brilhante. Perfeito. Adequado.
Ele esperou e esperou. A chuva deslizou por seu rosto.
Na base da árvore, há uma abertura nas raízes...
Brilhante. Perfeito. Adequado.
Fique bem longe de mim.
Ele esperou a água submergi-lo. Esperou a grama desaparecer, como desaparecera em seu sonho, e a água tragá-lo. Seu olho latejou, suas costas doeram. Esperou afundar e se afogar. Esperou a água engoli-lo, mas não aconteceu.
Era só a chuva.
N/A:
Reviews são como o verão!
Amor e biscoitos,
Jewels
N/T: Olá, gente! Ainda tem alguém ai? Rsrs Finalmente capítulo novo no ar, eu amo esse capítulo! A dinâmica da brincadeira com o Snape envolvendo a Lily e a descoberta dela sobre o segredinho peludo do Remus + a questão dos animagos é muito eletrizante! Cada vez mais a fic tomará um ar sério de guerra, de tempos sombrios. E a amizade Sirius/James vai ficar balançada por alguns capítulos, o que é torturante para quem os ama (todos nós né?) rs :) Bom, vou responder os comentários sem login. Beijos e me alegrem com reviews! ^^
Jlia: Obrigada, querida! Mais um motivo para comemorar, rsrs É um prazer traduzir essa fic, amo amo amo! Beijos!
Gui: Olá! Desisto não rsrs Pode ficar tranquilo. O tempo é curto, são quatro traduções, mas a gente vai desenrolando rsrs Beijos!
Dafny: Sirius e sua impulsividade. Acho que ele não pensou no que poderia acontecer, teve uma visão microscópica da coisa e quase ferrou tudo rsrs Mas não seria Sirius se fosse alguém consequente né? hahaha Beijos e obrigada!
Lais: Também acho, por isso a escolhi para traduzir rs E, sim, não é simples, tem coisa que eu preciso decifrar para colocar em português, mas é gratificante devido a meu status de fã de TLAT rsrs Por nada! E obrigada por comentar! Beijos!
gui: sim! Cada vez mais emocionante rs Lily e Snape é uma relação falida, não tem mais volta. LJ infelizmente vai demorar, mas têm cenas fofas já escritas pela Jules rs Obrigada por comentar! Bjs!
F: Oi! Desculpa a demora, mas aí está o James salvando o Ranhoso ingrato rsrs Eu também me surpreendo com a forma que a Jules coloca os acontecimentos para darem certo com o pouco de informação sobre a Era dos Marotos que temos nos livros, e acho que ela o fez de forma fantástica! A motivação que ela deu para uma brincadeira tão perigosa ficou excelente. Não temos Marlene e Adam nesse, mas nos próximos, sim. Obrigada pela review, aguardo a próxima rsrs Beijos!
EstelaBlack: rsrs Não sou eu, foi a Jules que parou na hora boa! Não posso dizer que a Marlene satisfará nossos desejos, infelizmente. Mas todo o drama tem o fim esperado uma hora né? hahaha Beijos e obrigada!
Tange: aqui! Rsrs Beijos
