Adaptação da obra literária "Se nada der certo até os 30, casa comigo?", de Karina Halle.


CAPÍTULO DEZENOVE


EDWARD

HÁ UM PROBLEMA.

Há uma porra de um problemão.

Eu tinha acabado de pôr uma vasilha na lava-louças quando ouvi uma batida na porta. Considerando que Isabella me deixou há uns três minutos, supus que ela tinha esquecido alguma coisa. Talvez, meu cérebro quer acreditar, ela tenha voltado para mais uma rodada, não consegue se saciar de mim.

Abri a porta, pronto para dizer exatamente isso ("Quer mais, baby?"), mas fico muito feliz de não tê-lo feito.

Jacob Black está parado do outro lado.

– Hã – digo, tentando encontrar as palavras, mas tudo o que consigo pensar é: Será que ele viu Bella saindo? Será que suspeita? Por que está aqui? Existe alguma possibilidade de eu bancar o relaxado neste exato momento? De qualquer modo, tento: – Oi, Jacob.

– Oi – ele diz. Está com a voz grave. Não parece bravo, o que é uma boa coisa. Mas parece nervoso. Ainda mais quando baixa o olhar e se encolhe. – Talvez você devesse vestir uma calça.

Sorrio, subitamente consciente de só estar de cueca boxer. Isso não costuma ser nada de mais, mas, como acabei de pensar em Bella, sei que estou um pouco duro.

– Desculpe – digo depressa e dou meia-volta, não sem antes fazer um gesto para ele entrar. – Entre. O que há, cara?

Vou até o quarto e procuro sinais de Bella. Ela é ótima em não deixar suas coisas por aqui; não consigo nem convencê-la a deixar uma escova de dentes, ela a traz em uma de suas milhões de bolsas. Visto um jeans e volto para a sala.

– Festa maluca ontem à noite – Jacob diz ao fechar a porta de entrada.

Agora meu cérebro está disparando a cada entonação da sua voz. Será que Rosalie contou alguma coisa? Ele teria visto alguma coisa?

– Mas divertida pra danar – digo a ele.

Vou até a geladeira com toda a segurança possível no andar. Apenas mais uma manhã de sábado aqui, nada do que suspeitar. Meus olhos varrem a sala, procurando uma calcinha vermelha que sei que arranquei de Bella há poucos dias.

– É, foi.

Trago um suco de laranja e o balanço para ele:

– Quer um pouco?

Ele sacode a cabeça. Olho-o com mais atenção, ele não parece muito bem. Está mais pálido e tem olheiras profundas.

– Você está bem? – pergunto, acrescentando: – Ressaca?

Ele confirma com a cabeça e me encara. Seus olhos estão muito sérios, muito escuros.

– É, ressaca. Bebi feito um gambá.

– Quem não bebeu? – digo, me servindo de um copo de suco. – Mas não dá para entrar no clima de fim de ano sem beber.

Jacob nem mesmo sorri. Só me olha fixo, e quase posso ver a escuridão rodopiar dentro dele. Meu couro cabeludo se arrepia de desconforto.

– Terminei com a Leah.

Pisco, surpreso, mas não surpreso:

– O quê? Por quê?

– Ontem à noite, depois da festa. A gente brigou.

Mordo o lábio, pensando, e digo:

– Bom, só porque vocês tiveram uma briga, não significa que deveriam terminar.

– Você estava apaixonado pela Tanya? – ele pergunta.

Sou pego um tanto desprevenido, e imediatamente me vem à lembrança minha conversa com Bella ontem à noite. Ela me ama. Baby Blue me ama.

– Edward?

– Desculpe. – Sacudo a cabeça e tomo um gole de suco. – Não, não estava apaixonado por ela.

– E você sabia disso.

– Sabia. Quis pensar que poderia mudar, chegar a isso, acho. Mas não. Eu não estava apaixonado por ela.

– E aí você terminou com ela.

– Exatamente.

– Então é a mesma coisa. Não amo Leah.

Não posso deixar de sentir que meu rosto cede um pouco.

– Mas vocês dois ficam tão bem juntos. Ela é tão legal, é divertida. Ela te deixou mais divertido.

– Eu sei, e por isso foi tão difícil. Sabe, andei pensando sinceramente nisso durante seis meses.

– Seis meses? – exclamo. – Você andou querendo terminar com ela durante seis meses?

Ele dá de ombros e desvia o olhar, envergonhado.

– Assim como você, achei que as coisas mudariam. Porque ela é divertida, e a gente se dá muito bem juntos, e eu me preocupo com ela. Muito. Ela é perfeita em inúmeros aspectos. Mas não estou apaixonado por ela. Quando olho pra ela, não sinto aquela vertigem.

– Vertigem?

– É – ele diz baixinho e volta os olhos para mim. – Da maneira que fico quando amo alguém. – Ele lambe os lábios. – Olhe, Edward, preciso te contar uma coisa.

– Por favor, não me diga que você está apaixonado por mim, Jacob. Você não é meu tipo.

– Você também não é meu tipo, cara de cu.

Sorrio, mas seu rosto fica tenso, as sobrancelhas baixas. Por favor, por favor, por favor, faça com que ele diga o nome de alguma mulher qualquer.

– Estou apaixonado por Isabella.

Não.

Não, não, não, não.

Tenho a sensação de que há um vácuo dentro do meu peito. Um vazio preto, seco, é tudo o que restou.

– Você o quê?

Mal consigo falar, mas deveria poder falar. Eu deveria saber que isso iria acontecer. Eu sabia que isso iria acontecer.

– Estou apaixonado por ela – ele repete.

Enquanto a minha voz ficou mais fraca, a dele ficou mais forte. Seus olhos têm uma determinação de aço, como se, ao me contar isso, ele estivesse tornando a coisa mais real para si mesmo.

– Estou surpreso por você nunca ter percebido.

– Não – digo-lhe.

Limpo a garganta, tentando absorver a coisa toda. Não posso me mostrar magoado, não posso agir como se houvesse esta pedra de gelo de profundo desespero nas minhas entranhas, o tipo que impede que se respire direito.

– Acho que isso é bom – ele diz.

– Então... – começo. – Sinto muito. Eu só... Há quanto tempo você está apaixonado por ela?

Ele suspira:

– Sabe de uma coisa, cara? Não sei se algum dia deixei de estar. Quando ela terminou comigo, aquilo me deixou mal. Eu estava muito apaixonado por ela e, olhando em retrospecto, sei por que ela fez isso. Eu era um puto de um imaturo. Nós dois éramos, mas eu estava agindo como um verdadeiro moleque, entende? Acho que era por ela ser meu primeiro amor de verdade, mais do que só uma transa. Mas, puxa, Edward, eu não fazia ideia do que era sexo.

Travo a boca, o maxilar tenso.

Ele vai em frente:

– Ela é uma maravilha na cama. Já era e continua sendo.

– O q-quê? – Meus pulmões murcham.

Ele me abre um sorriso. É um sorriso de satisfação, e quero dar um murro naquele maldito rosto.

– É, no aniversário de 29 anos dela. Lembra quando você estava no hospital com a Tanya?

É, é. Eu me lembro.

– Bom, eu não queria que ela passasse o aniversário sozinha. Então, fui até a loja. As coisas saíram um pouco do controle. A gente acabou fazendo sexo bem ali, na loja. Que tal isso, hein?

Minha visão está sendo invadida por pontos escuros. Parece que tudo o que ele disse vem de um sonho, de algum pesadelo. Não é real. Isabella não dormiu com Jacob no seu 29o aniversário.

– Ficou chocado – Jacob comenta. – É raro chocar o grande Edward Cullen. Acho que esta é a minha primeira vez. – Ele me lança um sorriso bem maldoso e continua: – Seja como for, o sexo foi incrível. Sabe, aquela coisa eu-ainda-quero-você-e-tenho-que-ter-você. Ficou uma puta duma bagunça, comida por todo canto, bebida derramada. Transei com ela bem ali no chão, ela de quatro, e ela adorou, Edward, adorou.

Tudo o que sinto é raiva. Uma raiva ensandecida, ardente, dolorosa. Uma raiva furiosa, descontrolada, procurando um destino, queimando dentro de mim, me comendo vivo. Vou acabar fazendo alguma coisa estúpida, sei disso, sei disso. Não consigo evitar. Ele é meu melhor amigo e quero matá-lo. Simplesmente matá-lo. De alguma maneira, contudo, engulo minha fúria às cegas, até que ela queima minha garganta, e abro um sorriso.

– É, parece ótimo. – Respiro em pausas. – Foi só essa vez?

Seus olhos demonstram desânimo:

– Foi. – Minha raiva se enfraquece. – Mas foi o que me fez perceber que ainda não a superei.

– Isso é muito tempo pra ficar fantasiando com sua melhor amiga – digo-lhe, depois tomo o restante do suco.

Estou tentando pensar em como agir, o que ele espera de mim. Será que o Edward que ele pensa que sou, aquele que ainda vê Bella apenas como amiga, tem algum interesse por essa história? Acho que um pouquinho ele teria.

– Bom, o que você vai fazer quanto a isso? – pergunto. – Você terminou com Leah, mas, enquanto estiver alimentando esses sentimentos, nunca vai chegar a lugar nenhum. Não está preocupado em estragar a amizade? Sabe se ela sente a mesma coisa em relação a você? Porque, sei lá, cara... Ela está com uma vida bem intensa no momento, e pelo que sei não parece pensar em você da mesma maneira. Sem querer ofender nem nada.

Um olhar frio e calculista surge nos olhos de Jake:

– Edward típico.

– Edward típico? – repito.

Ele tamborila os dedos na mesa:

– Sabe o que de fato me deixou puto? Quando você fez aquele pacto com ela.

Aquela merda de pacto.

– Por que aquilo tinha que te deixar puto?

Ele me dá uma olhada:

– É óbvio que agora você sabe o porquê. Mas lá vai você, dizer pra garota por quem estou apaixonado, minha ex-namorada e nossa amiga, que vai se casar com ela se vocês dois estiverem solteiros aos 30 anos.

– Eu não sabia que você estava apaixonado por ela – admito baixinho.

– Teria feito diferença?

– Teria! – digo. – Claro que teria.

Ele me olha com desconfiança:

– Ah, claro. Você sempre tem que ir atrás do que me pertence. Jamais você pode me deixar ter alguma coisa por mim mesmo.

– De que merda você está falando? – pergunto, guardando a embalagem do suco de volta na geladeira. – Foi um pacto inofensivo.

– Eu sei que você não pretendia nada com isso. Mas isso me deixa ainda mais puto. – Ele me dá um sorriso ácido. – Sabe, agradeci aos céus por tê-la visto primeiro. Por tê-la contratado. Por tê-la convidado pra sair. Eu não ia deixar você ter mais nada que não precisasse. Você consegue tudo, Edward. Tudo vem pra você de mão beijada, o tempo todo. Mas com ela não foi assim.

Fecho os punhos e depois relaxo:

– Por que você não me conta como se sente de verdade?

– E aí vem você com seu jeito descontraído, como se estivesse pouco ligando, porque você está pouco ligando. Pra todo mundo, menos pra você.

– Você veio até aqui pra me dizer que está apaixonado pela Bella ou isso foi só uma desculpa pra soltar todo o ressentimento que sempre guardou?

Ele suga por entre os dentes. Depois, seus ombros relaxam um pouco.

– Não. Vim aqui pra te contar sobre ela. Todo o resto... meio que me escapou.

Cruzo os braços com força sobre o peito, e uma intensa mistura de raiva e mágoa me percorre por dentro.

– Então, tem mais alguma coisa? Vamos lá, eu aguento. Claro, não ligo pra nada a não ser pra mim mesmo.

– Você não faz ideia do que é ser como eu. Ter que trabalhar pesado a vida toda pra avançar um pouquinho. Cresci pobre. Tive uma porra de um pai bêbado e uma mãe inútil. Lutei pra ter tudo o que tenho. Não é fácil ser seu amigo, Edward, quando você recebe tudo fácil. É por isso que a Isabella é tão especial pra mim. Ela é mais minha do que sua.

– Isso não é verdade – digo, trincando os dentes.

– O quê?

Engulo com dificuldade e respiro fundo:

– Ela é amiga de nós dois há anos.

– Mas eu sou o único que transei com ela, que conhece ela de verdade.

Não é verdade. Mas cerro a boca. Em parte quero contar, quero machucá-lo por todo o ressentimento que ele vomitou à minha frente. Em parte, porém, concordo com seu ressentimento. Essa parte vê o lado dele. Essa parte sabe que sou culpado.

– Você nunca esteve com ela, esteve Edward?

A pergunta me deixa perplexo. Nunca pensei que ele fosse de fato me perguntar isso.

– Com Isabella?

Ele assente devagar:

– Hã, hã. Parece uma pergunta idiota, mas a julgar pelos beijos que vi... Ah, você pode dizer que era um desafio ou que foi pras câmeras, mas não ficaria surpreso se você fosse o tipo de cara que daria um passo à frente.

Eu sou esse tipo de cara. Puta merda, sou uma pessoa horrorosa.

– Porque – ele continua olhando os dedos que tamborilam mais devagar –, se você fosse esse tipo de cara, eu teria o direito de saber. E nunca mais falaria com você. Seria como se você nunca existisse. Sabe aquele ditado: mulher de amigo meu pra mim é homem? Há uma verdade nisso. A gente não fode os amigos. E também não mente a respeito. Então, Edward, que tipo de cara é você? Um amigo? Ou o outro tipo?

Tenho que responder. Tenho que dizer alguma coisa. Não tenho tempo para avaliar a opção correta. Só posso ganhar tempo.

– Sou seu amigo, Jacob – digo-lhe. – Nunca estive com a Bella. Ela é toda sua.

Em seu rosto surge aos poucos o maior e mais luminoso sorriso. Parece uma criança no Natal. Isso não me deixa nem um pouco aliviado. Faz com que eu me sinta bastante deprimido. Acabei de mentir, menti abertamente pro meu melhor amigo. Acabei de destruir uma coisa linda com minha melhor amiga. Porque, agora, sei que não posso estar com Isabella, não depois do que acabei de dizer. Não podemos continuar dormindo juntos e não podemos mais dizer a verdade. Terei que terminar com ela.

Meu peito fica desolado, como se o fundo tivesse caído. E caiu de fato. Não posso terminar com ela. Não posso. Não posso. Não posso.

– Desculpe se fui um pouquinho duro – Jake diz, ainda sorrindo. Estou sorrindo de volta, mas é o sorriso mais fingido, mais rígido, que já atravessou o meu rosto. – Os amigos enfrentam merda o tempo todo. Acho que guardei alguns ressentimentos contra você que na verdade eu não sabia.

Concordo com a cabeça, sem sentir nada além de uma perda profunda e contundente.

– De qualquer modo, isso me faz sentir melhor. Você não faz ideia de como foi difícil não te contar antes, guardar este segredo, mas eu queria ter certeza de que fosse real. E é.

É como se ele tivesse mudado da noite pro dia.

– Você vai contar pra ela? – pergunto, com a voz um pouco rouca.

Ele reflete por um instante, inclinando a cabeça.

– Não sei. Acho que preciso jogar minhas cartas direito. – De repente, ele fica alerta, e seus olhos voam para os meus: – Você não pode contar pra ela, Edward.

– Não vou.

– Não – ele diz, e estica o dedo mindinho. – Esta é a coisa mais estúpida que eu conheço, mas sei que você leva a sério. Você não pode contar nada pra ela. Jamais. Fica só entre nós dois, como amigos, como irmãos. Faz parte daquela porra de código entre irmãos, entende? Promete? Juramento de honra? Você não vai contar nada pra Isabella sobre o que a gente conversou hoje. Nem quero que ela saiba que você soube da nossa transa, o.k.?

Estico a mão devagar. Por pura culpa me forço a enroscar o dedinho no dele. Ele dá uma sacudida nos dois.

– Ótimo. – Suspira alto. – Agora posso respirar. Cara, eu estava morrendo de medo de te contar tudo isso, que você me achasse louco. Só que agora me sinto muito melhor. Achei que ia ficar arrasado de novo, mas agora sinto que talvez, talvez, a gente tenha uma chance. Ou seja, terminando com Leah, a Bella solteira de novo, e o fato de termos dormido juntos no ano passado... Pode ser que eu tenha mesmo uma chance.

Resmungo alguma coisa em concordância, me sentindo zonzo e desorientado.

Minha cozinha roda à minha volta, e a sensação de dor no meu coração não vai parar. Não vai parar.

– Então – Jake diz, levantando-se. – O que você vai fazer hoje? Quer ir pra Union Square? Preciso fazer umas compras de Natal. A gente podia ir tomar café no Blue Bottle.

Não quero passar nem mais um minuto com ele. Mas também não acho que posso ficar sozinho. Bella está na loja, então não posso nem mesmo falar com ela sobre isto.

– A gente pode tomar umas cervejas em vez de café? – pergunto.

Ele dá de ombros.

– Pra rebater a ressaca, claro. – Ele vai em direção à porta, e depois me olha de cima a baixo. – Você deveria vestir uma camisa, não precisa de uma multidão de mulheres te perseguindo. Ou talvez precise. Com quem, diabos, você anda trepando?

– Ninguém com quem você tenha que se preocupar – digo.

Visto uma camisa e uma jaqueta e vou para a porta.

Ninguém com quem ele tenha mais que se preocupar.

•••

Não sei como enfrento o movimento das compras de Natal, com Jacob, dentre todas as pessoas, e hoje, dentre todos os dias, quando a porra do meu mundo parece se esmigalhar à minha volta pela força de minhas próprias mãos, mas consigo. Ele volta a seu estado mais animado, salvo por alguns xingamentos bem colocados, desferidos contra os compradores natalinos.

Não converso muito. Não consigo. Não me atrevo. Estou perdido nos meus pensamentos e na culpa, senão por ter mentido a Jake, pelo que terei que dizer a Isabella. Estou numa encruzilhada em que nunca quis estar, aquela na qual é preciso escolher entre duas pessoas que você ama.

Jacob é mais meu irmão do que Emm. Jacob, com todos seus defeitos, é leal, e nunca tive esse tipo de lealdade. Jacob tem sido um grande amigo ao longo dos anos, e nunca fodeu comigo. Eu, ao contrário, fodi com ele. Ele pode não saber, mas fodi. Fodi quando fui atrás de Isabella, mesmo suspeitando de que ele pudesse estar apaixonado por ela. Fiz isso porque a desejava, e meus desejos eram mais importantes do que os dele. Ele nunca faria isso comigo. Mas eu faria isso com ele.

E depois tem Bella. Quando penso nela, as palavras não vêm porque ela é dona do meu coração. Ela faz com que seja muito fácil ser o cara que fode com seu melhor amigo. Ela faz com que eu sinta que não preciso de mais ninguém no mundo além dela. Ela é o meu mundo, e eu disse que a seguraria com força, que não a deixaria escapar.

Cá estou eu, porém, indo para sua loja depois de me despedir de Jake, e estou prestes a deixá-la ir. Só posso esperar que fique. Só posso esperar que possamos passar por isto, que não tenhamos que nos separar. O fato de ela ter dormido com Jacob no seu aniversário, de não ter me contado, é um golpe enorme; ainda assim, sei como ela se sente em relação a mim, a maneira como me olha. Ela me ama.

Nunca senti nada mais verdadeiro.

Por causa disso, sei que ela não vai optar por Jacob. Sei que não está interessada, que não a perderei para ele nesse sentido. Mas posso perdê-la por causa dele. Preciso que ela entenda que nem mesmo sei o que dizer, porque jurei que não lhe contaria como Jacob se sente.

O que significa que terei que terminar e ponto. Vou ter que fazer aquele joguinho de amigos e espero que possamos voltar a isso. Porque não sei o que faria se fosse embora de verdade. Se ela saísse da minha vida. Simplesmente não sei. Sei, contudo, que não poderia lidar com isso. Não sobreviveria. Como sobreviver quando todo o seu mundo acaba?

Chego à loja às seis da tarde. Todas as luzes estão apagadas, exceto a dos fundos, e penso que talvez ela já tenha ido para casa. Então, vejo sua sombra. Respiro fundo e bato à porta. Pouco depois ela aparece, sorrindo feito um anjo.

Não posso fazer isto. Não tenho como fazer isto.

Ela destranca a porta e a abre. Entro com uma lufada de frio, de ar úmido da rua.

– Brrrr – ela diz, tremendo ao fechar a porta. – Finalmente, agora está parecendo Natal. – Ela olha as sacolas da Nordstrom que estou segurando. – Ah, são pra mim?

Na verdade, são. Apesar de tudo, ainda acabei lhe comprando alguma coisa, além de presentes para sua família. Acho que dentro de mim ainda tem um babaca otimista, que pensa que talvez o mundo continue existindo.

– São – digo-lhe.

– O que há de errado? – ela pergunta, me analisando. Fica na ponta dos pés e me beija no rosto. – Você parece... melancólico.

– Melancólico?

– É. Foi às compras hoje? Isso dá pra deixar qualquer um deprimido.

– Você não – observo, atravessando a loja e enfiando as sacolas no canto para que ela não fique xeretando.

– Não, mas sabe de uma coisa? Prefiro muito mais comprar on-line. Não é preciso lidar com... pessoas.

Não posso deixar de sorrir:

– Palavras curiosas vindas de alguém que lida todo dia com clientes.

– É – ela diz. – Mas agradeço aos céus a parte on-line. Sabe, andei pensando. Se minha loja on-line acabar sendo mais popular do que o varejo, acho que vou fechar esta merda.

Isso, pra mim, é novidade, mas ela parece muito séria.

– É mesmo? Mas você entrou de corpo e alma nesta loja. – Aponto todos os pequenos detalhes e toques de acabamento que ela mesma colocou. – Seu amor por este lugar está por toda parte.

– Eu sei – ela diz. – Mas eu também amo a loja on-line. Ainda será amor, só que de um jeito diferente, só isso.

Olho fixo para ela perante essas palavras. Ela pode conseguir passar de amar uma loja de tijolos e cimento para uma feita de bytes e pixels, mas não posso passar de amá-la deste jeito para amá-la como amiga. Não será a mesma coisa. Não vou sobreviver.

– Edward? – ela pergunta. – Você está ficando melancólico de novo. Olhe, não é certeza que farei isto. Mas eu seria louca se não fizesse. Posso administrar a loja on-line sozinha e, se precisar de ajuda, será muito mais fácil contratar alguém para um depósito, para embalar e enviar, do que para atendimento ao cliente. Muito mais fácil. Contratar alguém é de doer. Além disso, ganharia mais dinheiro sem ter que pagar luvas ou um aluguel alto pra caramba. E, você sabe, se não tivesse me empurrado pra começar a dar uma olhada nas minhas opções, eu nem teria pensado em ter uma loja on-line.

Ela vem até mim e pressiona um dedo delicado entre as minhas sobrancelhas.

– Pare de franzir o cenho. Parece que tem alguma coisa pra me dizer. Diga.

Não posso fazer isto. Não esta noite. Preciso saber do que estarei me despedindo antes de me despedir.

– Eu te amo – digo. Agarro seu rosto nas mãos, e olho profundamente nos seus olhos. – Te amo demais. Todas estas palavras não bastam.

Seus olhos brilham na penumbra:

– Eu também te amo, caubói. – Ela pega na minha mão e a coloca no peito. – Bem aqui. Dois corações.

Fecho os olhos e encosto a testa na dela. Quero continuar, apenas seguir em frente.

– Vamos fazer alguma coisa especial esta noite – murmuro. – Tem alguma coisa que você queira?

– Qualquer coisa? – ela considera. Passa os braços em volta da minha cintura e me olha. – Bom, você sabe, gosto de traçar você. Poderia traçá-lo num estilo especial.

Sorrio:

– Não tenho dúvidas. Mas antes. Qual é a entrada?

Ela lambe os lábios, pensando.

– Venha comigo – digo.

Apanho os pacotes e a pego pela mão. Meia hora depois, estamos no alto de Hawk's Hill, olhando a baía e a Golden Gate. Eu costumava trazer as meninas aqui quando era mais novo, e elas suspiravam perante a vista. Hoje à noite, não tem ninguém. Está frio e o vento está aumentando, mas desloca a densa camada de nevoeiro abaixo, o que faz com que, de vez em quando, apareça a extensão laranja-avermelhada da ponte, antes de ser mais uma vez encoberta até o topo.

Tiro uma garrafa de vinho tinto e duas xícaras de café que peguei no posto de gasolina, e sirvo para nós dois um merlot de segunda. Sentamos na pedra e assistimos ao espetáculo. A vista é tão poderosa quanto possível, e o nevoeiro resplandece com as luzes da cidade, como um sol radioativo.

– Isto é maravilhoso – ela diz baixinho.

Viro-me para olhar para ela. Ela é maravilhosa. Seu nariz perfeito, os lábios expressivos, e aqueles olhos reveladores que ainda me deixam sem fôlego. Nove anos depois e ela ainda tira o meu fôlego. Agarro sua mão com força.

Mais tarde, vamos para sua casa e fazemos amor de um modo lento, apaixonado e intenso. Ela grita ao gozar, e sinto como se tivesse lhe dado cada parte de mim sem nunca querer de volta. É para que ela as guarde. Ela se enrodilha em mim, e eu a abraço ainda mais forte.

Vou deixar para amanhã.


Esse Jacob é um cuzão. E o Edward é um bobão. Tadinha da Bella...