Você e suas curas
(23 de Dezembro de 1996)
Senti-me menos aliviado do que imaginei que ficaria quando finalmente pude me afastar dos bosques e dos olhares desconfiados dos outros lobisomens. O inverno começara já cheio de forças, congelando a água que ficava presa nas folhas das árvores, decorando a floresta com cristais de gelo e não havia casacos de pele quentes o bastante para espantar o frio ao relento. Lembrei de uma tarde antiga, nos fundos do casarão, com neve e risos. Parecia ter acontecido em outra vida.
E aceitei o convite de Molly para passar o natal n'A Toca, sem desconfiar que a real intenção dela era colocar eu e Tonks no mesmo lugar. Eu chegara um dia antes da véspera, ansioso para ver Harry, mas sequer cheguei a entrar na casa quando reparei nela, do lado de fora, conversando com Molly, as cabeças das duas mulheres próximas, como se compartilhassem um segredo. Ao me verem as duas ficaram em silêncio e Molly apertou o ombro de Tonks, como que para incentivá-la e depois me cumprimentou com um aceno curto, desaparecendo para dentro da casa.
Eu não havia conversado com Tonks desde que ela abrira o jogo e me beijara, meses antes, em Grimmauld Place. Desde que eu não conseguira dizer a ela que não dava. Não porque ela não fosse interessante o suficiente. Simpática ou bonita o bastante. Eu simplesmente não podia. Por mim e por ela. Por você.
"Ei," ela me deu um sorriso pequeno, os olhos cor de barro piscando de leve na minha direção, os braços atrás das costas. "Como você está?"
"Bem," respondi, me abraçando por causa do frio. "Estou bem."
Tonks balançou a cabeça, provavelmente irritada com minha resposta que não lhe abria brecha alguma para continuar a conversa. Aproveitei aquele instante para observá-la com mais atenção, reparando no cabelo cinza e opaco, em seguida em sua expressão, quase tão triste e cabisbaixa quanto o frio que nos rodeava. Um pensamento fugaz me fez querer abraçá-la como se abraçaria a uma criança. Senti uma súbita, quase física, falta das cores que ela costumava vestir. Nas roupas e nos cabelos.
"Achei que você fosse, sabe, aparecer, voltar antes." Até a voz dela parecia diferente. Desanimada e sem vida. Pisquei enquanto tentava reconhecê-la por trás daquele muro gelado. "Eu tentei falar com você, mas você já tinha ido."
"Dumbledore tinha pressa," respondi, mais laconicamente do que pretendia.
"É. Dumbledore." Ela riu-se, começando a caminhar para longe da casa. Sem saber como reagir, eu a segui. "Eu acho ele um cara legal e esperto, entende, mas às vezes tenho a impressão de que ele faz tudo errado. Ou, sei lá, que tem sempre um grande plano por trás de tudo, que sempre acaba realizado, claro, mas que afeta as outras pessoas... só que e de uma forma não tão legal assim."
Não pude deixar de pensar em você ao ouvir àquelas palavras, ainda que soubesse que provavelmente não fosse aquilo que Tonks tinha em mente. Ela parou próximo de uma cerca, junto ao jardim coberto de neve e pousou as mãos nuas sobre a madeira. Dava para ver que elas tremiam, ainda que Tonks mesmo não parecesse notar o frio. Sem saber como responder ao comentário dela, limitei-me a reparar nas marcas que ela tinha debaixo dos olhos, fundas e escuras.
"Você não me parece muito bem," eu disse, sem pensar. Ela uniu as sobrancelhas com um ar de irritação.
"Eu deveria estar?" Ela perguntou respirando rápido. "Bem?"
Engoli em seco e meu silêncio foi a deixa para que ela inspirasse uma grande quantidade de ar antes de falar como se não pudesse mais se conter. "Eu disse que não me importava e mesmo assim você foi embora sem me dizer nada. Sem se despedir ou dar qualquer satisfação. Eu sei que você não me deve coisa alguma, mas, não sei, Remus, o mínimo que eu esperava era que você me dispensasse de uma vez, em vez de ficar na sua e então ir e sumir na floresta por meses!"
O rosto de Tonks agora estava corado, mas eu não sabia dizer se era do frio ou por causa de sua repentina explosão de raiva.
"O que aconteceu com seu cabelo?" Perguntei, reparando que ele agora mudara de cor, indo para um amarelo doentio e depois de volta para o cinzento. Estranhamente, aquilo não parecia que fora por vontade dela. Tonks respirou fundo e cruzou os braços sobre o peito, mordendo o lábio inferior e balançando a cabeça, um ar cansado, antes de dar as costas para mim.
"Sei lá." Outro inspirar fundo de ar. Esperei por uma nova explosão de palavras, mas o que ouvi foi um fungar abafado. Vi o perfil dela recortado pelo luar, os lábios comprimidos, o peito subindo e descendo com a respiração rápida. "Ah, esquece, Remus."
Tonks aparatou sem me dar qualquer chance de responder, ainda que eu não soubesse o que diria, mesmo que tivesse a oportunidade. E eu já perdera tantas que não parecia haver mais diferença.
Foi quando escutei um ruído de galhos sendo quebrados atrás de mim e instintivamente enfiei a mão no bolso das vestes, segurando o cabo da varinha. Encontrei Molly parada a menos de um metro, duas canecas de chocolate nas mãos.
"O que você disse pra ela?" Molly perguntou com aquele tom de voz autoritário que lhe era tão característico. Na mesma hora me lembrei de você a imitando numa noite, depois de outra discussão entre vocês. Reprimi um sorriso involuntário.
"Nada," respondi, soltando a varinha. "Só perguntei o que estava errado com o cabelo dela."
Molly fez uma careta e se aproximou de mim com o queixo erguido, enfiando uma das canecas na minha mão e fazendo a outra desaparecer com um aceno da própria varinha.
"Ela ama você," Molly disse, me encarando com os braços agora cruzados, a expressão como que se me ordenasse fazer algo a respeito.
"Ela não sabe o que está dizendo, Molly," inspirei o ar gelado, sentindo o frio se alastrar dentro de mim. Tomei um gole do chocolate, mas continuei tremendo. "Eu sou um lobisomem, não tenho sequer um emprego e sou velho demais para ela." Repeti, automaticamente, os argumentos que me pareciam mais óbvios. Que pareciam servir.
"Ela não se importa com nada disso."
"Então me deixe se importar por ela. Tonks não tem a menor idéia do que está querendo. Agora eu quero o bem dela."
Molly deu mais um passo na minha direção, o rosto fechado numa carranca. "Você nunca a deixará bem a não ser que tome uma atitude, Remus. Você fez com que ela gostasse de você, agora faça alguma coisa, por Merlin!"
Quase derrubei o chocolate na roupa. "Eu... o quê?"
Molly ficou vermelha, mas não se deixou abater, erguendo um dedo e enfiando-o quase em cima do meu nariz.
"Sempre tão gentil com ela. Se oferecendo para acompanhá-la até em casa. Ajudando quando ela derrubava ou quebrava alguma coisa, rindo quando ela mudava a cor dos cabelos!"
"Desde quando ser simpático é igual querer algo assim de alguém, Molly? Por Merlin, eu sempre fui gentil com você, com o Arthur, as crianças... e posso te garantir que não tenho o menor interesse romântico em nenhuma das opções!" Minhas palavras saíram mais duras do que eu planejara, mas eu não conseguia conceber o fato de alguém que sequer me conhecia direito estar se intrometendo daquela forma num assunto como aquele.
"Ah, não venha me dizer que não percebeu!" Molly ergueu a voz, que se perdeu no ar, no vento cortante. "Ela nunca desgrudava os olhos de você, Remus. Era tão óbvio."
Suspirei, apertando a caneca, que já esfriara, entre os dedos. Como eu poderia explicar para ela que as coisas eram mais complicadas do que pareciam ser? Que o que quer que Tonks tivesse dito ou feito não mudaria como eu me sentia com relação ao assunto? Como explicar que eu ainda estava confuso demais com o que me acontecera para pensar numa nova relação? Que eu nem sequer sabia se queria uma.
Eu não sabia se realmente estava pronto para te esquecer.
INTERLÚDIO | O jogo acabou
Nunca consegui de fato esquecer as palavras que meus pais ficaram me repetindo durante as semanas que antecederam minha ida a Hogwarts. Cada um dos conselhos. Tudo que eu deveria fazer ou deixar de fazer para que as pessoas não desconfiassem da minha maldição.
Jamais pude esquecer da voz da minha mãe, reforçando pela milésima vez o quanto eu deveria ser um bom aluno e não me envolver com crianças encrenqueiras. O quanto deveria me manter o mais longe possível de qualquer confusão. Da mesma forma que não fui capaz de esquecer das conversas que tive com meu pai, quando ele puxava de canto depois do jantar, me perguntando, longe dos ouvidos da minha mãe, se era aquilo mesmo que eu queria fazer. Se eu achava que todo aquele esforço, de ficar na minha, sem chamar atenção e fingindo ser o que eu não era, valeria mesmo a pena.
E 'era claro que valia a pena', eu pensava, a princípio, sempre que o assunto vinha à tona. Cada momento. Cada segundo. Cada dia e noite valeriam a pena, eu repetia a mim mesmo, todas as vezes que me vi obrigado a mentir para aqueles que eram meus amigos, a dizer-lhes que minha mãe ficara doente pela quarta vez naquele semestre quando na verdade eu iria me esconder dos olhos deles enquanto a Lua Cheia subia.
Eu achava que todo aquele esforço seria recompensado desde que eu pudesse ser uma criança como todas as outras. Ao menos por fora. Valeria desde que o restante do mundo acreditasse naquilo e assim me deixasse em paz para poder viver entre eles. Eu não me importaria, eu achava, desde que pudesse experimentar a sensação de ser completamente humano outra vez.
Mas hoje eu paro, eu penso e me pergunto se não deveria ter gritado em determinadas situações em que acabei por me calar. Se não deveria ter dito um sonoro "não" quando me pediram um "sim" como resposta. Se eu talvez pudesse ter me poupado de um ou outro sofrimento, caso não tivesse tentado me passar como um alguém complemente inofensivo para as pessoas ao meu redor, pela minha vida inteira.
Era óbvio que aquilo não se travava apenas de uma questão sobre erros e acertos. De tentativas que talvez não tivessem resultado em nada, de qualquer forma. Era mais sobre pensar no quanto ser aquilo que os outros queriam que eu fosse talvez não tenha acabado machucando mais a eles do que a mim.
E eu acabava sempre achando que deveria mesmo ter sido menos simpático algumas vezes. Um pouco menos benevolente. Que se, talvez, eu tivesse falado o que queria ou o que deveria, ainda que não condissesse com o que os outros esperavam da minha simpática pessoa, talvez eu tivesse poupado a muita gente.
Como você. Você que se contentou com a minha amizade quando eu lhe perdoei por ter traído meu segredo e por isso passou anos achando que só aquilo lhe bastava, até se ver diante do fato de que você apenas perdera tempo. Eu poderia ter sido mais sincero na época e ter gritado e discutido e resolvido de fato, em vez de deixar a sensação de negócios inacabados com medo de estragar ainda mais as coisas. Eu poderia ter lhe dito o que realmente sentia e que por mais que certas coisas jamais fossem totalmente superadas, que aquilo não punha em risco a nossa amizade.
Ou o fato de eu gostar de você.
Talvez eu pudesse ter poupado outra pessoa, caso tivesse conseguido ser mais sincero ou mais direto ou mais qualquer outra coisa. Mais corajoso, talvez. Mas eu não era. Não o tempo todo. Não consegui ser quando foi a hora certa.
Fui, durante tempo demais, alguém idealizado e agora não era tão simples decidir que eu precisava... que eu queria, mudar. Ou melhor, ser eu mesmo. Nós percebíamos que, às vezes, não havia mais espaço para isso. Para mostrarmos que não queríamos mais ser daquele jeito que todo mundo achava que éramos.
Nos acostumávamos à imagem que os outros formavam sobre nós. A imagem que projetavam para se protegerem da tristeza, ainda que aquela fosse uma defesa fraca e débil. Mesmo que aquilo que eles acreditassem ser real, talvez não passasse de resignação e de cansaço.
(TBC)
NdA: Se eu disser que me deu peninha da Tonks quando escrevi essa cena vocês acreditam? :3
