20. O Erro da Rosa
I believe if I knew where I was going, I'd lose my way
(Eu acredito que se eu soubesse onde eu estava indo, perderia meu caminho)
I believe that the words that he told you are not your grave
(Acredito que as palavras que ele disse para você não são o seu túmulo)
I know that we are not the weight of all our memories
(Eu sei que nós não somos o peso de todas as nossas memórias)
I believe in the things that I am afraid to say
(Eu acredito nas coisas que eu tenho medo de dizer)
Sete e quarenta e cinco da manhã de domingo Bervely estava na porta do laboratório de poções, mas o mestre não lhe deixou entrar até as oito em ponto.
– Professor Snape. – cumprimentou, contendo-se, quando ele abriu a porta e lhe deu passagem, a combinação de cheiros que era uma ampliação do cheio do próprio professor atingindo seu nariz mais uma vez: valeriana, asfódelo e raiz de romã, hoje com um leve toque de adamantina. Ela sentia que agora podia diferenciá-los muito melhor do que antes, mas ainda não conseguira descobrir em que a combinação daqueles ingredientes resultava.
– Sente-se, Srta. Black. – apontou para um dos bancos altos do balcão. – Seja bem vinda ao meu laboratório.
Ela obedeceu, o coração aos saltos, sentindo doses iguais de ansiedade e empolgação. Escolhera vestir uma camiseta branca simples de trabalho e prendera o cabelo no alto, ambas decisões baseadas no protocolo padrão de trabalho num laboratório de poções, retiradas de um manual que o próprio mestre lhe indicara.
– Já deve estar ciente de como se dá organiza um espaço de trabalho profissional em poções, mas vou apresentá-lo mesmo assim, por precaução. Ali estão os armários de ingredientes, organizados por categorias, e dentro destas, em ordem alfabética, e ainda, por prazo de validade dentro de cada ingrediente. Os caldeirões ficam nos armários localizados interior do balcão: de barro, estanho, latão, prata, ouro e diamante, em vários tamanhos. Aqui está a pia – ele apontou, no oposto da sala, uma longa peça única de mármore com vários ralos e várias torneiras – e dentro desse armário ficam as toalhas de higienização e os produtos de limpeza. E nesta peça – indicou uma espécie de gaveteiro com dezenas de gavetas finas – eu guardo os instrumentos, também separados por tipo material. É importante que o material de que é feito o instrumento…
– Harmonize com a composição do caldeirão – completou, concentrada. Se ele estava surpreso que ela soubesse aquilo, não demonstrou. Não era algo que ele chegara a dizer em aula, pois todos os alunos usavam o caldeirão e utensílios básicos de estranho – Alguma dúvida?
– Sim. O que vamos fazer hoje, senhor?
– O plano inicial era produzir um pouco de veritassium para o estoque da escola, mas as lágrimas de unicórnio azedaram no caminho até aqui. Portando… estou aberto a sugestões.
Ela piscou, julgando ter entendido de forma incorreta.
– Minhas sugestões?
– É claro. Tem acesso ao conjunto dos meus materiais e ao estoque dos meus ingredientes. O que gostaria de fazer?
Ela soube imediatamente que aquilo era um teste, mais um teste de Snape. O professor queria ficar impressionado? Queria ver algo grandioso? Bervely achava que podia providenciar, e deixou um sorriso surgir em seu rosto.
– Eu gosto de fazer venenos, professor.
Snape ergueu uma sobrancelha escura, intrigado.
– É mesmo? Com que finalidade?
– Engarrafar a morte. – citou, com um meio sorriso. Ouvira uma vez um aluno recitando o discurso de Snape para o primeiro ano, e jamais esquecera aquelas palavras. Ele abrandou a expressão, fazendo um gesto amplo para os seus armários, como que lhe dando permissão.
– Surpreenda–me.
Ele não podia ter lhe pedido nada melhor. Bervely gastou as horas seguintes identificando e combinando ingredientes com cuidado, eventualmente perguntando a ele quando não reconhecia algum, e por fim conseguiu preparar uma pequena amostra de Sangue de Saravejo, densa e vermelho escura com um forte odor de cobre.
Snape verificou a poção, cheirou-a a sorriu.
– Ai está uma uma raridade, Srta. Black. Onde conheceu essa receita?
– No livro Seiva, Sabor e Trapaça. Segunda edição, 1846, original de Carlo Andrajoso, o famoso Alquimista espanhol.
– Estou impressionado com a sua habilidade para combinar as proporções às condições do ambiente. Como o faz?
Ela deu de ombros, não podia explicar muito bem. Sabia a cor, o cheiro e a densidade que a poção deveria ter, e trabalhava a partir disto, adaptando a quantidade dos ingredientes às condições de temperatura, pressão e luminosidade do local. Qualquer erro em uma dessas proporções resultariam numa mistura insossa que nunca se passaria por sangue. – Eu uso a intuição, senhor.
– Sabe para que serve essa poção?
– Sim. É um veneno específico para vampiros. Uma vez em seu sistema, o paralisa por exatos sete minutos, possibilitando que sua cabeça seja cortada ou seu coração arrancado sem risco para o executor.
– Correto. E qual o principal problema da receita de Andrajoso?
– Só pode ser consumida no local em que foi produzida. – sorriu enquanto dava a explicação, feliz porque que estava conseguindo responder às perguntas dele sem pestanejar – e pode ser complicado convencer um vampiro a tomar um copo de sangue do qual desconhece a origem, ainda mais dentro de um ambiente controlado como um laboratório de poções. E os vampiros também não gostam de sangue à temperatura ambiente – acrescentou – que é a temperatura perfeita para a poção ficar em equilíbrio.
– Muito bem, senhorita Black. Eu acho que podemos prosseguir a partir daí. Acha que pode fazer melhorias nessa poção? Trabalhar com ela?
– Mas isso é...
– Trabalho de Modificação, isso mesmo. O que me diz? Muito entediante?
Ele podia ver os olhos dela brilhando em antecipação, e pela primeira vez sua máscara de desinteresse caindo por terra completamente.
– Nem um pouco entediante, senhor.
– Então, essa é a sua tarefa para hoje. Veja o que pode fazer, solicite minha ajuda caso necessite, mas as idéias devem partir de você.
Ela assentiu, contento a empolgação com muita dificuldade. A cabeça à mil,, ainda estava processando o fato de ter um laboratório de alquimia profissional e um armário de ingredientes completo e instrumentos profissionais, tudo a sua disposição para trabalhar – e com modificação! Isso era mais do que sequer sonhara para Poções aquele ano. Queria mesmo que Abraxas Malfoy a visse agora, o que será que ele diria?
– Professor?
– Senhorita?
– Vou precisar consultar Seiva, Sabor e Trapaça. O meu exemplar ficou na Mansão Malfoy, e eu imagino que o da biblioteca é mantido na Sessão Reservada.
– Eu vou escrever uma carta de autorização para Mme. Pince, lhe dando um passe anual para a Sessão Reservada. Mas não espalhe isso para os seus colegas, ou eu o revogarei e você ficará o resto do ano trabalhando em Poções de Adormecer.
– Sim, senhor. – concordou, sorrindo para si mesma, sem que ele pudesse ver.
– BD –
Na quarta feira daquela semana, Snape informou aos lufa-lufas e corvinais do sétimo ano que estariam praticando uma poção inédita, e que seria Bervely a ensiná-los. A informação era surpresa para ela, e lhe lançou um olhar alarmando, mas tudo que o mestre fez foi inclinar a cabeça em direção à turma, num olhar sutil porém peremptório de "você não tem escolha".
– Ok, então… – ela pigarreou, parada em frente a turma, as mãos rapidamente ficando suadas e geladas ao mesmo tempo – Essa poção se chama… Sangue de Saravejo é um… – respirou fundo. Odiava os olhares de vinte e cinco estudantes aferroados nela, de cenhos franzidos em sua maioria – um veneno.
– Não me lembro de ter visto essa poção na lista de possíveis assuntos dos N.O.M.s – disse um dos nerds da Corvinal, com desconfiança.
– Minha avó me proíbe de aprender venenos – uma lufa-lufa de maria-chiquinhas (quem usava esse penteado aos dezessete?) protestou – ela diz que eles podem fazer mal às pessoas.
– É por isso que são venenos, esperta – disse aquele corvinal gordinho que sempre lhe defendia, Ogden – Se não, seria milkshake.
Bervely olhou nervosamente para Snape, mas ele apenas lhe encorajou com um aceno de cabeça e um olhar severo. Respirou fundo, tentando lembrar como ele controlara a turma resistente de sextanistas no seu primeiro dia como monitora.
– Ok – pigarreou, firmando a voz – Nem tudo é sobre N.I.E.M.s, Sr. Caroll, e Srta. Rosalind, se a sua avó perguntar, explique a ela que o veneno que faremos hoje é usado em vampiros, que tecnicamente nem são pessoas. Agora, essa receita se chama Sangue de Saravejo, não está no livro de vocês, talvez eu possa escrever no quadro… – mas quando se virou, Snape lhe estendeu uma pilha de cópias das paginas de Seiva, Sabor e Trapaça. Estreitou os olhos para ele perigosamente, sem acreditar que tudo aquilo fora planejado com antecedência e ele não fizera o favor de lhe informar. – Obrigada. prof. Snape. Ogden, se puder ser gentil e distribuir essas cópias para os seus colegas…
O corvinal saltou da cadeira imediatamente.
– Se a senhora professora Black me pede com tanta graciosidade, como eu poderia lhe negar qualquer coisa?
A turma riu toda de uma vez, e ela rolou os olhos, lhe entregando as cópias sem se preocupar em guardar uma para si. Àquela altura já conhecia perfeitamente os ingredientes da poção, e seu procedimento de preparo de trás pra frente, já a repetira tanto no laboratório nos últimos dias que podia recitá-la até dormindo. Murmúrios de admiração frente à complexidade da poção encheram as masmorras, e a reação dos colegas a deixou mais confiante e relaxada.
– Como podem ver, esse veneno exigirá de vocês muita concentração e minúcia. Honestamente não espero que consigam prepará-la em apenas uma aula, muito menos da primeira vez, eu mesma precisei tentar três vezes até conseguir uma amostra acurada, quando a aprendi em meu quarto ano.
– Três vezes? – Tonks, que sempre se sentava na frente nas aulas de Poções, olhou para ela com uma sobrancelha verde-limão erguida – corta essa, pró, admita que foram pelo menos trinta.
– Quarto ano, você disse? – Melissa Glastonbury, uma baixinha também da lufa-lufa que parecia um cupido de pendurar em árvore de Natal, se engasgou – Mas isso é poção de nível profissional, nem mesmo está no nosso currículo! Quem foi o professor atroz que infligiu isso à você?
– Na verdade eu a escolhi, essa poção foi o meu projeto de final de ano. Meu e de Tar… meu e da minha dupla. – se corrigiu rapidamente. Todos começaram a perguntar coisas ao mesmo tempo e ela automaticamente fez um gesto pedindo silêncio. O mais surpreendente foi que eles lhe obedeceram. – uma pergunta de cada vez.
– Eu! – Tonks acenou, suas unhas pintadas da mesma cor dos pelos corporais – É sério que eles deixam todo mundo livre para aprender o que quiser em Durmstrang? Tipo você apenas… escolhe o que quer fazer, e pronto?
Ela sorriu da leitura simplista da amiga, que acabara de revelar para quem ainda não sabia que viera da Durmstrang. Não que isso a incomodasse - era mais um motivo de orgulho.
– Não é desse jeito, há um certo direcionamento dos professores… mas no geral sim, podemos escolher o nível de complexidade e especialmente os temas com os quais queremos trabalhar. Eu fiz o meu quarto ano de poções todo em venenos.
– Isso não teria sido incentivado pelos seus estudos em Artes das Trevas, teria? Eles também te deixam livres para fazer maldições e pragas lá em Durmstrang? – outro deles perguntou, era quase com certeza a capitã do time de quadribol da Corvinal, Alien Frank.
Quando Bervely abriu a boca para responder, Snape interrompeu, parecendo insatisfeito com os rumos da conversa de sua turma.
– É muito louvável que estejam interessados no percurso acadêmico da sua monitora, mas eu sugiro que deixem as perguntas de cunho pessoal para fora desta sala de aula. Há muito trabalho a ser feito hoje e, se a Srta. Black está sendo precavida em não esperar muito de vocês nessa poção, eu não posso afirmar o mesmo. Quem não der o máximo de si na preparação deste veneno vai levar para casa uma lição de cem centímetros sobre os erros que podem ser cometidos na produção do Sangue de Saravejo, para próxima aula.
Isso encerrou definitivamente a curiosidade dos alunos, e os pôs para trabalhar na seleção dos ingredientes que iam precisar tirar do armário de poções. Foi a sua aula mais ocupada, mas também a mais empolgante – os colegas estavam verdadeiramente interessados em obter algum sucesso, e quando ela se aproximava para ajudar, eles realmente ouviam o que ela tinha a dizer. Precisava admitir que trabalhar com os lufa-lufas e corvinais eram sempre mais produtivo, sem a rixa entre as casas ou o espirito de competitividade exacerbado que havia entre Sonserina e Grifinória. Os corvinais eram espertos e pensavam rápido, os lufos, pacientes e minuciosos, e ajudavam uns aos outros com grande desprendimento.
No fim da aula, apenas duas duplas haviam conseguido chegar perto do fim da receita com relativo sucesso, e eles imploravam para que pudessem continuar a trabalhar no Sangue de Saravejo na aula seguinte; mesmo aqueles que não tinham sido bem sucedidos queriam continuar tentando. Eles lhe perguntavam se seria ela a lhes dar aula na próxima semana, mas Bervely não fazia ideia de qual seria aquela resposta.
Se aproximou da mesa de Snape, que recebia as amostras dos alunos em frascos selados para análise. Ela cruzou firmemente seus braços e ficou esperando ele perceber que estava ali, para então lhe montar uma cara fechada.
– O quê? – ele indagou, fazendo-se de desentendido enquanto, com um aceno de varinha, juntava todas as amostras numa caixa. Ela bufou.
– Você não pode simplesmente jogar uma classe de setimanistas em cima de mim assim, de surpresa!
– "O senhor não pode" – ele lhe corrigiu, severo – e sim, aparentemente eu posso. Você tem um dom natural para o ensino, Srta. Black, exatamente como eu desconfiava. Controlou a turma com maestria, os motivou ao trabalho e conseguiu um nível de colaboração realmente impressionante.
Ela fechou os seus olhos e expirou longamente pelo nariz. Estivera disfarçando um tanto de nervosismo sobre a situação durante toda a aula, mas que agora vinha à tona lentamente diante do final de sua provação.
– Pode me dizer sobre o que foi tudo isso, senhor? Mais um teste das minhas capacidades? Já não provei ao senhor que sou boa em poções e mereço o posto?
– Isso nunca esteve em questão, Srta. Black, e sim, esse foi um teste, mas não como está pensando. Eu precisava saber se teria condições de assumir uma das minhas turmas, em minha ausência.
– Oh. – ela piscou, de repente nervosa de novo – Vou precisar dar outra aula aos setimanistas?
Não era tão ruim, era? Eles foram colaborativos… até simpáticos com ela… eles pediram para que voltassem…
– Na verdade, será para os primeiranistas, nesta sexta feira. Já negociei sua ausência da aula com o Prof. Binns. – ele disse com a maior naturalidade, como se não tivesse acabado de lhe pedir uma abominação.
– Mas os primeiranistas são crianças – lhe lembrou, pronunciando a palavra como se fosse peçonhenta – nós temos um acordo em relação a isso.
– Eu sei o que eles são. Será só por uma aula, no entanto, Srta. Black, e eu tenho certeza que pode dar conta, você ensinou com sucesso uma turma de veteranos, hoje.
– Mas eles são crianças… – repetiu debilmente. Será que ele não entendia? Esfregando o rosto nervosamente, soltou o ar de um jeito chiado e frustrado – Com todo respeito, professor, mas é melhor alguém estar morrendo para justificar eu ter de cobrir essa aula para o senhor.
– Então vai ficar satisfeita em saber que de fato, alguém está morrendo. Recebi uma carta da minha mãe hoje cedo, ela parece ter sido contagiada com um caso severo de varíola do dragão.
– O senhor tem mãe? – deixou escapar, não pode evitar absolutamente. Jamais imaginara a mãe do professor Snape.
Ele se virou com um olhar letal.
– Não, Srta. Black. Nasci de um ovo de sapo chocado por uma galinha, o que é que você acha?
– Desculpe. – pediu, mortificada. Ele empurrou sobre ela a caixa com as amostras de poções da turma, com mais força que o necessário.
– Leve com você, analise e dê as notas. Me envie um relatório por Benzoar quando terminar, ele saberá onde me encontrar. Enviarei em retorno o planejamento da sua aula de sexta feira.
Quando Bervely deixou a masmorra, andando devagar sob o peso da caixa, descobriu que Tonks tinha lhe esperado na saída, e recebeu dela um olhar preocupado.
– O que houve? Parece que você acabou de ver o fantasma de Binns pelado, encenando a rendição dos elfos em 1712.
– Nada não. – engoliu em seco, momentaneamente apertando os olhos para apagar da sua mente a imagem horrorosa que acabara de ser sugerida pela garota – Snape quer que eu dê aula ao primeiro ano em seu lugar na sexta feira.
– Ah, legal! – ela deu um soquinho empolgado em seu ombro – Você vai tirar de letra, arrasou lá dentro hoje! Todos saíram falando coisas boas de você, e parece que arranjou um admirador…
Tonks indicou o outro lado delas, onde alguém aguardava, trocando o peso de um pé para o outro nervosamente. Era Ogden, que lhe deu um aceno nervoso com a mão gorducha.
– Ah, não – suspirou baixinho – não posso lidar com mais uma cantada engraçadinha agora. Fique perto de mim, ok?
Elas se aproximaram do garoto corvinal, que prontamente se ofereceu para segurar a caixa.
– Não tem necessid… ah, tudo bem. – rendeu-se, quando ele conseguiu arrancar a caixa de suas mãos.
– Aquilo que fez conosco lá dentro hoje… foi fantástico, realmente incrível. Muito melhor que qualquer aula de Snape, se quer saber da minha opinião. – completou num tom sussurrado.
– Obrigada, Ogden.
– Legal. Eu queria saber… se você já tem um par, para a festa proibida de Halloween?
Era assim que eles estavam chamando, Festa Proibida de Halloween. Era de se admirar como ainda não chegara aos ouvidos dos professores ou diretor, dado ao fato de que o sexto e o sétimo ano de todas as casas só falavam daquilo, à boca pequena, já há quase um mês.
– Eu preciso de um par? – surpreendeu-se, procurando o olhar de Tonks para confirmação.
– Sim, um par de outra casa que não a sua é obrigatório, como um contrato para garantir que você não vai acabar delatando ninguém de outra casa, e vice-versa. Tipo um acordo de paz.
– Isso é estúpido – ela suspirou.
– Então se você não tem um par, podemos ir juntos. – ele sugeriu, aparentemente ignorando o que ela acabara de praguejar. Bervely engasgou-se.
– Quê? Não. Eu… eu tenho um par, na verdade. Só não sabia que precisava dele, mas agora que sei… vou avisá-lo.
– Oh – Ogden pareceu desolado. – Tudo bem então. Nesse caso eu vou… por ali. Tchau. – e lhe devolveu a caixa.
Quando ele sumiu pelo corredor, Tonks começou a rir, tanto que seu cabelo passou de verde para laranja, e depois para roxo.
– Você não tem realmente um par, tem? Isso foi só pra se livrar de Ogden. Não se preocupe, eu posso arranjar um pra você, um que não vá pedir um autografo seu no fim da noite.
– Na verdade eu tenho um par. – disse com dignidade, mas o que recebeu em troca foi um olhar incrédulo.
– Quem? Você está se encontrando com alguém?
– Não posso lhe contar.
– Ah, B., corta essa! É um grifinório gostoso? Um corvinal com covinhas? Anda, admite, adoro amores proibidos…
Ela rolou os olhos. Estavam chegando no local onde se separavam, Tonks ia para sua aula de Defesa Contra as Artes das Trevas e Bervely virava em direção ao dormitório, onde guardaria a caixa com as amostras.
– Não é nada disso, ok? Vai conhecê-lo no dia da festa.
Se eu puder convencê-lo a ir, é claro, completou para si mesma.
– Uhhh, Black tem um namorado misterioso. Aposto que ele é quente e tem um sorriso matador. Parece ser o seu tipo.
Tonks era terrível. Sem opção, meneou a cabeça, mal contendo um sorriso.
– Ele meio que é… exatamente isso.
– BD –
Sábado anterior, Hogsmeade.
– Hector! – ela chorou, tudo dentro dela virando um caos, uma dor de alívio e felicidade tão enorme que seus joelhos fraquejaram.
Ele abriu os braços para ela, lhe chamando.
– Fadinha! – exclamou, e a voz também era igualzinha ao que se lembrava, macia e adorada fluindo do seu ouvido para o coração, aquecendo-a inteira – Eu te disse que eu voltava, não disse?
Bervely correu para abraça-lo, sentindo uma peça do mundo, que estava ausente há muito tempo, finalmente se encaixar. O cheiro dele preencheu seus sentidos, um bálsamo, quando enfiou o nariz em seu pescoço, ao mesmo tempo que o apertava com toda a força de seus braços.
– Eu fiquei com medo que a minha carta não chegasse até você. – ela arfou, quando eles se separaram. Grossos pingos começaram a cair, mas nenhum dos dois se preocupou com isso. – eu não sabia onde estava, eu senti tanto medo… todo mundo acha que você está morto!
– Shiii – ele a tranquilizou, esfregando as suas costas carinhosamente – eu estou aqui agora. Sinto muito por tudo isso, mas foi preciso.
– Ah, Hector… – respirou fundo, o que ainda era difícil, seu coração descontrolado bombeava como um louco contra o peito em consonância com o dele – onde… onde é que ela está? Voltou com você? – preocupada, olhou ao redor, mas parecia que eram só eles dois.
– Charlotte?
– Sim, é claro que é Charlotte! Vocês foram embora juntos, não foi?
O maxilar dele endureceu sutilmente, um sinal claro de que o assunto o incomodava.
– Não foi como eu esperava. Mas isso não importa agora, eu estou de volta, é o que importa, certo?
– Não… eu quero saber… – se desvencilhou dos braços dele, querendo olhar em seus olhos e entender – eu quero saber porque demorou tanto tempo… porque não deu notícias!
– Eu senti tanto a sua falta! – ele a puxou de volta, com o alívio inundando a sua voz, como se a saudade que sentira por ela fosse uma dor física da qual estava se livrando – Podemos falar sobre tudo depois? Por favor? Só quero curtir você um segundo, ter certeza que está mesmo aqui, nos meus braços.
– Certo – ela se derreteu com o pedido e, só por garantia, ela lhe abraçou apertado mais uma vez. Era maravilhoso, de mil jeitos diferentes, sentir Hector de verdade, sentir mesmo, quente e vivo sob a chuva que só aumentava e os encharcava. – E o seu pai, você o achou? Era com ele que você estava?
– Eu não quero falar sobre isso também, fadinha.
– Mas você tem que! – ela pediu contra seu ombro, inundando o seu sistema do cheiro maravilhoso dele – os Malfoy me culpam… eu preciso entender…
– Vai saber de tudo, quando você estiver pronta. – a tranquilizou, a voz suave, a mesma que usava quando ia lhe acudir à noite na Mansão, e lhe convencia a esquecer um pesadelo e voltar a dormir – Esse ainda não é o momento certo. Me conte sobre você, o que aconteceu nesse tempo em que estive fora. Você parece diferente, mais… mais reservada, é isso? Não consigo dizer exatamente o que está pensando, como antes.
– Oh, Hector. – tremeu, sob a chuva e dentro dos braços dele, com as lembranças – foi tão horrível, você não acreditaria.
– Eu quero saber de tudo, tudo sobre você. Venha, vamos sair da chuva – ele a levou até uma caverna cravada na base da colina, completamente encoberta pelo mato alto, será que era ali o seu esconderijo? Não conseguia se desgrudar dele, então se recostaram numa das paredes de pedra bruta, ela encaixada entre as pernas do primo, o tronco encostado em seu peito, as mãos dele firmemente em torno do seu corpo.
E ela lhe contou. Sobre o hospital, sobre os pesadelos. Sobre o Dr. Fritz, os Longbotton, o seu rosto falso, os Malfoy, e depois Hogwarts… Snape, e a expulsão de casa, e as férias nos Tonks, contou cada detalhe para Hector, até mesmo sobre Gui Weasley, e Tara. Não havia segredos entre eles, não haveria nunca…
Ela tinha de volta o seu garoto perdido. Ele tinha nos braços a sua fada, e pouco importava aquilo que acontecera no último ano em que esteve fora, nunca mais a deixaria.
I believe in the lost possibilities you can't see
(Eu acredito nas possibilidades perdidas você não pode ver)
And I believe that the darkness reminds us where light can be
(Eu acredito que a escuridão nos lembra o que a luz pode ser)
I know that your heart is still beating, beating, darling
(Eu sei que o seu coração ainda está batendo, batendo, querido)
I believe that you fell so you would land next to me
(Eu acredito que você caiu para então pousar perto de mim)
– BD –
Após o encontro em Hogsmeade, ela e Hector vinham se correspondendo através de cartas que iam e voltavam várias vezes por semana. Ele era muito enigmático sobre o que acontecera naquele ano fora, por que voltara e porque estava escondido, e eram coisas que ela apenas imaginava… continuava a repetir que ela não estava pronta para saber. Talvez tivesse razão.
Mas não se importava realmente. Hector estava de volta para ela, e o resto se ajeitaria com o tempo. Agonizava com a próxima chance de vê-lo, o que aparentemente só ia acontecer na próxima visita à Hogsmeade em dezembro, mas então a possibilidade de levá-lo à festa de Halloween como seu par a deixou muito empolgada. Não estava exatamente quebrando as regras, ele era de outra casa (e de outra escola, e formado, mas e dai?), e tinha mais de dezesseis anos, e ninguém precisaria saber quem ele era, pois todos estariam usando máscaras.
Depois de escrever uma carta para Hector explicando como poderiam fazer com que entrasse nos terrenos de Hogwarts no dia 31 de outubro, Bervely liberou Benzoar, torcendo para que estivesse de volta à tempo de enviar o relatório das análises das poções do sétimo ano para Snape, que se pôs a fazer imediatamente.
Apesar de não ter Hector por perto o tempo todo, não podia estar mais feliz com o rumo que as coisas tomavam. O seu trabalho de monitoria era um sucesso e estava lhe deixando popular na escola, e pelo jeito com que Snape falava do seu desempenho, talvez estivesse considerando, quem sabe, lhe dar a monitoria chefe, ao invés de entregá-la de bandeja para Holmes.
E o mais importante… Hector estava vivo. Voltara para ela. Sentia como se fosse explodir, cada vez que recebia uma de suas cartas, na caligrafia inclinada e meio bagunçada dele. É claro que precisava queimá-las depois que as lia, pois o primo estava por alguma razão mantendo o seu retorno em segredo e ela não pretendia colocar o seu paradeiro em risco, logo mais ali na sonserina, onde havia Draco, abelhudo como ele só.
Naquela noite, ela quase dobrou a dose de Poção do Sono habitual. Precisava garantir que nenhum pesadelo se esgueiraria para dentro da sua mente durante a noite, a fim de roubar e se alimentar da sua felicidade.
– BD –
– Você pode fazer isso, prima. Vai lá e arrasa com aqueles primeiranistas, coloca eles pra comer raspa de caldeirão…
Bervely franziu o cenho quase em dor, a tentativa de apoio moral de Tonks em nada lhe ajudando a afastar a sensação de pânico na boca do estômago. A lufa-lufa insistira em passar para lhe dar boa sorte antes da sua aula de sexta-feira, em que estaria substituindo Snape, e ela não se dignou nem a repetir que tinha calafrios toda vez que era chamada de "prima" – isso era o quão nervosa ela estava.
– São só crianças – Nimphadora lhe garantiu. Usava o cabelo espetado e cor de rosa hoje, um clássico. Finalmente acabara com as práticas de nariz, então se parecia novamente consigo mesma, e não como a cruza de um humano com leitão ou com uma águia. – Elas não mordem.
– Elas mordem. – lhe garantiu, lembrando-se que Draco tivera uma fase que era tudo sobre dentes quando você menos esperava. Fora mais ou menos na mesma fase dos dragões.
– Então ensine à distância. Vai! E eu não quero ser chata nem nada, mas o seu cabelo cacheia quando você fica nervosa.
Com um suspiro exasperado, virou-se e entrou na masmorra de Poções como se estivessem caminhando para a forca. A turma de pequenos corvinais e lufa-lufas não se calou quando ela entrou, como eles provavelmente deviam fazer com Snape, a quem já tinham aprendido a temer.
– Silêncio, pestes. – ela ordenou, de cima do púlpito, com uma voz que achou que era altiva e professoral – o primeiro que falar alguma coisa fora do assunto de poções vai ficar depois da aula e limpar todos os caldeirões. Com a língua.
Isso serviu. Rapidamente tinha trinta rostinhos lhe olhando em completo espanto.
– Assim está melhor. Eu sou sua professora de poções substituta, e hoje vamos aprender a Poção para Adormecer. Abram seus livros na página 80.
A maioria lhe obedeceu prontamente, mas uma mãozinha se ergueu no ar, meio insegura. Pertencia a um menino miúdo da corvinal que, de acordo com a sua lista de alunos, se chamava Jeremy Tretton.
– O professor Snape morreu? – seguido à sua pergunta, um murmúrio especulativo correu entre os alunos, e a sua dupla lhe deu um tapa na nuca.
– Jeremy!
– O quê? É relacionado à poções, não é? – se defendeu, indignado.
Bervely deu um longo suspiro.
– O professor Snape não morreu, Tretton. Se vocês ainda não o mataram de desgosto, eu acho que ele vai sobreviver ainda por um bom tempo.
– Você é filha dele? – Tretton disparou de novo, e recebeu um novo tapa da colega, esse tão forte que fez seu corpo se inclinar para frente contra a mesa.
– De onde tirou essa ideia? – não pode se conter, surpreendida.
– Eu acho que o que Jeremy quis dizer, foi que vocês tem um discurso parecido – disse uma garota de longo cabelos pretos, sentada ao lado da coleguinha loira de aparência avoada. – Mas isso deve ser só porque você foi a aluna dele por muito tempo e aprendeu a sua técnica.
– Eu acho que você poderia dizer isso – concordou com um sorriso, achando graça do jeito que a menininha falava, palavras incomuns para alguém de onze anos – agora, chega de perguntas. Abram seus livros, peguem os seus ingredientes e sigam as instruções no quadro. Queiram trabalhar em silêncio e não fazer coisas estúpidas, por mais tentador que isso possa parecer. A poção para Adormecer pode parecer simples, mas se preparada do jeito errado pode fazer a pessoa dormir para sempre. Se eu achar que levaram essas instruções de forma leviana, vou testá-la em seus bichos de estimação.
Ela ficou feliz em perceber que os primeiranistas eram fáceis de amedrontar. Na primeira meia hora de aula, tudo correu tranquilamente entre os lufa-lufas, uma vez que se renderam à sua tendência de trabalharem em grupos, colaborando uns com os outros, ao invés de se resumirem às suas duplas.
O problema dos corvinais era o oposto: eram competitivos e queriam ser uns melhores que os outros, o que lhes distraia de seguir corretamente as instruções. Mais de uma vez impediu um deles de inserir o asfódelo em pó cedo demais, o que poderia causar uma explosão e deixar a sala toda bocejando pelo resto do dia.
– Bom trabalho… – ela checou em sua lista de alunos. – Loren.
– Obrigada – a menininha de cabelo comprido e palavras difíceis agradeceu, sorrindo. – Eu li uma vez que essa poção inspirou o conto trouxa da Bela Adormecida. É verdade?
– Não seja boba, Anne. Todo mundo sabe que a Bella adormecida foi ferroada por um picaboo. Meu pai escreveu uma artigo reflexivo sobre isso, uma vez – a sua dupla, a loirinha desmazelada,contestou. Sua voz era sonolenta, fazendo Bervely pensar se talvez ela não tivesse inalado muita fumaça do caldeirão.
– Mantenha o nariz longe do vapor, Lovegood – orientou, por precaução. – continuem assim, e talvez vocês sejam as únicas a completar a poção com sucesso e à tempo.
Bervely deu mais uma circulada despretensiosa pela sala; para o seu imenso alivio, tudo corria bem. Nenhuma criança enfiara a cabeça no caldeirão, nenhuma comera um ingrediente letal, nenhuma lhe mordera. Não fora um pesadelo completo, e em poucos minutos poderia mandar todo mundo envasar suas amostras, e estaria livre.
Quase se permitiu relaxar, não fosse um grito de alarme vindo do canto que acabara de deixar. Era Loren.
– Ela está morta! Está morta! Eu a matei! Oh meu deus eu a matei!
Se aproximou da dupla; sua colega loira tinha a cara enfiada na mesa, e estava imóvel.
– Você deu sua poção para ela beber? – perguntou acusadoramente, fazendo a menina se encolher.
– Não! Ela que lambeu o dedo sem querer, ela tem mania de fazer isso quando está cozinhando!
– Isso aqui não é uma receita de bolo, pela graça de Merlin! – praguejou, irritada. Checou a respiração de Lovegood, depois de colocá-la sentada corretamente e ver sua cabeça pender, os cabelos loiros balançado sobre o uniforme. – ela não morreu, só está dormindo. Tretton, pegue um benzoar pra mim! É a pedra cinzenta na terceira prateleira – explicou com exasperação, quando o menino lhe deu um olhar perdido.
Logo que o teve, enfiou o benzoar pela garganta da garota, onde ele deveria derreter e fazer efeito imediatamente. Mas não foi o que aconteceu. Quando ela checou novamente, Lovegood não estava respirando.
Acabara de matar uma aluna. Matara uma aluna em sua primeira aula de poções solo. Ia ser expulsa da escola, ia ser presa… não, esqueça prisão! Snape ia lhe assassinar antes disso!
– Não devemos levar ela para a enfermaria? – a Loren perguntou, um tanto agitada, enquanto a colega ficava cada vez mais gelada sob a sua mão.
– Sim. Eu vou…
Mas no fundo, sabia que não havia tempo. Lovegood estava sem respirar ao que, um minuto? Não conseguiria chegar até a ala hospitalar antes que ela tivesse morte cerebral, disso tinha certeza. Precisava pensar rápido… alguma coisa estava errada… alguma coisa estava terrivelmente errada com aquela poção e não conseguia entender o que.
– Loren! Você acrescentou losna antes e depois da raiz de valeriana?
– Quê? – a menina olhou enlouquecidamente as suas anotações. O resto da turma estava paralisado observando a cena, ninguém movia um músculo, ninguém ousava respirar. Dava para cortar a tensão instaurada na sala com uma faca cega. – Não! Isso não está nas instruções!
– É claro que está! Me dê aqui! – puxou o livro das mãos dela nervosamente, as mãos escorregando. Mal conseguiu ler "adicione losna para neutralizar a valeriana concomitante à sua aplicação." – droga!
A instrução não era clara. Ela mesma não tinha se dado conta disso até o momento, e não faria qualquer diferença no efeito final da poção, só deixaria a valeriana instável dentro da mistura, então ela poderia reagir com qualquer outra substância magica que o receptor tivesse tomado anteriormente, o que poderia ativar o composto ingerido e torná-lo letal…
– Loren – chamou, com a voz muito calma. Precisava ficar calma. Precisava pensar. Não havia tempo para entrar em pânico. – Ela é sua amiga, certo? Ela toma alguma poção? Tomou alguma poção hoje, antes de vir pra cá?
– S-sim! – disse a menina com os olhos arregalados de terror – ela toma uma dose de poção animadora todos os dias, mas o que isso tem haver?
– Animadora… animadora… – fechou os olhos, repassando alucinadamente dentro da sua memória qual ingrediente daquela estúpida poção podia ter reagido com a valeriana, matando Lovegood – Cloqueária! Óbvio! Tretton, soro de ararambóia no armário, agora! É o frasco verde-claro com a etiqueta amarela, pelo amor de Merlin!
Era só um palpite, mas era tudo que tinha. Recebeu o frasco na mão e despejou na garganta de Lovegood… rezando, pela primeira vez em sua vida. Houve um segundo de tensão extrema, esmagadora, enquanto todos eles esperavam…
Lovegood tossiu. Loren deu um grito e felicidade e abraçou a amiga antes mesmo que ela pudesse recuperar o fôlego. Tretton começou a chorar, e resto da turma inteira explodiu em palmas e vivas.
Bervely se afastou discretamente, apoiando as mãos trêmulas na mesa. Passada a adrenalina, seu corpo inteiro sacudia em uma reação tardia. Todo mundo ali era inexperiente e acreditava que ela era uma heroína, que acabara de salvar a vida de Lovegood, eram inexperientes demais para perceber que o erro fora seu…
Deixara passar aquela instrução. Deixara passar aquela instrução a vida toda.
– Aqui está. Apesar de que eu já sei que não vou obter um Ótimo por quase envenenar minha melhor amiga – disse Loren, muito articulada e sorrindo, quando veio lhe trazer a amostra da sua poção. Ela parecia completamente recuperada do episódio, mas ao ver o quanto a monitora estava pálida, seu sorriso sumiu, se transformando em empatia – não precisa se preocupar, sabe? Eu sei que ela parece meio fora do ar, mas isso é como ela é normalmente. Luna vai ficar bem.
– Você pode se retirar agora, Srta. Loren – disse Bervely friamente.
Esperou todos os alunos deixarem as suas amostras e esvaziarem as masmorras, então acenou com a varinha e bateu as portas duplas com violência, deixando-a cair sobre a mesa em seguida. Sentia que não podia se mover, nem mesmo respirar, e escorregou lentamente até o chão, abalada com a gravidade do que quase acabara de fazer.
– BD –
Quando Snape voltou ao castelo aquela noite, a encontrou encolhida atrás da mesa, abraçada às pernas e com a cabeça enfiada nos joelhos. Apesar do barulho dos passos dele ecoando pela masmorra vazia ela não se moveu, e Snape se perguntou se ela dormira naquela posição aparentemente desconfortável.
– Eu ouvi um rumor do que aconteceu na aula do primeiro ano hoje.
Sua voz reverberou pela sala de aula, grave e taxativa. Bervely tremeu quase imperceptivelmente, mas nada além disso, o levando a achar que talvez fosse mais grave do que imaginara.
– Sra. Black – ele disse com severidade, disfarçado qualquer traço de preocupação para longe do seu tom – Queira fazer o favor de se levantar e me encarar propriamente.
Longos minutos se deram até que Bervely conseguisse levantar a sua cabeça, olhar para os pés dele e convencer a si mesma a obedecer a ordem. Quando o fez, foi com a cabeça baixa, fitando o chão e abraçando a si mesma. Ele nunca a vira tão vulnerável e destituída de sua arrogância natural, e o vislumbre o incomodou de uma forma inesperada.
– Eu sei. – ela disse, miserável. – Sinto muito.
– Olhe para mim. – exigiu. Não podia conversar com o topo da cabeça da sua aluna. Mas, acima disso precisava olhar nos olhos da sua afilhada.
Ela obedeceu. Os olhos, grandes e brilhantes estavam estranhamente cinzentos, e não no preto sólido que costumavam sustentar.
– Eu falhei. Eu mereço qualquer punição que o senhor esteja cogitando me infligir.
Houve um silencio em que ela se sentiu analisada com muita minúcia pelo professor. Pensou que talvez ele estivesse pensando justamente nisso – o seu castigo, tentando decidir o que seria suficientemente equiparável à sua falha, ao seu crime.
– Não estou cogitando qualquer punição. Não sei o que dizem por ai a respeito do meu método de ensino, mas eu não costumo castigar os meus alunos por serem excelentes.
Pensou que ouvira errado, e ergueu o rosto sem compreender, mas tudo que ele fez foi assentir, ainda com aquela expressão peculiar de cuidadosa observação das suas reações.
– Demonstrou habilidade em raciocinar sob pressão de forma impressionante. Salvou a vida da aluna da corvinal. Se estivesse ao meu alcance, receberia uma medalha por serviços prestados à escola neste exato momento.
– Mas eu… a culpa foi minha! A instrução do livro não estava clara, e eu não percebi… aprendi essa poção há séculos e nunca percebi. – declarou, agonizada. Em sua mente, não o fato de que quase cometera assassinado aquela manhã se repetia num looping sem pausas.
– O livro tem esse erro desde a sua primeira edição, e eu já mandei incontáveis cartas para os editores, alertando-os, mas fui continuamente ignorado. Eventualmente desisti, e aceitei que o erro poderia, muitas vezes, servir como uma avaliação para medir o nível de atenção dos meus alunos.
Ela nem conseguiu ficar zangada com ele por ter sido pega em mais um teste inesperado.
– Nesse caso, eu falhei miseravelmente.
– Eu jamais conheci sequer um aluno que tenha percebido, Srta. Black, não até precisar encarar as conseqüências desse equívoco na vida real, como aconteceu com você. E nesse teste, você passou. Com muito mais maestria do que eu mesmo fiz, no passado.
– Aconteceu com você? Precisou salvar alguém de envenenamento com poção de Adormecer?
– Com uma variação mais forte dessa, a Poção do Morto vivo, você deve conhecer? Talvez não, é ensinada apenas no sexto ano, mas a lógica de preparação é a mesma. Em todo caso, não ocorreu como esperado.
Ela não perguntou, nem disse que conhecia a poção mais do que gostaria. Não queria saber o que tinha acontecido… com quem tinha acontecido. A sensação era esmagadora e Lovegood sobrevivera, mal queria pensar em como estaria se sentindo se não tivesse sido capaz de salvá-la.
– Você deve retornar ao seu dormitório, agora. Só queria dar os meus parabéns. E agradecer por ter substituído a minha aula.
– Certo. – disse, num fio de voz apagado. Mas não se moveu, e voltou a olhar para o chão, absorta em pensamentos.
– Se sente bem, Srta. Black? – ele voltou a perguntar, dessa vez sem se preocupar em esconder a preocupação. Achava que ela estava pálida demais, e acabara de se dar conta de que Bervely devia ter ficado ali desde o fim da aula com o primeiro ano, aquilo era o que, cerca de oito horas? Mas ela não lhe respondeu, nem mesmo parecia ter lhe ouvido.
– Eu sempre soube que aconteceria. – disse abruptamente, quando Snape já estava pensando em lhe administrar uma poção reanimadora.
– O quê? – questionou o professor, com certa confusão. Esperava que ela dissesse algo como "eu sempre soube que eu não estava pronta para lhe substituir numa aula", mas não foi o que aconteceu.
– Eu sempre soube que chegaria o momento em que eu faria algo terrível. – disse a garota, levantando os olhos, cinza claro e tempestuosos agora. – algo como… como matar alguém. Está - deve estar - no meu sangue.
Ele demorou uma fração de segundo para entender sobre o que ela estava falando.
– Jamais repita algo como isso.
O tom do professor, diferente do usual frio e indiferente, pareceu despertá-la para o fato de que acabara de fazer uma declaração de nível altamente pessoal. Envergonhada, arfou e aprumou-se, remexendo nervosamente a tira de couro em torno do seu braço.
– Eu preciso ir. – declarou, um pouco desorientada. Snape não deixou de olhá-la, atento como um gavião.
– Deveria passar na ala hospitalar no caminho, Srta. Black. – ele recomendou, sem saber como reagir à súbita mudança dela. Seus olhos estavam escuros de novo, mas um sintoma disfarçado não deixava de ser um sintoma. – Parece doente.
– Estou bem – assegurou-lhe, recolhendo os frascos das poções dos primeiranistas, presumindo que seria ela a analisá-las, já que fora ela a ensiná-los. Suas mãos tremiam, e quando ergueu a caixa, os vidros tilintaram uns contra os outros. O encontrou ainda lhe encarando, sem ter se movido qualquer centímetro da posição especulativa. Buscou distraí-lo. – Ah… professor Snape… como vai a sua mãe?
O olhar dele ficou sombrio, apesar de nada em sua expressão ter mudado.
– Viva. Por enquanto.
– Fico feliz. – disse, esvaziada.
Ao deixar a sala nas masmorras, a cabeça doía horrivelmente. Ela pretendera, após ter conseguido controlar o seu pânico naquela tarde, aguardar Snape e lhe informar que não podia mais ser monitora de Poções. Não estava pronta para a atividade, como demonstrara aquele dia, e é claro que acreditara que seria expulsa antes mesmo de ter a chance de se demitir.
Ao invés disso, Snape chamara seu desempenho de excelente. Desde quando quase matar um estudante era excelente? E quão mais demoraria para colocar a vida de outra pessoa em risco?
"Eu sempre soube que faria algo terrível."
Não podia acreditar que dissera aquilo para ele. Logo para ele, que conhecera a sua mãe e sabia exatamente do que ela estava falando!
Quando enfim alcançou o salão comunal da Sonserina, completamente humilhada, se deu conta do que Snape falara a respeito da Poção de Adormecer ser apenas uma variação menos complexa da poção do Morto Vivo.
Ora, era possível que tivesse cometido o mesmo erro em relação à valeriana, durante todos os seus anos em Durmstrang, na preparação daquela segunda. Dessa forma, não seria a primeira vez que colocava a a vida de alguém em risco, mesmo que indiretamente.
Segundo Narcissa contara à Andrômeda, Hector bebera a poção do Morto Vivo no dia após o Natal, presumivelmente do seu estoque. A vida dele estivera ameaçada, e agora a história da tia fazia completo e aterrador sentido, os fatos se encaixavam.
A não ser por aquele pequeno detalhe, é claro… de que Hector estava vivo e muito bem, obrigada, e como prova disto acabara de responder a sua última carta, como constatou ao entrar no dormitório.
Cause I have been where you are before
(Porque eu fui onde você estava antes)
And I have felt the pain of losing who you are
(E eu senti a dor de perder quem você é)
And I have died so many times
(E eu morri tantas vezes)
But I am still alive
(Mas eu ainda estou viva)
(I Believe – Christina Perri)
(Continua…)
Cenas do próximo capítulo... "– Se não fosse por esse cara, hoje… você me beijaria?
...
"– Você precisa me ajudar, no entanto, Holmes. – falou tentando soar casual, mas estava meio que grunhindo com um esforço, e as mãos suadas começavam a deslizar. (...)
– Só se você se desculpar.
– Como é? – Bervely achou que estava alucinando. Talvez o vento tivesse distorcido as palavras dela.
– Você ouviu. Quero que me peça desculpas. Agora."
..."Tudo o que importava era a sua cama, naquele momento. Ela abriu o seu dossel lidando com o fato de que não haveria banho e se conformando com essa verdade, quando percebeu que havia alguém deitado ali, e quase deu um grito. (...)
– Hector! – esganiçou-se, fora de si – Como entrou aqui? Aqui na escola, aqui no meu dormitório! Como sabia onde eu...? (...)
Hector. Em sua cama. Sem camisa. Era muita provação para o seu coração."
Nota: Heya, povin! Eu amo o próximo capítulo, por isso as cenas de brinde :P
A vida de monitora da Bevy não tá fácil, né? Perceberam quem fez uma pontinha nesse capítulo? :) :) :)
E o retorno do Hector? Suspeito? Mal explicado? Ou apenas lindo e romântico e pouco importam as satisfações, o que passou, passou?
Curiosa para as suas impressões, como eu sempre estou!
Bjoo!
Brenda: Oi Brenda! O bom da leitura é isso, você é livre pra imaginar os personagens como quiser =) Beijão!
Abby: Hahahah, acabei com seus sentimentos? E eu pensando que Hector aparecer era bom :P
B. Moscardi: Okaay vamos por partes, vou tentar responder todos aqui. Eu passei o quinto ano da Bevy (1991-1992) rapidinho mesmo de propósito, nada muito interessante acontecia com ela lá. Entendo porque os nomes dos capítulos possam parecer repetitivos, foi um risco que eu corri ao ter a ideia de colocar Rosa em todos, mas eles se relacionam bem com os caps, e tento brincar com as possibilidades de combinação. Começar a ter responsabilidades nunca é fácil, mas na situação da Bevy é ainda mais complicado, pobrezinha. Onde está a verdade nisso tudo, bem só temos acesso a elas através dos olhos da Bevy, complicado formar um veredicto até que ela de de cara com fatos, e não especulações. O capítulo 19 foi tranquilo e descontraído de propósito, a Bevy merecia um descanso mesmo! E a respeito do 20... morri aqui com a citação ao ursinho Pooh, kkkkkkk! Orelhacinação então, ai paizinho, rsrsrs! Acho ótimo que a dúvida persista XD Beijos e obrigada pelas reviews seguidas, eu fiquei super feliz quando as vi!
