CAPÍTULO 21

Sam deixou o quarto quase fugido, apavorado com as sensações de seu corpo e com as conseqüências do ato. Entrou no cômodo onde o pai estava jogado na poltrona abruptamente. John baixou a pistola sobre as pernas e entreabriu os olhos:

_Vocês que se entendam.

_Er... Dean está estranho._Sam desviou os olhos para a garota dormindo profundamente numa das camas.

_Ele foi afetado pela névoa. Não se lembra de muita coisa do que aconteceu aqui. Apenas flashes. Vamos ter que dar um tempo pra ele, Sam. Céu Vermelho deixou algumas pistas para Dean de onde está agora. De algum modo eles se separaram e Dean se deu mal.

As palavras foram ditas com uma displicência fria que só podia significar que John queria a cabeça de Jordan MacKeenan bem agora. A informação deixou Sam confuso e decepcionado. Talvez por isso Dean estivesse confuso, sentindo-se traído. Ou sentindo-se um traidor. A conversa que teve com o irmão enquanto vinham para Sheneny parecia fazer algum sentido agora.

Dean simplesmente tinha se esquecido dos fatos relacionados com a cidade. Todas aquelas dores de cabeça só podiam ser um sintoma disso. Tinha voltado para sua formatura como se não tivesse jamais viajado para a montanha. E de algum modo sua mente tentava lembrar-se. E, entretanto, parecia ao mesmo tempo não querer encarar a realidade. Dean dissera que talvez Céu Vermelho nem tivesse ido. Será que de algum modo ele queria esquecer o que tinha acontecido ali? E se Céu Vermelho estava seguro, por que tinha deixado Dean para trás?

E isso ainda não explicava o que tinha acontecido aquela noite.

_Pai, o que está acontecendo aqui? Tudo o que eu descobri é que os paranormais estão sendo atraídos para cá, por aquela névoa. E que... Demônios estão nela, mas... Ainda não faz sentido pra mim.

_Não posso insistir em nada aqui com Dean nestas condições e você e esta garota em perigo. Estas pragas estão possuindo os corpos de paranormais, desaparecendo pelo país e depois largando estas pessoas por aí, depenadas como carros roubados. Vamos direto para onde aquele idiota do MacKeenan está, agora, tentar descobrir algo mais. Temos que falar com esta guria, talvez ela nos explique alguma coisa também.

Sam sabia que o pai era corajoso, mas sempre muito sensato. Não gostava de perder. Faria um movimento decisivo e certeiro. Por isso, precisavam recuar agora, para planejarem. Concordou com a cabeça.

_Então o Dean não se lembra de nada daqui?

_Seu irmão está doente, Sam. O que ele se lembra é muito confuso. Ele está muito confuso. Mas nós temos que seguir.

_Vou ficar de olho nele. Tentar ajudar.

John apenas deu um meio sorriso cansado, concordando. Sam via que não tinha muito sentido em ficar ali, o pai queria silêncio para pensar e descansar, e a garota, desmaiada ou não, não devia estar por perto quando falavam sobre a família ou planos. Mas estava bem temeroso de voltar para o quarto onde Dean estava. Não sabia como encarar o irmão depois do beijo.

Mas ele poderia ficar evitando Dean para sempre? Diante da obviedade da resposta, juntou fôlego e coragem e entrou no quarto. Dean estava recostado na cama, jogando algum joguinho de celular, a supor pelos sons.

_Cara, você... Como você pode estar tão aí calmo?

_Quem disse que eu estou calmo, Sam?

O mais novo bateu as mãos nas coxas, exasperado:

_Lá fora está o caos, você perdeu parte de sua memória, uma parte importante dos eventos recentes, aliás, e tem também...

_O que acabou de acontecer?

_Ahn... Sim! Cara!_Sam aproximou-se da cama, sentando-se na beirada. Queria a atenção de Dean e tirou o celular da mão dele. Dean o encarou, paciente. Sam sussurrou:_Por quê? Por que você fez... aquilo, me diz pelo amor de Deus!

_Desculpe Sam.

_Cara! Você não pode achar que pedir desculpas vai te poupar de me explicar as coisas! Não vai mesmo!_Sam era insistente, o tanto quanto sabia ser, e estava certo de que Dean sabia que não poderia fugir dele enquanto não explicasse._Quero dizer, em circunstâncias normais, aquilo... Aquilo já seria estranho, Dean! Mas neste caso? Neste caso é ainda pior!

_Sam... O que você quer, se desculpas não adiantam?_Dean suspirou, alcançando o celular na mão de Sam, abrindo seus dedos e retirando o objeto de lá. Sam sentiu um choque pelo corpo, uma sensação avassaladora ao observar os movimentos deliberados e lentos que o irmão fez para isso. Meu deus, aquilo não podia estar acontecendo. Como quem tira o objeto da mão de uma criança. Aquilo não era o Dean, era... Sei lá, uma succubus gostosa!

_Eu quero a verdade, Dean.

_Ninguém quer ouvir a verdade de Dean Winchester, Sam.

O moreno ficou pasmo. Aquele jogo o deixaria maluco.

_Esta brincadeira não tem graça. O pai diz que você está doente, mas...

_Eu não estou doente. Só um pouco desnorteado. Por causa do que aconteceu aqui. Não consigo me lembrar direito. Agora sei que viemos para cá, enfrentamos algo horrível... E me lembro que tudo o que eu conseguia pensar era que devia sobreviver para ir a sua formatura. Certo? É o que eu me lembro, Sam. Mas por favor, não me trate como uma aberração.

_Será que dá pra você falar... Você sabe... falar como meu irmão?

Dean riu, os olhos brilharam, divertidos._Você quer dizer, te chamar de Sammy, Samantha, e falar palavrões? O tempo todo?

Sam se levantou, elétrico e agitado, pois era isso o que estava faltando. Este Dean era tão... educado!_Sabia! Você não é meu irmão! Eu o conheço!

_Sam, você não me conhece. Nem um pouco. Se conhecesse... Se conhecesse se lembraria... Eu sempre estive com você. Sempre cuidei de você. Foi pra mim que você contou que tinha medo de mamãe. Foi no meu ombro que você chorou ao confessar que tinha acreditado no que o Demônio dos Olhos Amarelos tinha dito; é pra mim que você faz os pedidos mais absurdos e os têm realizados.

_Dean, por favor..._Sam choramingou, indo até a janela. Afastou a cortina para olhar a noite. A névoa cobria tudo, deixando apenas um vapor opaco e esbranquiçado que tapava a visão. Estava assustado. Sentiu o calor do corpo do irmão atrás de si, sua mão em seu ombro. Virou-se. _Esta sua mudança está me assustando, mano. Aquilo... O b... Nossos lábios ali, juntos e..._Parou ao ver uma ruga de preocupação na testa do irmão mais velho._Entende? Aquilo me assustou.

_Desculpe.

_Ah cara, isso é tão..._Sam se mexeu inquieto, sufocado com o que tinha pronto para dizer, para perguntar, era tão embaraçoso que ele simplesmente não conseguia se decidir, mas sabia que se deixasse escapar o momento, talvez nunca mais, quando Dean estivesse melhor, fosse ter a resposta que queria. Uma resposta verdadeira. Riu nervoso, colocou a mão no ombro do mais velho, o encarou:_Dean, você precisa ser sincero.

_Sei o que você quer perguntar, maninho.

_Aquilo me assustou, cara. Bastante._Sam engoliu em seco, respirou fundo, se apoiando no irmão.

_Você precisa mesmo ouvir? Ouvir o que eu já te contei? Quando meus lábios e os seus... você sabe...

Oh Deus, aquilo não ia dar certo.

_Uhun._resmungou baixinho, incerto.

Dean tocou o queixo do irmão mais novo e o ergueu, para que pudessem se olhar novamente.

_Eu não tenho culpa de te amar, Sam. Desse jeito.

CONTINUA


Bom, mais confusão e agora uma declaração com todas as palavras. O que terá acontecido que deixou Dean deste jeito tão... sincero e estranho? Ainda tem muito mistério sobre a origem da névoa e o destino dos Winchester e seus amigos.

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