Capitulo 20
"I cannot hide what's on my mind
I feel it burning deep inside
A passion crime to take what's mine
Let us start living for today
Never gonna' change my mind
We can leave it all behind
Nothin's gonna' stop us
No not this time so" (Black Veil Brides – Rebel Love Song)
~~
As nuvens escuras da tempestade tomaram completamente o céu no Death Valley. Raios atravessavam as nuvens de forma esparsa, dando sinal de que as próximas horas seriam semelhantes ao dilúvio.
Kevin respirou fundo e continuou seu trajeto, conforme as primeiras gotas começaram a cair. Em questão de minutos, o volume aumentou drasticamente e chovia de maneira torrencial. Os palhetas trabalhavam no máximo e mesmo assim não davam conta. O moreno sabia que dali em diante, a estrada ficaria perigosa.
-Achei que você fosse mandar o overclock somente na parte final da corrida. –ele comentou no rádio, enquanto ligava o ar para não embaçar o vidro.
-Também achei, mas prefiro não arriscar. Kyle está muito perto de você e não gosto disso... –Ben parecia preocupado do outro lado.
-Ok então, tudo pronto pro overclock. –o moreno respirou fundo.
Foi tudo muito rápido, nenhum deles conseguiu ver o carro se aproximando por trás. O Mitsubishi ganhou velocidade, encostando o pára-choque na traseira do EVO, dando pancadas leves. Depois foi a para o lado direito, emparelhando com o carro de Kevin.
Neste momento, Ben começou a suar frio. Sabia que deveria agir o mais rápido que pudesse, para evitar uma tragédia. Sendo assim, largou seu computador, arrancando o headphone da cabeça e correu até os boxes onde carros extras ficavam.
As pessoas do evento tentaram impedir, mas ele passou por todos, entrou no carro e deu a partida. Sabia dirigir e tinha carteira, porém sempre preferiu andar de bicicleta. O carro saiu em disparada da tenda, jogando lama em várias direções.
Seu coração batia descompassado no peito. Era capaz de ver toda a sua vida passando diante dos olhos e não podia deixar que o amor de sua vida fosse levado de maneira tão estúpida.
Acelerou o máximo que pôde e entrou na pista, estava andando na direção contrária e que em questão de minutos veria os faróis dos competidores. Tinha noção de que era extremamente arriscado o que estava fazendo, mas não podia ficar parado. O rádio transmissor instalado no painel do carro estava ligando e chiou.
-O que você pensa que está fazendo? –alguém berrou do outro lado.
-Estou indo salvar a vida de Kevin Levin! –Ben respondeu, pegando o microfone do rádio. –Kyle irá matá-lo!
-Você não deve interferir na corrida, caso contrário sua equipe será desclassificada! –a pessoa estava furiosa. –Estamos mandando carros atrás de você é melhor que pare agora mesmo!
Ben desligou o rádio e jogou o microfone no bando do carona. Apesar da péssima visibilidade causada pela chuva, ele continuou firme e forte. Em questão de minutos conseguiu avistar os faróis dos carros se aproximando. Respirou fundo e foi para o acostamento, evitando atrapalhar a corrida.
Ele girou o carro no acostamento, porém continuou acelerando, estando agora no mesmo sentido da corrida. Assim que o primeiro carro passou por ele, Ben conseguiu ver o Mitsubishi e o EVO aproximando-se. Acelerou seu carro, tentando acompanhá-los.
Kyle afastou seu veiculo um pouco para o lado, dando espaço seu carro e o de Kevin, para em seguida ganhar velocidade e cortar na frente do outro de maneira brusca. O moreno percebeu o movimento e girou o volante para a esquerda, tentando fugir do impacto que sofreria. Com isso, o carro derrapou. Os pneus perderam o contato com o asfalto da pista, devido ao acúmulo de água e o veiculo começou a patinar na água.
Em nenhum momento, ele percebeu que o carro correndo ao seu lado no acostamento, estava sendo dirigido pelo seu namorado. Mesmo com toda a sua habilidade, a situação ficou fora de controle. O EVO virou completamente de lado, capotando incontáveis vezes, atravessando a pista, passando na frente de Ben, que acompanhava tudo com os olhos arregalados. Parou somente quando se encontrou perto do penhasco.
Fumaça saia do capô, que agora estava completamente destruído, assim com o resto do carro. Era difícil imaginar que segundos antes, estava inteiro e correndo. Ben imediatamente parou o carro e antes de sair, ligou o rádio e pediu ajuda.
Ele saiu correndo na chuva, ficando ensopado. O estado de choque não permitia que as lágrimas descessem, o que o ajudava a ficar inteiro por dentro, pelo menos naquele instante. Assim que chegou ao EVO, abriu a porta e chamou pelo namorado, não tendo nenhuma resposta de volta.
Respirando fundo, não se deixou impactar pela cena que seus olhos captaram. Kevin não respirava, o pulso era ausente e estava inconsciente. Ben olhou ao redor, sentindo seu coração apertando cada vez mais no peito. Sabia que não podia mexer no mais velho, porque poderia comprometer a integridade de sua coluna vertebral. Estar naquela posição era algo frustrante, sentia-se completamente inútil.
A espera pela equipe de socorro pareceu durar uma eternidade e quando chegou, contava com duas pessoas. Ben se prontificou a ajudar no que podia, então auxiliou na remoção de Kevin do carro.
Um paramédico instalou o colar cervical, estabilizando o pescoço da vitima, enquanto o outro preparava a prancha para remoção. Assim que o moreno foi devidamente removido, Ben o acompanhou dentro da ambulância, segurando sua mão.
A ambulância balançava um pouco e a chuva continuava caindo, como se nada tivesse acontecendo. Durante o trajeto, várias coisas passaram pela sua mente, mas não podia ceder aos seus sentimentos, ainda não. Ben precisava ser forte para poder conseguir ter clareza do que fazer.
Seus olhos verdes acabaram pousando sobre Kevin, que ainda estava preso na prancha, com a cabeça completamente imobilizada. Como seu macacão cobria todo o corpo e poderia estar escondendo algum ferimento, a roupa foi cortada e descartada, restando apenas sua cueca.
Após terem usado o desfibrilador para reverter a parada cardiorespiratória em que o moreno se encontrava, um rápido exame físico foi realizado, constatando um corte profundo na coxa esquerda e no peito. Um curativo compressivo foi realizado, a fim de evitar hemorragia e então colocaram uma manta térmica para evitar que a temperatura corporal dele caísse.
Minutos depois, entravam pelo saguão de emergência do hospital central. Ben queria entrar lá dentro e estar perto do namorado, mas foi impedido pela enfermeira.
-Fique tranqüilo, ele recebeu excelentes cuidados logo após o acidente. –ela o encarou nos olhos. –Isso com certeza vai favorecer sua recuperação.
-Mas eu preciso estar com ele! –o desespero começava a se mostrar.
-Ele precisa ser estabilizado para que receba visitas. –a enfermeira sorriu. –E você precisa se acalmar para estar com ele...
-É...Você tem razão. –Ben sentou-se em uma cadeira no corredor.
Ao sentar-se, seu corpo começou a dar os primeiros sinais do cansaço. Tremia muito, uma vez que sua roupa ainda estava molhada por causa da chuva e se sentia moído. A enfermeira sentou ao seu lado e colocou uma mão no seu braço.
Quando menos esperava, um dos organizadores, chamado John Sullivan aproximou-se, parecendo preocupado.
-Como Kevin está? –perguntou, olhando para Ben.
-Ele está lá dentro... –apontou para o interior da emergência. –Mas não podemos entrar.
-Tomara que nada grave tenha acontecido. –ele passou a mão nos cabelos. –E você, se machucou?
-Não, tá tudo certo. –a voz de Ben era baixa.
-Precisam de mim lá dentro, será que você poderia fazer companhia para ele? –a enfermeira perguntou para John. –E se puder, faça-o trocar de roupa.
-Ok. –ele acenou com a cabeça. –Sabe se vai demorar muito pra isso tudo se resolver?
-Olha, depende muito de cada paciente. Como ele sofreu um acidente, precisamos fazer uma série de exames minuciosos para saber se não houve nenhuma seqüela grave... –ela foi sincera, colocando as mãos no bolso do jaleco branco. –Além disso, a medicação usada nesses casos deixa o paciente meio confuso.
-Qualquer novidade nos ligue, por favor. –John estendeu um cartão com seu número pessoal de celular.
Ben não conseguia falar mais nada. Só queria poder acordar logo desse pesadelo horrível. Seguiu John para fora do hospital, usando a saída de trás, para evitar encontrar com a imprensa. Afinal, estavam participando de um campeonato nacional e que estava sendo televisionado.
Ele foi para o apartamento de John, onde o mais novo pôde tomar um banho e trocar de roupa, além de comer alguma coisa. Podia não parecer, mas já haviam passado cerca de três horas desde o começo da corrida daquele dia. O evento parecia tão distante, como se tivesse acontecido há meses.
O organizador contou que haviam decidido continuar com a corrida, mesmo após o acidente. Foi quando descobriu que a chuva durou apenas uma hora, porém com quantidade de água equivalente há um mês. Quem ganhou foi a equipe na qual Mick trabalhava e isso de certa maneira deixou Ben feliz, ele sabia que o amigo tinha trabalho duro para aquilo acontecer.
Também chegaram ao consenso de que Kyle seria expulso dos eventos automobilísticos do país e chamaram a policia, uma vez que ficou clara a tentativa de matar Kevin durante a corrida. O dono do Mitsubishi foi preso e aguardaria a resolução de seu caso na prisão do Texas.
Os organizadores resolveram não desclassificar a equipe de Ben e Kevin, mas também não poderiam dar nenhum prêmio, uma vez que não tinham completado a corrida. Contudo, devido ao desempenho fenomenal de Kevin nas corridas e o fato de Ben ter construído aqueles chips, abriram muitas portas.
Equipes famosas da NASCAR e de outros rallys estavam interessadas em contratar a dupla para participar oficialmente. Era o sonho de Kevin se tornando realidade, mas de que adiantava tudo isso se ele estava em um hospital?
Depois de muita insistência por parte de John, Ben resolveu tirar um cochilo no sofá, enquanto aguardava noticias. Acabou adormecendo e não sonhou.
(...)
Ben olhou pela janela do quarto em que Kevin estava acomodado, o céu já estava escuro e a lua brilhava. Os últimos momentos passaram pela sua cabeça como um filme. Acordou algumas horas antes, com John dizendo que seu namorado havia acordado.
Seguiram direto para o hospital e encontraram-no deitado no leito, com vários medicamentos sendo administrados por via venosa e monitores apitando. Contudo, estava lúcido e sorriu para eles, quando entraram.
John explicou novamente tudo o que já havia falado para Ben e deixou seu cartão, caso precisassem ligar. Assim que ficaram sozinhos, trocaram um beijo intenso e apaixonado. Ficaram de mãos dadas, Kevin contou o que sentiu e como tinha sido o acidente.
-Achei que fosse te perder. –o mais novo confessou, com os olhos cheios de lágrimas.
-Sabe que eu também? –o moreno sorriu de lado, emocionado. -Mas fico feliz que esteja comigo.
Até que um médico entrou na sala e disse que havia chegado os resultados dos exames de imagens feitos na perna esquerda. Além do corte profundo, houve uma perfuração que acabou lesando o nervo, que poderia ser reversível. Não havia possibilidade cirúrgica para reparação da perna, apenas longas sessões de fisioterapia poderiam auxiliar, mas demoraria um bom tempo.
O resultado disso tudo era que a perna perdeu parte de sua mobilidade e força de contração. Ou seja, Kevin teria de usar um apoio sempre, para poder andar e se manter de pé. Isso significava que não poderia voltar a dirigir. Pelo menos até que as sessões de fisioterapia mostrassem resultados.
De uma hora pra outra, tudo aquilo que Kevin lutou para conseguir, escapou por suas mãos. Tinha noção de que a lesão poderia ser revertida, mas quando isso aconteceria? E até lá, como iria fazer com sua vida? Manter-se afastado do que mais gostava de fazer era uma tortura.
Ben o apoiou no que pôde, mas o médico decidiu levar Kevin para ser examinado por um neurologista o mais rápido. Então, ficou no quarto, esperando que ele voltasse com uma boa noticia.
Enquanto isso, observava a noite. Perdeu-se nos pensamentos, quando a maca de Kevin entrou no quarto e Ben não pôde deixar de sorrir. Após as enfermeiras o ajudarem a sentar na cama e saírem, ele se aproximou do outro.
-Como você está se sentindo? –perguntou, ainda sorrindo.
-Ah, meio puto. Odeio todos esses exames que me obrigam a fazer... –ele franziu as sobrancelhas. –Qual o motivo do sorriso?
-Nada... – o mais novo aproximou-se, sentando na beirada da cama. –Só estou feliz por ter você de novo.
Kevin sorriu de volta, sua expressão se acalmando. Sentia-se capaz de vencer qualquer dificuldade desde que tivesse seu namorado ao seu lado.
-Eu te amo. –ele disse, sua voz grave preenchendo o quarto.
-Eu te amo. –Ben respondeu, beijando-o intensamente.
(...)
Cinco anos depois...
Ben saiu da loja com várias sacolas nas mãos. Tinha comprado roupas sociais para Kevin, uma vez que ele precisaria dali em diante. O dia estava maravilhoso em Roma, o sol brilhando no céu azulado sem nuvens.
A brisa de verão brincou com seus cabelos. Havia muito tempo que não se sentia em paz, fechou os olhos e deixou o delicioso cheiro dos cafés italianos inundar seus sentidos. Desde que saíram do hospital, enfrentaram diversos problemas.
O mais novo decidiu mudar-se para o apartamento do namorado, para ajudar na recuperação. Pagaram boa parte do tratamento com o dinheiro que ganharam da indenização do rally. Mesmo assim, não foi nada fácil. A fisioterapia foi um processo longo e cansativo, doloroso para ambos. Às vezes conseguiam pequenas vitórias, às vezes eram apenas lágrimas de dor... Um ano e meio de luta, mas que foram recompensados.
Após esse tempo todo fora das corridas, quando a fisioterapeuta liberou Kevin das sessões, ele ligou para John Sullivan e marcaram uma entrevista. Claro que as equipes tinham contratado outros pilotos, a vida não parou por causa de seu acidente.
Porém surgiu a oportunidade de trabalhar como consultor junto com John. No começo foi difícil pela falta de faculdade, contudo sua inteligência e a experiência com carros lhe deu um emprego com um das maiores equipes de rally. Era responsável por treinar e escolher os pilotos que fariam parte da equipe, além de supervisionar a montagem e manutenção dos carros.
Tudo isso fez que com que Ben e Kevin aprendessem ainda mais um sobre o outro e sobre si mesmos. A dificuldade que ultrapassaram apenas serviu para que amadurecessem como um casal.
Agora em Roma, Ben não conseguiu segurar o sorriso, ao sentir o peso das sacolas pressionando o anel que usava no dedo. Estava oficialmente casado com Kevin fazia um mês. Escolheram fazer uma viagem pela Europa como lua-de-mel. Claro que os pais do mais novo não concordaram com nada, porém não mudariam a decisão do filho de maneira alguma.
Ele caminhou pela rua estreita, até chegou numa larga piazza, com uma grande fonte no meio, cercada por vários bares e cafés. Avistou Kevin ao longe, lendo jornal. Teve que para admirá-lo e seu coração pulou no peito, como sempre fazia. Era impressionante como depois de todos aqueles anos, ainda se sentia da mesma maneira quando começaram a namorar.
Voltou a andar, até que sua atenção foi desviada para um loiro do outro lado da piazza. Ele vestia camisa com gola V na cor azul marinho, bermuda caqui e tênis branco. Andava abraçado com uma mulher de vestido florido e sandália. Ben reconheceu aqueles cabelos, o formato do rosto e o modo de andar.
Era Apollo.
O loiro passou a mão nos cabelos cacheados, despenteando-se propositalmente e virou seu rosto na direção de Ben. Tirou os óculos escuros e o encarou, com um sorriso largo no rosto. O mais novo ficou sem reação, até que viu os lábios do outro se movendo e formando a frase: "Meus parabéns!"
Aqueles olhos azuis o envolveram e de alguma maneira, soube que Apollo era muito mais do que pensava que fosse. O loiro fez um aceno com a cabeça, colocou os óculos escuros de volta e continuou conversando com a mulher ao seu lado, dando um beijo leve em seus lábios.
Ben piscou algumas vezes, até conseguir digerir toda aquela informação. Quando voltou à realidade, foi andando até a mesa onde estava Kevin e se sentou, colocando as compras no chão.
-E então, como foi? –o moreno sorriu, largando o jornal na mesa.
-Comprei algumas roupas para você, acho que vai gostar. –ele respondeu, pegando o cardápio.
Comeram um lanche rápido e voltaram para o hotel a pé. O andar de Kevin possuía um leve mancar, quase imperceptível. Assim que entraram, ele segurou Ben pela cintura e o jogou contra a parede, afundando o rosto no pescoço do mais novo. Passou a língua vagarosamente por toda a extensão, ouvindo os gemidos que arrancava do outro.
Beijaram-se intensamente e caíram juntos na cama king size. As caricias se tornaram mais quentes, até que estavam completamente nus. Ben ficou por cima, descendo os beijos pelo corpo de Kevin, chegando ao membro.
Sem esperar muito, engoliu-o com precisão, enchendo sua boca. Sua língua ávida percorreu toda a extensão, deixando um rastro de saliva. Só parou quando percebeu que o marido ia acabar gozando e estava cedo demais pra isso.
Depois de passar lubrificante no próprio membro, Ben entrou em Kevin, que arqueou as costas. Seus olhares estavam fixos um no outro, conforme seus corpos moviam-se automaticamente. As estocadas foram ficando mais profundas e rápidas, as pelves chocando-se uma contra a outra, a cama rangendo sob o peso deles.
Não havia mais ninguém no mundo além deles. Poderiam passar o resto de suas vidas assim.
-Eu te amo. –Kevin disse, entre os gemidos.
-Eu também te amo! –Ben respondeu, sentindo que chegava ao clímax.
Assim que o orgasmo chegou para ambos, ficaram deitados abraçados, apenas aproveitando a companhia um do outro, iluminados pela luz do pôr do sol.
-FIM-
