Capítulo XX

Após o jantar, Pansy e Harry anunciaram a decisão de des cansar mais cedo e em uma demonstração de formalidade, Harry acompanhou Pansy até os aposentos dela.

Pansy refletiu se haviam conseguido enganar um só membro da criadagem porque as intenções deles certamente estavam inscritas em suas testas.

Harry abriu a porta do quarto e afastou-se para Pansy en trar. Ela nem chegou a dar dois passos para dentro.

— Ha... Harry. — Ela levou a mão ao peito. — Veja!

Harry passou por ela, aflito.

Os vestidos do guarda-roupa tinham sido amontoados no chão. O cheiro de maresia era forte e uma grande porção de algas marinhas e lodo fora colocada por cima da pilha. Pansy ajoe lhou-se ao lado das roupas ensopadas, com o coração apertado.

Depois de tantos anos de privações, de não ter nada novo ou bonito para vestir, aquelas coisas lindas representaram para ela muito mais do que coisas materiais. Deveria até envergo nhar-se, pois, afinal não passavam de roupas. Mesmo assim, sen tou-se no chão arrasada e fitou Harry, com as lágrimas es correndo sem parar.

— Não chore, Pansy. Os trajes poderão ser substituídos.

— Eu sei. — Mas ela não poderia dar-se a esse luxo e nem permitiria que Harry o fizesse. Isso era coisa de amante.

Harry tirou as peças superiores.

— Veja, as de baixo ainda estão secas! A água ainda não teve tempo de chegar até ali. Onde está Emília?

— Eu a mandei para a cama. Ela estava com dor de cabeça.

— Então, não havia ninguém aqui em cima? — Harry foi para o corredor e olhou para todos os lados. — Certamente teríamos visto alguém que estivesse escondido por aqui. Colin e Seamus estão no quarto de James e quem quer que fosse, teve tempo suficiente para fugir enquanto jantávamos. Será que o alçapão está fechado?

— Acho que sim. — Pansy foi com Harry até a outra extre midade do quarto, enxugando o rosto com o lenço. — Nunca o deixo destrancado.

Harry alcançou o mecanismo oculto que abria a portinhola.

— A porta está entreaberta! — Pansy sufocou um grito.

— Há pegadas úmidas... — A voz de Harry diminuiu de intensidade quando ele desceu a escada do outro lado. — Sim, não há a menor dúvida. Eles entraram por aqui. Há água derramada...

Harry voltou depressa do túnel e passou por Pansy, rumo ao corredor. Instantes depois, Colin e Seamus entraram cor rendo no quarto e desapareceram na abertura. Harry veio em seguida, com James no seu encalço.

— Uma porta escondida, papai! E lá em cima! Será que há um esconderijo no meu quarto?

Harry agarrou o garoto pelo colarinho, para impedi-lo de seguir os guardas.

— Espero que não e agora pare de fazer perguntas por um momento, James! Sente-se! Logo eu lhe explicarei tudo.

James obedeceu, surpreso pela impaciência não habitual na voz do pai. Sentou-se no braço da poltrona da lareira, contendo a custo a curiosidade.

Logo foram ouvidos passos na passagem secreta. Colin e Seamus reapareceram na pequena porta.

— Não encontramos ninguém, milorde — Seamus afirmou. — E também não vimos nada na praia.

— Não importa. — Harry suspirou, — Embora esperanço so, eu não achei que fossem encontrar ninguém. Podem levar James de volta ao quarto.

— Está tudo bem, srta. Pansy? — O garoto assustou-se com a palidez de Pansy.

— Alguém fez uma brincadeira de muito mau gosto — Harry respondeu por ela — E estragou parte de suas roupas.

— Isso foi muito indigno — James alegou, aborrecido.

— Foi mesmo. — Harry anuiu para seus homens. — Fi quem alertas! Isso pode ter sido apenas uma maneira de desviar a atenção sobre o principal.

— Sim, milorde. — Colin abraçou James pelos ombros, enquanto Seamus se certificava de que a portinhola fora bem trancada. — Vamos, sr. James! Está na hora de dormir.

James acenou uma despedida.

— Boa noite, srta. Pansy e não se preocupe! Papai e eu não deixaremos que ninguém mais faça brincadeiras desse tipo com a senhorita.

— Bo... boa noite, James. Obrigada! — Pansy teve de lutar para engolir o nó na garganta.

Harry nem chegou a fechar a porta, depois de que os três saíram do quarto, porque o mordomo apareceu no mesmo instante.

— O que houve, Neville?

— É a sra. MacGonagal, milorde. Consegui convencê-la de que eu viria ver do que se tratava pos para ela, é muito difícil subir a escada.

— Obrigada, Neville! — Pansy murmurou.

— Diga à sra. MacGonagal que a Sra Malfoy está bem e que me empenharei para que ela continue em segurança.

Na manhã seguinte, Pansy estava tão perdida em seus pen samentos que nem ouviu Harry entrar na sala de almoço.

— Pansy, por que está tão ensimesmada?

— Oh! — ela se espantou. — Nada... não foi nada.

— Não quer que eu acredite nisso, não é? Permita-me fazer uma suposição. A senhora ainda acredita, apesar de termos encontrado pegadas na passagem secreta, de que o fantasma de Malfoy foi o responsável pela visita de ontem.

— Bem, não é exatamente isso. — Pansy não ergueu os olhos do prato. — Eu vi as marcas... Mas Minerva insiste que ele está mais irado do que nunca porque... porque...milorde sabe.

— Claro que sei — Harry anuiu com um sorriso sedutor. — E até me alegro por isso. Mas o interesse póstumo de Malfoy ou a falta do mesmo não me preocupa. Eu queria saber por que a porta do túnel estava aberta.

— Eu também. Tenho certeza de que não a abri, ainda mais depois dos problemas que tivemos.

— Talvez o ferrolho pudesse ter-se quebrado, afinal, o castelo é secular. Vou testar a segurança da peça.

Harry largou o guardanapo e levantou-se. Ambos subiram a escada e entraram no quarto de Pansy. Emília levara a pilha de roupas e prometera fazer milagres na restauração dos teci dos, mas Pansy tinha suas dúvidas. Os de algodão, talvez... Mas, e as sedas? Dificilmente teriam conserto.

Harry abriu a tranca e entrou na passagem.

— Feche a portinhola — ele pediu. — Quero ver se posso abri-la.

Pansy esperou e, depois de alguns minutos de rangidos e ras pados, a voz abafada de Harry tornou a soar.

— Tudo bem, pode abrir.

Pansy não resistiu a uma brincadeira maliciosa.

— Diga "por favor".

— Pansy! Abra isto aqui... Está bem. Por favor. — Harry não pareceu bem-humorado.

Pansy tratou de abrir depressa o painel. Harry saiu, fazendo uma careta.

— Isso não tem graça. Essa porta não se abre por si mesma e nem por obra e graça de nenhum fantasma! Acho que está na hora de mandar pregar essa abertura.

— Oh, não!

— E por que não? — Harry mostrou-se perplexo. — Isso representa um perigo para a senhora!

— Mas... é que...

— Já sei. — Harry acariciou-lhe o rosto. — Isso representa um meio de fuga.

— É verdade. Era por onde eu saía... Quando ele me inter ceptava no corredor. Mas agora... claro... ele está...

— Morto, mas não esquecido. — Harry abraçou-a. — Não duvido que levará anos para que se sinta segura novamente.

Pansy apenas suspirou.

— Está bem, destacarei guardas para fazer a vigilância do lado de fora, perto da entrada, talvez isso sirva como armadilha. Pretendo descobrir quem a está aterrorizando. Contudo é pre ciso ficar atenta toda vez que entrar no quarto. Fará isso?

— Pode ficar tranquilo.

Harry beijou-lhe os lábios e fitou-a com olhar profundo.

— Não poderei ficar. Tenho compromissos hoje. Eu a verei durante o jantar.

Pansy suspirou, relutante em deixá-lo ir, e essa dependência a assustava.

Antes do jantar ser servido, Harry bateu na porta do quarto de Pansy. Emília abriu e ele usou de formalidade.

— Perdoe-me, sra. Malfoy, será que eu poderia falar-lhe por um momento?

— Obrigada, Emília. — Pansy dispensou a criada. — Por ora é só.

Harry esperou a garota sair. Fechou a porta sem fazer ruí do e depois a trancou. Pansy levantou-se da banqueta, a tempo de cair nos braços de Harry. Ele pretendia beijá-la com cui dado, para não desmanchar-lhe os cabelos e nem amassar um dos poucos vestidos que haviam sido poupados.

Pretensão inútil.

A boca de Pansy era tão quente e seus seios, tão macios... E ela o recebia com tanto calor...

— Ah, meu doce tormento...

Harry abraçou-a e acariciou-lhe as curvas que o tecido co lante mal escondia. Beijou-lhe o pescoço e o colo revelado pelo decote generoso. Deslizou os dedos para dentro do corpete e encontrou um mamilo rígido. Harry desceu a cabeça, forçou para baixo o tecido e tomou o bico róseo entre os lábios. Diante do suspiro de Pansy, a palpitação na virilha tornou-se insupor tável e ele se endireitou.

— Preciso ir, embora não esteja em condições de fazê-lo. Além do mais, estou deixando marcas. — Com satisfação de possui dor, Harry acariciou-lhe os lábios inchados e as manchas ver melhas que a barba de um dia deixara na pele fina dos seios. E voltou o vestido para o lugar devido. — Teremos de descer para jantar.

— É, acho que sim — Pansy concordou, pesarosa. Harry segurou-a pelos braços.

— Tenho de contar-lhe algo — ele falou, com tristeza. — Infelizmente, também terei de satisfazer-me apenas com isso, pois assim que terminarmos de jantar, precisarei subir a bordo do Eclipse e talvez só volte amanhã à tarde. Se conseguirmos encontrar algum indício da caça eu volto mais tarde, mas em todo caso, não quero que se preocupe na minha ausência.

Como seria possível não se preocupar? Pansy apavorou-se e cobriu a boca com as mãos.

Harry apressou-se a descobrir-lhe o rosto.

— Pansy, tenho uma tripulação bem armada e experiente. Além do mais, seria muita sorte encontrar os bandidos logo no primeiro dia de busca.

Como explicar a Harry o que ela sentia?

— Pansy?

A duras penas, ela conseguiu trazer um sorriso débil aos lábios e uma expressão de calma.

— Claro, milorde. Espero que seja cauteloso. — Pansy virou-se e pegou um pequeno pacote envolto em tecido da gaveta da cómoda. — Guarde isto em seu bolso.

Harry examinou o que lhe fora entregue.

— O que é isto?

— Um amuleto de boa sorte. Foi Minerva quem fez.

— Um talismã cigano? — Harry fez menção de devolvê-lo, mas Pansy impediu-o de fazê-lo segurando-o pelo braço.

— Por favor, milorde. Só para a minha tranquilidade.

— O que há dentro dele?

— Algumas ervas e um pedaço de pão. Por favor...

— Está bem, se isso diminui seus receios... — Indulgente, Harry sacudiu a cabeça e enfiou o pequeno objeto no bolso. — Suponho que a senhora tenha um também. — Ante a anuên cia de Pansy, Harry mostrou-se mais aliviado. — Tenha muito cuidado até eu voltar, também partirei preocupado.

Harry abraçou-a e beijou-a quase com desespero.

Depois da saída de milorde, Pansy teve certeza de que seu coração não teria conserto no final do verão, depois que fosse dispensada por Harry. Reconheceu que milorde não poderia agir de outra maneira, já que a mãe dele voltaria a Goodview e seria impossível para a sra. Pansy Malfoy continuar morando nos aposentos da senhora do castelo. Até mesmo Minerva resmungara por aquele motivo. E quan do o tutor de James chegasse, não haveria mais lugar para uma preceptora naquela casa. Pelo menos, uma certeza lhe res tava: milorde a ajudaria a encontrar um lugar para ela. Pansy acreditava na promessa dele em não abandoná-la.

Ah, mas a dor na alma seria enorme! E se tivessem um filho? Se ela estivesse grávida? Suas...Regras estavam atrasadas...Poucos dias, mas ainda assim... Seria uma pequena felicidade, ter uma parte dele, um pedaço dele consigo... Como permitira a si mesma apaixonar-se por milorde e tor nar-se tão dependente dele? Ela, que só contara consigo mesma durante tantos anos, precisava sair dali, antes de que come çasse a morrer aos poucos, mas como afastar-se de milorde, se ao vê-lo ficava doente de desejo? Se ao ouvir-lhe a voz o coração parecia saltar-lhe do peito?

Era tão simples encostar-se nele, deitar-se com ele. Amá-lo. Mas estava na hora de romper com tudo e assumir o con trole de sua vida, enquanto ainda fosse possível.